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quinta-feira, 25 de maio de 2023

Xadrez do arcabouço e o nó da tática defensiva de Lula, por Luís Nassif

 

Tem-se uma correlação de forças desfavorável. Que estratégia adotará? Nunca a habilidade política de Lula será colocada tanto à prova.



Peça 1 – o cenário político 


O primeiro passo do estrategista é analisar o cenário político. 

Vulnerabilidades

  1. Congresso, dominado pelo Centrão e direita.
  2. Mercado, com ampla influência na mídia.
  3. Forças Armadas, ocasionalmente legalistas, mas nem tanto.

Trunfo


Popularidade –> Bem estar –> Economia 

Ou seja, a única arma para enfrentar essa soma de vulnerabilidades é reforçar a popularidade.  Só que ela depende do bem estar geral – consumidores e empresas – que depende da melhora da economia. E tem-se um tempo político pela frente que, se não for bem administrado, tornará a crise política irreversível.

Economia


Por sua vez, a economia depende do entrelaçamento de uma série de fatores: investimentos público, privado e externo, fortalecimento do mercado de consumo etc.

O fator juros


Em todos esses elementos, entra o fator Selic-taxa de juros.

Vamos remontar o quadro acima com os fatores diretamente afetados pela Selic.

Por exemplo, o Estado disponibiliza investimentos para o setor privado, como uma obra de engenharia. Só que a empresa precisará de capital de giro para construir a obra e, depois, receber o pagamento. E a taxa de juros é essencial para viabilizar o investimento. 

No caso do investimento privado, a taxa de juros inviabiliza a tomada de dinheiro e o mercado de consumo. No caso do investimento externo, influencia diretamente a relação dívida/PIB.

Ou seja, sem a redução da Selic, não se tem recuperação da economia, não aumenta o bem estar do país e não permite a Lula fortalecer a popularidade para enfrentar as vulnerabilidades e as próximas eleições.

Peça 2 – a estratégia Haddad


A estratégia montada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, consiste nos seguintes pontos.

  1. Não mexer com nenhum dos dogmas do mercado, a começar pela independência absoluta do Banco Central.
  2. Dentro das regras do mercado, apresentar uma alternativa à Lei do Teto, o arcabouço fiscal.
  3. Com base no arcabouço, tirar o último álibi do Banco Central para não reduzir a taxa Selic.
  4. Sem esse álibi, aumentariam as pressões do setor privado e político sobre o BC, forçando-o a reduzir a Selic.
  5. Reduzindo a Selic, a economia começaria a respirar, permitindo a Lula recuperar popularidade e incrementar as políticas de inclusão.

Para aprovar o arcabouço, no entanto, teve que se sujeitar a uma série de restrições: limites rígidos de despesas, pouco espaço para o investimento e, ainda, compromisso de equilíbrio fiscal a partir do próximo ano e de superávit a partir de 2025. O arcabouço conseguiu até o feito de incluir o Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação), que havia ficado de fora da Lei do Teto.

Para conseguir aumentar os gastos, o governo terá que aumentar as receitas. Mesmo assim, há um limite de crescimento de 2,5% nos gastos.

Se o governo errar na projeção, a diferença será paga em 2025. Ou seja, se a Fazenda não conseguir cumprir suas metas de equilíbrio fiscal, a diferença será cortada dos gastos no ano seguinte.

Pelo modelo proposto, as metas serão alcançadas pelo aumento das receitas – decorrente do corte de subsídios injustificados e restrições à engenharia fiscal de grandes empresas.

Ao apostar todas as fichas no arcabouço, em um primeiro momento a Fazenda amplia ainda mais as restrições à recuperação da economia, esperando recuperar no segundo momento.

É uma aposta temerária. Em preto, as restrições sob controle do BC; em vermelho, as restrições impostas pelo arcabouço fiscal.

Para essa estratégia dar certo, terá que ocorrer, simultaneamente, uma redução da Selic e um aumento da receita. Se ambos os desafios falharem, se terá o comprometimento total das peças necessárias para um processo de recuperação da economia: os investimentos e gastos públicos.

Peça 3 – os 2 reis do tabuleiro


Para sua estratégia ser bem sucedida, Haddad terá que contar com a boa vontade de dois personagens absolutamente não confiáveis:

  1. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, para reduzir a Selic.
  2. O presidente da Câmara Arthur Lira, para endossar a retirada de privilégios fiscais.

No primeiro movimento, ambos foram mais que parceiros, foram os verdadeiros autores do arcabouço. Não houve, da parte do governo, nenhuma disputa política em torno do arcabouço e nem da reforma administrativa. 

Não se trata de nenhuma crítica a Haddad, mas de um dado da realidade: Arthur Lira é senhor da situação, assim como Campos Neto. Mas fica a dúvida: Haddad se adapta à estratégia de não enfrentamento de Lula; ou, de fato, passou a endossar todos os princípios de política econômica do mercado?

A esperança de Haddad é que, entregue o que Campos Neto pediu, haja uma pressão de seus aliados pela redução da Selic.

Aí, é importante analisar o entorno de Campos Neto e Lira.

Roberto Campos Neto


Há duas explicações para sua insistência em uma Selic desproporcionalmente elevada. 

A primeira, o álibi da ignorância, o sujeito que segue o manual sem a menor noção sobre o objeto afetado. Seu único universo de análise é o mercado, não a economia real.

O segundo, a ideologia. A economia saiu de um período de ultraliberalismo, de grandes negócios com empresas públicas, de esvaziamento de políticas públicas, que vai do interinato de Temer ao período Bolsonaro-Paulo Guedes. Campos Neto é um soldado de Guedes. Manter a Selic em 13,75%, ou derrubá-la lentamente, significará o fracasso de qualquer política alternativa, por mais tímida que seja, e a volta do padrão Paulo Guedes. Ou seja, a Selic hoje é uma garantia da volta do ultraliberalismo em 2026.

A esperança seria um aumento expressivo da pressão dos setores produtivos. Há um tsunami a caminho, uma quebradeira generalizada, sem despertar a menor sensibilidade da mídia. Na reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, o alerta de Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) sobre o vendaval que vem pela frente passou quase em branco. E a indústria está órfã de lideranças fortes.

Qual a probabilidade de que Campos Neto, por livre vontade, proceda a uma redução significativa da Selic? Digamos que seja de 40%.

Arthur Lira

Lira é negócio. Aprovou o arcabouço fiscal porque interessava diretamente seus patrocinadores. E não tem o menor interesse de aprovar retirada de subsídios aos grandes grupos econômicos.

Agora, há duas possibilidades pela frente: ou a Fazenda consegue reduzir benefícios fiscais de grandes grupos, ou terá que ampliar a privatização para fazer caixa. Ora, benefícios fiscais tem grandes interessados pela frente. Queda de gastos sociais, também. Qual a probabilidade de Lira apoiar as medidas de restrição dos subsídios? Digamos, de 30%, com otimismo.

Juntando as duas probabilidades, se terá uma probabilidade total de 12% de implementação das duas medidas centrais para a estratégia Haddad ser bem sucedida.

Peça 4 – a estratégia da não confrontação


Até agora, o que se percebe é a incapacidade do governo de enfrentar qualquer frente de pressão.

CongressoA mudança no projeto de reforma administrativa mostra o amplo controle conservador sobre a Câmara. A bancada ruralista conseguiu esvaziar o Ministério do Meio Ambiente e o dos Povos Indígenas, abrindo a porteira para a demarcação de terras indígenas. Por mais que o governo queira comemorar, a aprovação do arcabouço foi vitória de Arthur Lira.
MercadoHaddad encampou completamente o discurso de mercado e de restrições fiscais. Dificilmente abrirá fogo contra Campos Neto, o que atrasará substancialmente a redução de juros.
Forças ArmadasLula entregou o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) a um militar, colocou sob suas asas a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) e manteve sem nenhuma forma de controle civil a inteligência militar. Os militares continuam com os mesmos espaços conquistados nos últimos anos.

A crise econômica


Confira-se a pesquisa Focus, que levanta as expectativas do mercado. É o melhor termômetro das intenções do Banco Central, devido à interação permanente entre Campos Neto e o mercado.

Na última pesquisa, a previsão é 2023 fechando com Selic a 12,5%; 2024 com Selic a 10%; e 2025 com Selic a 9%.

Já em relação ao PIB, a Focus prevê 1,20% em 2023, 1,30% em 2024 e 1,70% em 2025. As expectativas em relação a 2024 e 2025 são mero chutômetro.

É evidente que, com a projeção de Selic e de PIB, a dívida líquida do setor público só poderia subir. E a Focus trabalha com estimativas de 60,80% do PIB em 2023, 64,45% e 2024 e 67% em 2025.

Se o mercado estiver  certo, a economia afunda.

Peça 5 – a contagem regressiva

É evidente que o governo está fragilizado e batendo cabeça. Não colou a tentativa de apresentar como vitória a aprovação do arcabouço fiscal.

Mas é evidente, também, que nenhum governo vai para o matadouro sem reagir. Em algum momento será necessário uma freada de arrumação com Lula interrompendo sua ofensiva internacional, voltando-se para o dia a dia político e articulando as armas de que dispõem a Presidência.

Há um conjunto de instrumentos para enfrentar a crise, e que passam ao largo do arcabouço fiscal, como o poder de fogo dos bancos públicos, os projetos da Petrobras, os estímulos fiscais a novos investimentos.

A questão é o tempo político e a disposição política de Lula de sair da cartilha liberal – algo que só ocorreu nos dois primeiros governos devido à crise mundial de 2008.

Na sua volta ao poder, em 1950, Getúlio Vargas não demonstrava mais o tirocínio político e a energia do período anterior. Conspiravam contra o novo quadro político, diferente do seu período de liderança, a própria idade e o clima anticorrupção pesado, que precede os grandes golpes.

As constantes viagens internacionais de Lula são relevantes para a recolocação do país na geopolítica internacional e para a atração futura de investimentos. Mas a grande batalha é aqui e agora. E tem-se uma correlação de forças fortemente desfavorável.

Que estratégia adotará? Nunca a habilidade política de Lula será colocada tanto à prova. Mesmo sabendo-se que no fim do túnel tem um bolsonarismo aguardando a presa.

sexta-feira, 31 de março de 2023

O Plano Haddad do arcabouço fiscal e o futuro, por Tereza Cruvinel

 


"Marco fiscal apresentado pelo ministro conseguiu atender à demanda fiscalista e também à exigência social-desenvolvimentista de Lula", diz Tereza Cruvinel

www.brasil247.com - Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet e auxiliares do Ministério da Fazenda durante apresentação do novo marco fiscal - 30.03.2023

Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet e auxiliares do Ministério da Fazenda durante apresentação do novo marco fiscal - 30.03.2023 (Foto: Diogo Zacarias/Min. Fazenda)

O marco fiscal apresentado pelo ministro Fernando Haddad e equipe ditará o futuro da economia brasileira nos próximos quatro anos (logo, o de tods nós), e por decorrência o futuro do governo Lula e o destino político do próprio Haddad.  Afora a consistência técnica, a costura política prévia foi bem feita, aplainando o caminho para a aprovação no Congresso.

A proposta conseguiu atender à demanda fiscalista,  de regras para equilibrar as contas federais e controlar a evolução da dívida pública, e também à exigência,  digamos, social-desenvolvimentista do presidente Lula, ao garantir espaço para o investimento e o crescimento,  e também para as políticas sociais. Haddad chegou o mais próximo possível do desafio por ele mesmo definido como "agradar de Campos Neto a Gleisi Hoffmann". Nem o presidente do BC nem a presidente do PT soltaram fogos mas também não a atacaram.  

Entre economistas, empresários e políticos a reação foi positiva, com ressalvas pertinentes quanto a um ponto essencial: o êxito da aplicação do plano dependerá muito do crescimento das receitas. Logo, de uma reforma tributária que não signifique aumento da carga tributária atual, vale dizer,  que não crie novos impostos ou aumente alíquotas de tributos existentes.  O dinheiro terá que vir, então, dos que sonegam e dos que não pagam impostos, resumindo o slogan eleitoral de Lula: os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda.

O êxito está atrelado ao crescimento da receita porque a âncora principal é a regra que permite ao governo expandir o gasto em, no máximo, 70% da expansão da receita. Com a "sobra" de recursos é que Haddad espera alcançar o objetivo ambicioso de zerar o deficit fiscal no ano que vem, fazer um superavit de 0,5% em 2025 e de 1% em 2026. O deficit deste ano ficará numa banda flutuante entre 0,25% e 0,75% do PIB. A meta é fechar o ano com deficit de 0,5%. Terá que haver aperto para se chegar a tanto.

Mas não só de aperto é feito o plano de Haddad. Um ponto anticíclico da proposta, para uma economia constipada,  é o que estabelece um piso de investimento de  R$ 75 bilhões mais a inflação. Esta regra pró-crescimento atende Lula em sua angústia para que a economia se mexa e gere empregos. O mesmo vale para a previsão de que, se a meta fiscal for superada, o excedente será destinado a investimentos.

Diferentemente do teto de gastos de Temer, que limitava o aumento do gasto ao valor do ano anterior corrigido pela inflação, imobilizando o governo e ignorando os imprevistos, como aconteceu no estouro da pandemia, a proposta estabelece que a despesa, desde que limitada a 70% do crescimento da arrecadação, poderá crescer entre 0,6% e 2.5% acima da inflação.  Esta é outra reserva para que o governo possa avançar com políticas públicas para o bem de todos, especialmente para socorrer os mais pobres.

Vai também ao encontro das demandas do presidente Lula a manutenção dos gastos mínimos constitucionais com educação e saúde. Ficam também fora dos linites os gastos com o Fundeb, que financia a educação básica,  e com o piso nacional de enfermagem.

Afora outras bandas e gatilhos, este é o cerne do plano Haddad. Se  a implementação for exitosa, lembrando sempre a dependência da reforma tributária que ficará para o segundo semestre,  Lula disporá das condições para fazer o governo com que sonha: de crescimento econômico, geração de empregos, maior bem estar para todos e redução da miséria que campeia no Brasil.

Quando ele escolheu Haddad para ministro da Fazenda, houve quem disse que era um erro sacrificar o quadro mais promissor do PT numa missão espinhosa, em que ele poderia ser carbonizado. A herança foi das piores: Bolsonaro desmoralizou a regra do teto de gastos, entregou um deficit e uma  dívida pública cavalares, enfim, uma economia desorganizada e sem perspectivas. Ele irá sempre usar a pandemia como desculpa mas foi para tentar se eleger que ele cometeu os maiores desatinos, a queima de recursos que arrombou de vez as contas.

Mas Haddad também queria o cargo e agora faz uma aposta alta. Se tiver êxito, estará credenciado a disputar a sucessão de Lula, a não ser que ele resolva disputar a reeleição, o que descartou na campanha mas já disse que, dependendo da situação, pode concorrer.

Falta, como já dito, a reforma tributária e a aprovação parlamentar. A propostá será apresentada ao Congresso, possivelmente na semana que vem, através de um projeto de lei complementar (PLC) , como previsto na chamada PEC da transição. Não sendo por medida provisória, passará ao largo da querela entre Senado e Câmara sobre o rito, mas exigirá um quórum alto. Não tão alto como o das PEC, de 308 votos na Câmara, mas o de maioria absoluta, 257 votos na Câmara, por exemplo.

No primeiro momento, ouvimos elogios dos líderes, e até de parlamentares da oposição. O presidente da Câmara, Arthur Lira, aplaudiu com a ressalva de que agora é preciso garantir o crescimento da arredação. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, foi mais efusivo, e a situação do governo na Casa é mais tranquila.

De sua parte, Lira já antecipou que indicará como relator na Câmara um deputado do PP. E este foi um pedido sabe de quem? Do presidente do partido, Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro. Obviamente não fez o pedido porque deseja ajudar o governo Lula. Os cotados são os deputados Claudio Cajado (BA), Covati Filho (RS), Fernando Monteiro (PE) e Mário Negromonte (BA). Este último, tendo sido ministro de Dilma, talvez agrade mais o governo. Tudo o que não interessa a Haddad é um relator que resolva fazer mudanças nas regras fundamentais.

Aprovar o plano será o grande teste político do governo, agora mais do que nunca premido pela necessidade de consolidar uma base de apoio. Aprovar o plano, e executá-lo com sucesso, é a chave do futuro.