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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O neo-imperador de extrema-direita norte-americana Donald Trump ressuscita a acusação de fraude de 2020, mira China e amplia tensão às vésperas das eleições legislativas

 

Em discurso na Casa Branca, presidente pressiona Congresso, ataca imprensa e reacende fraude eleitoral às vésperas da votação de meio de mandato

Do Jornal GGN:


Trump ressuscita fraude de 2020, mira China e amplia tensão às vésperas das eleições legislativas


    Donald Trump em foto de Gage Skidmore - Flickr - Reprodução

A menos de quatro meses das eleições legislativas de novembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou um pronunciamento em horário nobre na Casa Branca para retomar acusações, sem apresentar provas, sobre a integridade do sistema eleitoral americano. Em fala de cerca de 25 minutos, o republicano acusou a China de hackear dados de 220 milhões de eleitores na votação de 2020, quando foi derrotado por Joe Biden.

O movimento ocorre em um momento em que as pesquisas indicam dificuldades para o Partido Republicano manter o controle do Congresso. A oposição democrata acusa o presidente de tentar deslegitimar o próximo pleito e preparar o terreno para contestar eventuais derrotas em novembro.

Ofensiva contra Pequim e agências

Durante o discurso, Trump anunciou a liberação de documentos sigilosos que, segundo ele, demonstrariam a vulnerabilidade da infraestrutura eleitoral dos EUA a potências estrangeiras. Ele ordenou que órgãos como o FBI e a CIA investiguem um suposto acobertamento dessas informações por integrantes do próprio governo.

“Não há como um país ser grande sem eleições justas e honestas”, declarou Trump. “Se não houver confiança, não pode haver grandeza. Infelizmente, o sistema que temos está catastroficamente aquém desse padrão.”

As afirmações do mandatário colidem com relatórios da própria comunidade de inteligência dos EUA. Em 2021, uma avaliação oficial concluiu que a eleição de 2020 foi a mais segura da história do país e que nenhum ator estrangeiro, incluindo a China, alterou aspectos técnicos da votação. Em nota, a embaixada chinesa em Washington negou as acusações e afirmou que “sempre respeitou o princípio da não interferência nos assuntos internos de outros Estados“.

Boicote na TV e retaliação

A estratégia da Casa Branca de usar o pronunciamento oficial para fins políticos gerou forte reação dos principais veículos de comunicação. Grandes emissoras de TV aberta, como ABC, NBC e CNN, decidiram não transmitir a fala ao vivo, exibindo o conteúdo apenas em suas plataformas digitais por considerarem o discurso inflamatório.

A decisão irritou o presidente, que atacou as empresas e defendeu punições administrativas. “Eles e outros na mídia fazem parte de uma conspiração. Uma fraude como essa deveria significar a revogação de suas licenças. Eles usam nossas ondas públicas, avaliadas em bilhões de dólares, absolutamente de graça. Não pagam nada“, afirmou Trump.

Apenas a Fox News exibiu a transmissão na íntegra, mantendo um tom cauteloso devido a processos judiciais recentes envolvendo a disseminação de teorias falsas sobre urnas eletrônicas.

Pressão e desgaste político

Analistas apontam que a insistência na pauta eleitoral reflete o pragmatismo de Trump para desviar o foco de problemas centrais de seu segundo mandato, iniciado em 2025. O governo enfrenta desgaste devido à inflação persistente e aos impactos econômicos da guerra com o Irã, iniciada após a “Operação Fúria Épica”. Pesquisas de opinião recentes mostram que a desaprovação ao presidente atinge 61%.

No encerramento do pronunciamento, Trump fez um apelo para que o Congresso aprove o SAVE America Act, projeto de lei que restringe o voto por correio e exige comprovante de cidadania para o registro de eleitores. A oposição e defensores dos direitos civis argumentam que a proposta, sem chances reais de aprovação antes de novembro, serve apenas para dificultar o acesso de minorias às urnas.

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domingo, 11 de janeiro de 2026

O Economista Prêmio Nobel Joseph Stiglitz critica política externa de Trump e fala em novo e violento imperialismo dos EUA

 

Economista diz que ação na Venezuela simboliza uma nova fase no imperalismo liderado por Trump, marcado pela força e desprezo ao direito

Do Jornal GGN: 

Joseph Stiglitz, economista e vencedor do Nobel. Foto: Reprodução/IPD - Initiative for Policy Dialogue, Columbia University

Os Estados Unidos entraram em uma nova era de imperialismo, marcada pelo uso da força, pelo desprezo ao direito internacional e pelo enfraquecimento do Estado de Direito, segundo Joseph Stiglitz, economista e vencedor do Nobel.

Em artigo publicado no Project Syndicate, ele avalia que a intervenção americana na Venezuela simboliza uma mudança profunda na política externa do país, com consequências negativas tanto para os EUA quanto para a estabilidade global.

Segundo Stiglitz, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro violou normas constitucionais americanas e princípios básicos do direito internacional, ao ignorar mecanismos como a extradição e a necessidade de aval do Congresso.

Para o economista, ações desse tipo refletem uma lógica em que “a força faz o direito”, afastando-se de valores democráticos historicamente defendidos por Washington.

O autor também critica declarações do presidente norte-americano Donald Trump sobre controlar a economia venezuelana e se apropriar do petróleo do país, interpretando-as como sinais claros de um projeto imperialista movido por interesses econômicos e não por princípios.

Esse comportamento, alerta Stiglitz, pode estimular retaliações globais, como disputas por áreas de influência e o uso de instrumentos econômicos como armas geopolíticas.

No plano interno, o economista argumenta que o enfraquecimento dos freios e contrapesos institucionais nos EUA favorece a corrupção e a busca de rendas, prejudicando o crescimento econômico. Para ele, sociedades dominadas por interesses rentistas não geram prosperidade sustentável, pois dependem do Estado de Direito e da previsibilidade institucional.

Diante desse cenário, Stiglitz defende que Europa, China e outras regiões não podem depender exclusivamente dos Estados Unidos e devem construir estratégias de contenção e cooperação alternativa. Resistir ao novo imperialismo americano, conclui, tornou-se essencial para preservar a paz e a prosperidade globais.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Discurso de Lula na ONU na última terça-feira, dia 23, ecoou na imprensa internacional na quarta, dia 24

 

Veículos dos EUA, Europa e Ásia repercutem o discurso de Lula na ONU e as sanções externas que ampliam a tensão diplomática do Brasil

Da Redação do Jornal GGN:


A imprensa internacional destacou nesta quarta-feira (24) o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, no qual defendeu a democracia e criticou pressões externas. O Brasil também ganhou espaço na cobertura global em razão das sanções impostas pelos Estados Unidos e de temas econômicos que movimentam o cenário interno. Confira:


A repercussão nos Estados Unidos


O The New York Times destacou a reação do presidente norte-americano, Donald Trump, após o discurso “contundente” de Lula, na Assembleia Geral da ONU. Também citou o breve encontro entre os líderes nos bastidores do evento.

Já o The Washington Post publicou que Trump aproveitou seu discurso para fazer críticas à ONU e atacar políticas climáticas e de migração — e ressaltou o contato com Lula como ato simbólico.

A Reuters fez uma cobertura sobre compromissos econômicos e decisões macro, com reportagem sobre o anúncio de investimento de US$1 bilhão do Brasil no Fundo Global de Florestas Tropicais e também sinalizações do Banco Central quanto à nova etapa de manutenção da taxa Selic.

A agência ainda reportou que Trump anunciou uma reunião com Lula na “próxima semana”, após mencionar que os dois tiveram “química excelente” durante contato nos corredores da ONU.

A The Associated Press (AP), por sua vez, publicou vídeo com trechos do discurso de Lula na ONU e também uma matéria sobre o impacto das leis de armas no tráfico para o crime organizado no Brasil.

A repercussão na Europa


O The Guardian fez uma ampla cobertura do discurso de Lula na ONU, com live-updates e análise do posicionamento do presidente brasileiro contra o que chamou de ameaças autoritárias e pressões externas.

O Le Monde tratou o contexto europeu e global (incluindo críticas a Trump na ONU) e publicou análises sobre a posição do Brasil.

O El País destacou o contato entre Lula e Trump e publicou análise sobre o papel do Brasil na COP30.

AFP / BBC / Deutsche Welle (DW) acompanharam o UNGA e repercussões diplomáticas e domésticas; AFP publicou notas sobre mensagens do Brasil.

A repercussão na Ásia


A cobertura oficial chinesa, da Xinhua, enfatizou a Assembleia Geral da ONU em tom de multilateralismo e destacou o papel do Brasil no debate global (reportagens e fotos do primeiro dia da Assembleia).

China Daily e Global Times publicaram os desdobramentos multilaterais e as oportunidades econômicas/ambientais entre China e Brasil, além de comentar as posições de Lula e as reações às retaliações dos EUA.

O Times of India noticiou a Assembleia Geral da ONU como parte do balanço global do dia, citando o discurso de Lula.

A mídia russa TASS cobriu a participação do Brasil no contexto BRICS/Assembleia Geral da ONU, com foco em respostas multilaterais.

Nota da redação: Este texto, especificamente, foi desenvolvido parcialmente com auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial. A equipe de jornalistas do Jornal GGN segue responsável pelas pautas, produção, apuração, entrevistas e revisão de conteúdo publicado, para garantir a curadoria, lisura e veracidade das informações.

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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Criador da Lei Magnitsky condena sanção a Moraes: “É um abuso político”

 

William Browder, idealizador da legislação, afirma que medida de Trump distorce os objetivos originais da lei e compromete sua integridade

Do Jornal GGN:

William Browder. | Foto: Divulgação/Intrínseca

O uso da Lei Global Magnitsky para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi classificado como um “abuso das intenções da lei” por William Browder, executivo financeiro britânico que liderou a campanha por sua criação nos Estados Unidos. Em entrevista à BBC News Brasil, Browder afirmou que a legislação foi deturpada ao ser aplicada em um contexto de “vingança política”.

“A Lei Magnitsky foi estabelecida para impor sanções a graves violadores dos direitos humanos e pessoas que são culpadas de cleptocracia em larga escala”, explicou. “Ela não foi criada para ser usada para vinganças políticas. O uso atual da Lei Magnitsky é puramente político e não aborda as questões de direitos humanos para as quais ela foi originalmente elaborada. E, como tal, é um abuso das intenções da lei”, completou.

A crítica se dirige diretamente à decisão do governo norte-americano, liderado por Donald Trump, que anunciou na última quarta-feira (30) sanções contra Alexandre de Moraes — medida que, conforme noticiado pelo GGN, prevê o congelamento de bens, o cancelamento de vistos e a proibição de entrada do ministro nos Estados Unidos.

O Departamento do Tesouro, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), justificou a medida alegando que o ministro seria responsável por uma campanha arbitrária contra Jair Bolsonaro (PL).

O caso Magnitsky e a origem da lei

Aprovada em 2012 durante o governo de Barack Obama, a Lei Magnitsky foi criada para punir os responsáveis pela morte do advogado russo Sergei Magnitsky, que havia denunciado um esquema de corrupção envolvendo autoridades da Rússia e morreu sob custódia, em 2009. À época, Magnitsky era advogado de William Browder em Moscou.

CEO da Hermitage Capital Management, Browder foi o maior investidor estrangeiro na Rússia até 2005, quando foi banido do país e incluído na lista de “ameaças à segurança nacional”. “Então fui a público para tentar encontrar uma maneira de fazer justiça por Sergei Magnitsky”, relembra.

Segundo ele, muitos dos envolvidos no crime lucraram e mantinham seu dinheiro fora da Rússia, o que motivou a proposta de sanções como o bloqueio de bens e restrições de viagens. Com o tempo, a legislação foi ampliada e passou a ter alcance global, sendo aplicada a indivíduos e entidades envolvidos em corrupção e violações graves de direitos humanos em qualquer parte do mundo.

Preocupação com precedentes e possível reversão judicial

Para Browder, a iniciativa de Trump compromete a credibilidade e a eficácia da lei, uma vez que aplicada contra Moraes não apenas desvia seu propósito original, como pode comprometer sua legitimidade em casos futuros.

O executivo também acredita que a medida pode ser revertida na Justiça americana, considerando o flagrante uso da lei em desacordo com sua intenção original. Segundo ele, o próprio ministro Alexandre de Moraes pode recorrer: “Acredito que há fortes argumentos para que a decisão seja anulada pelos tribunais”, disse.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Outras Palavras: Capitalismo em xeque: como a Inteligiência Artificial chinesa do DeepSeek expõe as contradições do modelo dos EUA

 

Do Canal Outras Palavras:

O lançamento do DeepSeek, uma plataforma chinesa de inteligência artificial generativa, não apenas capturou a atenção global em questão de dias, mas também expôs as fragilidades do modelo capitalista praticado pelos Estados Unidos. Enquanto as Big Techs americanas, como Microsoft, Amazon e Google, dominam o mercado com práticas que muitas vezes travam a inovação e consolidam monopólios, o DeepSeek surge como uma alternativa disruptiva, questionando a necessidade de investimentos exorbitantes e a dependência de tecnologias proprietárias. Além disso, o sucesso rápido da plataforma chinesa levanta debates sobre a eficácia do capitalismo americano, a concentração de poder nas mãos de poucas empresas e os impactos ambientais e sociais desse modelo. Confira o comentário do jornalista Glauco Faria, no Outra Manhã, programa do Outras Palavras TV.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Lula clama por paz: "a humanidade não precisa de guerra, precisa de emprego, de educação"

 

"Ninguém pode concordar com guerra, ataques militares de um país contra o outro", afirmou o ex-presidente sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia


www.brasil247.com - Lula

Lula (Foto: Ricardo Stuckert | Governo da Ucrânia

247 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) clamou pela paz e deplorou a guerra da Ucrânia, que eclodiu na madrugada desta quinta-feira (24) após ataques da Rússia contra instalações militares. Lula falou em entrevista às rádios Supra e 103.5 FM.

>>> Otan manda tropas em direção à fronteira com a Ucrânia

"Ninguém pode concordar com guerra, ataques militares de um país contra o outro. A guerra só leva a destruição, desespero e fome. O ser humano tem que criar juízo e resolver suas divergências em uma mesa de negociação, não em campos de batalha", disse Lula, em crítica sutil à decisão da Rússia, governada por Vladimir Putin, de iniciar os ataques à Ucrânia.

"A humanidade não precisa de guerra, precisa de emprego, de educação. Por isso que eu fico triste de estar aqui falando de guerra e não de paz, de amor, de desenvolvimento", declarou o petista.

Ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, inclusive dos governos Lula e Dilma Rousseff (PT), Celso Amorim, em entrevista à TV 247, também condenou a guerra: "um dia dramático".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

“Corte Nacional Anticorrupção”: Moro e sua proposta populista de um tribunal de exceção inconstitucional e à serviço dos EUA, por Tânia M. S Oliveira

 

O desafio ético de promessas de campanha impõe minimamente que os compromissos públicos assumidos estejam na esfera de decisão daquele que os apresenta. No jargão popular, não se pode fazer caridade com o chapéu alheio.

Foto Lula Marques

“Corte Nacional Anticorrupção”: Moro e sua proposta populista e inconstitucional a serviço dos EUA

por Tânia M. S Oliveira

Sérgio Moro, o ex-juiz declarado suspeito e incompetente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ao assumir sua candidatura à presidência da República, entra na disputa eleitoral sem qualquer preocupação com a legalidade das políticas públicas que propõe.

O desafio ético de promessas de campanha impõe minimamente que os compromissos públicos assumidos estejam na esfera de decisão daquele que os apresenta. No jargão popular, não se pode fazer caridade com o chapéu alheio.

No domingo (05), em entrevista ao jornal Correio Braziliense, Moro apresentou a proposta de uma “Corte Nacional Anticorrupção”. Segundo ele, com os recursos já existentes no Judiciário, para “aprimorar o combate à corrupção”, utilizando as estruturas já postas e atraindo “os melhores servidores e os melhores magistrados do Judiciário, por meio de um processo seletivo que leve em conta, com procedimentos de devida diligência, não só a integridade dessas pessoas, mas também o comprometimento com o combate à corrupção, sem aumentar custos orçamentários.”

Os problemas da promessa de campanha antecipada de Moro são de diversas categorias.

A primeira é de ordem jurídico formal. A proposição de criação de tribunais, a ser feita ao Poder Legislativo respectivo, é de competência privativa do STF, dos Tribunais Superiores e dos Tribunais de Justiça, pela redação expressa do art.96, II, “c”, da Constituição Federal de 1988. Logo, a proposta oriunda do Poder Executivo seria inconstitucional. Não pode, em consequência, ser feita como compromisso de candidato a presidente da República.

Por outro lado, ao afirmar que fariam parte da Corte os melhores servidores e magistrados, íntegros e comprometidos com o combate à corrupção, o candidato Moro comete, no mínimo, o deslize de afirmar que existem servidores públicos e juízes cuja integridade possa ser questionada em princípio. O que nos autoriza a questionar: quais seriam os critérios moristas para a probidade referida? A julgar por sua própria conduta como juiz, deixar de cumprir as regras do devido processo legal não se enquadraria como problema; tampouco agir com parcialidade e adotar uma relação imoral e corrompida com os membros do Ministério Público, responsáveis pela investigação. Do mesmo modo, a parceria com a mídia tradicional para manipular fatos contra cidadãos, com fins políticos e com o vazamento de interceptações não pareceria obstáculo.

Ademais disso, no ponto central é preciso reconhecer que a “genial” ideia de Moro sobre uma Corte de combate à corrupção não é dele, nem atende aos interesses nacionais. É, mais uma vez, um planejamento feito para acolher a demanda do governo dos Estados Unidos.

Precisamente, no dia 03 de junho de 2021, a Casa Branca divulgou um documento assinado pelo presidente Joe Biden, em conjunto com a transcrição de uma teleconferência, em que altos funcionários do governo expunham a criação de uma comissão composta pelos principais órgãos governamentais do país, incluindo serviços de inteligência como a CIA e a NSA. Esse grupo apresentará ao presidente, dentro de 200 dias, as propostas finais para o plano de atuação global do governo Biden para combate à corrupção. Entre as estratégias, o governo dos EUA quer aumentar os recursos, como assistência investigativa, financeira, técnica, política, a serem destinados a outros países que “exibam o desejo de reduzir a corrupção”.

Na teleconferência, foi dito que os EUA usarão suas agências para o combate à corrupção ao redor do mundo e vão atuar mais fortemente no Hemisfério Ocidental, principalmente na América Latina. Significa que haverá uma expansão da jurisdição norte-americana para alcançar empresas ao redor do mundo.

A declaração intencional de Moro faz parte do pacote Biden de combate à “corrupção estratégica”, o novo centro da doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos. Na entrevista dada no domingo, ele próprio assume que esse modelo já vem sendo implementado em outros países, inclusive com apoio do Banco Mundial e de associações de magistrados.

A Lei sobre Práticas de Corrupção no Exterior (Foreign Corrupt Practices Act – FCPA) é uma legislação norte-americana do ano de 1977, cujo objetivo era proibir o suborno e a corrupção de oficiais estrangeiros por qualquer empresa ou indivíduo americano, ou que opere em território americano. Como foi revelado pelas reportagens da “Vaza Jato”, a operação Lava Jato queria permitir, ilegalmente, que os agentes do FBI atuassem na investigação em território brasileiro sem passar pelos canais legais, sem autorização do Ministério da Justiça. Além disso, os procuradores da força-tarefa atuaram junto às autoridades dos EUA na aplicação da FCPA para punir empresas brasileiras.

A norma permite que autoridades norte-americanas investiguem e punam fatos ocorridos em outros países, como se o país possuísse uma jurisdição internacional, sendo, na prática, usada como instrumento de exercício de poder econômico e político dos EUA no mundo, combatendo governos rivais por meio de suas empresas concorrentes das norte-americanas nos mercados globais. As justificativas para o uso da Lei podem ser as mais pífias, como o simples fato de haver um servidor de internet baseado nos EUA ou a realização de um encontro em território estadunidense.

A insistência da retórica do combate à corrupção na voz de Sérgio Moro, sobretudo após ter feito parte do governo de Jair Bolsonaro, em eloquente omissão quanto às várias denúncias de crimes, é um acinte à democracia e à própria ideia de pretender verificar a prática no âmbito do Estado. Sua candidatura como parte da estratégia geopolítica dos Estados Unidos nos impele a prestar bastante atenção em cada movimento e em cada “proposta inovadora” do aspirante a ocupar o Palácio do Planalto.

Tânia M. S Oliveira é advogada, historiadora, pesquisadora e membro da Coordenação Executiva da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).