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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Em áudios, Delgatti detalha trama golpista de Bolsonaro enquanto ela ainda estava em curso; ouça

 

Walter Delgatti Neto, que foi acionado pela deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e por Jair Bolsonaro (PL) em 2022 para ajudar em uma trama golpista que incluía a descredibilização das urnas eletrônicas, registrou em áudios os detalhes do plano que visava desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. 


Walter Delgatti Neto

Walter Delgatti Neto (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

247, citando reportagem e áudios do Metrópoles - O hacker Walter Delgatti Neto, que foi acionado pela deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) e por Jair Bolsonaro (PL) em 2022 para ajudar em uma trama golpista que incluía a descredibilização das urnas eletrônicas, registrou em áudios os detalhes do plano que visava desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. O material foi gravado enquanto o plano era executado, no final do ano passado, e foi obtido pelo Metrópoles.

Na véspera da reunião com Bolsonaro no Palácio da Alvorada, por exemplo, Delgatti contou a um interlocutor o conhecimento que possuía sobre os tópicos a serem discutidos na reunião. Horas antes da gravação do áudio, o programador já havia visitado a sede do PL para se encontrar com o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, momento em que a trama também teria sido abordada.

Na mesma data, em 9 de agosto, ele foi filmado nas dependências do hotel Phenícia, localizado no Setor Hoteleiro Sul de Brasília. No vídeo, até então não divulgado, ele é visto diante do balcão, em uma conversa com um funcionário do estabelecimento. Foi nesse momento, antes da reunião com Bolsonaro, que um motorista, usando uma placa falsa, passou para buscá-lo, conforme revelado pela revista Veja em agosto de 2022.

Em 22 de setembro, a apenas dez dias do primeiro turno da eleição, o hacker compartilha pormenores sobre o que parecia ser um papel central de Bolsonaro na empreitada, insinuando que os dois haviam se encontrado em diversas ocasiões. “O Bolsonaro, ele tá fazendo questão que eu vá lá. Aí, teve alguém da equipe que falou: “Irmão, é bom ele não vir aqui porque pode queimar”. Ele (Bolsonaro) falou: “Quem manda aqui sou eu, e ele vai vir”.

Durante depoimento à CPMI do 8 de janeiro, Delgatti foi questionado sobre a estreita ligação com a deputada Carla Zambelli, que estava sendo investigada por supostamente ter contratado o hacker. Conforme a alegação da defesa da parlamentar, a proximidade entre eles decorria de um projeto profissional que envolvia a administração das redes sociais da parlamentar. No entanto, de acordo com uma gravação, o relato do hacker revelou que Delgatti e Zambelli mantinham uma relação quase familiar. “Eles estenderam a mão para mim, cara. A Carla me tratou hoje como se fosse um filho, coisa que nunca aconteceu na minha vida”, disse Delgatti. “A ponto da mãe dela me servir leite com Nescau, na mesa, e acompanhado com ela”, contou, revelando que jogou até vídeo-game com o filho de Zambelli.

sábado, 1 de maio de 2021

Militarista e ultrabolsonarista, Carla Zambelli resgata antigo projeto de Bolsonaro de desmontar o IBAMA dando poderes a PM

 

Zambelli resgata projeto de Bolsonaro que dá poder de Ibama à PM

Bolsonarista da linha de frente, Zambelli não nega o apreço pela proposta, que chegou a ser rejeitado pela Comissão de Meio Ambiente

Operação do Ibama contra crimes ambientais. | Foto: Divulgação/Ibama

do Congresso em Foco

por Thaís Moura 

Há pouco mais de sete anos, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), hoje presidente da República, apresentou o Projeto de Lei 7.422/2014, para incluir Polícias e Bombeiros Militares (PMs) entre os órgãos do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), que atuam na fiscalização ambiental.

O projeto de Bolsonaro, que chegou a ser rejeitado pela Comissão de Meio Ambiente, foi reapresentado pelo aliado Coronel Tadeu (PSL-SP) em 2019 e ganhou fôlego neste ano, quando Carla Zambelli (PSL-SP) assumiu a presidência da comissão. Bolsonarista da linha de frente, ela não nega o apreço pela proposta.

“Vou dar total prioridade para o projeto e aprovar o mais rápido possível. Existia uma demanda muito grande por projetos que trouxessem mais controle em torno das queimadas e a policia é feita para repreender vários tipos de crime, inclusive os ambientais”, disse.

A proposta que tramita na CMADS dá poder às polícias militares de todo o país para exercerem atividades como a emissão de multas e licenças ambientais, a instauração de processos administrativos contra infratores, a fiscalização e embargo de propriedades rurais e a gestão de unidades conservadoras, entre outras.

O relator da proposta na Comissão de Meio Ambiente apresentou parecer favorável ao texto no início de abril, mas requerimentos da oposição retiraram a proposta da pauta e agora o texto será objeto de uma audiência pública.

Críticas

Apesar de Zambelli defender que a proposta tem o objetivo de ampliar a fiscalização e o combate a atividades ilegais, nos últimos dois anos, o governo Bolsonaro implementou uma série de medidas que, no ponto de vista de ONGs e de entidades defensoras do meio ambiente, serviram para afrouxar a fiscalização e esvaziar os órgãos que atuam exclusivamente em questões ambientais. Entre as medidas mais recentes está o veto do presidente de R$ 240 milhões do orçamento de 2021 para o Ministério do Meio Ambiente, o recuo na aplicação de multas pelo Ibama a quantidade de multas aplicadas pelo Ibama.

Enquanto a oposição busca formas de obstruir a votação do projeto, especialistas da área ouvidos pelo Congresso em Foco veem inconstitucionalidade e risco de desmonte  dos órgãos de fiscalização ambiental. “A tendência é que consigamos ganhar tempo com a audiência pública e com obstruções, mas mesmo quando isso ocorre, projetos absurdos são aprovados. O fato é que a Câmara tem uma correlação de forças muito negativa para a oposição, então podemos nos preparar para muitos retrocessos ambientais”, disse o deputado e ex-governador do Amapá Camilo Capiberibe (PSB-AP).

Para ele, a comissão se tornou um “bunker governista” com a eleição de Zambelli, e como o PL passou a tramitar logo após a instalação da comissão, o deputado levanta a hipótese de  que tudo se trata de um “jogo combinado” com o governo.

Zambelli afirmou ao Congresso em Foco que consultou o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, se havia objeção à aprovação da proposta e ele disse que não. Segundo a deputada, esta foi a única conversa que teve com o governo sobre o tema.

Capiberibe não é contrário à atuação das polícias em questões ambientais e diz que o auxílio das forças de segurança é necessário, mas que a proposta que tramita na comissão “parece mais uma tentativa do governo de enfraquecer os órgãos que hoje fiscalizam o meio ambiente”.

“A agenda do presidente e do  ministro Ricardo Salles é a agenda do desmonte ambiental, da destruição. Já vimos isso em várias medidas e instruções normativas que o governo deu nessa área. Então como vamos acreditar que uma proposta como essa não tem como objetivo enfraquecer órgãos específicos de fiscalização, como o Ibama e o ICMBio?”, questiona Capiberibe. 

Como funciona

Hoje, as PMs de alguns estados e do DF já estão autorizadas a auxiliar órgãos de fiscalização no combate aos crimes ambientais. Porém, isso só pode ocorrer por meio de decretos do Executivo local ou por convênios das PMs com as secretarias estaduais de Meio Ambiente. Na maioria dos casos, no entanto, o policial atua como força de segurança, e não como fiscalizador, sem competência direta para multar e abrir processos contra infratores ambientais. 

Para a doutora em Direito Ambiental e ex-presidente do Ibama, Suely Vaz, as polícias militares não precisam estar entre os órgãos deste sistema para ajudar de forma efetiva na fiscalização.

“As polícias militares sempre ajudaram muito na fiscalização e têm uma função importante de apoio, ninguém questiona isso. Mas se elas entrarem no Sisnama, começam a emitir multas, apreender, e com isso, cria-se um sistema paralelo de fiscalização onde ninguém vai saber o que está valendo de verdade na legislação ambiental do país”, explica Suely. 

Para ela, a atuação das forças de segurança pública no meio ambiente deve sempre ser coordenada por meio das secretarias estaduais, e por isso, as polícias não poderiam ser inseridas diretamente no sistema nacional de órgãos e entidades de fiscalização. “O que não quer dizer que não se pode debater a proposta, mas minha preocupação é que isso seja usado posteriormente para esvaziar os órgãos ambientais”, acrescenta Suely.

Já André Lima, ex-secretário do meio ambiente do Distrito Federal e coordenador do Programa Radar Clima & Sustentabilidade do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), vê o projeto de lei como “desnecessário” e “inconstitucional”.

“Estamos falando de uma organização dos estados. A polícia militar é estadual, e se ela é estadual, quem decide se ela faz parte ou não do Sisnama é o governador do estado, não o presidente da República. E o governador já pode, por decreto, incluir as polícias nos sistemas estaduais”, argumenta o especialista. “Como o Executivo local é quem decide se a PM é ou não parte do sistema estadual de meio ambiente , mexer com essa prerrogativa seria inconstitucional”.

O argumento de que o PL seria inconstitucional, por afetar a prerrogativa dos poderes Executivos locais, é exatamente o mesmo que foi utilizado em 2014 pela ex-deputada Maria Lucia Prandi (PT-SP), então relatora da proposta, que orientou a rejeição do projeto de Bolsonaro na Comissão de Meio Ambiente.

O especialista do IDS também se preocupa que a mudança proposta pelo PL seja uma “sinalização” de que as PMs assumirão, na sequência, o comando dos sistemas estaduais de fiscalização ambiental. “Isso seria errado, porque hoje, a PM só executa fiscalizações ambientais a partir de estratégias elaboradas pelos respectivos órgãos e secretarias ambientais. A polícia só deve apoiar o trabalho de fiscalização, e não fazer a fiscalização, não pode liderar isso”, conclui André Lima.

Se aprovado na Comissão de Meio Ambiente, o texto do PL 6289 ainda será analisado pela Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, onde sua versão anterior foi aprovada, e pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, presidida por Bia Kicis (PSL-DF), apoiadora declarada do governo Bolsonaro. 

Justificativa dos autores 

A justificativa do PL original de Bolsonaro foi a mesma para a reapresentação do projeto pelo Capitão Augusto. Os autores utilizam o § 5º do artigo 142 da Constituição Federal para justificar que as polícias militares estaduais “exercem as funções de polícia ostensiva, para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”.

“Especificamente no que se refere à proteção do meio ambiente, é de extrema importância para a sociedade brasileira o papel desempenhado pelos policiais militares no exercício das atividades de policiamento ambiental”, diz o documento.

Na justificativa, os parlamentares lembram que, “na prática”, as PMs estaduais já atuam em atividades de policiamento ambiental do Sisnama. Além disso, afirmam que os decretos, convênios e entendimentos dos respectivos estados que permitem essa atuação “não conferem padronização das ações vinculadas às policias militares”.

Nas palavras do relator na CMABS, Coronel Chrisóstomo, o PL “legitima e consolida legalmente o importante papel desempenhado pelas Polícias Militares na proteção dos nossos recursos ambientais”.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Nabhan Garcia e Bolsonaro, uma amizade de 25 anos e uma organização acusada de organizar assassinas milícias armadas

 

Amigo de Bolsonaro, Nabhan Garcia liderava organização acusada de organizar milícias contra trabalhadores sem terra. Carla Zambelli usou amizade para ajudar Moro

Jornal GGN – A deputada Carla Zambelli tentou usar a amizade de “25 anos” entre Jair Bolsonaro e Nabhan Garcia para manter Sergio Moro no governo. É o que mostra as mensagens de WhatsApp trocadas entre a parlamentar e o ex-ministro da Justiça e o depoimento prestado por ela à Polícia Federal [confira os documentos abaixo].

Uma vez eleito, Bolsonaro deu ao amigo Nabhan o cargo de secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura. Seu papel é fazer a reforma agrária e a demarcação de terras indígenas e quilombolas.

Antes de entrar no governo, o pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia comandava a UDR, União Democrática Ruralista, criada em 1985 para se contrapor ao avanço do MST. No ano passado, um ex-pistoleiro que responde pela morte de um trabalhador sem terra acusou a UDR de financiar a organização e o treinamento de milícias armadas para atacar ocupações do MST em fazendas pelo Brasil.

Segundo reportagem especial do site Repórter Brasil, o próprio Nabhas foi acusado por um fazendeiro de “participar da contratação e do treinamento dos pistoleiros que feriram oito sem-terras a bala” no final dos anos 1990. O caso foi investigado pela CPMI da Terra, que sugeriu o indiciamento de Nabhas. Mas Onyx Lorenzoni e Alberto Lupion – hoje integrantes do governo Bolsonaro – conseguiram alterar o relatório final.

Ao Repórter Brasil, Nabhas frisou que nem ele, nem a UDR jamais foram condenados por crimes supostamente cometidos por pistoleiros contra o MST.

Em 5 de abril de 2020, Carla Zambelli enviou mensagem a Sergio Moro pedindo uma reunião “urgente” entre Nabhas e o então ministro da Justiça. Quando Moro perguntou “sobre o que seria”, ela respondeu: “Assunto confidencial sobre o PR.” PR é a sigla para presidente Jair Bolsonaro.

Em depoimento à Polícia Federal, Carla foi questionada sobre o encontro. Primeiro, ela disse que “o assunto não tem qualquer referência com os fatos investigados nesse inquérito”, sobre a suposta interferência de Bolsonaro na PF, denunciada por Moro ao sair do governo.

Depois, ela contextualizou que a reunião era um “meio” para “aproximar o Presidente JAIR BOLSONARO com o ex-ministro SERGIO MORO”, afirma o relatório. Além de Nabhas, Zambelli pediu que Moro recebesse também a “advogada e amiga” de Bolsonaro, Karina Kufa. E outras mensagens, a parlamentar diz a Moro que não confiava em outros interlocutores.

O GGN reproduz abaixo a reportagem do Repórter Brasil sobre as supostas milícias organizadas pela UDR.

Ex-pistoleiro denuncia milícia em organização de Nabhan Garcia, secretário de Bolsonaro

Por Daniel Camargo

Do Repórter Brasil

Osnir Sanches foi um dos responsáveis por organizar uma milícia armada paga pela União Democrática Ruralista (UDR) no final da década de 1990. Era o “chefe de segurança”, como explica em entrevista à Repórter Brasil, com a função de contratar soldados para um exército clandestino a serviço de fazendeiros do interior do Paraná. A atuação de Sanches o levou a ser um dos quatro condenados pelo assassinato do integrante do MST, Sebastião Camargo, executado em fevereiro de 1998.

Apesar de ter sido sentenciado a 14 anos de prisão, Sanches ficou só um mês atrás das grades, graças a um habeas corpus. Ele nega a sua responsabilidade no crime, mas dá detalhes de como funcionava o treinamento de pistoleiros na organização e acusa a UDR de tê-lo abandonado. “Acabou com a minha vida. Estou pagando por uma coisa que não fiz”, afirmou.

Criada em 1985 para se contrapor ao avanço do MST, a UDR é presidida desde o início dos anos 2000 pelo pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia, atual Secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura. Nabhan Garcia comandou a organização até o ano passado, quando se licenciou para ser o responsável pela reforma agrária no Brasil, além da demarcação de terras indígenas e quilombolas. O secretário do governo Bolsonaro chegou a ser investigado pela contratação de pistoleiros nos anos 2000, mas nunca foi indiciado.

Sanches diz não ter conhecido Nabhan Garcia, mas ambos atuaram na mesma época na UDR. Enquanto o pistoleiro organizava milícias armadas na margem paranaense do rio Paranapanema, Nabhan atuava do lado paulista do rio, no Pontal do Paranapanema, em Presidente Prudente.

“Levavam a gente para uma beira de rio, uma fazenda lá no Mato Grosso. A gente ficava lá 8, 10 dias fazendo treinamento, aprendia como manejar uma arma. Eu ia”, recorda Sanches sobre o treinamento organizado pela UDR com os pistoleiros contratados por ele.

Quem financiava a UDR, segundo Sanches, eram os fazendeiros – que recorriam à organização para retirar à força os sem-terras das fazendas ocupadas.

No episódio pelo qual o pistoleiro foi condenado, cerca de 30 homens encapuzados e armados chegaram ao acampamento do MST na fazenda Boa Sorte, em Marilena (PR), e ordenaram que os trabalhadores rurais ficassem deitados no chão, com a cabeça virada para baixo. Sebastião Camargo, de 60 anos, tinha problemas na coluna e não se abaixou. Foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça. Era pai de cinco filhos.

Sanches diz que não tinha a intenção de matar e que não foi ele quem atirou. “Eu peguei o Sebastião, coloquei no carro e levei para o hospital”, recorda. Quatro testemunhas que prestaram depoimento durante a ação penal afirmaram que o responsável pelo disparo que matou Sebastião foi feito pelo então presidente da UDR, Marcos Prochet.

A tese de que Prochet foi o autor dos disparos foi defendida pela acusação e acatada pelos dois júris que condenaram o ex-presidente da UDR pela execução do crime. O primeiro, ocorrido em 2013, o condenou, mas foi anulado em 2014. O segundo júri, de 2016, foi novamente anulado em novembro de 2018.

Já Sanches, chefe dos pistoleiros, é condenado por homicídio qualificado e constituição de empresa de segurança privada utilizada para recrutar pistoleiros e executar despejos ilegais. Em sua defesa, diz que não era o responsável pelo armamento e que sempre dizia a seus homens: “não é para atirar em ninguém, não é para machucar ninguém”. Sanches também não se considera pistoleiro: “Eu era segurança. Esse termo de pistoleiro quem colocou foi o MST”. Os advogados da família do sem-terra executado voltaram a pedir a sua prisão.

Ele está livre há tanto tempo que chegou a se esquecer que é condenado. Quando foi votar, no ano passado, foi impedido, pois de acordo com a legislação a sentença criminal suspende os direitos políticos. “Os mesários falaram para que eu fosse ao cartório. Aí eu lembrei [que era condenado]”, recorda.

Hoje com 63 anos e avô de quatro netos, Sanches chegou a ajuizar uma ação pedindo reconhecimento de vínculo trabalhista com a UDR, onde trabalhou por três anos, entre 1998 e 2001. Não teve sucesso. “O juiz entendeu que não tinha vínculo trabalhista pois a profissão do Osnir não era lícita”, disse o advogado dele na causa, Jurandir Domingos Terra.

Articulação política
Como Sanches, Nabhan Garcia também foi investigado por ter comandado milícias e pistoleiros pela UDR. Ao contrário do pistoleiro, porém, o secretário do governo Bolsonaro nunca foi indiciado.

Nabhan foi acusado de participar da contratação e do treinamento dos pistoleiros que feriram oito sem-terras a bala em 1997, durante ação da UDR para desocupar uma fazenda em Sandovalina (SP). A acusação foi feita pelo fazendeiro Manoel Domingues Paes Neto, em depoimento à Polícia Federal anos depois do episódio. A denúncia chegou até a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Terra (CPMI da Terra).

O relatório final da comissão pedia o indiciamento de Nabhan Garcia e de outros fazendeiros pelos crimes, mas a articulação política de deputados da bancada ruralista como o Alberto Lupion (DEM-PR), que foi relator da CPMI, e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), vice-presidente da comissão, conseguiu alterar o relatório final e livrar o atual secretário. Lorenzoni é atualmente ministro da Casa Civil e Lupion assessor especial da mesma pasta no governo Bolsonaro.

“Nem eu e nem a UDR nunca fomos condenados”, afirmou o secretário Nabhan Garcia à Repórter Brasil. Ao ser questionado sobre a morte de Sebastião Camargo e a condenação de Osnir Sanches, que trabalhou para UDR , o secretário ficou irritado e desligou o telefone.

Quando Nabhan Garcia depôs na CPMI da Terra, em 2004, disse que desconhecia qualquer tipo de milícia no Brasil. “Milícia armada, realmente não conheço e não quero conhecer. A única milícia que conheço é o MST”.

A Repórter Brasil entrevistou um dos integrantes do MST que enfrentou as milícias armadas da UDR no Pontal do Paranapanema. Ele pediu para não ser identificado por medo de represálias e afirma que a atuação de Nabhan Garcia começou em 1994, agenciando a contratação de pistoleiros no Mato Grosso para enfrentar o movimento. Nabhan Garcia, segundo o militante do MST, fazia a articulação entre os fazendeiros e promovia leilões de gado para arrecadar dinheiro para a compra de armas.

Os conflitos entre UDR e MST eram intensos no Pontal do Paranapanema quando Nabhan assumiu a presidência da entidade. Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu um grupo de integrantes sem-terra em Brasília e, ao final do encontro, posou para fotos com um boné vermelho do movimento.

No mesmo dia, 15 fazendeiros mascarados exibiam suas armas em foto publicada na capa do jornal O Estado de São Paulo. O fazendeiro Paes Neto, que já havia sido preso, afirmou à Polícia Federal que era Nabhan Garcia o quinto mascarado armado na fotografia (da esquerda para direita). A afirmação foi posteriormente negada pelo fazendeiro, durante audiência no Senado.

Passados 16 anos, Nabhan Garcia ostenta um chapéu de fazendeiro ao lado do presidente Jair Bolsonaro na fotografia que usa no perfil de Whatsapp. A proximidade com o chefe e o poder concentrado na Secretaria Especial de Assuntos Fundiários conferem ao ruralista o status de 23° ministro.

A reforma agrária da UDR
Foi na presidência da UDR que o ruralista começou a se aproximar do então deputado Jair Bolsonaro. “Desde quando o Bolsonaro entrou no Congresso eu acompanho ele, que mesmo não sendo produtor rural sempre defendeu o setor produtivo”. Em 2018, Nabhan Garcia se empenhou na campanha do atual presidente, ciceroneando o então candidato por feiras agropecuárias e em encontros com empresários rurais.

Com menos de três meses de governo, o secretário prepara uma série de ações que afetam o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e dispara uma metralhadora de frases de efeito. Já disse em entrevistas que não dorme sem estar armado, que os maiores latifundiários do Brasil são os indígenas e que as escolas do MST são “fabriquinhas” de ditadores.

A condução da reforma agrária no governo Bolsonaro, até o momento, é um espelho do pensamento dos ruralistas. Desde janeiro, nenhum imóvel foi desapropriado e nenhum assentamento foi criado, de acordo com o Incra.

Sob o guarda-chuva de Nabhan Garcia, o Incra passou a ser presidido pelo general João Carlos Jesus Corrêa, que no início do ano suspendeu todos os processos de reforma agrária, conforme revelado pela Repórter Brasil. Diante da repercussão negativa, o governo recuou. Outra medida do instituto foi proibir o diálogo com entidades como o MST. Três dias depois houve novo recuo, após recomendação contrária do Ministério Público Federal que apontou uma série de ilegalidades na medida.

Sob Nabhan, o Incra criou ainda um grupo de trabalho para reduzir cargos e reformular sua estrutura, possivelmente cortando superintendências em regiões com histórico de conflitos no Pará.

Para o membro da coordenação-geral do MST, Alexandre Conceição, o processo de paralisação da reforma agrária começou no governo de Michel Temer com a política de emissão de títulos individuais em detrimento da política de criação de assentamentos.

Agora, sob a gestão de Nabhan Garcia, a avaliação do dirigente do MST é que a política do governo Bolsonaro vai aumentar a paralisação e os conflitos serão inevitáveis no campo. “Somos contra a violência, pois na guerra só morrem os pobres”, afirma. “Você já viu massacre de latifundiário?”.

“A reforma agrária não combina com o pensamento dos membros do governo. Eles entendem que os movimentos sociais são bandidos e agressores”, avalia a ex-ouvidora agrária Nacional, Maria de Oliveira, que mediou conflitos entre Nabhan Garcia e o MST no Pontal do Paranapanema.

‘Favelas rurais’
Nabhan Garcia explicou à Repórter Brasil que o plano do governo para a reforma agrária é transformar assentados em “produtores rurais de fato”. Segundo ele, grande parte dos assentamentos são ociosos, irregulares ou viraram “favelas rurais”.

“A reforma agrária foi feita de forma ideológica e política. Não foram obedecidos critérios para trazer, para os assentamentos, as pessoas que têm perfil de produtor rural”, afirma. Um “pente-fino” está sendo feito, segundo ele, para identificar os assentados que estão produzindo. “Não dá para ficar na ociosidade e transformar a reforma agrária em um comércio de lotes”.

O secretário do governo reafirma que não conversa com o MST. “Não vou aceitar viés ideológico de quem invade propriedade. O Brasil não é uma republiqueta. Quem invade propriedade comete crime”, avalia.

Enquanto Nabhan Garcia implementa a política da UDR em todo o país, Sanches reclama que está abandonado pela instituição, com problemas de saúde e sem dinheiro. Se diz arrependido. “Eu errei”. Quando questionado se voltaria a atuar como pistoleiro, ele diz: “Se me chamarem de novo, eu jamais voltaria a fazer esse tipo de serviço, mas se eu tivesse a oportunidade entraria para o lado do MST”.

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