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segunda-feira, 25 de julho de 2022

Fanatismo de extrema-direita, nazifascismo e golpes por todos os lados? Leia o artigo de Aldo Fornazieri, Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

 

Bolsonaro e o bolsonarismo adotam a metodologia do nazi-fascismo para se imporem pela intimidação e pela violência


Pexels Akshar Dave

Golpes por todos os lados?

por Aldo Fornazieri

Embora Bolsonaro seja golpista, não tem força para dar um golpe. Nunca teve e dificilmente terá. Mas boa parte da esquerda, desde o início desse governo, vê golpes por todos os lados. Há quem diga que o golpe virá com certeza. Outros jogam o golpe para depois da posse de Lula. Tem gente também que aconselha enviar os filhos para o exterior. De modo geral, boa parte da esquerda vem exercitando a pedagogia do medo.

Aliás, a cidadania brasileira vem sofrendo um ataque em pinça pela pedagogia do medo: de um lado, Bolsonaro. De outro, setores oposicionistas. São duas pedagogias diferentes. Mas resultado é o mesmo: Bolsonaro intimida; setores de esquerda disseminam medo. Medo de golpes, medo de enfrentar Bolsonaro, medo do segundo turno…

Bolsonaro e o bolsonarismo adotam a metodologia do nazi-fascimo para se imporem pela intimidação e pela violência: das mentiras transitam até as ameaças e das ameaças para a prática de atos violentos. Com isso querem calar, bloquear reações dos seus inimigos, conseguir adesões forçadas dos neutros e até de adversários. Intimidados, os partidos adversários fazem uma oposição pacata, protocolar que, em última instância, termina por naturalizar as práticas antidemocráticas. Em muitos casos, como o foi na Alemanha, até autoridades deixam de cumprir o seu dever por estarem intimidadas.

O uso da ameaça da violência e de sua prática efetiva tem como objetivo também o de produzir o efeito psicológico do aviltamento dos sentimentos e da resignação covarde ao poder tirânico. As pessoas se sentem impotentes para reagir.

A oposição parlamentar a Bolsonaro é uma oposição tíbia, ressalvadas as honrosas exceções. Age como se tudo o que Bolsonaro faz, fizesse parte da normalidade institucional do país. Essa oposição parlamentar afirmava que queria o impeachment, mas esperava que Rodrigo Maia ou Arthur Lira resolvessem o problema do impeachment. Todos sabem que sem fortes mobilizações de rua o impeachment nunca se realizaria.

Sempre que Bolsonaro avançou o sinal, de modo geral, essa oposição parlamentar correu para debaixo das togas dos ministros do STF para pedir socorro. Tire-se a CPI da pandemia, nada de mais contundente aconteceu na Câmara ou no Senado. Tudo foi mais ou menos acertado nas negociações. Assim passou a boiada do orçamento secreto e a boiada da PEC da compra de votos. Esta, inclusive, com o apoio da oposição parlamentar. Enquanto Lula ataca, praticamente sozinho, a excrescência do orçamento secreto, a oposição parlamentar o negocia, quando não recebe verbas.  

A oposição parlamentar dissemina o medo quando afirma que é preciso vencer no primeiro turno para evitar que Bolsonaro conteste as eleições ou leve a efeito um golpe se for derrotado no segundo turno. Ora, isto é medo. A campanha de Lula deve ter, sim, a ambição de vencer no primeiro turno. Mas uma ambição fundada nos méritos de Lula. Fundada na necessidade de impor uma derrota avassaladora a Bolsonaro, já no primeiro turno, por tudo de ruim que ele e seu governo representam. Mas da forma como o discurso vem sendo feito, trata-se da pedagogia do medinho.

O discurso antidemocrático, de ataque às urnas e ao TSE e de insinuações golpistas, precisa ser enfrentado com energia, com mobilização da sociedade civil e dos movimentos sociais e com a afirmação categórica de que aqueles que se aventurarem contra a ordem democrática terão como destino a cadeia.

Se a oposição acredita realmente que Bolsonaro tentará um golpe, então é seu dever preparar a sociedade para a resistência e a reação. Se tiver segundo turno e Bolsonaro ameaçar um golpe o que farão e onde irão os líderes da oposição? Comandarão uma resistência? Mobilizarão o povo? Ou irão para alguma embaixada? Para a Nunciatura Apostólica ou alguma catedral?

Essas questões não podem ficar em aberto. Se há risco de golpe, a preparação e o exercício da mobilização precisam vir antes dele. Se Bolsonaro ameaça com golpe, é preciso intimidá-lo. Se vai ter golpe, é preciso que haja resistência.

Como seria o golpe e quem participaria dele? Depois do ato de traição ao Brasil praticado por Bolsonaro ao convocar embaixadores para atacar as instituições democráticas do país houve uma forte reação de entidades da sociedade civil  em defesa da democracia e das eleições. Ficou claro que Bolsonaro não terá apoio das Forças Armadas, da Polícia Federal, dos empresários e do capital financeiro em uma possível aventura golpista. Não há indício de que teria apoio das Polícias Militares, como não o teve no 7 de Setembro do ano passado.

Então, quem seriam os golpistas? Hostes evangélicas com estandartes de Cristo? Dona Michelle incorporando o Espirito Santo? Militares da reserva e milicianos? Motoqueiros enlouquecidos com jaquetas de couro e cornos na cabeça? Se a oposição está convicta de que haverá uma tentativa de golpe, tem o dever de mapear os possíveis setores golpistas, monitorar suas atividades e denunciar seus movimentos às autoridades constituídas.

A oposição fugirá do 7 de Setembro entregando-o de mão beijada a Bolsonaro, deixando que ele se aposse dos símbolos nacionais? A oposição comemorará o 7 de Setembro do bicentenário da independência no dia 10 de setembro que não é o dia 7 de Setembro? E depois, na reta final da campanha colocará o verde e amarelo na propaganda de TV?

A oposição parlamentar não aprendeu lições da história compreendidas por Alexandre de Moraes. Tiranos, ditadores e autocratas, que usam métodos extraordinários para conquistar ou se manter no poder, precisam ser combatidos por medidas e atos extraordinários. Não se pode ser nem condescendente e nem leniente com eles.

Como eles usam a legalidade democrática para destruir a democracia, os democratas precisam tensionar os limites da legalidade para salvar a democracia.  Se os candidatos a ditadores mobilizam suas forças para escalar o poder pela violência, os democratas precisam mobilizar o povo para derrota-los. Se há ameaça de golpe, essas questões precisam ser respondidas pelas oposições durante a campanha, não só na TV, mas também nas ruas.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

Mobilizar o povo para derrotar a violência fascista, por Aldo Fornazieri

A soberania da Amazônia é da bandidagem, por Aldo Fornazieri

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Nazifascismo, bolsonarismo, uniforme e marca na testa, por Aluysio Abreu Barbosa

 Da ficção à realidade, vários são os fatos que marcam a associação entre o bolsonarismo e o nazifascismo. Muito embora alguns bolsonaristas pensem poder negá-la como um nazista que tira o uniforme. Por igualmente pensarem que todos ignoram a História quanto eles próprios. - Aluysio Abreu Barbosa


Do Folha 1:

Charge: Walter Jr.

 

— Agora que sobreviveu à guerra, o que fará quando chegar em casa? — indaga Brad Pitt na pele do tenente Aldo Reiner, líder do pequeno grupo de soldados judeus dos EUA na França ocupada pela Alemanha Nazista na II Guerra Mundial (1939/1945). Dispostos a levar terror a quem levou terror ao mundo, são batizados de “Bastardos Inglórios”, batizando o filme de Quentin Tarantino de 2008.

— Vou abraçar minha mãe como nunca a abracei! — responde o soldado nazista apavorado, após revelar a posição de outras tropas alemães aos inimigos que executaram a sua.

— Isso não é lindo? E você vai tirar o uniforme?

— Vou tirá-lo e queimá-lo! — jura de pés juntos o nazista ajoelhado.

— Foi o que pensamos. Não gostamos disso. Gostamos de nazistas de uniformes para identificá-los de imediato. Se tiram os uniformes, ninguém saberá que são nazistas. Então lhe darei uma coisa para não tirar mais! — diz Pitt, enquanto saca sua faca da bainha, usando-a para riscar a suástica para sempre na carne da testa do nazista cuja vida poupou.

 

 

Da ficção à realidade, vários são os fatos que marcam a associação entre o bolsonarismo e o nazifascismo. Muito embora alguns bolsonaristas pensem poder negá-la como um nazista que tira o uniforme. Por igualmente pensarem que todos ignoram a História quanto eles próprios.

Para quem não ignora pelo menos a História do Brasil dos últimos anos, vamos aos fatos:

 

Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura de Jair Bolsonaro, e Joseph Goebbels, ex-ministro da Propaganda de Adolf Hitler

 

1 – Era 16 de janeiro de 2020. Quando, ao som de Richard Wagner, ídolo assumido do líder nazista Adolf Hitler, o então secretário de Cultura do presidente Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, proclamou em pronunciamento oficial ao vivo nas redes sociais: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”. Ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels proclamou em 1933: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”. Diretor teatral, o secretário de Bolsonaro copiou minuciosamente, além das palavras de Goebbels, também a indumentária, a entonação verbal e o cenário do ministro de Hitler.

 

 

2 – Era a madrugada de 31 de outubro de 2020. Quando o grupo bolsonarista autointitulado “300 do Brasil”, que não chegava a 30 integrantes, promoveu uma marcha em Brasília com máscaras, roupas negras e tochas acesas, copiando a estética das manifestações públicas dos nazistas e da Ku Klux Klan (KKK), grupo supremacista branco dos EUA. O protesto terminou com ameaças diante do Supremo Tribunal Federal (STF) e foi liderado pela ativista Sara Winter, ex-coordenadora de políticas de maternidade do ministério da Saúde no governo Bolsonaro.

 

 

3 – Era 24 de janeiro de 2021. Quando, três meses antes da CPI da Covid ser aberta, o Senado cobrava ao então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, explicações sobre o trabalho do governo federal — ou ausência dele — para adquirir vacinas ao povo brasileiro. Enquanto falava Rodrigo Pacheco (DEM/MG), presidente do Senado, atrás dele o assessor de Bolsonaro para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, foi flagrado fazendo duas vezes o gesto mundialmente reconhecido e condenado como símbolo do supremacismo branco. Com três dedos significando a letra “w” e dois o “p” (“white power”, ou “poder branco”).

 

Líder fascista Benito Mussolini e presidente brasileiro Jair Bolsonaro

 

4 – Eram 9 e 23 de maio, 12 e 26 de junho, e 10 de julho de 2021. Quando Jair Bolsonaro promoveu motociatas, respectivamente, nas ruas de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Chapecó (SC) e Porto Alegre (RS). Enquanto prepara outra, marcada para 7 de agosto, em Florianópolis, novamente em Santa Catarina. Manifestações de apoio político até então inéditas no Brasil, todas têm inspiração aberta no mesmo tipo de evento promovido pelo líder fascista Benito Mussolini, na Itália dos anos 1920 e 1930.

 

Neta de ministro de Hitler e deputada alemã de extrema-direita investigada como neonazista, Beatrix von Storch posa para foto com Bolsonaro e seu marido

 

5 – Era 26 de julho de 2021, última segunda-feira. Quando a deputada alemã Beatrix von Storch publicou em suas redes sociais a foto de um encontro na semana anterior, com Jair Bolsonaro. Fora da agenda oficial deste e que não teve o motivo revelado pelo governo brasileiro. Do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), fundado em 2013 com bandeiras racistas, sexistas, islamofóbicas, antissemitas, xenófobas e anti-imigração, a parlamentar é investigada pelo serviço de Inteligência alemão por propagar ideias neonazistas. Em 2016, ela defendeu publicamente que a polícia do seu país abrisse fogo contra imigrantes, incluindo mulheres e crianças, que tentassem entrar ilegalmente na Alemanha. Beatrix é neta de Lutz Graf Schwer, ministro das Finanças de Adolf Hilter.

 

 

Outro ministro de Hitler, copiado pelo ex-secretário da Cultura de Bolsonaro, foi associado diretamente pelo STF ao capitão e à capacidade patológica de mentir que caracteriza ele e seus seguidores. Era 28 de julho, última quarta. Quando a Corte mais alta do país veiculou um vídeo nas redes sociais tão caras ao bolsonarismo: “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade? Não. É falso que o Supremo tenha tirado poderes do presidente da República de atuar na pandemia. É verdadeiro que o STF decidiu que União, estados e prefeituras tinham que atuar juntos, com medidas para proteger a população. Não espalhe fake news!”.

Sentença mais famosa de Goebbels, “uma mentira contada mil vezes vira verdade” foi usada pelo STF para responder a Bolsonaro. Que havia repetido mais uma vez, em entrevista a uma rádio da Bahia, que o Supremo deu muito mais poderes para governadores e prefeitos do que a ele, no combate à Covid-19. Contada milhões de vezes pelo presidente e sua seita, a mentira tenta mascarar a verdade, como um nazista que pensa poder deixar de sê-lo ao tirar o uniforme: a responsabilidade do governo federal na morte de mais de 554 mil brasileiros. Em meio milênio da História do Brasil, é o mais próximo ao Holocausto dos judeus pelos nazistas.

 

Charge de Vitor Flynn ao jornal francês Le Monde, baseada em cena do filme “Dr. Fantástico” (1964), de Stanley Kubrick

 

Na dúvida, os números. Com 2,7% da população mundial, se o Brasil mantivesse a média de baixas do resto da Terra durante a pandemia, teria 113.400 óbitos. As outras 440.600 vidas humanas perdidas no país ficam na conta do negacionismo do seu governo, da sua aposta assassina na imunidade de rebanho e em medicamentos ineficazes como a Cloroquina, do seu atraso doloso na compra de vacinas ofertadas dezenas de vezes por laboratórios mundialmente respeitados, enquanto se dava preferência a negociações no mínimo suspeitas com atravessadores desqualificados, em busca de propina. Tudo revelado e ainda a revelar na CPI da Covid. E que aderiu ao governo Bolsonaro o adjetivo bem conhecido de “ladrão”, aos de apreensão popular mais difusa, como “genocida”, “fascista” ou “nazista”.

 

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

 

Ainda assim, foi emblemática a suástica riscada na testa do bolsonarismo pelo STF. Com a sentença nazista que melhor define o movimento, o governo e as fake news que o elegeram em 2018. Cuja marca não será esquecida com a queima do uniforme após as urnas de 2022. Que, na noite de quinta (29), ficaram mais próximas. Quando Bolsonaro admitiu em sua live semanal não ter prova das fraudes que nunca existiram no Brasil com o voto eletrônico.