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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Para CPI da Covid, o ultradireitista Coronel Helcio Bruno de Almeida, da difusora de fake news denominada Instituto Força Brasil, demonstrou ‘elo obscuro’ entre corrupção e fake news. Artigo de Eduardo Maretti, da RBA

 EFEITOS DA MILITARIZAÇÃO

Para CPI da Covid, Helcio Bruno demonstrou ‘elo obscuro’ entre corrupção e fake news

Senadores exploraram ligações entre militares da reserva que atuavam na intermediação de empresas junto ao ministério por vacinas contra a covid

Leopoldo Silva/Agência Senado
“Não se iluda, coronel Helcio, o senhor pode até esconder quem banca o instituto, mas vamos descobrir”, dise Aziz ao depoente do dia na CPI da Covid, que preside o IFB, de extrema direita


São Paulo – No depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira (10), o coronel Helcio Bruno de Almeida estava protegido por um habeas corpus concedido pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia . Mas o presidente da organização de extrema direita Instituto Força Brasil (IFB) foi confrontado pelos senadores com informações retiradas do site de sua própria organização, redes sociais, fotos e documentos que mostram não só sua proximidade com o governo federal e o presidente Jair Bolsonaro. Os senadores também identificaram o ativismo negacionista e a campanha “criminosa” contra medidas de combate à pandemia pelo IFB. A oitiva foi uma significativa coincidência por ter ouvido um coronel no dia do desfile militar promovido por Bolsonaro em Brasília.

Com documento em mãos, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, elencou uma série de encontros do depoente com o presidente, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, e o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco. Uma foto exibida pelo senador mostra uma visita da turma de 1976 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) a Bolsonaro em 2019, para “cumprimentar o presidente e apresentar algumas intenções”, nas palavras de Helcio.

Randolfe mostrou postagens em redes sociais de campanha do próprio depoente contra o STF e ministros, entre os quais Cármen Lúcia (confira abaixo). Num dos posts, um “cartaz” pede a presença de ativistas em manifestações de 18 de julho deste ano com os dizeres: “STF – principal pilar da corrupção – se eles caírem o resto cai tudo”. A imagem mostra os ministros Luís Roberto Barroso, Ricardo Lewandowski e a própria Cármen. “Ainda bem que ela não caiu, porque possibilitou que o senhor utilizasse o silêncio”, ironizou Randolfe.

Ligações

Alessandro Vieira (Cidadania-SE) explorou uma série de “ligações obscuras” de Helcio Bruno com os irmãos e coronéis Claudio Barroso Magno e Aristomendes Barroso Magno, ex-sócio de Hélcio. Segundo o senador, o depoente teve reunião com Élcio Franco para tratar de vacinas. O ex-secretário executivo da Saúde sob Eduardo Pazuello foi “mentor” de Hélcio Bruno na carreira  militar. De acordo com Vieira, os militares da reserva mencionados atuavam na intermediação de empresas junto ao ministério.

Uma delas, a CTU Security, “na esfera de atuação dos irmãos Barroso”, teve envolvimento em contratação de R$ 40 milhões em equipamentos de segurança de policiais assinada em 2018 pelo general Walter Braga Netto, então interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro e hoje ministro da Defesa de Bolsonaro. O contrato foi posteriormente cancelado. A CTU Security “tem possível envolvimento com o assassinato do presidente do Haiti” (Jovenel Moise), lembrou o senador por Sergipe.

Vieira quis saber então “como funciona o mecanismo de ida para reserva e “a entrada imediata” na consultoria de empresas que “contratam com as Forças Armadas ou o governo brasileiro”. Hélcio Bruno repetiu a frase exaustivamente proferida de “seguir a orientação” dos advogados e não responder. “É uma boa orientação para quem não pode se explicar. Tem toda razão e direito de fazê-lo”, respondeu o parlamentar. Ele lembrou ainda que o depoente é “referido em todos os diálogos de (Luiz Paulo) Dominguetti como responsável por fazer a interface com esse grupo de estelionatários” na negociação de vacinas da empresa Davati que nunca existiram.

Fake news e discurso de ódio

A inquirição de Randolfe sobre as fake news e campanhas negacionistas da organização presidida por Helcio Bruno foi contundente. Ele mostrou um vídeo em que o empresário Otávio Fakhouri (vice do IFB) afirma a uma interlocutora ser patrocinador da Awake Giants Brasil e d’A Verdade dos Fatos, perfis acusados de divulgação em massa de fake news e discurso de ódio. A Awake Giants Brasil é apoiada no Twitter por “perfis com alto grau de automação” (robôs), segundo matéria de O Globo.

O Instituto Força Brasil é divulgador de campanhas contra vacinas, uso de máscaras e uma série de propagandas negacionistas. Por exemplo, é de lá uma “matéria jornalística” segundo a qual “a maioria (das pessoas) é imune ao vírus da covid”. A informação estava no ar no momento do depoimento, o que deixou de ser verdade em seguida. “Presidente, o site acaba de sair do ar”, avisou a senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) a Randolfe, que presidia a mesa. “Quantos dos 563 mil foram levados à morte? O senhor não só é apoiador deste governo, o senhor frequenta o gabinete do presidente da República, está o tempo todo junto dos personagens desse governo”, afirmou Randolfe dirigindo-se a Hélcio Bruno e Bolsonaro.

Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, interrompeu para apontar as intenções do coronel expressas nas redes sociais. “Em plena pandemia, o depoente atacava o SUS, a única saída de milhões de brasileiros. Isso não pode ficar impune.” O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM) – que foi chamado de “palhaço’ em uma postagem do IFB – dirigiu-se ao depoente: “não se iluda, coronel Helcio, o senhor pode até esconder quem está bancando o instituto, mas vamos descobrir”. Aziz informou que a CPI solicitou a quebra dos sigilos fiscal e bancário do militar e disse não acreditar que o STF negue tal pedido para “investigar esse crime contra a nação brasileira”.

Próximos depoimentos

Em coletiva após a sessão, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) comentou os próximos depoimentos à CPI da Covid. Nesta quarta-feira (11), Jailton Batista, representante e administrador de rotinas da farmacêutica Vitamedic, empresa que vende ivermectina, droga receitada para “tratamento precoce” da covid pelo bolsonarismo. Segundo a Agência Senado, a venda do medicamento movimentou R$ 409 milhões em 2020, o que representa aumento de 829% em relação a 2019, antes da pandemia. Foram 52,3 milhões de caixas de ivermectina vendidas ao mercado.

Para a senadora, o depoimento tentará investigar “a ideologia de ganhar dinheiro fácil e os interesses privados de grupos em ganhar dinheiro à custa da morte de milhares de brasileiros”. Na quinta, será ouvido o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), depoimento “prematuro”, segundo Simone, que deveria ser realizado após as oitivas do dono da Precisa Medicamentos, envolvida no “rolo” da Covaxin, e o advogado da empresa, ambos na semana que vem.

Confira posts de Hélcio Bruno contra ministros do STF

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Senadores da CPI expõem contradições do reverendo bolsonarista Amilton Gomes de Paula

 

Inquirição na CPI da Pandemia destaca presença de políticos na estrutura da Senah e possível crime de falsidade ideológica

Reverendo Amilton Gomes de Paula. Foto: Pedro França/Agência Senado

Jornal GGN – A inquirição dos senadores ao reverendo Amilton Gomes de Paula, presidente nacional da Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), expôs uma série de informações desencontradas e uso de “bravatas” em torno das conversas sobre vacinas contra a covid-19.

O reverendo foi apontado pelo PM Luiz Paulo Dominguetti como intermediador entre o governo e a empresa americana Davati Medical Supply, na oferta de vacinas da AstraZeneca ao Ministério da Saúde – segundo Dominguetti, ele procurou a Senah para viabilizar o negócio e revelou que o ex-diretor de Logística do Ministério Roberto Ferreira Dias teria exigido US$ 1 de propina para cada dose comercializada. 

“O que o cabo Dominguetti quis dizer quando afirmou, em uma conversa com o senhor, que ‘Michelle entrou no circuito?’ Vossa senhoria estaria apenas fazendo uma exploração de prestígio (…)”, questionou o senador Humberto Costa (PT) sobre um possível envolvimento da primeira-dama Michelle Bolsonaro nas negociações. O reverendo disse que “só queria mostrar algo que não tinha”, e reconheceu que o diálogo com Dominguetti existiu, “eu só não me lembro do contexto”.

Percebendo que o advogado de defesa estava falando aos ouvidos do reverendo, o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD), lembrou “que não pode interferir falando ao depoente o que ele tem que responder (…) Não é permitido”.

O reverendo também confirmou que usou de “bravata” em uma mensagem enviada a Dominguetti, afirmando que falou “com quem manda”. Contudo, Omar Aziz interviu ao afirmar que viu o advogado dizer ao reverendo “fala que foi uma bravata”.

“Eu tenho respeitado aqui os advogados que, quando a gente toma uma decisão um pouco mais fora do tom, aí vem o mundo contra a gente. Mas eu estou ouvindo, ninguém tá me contando. O senhor pode ficar aí, mas vossa excelência está dizendo para o depoente o que ele tem que responder, aí não dá”, disse o presidente da comissão.

“Eu tive a impressão aqui reverendo (…) que vossa excelência estava completamente inocente nisso aí, que foi usado e tal, mas a gente vai vendo aqui que tem muita coisa que não se explica. (…) Tem alguma coisa que tá faltando e o senhor está protegendo alguém. O senhor tá protegendo alguém que foi alguém que lhe apresentou ao Ministério da Saúde para o senhor fazer essa intermediação”, disse Costa.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania) destacou ainda os bons relacionamentos que a Senah mantinha com os políticos, mesmo depois de afirmar sucessivamente que não tinha contatos, e destacou o uso da fé para realização de lobby e negócios.

“Se o senhor não tem relação política, reverendo, por quê que os presidentes da sua instituição são três deputados? O deputado Júlio Cesar Ribeiro, o deputado Castelo Branco e o deputado Marco Martins Machado?”, questionou. “Aí não é questão de relacionamento, eles integram a sua instituição”. Segundo o reverendo, eles nunca foram à instituição, e o pedido para que eles integrassem a Senah como presidentes de honra foi feito por ele.

“Eu fico muito triste, na verdade, quando eu ouço aqui algumas pessoas fazendo algumas colocações, e sobretudo pela sua posição. E lhe digo isso, reverendo, porque meu pai é pastor. E meu pai tem mais de 40 anos como pastor, quando eu nasci ele já era pastor. E eu sei o que é um pastor, sei o que é um ministro, sei o que é a luta e o que eles representam para uma sociedade”, disse a senadora.

“A gente está vivendo um tempo hoje, na história do Brasil, que me traz uma grande preocupação. Está muito claro uma relação que o presidente tentou adotar com a igreja de governo e igreja, e é uma relação que não dá certo. A história diz isso”, ressaltou. “A gente percebe claramente que o senhor omite, o senhor mente em algumas situações, e o que nós estamos vendo ultimamente é que, em nome de Deus, se propaga por exemplo o armamento, a perpetuação da doença (…) Não basta pegar em uma Bíblia ou ir em uma igreja como o presidente faz, ser a imagem e semelhança de Cristo não é isso”.

Entidade usada “para fins espúrios”

Embora a Senah tenha Secretaria Nacional no nome, a entidade não possui ligação com órgãos públicos, ao mesmo tempo em que a AstraZeneca já informou oficialmente que não vende à iniciativa privada e não autoriza intermediários, como a Davati, a negociar seus imunizantes. Contudo, Amilton Gomes disse que a entidade dele foi usada “de maneira odiosa para fins espúrios”.

O senador Jean Paul Prates (PT) observou que o próprio nome da Ong criada por Amilton — “Secretária Nacional” — pode apontar para falsidade ideológica, uma vez que o uso de brasões da República e da ONU em seus comunicados leva à imediata suspeita de estelionato. O senador ressaltou que as instituições com que a ONG de Amilton se comunicava usavam do mesmo expediente.

Amilton Gomes de Paula chegou a chorar durante os questionamentos do governista Marcos Rogério (DEM), o que não comoveu o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

“Não tem nada de humanitário nesta malandragem, nada. O objetivo aqui era financeiro, escamoteado com o nome de doação. O mais absurdo é o governo brasileiro dar espaço para gente como o senhor, como Dominguetti, como Cristiano”, afirmou o senador. “Enquanto as pessoas estavam morrendo, vocês estavam atrás de vantagem financeira. A oferta de vacinas é mentirosa, a conversa fiada de apoio humanitário é mentirosa, tudo atrás de dinheiro, no pior momento da vida do Brasil”.

Já o senador Rogério Carvalho (PT) ressaltou que nenhum outro governo deixou de comprar vacinas de laboratórios reconhecidos internacionalmente para depois fazer negociação com intermediários sem qualquer qualificação. O senador apresentou documentação da Terracap — companhia imobiliária de Brasília — e questionou Amilton sobre o motivo de a ong Senah funcionar no mesmo endereço de um espaço de festas localizado na cidade de Águas Claras, apresentando ainda documentos afirmando que o endereço pertence a uma clínica de olhos.

(com Agência Senado)

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