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segunda-feira, 6 de maio de 2024

Eduardo Leite cobra soluções do governo federal, mas, para agradar o "agro pop", destruiu o código ambiental em 2019

 

Governador reduziu verbas para Defesa Civil e resposta a desastres naturais, além de acabar com medidas de proteção a áreas de conservação

Crédito: Reprodução/ Ban

GGN. - O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), tem causado um grande desconforto com o governo federal em meio a exigências de soluções para recuperar os danos e prestar assistência às vítimas das enchentes que atingem a região desde a última segunda-feira (29/04). 

Ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha visitado a região acompanhado de ministros e garantido verbas para recuperar o estado, o governador insiste em usar as redes sociais para fazer cobranças. 

Na quinta-feira (2), Leite pediu a continuidade do auxílio das Forças Armadas no resgate de pessoas ilhadas nos municípios gaúchos. O governador também criticou a visita de Lula na última semana, afirmando “que não era um momento para sobrevoos simplesmente” sobre a região. 

O que Leite não posta nas redes sociais são as críticas que vem recebendo dos próprios gaúchos devido aos cortes no orçamento da Defesa Civil nos últimos anos. Enquanto em 2022 a área contava com a verba de R$ 1 milhão, em 2023 o montante foi reduzido para R$ 100 mil. Já em 2024, a Defesa Civil tinha apenas R$ 50 mil em verbas, ainda que o estado tivesse enfrentado três grandes enchentes entre junho e novembro do ano passado. 

Já o orçamento para a pasta de gestão de projetos e respostas a desastres naturais foi reduzido de R$ 6,4 milhões em 2022 para R$ 5 milhões em 2023. Para 2024, a pasta conta com R$ 117 milhões, porém o valor é considerado baixo, uma vez que o governo estadual já previa que a verba necessária para responder a eventos climáticos seria de R$ 83 bilhões. 

Código Ambiental


Ainda no primeiro ano de mandato, em 2019, Eduardo Leite atropelou o Código Ambiental do Rio Grande do Sul, projeto de José Lutzenberger, uma das maiores referências em ecologia no Brasil, cuja concepção levou nove anos e foi resultado de debates e audiências de aperfeiçoamento. 

Leite apresentou um projeto que alterou 480 pontos da lei ambiental do estado, o que um grupo de técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) classificou como “uma tentativa de travestir de ‘moderno’ um código que retrocede e precariza não somente o licenciamento, mas tudo o que se refere à garantia dos valores ambientais”.

Na época, a Fepam criticou o fato de que o projeto acaba com os quatro artigos do capítulo 5, que tratavam de medidas de proteção, por exemplo, às áreas adjacentes às unidades de conservação; o afrouxamento da licença ambiental; o fim do veto ao corte de árvores, comercialização e venda de florestas nativas; e a revogação do artigo 35 do Código Florestal, que proibia ou limitava o corte das espécies vegetais em via de extinção.

Justificativa


Na época, a gestão de Eduardo Leite afirmou que o novo código ambiental representaria um melhor equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento socioeconômico, por ser uma lei de modernização das leis que protegem e até aumentariam a proteção ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que garantiria mais segurança jurídica e embasamento técnico para empresas. 

Na prática, a proposta representou, entre outras distorções, a possibilidade de auto licenciamento ambiental. 

*Com informações de UOLO Globo e Brasil 247.

Nota da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA) do Rio Grande do Sul

NOTA – CÓDIGO MEIO AMBIENTE – 5/5 – 16h50

A construção da atualização do Código Ambiental do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, sancionado em 2020, teve como base amplas discussões que envolveram sociedade e instituições como a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). A atualização da lei acompanha as transformações da sociedade, tornando a legislação aplicável, priorizando a proteção ambiental e o desenvolvimento responsável. Mesmo após a sanção, a regulamentação conta com a participação da sociedade, representada por meio do Conselho Estadual do Meio Ambiente, fórum democrático que delibera sobre os regramentos ambientais.  As catástrofes climáticas são uma tendência mundial, com ocorrências mais frequentes e intensas em todo o planeta, sendo assim, não podem ser atribuídas à atualização da lei. 

O governo do Estado reforça a necessidade de adaptação para garantir a sobrevivência na Terra. Reconhecendo a importância da pauta, em 2023 lançou o ProClima2050, que reúne ações e políticas públicas pensando na mitigação das emissões, na adaptação e na resiliência climáticas. No âmbito do programa, instituiu o Gabinete de Crise Climática, que tem como principal função conectar as secretarias de Estado, instituições e pesquisadores no monitoramento e implementação de ações práticas de resposta à crise do clima. 

Entre as medidas em andamento estão a contratação de serviço de radar meteorológico pela Defesa Civil, que será instalado na Região Metropolitana de Porto Alegre e está em fase final de implementação; melhorias na Sala de Situação, responsável pelo monitoramento das chuvas e dos níveis dos rios; e a implementação do roadmap climático dos municípios, que mapeará as ações relacionadas ao clima em esfera municipal.

sexta-feira, 22 de março de 2024

O Agronegócio golpista contra a Água. Artigo do jornalista britânico George Monbiot

 

Modelo agrícola consome 90% da água no planeta e se expandirá 50% até 2050. Rios começam a secar e aquíferos dão sinais de esgotamento. Saída: impedir o abuso das fontes em nome do lucro, e rever a dieta consumista do Ocidente

Seca na Amazônia. Foto: Bruno Kelly/REUTERS

Por George Monbiot, no Guardian | Tradução: Antonio Martins

Há uma falha no plano. Não pequena: é um buraco do tamanho da Terra em nossos cálculos. Para acompanhar a demanda global por alimentos, a produção agrícola precisa crescer pelo menos 50% até 2050. Em princípio, se nada mais mudar, isso é viável, principalmente graças às melhorias na criação de cultivos e técnicas agrícolas. Mas tudo mais vai mudar. Mesmo que deixemos de lado todos os outros problemas – impactos do calor, degradação do solo, doenças epidêmicas de plantas aceleradas pela perda de diversidade genética – há um que, sozinho, poderá impedir que a população mundial seja alimentada. Água.

Um artigo publicado em 2017 estimou que, para igualar a produção agrícola à demanda esperada, o uso de água para irrigação teria que aumentar em 146% até meados deste século. Um pequeno problema. A água já está no limite. Em geral, as regiões secas do mundo estão ficando mais secas, em parte devido à redução da chuva; em parte devido à diminuição do fluxo dos rios à medida que o gelo e a neve das montanhas recuam; e em parte devido ao aumento das temperaturas, causando aumento da evaporação e maior transpiração das plantas. Muitas das principais regiões de cultivo do mundo estão agora ameaçadas por “secas rápidas“, nas quais o clima quente e seco retira a umidade do solo a uma velocidade assustadora. Alguns lugares, como o sudoeste dos EUA, agora em seu 24º ano de seca, podem ter mudado permanentemente para um estado mais seco. Os rios não conseguem chegar ao mar, os lagos e aquíferos estão encolhendo, espécies que vivem em água doce estão se extinguindo aproximadamente cinco vezes mais rápido do que as espécies que vivem na terra e grandes cidades estão ameaçadas por um estresse hídrico extremo.

A agricultura já representa 90% do uso de água doce do mundo. Extraímos tanta água do solo que mudamos o eixo de rotação da Terra. A água necessária para atender à crescente demanda por alimentos simplesmente não existe.

Este artigo de 2017 deveria ter feito todos entrarem em pânico. Mas, como de costume, foi ignorado pelos formuladores de políticas e pela mídia. Somente quando o problema chega às suas portas, os europeus reconhecem que há uma crise. Mas, embora haja pânico compreensível pela seca na Catalunha e na Andaluzia, há uma quase total falha, entre os grupos êconômicos e políticos poderosos, em reconhecer que este é apenas um exemplo de um problema global, um problema que deveria estar no topo da agenda política.

Embora as medidas contra a seca tenham desencadeado protestos na Espanha, este está longe de ser o ponto de tensão mais perigoso. A bacia hidrográfica do rio Indo é compartilhada por três potências nucleares – Índia, Paquistão e China – e várias regiões altamente instáveis e divididas, já afligidas pela fome e pela extrema pobreza. Hoje, na estação seca, 95% do fluxo do rio é extraído, principalmente para irrigação. Mas a demanda por água tanto no Paquistão quanto na Índia está crescendo rapidamente. O fornecimento – temporariamente impulsionado pelo derretimento de geleiras no Himalaia e no Hindu Kush – em breve atingirá o pico e depois entrará em declínio.

Mesmo sob o cenário climático mais otimista, espera-se que o escoamento das geleiras asiáticas atinja o pico antes da metade do século. Sua massa diminuirá em cerca de 46% até 2100. Alguns analistas veem a competição pela água entre a Índia e o Paquistão como uma das principais causas dos conflitos repetidos em Caxemira. Mas, a menos que seja estabelecido um novo tratado de águas do Indo, levando em conta a queda no fornecimento, essa luta pode ser apenas um prelúdio para algo muito pior.

Existe uma crença generalizada de que esses problemas podem ser resolvidos simplesmente aumentando a eficiência da irrigação: enormes quantidades de água são desperdiçadas na agricultura. Então deixe-me apresentar o paradoxo da eficiência da irrigação. À medida que técnicas melhores garantem que menos água seja necessária para cultivar um determinado volume de culturas, a irrigação torna-se mais barata. Como resultado, atrai mais investimentos, incentiva os agricultores a cultivarem plantas mais sedentas e lucrativas e se expande para uma área maior. Isso é o que aconteceu, por exemplo, na bacia do rio Guadiana, na Espanha, onde um investimento de 600 milhões de euros para reduzir o uso da água, melhorando a eficiência da irrigação, acabou por aumentá-lo.

É possível superar o paradoxo através da regulamentação: leis para limitar tanto o consumo total quanto o individual de água. Mas os governos preferem confiar apenas na tecnologia. Sem medidas políticas e econômicas, isso não funciona. Nem outras soluções tecnológicas provavelmente resolverão o problema.

Os governos estão planejando enormes projetos de engenharia para transportar água de um lugar para outro. Mas a ruptura climática e a crescente demanda asseguram que muitas das regiões doadoras também provavelmente secarão. A água das usinas de dessalinização normalmente custa cinco ou dez vezes mais do que a água do solo ou do céu, e o processo requer grandes quantidades de energia e gera grandes volumes de salmoura tóxica.

Acima de tudo, precisamos mudar nossas dietas. Aqueles que temos escolha alimentar (ou seja, metade mais rica da população mundial) devemos procurar minimizar a pegada hídrica de nossos alimentos. Desculpo-me por insistir nisso, mas esta é mais uma razão para mudar para uma dieta livre de animais, que reduz tanto a demanda total de cultivos quanto, na maioria dos casos, o uso de água.

A demanda de água de certos produtos vegetais, especialmente amêndoas e pistaches na Califórnia, tornou-se um tema importante nas guerras culturais, à medida que influenciadores de direita atacam dietas à base de plantas. Mas, ainda que a irrigação excessiva dessas culturas seja um problema, mais de duas vezes mais água de irrigação é usada na Califórnia para cultivar plantas forrageiras para alimentar o gado, especialmente vacas leiteiras. A demanda de água do leite de vaca é muito maior até do que a pior alternativa (leite de amêndoa), e astronomicamente maior do que as melhores alternativas – como leite de aveia ou soja.

Isso não significa dar passe livre a todos os produtos vegetais: a horticultura pode demandar grandes suprimentos de água. Mesmo dentro de uma dieta à base de plantas, devemos mudar de alguns grãos, vegetais e frutas para outros. Os governos e varejistas deveriam nos ajudar por meio de uma combinação de regras mais rigorosas e rotulagem informativa.

Em vez disso, eles fazem o contrário. No mês passado, a pedido do comissário de agricultura da União Europeia, Janusz Wojciechowski, a Comissão Europeia excluiu de seu novo plano climático o chamado a incentivar fontes de proteína “diversificadas” (livres de animais). A captura regulatória nunca é mais forte do que no setor de alimentos e agricultura.

Eu odeio acrescentar mais uma coisa a você, mas alguém precisacombater o preconceito interminável contra os temas relevantes, na política e na maioria da mídia. Este é mais um dos problemas gigantescos negligenciados. Qualquer um deles pode ser fatal para a paz e a prosperidade em um planeta habitável. De alguma forma, precisamos recuperar nosso foco.