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sábado, 9 de abril de 2016

Bárbara Garcia sobre a atitude anti-democrática, parcial e pró-golpismo da Grande Mídia


Do Diário do Centro do Mundo

Em ato no Sindicato dos Jornalistas contra o golpe e pela democracia, a jornalista Barbara Gancia contou bastidores de sua demissão da Band News FM.
“Nos fizeram acreditar que o Lula inventou a luta de classes. Na década de 60 nós já andávamos de carro blindado”, disse.
“Fui demitida da Band porque me recusei a pegar leve com o Eduardo Cunha”, afirmou. “Um belo dia recebo uma orientação: você não pode falar do Eduardo Cunha porque ele é primo do Johnny Saad (dono da emissora). Como assim? Eu sou comentarista, jamais podia aceitar uma coisa dessas”.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A ânsia de vômito causada pela mídia

  "Sinto ódio. Ódio e nojo da ditadura." Com essa frase, o então chefe da oposição à ditadura militar, Ulisses Guimarães, revolvia os sentimentos mais recônditos despertados por um regime que censurava, perseguia, cassava, bania, torturava, sequestrava e assassinava opositores do regime. Mais de 40 anos depois, experimento repugnância semelhante diante do que se transformou a mídia monopolista brasileira. A caçada do cartel ao ex-presidente Lula supera em sordidez e canalhice até mesmo o cerco midiático que levou Vargas ao suicídio.

Artigo de Bepe Damasceno, extraído de seu Portal


A ânsia de vômito causada pela mídia

 FEV 03, 2016 

Por Bepe Damasco                                                 


"Sinto ódio. Ódio e nojo da ditadura." Com essa frase, o então chefe da oposição à ditadura, Ulisses Guimarães revolvia os sentimentos mais recônditos despertados por um regime que censurava, perseguia, cassava, bania, torturava, sequestrava e assassinava opositores do regime.
Mais de 40 anos depois, experimento repugnância semelhante diante do que se transformou a mídia monopolista brasileira. A caçada do cartel ao ex-presidente Lula supera em sordidez e canalhice até mesmo o cerco midiático que levou Vargas ao suicídio.
Os barões da mídia mandaram às favas quaisquer resquícios de pudor. Uma amiga jornalista diz sentir vergonha alheia da imprensa. Da minha parte, o caso é mais grave. É clínico.
 Mesmo sem ler Folha, Veja, Globo e Estadão há tempos, para zelar pela minha saúde física e mental, e por uma questão de assepsia, acabo tomando conhecimento pelas redes sociais, e por blogs e sites alternativos, do que publicam.
Aí são inevitáveis os engulhos estomacais, a  ânsia de vômito. Como evitar tamanho mal-estar diante do linchamento de um ex-presidente que ousou tirar 40 milhões de brasileiros da miséria e por isso é respeitado no mundo inteiro ?
Cega de ódio de classe, a mídia não hesita em enveredar pelo ridículo, pelo patético, pelo tragicômico. São estranhos triplex de 80 metros quadrados que Lula não comprou, mas poderia pagar com três palestras, barcos de lata de 4 mil reais e o "uso" de um sítio por Lula e sua família.
E não adianta a apresentação de documentos, como fez Lula, desmontando toda a farsa. O buraco é mais embaixo. Como diz o ex-governador Tarso Genro, os métodos utilizados são nazistas. E a mentira e a calúnia usadas a exaustão sempre estiveram no centro da tática hitlerista. Joseph Goebbels que o diga.
Está visceral e irremediavelmente apodrecida uma imprensa que despreza a apreensão de 400 quilos de cocaína num helicóptero de um aliado de Aécio, que passou batida pelo aeroporto construído pelo ex-governador de Minas em sua propriedade, que ignora as centenas de viagens particulares de Aécio em avões do governo mineiro, que esconde o apartamento de FHC em Paris, etc, para perseguir e caçar o mais popular presidente da história do país.
As razões que a animam são políticas, mas são também econômicas. Uma eventual vitária de Lula em 2018 jogaria por terra uma espécie de Proer específico para os grupos de mídia, visto por eles como uma saída para estancar a crise financeira que atravessam, produto de uma acentuada perda de credibilidade, que fez despencar a audiência e o número de leitores. E só uma restauração conservadora poderia salvá-los.

domingo, 15 de março de 2015

A pouca moral que poderia ainda restar no tacho hipócrita da grande mídia e suas seis famílias caiu por terra com a divulgação de nomes de suas fileiras na lista do HSBC



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Diz a sabedoria popular que quem muito grita muito esconde. Pois bem, a mesma "grande mídia" das seis poderosas famílias da área de comunicação a imperarem no Brasil, e que tanto faz para estimular mais um golpe neste país (fizeram exatamente a mesma coisa em 1954, com relação a Getúlio, e em 1964, derrubando Jango), teve sua hipocrisia posta a nu com a lista dos envolvidos no escândalo internacional do HSBC, ou SwissLeaks.

 
 Ao menos (e o número ainda pode aumentar, já que a divulgação, aqui no Brasil, primeiramente ficou nas mãos de um empregado da família Frias, da Folha e, agora, está nas mãos da Globo) 22 empresários ligados ao setor das Comunicações e suas famílias, bem como sete jornalistas conhecidos e auto-intitulados "formadores de opinião", estão envolvidos no escândalo de desvio de divisas para o exterior no caso Swissleaks, o que constitui, no mínimo, um crime a ser apurado. Mas o mais importante é que tal fato põe ainda mais sob suspeição a moral e os interesses dos grandes grupos midiáticos deste país e sua associação explícita e amoral com o golpismo. Afinal, eles não parecem estar sozinhos na tática de desviar divisas e devem apoiar que os ajuda neste mister, impreterivelmente gente de direita ou ligadas aos setores mais conservadores da sociedade. Aliás, entre os envolvidos no escândalo, constam nomes e grupos ligados ao escândalo do Trensalão Tucano-Alstom.

 Na lista dos correntistas do HSB em Genebra, Suíça, estejam ou não ainda ativas suas contas, podemos ver, entre outros, os nomes de:

* Octávio Frias de Oliveira, Luis Frias e Carlos Caldeira Filho, do grupo Folha/UOL.

* Quatro integrantes da família Saad, do grupo Bandeirantes: João Jorge Saad (o fundador do grupo, já falecido), Maria Helena Saad Barros, Ricardo Saad e Silvia Saad Jafet.

* Lily de Carvalho Marinho, viuva de donos de jornais Horácio de Carvalho e das Organizações Globo, Roberto Marinho.

* Membros proprietários do Grupo Edson Queiroz, da TV Verdes Mares e Diário do Nordeste: Lenise Queiroz Rocha, Paula Frota Queiroz e Yolanda Vidal Queiroz.

* Luiz Fernando Ferreira Levy, da extinta mas até então influente "Gazeta Mercantil".

* O histriônico "Ratinho", Carlos Roberto Massa, ligado ao SBT e dono da "Rede Massa", do Paraná, que tanto dizia que Dilma Rousseff (que não aparece na lista) deveria "fugir" do país.

* Aloysio de Andrade Faria, do Grupo Alfa (da rede Transamérica).

Dos jornalista envolvidos, devemos destacar o nome de Mona Dorf, braço direita do ultra-direitista Reinaldo Azevedo (que está na planilha de pagamento do grupo Camargo Correia).

Para maiores detalhes do caso, consulte os textos de Rodrigo Vianna (clique aqui) ou, se desejar de um dos empregados dos grupos envolvidos, o de Fernando Rodrigues (clique aqui).

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Jornalista Ricardo Boechat critica oportunismo golpista de FHC




  O jornalista Ricardo Boechat, do grupo Bandeirantes de rádio e televisão, critica contudentemente o oportunismo golpista de Fernando Henrique Cardoso sobre as investigações (tantas vezes seletivas) do caso Petrobrás. Ao vivo, Boechat aponta as mazelas que o partido de FHC, o PSDB, fez contra a estatal,  aliás uma das muitas mazelas jamais investigadas nos paulistanos tempos tucanos, e a escancarada tentativa de manipulação política pró-golpismo da oposição. Veja aqui o que disse o jornalista, âncora do Jornal da Band, para a rádio Bandeirantes:


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Do obsevatório da Imprensa: A alteridade cínica da grande mídia - Copa , Violência Urbana insuflada e seu uso tendencioso, pela mídia, para fins políticos

Extraído do Observatório da Imprensa:


VIOLÊNCIA URBANA

A alteridade cínica da grande mídia

Por Venício A. de Lima em 11/02/2014 na edição 785


A Rede Globo de Televisão recomendou a seus jornalistas, inclusive os que trabalham em suas 122 (cento e vinte e duas) emissoras afiliadas, “que a Copa e a seleção brasileira são uma paixão nacional, mas que irregularidades deverão ser denunciadas e ‘pautas positivas’ deverão ser evitadas, a não ser que ‘surjam naturalmente’. Reportagens que mostram como a Copa está beneficiando grupos de pessoas, como os comerciantes vizinhos a estádios, já não estão sendo produzidas para o Jornal Nacional” (ver aqui, e aqui a resposta da Globo).

No telejornal SBT Brasil, a âncora fez aberta apologia de “justiceiros” vingadores que espancaram, despiram e acorrentaram pelo pescoço um suspeito adolescente, de 15 anos, a um poste no Flamengo, no Rio de Janeiro (ver aqui).

A recomendação da Globo e a posiçao defendida no SBT – concessionárias do serviço público de radiodifusão – teriam alguma relação com o aumento da violência urbana?

Mídia e violência

Em artigo recente, neste Observatório, comentei a “pauta negativa” do jornalismo regional em Brasília que chamei de “jornalimso do vale de lágrimas” (ver “O ‘vale de lágrimas’ é aqui“).

O que me traz de volta ao tema é, especificamente, a alteridade cínica do jornalismo do vale de lágrimas na cobertura da violência urbana. Esse tipo de jornalismo “faz de conta” de que a mídia não tem qualquer responsabilidade em relação ao que ocorre na sociedade brasileira. Ela seria apenas uma observadora privilegiada cumprindo o seu papel de tornar pública a violência e cobrar mais policiamento dos governos local e federal – como se a solução da violência fosse um problema apenas de mais ou menos policiamento.

Por várias vezes tratei dessa alteridade cínica neste Observatório, sobretudo em função das evidências acumuladas ao longo de anos de pesquisa em vários países que relacionam a violência ao conteúdo da programação da mídia, sobretudo da televisão (ver “A violência urbana e os donos da mídia“, “A responsabilidade dos donos da grande mídia“, “As lições do caso Santo André“, “A liberdade de comunicação não é absoluta“, “A mídia e a banalização da violência“ e “A lógica implacável da mercadoria“).

Ainda na década de 1990, em palestra que fez na Universidade de Brasília, Jo Groebel – professor da Universidade de Utrecht, na Holanda, e representante da Sociedade Internacional de Pesquisa sobre Agressão nas Nações Unidas – não deixou dúvidas sobre a existência de uma relação entre a predominância da violência na programação da televisão e a tendência para a agressividade de jovens e adultos. Baseado em mais de 20 anos de pesquisa ele afirmou que a televisão “faz com que as pessoas pensem que a violência é normal” e que “quanto mais desigual a estrutura da sociedade maior o impacto da violência mostrada na TV”.

Nos Estados Unidos, os “National Television Violence Studies”, financiados pela National Cable Television Association (NCTA), também realizados nos anos 1990 por um pool de grandes universidades – Califórnia, Carolina do Norte, Texas e Wisconsin –, confirmaram as conclusões de Groebel e geraram uma série de recomendações sobre o conteúdo da programação para a indústria de entretenimento.

Em 2008, foram divulgados os primeiros resultados de uma longa pesquisa realizada por professores da Rutgers University, nos EUA, que vincula violência na mídia e agressividade em jovens. No estudo, foram entrevistados 820 adolescentes do estado de Michigan. Destes, 430 eram alunos do ensino médio de comunidades rurais, suburbanas e urbanas. Outros 390 eram delinquentes juvenis detidos em instituições municipais e estaduais, distribuídos equilibradamente entre os sexos masculino e feminino. Pais ou guardiões de 720 deles também foram entrevistados, assim como os professores ou funcionários que lidavam com 717 dos jovens.

A pesquisa revelou que mesmo considerando outros fatores como talento acadêmico, exposição à violência na comunidade ou problemas emocionais, a “preferência por mídia violenta na infância e adolescência contribuiu significativamente para a previsão de violência e agressão em geral”. E conclui: “você é o que assiste”, quando se trata da população jovem (ver aqui).

Certamente outras pesquisas atualizam e confirmam esses resultados, além de incluir também o cinema e os videogames, estes últimos um fenômeno mais recente.

Será que a presença maciça da violência na programação de entretenimento da mídia eletrônica e da televisão brasileira (aberta e paga), em especial, não é um dos fatores que contribui para o aumento da violência urbana?

A mídia e a Constituição 

Um dos artigos não regulamentados da Constituição de 1988, o 221, reza:

A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Será que praticando o jornalismo do vale de lágrimas, excluindo a pauta positiva e defendendo os “justiceiros” vingadores, a grande mídia brasileira está cumprindo a Constituição de 1988?
A quem cabe a fiscalização dos contratos de concessão desse serviço público?
Com a palavra o Ministério Público e o Ministério das Comunicações.

***
Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor, com Juarez Guimarães, de Liberdade de Expressão: as várias faces de um desafio (Paulus, 2013), entre outros livros

Veja também: A confiança da grande mídia em questão

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ONU reconhece mais uma vez a realidade o Aquecimento Global


Do Observatório da Imprensa:

AQUECIMENTO GLOBAL

A Terra sob ameaça real

Por Ulisses Capozzoli em 01/10/2013 na edição 766

A versão mais pessimista entre os quatro cenários considerados possíveis para o aquecimento global com mudanças climáticas, preparados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC), órgão das Nações Unidas (ONU), prevê que a temperatura média da Terra pode elevar-se em quase 5º C (4,8º C) até 2100 (ver aqui, em inglês).
É uma situação catastrófica e inédita na história da civilização, ainda que a maior parte das pessoas possa não se dar conta disso levando em conta a variação térmica de um único dia, que pode iniciar-se, digamos, com 16º C e atingir 36º C ou mais, antes de voltar a cair.
A diferença, aqui, está na expressão “temperatura média”, o que significa dizer que as temperaturas diárias globais serão significativamente elevadas e nos levam, a cada dia, para uma situação de completa insustentabilidade em escala planetária.
De um ponto de vista local, o pior cenário sugere que poderá haver tanto aquecimento insuportável quanto frio intenso, resultados de alterações no regime de ventos e correntes marinhas e, em muitos casos, custará a vida de pessoas e animais, sem incluir impactos agrícolas, com o comprometimento de safras.
Mas o que isso tem a ver com jornalismo, foco deste Observatório da Imprensa? Tem, em linguagem mais coloquial, tudo a ver, e ao longo deste texto vamos demonstrar essa relação. Antes disso, certamente vale a pena advertir que os dados que começaram a ser divulgados na sexta-feira (27/9) em Estocolmo, na Suécia (parte do quinto painel e que serão liberados até outubro de 2014), são conservadores, no sentido de já estarem desatualizados.
Um estudo publicado em novembro passado, e não incluído neste quinto painel, por exemplo, mostra que o permafrost do Ártico (terras congeladas) está se descongelamento mais rapidamente que o previsto e esse processo injetará um volume adicional de gases de efeito estufa na atmosfera, o que deve acelerar as mudanças em curso.
Camadas de gelos polares, no Ártico e na Antártida, também estão se desfazendo em ritmo mais acelerado do que o estimado antes, contribuindo para a elevação dos níveis oceânicos em todo mundo por aumentar o volume de água retirada dos continentes, despejada nos oceanos globais. Sem levar em conta a expansão térmica da água, provocada justamente pelo calor que tende (até que ponto?) ser absorvido pelos oceanos.
O grande desconhecido
Qual exatamente o impacto desse efeito?
A resposta é simplesmente um “não sabemos” e isso por um conjunto de razões que vão da complexidade intrínseca da climatologia à impossibilidade de se predizer como os oceanos vão reagir à essa nova injeção de agentes do efeito estufa.
Em julho deste ano, Kerry Emmanuel, do Massachusetts Institute of Technology (referências da edição de novembro da Scientific American Brasil, neste momento em fase de edição), atualizou modelos computacionais utilizados pelo IPCC com dados mais precisos sobre ciclones. Com isso demonstra que ainda durante a vigência do relatório que começou a ser divulgado tempestades poderosas, e por isso mesmo destruidoras, devem aumentar não apenas em intensidade, mas também em frequência em todo o mundo.
O que, em síntese, um quadro como este sugere? Que o IPCC deve alterar imediatamente sua forma de produzir e liberar dados, de forma que a opinião pública internacional, melhor e mais rapidamente informada, pressione seus governos a adotar políticas restritivas às emissões de gases de efeito estufa.
De imediato, essa é a única alternativa ao alcance das mãos da sociedade humana. E o resultado desse esforço deve convergir para próxima conferência das partes, que reúne 195 países, marcada para 2015, em Paris, numa tentativa de limitar o aquecimento a 2º C.
E aqui entra o papel da imprensa.
A mídia deve sensibilizar para cumprir o papel que lhe é devido, avaliando com mínimo de lucidez conteúdos relevantes e separando-os do que simplesmente é destituído de importância, num processo amplo de equipar comunidades nacionais para uma tarefa que até recentemente parecia impensável, por semelhar cenário da pura ficção: inibir o descontrole climático da Terra, nossa morada cósmica.
As vozes cínicas de sempre, comprometidas com a memória e não com a inteligência, pautadas pelo ego e não pela ética (e estética), certamente esboçarão sorrisos irônicos típicos, de comportamento acovardado. Dirão que não está devidamente demonstrado que o aquecimento global com mudanças climáticas é devido a ações antrópicas (deflagrado por humanos).
O mito do aquecimento natural
Argumentarão, como têm feito nos últimos tempos, que mudanças naturais, entre elas devido à variação da radiação solar, alterações orbitais de longos períodos da Terra e mesmo a travessia de nuvens galácticas mais densas, de gás e poeira, no deslocamento do Sistema Solar em direção à constelação do Hércules (ápex solar), justificam essas alterações.
O clima, de fato, é extremamente dinâmico e temperaturas globais médias mais elevadas foram registradas, por exemplo, durante o longo reinado dos dinossauros, algo entre 200 milhões e 65 milhões de anos atrás. Ocorre que essas mudanças foram lentas, com tempo para que as espécies se adaptassem (ainda que a extinção seja igualmente dinâmica), o que não ocorre neste momento.
E, de certa forma, o mais importante. Esse passado remoto não incluiu uma civilização como a atual. Os humanos sabem das ocorrências passadas por marcas deixadas por esses processos naturais em rochas e gelos polares, mas não estavam lá para presenciar essas cenas.
Agora, passamos de 7 bilhões de pessoas na Terra, o que significa dizer que temos, de um ponto de vista de ciência e ética, um compromisso que não havia no passado remoto.
O relatório do IPCC fala em 95% (contra 90% anteriormente) de certeza de o aquecimento global atual – disparado após a deflagração da Revolução Industrial, que lançou mão da energia contida em combustíveis fósseis em vez de músculos humanos e animais para produzir trabalho e, portanto, riqueza – ser de origem antrópica.
Os 5% restantes para completar 100%, na verdade, são uma margem de manobra para evitar críticas metodológicas de um pensamento predominantemente conservador quanto à interpretação da natureza antrópica do aquecimento.
Mas, e se essa pequena margem, os 5%, ainda puderem ser a interpretação correta do fenômeno (aquecimento natural)? As iniciativas preservacionistas, sugeridas pela versão antrópica, seriam, comparativamente falando, negativas em que? Em praticamente nada. Daí a conveniência de serem adotadas o mais breve possível.
Individualmente, é mais inteligente nos prepararmos para riscos maiores e, se eles não se revelarem tão desastrosos, tanto melhor. E isso também é válido para o coletivo, neste caso o conjunto da sociedade humana.
Assim, estaremos, como se pode dizer coloquialmente, “no lucro” e não no prejuízo, como sugerem recomendações que vão das fábulas de Esopo a uma diversidade de mitologias de todos os povos. Sem falar em procedimentos práticos para evitar acidentes como choques e incêndios em atividades que se estendem de estradas de ferro às vias aéreas, passando por ambientes industriais e moradias urbanas.
A crise da mídia
A mídia, no entanto, tem se mostrado ao rés do chão em meio ao processo de banalização que varre o mundo, peste que assola períodos de grandes transformações, quando o passado deixa de ser o que era e o futuro ainda não é o que virá a ser.
A grande mídia brasileira, em particular, está envolvida numa luta ideológica banal e mesquinha, com a determinação cotidiana de demonstrar que o governo que está aí não sobrevive por muito tempo: via inflação descontrolada (que não se confirma), apagão elétrico (que não se manifestou) ou, explosão do dólar (que não ocorreu).
O comprometimento ideológico rasteiro da grande mídia busca amparo na previsão largamente duvidosa de economistas, com pretensão de ciência exata, o que a economia está longe de ser e sugestivamente remete ao comentário ácido da rainha Elizabeth, sobre a crise de 2008: “De que se ocupavam os economistas, que não enxergaram nada disso?”
Claro que todo governo deve ser vigiado pela opinião pública, independentemente de sua coloração ideológica, mas esse já é outro assunto em que não convém entrar.
Em relação ao conteúdo divulgado pelo IPCC, agora, e o que deve ocorrer até outubro de 2014, é necessária uma reação nova e inédita da comunidade internacional via governos nacionais – o que não é nada trivial, deve-se reconhecer. Usinas nucleares, por exemplo, poderiam, de quase imediato, substituir as unidades térmicas, que no Brasil e outros países, oferecem energia elétrica a um brutal custo ambiental.
Usinas nucleares, em relação a gases de efeito estufa, são “limpas”, mas trazem temores, em parte fundamentados, por casos como o que ocorreu recentemente em Fukushima, no Japão.
Fontes alternativas também podem ajudar a diminuir a dependência dos combustíveis fósseis, mas não abastecerão as demandas globais, a menos que ocorram avanços científico-tecnológicos revolucionários na captação e uso, por exemplo, da energia solar, algo muito improvável.
Na essência, questões como aquecimento global com mudanças climáticas por liberação de gases de efeito estufa dizem respeito a uma transformação paradigmática nos padrões de energia utilizados por uma civilização como a nossa, que se prepara para espalhar-se por seu sistema solar de origem, supondo que não sejamos os únicos no Universo.
Um cenário de ficção
Pode parecer ficção, e de alguma forma é, com a diferença de que, neste caso, o futuro chegou e não está mais abaixo da linha do horizonte.
O astrofísico soviético Nikokai Kardashev antecipou-se a isso, em 1964, quando propôs um modelo para avaliar o grau de desenvolvimento tecnológico de uma civilização a partir da quantidade de energia consumida, neste caso em escala logarítmica, dividida em três grupos.
A primeira delas consumiria toda a energia de seu planeta de origem. A de segundo tipo sugaria a energia de sua estrela-mãe, no nosso caso o Sol. A terceira exploraria a energia de uma galáxia inteira.
Abordagens mais recentes (Zoltan Galantai) falam de um quarto típico, capaz de explorar a energia do universo visível ou (Milan M. Cirkovic) de um superaglomerado galáctico.
O conforto da ficção científica é que, na literatura, não somos personagens, ao contrário do que ocorre na vida real com a consolidação das previsões do IPCC.
Na vida real, em que se enquadram as previsões do painel da ONU, mudanças climáticas vão ameaçar desde o voo de aviões, com aumento de turbulência, à produtividade agropecuária nos campos, passando pela queda na oferta de alimentos dos mares, acidificados e com a vida comprometida. Além, como parece já ficar evidente, do aumento de desastres naturais.
Os preciosos estoques de águas deverão sofrer desvios ou se tornarão ainda mais escassos em determinadas regiões, com perturbação do ciclo hidrológico, a maneira como a água circula na Terra, acumulando-se em nuvens e precipitando como chuva ou neve, para abastecer fontes de lagos e rios que correm para o mar.
Num cenário assim, as previsões do IPCC, embora pareçam pura ficção, na realidade advertem de forma dramática que nossos netos não herdarão a Terra.
***
Ulisses Capozzoli, jornalista especializado em divulgação científica, é mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo e editor de Scientific American Brasil