Mostrando postagens com marcador Edgar Morin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edgar Morin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo e educador da complexidade. Por Rômulo de Andrade Moreira

 

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Foto Sesc-SP

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo da complexidade

por Rômulo de Andrade Moreira[1]

Hoje, 08 de julho, Edgar Morin, o “humanista planetário” (como o chamou Alain Touraine[2]), um dos mais sofisticados filósofos contemporâneos, faz 100 anos. Ex-combatente da resistência francesa, sociólogo e pensador transdisciplinar e indisciplinado, doutor honoris causa de 34 universidades em todo o mundo, Morin está, desde o dia 17 de março do ano passado, confinado no seu apartamento em Montpellier, na companhia da sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam.[3]

Morin, a partir de uma frase de Montaigne (“mais vale uma cabeça bem-feita que bem cheia”), escreveu um livro dirigido, particularmente, para a docência e, mais ainda especialmente, para estudantes que se entediam, desanimam-se, deprimem-se ou se aborrecem com o ensino atual, a fim de que possam “assumir sua própria educação.”

Trata-se do A Cabeça Bem-Feita – Repensar a Reforma & Reformar o Pensamento, “dedicado, de fato, à educação e ao ensino”, visto não como uma mera transmissão de saber, mas como uma verdadeira e genuína transferência de “uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre”; educação concebida como algo que “pode ajudar a nos tornar melhores, se não mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas.”[4]

Definitivamente, é um livro prenhe de lições para professores, professoras, alunos e alunas. Aliás, as ideias de Morin acerca da educação e do ensino lembram, em muitos aspectos, os temas e os enfrentamentos encontrados nas obras de Paulo Freire, o nosso maior educador. Sim, pois lendo os escritos do brasileiro não é difícil encontrar incríveis semelhanças entre ele e o francês.

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Desde o início, Morin sustenta que nos tempos atuais há o que ele chama de uma hiperespecialização, ou seja, “a especialização que se fecha em si mesma sem permitir sua integração em uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto do qual ela considera apenas um aspecto ou uma parte.”

Este fenômeno, a um só tempo, fragmenta o global e dilui o essencial, separando disciplinas, dissociando os problemas, reduzindo e decompondo o complexo, fazendo com que “as mentes jovens percam suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos”, pois o progresso do conhecimento reside mais na “capacidade de contextualizar e englobar” do que na “sofisticação, formalização e abstração.” De uma tal maneira “que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e não atrofiada.”

Na contemporaneidade, especialmente com o acesso a várias mídias, a diversos conhecimentos, às mais sofisticadas técnicas científicas, há “uma expansão descontrolada do saber e um crescimento ininterrupto dos conhecimentos, construindo uma gigantesca torre de Babel, que murmuram linguagens discordantes.”

Ora, como “as informações constituem parcelas dispersas de saber”, afogando-nos a todos, “o conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações e inserido no contexto destas.” O pensamento, portanto, não pode isolar e separar, mas antes e pelo contrário, deve distinguir e unir, sendo necessário “substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento do complexo.”

A partir dessa reflexão, Morin constata “a grande separação entre a cultura das humanidades e a cultura científica.” Enquanto a primeira (a cultura humanística) é “genérica e alimenta a inteligência geral, seja a partir da filosofia, do ensaio ou do romance, enfrentando as grandes interrogações humanas, estimulando a reflexão sobre o saber e favorecendo a integração pessoal dos conhecimentos”, a segunda (a cultura científica) “separa as áreas do conhecimento que, nada obstante acarretar admiráveis descobertas e teorias geniais, não permite uma reflexão sobre o destino humano e sobre o futuro da própria ciência, tornando-se incapaz de pensar sobre si mesma e de pensar os problemas sociais e humanos que coloca, encarando a cultura das humanidades apenas como uma espécie de ornamento ou luxo estético.”

A propósito, veja-se o caso brasileiro em que o próprio presidente da República, secundado pelo ministro da Educação, defende explicitamente a descentralização dos investimentos para os cursos de filosofia e sociologia.[5] Nada tão redutor!

E qual seria a consequência (desastrosa) desse conhecimento meramente técnico-científico atual? Responde Morin: “o cidadão é despojado de qualquer ponto de vista globalizante ou pertinente”, causando “uma grande regressão da democracia” e subtraindo do cidadão o seu direito a um conhecimento global, “muito mal compensado pela vulgarização da mídia.”

É urgente, portanto, formarem-se cidadãos “capazes de enfrentar os problemas de sua época”, freando “o enfraquecimento democrático” causado pela “expansão da autoridade dos experts, especialistas de toda ordem, que restringe progressivamente a competência dos cidadãos.”

Assim, não se pode aceitar passivamente que os cidadãos estejam condenados “à aceitação ignorante das decisões daqueles que se presumem sabedores, mas cuja inteligência é míope, porque fracionária e abstrata.” Eis, para Morin, “uma condição sine qua nonpara sairmos de nossa barbárie.” (grifei, pois bem adequado ao caso brasileiro de hoje).

Voltando a Montaigne, Morin explica que “uma cabeça bem cheia é aquela onde o saber é acumulado, empilhado, e não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido”; ao contrário, uma “cabeça bem-feita” é aquela na qual, “em vez de acumular saber, sabe que o mais importante  é dispor ao mesmo tempo de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido”, pois “quanto mais desenvolvida é a inteligência geral, maior é sua capacidade de tratar problemas especiais.”

Segundo o autor, é preciso que desde a infância e também na adolescência, estimule-se ou se desperte sempre a dúvida, este “fermento de toda atividade crítica”, a curiosidade e a “aptidão interrogativa”, orientando-se o jovem “para os problemas fundamentais de nossa própria condição e de nossa época.” Afinal, “conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.”

 Neste sentido, ao contrário do que pensam nossos atuais governantes, “a filosofia deve contribuir eminentemente para o desenvolvimento do espírito problematizador”, pois se trata, “acima de tudo, de uma força de interrogação e de reflexão, dirigida para os grandes problemas do conhecimento e da condição humana.”

Morin adverte para a necessidade (desde os primeiros anos do ensino) de privilegiar a ligação dos conhecimentos e não a sua separação (fragmentação), pois, lembrando Pascal, é “impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”

Agora, utilizando-se de Durkheim, Morin estabelece como objetivo da educação, não somente o transmitir conhecimentos sempre mais numerosos ao aluno, mas, sobretudo, ensinar a viver e a transformar o conhecimento adquirido em “sapiência”.

A importância da literatura (e das artes em geral) também é enfatizada de modo muito especial por Morin, especialmente para o estudo da condição humana, pois mostram “os caracteres essenciais, subjetivos, afetivos do ser humano”, revelando “a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço.”

A literatura, desde o século XIX, “de Balzac a Dostoievsky e a Proust, restituíram a complexidade humana, que se esconde sob as aparências de simplicidade”, desvelando “os indivíduos, sujeitos de desejos, paixões, sonhos, delírios; envolvidos em relacionamentos de amor, de rivalidade, de ódio; submetidos a acontecimentos e acasos, vivendo seu destino incerto.” Montaigne, Cervantes, Kundera e Shakespeare também são referências literárias citadas por Morin.

A poesia, por exemplo, mostra-nos “a dimensão poética da existência humana”, e que estamos “destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase”, pondo-nos “em comunicação com o mistério, que está além do dizível.” De uma tal maneira que a literatura, a poesia e o cinema são verdadeiras “escolas de vida, em seus múltiplos sentidos”, reveladoras da miséria humana “e de sua grandeza trágica, com o risco de fracasso, de erro, de loucura.”

Enfim, a arte, esta “verdadeira escola da compreensão”, é capaz de nos ensinar (principalmente aos mais jovens) “as maiores lições da vida: a compaixão pelo sofrimento de todos os humilhados e a verdadeira compreensão.” Só assim seremos capazes de “sentir e conceber os humanos como sujeitos, abrindo-nos a seus sofrimentos e suas alegrias”, possibilitando “lutar contra o ódio e a exclusão.” Afinal, “vivemos em um mundo de incompreensão entre estranhos, mas também entre membros de uma mesma sociedade, de uma mesma família, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais.”

Morin também adverte acerca do fenômeno do autoengano, da ilusão, “da mentira para si mesmo”, fruto de um “egocentrismo auto justificador e a transformação do outro em bode expiatório”, concorrendo para isso “as seleções da memória que eliminam o que nos incomoda e embelezam o que nos favorece.”

Precisamos entender que o sentido da vida humana “não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar -, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência”, afinal a nossa “vida é uma aventura e todo destino humano implica uma incerteza irredutível, até na absoluta certeza, que é a da morte, pois ignoramos a data” e, portanto, devemos “estar plenamente conscientes de participar da aventura da humanidade, que se lançou no desconhecido em velocidade, de agora em diante, acelerada.”

Pensando a universidade, Morin encontra três características primordiais: ela deve ser, a um só tempo, conservadora, regeneradora e geradora: conservadora, pois “memoriza, integra, ritualiza uma herança cultural de saberes, ideias, valores”; regeneradora, porque vivifica essa “herança ao reexaminá-la, atualizá-la, transmiti-la”; e, por fim, também geradora, já que produz “saberes, ideias e valores que passam, então, a fazer parte da herança.”

Neste sentido, a autonomia da universidade é fundamental para que ela possa executar a sua missão e a sua função transnacional e transecular, “que vão do passado ao futuro, passando pelo presente.” Não pode ser uma “máquina de produção e consumo”, mas um ambiente de “conservação, transmissão e enriquecimento de um patrimônio cultural.” Eis a sua missão!

É necessário, portanto, estarmos atentos para que não se submeta o ensino e a pesquisa “às demandas econômicas, técnicas e administrativas do momento”, marginalizando “a cultura humanista” como pretende, ao que parece, o governo brasileiro.

Conformar-se ao mercado, reduzindo o papel do ensino, antes de ser um “indício de vitalidade”, trata-se de um “prenúncio de senilidade e morte pela perda da substância inventiva e criadora.”

Morin constata algo absolutamente verdadeiro e preocupante: “a imensa máquina da educação é rígida, inflexível, fechada, burocratizada, com professores instalados em seus hábitos e autonomias disciplinares”, comportando-se “como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram”; daí a razão de tanta e obtusa resistência, “inclusive entre os espíritos refinados: para eles, o desafio é invisível”, a tal ponto que “a cada tentativa de reforma, mínima que seja, a resistência aumenta.”

E, terminando, lembra da pergunta de Marx, em uma de suas teses sobre Feuerbach: “quem educará os educadores?” Ele, então, responde: “Será uma minoria de educadores, animados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e de regenerar o ensino, aqueles educadores que já têm, no íntimo, o sentido de sua missão, uma missão de transmissão, o que exige, além da competência e de uma técnica, uma arte, enfim, o eros(Platão) que é, a um só tempo, desejo e prazer (de transmitir) e amor (pelo conhecimento e pelos alunos)”, amor sem o qual “só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio para os alunos.”

Que aprendamos sempre com Morin e com a sua vida extraordinária e fascinante, inspirada sempre, como ele costuma dizer, pelos versos do poeta espanhol Antonio Machado:

“Caminhante, não há o caminho.
O caminho se faz ao andar,
ao andar se faz o caminho”.[6]


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

[3] Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/598378-esta-crise-nos-interroga-sobre-as-nossas-verdadeiras-necessidades-mascaradas-nas-alienacoes-do-cotidiano-entrevista-com-edgar-morin. Acesso em 07 de julho de 2021.

[4] O livro foi publicado no Brasil, pela Bertrand do Brasil, em 2002.

[5] Segundo o presidente da República, “a função do governo é respeitar o dinheiro do pagador de impostos, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/04/bolsonaro-propoe-reduzir-verba-para-cursos-de-sociologia-e-filosofia-no-pais.shtml. Acesso em 10 de abril de 2020.

[6] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

APOIE AGORA

domingo, 27 de dezembro de 2020

Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, diz Edgar Morin, filósofo e pesquisador francês

 

 "A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos. " - Edgar Morin


Por 

 Úrsula Passos na Folha de S.Paulo 

Foto: Edgar Morin, por Lucas Seixas/Folhapress


Edgar Morin é um dos mais importantes e relevantes pensadores vivos. Aos 98 anos, segue escrevendo e expondo ideias em conferências em universidades e eventos.


O francês de origem judaica é um grande intelectual público, sempre disposto a participar do debate, seja ele sobre o conflito na Palestina, cinema, transgênicos, aquecimento global ou imigração. 


Morin deve boa parte de seu sucesso ao pensamento complexo, conceito defendido por ele segundo o qual o conhecimento só é possível pela transdisciplinaridade.


Essa ideia impactou o pensamento sobre educação no mundo todo. Tanto que, em 1999 foi convidado pela Unesco a escrever um livro explicitando as modificações que julga necessárias na educação: Os Sete Saberes Necessários à Educação no Futuro, disponível em português.


No Brasil para uma conferência sobre prazer estético e arte, ele conversou com a Folha de S.Paulo sobre temas como arte, criatividade, democracia e identidade. Confira abaixo a entrevista com Edgar Morin:


O senhor frequentemente fala da prosa e da poesia na vida, sendo a prosa a sobrevivência, o cotidiano do que somos obrigados a fazer, e a poesia, as relações de afeto, o jogo. O espaço da poesia está diminuindo e a prosa está ganhando? 


Edgar Morin: Ela não poderá jamais vencer totalmente, mas eu diria que a prosa fez progressos consideráveis com a industrialização não só do trabalho mas da vida, com a burocratização que encerra as pessoas num pequeno espaço especializado, com a técnica, que se serviu tanto dos homens quanto dos materiais. 

Mas há uma resistência da poesia na vida privada, nas relações amorosas, de amizade, nos afetos, no prazer do jogo, no futebol, por exemplo. Há momentos de ambiguidade e devemos resistir a esse progresso enorme da prosa, que significa uma degradação da qualidade de vida.




O senhor tem uma conta bastante ativa no Twitter; ela é uma ferramenta de divulgação de seu trabalho?


Edgar Morin: É uma forma de me expressar, de expressar ideias que me ocorrem, reações que tenho frente a acontecimentos e de uma forma muito concentrada. É um exercício de estilo, que permite que eu expresse e comunique aos outros o que penso e vejo em diferentes momentos do dia.


O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte? 


Edgar Morin: Vivemos uma crise do pensamento. Aprendemos em nosso sistema de ensino a conhecer separando as coisas de maneira hermética segundo disciplinas. Os grandes problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas diversas. Isso não é possível dada a lógica que comanda nosso modo de conhecer e de pensar. 

Temos uma crise do pensamento que se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam, tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville.

Meu esforço nas minhas obras é tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós.


Qual o maior desafio do ensino? 


Edgar Morin: Não inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão. 

Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam.


O senhor disse em uma conferência recente que a democracia ficou rasa e que a consciência democrática está degradada. Esse diagnóstico vale para o mundo todo? Como chegamos a isso?


Edgar Morin: Chegamos progressivamente, primeiro porque as antigas concepções políticas se deterioraram e chegamos a uma política da urgência e do imediato. E, como sempre digo, ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial. 

A crise da democracia se deve aos enormes poderes do dinheiro terem levado a casos de corrupção em todo lugar. O vazio do pensamento, somado a essa corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia, e isso favoreceu os regimes neoautoritários, como vimos na Turquia, Rússia, Hungria e como vemos agora na crise da democracia no Peru e no Brasil. 

A regressão histórica começou muito fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro, que controla a política. 

A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que vê só os interesses imediatos, não tem consciência do destino da humanidade. A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.

Eu vivi —sou muito velho, como sabe— nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra, vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias democráticas. 

Vivemos esse período como sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre. Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre dos fanatismos. 

A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos. 


Vemos hoje uma política das identidades. Como conciliar a democracia, o espírito republicano e as lutas identitárias? 


Edgar Morin: Uma nação é sempre a unidade de diversidades. Se não se vê a unidade, ela se empobrece e perde sua diversidade, e se só se vê a diversidade, ela perde a unidade. O comunitarismo é uma forma degenerada da diversidade necessária, é uma forma fechada para uma demanda  justa de se manter ligado a suas origens. Infelizmente hoje perdemos a noção de unidade. Quando as comunidades se tornam importantes, elas esquecem a unidade nacional na qual se encontram.

Estamos numa época de interdependência. Concordo que as nações devam seguir soberanas, mas com soberania relativa, e não absoluta. Desde que haja um problema que diga respeito a toda a espécie humana, as nações deveriam subordinar seus interesses ao interesse coletivo.



O senhor já disse algumas vezes que o sul global, como chama, representa um pensamento anti-hegemônico. Ainda é o caso com a globalização?


Edgar Morin: A globalização é a hegemonia dos valores do norte sobre o sul, é a continuação, por meios econômicos, da colonização, que era política. O sul deve resguardar o que conseguir —como os modos de viver— como resistência à hiperforça da técnica, do lucro, do sucesso, e deve conservar a noção de poesia na vida, essa é a missão do sul.


Como fazer isso em países pobres, de democracias instáveis, países menos expressivos no jogo político global?

Edgar Morin: Não há uma receita. É preciso resguardar o que há de resistência, valores universalistas, humanistas e planetários, guardá-los enquanto preparamos tempos melhores. 

Estamos num movimento perpétuo no qual há um conflito entre as forças de união, de abertura, de democracia, fraternidade, e as forças de luta, de desprezo, de degradação e de morte. Esse conflito, como dizia Freud, entre Eros e Tânatos, é um conflito que existe desde o começo do universo e vai continuar. A questão é saber de que lado se está. Essa é a única questão, o futuro ninguém conhece.  


Como pensar modos de combater as fake news?


Edgar Morin: As fake news não têm nada de novo, sempre houve notícias falsas. Durante uma dezena de anos a União Soviética dava informações falsas sobre o que acontecia com ela, a China de Mao Tse-tung também, o sistema hitlerista escondeu os campos de concentração. As mentiras políticas e as notícias falsas não são novas, são banais, o novo é a internet, a difusão de notícias que podem vir de qualquer lugar. 

O problema é que, se quisermos informar o mundo, precisamos de pluralidade de fontes de informação e pluralidade de opiniões. Precisamos de uma imprensa diversa, com opiniões diversas, para que possamos fazer escolhas. Quando a imprensa perde sua diversidade, quando ela é controlada pela força do dinheiro, há uma diminuição do conhecimento e da informação.


O senhor sempre menciona o deus espinosano, que é intrínseco ao mundo, e não exterior a ele. Mesmo com toda a técnica e ciência que temos, as pessoas seguem com suas crenças num deus transcendental... 


Edgar Morin: Todas as sociedades, desde a pré-história, têm uma religião, uma crença na vida após a morte. A religião traz pela reza um sentimento que dá calma. Marx tinha razão ao dizer que a religião é o suspiro da criatura infeliz. 

Com a "morte" do comunismo, houve um retorno das religiões. Temos o retorno dos evangélicos aqui no Brasil, do islamismo. Nos países árabes houve movimentos laicos enormes, mas tudo deu errado. A religião ganha onde a democracia falha, a revolução fracassa, o mundo moderno falha. A religião triunfa no fracasso da modernidade. 


Como aceitar a incerteza e lidar com a angústia ou até mesmo o cinismo que advém disso? 


Edgar Morin: Mais do que sucumbir à incerteza, que nos dá angústia e medo, e que nos leva a buscar culpados e bodes expiatórios, é preciso enfrentar a incerteza com coragem, com ideias humanistas de fraternidade. As ciências acharam formas de encontrar certezas em incertezas. Eu digo sempre que a vida é uma navegação num oceano de incertezas passando por arquipélagos de certezas. Assim é a vida, não se pode mascarar a realidade.


Às vésperas de completar 98 anos, o que o estimula a continuar escrevendo e dando conferências? 


Edgar Morin: Há um demônio em mim, uma força no meu interior de intensa curiosidade. Eu conservei uma curiosidade da infância —eu tive um grande choque aos dez anos com a morte da minha mãe, eu envelheci muito, mas também isso me bloqueou na infância com a curiosidade e o amor pelo jogo. A sorte do mundo é cada vez mais incerta, não sabemos aonde vamos, então não podemos não estar preocupados com o futuro da espécie humana sobre a Terra.   


Ainda há lugar para utopias? 


Edgar Morin: Há duas utopias. A má e a boa. A má é sonhar com uma sociedade perfeita, totalmente harmonizada; isso não é possível. Mesmo numa sociedade melhor, sempre haverá conflitos. A perfeição não está no universo, não está na humanidade. 

A boa utopia é sonhar com coisas impossíveis mas que são, de certa forma, possíveis intelectualmente.  Por exemplo, hoje há muita fome, mas poderíamos alimentar toda a humanidade, basta desenvolver as culturas, a agricultura orgânica. É possível criar uma sociedade nova com a paz sobre a Terra, podemos pensar no fim dos conflitos entre nações; essa é uma boa utopia. Um mundo que não seja totalmente dominado pelo poder econômico e que seja mais fraterno — é preciso ainda ter utopias.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Aproximações e complementaridades sobre a visão de mundo, ciência e educação presentes no livro "Paulo Freire e Edgar Morin: sobre Saberes, Paradigmas e Educação", de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 



  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Banqueiros contra brasileiros - retrógrados pensamentos para ações golpistas, por Pedro Augusto Pinho





GGN. - Não poucas vezes, ouvindo ou lendo os golpistas de 2016, impostores agentes do capital apátrida em nosso País, me vem à lembrança o magnífico conto de Lima Barreto (1881-1922): O Homem Que Sabia Javanês.

Se o prezado leitor não está lembrado, este personagem de Lima Barreto, lendo anúncio que pedia um professor de javanês, consulta, na Biblioteca Nacional, informações sobre a ilha de Java e o idioma malaio. Sua precária situação financeira lhe dá coragem de enfrentar o autor do anúncio e, ao fim, faz, deste conhecimento que não tinha e nunca chegou a ter, uma carreira de sucesso. É a glória da trapaça, da hipocrisia.
Vou discorrer na linha dos ensinamentos do professor François Morin, da Universidade de Toulouse, que escreveu recentemente "L' Économie Politique du XXIe. Siècle" (Lux Éditeur, Montréal, fevereiro de 2017).
Obviamente nem todos estarão concordes com Morin, mas não é despropositado pedir que tenham idêntica consistência acadêmica para suas objeções.
Começo tratando das falácias conceituais e dos equívocos propositais para que os golpistas possam apresentar, como soluções únicas e verdadeiras, as agressões ao bom senso e à vida dos brasileiros que consistem, por exemplo, no congelamento de gastos públicos por 20 anos, nas "reformas" trabalhista e previdenciária e no fim de programas sociais, como a farmácia popular.
Esclareço que não apenas os membros do executivo mas parlamentares e magistrados, em todos os níveis, inclusive no Supremo Tribunal Federal (STF), que aprovam ou deixam as medidas golpistas serem executadas, são cúmplices, coniventes e parceiros neste esbulho dos cidadãos brasileiros e na destruição da soberania nacional.
Começaremos enumerando e discorrendo sobre os logros, vendidos como verdades incontestáveis, pelos veículos de comunicação de massa.
Primeiro ardil: as ações econômicas são tomadas por agentes racionais. Logo, a economia deixada a seus próprios movimentos será sempre a mais perfeita, a mais consistente, a única verdadeiramente correta.
O pós-keynesiano economista australiano Steve Keen (Can we avoid another financial crisis, WEA Commentaries, Real-World Economics Review Blog, maio/2017) se diverte perguntando: podem pessoas, que não sabem a mais rudimentar aritmética, ter ação racional sobre um preço futuro? Podemos crer que somos dotados de um poder de cálculo infinito?
Ficando em J.M. Keynes (1883-1946); ele afirmava que eram as "emoções, os sentimentos humanos" que influenciavam o comportamento e a tomada de decisões dos agentes econômicos, num "contexto de incerteza". Idêntica e mais recente postura encontramos no jornalista da Associação dosJornalistas Econômicos e Financeiros (JEF), Gérard Moatti: "L'économiste et le "facteur psy", em Les Échos, 29/10/2009, cujo título já diz tudo.
Segunda mentira: economia e política não se misturam. É crer nos economistas seres extraterrenos, descendo do Olimpo com a solução dos problemas. Pobres e tristes deuses que nos deixam a miséria, o desemprego, um círculo vicioso de pobreza e de desigualdade.
A economia, tal qual a política, a administração, a sociologia, é uma ciência social. Ela guarda a surpresa das ações humanas, das movimentações sociais e políticas, dos rigores e dos relaxamentos morais.
Gilles Dostaler ("Qu'est-ce que l'économie politique". Bulletin de l'Association d'économie politique. Vol. 16. Número especial, 1995) afirma "nenhum problema é de natureza puramente economica".
Terceira falsidade: o mundo é capitalista e o neoliberalismo é o fim da história. Sua prática hegemônica deve ser adotada em todo mundo.
Um manifesto foi divulgado na França, em 2015, coordenado por André Orléan, Diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) e Presidente da recém constituída Associação Francesa de Economia Política (AFEP), e teve o título: "Para que servem os economistas se eles dizem sempre a mesma coisa? Manifesto por uma economia pluralista".
Pouparei meus prezados leitores da digressão história. Lembrarei, apenas, que o falecido liberalismo do século XIX, ressurge na roupagem monetarista de Milton Friedman (1912-2006), nos anos 1970, adotado pela ditadura do corrupto carrasco Augusto Pinochet, no Chile. Ganha força com as desregulamentações de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, nos anos 1980, e chega ao Brasil pelas mãos dos Fernandos, Collor e Cardoso. Com ele, o próprio debate acadêmico, condição primeira de qualquer evolução social, passa a ser incrivelmente prejudicado.
Como vemos naquele manifesto francês e em artigos e manifestações de professores ingleses e estadunidenses, prejudicando todo mundo, é uma estratégia neoliberal evitar o debate acadêmico. Como exclamam estes professores: já não se ensina economia, mas engenharia financeira e marketing para fundos de investimentos.
Quarta trapaça: é a conjugação da autonomia econômica – com a questionável garantia de suas soluções técnicas – e a avaliação política; em outras e simples palavras, a exclusão do povo das decisões que mais lhe afetam a vida cotidiana.
Tomemos a obra histórica de 1615, de Antoine de Montchrestien (1575-1621): "Traicté de l'oeconomie politique". Este normando, aventureiro, escritor, discípulo do cientista político Jean Bodin (1530-1596), autor de "Os Seis Livros da República", foi o primeiro a usar a expressão "política econômica". Em tradução livre, da transcrição de François Morin, lemos em Montchrestien:
"Pode-se manter, convincentemente, a opinião contrária a Aristoteles e Xenofonte, que não se dividiria a economia da política sem desmembrar a parte principal do todo, e que a ciência de adquirir bens, como a nomeiam, é comum a Estados e às famílias". E no comentário de Morin: "o debate entre economia e política permanece fechado pela vontade das poderosas forças políticas e intelectuais contemporâneas".
Observe o caro leitor que, nas falas dos "especialistas", dos "técnicos", dos "profissionais" que dão suporte à propaganda da banca ou dos golpistas, em suas intervenções nos noticiários da televisão ou em entrevistas publicitárias, não há afirmações. Eles se escondem na terminologia de "apostas", "opiniões", como se a economia – e realmente é esta a economia da banca – fosse um jogo, um cassino, onde só um lucra: o banqueiro.
Afastar a ação do sistema financeiro internacional (a banca) da avaliação do povo, em sua ação política eleitoral, é, efetivamente, a manifestação hipócrita dos que pretendem submeter o poder da maioria ao da mais ínfima, excludente e cruel minoria: os rentistas.
Quinta léria: globalização. Apenas as finanças e as guerras provocadas pela banca são globais. O termo globalização (globalization) surge nos anos 1980 em oposição ao local, quer dizer, que tem um raio de ação amplo, que ocupa todo mundo. Os franceses chamam "mondialisation".
Esta dispersão provoca uma pressão sobre os monitoramentos soberanos dos Estados. E, longe de provocar a repulsa nacional, ela incentiva a submissão, o conformismo, a apatia que decorre da compreensão que nada adianta fazer em relação a tão avassaladora dominação.
Em suma, a burla neoliberal é irreal, não encontra sustentação na vida   econômica; é antidemocrática e totalitária, quer na ação política quer para o pensamento criador.
A economia é, também, um estudo do valor. Um curioso e divertido livro, editado em 1927, por Payot (Paris), de título "Histoire de la Fortune Française – La Fortune Privée A Travers Sept Siècles", escrito pelo historiador visconde Georges d'Avenel, tem toda sua primeira parte destinada a discutir o estabelecimento da medida de valor que deva ser utilizada. E conclui: "em resumo, se enriquecia, nos tempos feudais, despojando seus vizinhos; nos tempos modernos, roubando o Estado; e, hoje, enriquecendo seus vizinhos e o Estado; operação certamente mais honesta" (tradução livre).
As principais teses sobre o valor – valor-trabalho e valor-utilidade – colocam-no diante de medida objetiva e de uma avaliação qualitativa. Ou seja, a quantidade de trabalho (homem/hora) gasta para produção de um bem ou a a quantidade de prazer pela posse do bem.
Para nossos efeitos adotaremos o valor como quantidade de trabalho ou como uma quantidade de moeda. Esta última simplifica a questão subjetiva.
Na verdade, se o caro leitor recordar a história, verá que a moeda sempre teve um valor simbólico ou atrelado a um metal (ouro, prata). Este último variava permanentemente conforme sua produção, sua disponibilidade, seu  entesouramento etc.
Se erigirmos nossa economia em bases tão fluidas, como o faz o pensamento propagado pelo sistema financeiro internacional (a banca), estaremos abrindo as portas da corrupção, dos engodos, dos golpes pois ficará indemonstrável, incomprovável qualquer afirmação. Assim, sem qualquer pudor, os golpistas atuais afirmam que a renúncia fiscal de R$ 2,5 trilhões para petroleiras estrangeiras é bom para a economia e o progresso do Brasil (sic).
Por outro lado, a moeda é um atributo essencial da soberania. Ela precisa reconquistar um referencial consistente. Recordemos que as moedas, desde o Acordo de Bretton Woods (julho de 1944) até 15 de agosto de 1971 – quando foi denunciado por decisão arbitrária de Richard Nixon, ratificada em 1973 pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) –, estavam referenciadas aos 35 dólares, valor atribuído a uma onça troy (31,1g) de ouro.
Este período, que François Morin denomina os "Trinta Gloriosos", foi aquele que a história contemporânea conheceu o maior desenvolvimento econômico e social. Esta época de iniciativas produtivas e conquistas sociais teve o combate dos financistas que ora alegando razões ideológicas, ora condições ecológicas, ora simplesmente se apoderando das comunicações de massa e das academias, instalaram, a partir dos anos 1990, o regime de opressão e concentração de renda: o neoliberalismo.
Neste surgem ideias toscas como a independência dos bancos centrais. Independência de quem? Do povo? da Nação? Para depender de quem? Dos bancos? Do sistema financeiro internacional (leia-se 40 famílias que dominam as finanças mundiais)?
A moeda é um atributo essencial da soberania. Transcrevo, mais uma vez, François Morin:
"É muito fácil demonstrar que a moeda se transformou, depois da globalização dos mercados monetários e financeiros, em bem privado, gerido no essencial pelo oligopólio dos poderosos bancos. Esta privatização da moeda é a origem das crises ocorridas desde meados do anos 1990, e, mais particularmente, de 2007/2008.
Com a perda da soberania dos Estados sobre a criação e gestão de suas moedas, estes Estados tornaram-se refens do oligopólio bancário, fonte de seu enfraquecimento econômico e político atual".
A banca também se vale de uma pletora de órgãos internacionais, cujos representantes seguem suas instruções. Não serei exaustivo, mas não é possível deixar de assinalar, como intrusos mandantes, o FMI, o Banco Mundial (WB), o Institute of International Finance (IIF), a Organização Mundial de Comércio (OMC), o Comitê da Basiléia entre outros.
A respeito das "regulamentações" da Basileia, lemos, em trabalho de 2010 do Banco Central do Brasil, esta preciosidade: "durante uma fase de expansão, os agentes, inebriados pela onda de otimismo, reduzem suas margens de segurança". Só faltou distribuir enormes orelhas ou nariz de palhaço aos destinatários desta pérola.
E, além da ausência de regulamentações, da criação de moedas, pela via do crédito, os agentes da banca inundam os mercados com derivativos
Se o prezado ainda tem alguma dúvida, permita-me exemplificar. Um banco faz um contrato de garantia de preço para um comprador de petróleo. Serão 1000 unidades para entrega em março de 2018 a USD 60,00/barril.
Este papel, que "vale" 60.000 dólares estadunidenses, passa imediatamente a caucionar outro título que vai elencar um Fundo Multimercado, o qual, por seu turno, participará de um Fundo Misto de Fundos e assim por diante. Em resumo, os mil barris passam a ser multiplicados inúmeras vezes.
Morin faz um levantamento desta nova indústria: papéis ao vento. Classificando os derivativos pelas taxas de juros, pelas taxas de câmbio e por outros créditos. Em 1998, quando a banca mal comemorava uma década de empoderamento mundial, a soma dos derivativos atingia US$ 80,3 trilhões. Em 2013, último levantamento, mesmo mostrando a rota suicida com a crise de 2008, os derivativos já atingiam US$ 710,2 trilhões. Quase 10 vezes mais.
E querem nos impingir as "regulações" (!) da Basileia como garantia do sistema bancário internacional? É chamar-nos todos de imbecis ou como clamaram os argentinos, ao tentar derrotar a reforma da previdência nas ruas, e para nossa vergonha: "aqui não é Brasil", casa de golpistas e da mãe Joana.
Volto a Morin: "Os Estados devem reconquistar seu poder de atores centrais das novas arquiteturas monetárias. Para tanto são necessárias as ações em duas dimensões: de um lado no financiamento da ação pública, quer local quer global, de outro lado na formação de dois preços fundamentais da moeda: a taxa de câmbio e a taxa de juros.
É neste poder de projetar o futuro pelo crédito que a moeda pode fecundar o valor-trabalho, não o deixando enredar nas malhas do valor-capital e na lógica da privatização dos lucros e do valor".
Este é um tema de vários desdobramentos, e espero fazê-los no próximo ano, desejando a todos melhor 2018 e o Brasil Soberano já em 1º de janeiro de 2019.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Por um olhar sistêmico em um mundo explorado e cada vez mais destruído por um pensamento instrumental predatório e disjuntivo

"Nossa tão decantada e narcísica civilização tecnológica está em crise, e não é preciso esforço para perceber isso. A técnica, o tecnicismo e a alta tecnologia, associadas a uma forma de viver moderna, igualmente técnica, mas cada vez mais estereotipada, pragmática e menos humana, está apontando para a falácia de mais uma promessa: a de por pôr nos meios de produção, ou no extremo desenvolvimento e acúmulo privado material, a chave para a felicidade humana (hoje, tudo isso tem separado cada vez mais o homem do homem, o homem da natureza, e o homem de si mesmo)."




 Texto de 

Carlos Antonio Fragoso Guimarães


I - Por uma diferente maneira de Ver o Mundo

  Um paradigma significa um modelo, algo que serve como parâmetro de referência para uma ciência, como um farol ou estrutura considerada ideal e digna de ser seguida. Podemos dizer que um paradigma é a percepção geral e comum - não necessariamente a melhor - de se ver determinada coisa, seja um objeto, seja um fenômeno, seja um conjunto de idéias. Ao mesmo tempo, ao ser aceito, um paradigma serve como critério de verdade e de validação e reconhecimento nos meios onde é adotado. Foi o físico Thomas S. Khun que o utilizou como um termo científico em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, publicado primeiramente em 1962, sendo no Brasil publicado pela Editora Perspectiva.

Segundo Thomas Khun, a palavra paradigma pretende sugerir um padrão de ciência ou uma forma de interpretar a realidade, ou que "certos exemplos da prática científica atual - tanto na teoria quanto na aplicação - estão ligados a modelos conceptuais de mundo dos quais surgem certas tradições de pesquisa". Em outras palavras, uma visão de mundo atrelada a uma estrutura teórica metafísica aceita estabelece uma forma de compreender e interpretar intelectualmente o mundo segundo os princípios constantes do paradigma em vigor. Por exemplo, a ciência já foi dominada pelo pensamento geocêntrico (ptolomáico), que estabeleceu toda uma produção intelectual coerente com a visão de mundo deste paradigma que dizia que a terra era o centro do universo. Portanto, quem afirmasse algo como "a Terra é apenas um dentre milhões de outros planetas, e nem mesmo é o mais significativo deles" estaria fadado a ser considerado louco, ignorante ou qualquer coisa do tipo. Posteriormente, observações demonstraram que esta visão era falha e foi sendo substituída - após intensa e violenta resistência dos sábios que defendiam o antigo paradigma - pelo sistema heliocêntrico de Copérnico. 

  Este modelo, porém, foi percebido como imperfeito pelos avanços em astronomia e foi, assim, reformado e aperfeiçoado pelas descobertas da gravitação universal da física newtoniana; esta, por sua vez, foi drasticamente remodelada, já no século XX, pela Mecânica Quântica e pela Teoria da Relatividade, não sem uma forte resistência de inúmeros doutores e acadêmicos formados na cartilha clássica de Newton e seguidores e sua sólida visão mecanicista da natureza.

  Cada uma dessas fases do pensamento científico foram bem sucedidas em determinados períodos de tempo. Dando novas perspectivas para a compreensão da realidade física, condicionavam a atitude científica e estabeleciam quais seriam os critérios de pesquisa, freqüentemente ligados à maneira como se esperava que o mundo devesse funcionar de acordo com o modelo (paradigma) adotado. Deste modo, fica claro que a ciência não é um processo de descoberta, em sentido estrito, de uma realidade dada, porém parece ser mais um processo de construção intelectualmente coerente, refletindo um diálogo do pensamento humano com os fenômenos naturais e, assim, uma melhor compreensão humana, feita e comentada por homens, que lhes permitam explicar satisfatoriamente e dentro de certos critérios, alguns aspectos da realidade. Ou, em outras palavras, a ciência se constrói em cima de alguns fundamentos filosóficos bem definidos, mesmo que não sejam muito conscientes (freqüentemente não são mesmo).

  Assim, o modelo induz a uma visão de mundo, dentre várias outras igualmente possíveis e igualmente coerentes. A imersão em um paradigma, especialmente no paradigma dominante, prepara o cientista para se tornar membro de uma comunidade científica a que se sinta atraído. Ele é treinado a pesquisar, agir e falar dentro dos critérios do paradigma aceito. Qualquer pesquisa que pareça ir além dos limites estabelecidos é vista com desconfiança, quando não totalmente minada e descartada.

II - O Paradigma Newtoniano-Cartesiano e sua aceitação pela crescente burguesia

  Nossa tão decantada e narcísica civilização tecnológica está em crise, e não é preciso esforço para perceber isso. A técnica, o tecnicismo e a alta tecnologia, associadas a uma forma de viver moderna, igualmente técnica, mas cada vez mais estereotipada, pragmática e menos humana, está apontando para a falácia de mais uma promessa: a de pôr nos meios de produção, ou no extremo desenvolvimento e acúmulo privado material, a chave para a felicidade humana (hoje, tudo isso tem separado cada vez mais o homem do homem, o homem da natureza, e o homem de si mesmo).


   Desde o século XVII, quando a racionalidade das ciências naturais - que passou a ser utilizada de forma prática pela nascente burguesia, que, além do comércio, dava seus primeiros passos rumo à industrialização - vinham obtendo crescente reconhecimento como instrumentos de compreensão da natureza e meio para se atingir a "verdade", com sua capacidade para "desvendar" as leis naturais do mundo físico e, posteriormente, até mesmo do social, garantindo PREVISÃO e CONTROLE dos acontecimentos (ao menos, dos acontecimentos naturais em laboratório), que a aura de sacralidade, de dogma e de verdade vinha sendo transferida da Religião para a Ciência, que não mais era vista como uma das formas de saber, mas a única possibilidade eficaz de se atingir "a verdade", abolindo as crenças religiosas e/ou relativizando saberes outros, como a filosofia e a ética, já estabelecendo por conseqüência lógica que outras culturas, não ocidentais e não "científicas" eram subculturas - o que era, sem dúvida, um excelente pretexto para que a Europa "civilizada" pudesse colonizar e impor seu sistema, visão de mundo e interesses em outros povos que, em troca, seriam explorados em seus recursos naturais e humanos e se submeteriam aos ditames dos "esclarecidos" europeus.

   Vivemos numa época cuja principal característica está na divisão de tudo: desde a divisão de classes sociais (Hoje em dia ainda mais reforçada no chamado darwinismo social. C.f.o texto Visão de Mundo, Paradigmas e Comportamento Humano), até a divisão, algumas delas extremas, de especialidades em diversas áreas, como na Medicina, por exemplo. Esta crise reducionista foi provocada em grande parte pelo "background" filosófico extremamente mecanicista da ciência moderna, e em parte pelo modo capitalista de nossas relações, tanto humanas quanto econômicas, ambas, na verdade, formando dos aspectos de um mesmo processo intelectual.

   Para a chamada Escola de Frankfurt, em especial com Adorno e Hockheimer, a razão iluminista, refinada pelo positivismo, transformou-se, pelo mito da "objetividade sem corpo", em razão instrumental. Esta, adotando uma nova utopia reducionista e "fria", descarta o sensível, o qualitativo, o socialmente significativo em prol do produtivo, do quantitativo, do financeiramente acumulativo, cujos resultados saltam aos olhos hoje em dia: o paradoxo e impasse social, ecológico atado à falácia  das promessas do mecanicismo e tecnicismo, apresentados durante todo o século XX como meio de libertação dos seres humanos mas provocando, ao contrário, desencaixes sociais, alienação, ansiedade e escravidão à tecnologia na busca de preencher vazios existenciais cada vez maiores. A tal liberdade pela razão instrumental tornou-se instrumento de uma nova modalidade de escravidão tecnocrática.

  Toda promessa de felicidade técnica prometida pelo capitalismo cientificista acabou por se transformar num pesadelo: de um lado, temos a cruel falta de alimentos e do mínimo de conforto material na maioria dos países do Terceiro Mundo; e do outro lado temos a miséria psicológica e os distúrbios emocionais de toda espécie que acompanham os excessos do consumo-pelo-consumo e conforto supérfluo dos países (que são uma minoria) do Primeiro Mundo, ou 1/4 da população do planeta, onde crescem a solidão, a indiferença, os distúrbios da afetividade, a violência e a sensação de sem-sentido, conseqüência de uma visão de mundo extremamente reducionista, mecanicista e pragmática, voltada para as aparências, a competitividade e a vivência hedonista e individualista dos sentidos, nos moldes dos ideais industrialistas de nosso tempo e, para o cúmulo do paroxismo, a Oxfam divulgar bem recentemente que cerca de apenas 62 indivíduos no mundo possuem, juntos, metade de toda a riqueza social produzida no planeta enquanto, do outro lado, milhões buscam sobreviver em condições sub-humanas.

  O pensamento dominante nesta estrutura de coisas é o da crença fundamental de que tudo é separado de tudo, o que inclui as pessoas, as sociedades e as culturas, e que está de acordo com o modelo mecanicista e atomista que perpassa nosso paradigma científico, que busca sempre as unidades mínimas fundamentais da natureza, fazendo da análise sem fim o único modo correto de entendimento das coisas, esquecendo as características próprias de um conjunto, de um todo complexo. Assim o homem constrói mapas e teorias cada vez mais detalhados em suas minúcias e acaba por acreditar em sua obra intelectual como se fosse a descrição precisa da realidade, que é sempre mais complexa. Esta crença condiciona uma percepção da realidade que traz, ao lado de inegáveis progressos materiais, conseqüências danosas para a harmonia psíquica e social do homem, sem falar de seu impacto sobre a natureza: o apego a possessividade e seu conseqüente medo da perda, a raiva, a agressão, a competitividade e a violência ligada à defesa do "meu", sem falar dos sentimentos afins de orgulho e ciúme (c.f. a Home Page Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética).

  Esta crença na fragmentação das coisas assume formas muito sutis e extremamente refinadas nas teorias ditas científicas. Até o advento da Física Moderna (Mecânica Quântica), que trouxe notáveis insights para a filosofia da ciência, da Ecologia e do desenvolvimento da Psicologia Holística, e da Psicologia Transpessoal, bem como da antropologia e de outros campos que mostraram de forma contundente a crueldade da concepção de mundo vigente, podemos afirmar que quase todas as disciplinas ditas científicas (até hoje) estão atreladas ao chamado paradigma newtoniano-cartesiano (c.f. Fritjof Capra, 1986), que é o modelo ainda dominante e arduamente defendido pela grande maioria dos cientistas. Chama-se paradigma newtoniano-cartesiano porque suas linhas mestras foram concebidas e, em sua maior parte, consolidadas pelos trabalhos notáveis do filósofo e matemático francês René Descartes e pelo extraordinário físico, astrônomo, místico e matemático inglês Sir Isaac Newton.

  Este paradigma se caracteriza por idealizar uma realidade, ou melhor, uma concepção/visão de mundo mecânica, determinista, material, ou seja, de uma maquina composta por "peças" menores que se conectam de modo preciso. E essa concepção de mundo teve um grande impacto não só na Física, mas muito mais, pelas suas conseqüências filosóficas, em Biologia, Medicina, Psicologia Economia, Filosofia e Política. A extrema fragmentação das especializações, a coisificação da natureza, a ênfase no racionalismo e na fria objetividade e o desvinculamento dos valores humanos superiores, a abordagem mercantil competitiva na exploração da natureza, a ideologia do consumismo desenfreado, as diversas explorações com fins de se obter qualquer vantagem em cima de outros seres vivos, etc. têm sua fundamentação filosófica numa pretensa visão "científica" de um universo mecanicista (atualmente, numa concepção neo-darwinista da supremacia de umas ditas classes sociais, políticas e profissionais por sobre outras, numa reedição aprimorada de um discurso fascista-racista já usado pelos nazistas há algum tempo atrás).

  Com efeito, à guisa de exemplo, a fanática certeza da superioridade intelectual européia (com países sedentos pelas riquezas de outros povos e pelo potencial mercantil destes) construiu um grande número de racionalizações baseadas no linguajar científico da Física e da Biologia, maquiando a violência de fatores psicológicos mais profundos, como o da ganância materialista impiedosa, roubando e desmoralizando outros povos considerados ignorantes, primitivos e inferiores durante o máximo período de exploração colonial, entre os séculos XVIII e XX.

  De fato, a partir do modelo de alienação impositiva do modelo colonialista Europeu, envernizado de civilização, possibilitou o nascimento de teorias as mais absurdas, como a crença na superioridade genética da raça ariana, pelos nazista, que tinha tinha - ou pretendia ter - uma forte conotação cientificista. E longe de ter tido um fim, a mesma exploração imperialista está mais ativa do que nunca, principalmente quanto aos países ditos do Terceiro Mundo, que não estão e nem se pretende que estejam inseridos ativamente no sistema internacional de consumo e produção, conhecido como globalização, e que na verdade não passa de uma alienação das forças culturais e criativas dos povos em prol de modelo nortista de capitalismo.

  Grande parte dos países da América Latina são considerados "sem interesse", por serem "zeros econômicos", e são relegados à miséria e à margem da história branca e plastificada dos que se consideram os senhores do mundo. Segundo Leonardo Boff (1997), "estes mostram, por isso, uma insensibilidade e uma desumanidade que dificilmente encontra paralelos na história". Por mais que os arautos do racionalismo apontem desgraças e guerra em séculos anteriores e as maravilhas técnicas de nosso tempo, nunca se matou tão friamente e em nome da razão, do progresso e da civilidade como em nosso século.

  Na educação mesma, como muito bem nos fala Pierre Weil (Brandão & Crema, 1991), "a fragmentação do ensino aumenta à medida que se atinge as séries superiores, chegando a fazer das universidades atuais verdadeiras torres de Babel". Algumas teorias que se arvoram de científicas se fecham cada vez mais em si mesmas, ao ponto de se criar um mundo só delas, como em monastérios acessíveis apenas aos iniciados e partilhantes de seus ideais, expressos num linguajar técnico, complexo e, quando relacionados aos interesses existenciais dos indivíduos, vazio. A função valorativa dos sentimentos foi rejeitada. Só o racionalismo linear - expresso de modo claro em gráficos e em pesos e medidas - pode ser útil. Achamos que apenas o racional pode nos dizer o que tem valor, mas isso não ocorre.

  Valor é algo de subjetivo que diz respeito aos sentimentos. Não é por acaso que nossa cultura, que supervaloriza o racional, afoga-se em dados numéricos mas se mostra totalmente incompetente para discriminar o que realmente tem importância em meio a um mar de informações e pesquisas cartesianas, e se mostra completamente incapaz de dar o mínimo de conforto psicológico às pessoas que se sentem alienadas e excluídas pelo sistema vigente.

  Nossas prateleiras universitárias estão repletas de pesquisas "esotéricas" - apenas alguns "iniciados" podem compreendê-las -, com pouco ou nenhum valor real para o comum dos mortais. Estas prateleiras, como disse Milan Kundera, parecem cemitérios, ou até mesmo menos que isso, pois nos cemitérios sempre ocorrem visitas, pelo menos uma vez por ano. O governo é cada vez mais incapaz de estipular prioridades com base em qualquer outra ordem que não seja o balanço comercial ou os gráficos de desenvolvimento industrial. E como a ênfase está apenas no que é racional, temos uma visão unilateral de mundo, hipertrofiada, puramente intelectual, onde sentimentos e valores são menosprezados ou são ignorados. E é interessante notar o quanto esta estrutura filosófica influencia e é, por sua vez influenciada - em feedback - pela ideologia do capitalismo, ou qualquer outra que tire vantagens da situação.
  Tanto esta ideologia parece encontrar justificação na visão de mundo do paradigma newtoniano-cartesiano quanto este parece encontrar todo o apoio financeiro para se manter, na medida que as pesquisas mais de acordo com seus pressupostos recebem recursos vários enquanto as pesquisas menos técnicas (segundo seus parâmetros), mais ecológicas e/ou humanistas parecem ser desmerecidas ou rejeitadas, recebendo pouca ou nenhuma atenção dos poderes econômicos. Aliás, não devemos esquecer que estes poderes buscam exatamente isso: poder. Poder sobre a natureza, sobre os lucros, sobre as pessoas. Enfim, um poder pleno e exercido de modo racional-mecânico, onde os valores humanistas não podem ter lugar (Veja-se a home page sobre Soren Kierkegaard para um aprofundamento desta questão).

  Esta crença generalizada da onipotência técnica tem levado à atitudes e postulações extremamente arrogantes dos meios científicos e industriais, o que produz, entre outras coisas, os Titanics, os Hindemburgs, as Bombas, os Efeito-Estufa e os Chernobys da vida, bem como golpes militares,  políticas que flertam com o totalitarismo, a alienação, miséria, desemprego e violência.

  Com respeito à saúde, especialmente à Medicina, o paradigma vigente tem também exercido uma notável influência. A ênfase acadêmica e mercantilista na especialização tem feito quase desaparecer a figura do clínico geral e levado à fragmentação extrema das áreas médicas em super-especializações, quase sempre levando os pobres pacientes a se sentirem perdidos e alienados diante da frieza técnica e da ausência freqüente de uma visão global (psicossomática) do seu caso. Os mais visíveis resultados são: o "culto" à figura do médico (com toda a áurea externa e mítica a respeito dele), a quem é dada total responsabilidade pela nossa saúde, cabendo aos leigos apenas uma atitude de submissão passiva, promovida pela ignorância no cuidado da própria saúde, ou seja, de uma Educação Preventiva; uma extrema frieza - que é envolta no mito da objetividade científica - para com os sentimentos e anseios do "paciente"; o "paciente" sendo considerado um "objeto" de estudo (quando não de lucro); o culto da figura do especialista, o corpo sendo tratado como uma máquina, a mercantilização da saúde e um profundo e irracional desprezo pelos aspectos psicológicos da doença. Sem esquecer que o "paciente", que procura e paga o "especialista" é considerado ignorante demais, ou "leigo" demais, para merecer uma explicação clara de muitos dos supostos doutores...

  O argumento de que, em nosso século, o desenvolvimento técnico e tecnológico de equipamentos médicos tenham sido as principais responsáveis pelo aumento da taxa de vida também é questionável. Foram as melhorias sanitárias, a conquista de direitos sociais, a educação higiênica e o entendimento dos processos de transmissão de doenças (com os trabalhos, por exemplo, de um não médico, como Louis Pasteur), a Educação Preventiva que tiveram um papel considerável na melhoria da saúde pública. A parafernália técnica está quase totalmente voltada para o diagnóstico de doenças, muitas das quais perfeitamente evitáveis com uma eficaz educação preventiva, mas que possuem a área da modernidade milagrosa.

  Muito, ou pelo menos metade dos recursos utilizados em marketing e em diversos outros tipos de publicidade médica poderiam ser muito melhor aplicados na educação preventiva e na melhoria de postos de saúde, formando um conjunto de extraordinário efeito profilático. Do mesmo modo (como fica patente na denúncia feita pelo excelente filme "O Jardineiro Fiel", um raro e lúcido filme de crítica social feito em Hollywood e com a direção perfeita do brasileiro Fernando Meirelles), a estreita ligação de médicos alopatas com a indústria farmacêutica (responsável pela movimentação de bilhões de dólares anuais no comércio de remédios, muitos dos quais inócuos ou até prejudiciais) têm formado um verdadeiro cartel comercial e impositivo de valores.

  Quando do "boom" da AIDS, em meados da década de 80, a indústria do sangue, por exemplo, não queria se submeter aos testes que poderiam indicar a presença do vírus HIV nas doações de sangue, sob o pretexto de que os gastos não compensariam os resultados. Ao que um cientista, tristemente perguntou: "Quando os médicos se deixam levar pelo comércio e comercializam a saúde, a quem a população poderá recorrer?" Esta pergunta continua sendo mais atual que nunca. Ao invés de apenas se aterem ao mecanismo de como se dá a ação de uma doença, a pergunta principal deveria ser: Por que ocorre esta doença, quais os fatores intrínsecos e extrínsecos que causaram esta doença e quais os meios em que ela pode ser eficazmente debelada. Os tão estudados mecanismos de ação patológicos nem sempre são causa, mas sim efeitos de um distúrbio mais complexo do organismo em seu intercâmbio relacional com o ambiente físico e social que o envolve, o que, quase sempre, é tristemente negligenciado pela medicina alopática, mas que, felizmente, é um dos pontos mais fundamentais da medicina homeopática, que está sendo cada vez reconhecida.

  Seria útil, aqui, e já que tomamos o exemplo da Medicina, ou melhor, de médicos que se deixam encantar pela possibilidade de ganho fácil, recordar como a história sempre se repete, como diz Marx, a primeira vez como drama e a segunda vez como farsa... Já no século II de nossa era, o notável médico Galeno acusa seus colegas de terem esquecido Hipócrates, máximo modelo do bom médico. Galeno acusava-os de: a) serem ignorantes e fechados em sua pseudo-supremacia, b) de serem corruptos em sua sede insaciável de dinheiro e c) de estarem absurdamente divididos (hoje, em super-especializações). Eis o que ele disse a esse respeito: "Considerando a riqueza mais preciosa que a virtude, e exercendo a arte médica não em benefício do homem, mas por lucro e vaidade, (...) não é possível atingir a real finalidade da medicina" (citado em História da Filosofia, vol. I, página 362, de Giovanni Reale e Dario Antiseri, ed. Paulos, São Paulo, 1990).


  Todo este quadro de tecnicismo individualista e de descrédito em valores humanistas têm uma só causa fundamental: a nossa visão de mundo foi montada em cima de valores e referenciais mecanicistas... tomamos o relógio como metáfora do mundo, e passamos a nos tratar como máquinas... E é tal o enraizamento deste paradigma que fica até mesmo difícil de se acreditar ou aceitar que outras formas de ver e compreender o mundo tenham alguma validade intrísenca e/ou sejam tão ou mais perfeitas que a nossa visão cientificista.

  Creio que ninguém melhor que o genial Max Weber, filósofo e sociólogo alemão, pôde explicitar de modo claro como o racionalismo ocidental se transformou em ideologia, que poderíamos chamar de cientificista, estabelecendo uma série de preconceitos etnocêntricos com relação a outras formas de entendimento da realidade que, se não são científicas dentro dos cânones do academicismo ocidental, nem por isso deixam de ser significativas e coerentes e, mais que tudo, de funcionarem:
A Ciência como Vocação
"O progresso científico é um fragmento, o mais importante, indubitavelmente, do processo de intelectualização a que estamos submetidos desde milênios e relativamente ao qual algumas pessoas adotam, em nossos dias, um posicionamento crítico aparentemente estranho.

"Tentemos, de início, perceber claramente o que significa, na prática, essa racionalização intelectualista que devemos à ciência e à técnica científica. Significará, por acaso, que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, a respeito das respectivas condições de vida, conhecimento de nível superior ao que um hindu ou um hotentote poderiam alcançar acerca de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Aquele, dentre nós, que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite ao veículo pôr-se em marcha - exceto se for um físico ou engenheiro mecânico profissional. Basta-nos 'contar' com o trem e orientar, conseqüentemente, nosso comportamento; mas não sabemos como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. O selvagem, ao contrário, conhece, de maneira incomparavelmente melhor, os instrumentos de que se utiliza. Eu seria capaz de garantir que todos ou quase todos os meus colegas economistas, acaso presentes nesta sala, dariam respostas diferentes à pergunta: como explicar que, utilizando a mesma soma de dinheiro, ora se possa adquirir uma grande soma de coisas e ora uma quantidade mínima? [E isto a despeito de os economistas se orgulharem das características matemáticas de sua disciplina o que, pretensamente, a colocaria próxima das ciências exatas, objetivas]. O "selvagem", contudo, sabe perfeitamente como agir para obter o alimento quotidiano e conhece bem os meios capazes de favorecê-lo em seu propósito.

"A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral progressivo e interligado acerca das condições em que vivemos. Significam, antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer momento, poderíamos, bastando que o quiséssemos - e dentro de uma visão de mundo onde a razão é utilizada e calcada na produção e distribuição de mercadorias e na e feitura de máquinas -, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso que interferirá com o curso de nossa vida; em uma palavra, que podemos dominar tudo por meio da previsão. Equivale isso a despojar de magia o mundo, deixá-lo como uma região amorfa, sem significado, como uma massa manipulável e não tendo outra utilidade senão sua exploração econômica. Os fatos e fenômenos que escapam aos limites do previsível são ou desprezados, ou postos de lado à espera de que um aperfeiçoamento do modelo científico venha a os explicar, mas sempre dentro dos pressupostos deterministas básicos aceitos. Para nós não se trata mais, como para o selvagem que acredita na existência destes poderes, de apelar a meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. Tal é a significação essencial da intelectualização" (WEBER, Ciência e política; duas vocações, pp. 30-31, Editora Cultrix, São Paulo, 1970. Os comentários entre colchetes são meus).

III - O difícil nascimento de um novo Paradigma

  A intuição de que o "quadro científico" é como uma janela que deixa ver apenas uma parte ínfima da realidade tem estimulado uma notável tentativa de se construir uma visão mais holísitica, humana, orgânica e ecológica da realidade. Afinal, as conseqüências de uma visão de mundo mecanicista são extraordinariamente nocivas, principalmente dentro de uma certa ideologia fascista de grande parte dos poderes político-econômicos da elite do Terceiro Mundo, o que traz um alto e muitas vezes impagável preço em termos de vidas humanas e recursos naturais. 

  Estamos começando a antever e a construir um modelo científico que se baseia no conceito de relação, que é muito mais amplo que o de análise, como o usado pela ciência normal. Já não são somente as partes constituintes de um corpo ou de um objeto que são de fundamental importância para a compreensão da natureza desse objeto, mas o modo como se expressa todo esse objeto, e como ele se insere em seu meio. As partes que constituem um sistema têm um notável conjunto de características que se vêem no âmbito das partes, mas o sistema inteiro, o todo - o holos -, freqüentemente possui uma característica que vai bem além que a mera soma das características de suas partes. Por exemplo, sabemos que tanto o hidrogênio quanto o oxigênio são constituintes fundamentais no processo de combustão. Mas se juntamos esses elementos e formarmos a água, nós os usaremos para combater a combustão. O Todo não elimina as características das partes, mas estas, quando em relações íntimas, dão o substrato a uma nova forma, cujas características transcendem às das partes constituintes. A Ecologia é a ciências moderna que melhor pode demonstrar esta relação parte/todo em simbiose íntima.

  Da mesma forma, podemos dizer que as peças de um quebra-cabeças, quando separadas, nos dizem muito pouco ou nada do que seja o quebra-cabeças. Somente quando vemos as peças em seu conjunto, e, de um certo modo, de um nível em que elas deixam de ser vistas como peças, é que podemos compreender a mensagem do quebra-cabeças. Assim também, pensamos que o mecanicismo reducionista e fragmentador do paradigma newtoniano-cartesiano já deu o que tinha de dar. Achamos que após três séculos de ênfase na análise, está na hora de começarmos a construir um modelo que também estimule a síntese. Enquanto o mecanicismo científico vê o universo como uma imensa máquina determinística, o holismo, sem negar as características "mecânicas" que se apresentam na natureza, percebe o universo mais como uma rede de inter-relações dinâmicas, orgânica.

  As origens do pensamento holístico, enquanto pensamento filosófico, podem se situar ainda na Antigüidade, com os pré-socráticos, especialmente com Heráclito. Posteriormente, teremos um eco desse pensamento com os estóicos e com os néo-platônicos, especialmente com Plotino, e, modernamente, com os Românticos, especialmente com Schelling e os idealistas alemães. Com a publicação do livro Holism and Evolution, em 1921, Jan Smuts pode ser considerado o teórico fundador do movimento holístico no século XX. Mas foi com a revolução extraordinária da Física das Partículas e, principalmente com a Teoria da Relatividade de Einstein, que o termo passou a ser aplicado com uma conotação mais paradigmática dentro da transformação conceitual da ciência.

  Paulatinamente, primeiramente a partir, primeiro, da Filosofia, e, depois, da Física, foi se construindo um arcabouço intelectual que permitiu uma expansão da percepção científica para além das peças de relógio do modelo analítico cartesiano-newtoniano. Este novo arcabouço estabelece que:

  • A Ciência, antes estritamente objetiva, torna-se epistêmica (voltada para o próprio processo intelectual de conhecer), já que as teorias revelam mais sobre a mente que a concebe que propriamente da realidade. Toda teoria é um modelo de explicação aproximada da realidade. Além do mais, desde que Heisenberg postulou seu Princípio da Incerteza, na Física das Partículas, e de que o observador influi na experiência, a questão de uma objetividade cartesiana clássica se tornou mais uma fantasia que realidade;

  • Parte-se das partes simples, consideradas independentes, para partes em interação, em processo ou em rede. Não é apenas o conjunto de elementos isolados que formam o universo de fenômenos estudado pela ciência. Mas a interação, a RELAÇÃO que existe entre esses elementos. Aliás, é mais provável que os elementos sejam frutos da própria relação tanto quanto esta é fruto destes. Desta forma, a realidade é um processo de troca de informações entre todos os entes físicos, biológicos, psicológicos e sociais.

O   físico norte-americano Brian Swimme fez uma síntese de alguns princípios fundamentais do holismo, ou do Paradigma Holístico:

  a) se a natureza do átomo (aqui o encadeamento lógico advém das características atômicas) não é dada ou é posta à compreensão exclusivamente por ele, de forma isolada, mas por sua interação e seu comportamento em relação a todo seu Universo envolvente, então a realidade física consiste principalmente de relações, como a música que se compõe de relações de sons e rítimos - e não de notas isoladas, o que implica em superposições de complexificação crescente ou na criação de sistemas dinâmicos sempre mais amplos. Ou seja, nada pode existir sem que imponha e receba características fora de seu ambiente total (Gestaltwn);

  b) a nossa ciência e a nossa interpretação sobre o que seja o mundo são resultantes de nossa própria ação e relação com o mundo que nos cerca e com as crenças e idéias que adotamos. O ideal da neutralidade e da objetividade científica é mais ficção que realidade;

  c) além da análise que separa, a síntese que une é de fundamental importância na compreensão do mundo: conhecer algo implica em saber sua origem e finalidade. O universo parece possuir um sentido evolutivo;

d) a matéria não é algo morto, passivo ou inerte, já que é dotada de energia e parece evoluir segundo um plano criativo global; os elementos inanimados parecem se organizar segundo complexos sistemas de interação. Assim, o Universo está mais para uma rede de relações, uma realidade auto-organizante: um organismo em homeorresis.

  Em Psicologia, o pensamento holístico está fortemente presente nas abordagens humanistas, especialmente na Gestalt, e, muito mais, na Psicologia Transpessoal.

  Stanley Krippner, diretor do Centro de Estudos da Consciência, assim definiu os quatro princípios básicos do Paradigma Holístico-Sistêmico:

  1) a consciência humana ordinária (relativa à percepção corporal e do ego no estado de vigília) compreende apenas uma parte ínfima da atividade total do psiquismo humano;

  2) a mente ou a consciência humana, ou o espírito humano, estende-se no tempo e no espaço, existindo em uma unidade dinâmica, ou melhor, em uma relação contínua com o mundo que ela observa;

  3) o potencial de criatividade e intuição é mais global do que se imagina comumente, abrangendo todos os seres vivos;

  4) o processo de evolução para níveis de maior complexificação e transcencdência é algo de muito valioso e importante - tendência à auto-atualização, segundo Maslow e Rogers.

  O filósofo existencialista e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), discorrendo sobre a necessidade de se empreender reflexões sobre como se obter o melhor método em pesquisa científica, afirmava que na prática do conhecimento necessitamos de vários métodos simultaneamente, e enfatizava três grupos:

   1. apreensão dos fatos particulares que implica na observação e descrição (análise) fenomenológica;

  2. investigação das relações, onde explicar se refere ao conhecimento das conexões causais objetivas, vistas do exterior, enquanto compreender diz respeito à intuição interior:

   3. percepção das totalidades, para não se cair no gravíssimo erro de se esquecer o Todo, no qual e pelo qual a parte subsiste.

   Portanto, a abordagem holística não é nem analítica e nem é puramente sintética; ela se caracteriza pelo uso simultâneo desses dois métodos, que são complementares.
A explicação da natureza e de todo o universo não pode ser mais puramente mecânica, pois está cada vez mais patente que existe um processo de síntese e de complexificação evolutiva que leva a criação de sistemas altamente dinâmicos, como os sistemas biológicos - logo, muito longe de serem máquinas sujeitas à segunda lei da termodinâmica clássica.

  Segundo Jan Smuts, um dos primeiros a pensar a moderna concepção holística, e que exerceu profunda influência em Alfred Adler, o primeiro grande discípulo dissidente de Freud, "o conceito mecanicista da natureza tem o seu lugar e a sua justificação apenas na estrutura mais ampla do holismo". Icluamos, porém, que a complexidade humana vai muito além do mecanicismo de Descartes, possuindo instâncias de racionalidade bem acima da racionalidade linear, ou, como dizia Pascal, "possuindo razões que a própria razão desconhece".

  A pesquisadora e escritora Rose Marie Muraro, em seu livro"Textos da Fogueira", Ed. Letra Viva, 2000, assim se expressa sobre a atual atitude de questionamento epistemológico da ciência moderna:

(...) O mais revolucionário achado metodológico nessa área é a inclusão da subjetividade e da concretude como categorias epistemológicas maiores, ao lado da objetividade e da racionalidade, feita por muitas filósofas em vários países, entre elas Susan Bordo, Allison Jaggar e outras. O mais interessante a se notar é que essa revolução epistemológica se faz na mesma época em que, nas ciências exatas, começa a abalar-se o domínio da razão. Nelas, o irracional irrompe como o paradigma que ajuda a chegar perto das realidades científicas extraordinariamente complexas de um mundo tecnologicamente avançado. Isto acontece nas Teorias do Caos, das Catástrofes e da Complexidade. Neste início de século e de milênio, desmorona o dualismo simplista mente/corpo, razão/emoção, que foi a base do pensamento ocidental nesses últimos três mil anos e que serviu apenas como racionalização do exercício de poder expresso nas relações senhor/escravo, homem/mulher, opressor/oprimido, etc. Esta nova maneira de elaborar abre uma nova forma de pensar pós-cartesiana e pós-patriarcal. 
Se levada às suas últimas conseqüências, essa nova elaboração científico-epistemológica da realidade pode modificar a própria natureza da ciência. Como ela é hoje, por ser abstrata e generalizante, reforça o poder, que na sua estrutura mesma é abstrato e esmagador do humano. Uma ciência em que a subjetividade e o irracional enriqueçam o conhecimento pode desencadear um processo de reversão desse poder destrutivo, tornado-se uma ciência libertadora, e não escravizadora (Muraro, op. cit., p. 16).


  Cabe aqui igualmente uma transcrição de parte de um artigo do nosso querido teólogo e filósofo Leonardo Boff (publicado na Folha de São Paulo em maio de 1996, cuja íntegra poderá ser encontrada na Home Page do autor) sobre a nova visão holística, sistêmica ou ecológica que agora surge:

  "A ecologia integral procura acostumar o ser humano com esta visão global e holística. O holismo não significa a soma das partes, mas a captação da totalidade orgânica, una e diversa em suas partes, mas sempre articuladas entre si dentro da totalidade e constituindo esta totalidade. Esta cosmovisão desperta no ser humano a consciência de sua funcionalidade dentro desta imensa totalidade. Ele é um ser que pode captar todas estas dimensões, alegrar-se com elas, louvar e agradecer aquela Inteligência que tudo ordena e aquele Amor que tudo move, sentir-se um ser ético, responsável pela parte do universo que lhe cabe habitar, a Terra. Ela, a Terra, é, segundo notáveis cientistas, um superorganismo vivo, denominado Gaia, com calibragens refinadíssimas de elementos físico-químicos e auto-organizacionais que somente um ser vivo pode ter.

  Nós, seres humanos, podemos ser o satã da Terra, como podemos ser seu anjo da guarda bom. Esta visão exige uma nova civilização e um novo tipo de religião, capaz de re-ligar Deus e mundo, mundo e ser humano, ser humano e a espiritualidade do cosmos. O cristianismo é levado a aprofundar a dimensão cósmica da encarnação, da inabitação do espírito da natureza e do panenteísmo, segundo o qual Deus está em tudo e tudo está em Deus. Importa fazermos as pazes e não apenas uma trégua com a Terra. Cumpre refazermos uma aliança de fraternidade/sororidade e de respeito para com ela. E sentirmo-nos imbuídos do Espírito que tudo penetra e daquele Amor que, no dizer de Dante, move o céu, todas as estrelas e também nossos corações. Não cabe opormos as várias correntes da ecologia. Mas discernirmos como se complementam e em que medida nos ajudam a sermos um ser de relações, produtores de padrões de comportamentos que tenham como consequência a preservação e a potenciação do patrimônio formado ao longo de 15 bilhões de anos e que chegou até nós e que devemos passá-lo adiante dentro de um espírito sinergético e afinado com a grande sinfonia universal".