Embora Bolsonaro seja golpista, não tem força para dar um golpe. Nunca teve e dificilmente terá. Mas boa parte da esquerda, desde o início desse governo, vê golpes por todos os lados. Há quem diga que o golpe virá com certeza. Outros jogam o golpe para depois da posse de Lula. Tem gente também que aconselha enviar os filhos para o exterior. De modo geral, boa parte da esquerda vem exercitando a pedagogia do medo.
Aliás, a cidadania brasileira vem sofrendo um ataque em pinça pela pedagogia do medo: de um lado, Bolsonaro. De outro, setores oposicionistas. São duas pedagogias diferentes. Mas resultado é o mesmo: Bolsonaro intimida; setores de esquerda disseminam medo. Medo de golpes, medo de enfrentar Bolsonaro, medo do segundo turno…
Bolsonaro e o bolsonarismo adotam a metodologia do nazi-fascimo para se imporem pela intimidação e pela violência: das mentiras transitam até as ameaças e das ameaças para a prática de atos violentos. Com isso querem calar, bloquear reações dos seus inimigos, conseguir adesões forçadas dos neutros e até de adversários. Intimidados, os partidos adversários fazem uma oposição pacata, protocolar que, em última instância, termina por naturalizar as práticas antidemocráticas. Em muitos casos, como o foi na Alemanha, até autoridades deixam de cumprir o seu dever por estarem intimidadas.
O uso da ameaça da violência e de sua prática efetiva tem como objetivo também o de produzir o efeito psicológico do aviltamento dos sentimentos e da resignação covarde ao poder tirânico. As pessoas se sentem impotentes para reagir.
A oposição parlamentar a Bolsonaro é uma oposição tíbia, ressalvadas as honrosas exceções. Age como se tudo o que Bolsonaro faz, fizesse parte da normalidade institucional do país. Essa oposição parlamentar afirmava que queria o impeachment, mas esperava que Rodrigo Maia ou Arthur Lira resolvessem o problema do impeachment. Todos sabem que sem fortes mobilizações de rua o impeachment nunca se realizaria.
Sempre que Bolsonaro avançou o sinal, de modo geral, essa oposição parlamentar correu para debaixo das togas dos ministros do STF para pedir socorro. Tire-se a CPI da pandemia, nada de mais contundente aconteceu na Câmara ou no Senado. Tudo foi mais ou menos acertado nas negociações. Assim passou a boiada do orçamento secreto e a boiada da PEC da compra de votos. Esta, inclusive, com o apoio da oposição parlamentar. Enquanto Lula ataca, praticamente sozinho, a excrescência do orçamento secreto, a oposição parlamentar o negocia, quando não recebe verbas.
A oposição parlamentar dissemina o medo quando afirma que é preciso vencer no primeiro turno para evitar que Bolsonaro conteste as eleições ou leve a efeito um golpe se for derrotado no segundo turno. Ora, isto é medo. A campanha de Lula deve ter, sim, a ambição de vencer no primeiro turno. Mas uma ambição fundada nos méritos de Lula. Fundada na necessidade de impor uma derrota avassaladora a Bolsonaro, já no primeiro turno, por tudo de ruim que ele e seu governo representam. Mas da forma como o discurso vem sendo feito, trata-se da pedagogia do medinho.
O discurso antidemocrático, de ataque às urnas e ao TSE e de insinuações golpistas, precisa ser enfrentado com energia, com mobilização da sociedade civil e dos movimentos sociais e com a afirmação categórica de que aqueles que se aventurarem contra a ordem democrática terão como destino a cadeia.
Se a oposição acredita realmente que Bolsonaro tentará um golpe, então é seu dever preparar a sociedade para a resistência e a reação. Se tiver segundo turno e Bolsonaro ameaçar um golpe o que farão e onde irão os líderes da oposição? Comandarão uma resistência? Mobilizarão o povo? Ou irão para alguma embaixada? Para a Nunciatura Apostólica ou alguma catedral?
Essas questões não podem ficar em aberto. Se há risco de golpe, a preparação e o exercício da mobilização precisam vir antes dele. Se Bolsonaro ameaça com golpe, é preciso intimidá-lo. Se vai ter golpe, é preciso que haja resistência.
Como seria o golpe e quem participaria dele? Depois do ato de traição ao Brasil praticado por Bolsonaro ao convocar embaixadores para atacar as instituições democráticas do país houve uma forte reação de entidades da sociedade civil em defesa da democracia e das eleições. Ficou claro que Bolsonaro não terá apoio das Forças Armadas, da Polícia Federal, dos empresários e do capital financeiro em uma possível aventura golpista. Não há indício de que teria apoio das Polícias Militares, como não o teve no 7 de Setembro do ano passado.
Então, quem seriam os golpistas? Hostes evangélicas com estandartes de Cristo? Dona Michelle incorporando o Espirito Santo? Militares da reserva e milicianos? Motoqueiros enlouquecidos com jaquetas de couro e cornos na cabeça? Se a oposição está convicta de que haverá uma tentativa de golpe, tem o dever de mapear os possíveis setores golpistas, monitorar suas atividades e denunciar seus movimentos às autoridades constituídas.
A oposição fugirá do 7 de Setembro entregando-o de mão beijada a Bolsonaro, deixando que ele se aposse dos símbolos nacionais? A oposição comemorará o 7 de Setembro do bicentenário da independência no dia 10 de setembro que não é o dia 7 de Setembro? E depois, na reta final da campanha colocará o verde e amarelo na propaganda de TV?
A oposição parlamentar não aprendeu lições da história compreendidas por Alexandre de Moraes. Tiranos, ditadores e autocratas, que usam métodos extraordinários para conquistar ou se manter no poder, precisam ser combatidos por medidas e atos extraordinários. Não se pode ser nem condescendente e nem leniente com eles.
Como eles usam a legalidade democrática para destruir a democracia, os democratas precisam tensionar os limites da legalidade para salvar a democracia. Se os candidatos a ditadores mobilizam suas forças para escalar o poder pela violência, os democratas precisam mobilizar o povo para derrota-los. Se há ameaça de golpe, essas questões precisam ser respondidas pelas oposições durante a campanha, não só na TV, mas também nas ruas.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
Ainda há muita estrada pela frente até que a comunicação se torne um instrumento de inclusão e de equiparação dos direitos. Se é que se chegará algum dia a esse objetivo.
Para entender a balbúrdia em que se meteu a comunicação no mundo globalizado, nosso Xadrez separa seis personagens centrais:
Os grupos de mídia tradicionais, cujo modelo de negócio entra em crise terminal.
O Departamento de Estado, como síntese dos interesses geopolíticos americanos.
Os bilionários ligados ao Partido Democrata, que fazem as primeiras incursões políticas no âmbito das novas formas de comunicação.
A ultradireita, que elege Donald Trump e espalha o neoconservadorismo pelo planeta.
Os blogs políticos que surgem, à esquerda e à direita.
As big techs
Peça 1 – o ínicio do jogo político das redes sociais
As disputas pelo uso e controle das redes sociais começaram na campanha de Barack Obama para presidente. O Partido Republicano recorreu a um movimento de Fake News tendo como epicentro a Fox News, do australiano Rupert Murdoch.
Havia má vontade generalizada da imprensa corporativa em relação a Obama. Sua salvação foram grupos de voluntários que se organizaram nas redes, abrindo caminho para sua vitória.
Esses dois movimentos – o da ultra direita em torno dos fake news e o dos voluntários de Obama – geraram dois tipos de ativismo nas redes, que se espalharam por outros países:.
O ativismo do chamado liberalismo-progressista, bancado por bilionários umbilicalmente ligados ao Partido Democrata, financiando grupos de mídia-ativistas em diversos países.
Na sequência, o ativismo dos algoritmos da Cambridge Analytica, que ajudou a eleger Donald Trump e se tornou a peça chave na expansão da ultradireita mundial.
De certo modo, refletem a polarização entre o que passou a ser denominado de neoliberalismo-progressista e neoliberalismo-reacionário, ambos defendendo os princípios econômicos do ultraliberalismo, mas o primeiro procurando edulcorar-se com o politicamente correto.
Peça 2 – os bilionários do Partido Democrata
São curiosos os caminhos de aprendizado da comunicação nas redes sociais. Desde o fator Cambridge Analytica, o foco se concentrou na ultra-direita, na máquina montada pelo Partido Republicado trumpista, através de Steve Bannon.
Mas o jogo dos bilionários é mais antigo. O impeachment foi possível com a mobilização estimulada por ONGs e associações diretamente financiadas pelos bilionários do Partido Democrata.
No início da década de 2010, os governos Lula-Dilma entraram na mira do Partido Democrata – cuja política externa era dominada por Hillary Clinton – devido à autonomia da diplomacia brasileira e à descoberta do pré-sal. Vários episódios ocorreram no período, como a espionagem de Dilma pela NSA, a denúncia de roubos de computadores da Petrobras, antes disso o papelão de Barack Obama pedindo o envolvimento de Lula em um acordo com o Iraque e, depois, desmentindo.
A década de 1990 havia marcado o início da multiplicação de blogs por todos os países, fazendo o contraponto à mídia tradicional. Ao mesmo tempo, ficava cada vez mais nítido o poder gradativo de mobilização das bolhas de Internet.
O primeiro movimento dos bilionários foi apoiar a construção de uma rede de sites e portais que pudessem não apenas denunciar os fake news da ultradireita, como fazer o contraponto aos sites mais alinhados com a esquerda.
É nessa quadra que surgem os bilionários financiadores dessas iniciativas, entre os quais se destacaram George Soros, Pierre Omidyar (fundador do EBay, que banca o The Intercept), outros, através da Transparência Internacional. Eles financiam e influenciam um conjunto de novos personagens, focando nos jovens, mais suscetíveis à influência das redes sociais, e voltados para projetos de cunho social legítimo, a maioria bem intencionada, mas ignorante em relação aos movimentos da geopolítica americana.
São esses grupos que se tornam os principais estimuladores das campanhas de 2013 e das manifestações do impeachment. A ultradireita só entra em cena na fase final da Lava Jato e na campanha de Jair Bolsonaro.
Peça 3 – a rede de aliados
A estratégia dos chamados neoliberais progressistas é relativamente simples. Há que se combater os fake news da direita mas, também, tirar da esquerda as grandes bandeiras humanistas, criando uma nova geração de “empreendedores sociais”, capazes de mobilizar as sociedades emergentes contra as grandes injustiças, mas afastando da discussão qualquer tema de ordem econômica.
Uma característica do modelo é o repertório de temas politicamente aceitos pela esquerda, embora nunca questionando o modelo econômico e, no meio, temas de interesse direto do Departamento de Estado e dos patrocinadores.
E o caso The Intercept, apoiando a guerra contra a Síria e tratando os White Helmets, ou Capacetes Brancos, como heróis. As imagens abaixo foram tiradas do levantamento da @Gringa Brazilien, um perfil do Twitter que fez um levantamento precioso desse jogo.
O ativismo político do The Intercept ficou nítido quando seu principal jornalista, Glenn Greenwald, pediu demissão depois de vetarem uma reportagem sua, mostrando as ligações da família Biden com o governo da Ucrânia.
Fenômeno semelhante ocorreu com a Pública. Ressalte-se que os temas tratados eram jornalísticos e traziam luz sobre desapropriações e maneiras de esconder a pobreza dos visitantes da Copa do Mundo.
Peça 4 – a agência do Partido Democrata
A atuação dos bilionários tornou-se mais focada quando entrou em cena a Purpose, agência de marketing político que se especializou em organizar, em países emergentes, movimentos em torno de bandeiras humanistas.
Seus proprietários, Jeremy Heimans e David Madden são também fundadores da Avaaz e GetUp. A Avaaz, site para produção de abaixo-assinados, foi bastante utilizado nas campanhas que antecederam o impeachment de Dilma.
A agência se apresenta como especializada em marketing político e tem relações estreitas com o Partido Democrata.
“Usamos a mobilização pública e a narrativa para ajudar as principais organizações, ativistas, empresas e filantropias engajadas nessa luta, e criamos laboratórios de campanha e novas iniciativas que podem mudar políticas e narrativas públicas quando mais importa”.
Em seu site há inúmeras iniciativas legítimas e, junto com elas, receitas para influenciar a política, como o projeto “Esmagar os intermediários”, que supostamente ensinaria as pessoas a montar sua própria base de eleitores.
No site, ela se vangloria de ter sido retuitada por Hillary Clinton, a personalidade do Partido Democrata que mais se vale das redes sociais.
Um levantamento sobre a agência mostra uma atuação política pesada na América Latina.
Peça 5 – as investidas do neoliberalismo-progressista
No período que antecedeu as grandes manifestações de 2013, surgiram diversas organizações bancadas por esses bilionários.
O governo Lula-Dilma já enfrentava resistências nítidas do Pentágono, em parte pelo protagonismo diplomático brasileiro na crise de 2008, em parte pelas descobertas do pré-sal. Dilma foi vítima de espionagem da NSA, houve o episódio do roubo de computadores da Petrobras e, antes disso, o episódio do Iraque, no qual Obama estimulou Lula a negociar o acordo de paz e, depois, puxou-lhe o tapete.
A partir de 2010, tornam-se mais frequentes as investidas dos bilionários americanos ligados ao Partido Democrata. Surgem movimentos como Meu Rio, Vem prá Rua, Anonymous e outros, bancados por personagens do mercado financeiro.
Foi a Purpose quem criou a ONG Meu Rio, elaborou a estratégia para as movimentações pelo passe-livre, início das agitações que levaram, mais tarde, ao impeachment de Dilma. As principais estrelas do Meu Rio – como a presidente Alessandra Orofino, também funcionária da Purpose – foram recebidas pelos principais think tanks do establishment de Washington, incluindo o notório Atlantic Council e a Fundação Obama.
A primeira grande experiência de mobilização foram as marchas pelo passe-livre, planejadas pela Purpose. E, confesso, até ler o dossiê da @GringaBraziliene, acreditava que a ideia partira espontaneamente de um grupo de jovens ansiosos por participar da política.
A esses novos movimentos veio se somar a Transparência Internacional, trazida anos antes ao país pela ONG Amarribo – cujo fundador, Josimar Verillo, se valia da imagem anticorrupção para organizar lobbies em disputas comerciais.
Quando começaram as manifestações no Brasil, em comício, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, alertou para o jogo de desestabilização no Brasil, comparando aos protestos registrados na Turquia. “O mesmo jogo está sendo jogado sobre o Brasil. Os símbolos são os mesmos, os cartazes são os mesmos, Twitter, Facebook, são os mesmos, a mídia internacional é a mesma.” Erdogan afirmou ainda que “eles estão fazendo o máximo possível para conseguir no Brasil o que não conseguiram aqui. É o mesmo jogo, a mesma armadilha, o mesmo objetivo”.
É importante não expor todos os personagens generalizadamente a julgamentos morais, especialmente os jovens ativistas. As redes sociais inauguraram novas formas de linguagem e novas formas de participação política. Muitos jovens ativistas foram influenciados pelo discurso moralista, pelas bandeiras humanistas, pelos novos modelos de participação e, em alguns casos, pelas verbas gordas dos patronos. E, alguns, entregam e entregaram trabalhos relevantes de denúncias.
Mas eram – e são – absolutamente jejunos em relação aos interesses da geopolítica americana. O caso mais emblemático tem sido a autocrítica de Felipe Neto, um dos principais influenciadores seduzidos pelo discurso social-moralista da Purpose.
Aí se entra no busílis da questão. As disputas em jogo não são pela moralização da informação, mas pelo seu controle. Entram na disputa as big techs, os oligarcas ligados ao Pentágono e a ultradireita trumpista.
A Cambridge Analítica prosperou em cima dos dados fornecidos pelo Facebook. Houve uma jogada de mestre do Atlantic Council para enquadrar Mark Zuckerberg, do Facebook, descrito no artigo “Xadrez do jogo político dos fake news”.
Um blog pouco conhecido, mas em um domínio bancado pelo Atlantic Council, apareceu com um pretenso trabalho acadêmico multiplicando por centenas de vezes o alcance das campanhas russas em favor de Trump. Ofereceu a vários veículos. Quase todos recusaram por ver falta de seriedade acadêmica no trabalho. A exceção foi aberta por The Washington Post, divulgando o trabalho e sendo criticado por todos os veículos sérios do país.
Mas, com base no trabalho, Zuckerberg foi convocado pelo Congresso, enquadrado. Saiu de lá e foi direto atrás da consultoria da Atlantic Council. A recomendação foi a de que o Facebook filtrasse as notícias através de agências de checagem.
Com isso, tirava-se a regulação das mãos dos governos e estados nacionais, reduzia-se o poder absoluto das grandes redes e limitava-se o alcance das vozes dissidentes – não apenas da ultra direita, mas dos blogs e portais que não se enquadrassem nas regras do neoliberalismo-progressista.
Esse movimento ficou nítido em duas tentativas capitaneadas pela Agência Pública de calar um grupo de blogs taxados de forma genérica como progressistas – e que compunham a linha de frente contra o golpe do impeachment.
A primeira, foi ter bancado um trabalho de Pablo Ortellado. Ambos recusaram-se a indicar o patrocinador do trabalho. Mas a metodologia utilizada consistiu em uma análise dos sites extremistas criando o falso paralelismo entre blogs de direita, explicitamente geradores de fake news, e blogs progressistas, que faziam contraponto jornalístico à mídia corporativa.
É curioso esse movimento da Pública, uma organização de boa qualidade jornalística. Pouco antes do trabalho de Ortellado, a Pública me convidou para uma palestra no Rio de Janeiro. O próprio Ortellado era um colaborador constante do GGN, a pedido dele próprio.
Houve uma mudança repentina de posição de ambos, incluindo o GGN na relação de sites radicais de esquerda, com outros sites que, em nenhuma hipótese, poderiam ser considerados geradores de fake news. Em nenhum momento revelou-se quem pagou pela pesquisa.
Pouco tempo depois, o estudo foi apresentado em um seminário da revista Veja – a maior geradora de fake news da história – destinado ao mercado publicitário. Ao mesmo tempo, Ortellado foi enaltecido como grande especialista pela revista, de maneira a conferir reputação acadêmica a uma tese imprestável. Assim como as falsas teses acadêmicas da Atlantic Council, possivelmente serviram de guia para que agências de publicidade e redes sociais passassem a ver com desconfiança sites que disputavam a opinião com a mídia convencional.
O segundo passo foi a criação de uma associação de grupos de checagem, associados a uma organização internacional, com o fito de assessorar as redes sociais em relação ao conteúdo. No Brasil, a associação foi montada com grupos de mídia – entre os quais o notório Gazeta do Povo, do Paraná – e sites alinhados com o sistema. E a primeira iniciativa foi uma denúncia contra a revista Fórum, acusando-a falsamente de fake news, em uma matéria em que relatava que o papa Francisco havia presenteado Lula (preso em Curitiba) com um livro. A notícia era verdadeira.
Houve uma reação pesada dos blogs progressistas. A partir daí, houve um refluxo das agências de checagem, mas há pouca transparência sobre sua influência atual sobre as redes sociais.
Peça 7 – o jogo atual
As associações de checagem não prosperaram. Limitam-se a conferir fatos objetivos. Por exemplo, foram incapazes de denunciar o fake news de que a Petrobras estava quebrada, divulgado pela mídia corporativa na mesma época em que a empresa lançava bônus perpétuos com demanda várias vezes superior à oferta.
Houve mudanças em algoritmos do Google que quase quebraram as pernas da mídia alternativa. Não se sabe se inspiradas em falsos trabalhos acadêmicos, como o de Ortellado, ou por precaução em relação aos factóides sobre a Covid-19.
Mas, hoje em dia, o jornalismo migrou decididamente para as big techs. Há muito mais jornalistas e jornalismo espalhados pelas redes do que na mídia corporativa.
Gradativamente, o Google vai ampliando suas alianças e se livrando da tentativa de enquadramento pelas agências de checagem. Fechou contratos de remuneração de conteúdo com organizações jornalísticas e passou a negociar institucionalmente com sites independentes, organizados em associações. Mas todos dependendo de seus sistemas de busca e remuneração.
Recentemente, enviou uma mensagem alertando sites que notícias pró-Rússia seriam desmonetizadas. Foi o suficiente para que sites progressistas se tornassem mais anti-Rússia que a própria Globonews.
É um processo ainda em construção. Os diversos agentes estão se organizando, discutindo, gradativamente as instituições estão se familiarizando mais com o tema. As próprias big techs se mostram mais suscetíveis aos direitos de opinião. Por outro lado, a ultradireita e seus algoritmos continuam acesos, alimentando grupos radicais por todo o planeta.
Ainda há muita estrada pela frente até que a comunicação se torne um instrumento de inclusão e de equiparação dos direitos. Se é que se chegará algum dia a esse objetivo.
Diálogos travados entre Milton Ribeiro e sua filha contêm indícios de que Jair Bolsonaro procurou o ex-ministro, mais de uma vez, para possivelmente antecipar informações sobre a ação da Polícia Federal, que investiga o esquema dos pastores no MEC.
As conversas foram grampeadas pela PF no âmbito da operação Acesso Pago, que investiga o papel de Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, em um esquema de facilitação de distribuição de verbas do FNDE, tendo pastores evangélicos como intermediários de prefeitos.
O grampo, feito com autorização da Justiça, mostra Ribeiro contando à filha que Bolsonaro está com um “pressentimento”: “ele acha que vão fazer uma busca e apreensão.”
OS DIÁLOGOS
Ribeiro relatou à filha que recebeu uma ligação de Bolsonaro preocupado com as investigações da PF.
“A única coisa meio… hoje o presidente me ligou… ele tá com um pressentimento, novamente, que eles podem querer atingi-lo através de mim, sabe? É que eu tenho mandado versículos pra ele, né?”
Na conversa, Milton Ribeiro diz que costumava enviar mensagens com versículos da Bíblia para Bolsonaro. A filha então pergunta se a ligação do presidente era uma forma de dizer que queria parar com as conversas.
“Não! Não é isso… ele acha que vão fazer uma busca e apreensão… em casa… sabe… é… é muito triste. Bom! Isso pode acontecer, né? Se houver indícios, né?”, afirmou o ministro.
O diálogo foi encerrado quando a filha avisou que estava ligando do telefone “normal”. Ribeiro ainda destacou que Bolsonaro fez a ligação durante sua viagem aos Estados Unidos.
O repórter Bruno Tavares, da Globo, obteve acesso exclusivo ao diálogo captado pela Polícia Federal.
CASO VAI PARA O SUPREMO
A Justiça do Distrito Federal já enviou, a pedido do Ministério Público Federal, o inquérito do caso Milton Ribeiro para o Supremo Tribunal Federal, já que agora o escândalo envolve Bolsonaro, que tem foro privilegiado.
O MPF viu indícios de interferência no trabalho da Polícia Federal, além de possível vazamento de dados sigilosos em benefício do ex-ministro, ensejando no crime de advocacia administrativa, entre outros. O caso será analisado pela ministra Cármen Lúcia.
Na GloboNews, onde o diálogo foi noticiado, os jornalistas fizeram uma comparação entre a conversa de Ribeiro com a filha e a ligação entre Lula e Dilma Rousseff, vazada por Sergio Moro na Lava Jato. “É muito grave”, disse Gerson Camarotti na tarde desta sexta, 24.
São muitos os atores que contribuíram com a farsa, e aí cabe um capítulo à parte para falar sobre a atuação da velha imprensa, mas o fato é que, com o conluio entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores, a Lava Jato solapou a democracia e arruinou a economia ao criminalizar a política para tirar Lula e o PT do jogo eleitoral.
Procuradores da Operação Lava Jato: uma gang de caçadores (crédito: divulgação)
Junto com a tragédia à democracia, veio o maior prejuízo da história econômica do país. Um rastro de destruição que dificilmente será o recuperado.
Segundo levantamento feito pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), divulgado nesta terça pelo portal Sputnik Brasil, a operação fez o país perder R$ 172,2 bilhões nesse período. Nada menos que 4,4 milhões de empregos foram jogados na lata do lixo.
O estudo diz ainda que o Brasil deixou de arrecadar 40 vezes mais do que o valor recuperado com a operação (R$ 4,3 bilhões).
Para Clarisse Gurgel, professora da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), o relatório apenas confirma agora o que já era percebido no dia a dia da população brasileira. A cientista política diz que o levantamento “consegue traduzir por números fenômenos que têm sido cada vez mais cotidianos”.
“Algo que já tinha se experimentado no dia a dia da população brasileira, mas que agora se confirma em dados e números mais precisos, que é um contexto de absoluto abandono de um país que foi devastado, seja no que diz respeito a sua natureza, ao seu desenvolvimento, a sua independência, seja no que diz respeito as suas liberdades, a sua participação popular, a sua democracia e as suas instituições republicanas”, disse Gurgel.
Empregos destruídos
O estudo do Dieese também indica que o país deixou de arrecadar R$ 47,4 bilhões em impostos. Dessa quantia, R$ 20,3 bilhões seriam em contribuições sobre a folha de salários.
Segundo o levantamento, as consequências da operação Lava Jato provocaram o fechamento de 4,4 milhões de empregos. O setor mais afetado foi o da construção civil, que perdeu 1,1 milhão de postos de trabalho no país.
Para Gurgel, empreiteiras “foram cirurgicamente perseguidas pela Lava Jato”, que, segundo ela, teve como resultado nefasto a perda de investimentos que essas empresas e a Petrobras geravam. Além disso, Gurgel ressalta que esses empregos produziam “consumo e tributos”.
“Tudo aquilo que o governo Lula e o governo Dilma produziram de perspectiva de autonomia na geração de empregos e mercado, ruiu a partir do governo Temer e Bolsonaro”, disse a professora.
Nesta segunda-feira (8) a Lava Jato sofreu um duro golpe, com a anulação de duas condenações e dois processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o ex-juiz Sergio Moro, que foi titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, não era o “juiz natural” dos casos.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) deve recorrer da decisão.