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sábado, 9 de maio de 2020

Coronavírus: Após confinamento rigoroso, número de mortos na Espanha continua em queda



Na segunda-feira, 51% da população passará para a fase um de um plano de flexibilização em quatro etapas, depois que o governo decidiu que as regiões em que viviam atendiam aos critérios necessários.
Jornal GGN – O número diário de mortos na Espanha por coronavírus Covid-19 continua em queda, apontando para o segundo menor desde meados de março e uma parte do país se prepara para a próxima fase de saída de um dos mais rígidos confinamentos da Europa.
A primeira fase inclui um considerável alívio das medidas, permitindo que as pessoas se desloquem por sua província, além de assistir a concertos e ao teatro. Serão permitidas reuniões de até 10 pessoas.
Na segunda-feira, 51% da população passará para a fase um de um plano de flexibilização em quatro etapas, depois que o governo decidiu que as regiões em que viviam atendiam aos critérios necessários.
Nas regiões que fizeram o corte, incluindo as Ilhas Canárias e Baleares, bares, restaurantes e lojas abrirão com capacidade reduzida, e museus, academias e hotéis abrirão suas portas pela primeira vez em quase dois meses. No entanto, as duas maiores cidades do país – Madri e Barcelona – atualmente não atendem aos critérios de flexibilização.
O número de mortos diariamente por Covid-19 no país caiu para 179 no sábado, ante 229 no dia anterior e uma fração de elevações acima de 900 no início de abril. O total de mortes acumuladas subiu para 26.478, enquanto o número de casos diagnosticados subiu para 223.578, de 222.857 no dia anterior, informou o Ministério da Saúde.
Com informações do The Guardian.

sábado, 15 de junho de 2019

“Lava jato é absoluta fraude processual e explicita intervenção dos EUA”, diz ao DCM advogado e deputado espanhol



"Não há nada mais simples do que o anticomunismo primário dos dirigentes ultradireitistas. Essa obsessão que impede qualquer tipo de análise. No nosso país, o anticomunismo impediu qualquer tipo de análise política, de conhecimento da realidade. O que o anticomunismo transmite é ódio, um ódio constante, ilógico, irracional, o que ele esconde é a defesa dos interesses das elites econômicas." - Enrique Santiago Romero, advogado especialista em Direito Internacional
Do DCM:
Enrique Santiago Romero, advogado e deputado espanhol
Prevaricação, um delito da Operação Lava Jato que não surpreendeu Enrique Santiago Romero, advogado espanhol especialista em Direito Internacional. Há mais de um ano o recém eleito deputado pela coalizão Unidas Podemos e secretário geral do Partido Comunista Espanhol denuncia a prática de lawfare no Brasil e em diferentes países da América Latina, como uma estratégia preparada pelos Estados Unidos desde os anos 1990.
Segundo o espanhol, as revelações do The Intercept vêm apenas confirmar que Moro e Dallagnol cometeram o crime mais grave da magistratura, que não têm nada de originais. Santiago, que também foi assessor nos processos de negociação de paz na Colômbia, diz que o que o Brasil está vendo desde o golpe que depôs Dilma Rousseff segue à risca o manual de lawfare dos interesses estratégicos americanos.
Nesta entrevista ao DCM, ele aponta quais medidas ele acredita que o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria Geral da República e a defesa de Lula devem tomar, indicando a nulidade de todo o processo que prendeu o ex-presidente. Fala sobre Bolsonaro, que considera uma marionete fascista e ignorante dos Estados Unidos. Comenta o resultado da esquerda nas últimas eleições espanholas, as extremas direitas dos dois países e as lições que Brasil e Espanha devem aprender com seus passados ditatoriais e de crimes contra a humanidade.
DCM – Como vê as revelações do site The Intercept sobre a Operação Lava Jato?
Romero – A mim, não me surpreendeu nenhum pouco saber que o juiz Moro estava dando instruções à procuradoria brasileira sobre como apresentar as acusações, violando os princípios do devido processo e misturando a função inquisitorial, acusadora, com a função de juiz. Não me estranhou porque desde o primeiro momento, o processo contra Dilma Rousseff e logo o processo contra o ex-presidente Lula claramente se marcavam como uma estratégia de “lawfare”, de guerra jurídica, com o objetivo de desprestigiar ambos dirigentes políticos, sem dúvida alguma aqueles que maior projeção política têm o PT no Brasil.
Desprestigiá-los e, conseguir inabilitá-los. Essa campanha de desprestígio não teria sido suficiente para que os brasileiros não votassem neles. Se a campanha de desprestígio não fosse capaz de evitar que os brasileiros votassem em um desses dirigentes, o segundo passo era sua inabilitação política. São operações de lawfare de manual, nada de original. O que me surpreende é que não se tenha percebido isso na sociedade brasileira há muito tempo.
Acredita que fora do Brasil haja consciência do processo de destituição de Dilma Rousseff e toda essa operação?
Isso não pode ser visto como algo isolado. Foi perfeitamente coordenado com uma estratégia de guerra jurídica levada adiante contra a ex-presidenta Cristina Kirchner, de guerra jurídica contra ex-presidente do Equador, Rafael Correa. Previamente também se fez no Paraguai, com o ex-presidente Fernando Lugo. E também se está fazendo a mesma coisa para golpear o processo de paz na Colômbia, contra o mais conhecido dos negociador de paz, ex-guerrilheiro. São continuações da doutrina dos anos 1970 e 1980 da segurança nacional, é uma adaptação da doutrina da segurança nacional. E como tal doutrina, é multifacetada e polivalente. Implementa-se simultaneamente por todo o continente sul-americano.
Está falando de uma intervenção americana?
Sem dúvida alguma. O que aconteceu, em primeiro lugar, em toda a América do Sul, foi uma penetração nos aparatos judiciais por parte dos Estados Unidos, através das agências de cooperação. Os Estados Unidos financiaram escolas jurídicas em vários países. A doutrina de segurança nacional deixou de ser aplicada pelo desaparecimento do bloco socialista da Europa. Começaram a colocar em prática programas de formação para operadores jurídicos e judiciais nos Estados Unidos. Foram numerosos os funcionários judiciais de todos os países da América do Sul que viajaram para os Estados Unidos para fazer esses cursos de formação da mesma forma como antes viajavam os militares da América do Sul para fazer os cursos da Escola das Américas. Enquanto foi-se diminuindo o número de vagas militares na Escola das Américas, foi-se aumentando o número de vagas nos intercâmbios de formação de funcionários do poder judiciário, procuradores, todo tipo de operadores jurídicos. Não é uma coincidência.
Sem mudanças constitucionais, foram modificando o sistema penal acusatório desses países, substituindo na prática por um sistema equivalente ao sistema acusatório da procuradoria que os Estados Unidos levam adiante. Sobretudo, foi-se assentando uma cultura de precedente jurídico própria de um sistema de “common law”. O fato de que os juízes não apenas apliquem a lei mas possam modificar a lei é uma constante cada vez mais habitual. Tudo que significa o “lawfare” é uma estratégia política coordenada, aplicada há muitos anos, preparada faz muitos anos, e que agora está dando seus resultados anulando politicamente aos principais dirigentes, que implantaram sistemas constitucionais alternativos contrários aos empresários americanos, ou que os Estados Unidos creem que são contrários aos seus interesses.
Então para o senhor, não é uma surpresa que uma das conversas reveladas aponte Dallagnol citando uma “articulação com os americanos”?
Não só não é surpreendente como há um ano eu escrevi um artigo sobre o lawfare; isso está sendo preparado desde os anos 1990, investindo-se muito dinheiro e formando muitos funcionários para chegar a isso. Eu não tenho nenhuma dúvida a respeito. O que aconteceu agora no Brasil é parte do grande escândalo que rondou o caso Lava Jato. Ainda ninguém acredita que o presidente Lula tivesse a propriedade do suposto imóvel com que lhe teriam presenteado. E ele foi condenado por conta de um imóvel do qual ele não tem a propriedade.
E tampouco é surpreendente que Sérgio Moro esteja num governo extremamente submisso aos Estados Unidos como é o de Bolsonaro?
É igual ao caso da Escola das Américas, que formavam altas autoridades das forças armadas, que terminavam em golpe de estado, residentes, militares, ministros de governos autoritários. Pois obviamente, o passo seguinte das operações de “lawfare” é colocar esses funcionários do poder judiciário, que foram formados para os interesses dos Estados Unidos, para aplicar o direito conforme os modelos gerados pelos Estados Unidos. O lógico é que no momento em que tiverem a ocasião, levá-los a altas responsabilidades de Estado.
É o mesmo modelo da doutrina de segurança nacional, com os militares, ou os Chicago Boys, ou seja, todos os que são funcionários submissos aos interesses dos Estados Unidos. Nesse caso, a situação se dirige a controlar as sociedades e seus processos de mudança através do poder judiciário, utilizando uma forma oportunista. Num Estado democrático de direito formal, há independência judicial. Mas veja, na divisão de que falava Montesquieu, de legislativo, executivo e judiciário, o único que não é eleito pelos cidadãos é o judiciário. E é o que, com essa operação política, está dirigindo politicamente os destinos desses países.
Faz parte dessa doutrina a difusão de falsas notícias, como fizeram Bolsonaro, Donald Trump e o Vox, na Espanha?
São outros elementos. Uma das características do lawfare é o desprestígio do adversário político que se pretende criminalizar. O desprestígio se obtém face às massas cidadãs. Porque não se deve esquecer que se trata de desprestigiar e acabar politicamente com dirigentes que, em todos os casos, o denominador comum é que tiveram um importante apoio popular que lhes permitiu implantar, por vias democráticas, governos que defenderam os interesses próprios de seus Estados; a soberania nacional, a qual vai contra os interesses dos Estados Unidos. São duas fases de fundição política desses dirigentes populares. Primeiro, como disse antes, o desprestígio.
Depois, implantar essa campanha nos meios de comunicação, fake news, mentiras, etc. Quando o ambiente já estiver preparado, que se implantou a base de criminalização, de ataque judicial, quando se organizam esses processos fraudulentos, como ficou claro com a Lava Jato, são uma absoluta fraude processual, a opinião pública assume, graças a essa operação prévia de contaminação informativa, antes que haja qualquer procedimento judicial que o dirigente político é culpado, que é corrupto.
E seria essa a razão pela qual uma parte da população segue apoiando a Lava Jato?
Evidentemente. Previamente, houve toda uma preparação cultural, política, através dos grandes meios de comunicação, que obviamente, nas sociedades contemporâneas, infelizmente são o quarto poder, é outro poder que não é eleito pelos cidadãos, exerce-se conforme as designações dos conselhos de administração dos acionistas. E claro que, para esses grandes grupos econômicos, não lhes interessa que se implante políticas de redistribuição da riqueza. O que pretendem é que façam políticas de acumulação em poucas mãos, com baixa tributação, para não dizer uma tributação inexistente. São interesses que se conjugam para acabar politicamente, desprestigiar, inabilitar e prender o líder que está em condições de fazer frente aos seus interesses.
Procuradores da Lava Jato
E qual foi a repercussão na Espanha dessas revelações?
Nós temos nossos próprios escândalos domésticos. Aqui se conheceu nos últimos meses um grande escândalo, que se denominou as “cloacas do Estado”, também de difamação sistemática contra a nova força política, que surgiu nos últimos cinco anos em defesa de interesses populares, Podemos. Desde seu surgimento, Podemos foi se configurando como uma força alternativa em condições de ocupar o poder político por vias democráticas.
Começaram uma campanha de desinformação, que consiste em dizer que Podemos está sendo financiado por potências estrangeiras, basicamente Irã e Venezuela. É uma campanha de intoxicação informativa feita por grupo de polícia constituída irregularmente pelo governo do Partido Popular (direita). Isso está sendo silenciado por todos os grandes meios de comunicação deste país. Incluem-se aí meios supostamente progressistas, como El País, do grupo PRISA. É o maior escândalo de cloacas do Estado desde a transição política. Pois se não dão importância a isso, imagine se vão dar importância ao que se está conhecendo sobre a Operação Lava Jato. Nenhuma.
No Brasil, Globo é a televisão que não está dando importância para as revelações, mas focando nos responsáveis por elas…
Essa é a típica estratégia, de focar no mensageiro, ocultar a verdadeira notícia atacando o mensageiro e lançando dúvidas sobre a forma, o meio, a instituição que a divulgou, como ela obteve a informação. Esse tipo de informação, que expõe a existência de um delito, é obrigação num Estado de Direito que quem tem conhecimento dela leve esse conhecimento às autoridades. Quem, tendo o conhecimento de um delito, não o denuncia, não o informa às autoridades, se converte automaticamente em cúmplice do delito.
E como o Direito na Espanha e na Europa concebem a articulação entre juiz e procurador como fizeram Moro e Dallagnol?
Isso seria absolutamente inaceitável em qualquer estado democrático porque as funções de juiz e procurador são separadas. No Brasil, há uma parte de acusação e garantias judiciais para o acusador. O que ficou claro é que o juiz Moro era parte acusadora, além de suposta parte imparcial. O juiz tinha de cumprir uma tarefa de maneira imparcial. Ele mesmo formulou as acusações. Ele foi juiz e parte. Prevaricação, que é o mais grave delito que pode cometer um juiz.
E o que deveria ser feito agora?
Os problemas políticos se resolvem politicamente. Há que se utilizar ferramentas jurídicas para contribuir para solucionar essa situação. Primeiro, entendo que a própria procuradoria deveria ter aberto um procedimento disciplinar criminal contra esse procurador, que de alguma forma se associou a juiz para prevaricar, ambos, e a procuradoria deveria pedir a anulação das atuações porque há um delito de prevaricação. Eu imagino que os advogados defensores de Lula também poderão fazê-lo, pedir a anulação de tudo que foi instruído pelo juiz Moro.
Como vê o fato de que o presidente continue apoiando Moro e que o condecorou depois das revelações?
Creio que Bolsonaro não é mais do que uma marionete dos poderes que dirigiram essa operação. O próprio Bolsonaro reconheceu, diante de sua nefasta gestão econômica, que é um absoluto ignorante em matéria ignorante. É um ignorante em geral, em tudo. É um líder populista, conservador, fascista, que foi usado como marionete pelos que realmente governam o Brasil. Que ninguém espere uma declaração lógica de Bolsonaro.
Quem são os que realmente governam o Brasil?
Grupos econômicos de interesse dos Estados Unidos. Tenho minhas dúvidas em até que ponto setores do exército poderiam estar ou não nessa operação porque o exército brasileiro sabe que perde em uma situação política do Brasil com os Estados Unidos. Ele sabe que o Brasil perde na medida em que quiser continuar sendo um exército nacionalista, defensor dos interesses nacionais.
O Exército brasileiro é muito complexo, é politicamente conservador, mas também com um alto sentimento nacionalista e isso significa assumir que o maior risco para a soberania nacional do Brasil são os Estados Unidos, que não dissimulam seu desejo de controlar a Amazônia brasileira e disso o Exército brasileiro é muito bem consciente. Na minha opinião, há uma divisão no Exército brasileiro nesses momentos, o que se viu em todos os processos… Foi o que se viu na fronteira com os acontecimentos na fronteira entre Brasil e Venezuela no início do ano. E eu não situaria tão claramente todo o exército brasileiro nessa operação. Situaria os grupos econômicos e, claro, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Acredita que o Supremo Tribunal Federal brasileiro será implacável quando um dos seus ministros, Luiz Fux, é mencionado como fazendo parte da articulação?
O que está em jogo é o prestígio da Corte Suprema. Se não atuar contundentemente sobre uma situação como essa, perderá seu prestígio e sua credibilidade sem dúvida alguma.
Por que há tantas semelhanças entre a extrema direita espanhola e brasileira, como por exemplo o apoio dos mais ricos, um discurso contra a teoria do gênero e o uso de fake news?
A extrema direita espanhola é muito similar à brasileira. E ela é bem pouco parecida com a extrema direita francesa ou italiana. A extrema direita espanhola se caracteriza por ser profundamente neoliberal, ou seja, nada nacionalista em matérias de políticas econômicas, disposta a que de fora da Espanha lhes imponham as políticas econômicas e as decisões de tipo econômico, é uma elite econômica voltada para os setores mais endinheirados. Olhando o mapa da extrema direita francês, ela está arraigada em setores populares. A extrema direita espanhola do Vox em comunidades e setores sociais de classe média alta.
No Brasil, Bolsonaro dizia ter que libertar o país da ameaça comunista. Como o senhor, que é secretário de um partido comunista vê esse tipo de declaração?
Não há nada mais simples do que o anticomunismo primário dos dirigentes ultradireitistas. Essa obsessão que impede qualquer tipo de análise. No nosso país, o anticomunismo impediu qualquer tipo de análise política, de conhecimento da realidade. O que o anticomunismo transmite é ódio, um ódio constante, ilógico, irracional, o que ele esconde é a defesa dos interesses das elites econômicas.
Por que sabe tanto e acompanha a realidade política brasileira?
Não é porque é a brasileira. Faz muitos anos que trabalho com Direito Internacional público, penal, humanitário. Fui assessor cinco anos em Havana no processo de paz da Colômbia. Para mim, tenho um trabalho com a América Latina em geral. E creio que o que acontece na América Latina são estratégias políticas que têm a ver com a doutrina que acaba de lembrar o Sr. Bolton, que os Estados Unidos consideram a América Latina seu quintal. Se tratam assim todo o continente, para conter essa ingerência dos Estados Unidos, há que se tentar que a contestação seja global. Não é que eu tenha uma relação especial com o Brasil. Acredito que o Brasil é mais um país que suporta as estratégias dos Estados Unidos.
00:00/00:40Diário do Centro do Mundo

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sábado, 5 de maio de 2018

Enquanto deita e rola nas cortes superiores do Brasil, Moro perde na justiça da Europa. Por Joaquim de Carvalho



Do DCM:




A decisão da Justiça portuguesa de colocar em liberdade o empresário Raul Schmidt Felipe Júnior é mais uma derrota de Sergio Moro em cortes européias.
Moro já tinha sido derrotado pela Justiça espanhola, que negou no ano passado o pedido de extradição de Rodrigo Tacla Durán.
Tacla Durán tem dupla nacionalidade. Nascido em São Paulo, é filho de espanhol e tem passaportes dos dois países. Raul Schimidt está na mesma condição em Portugal.
No caso de Tacla Durán, a Justiça da Espanha informou ao Brasil que, se a Justiça brasileira quiser processá-lo, que mande as provas para lá e, com base nas leis espanholas, julgará o ex-advogado da Odebrecht.
Só que Moro reteve o processo com ele, e na Espanha Tacla Durán não responde a nenhuma acusação. Segundo nota de Tacla Durán Durán pelo Twitter, nem vai responder.
Moro tem contra ele apenas depoimento de delator e o país europeu, escaldado com a deduragem no tempo da ditadura de Franco, não aceita delação como prova.
Precisa de algo mais, o que a Lava Jato não tem.
Imagine-se a repercussão que teria se o processo fosse enviado para lá e Tacla Durán fosse absolvido?
Ao segurar o processo, o juiz federal de Curitiba dá demonstração de que prefere não correr o risco.
A derrota de Moro na cor portuguesa é de outra natureza.
O juiz conseguiu fazer com que o Brasil enviasse, através do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Justiça, um documento que garante reciprocidade no caso da extradição de Raul Schmidt, acusado no Brasil de pagar propina a ex-diretores da Petrobras.
Só que essa é uma promessa que não pode ser cumprida, por razões constitucionais.
Para entregar Schmidt a Sergio Moro, o Brasil se comprometeu a entregar a Portugal brasileiros que fossem processados pela Justiça portuguesa. A Constituição do Brasil proíbe.
Foi por isso que a defesa de Schmidt recorreu ao Tribunal Regional da 1a. Região, em Brasília, para impedir a extradição. O TRF-1 acatou o pedido da defesa de Raul Schmidt. Mas Moro se recusou a cumprir a decisão, e decidiu que o pedido seguisse tramitando.
O que a Justiça de Portugal fez hoje foi dizer não a Moro. Aqui, o juiz de Curitiba desrespeita instância superior até que esta recue.
Foi assim com o Supremo, num caso sob relatoria de Teori Zavascki no início de 2014, e agora com Dias Toffoli, que não acatou o pedido para tirar de Moro o processo contra Lula sobre o sítio de Atibaia.
Em Portugal, é diferente.
A Justiça de lá se convenceu de que o Executivo brasileiro não podia prometer o que não pode cumprir.
Dane-se o que pensa Moro.
A defesa de Schmidt recorreu ao TRF-1 de Brasília porque o que está sendo contestado não é a decisão de Moro, que em tese responde ao TRF-4.
O que está sendo contestado é o papelucho dos Ministérios da Justiça e Relações Exteriores que foi enviado a Portugal, sem fundamento na Constituição.
O que está sendo contestado é um ato administrativo, com foro em Brasília. Mas Moro esperneou e, contrariado, mandou o Executivo em Brasília acatar sua ordem.
Brasília acatou. Mas Portugal não.
Vitória da lei, num país que se mantém nos trilhos da democracia.
Pena que não é mais assim no Brasil.
.x.x.x.

Foi o processo de Raul Schmidt que levou mais de 400 advogados a divulgar ontem um manifesto que acusa Moro de abuso de autoridade. Nessa queda de braços, estranhamente, o Conselho Federal da OAB continua de braços cruzados. Um advogado que assinou o manifesto diz que a entidade que, em tese, o representa está se comportando como linha auxiliar da Ajufe — a Associação dos Juízes Federais.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Merlí, uma série catalã muito envolvente que fala de filosofia e ética em um ambiente adolescente


Artigo do psicoterapeuta e psiquiatra Guilherme Spadini publicado do The HuffPost:

OPINIÃO

Merlí: Como ser um bom mau caráter

Série espanhola fala de filosofia e moral em um ambiente adolescente.



Guilherme SpadiniPsiquiatra e psicoterapeuta formado pela USP

DIVULGAÇÃO/NETFLIX
Professor Merlí e seus alunos são as estrelas de uma série de ensino médio diferente do clichê hollywoodiano.


Uma das pérolas escondidas no catálogo do Netflix é a série Merlí.
Produzida para a TV na Catalunha, fez enorme sucesso local, antes de ser distribuída no mundo pela Netflix. Trata-se da história de um professor de filosofia, o personagem do título, que começa a lecionar para a turma de seu filho adolescente.
Várias coisas interessantes chamam atenção na série. Um exemplo é a língua. O catalão, que soa como uma mistura de espanhol, francês e português, remetendo ao latim, é uma delícia de se ouvir.
Ou a abertura, em que uma mosca voa ao som do Vôo do Besouro, de Nikolai Rimsky-Korsakov. O inseto é referência a Sócrates, que, dizia-se, era uma mosca chata a importunar os atenienses com seus questionamentos e desafios. Uma metáfora para toda filosofia e seus idólatras pentelhos.


Outro exemplo: é muito curioso reparar nas diferenças entre a representação dos dramas do ensino médio, a que estamos acostumados nas produções americanas, e esta da Catalunha. A gente começa a assistir tentando identificar o atleta escrotão, o nerd que vai sofrer bullying, a diferentona sensível que gosta de fotografia, todos os estereótipos adolescentes a la 13 Reasons Why.
Mas não. É bom ver que ainda existem representações mais reais de como as pessoas realmente vivem. Os adolescentes de Merlí sofrem com bullying, com exposição na rede, com ansiedades e inseguranças, mas tudo é muito mais sutil, e um tanto mais verdadeiro, que nos exageros hollywoodianos.
Agora, o ponto mais instigante para mim, e o motivo deste texto, é a imoralidade da personagem. Merlí é decididamente um mau caráter.
Fosse só isso, nada demais. O cinema é cheio de anti-heróis que nós aprendemos a gostar. Quem não torce por Frank Underwood?
Só que Merlí é mais curioso. Ele é um mau caráter com uma característica peculiar: ele faz bem às pessoas à sua volta. E aí está o desafio - e a recompensa - do esforço de tentar entendê-lo.
Cada episódio de Merlí tem um filósofo famoso como título. O professor discute o filósofo na aula com os alunos, e os acontecimentos daquele episódio fazem o mesmo com o espectador. Não à toa, Nietzsche é o filósofo do último episódio da primeira temporada. É nele que se encontra a chave para decifrar Merlí.

As "morais"

Niezstche foi um crítico da moral. Mas havia como que duas "morais" em Nietzsche. Uma - que ele descrevia como a moral do rebanho e do escravo - era aquela constituída pelo conjunto de valores de uma sociedade. Fixa, rígida, doutrinária, pesando sobre as pessoas, como um cabresto.
Aprendemos essa moral quando somos educados. Quando somos ainda incapazes de compreender valores abstratos e, por isso, apenas imitamos condutas e introjetamos normas. É uma moral de conformismo, segurança e ressentimento.
Já a outra moral nietzscheniana, que seria uma "moral superior", é mais difícil de definir, e dá origem a muita confusão. Muitos críticos entendem que o ideal de "super-homem" que o filósofo alemão defendia seria nefasto - estaria associado às ideias de poder e superioridade que, anos depois, viriam a contaminar tragicamente a Alemanha.
Observar o comportamento de Merlí, no entanto, ajuda a entender essa outra moral. O mesmo professor capaz de sabotar seus colegas e deixar um jovem ser punido pelos erros que ele, o professor, cometeu, também é capaz de apoiar, aconselhar e até curar seus alunos.
Explico o "curar" e dou um motivo para todo profissional de saúde mental ser obrigado a ver esta série: Merlí "trata" um aluno com agorafobia de forma exemplar. Vale um estudo de caso de tudo o que não se pode fazer, de dentro das amarras morais e profissionais, com absoluta eficácia.
Ou seja, Merlí não é amoral, mas responde a uma outra moral com a qual não estamos acostumados. É preciso um exercício mental e uma mudança de perspectiva para que ele faça sentido.
E eis o segredo: ao assistir à série, tente substituir suas avaliações sobre "certo e errado" por "alegre e triste". Verá que tudo faz sentido.
Merlí não se preocupa que algo seja errado, mas se preocupa que algo seja triste. Coisas que diminuem, restringem e constrangem são odiadas por ele. Já coisas que são erradas, feias, estranhas e malvistas não o incomodam em nada.
Da mesma forma, ele não se mobiliza para perseguir o que é certo, aprazível, louvável ou admirável. Mas o faz pelo que expande, transforma, provoca e excita.
Basta ver, ao final de um episódio, o discreto e sincero sorriso do aluno injustamente punido coroando a discussão sobre justiça de que tratou o capítulo. O sorriso de paz, causado pelo turbilhão que ele enfrentou. Sorriso de quem, imobilizado, conquistou o movimento.
Para David Hume, quando afirmamos que algo é errado significa que isso, na verdade, nos causa repulsa. O caso do aluno injustiçado causa repulsa. Até aquele sorriso.
É uma outra linguagem moral, portanto, e o sorriso a decifra: justo é que os bons se alegrem. O resto é conversa.
Merlí é fluente nessa linguagem. Exceto quando não é. Porque, às vezes, ele é só um mau caráter mesmo. Ainda bem. É um personagem ainda melhor por isso.