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segunda-feira, 13 de julho de 2020

Matrix e a democracia totalitária da direita neoliberal, por Wilton Cardoso



A semelhança do filme com a teoria do valor não é fortuita, mas um sintoma da crise sistêmica por que passa o capitalismo na atualidade.

Matrix e a democracia totalitária

Por Wilton Cardoso

O que eu queria propor aqui é uma tentativa de aproximar o filme “Matrix”, sobre o qual já escrevi em outro ensaio, com o artigo “A democracia totalitária” de Robert Kurz, um dos fundadores da crítica do valor. O meu primeiro objetivo é facilitar, por meio da analogia, o entendimento do leitor acerca de alguns conceitos e pressupostos importantes da crítica do valor. O segundo objetivo é mais interpretativo, de tentar mostrar que a semelhança do filme com a teoria do valor não é fortuita, mas um sintoma da crise sistêmica por que passa o capitalismo na atualidade.
Os paralelos entre o “Matrix” e o artigo de Robert Kurz
Coincidentemente (mas seria mesmo coincidência?), tanto o filme “Matrix” quanto o artigo de Robert Kurz são de 1999, auge da era neoliberal, quando se acreditava que o capitalismo vencera definitivamente o socialismo, Marx e o marxismo; e que não restava outro caminho para a humanidade que não o da democracia liberal, combinada com a economia de mercado globalizada. A China mercantilista ainda engatinhava e a Rússia e o Leste Europeu agonizavam com os efeitos colaterais do remédio amargo das políticas neoliberais receitadas pelo FMI, que os purgaria para sempre do totalitarismo comunista, proporcionando, ao final do tratamento de choque, o paraíso consumista da democracia capitalista. A democracia ariana e as corporações dos EUA e União Europeia reinavam absolutos, ao lado do Japão, o sempre fiel parceiro oriental dos “ocidentais civilizados”.
Até mesmo os críticos do capitalismo andavam cabisbaixos e quase ninguém se arriscaria a prever que, em uma década, este mundo de contos de fadas ariano estaria de cabeça para baixo, e que ao final de 2008 mais pareceria um filme de terror apocalíptico, que perdura até os dias de hoje, quando os belos olhos claros europeus e norte-americanos começam a arreganhar os dentes e a rosnar antigos hinos fascistas. Nesta época, pouca gente escutava Robert Kurz, o criativo teórico alemão fundador da crítica do valor, que desde o início da década de 1990 vinha alertando que a vitória do capitalismo tinha sido enganosa, que sob a sua aparência de invencibilidade, dinamismo e saúde econômica uma crise gigantesca estava se gestando. Que essa crise mundial apenas atingiu primeiro a antiga URSS (que Kurz não considerava socialista) e os países do Terceiro Mundo, mas não tardaria a chegar aos países centrais. E que a sombra do fascismo não havia desaparecido, mas apenas hibernava sob a fina crosta de civilização da democracia social-democrata e, depois, neoliberal.
Kurz nunca acreditou (e neste ponto ele é bem marxista) na democracia ocidental, especialmente na social-democracia europeia e norte-americana. Este é o tema principal de seu artigo:
“É claro que para a consciência dominante, forjada no desenvolvimento fordista desde 1945, o caráter totalitário da própria sacrossanta democracia é ainda menos visível. Essa fixação na esfera política da sociedade capitalista, como fizeram Hannah Arendt e outros teóricos do totalitarismo, permite sempre uma comparação entre formas democráticas e totalitárias no interior da esfera política, em que essas diferenças não são apresentadas como os estágios transitórios de um mesmo processo histórico, mas como “modelos” antagônicos. Liberdade de expressão, liberdade de reunião e eleições livres aparecem desse ponto de vista como exatos opostos da ditadura e uma garantia para a liberdade de decisão das “pessoas” sobre seu destino.”
Ou seja, a democracia liberal, a social-democracia e a ditadura do proletariado soviética não são formas políticas essencialmente diferentes, mas “estágios transitórios” no interior do capitalismo que é inerentemente totalitário. Esta é uma afirmação importante para a crítica do valor e que vai contra a ideia corrente de democracia, defendida tanto pela esquerda quanto pela direita política, mas também pela imprensa e academia.
Mas por que a democracia representativa seria uma aparência cuja essência é, na verdade, um totalitarismo? O marxismo tradicional tem uma resposta padrão para esta questão: a ideologia burguesa afirma que a democracia proporciona a liberdade para todos os indivíduos, mas ela é, na verdade, uma forma política de dominação da burguesia sobre o proletariado. Robert Kurz, embora não negue a luta de classes, rejeita esta definição do totalitarismo capitalista. Para ele, o que torna a democracia um sistema totalitário, não é o domínio da burguesia sobre o proletariado, mas o controle que o capital exerce sobre todas as pessoas, independente de classe social:
“Em última análise, na realidade, a vida social não é regulada por meio das decisões conjuntas e conscientes dos membros da sociedade democrática. Os procedimentos democráticos da liberdade de expressão, da tomada de decisão política e das eleições livres não estão a montante, mas a jusante dos efeitos da “física social” dos mercados anônimos. Todas as decisões tomadas pelas instituições democráticas não representam qualquer controle autônomo sobre a utilização plena de sentido dos recursos comuns, mas são sempre já pré-formadas por meio do automatismo do sistema econômico, que, enquanto tal, não é democraticamente negociável, porque está associado a uma “natureza” inelutável. Isto justifica a priori a mobilização mais louca e mais absurdamente violenta dos recursos materiais e humanos.”
Há um “automatismo do sistema econômico” que estrutura de antemão toda e qualquer decisão supostamente livre nas democracias, ou seja, as opções que temos serão sempre pré-determinadas dentro de um escopo já dado pelas leis “naturais” dos mercados e suas categorias básicas. A escolha é livre na democracia, desde seja dentro dos limites de um mundo pré-configurado pelo trabalho abstrato, a mercadoria e o valor, categorias básicas do capitalismo.
Aqui a semelhança com o mundo simulado no filme “Matrix” é imediata. Os humanos sob o controle da realidade simulada Matrix também acreditam viver numa democracia em 1999, com liberdade de expressão, escolha e mobilidade, quando, na verdade, todo aquele universo social era um programa de computador, uma realidade virtual controlada pelas máquinas. No filme, o livre arbítrio dos seres humanos não passa de uma ilusão, uma vez que a Matriz está literalmente dentro de suas cabeças (plugada no sistema nervoso), controlando a vida e as escolhas das pessoas sem que elas percebam.
Na Matrix, as máquinas se conectam fisicamente ao cérebro dos indivíduos, constituindo, inclusive, sua subjetividade, sem que eles tenham consciência deste domínio. Da mesma forma, para Robert Kurz o sujeito moderno supostamente livre tem sua subjetividade formada pela relação social total que é o capital:
“Essa absurda relação social total constitui não apenas uma estrutura objetivada e uma cega legalidade fática, mas também uma correspondente forma de subjetividade dos membros da sociedade, na qual se reproduz a relação de dependência objetiva e objetivada do Estado perante o mercado e da política perante a economia. Antes de os membros da sociedade agirem como sujeitos político-democráticos, inclusive mesmo antes de começarem a pensar, eles já são pressupostos como ‘força de trabalho’ e sujeitos da concorrência em mercados anônimos; fora dessa determinação axiomática também seu status político e jurídico decairia na irrelevância.” [grifos meus]
Se na Matrix o sujeito que realmente toma as decisões é a máquina, na democracia é o “sujeito automático” (a expressão é de Marx), ou seja, o capital, que nos controla pelas costas de nossa consciência individual. Para Robert Kurz, portanto, o que importa de fato não é a dominação da burguesia sobre o proletariado, mas a dominação abstrata do capital sobre todas as pessoas. Da mesma forma, na Matrix há certamente a dominação da elite sobre os trabalhadores: o herói do filme, Neo, é um programador que recebe de seu gerente duras cobranças em relação à sua assiduidade e produtividade, típicas da relação capital-trabalho. Mas, diante da dominação total que as máquinas exercem sobre as pessoas por meio da Matrix, a exploração de classe em seu interior se torna secundária, já que é, como tudo o mais, pré-estabelecida pela realidade virtual.
Esta questão de primazia da dominação abstrata do capital leva a uma consequência muito importante: ao contrário do marxismo tradicional, a crítica do valor não acredita que a luta de classes possa resultar emancipação do capitalismo, cujos trabalhadores seriam o sujeito histórico da libertação. O máximo que a luta de classes pode proporcionar é a democratização do capital, via distribuição de renda. Voltando ao paralelo com o filme, uma suposta revolução socialista dentro da Matrix ainda manteria todos os indivíduos dominados pelas máquinas, melhorando apenas a distribuição de renda no interior da realidade virtual. Isto ocorre porque a luta de classes, num caso como no outro não questiona a natureza real da dominação, que no filme é o controle biológico das máquinas sobre o cérebro, e no capitalismo é o controle social do capital sobre a subjetividade.
Na Matrix, a escolha da pílula vermelha leva o indivíduo a se libertar das máquinas e tomar consciência da dominação. Obviamente, não há no mundo real nada tão instantâneo e eficaz como uma pílula vermelha, já que as pessoas não estão plugadas fisicamente a uma máquina. A dominação no capitalismo é bem mais sutil e complexa e, por isso mesmo, mais eficiente e difícil de se desfazer, pois o capital é uma forma social e seu domínio se dá, ao mesmo tempo, na esfera individual, por meio da formação do psiquismo do sujeito do trabalho, e na esfera social, por meio das relações sociais, sendo que as duas esferas se reforçam mutuamente. Para Kurz, a libertação do capitalismo requer um progressivo questionamento das categorias básicas do capital, ao lado de uma paulatina reestruturação da consciência individual e coletiva em novas bases. Trata-se de um processo difícil para a subjetividade moderna, pois implica em questionar seus próprios fundamentos. Como argumentar, por exemplo, que é por meio do trabalho que somos dominados pelo capital, quando o consenso é de que que o trabalho enobrece, nos torna livres e nos permite o exercício da cidadania? Não há toda uma luta pelo direito ao trabalho? E não é pela inserção no mundo do trabalho que as mulheres (e outras minorias como negros e LGBTs) reivindicam a igualdade perante os homens brancos? Toda a nossa formação subjetiva é no sentido de nos tornarmos um bom sujeito do trabalho, praticamente sinônimo de bom cidadão – uma “pessoa de bem” ou “homem bom”.
A sociedade moderna se constrói, à esquerda e à direita, por meio do trabalho e sua veneração. O sujeito moderno está tão imerso na cultura do trabalho, o qual define sua visão de mundo e seus valores, que dificilmente consegue imaginar um mundo em que não haja um mercado de trabalho em se possa vender sua mão de obra. Mas nem sempre foi assim, aliás, só no capitalismo há o que entendemos por trabalho. Na Idade Média e Antiguidade não se trabalhava, os povos tribais não trabalhavam, os caipiras, os nordestinos do sertão e os negros da favela também não, até bem pouco tempo atrás. Não havia esta relação social “trabalho”, que mediava as outras relações sociais por meio do recebimento de uma salário ou pagamento em troca da venda da atividade humana como mercadoria. Nos outros regimes, a dominação de um grupo social sobre o outro era direta e não mediada pelo trabalho: as pessoas não se transformavam na mercadoria “mão de obra” para se oferecerem no mercado. Se no filme Matrix, é a eletricidade do corpo humano que alimenta as máquinas, no capitalismo é o tempo de trabalho das pessoas que gera o valor e alimenta a acumulação do capital.
Por que “Matrix” tem semelhanças com a crítica do valor?
Não consta que as irmãs Wachowski, autoras e diretoras do filme, sejam marxistas e nem que tenham lido a crítica do valor. Suas referências parecem ser “Simulacros e simulação” de Jean Baudrillard, livro que, inclusive, aparece numa cena do filme. A obra de Baudrillard é uma boa descrição fenomenológica do mundo simbólico de capitalismo, vazio de sentido e fantasmagórico. Embora conhecedor do marxismo, Baudrillard não fundamenta sua teoria nas ideias de Marx.
O filme “Matrix” é uma boa história com efeitos especiais extraordinários. Como interpretação do mundo no entanto, o filme é pobre (Baudrillard, que inspirou as diretoras, o considerava ingênuo) e acaba por reciclar o surrado clichê da criatura que acaba por dominar seu criador, sem falar no clichê ainda mais gasto do messias. A originalidade do filme está na forma desse domínio reverso da criatura sobre o criador, que se dá através da realidade virtual. A revelação desse “segredo” da dominação, quando o protagonista ingere a pílula vermelha, segue o roteiro padrão dos filmes e romances de suspense, que seduz o espectador com a expectativa do mistério, cujo desvendamento lança o herói (e o espectador) a um nível superior de consciência e ação. Outros mistérios a serem desvendados se sucedem ao longo do filme e, depois, da trilogia.
Mas a questão é saber porque o filme se tornou, mais que popular, um clássico da ficção científica e até mesmo do cinema em geral. “Matrix” é desses raros filmes que parecem ter tocado as profundezas da alma das pessoas de seu tempo. Minha hipótese é que o impacto do filme se deve a fato de ele ser uma metáfora involuntária da dominação a priori, abstrata e totalitária que capital exerce sobre todas as pessoas na vida real. Dominação que foi teorizada por Robert Kurz na mesma época do filme, quando o capitalismo parecia no auge de sua exuberância, mas que, na verdade, já esboçava os primeiros sinais da crise que se abateria sobre o sistema uma década depois.
A dominação abstrata do capital sobre as pessoas é inconsciente para elas, mas com a crise do capitalismo se avizinhando, ela começa a incomodar e se manifestar como conteúdo reprimido que “quer” emergir na consciência. Mas que, ao se mostrar, a dominação abstrata não aparece como realmente é, mas sim por meio da linguagem refratária da metáfora cinematográfica. O processo é semelhante ao teorizado pela psicanálise freudiana, mas se dá, aqui, a nível coletivo, pois a dominação do capital é, em primeiro lugar, um fenômeno social.
Havia, portanto, nos fins da década de 1990, uma “demanda” na economia psíquica das massas por uma interpretação do mundo capitalista que se aproximasse da realidade, que á a dominação abstrata do capital sobre as pessoas. O filme “Matrix” veio atender a esta necessidade interpretativa de resgate dessa realidade que se encontrava oculta no inconsciente como conteúdo reprimido (Esse aflorar da dominação abstrata como reprimido não ocorre apenas em “Matrix”, mas também em vários outras narrativas de ficção científica populares do cinema, TV e quadrinhos da época neoliberal, como por exemplo as inúmeras histórias apocalípticas sobre zumbis e os espisódios sobre os Borgs de Star Treck).
O filme “Matrix” é a metáfora certa no momento certo. E como toda metáfora, os paralelos do universo do filme com a realidade das democracias ocidentais são muitos: a aparência de liberdade quando o que há é o controle totalitário da realidade; o domínio da subjetividade das pessoas sem que elas saibam; a constituição de um universo pré-determinado cujas leis parecem naturais; a criação humana que se torna independente e passam a dominar seu criador.
Mas como na metáfora, a realidade não se mostra plenamente e há deslocamentos de sentido: o capital é uma forma social que domina e constitui os sujeitos através da relação social trabalho, enquanto o domínio das máquinas exercido por meio do controle biológico dos corpos; a Matrix é uma máquina consciente que sabe de seu domínio e seus objetivos de sobrevivência, enquanto o capital é uma força cega que não sabe de si, nem do seu domínio sobre as pessoas, nem de seu objetivo de se expandir indefinidamente.
Essas diferença entre a realidade da dominação do capital e a ficção cinematográfica e sua metáfora, da dominação das máquinas, não é fortuita, mas tem sua razão de ser na “economia da psique” coletiva, que é a de “mostrar velando”. Mostra-se a realidade (de dominação do capital) para as pessoas, mas de forma refratária e deslocada (pois no filme se trata da dominação das máquinas), ou seja, sem dizer que é a realidade que se está mostrando . E, de fato, os espectadores em geral não vinculam o domínio que a Matrix exerce sobre as pessoas do filme com o domínio abstrato que capital exerce sobre eles, indivíduos reais.
Mas no fundo (no inconsciente) os espectadores sabem que há algo no mundo real (o capital) que os domina pelas costas, como as máquinas dominam as pessoas na ficção. Por isso o filme os atrai tanto. Ficam fascinados não porque se identificam com Neo, Morfeu ou Trinity, os heróis da narrativa, mas porque, inconscientemente, se sentem na pele das massas descartáveis adormecidas na Matrix, cuja vida, aparentemente livre, serve apenas para alimentar as máquinas. Da mesma forma, para Robert Kurz e a crítica do valor, a vida das pessoas nas democracias capitalistas serve primariamente para a reprodução do capital, uma abstração fria e cega que, como as máquinas, nada sabe do desejo e da vida concreta dos seres humanos.
As crises são a hora da verdade para o indivíduo e também para a coletividade. Ela significa um momento de fraqueza das defesas que mantêm a consciência à salvo dos conteúdos reprimidos no inconsciente, que estão sempre sob uma espécie de pressão psíquica (por isso incomodam mesmo quando não há crise). Na crise, o reprimido encontra a oportunidade de fluir pelas brechas da consciência. Mas ele não pode aparecer como realmente é, e sim na forma da metáfora que, ao mesmo tempo, revela sua verdade e a escamoteia. Isso ocorre porque a consciência não perde totalmente suas defesas, o que obriga um certo “acordo” tácito (inconsciente) entre o conteúdo reprimido e as defesas da consciência. Então a realidade da dominação do capital emerge refratária e deslocada, na forma de metáforas, símbolos e alegorias.
Quando essa emersão acontece, as pessoas se sentem, ao mesmo tempo, eufóricas e aliviadas ao verem na tela a projeção do reprimido: a realidade da dominação capitalista. E esse efeito catártico de euforia e alívio deve ocorre exatamente porque a ficção, ao mesmo tempo, mostra e oculta a realidade social. Os espectadores finalmente veem no filme a dominação totalitária do capital a que estão submetidos; mas não a veem como como realmente é, pois a metáfora do filme projeta a dominação do presente para um futuro fictício, desloca a forma de domínio que deixa de ser social e passa a ser biológica e, por fim, muda o agente do domínio, que não é mais o ‘ser social’ capital e sim o ‘ser técnico’ máquina.
No fim das contas, audiovisuais do universo pop, como “Matrix”, as narrativas sobre zumbis e os episódios sobre os Borgs, acabam se tornando um ajuste do mecanismo de defesa da psique coletiva para barrar a realidade da dominação abstrata exercida pelo capital que, embora consiga emergir na consciência, o faz de forma metafórica, refratando o real. O que, no fim das contas, impede a tomada de consciência da verdadeira natureza da dominação capitalista. Isto indica que a consciência (coletiva) ainda não está em condições de “ver” a realidade social do capitalismo como ela realmente é. Quando (e se) estiver preparada para isto, estará também preparada para se libertar da dominação do capital, ou seja, pronta para se emancipar do sistema capitalista e suas abstrações: trabalho, valor/dinheiro, mercadoria.
Mas o simples fato de que o conteúdo reprimido da dominação abstrata do capital conseguiu emergir de alguma forma é um importante sintoma de que a crise do capitalismo está chegando a nível críticos, quando o sistema entra na fase do colapso e se aproxima de sua ruptura final, como apontam insistentemente Robert Kurz e a crítica do valor.
Na Matrix, como nas democracias modernas, a dominação totalitária se torna tão sutil e onisciente que as pessoas não a percebem como dominação, salvo um constante mal estar diante da frialdade implacável de suas coerções, que se impõe à sociedade que as rodeia, mas também ao mundo interior de sua própria subjetividade. Mais que se impor pela força e pela vigilância, o totalitarismo do capital se estabelece como consciência pré-formada do sujeito cidadão que concebe como natural o mundo do trabalho, da mercadoria, da competição e do individualismo e consumo desenfreados.

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domingo, 19 de abril de 2020

Idosos de todo o mundo, uni-vos!, por Miguel Paiva



"Iremos para as trincheiras e defenderemos nosso direito de morrer quando a hora chegar e não quando interessar ao mercado", escreve o cartunista

Do Jornal GGN:
O cartunista Miguel Paiva. Foto: Reprodução

Idosos de todo o mundo, uni-vos!, 

Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia


“Como idoso me sinto ameaçado por este governo. Não que eu seja um idoso de grupo de risco. Aí já me sentiria condenado. Aparentemente sou saudável, faço exercícios, tomo meus suplementos fitoterápicos, faço meus exames regularmente e tirando meu joelho que reclama, me sinto muito bem. Quando era bem mais jovem me sentia ameaçado pela ditadura por ser estudante e depois jornalista. Fui preso por causa disso duas vezes, uma vez em cada categoria. Achava que esses tempos tinham acabado.
Agora, durante a pandemia bolsonariana, a ameaça volta. Como diz minha amiga Emília Silveira, parceira de trabalhos e de quarentena junto com a Angela aqui na serra, o velho de hoje é o judeu de antigamente ( ou de sempre).
Alguns países e algumas tribos indígenas consideram o velho muito importante. Eles transmitem a experiência e a sabedoria. São tratados e respeitados como tesouro do grupo, riqueza a ser preservada para servir de exemplo aos mais jovens.
Aqui neste Brasil, os mais velhos viraram lenha de fogueira. Somos seres descartáveis prontos para o sacrifício em troca dos mais jovens, nem sempre merecedores de uma sobrevida. Mas os jovens são força de trabalho, votos de cabresto e elementos úteis nas manifestações animalescas contra a quarentena dentro de seus carros importados.
Os mais velhos, além de já terem vivido seu tempo, segundo o governo custam caro ao Estado. Logo esse Estado que eles querem acabar. A previdência pena para pagar essa grana que poderia estar sendo usada na criação de novas fabricas de armas ou em investimentos na bolsa de valores. Além de tudo, para eles, velhos são feios, não produzem e nem sexo mais fazem.
Mentira deslavada. Produzo como nunca produzi antes, acompanho e critico essa realidade de merda que somos obrigados a engolir. Me sinto bonito, magro e saudável e considero o sexo indispensável tanto como respirar.
Me pego fantasiando o pior. Ir para as ruas escondido, durante a noite para escapar das blitzes anti-idosos. Furgões carregados de velhinhos que teimam em sair levados para os abrigos de segurança máxima e sendo abandonados à própria sorte e a própria solidão.
Fico tão indignado com esse jeito tosco que o brasileiro trata o que já passou. Temos uma das mais belas histórias na MPB, no cinema, na literatura, no teatro, na arquitetura e na pintura. Somos criativos e convivemos com nossos idosos geniais o tempo todo. Agora mesmo perdemos vários deles que demonstram isso. Moraes Moreira com 72, Rubem Fonseca com 94, Garcia-Roza com 84, Rubinho do Zimbo Trio com 87 e por aí vai. Como diria Nelson Rodrigues no seu habitual exagero frasístico genial, “jovens, envelheçam!”
Nem tanto lá, nem tanto cá. Sempre fui a favor dos jovens. Sempre os respeitei e entendi porque sempre me senti jovem, apesar de não ser mais, na idade. Mas agora que os jovens estão sendo contrapostos aos idosos para promover essa escolha de Sofia cruel e que interessa a certos grupos, serei capaz de chefiar a revolta dos idosos contra essa perseguição nazista que se organiza. Segregar assim os mais velhos é determinar o fim da história para este país que já despreza tanto o seu passado.
Iremos para as trincheiras e defenderemos nosso direito de morrer quando a hora chegar e não quando interessar ao mercado. Como diria Moraes Moreira, “chegou a hora desta gente experiente mostrar seu valor”.

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

Luis Nassif diz que Paulo Guedes ainda é movido ao autoritário e desmoralizado modelo Pinochet



Jornalista é o convidado desta quinta-feira (25) do programa "Entre Vistas", com Juca Kfouri. Para ele, ministro da Economia de Bolsonaro quer destruir a Constituição de 1988


“Um Bolsonaro com PhD”. Assim o jornalista Luis Nassif define o ministro da Economia, Paulo Guedes, o chamado “posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro. Editor do Jornal GGN, com longa trajetória no jornalismo econômico em diversos veículos da mídia brasileira, Nassif é o convidado de Juca Kfouri no programa Entre Vistas desta quinta-feira (25), que vai ao ar a partir das 22h, pela TVT.
Nassif comenta que Paulo Guedes é tratado como um “ponto de racionalidade”, o que, em sua visão, é um erro. “Ele quer destruir a Constituição de 1988, o Estado varguista, e não tem a menor ideia do que colocar no lugar.”
O convidado define Guedes, a quem conhece desde os anos 1990, como um sujeito “pessoalmente interessante”, sem se ligar a panelinhas da comunidade acadêmica. “Ele respeita a inteligência, mas é um sujeito briguento, nunca foi agregador, em todos os lugares por onde passou brigava com tudo mundo. Não é gestor, tem 500 ideias na cabeça e não sabe implementar nenhuma, e não tem a menor experiência em políticas públicas”, afirma.
Nassif cita a Embraer, empresa que reunia uma grande cadeia produtiva ao seu redor desenvolvendo tecnologia, como exemplo de sérios riscos de prejuízos a que o país está exposto. “Acabaram com a Embraer. Estão sendo desmontadas políticas que levaram décadas para serem criadas.”
Ele conta que um secretário de Guedes avaliou que o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) não vinha dando certo, porque só conseguia empregar 10% dos estudantes e decidiu então encerrá-lo. Em seu lugar, criou outro programa no formato “liberal”, porém sem definir como será a fiscalização.
Propôs a ideia de conceder “voucher” aos trabalhadores para que sejam usados na empregabilidade com as empresas, novamente sem definir como as pessoas serão selecionadas. “Eles não têm a menor noção, vão destruindo coisa por coisa em cima de um discurso vago e sem a menor ideia do que fazer, que é a parte mais difícil da história. O Guedes não vê a realidade, ele ainda acha que o Chile do Pinochet foi o suprassumo do crescimento. E agora coloca no Ministério da Educação um sujeito que quer acabar com o ensino público. E o que coloca no lugar?”, questiona.
Juca Kfouri pergunta se, depois de mais de 100 dias de governo Bolsonaro, há algum motivo para olhar com otimismo a político econômica que o governo federal tenta implementar. A resposta vem com ironia. Nassif diz que há, sim, um motivo de otimismo: “Ela é tão ruim e dissociada da realidade que será revertida em algum momento”.
Participam também do programa Ana Marta Lima, dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, e a economista do Dieese Zeira Camargo.
Os meandros da operação Lava Jato, a demonização da política e o abalo das instituições da República são outros temas abordados no programa Entre Vistas.
Assista o Entre Vistas a partir das 22h