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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Inspirado pela civilidade de Eunice Paiva, o filme "Ainda estou aqui", indicado a 3 Oscars, humilha a extrema direita de Bolsonaro, Nunes e Tarcísio.

 

 A dignidade de Eunice Paiva atravessou o tempo e, por causa do filme, atraiu a admiração do mundo

Segue o artigo de Chico Alves, publicado no ICL Notícias:


Chico Alves
Chico Alves

Jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Atualmente é editor-chefe do site ICL Notícias.

COLUNISTAS ICL

Inspirado pela civilidade de Eunice Paiva, filme humilha a extrema direita





Há pelo menos seis anos, o Brasil respira o ar carregado do enxofre que a extrema direita espalhou no país. O movimento que levou Jair Bolsonaro à Presidência jogou no lixo todos os vestígios de civilidade e ética que já eram escassos na política nacional.

Essa grosseria contaminou praticamente todos os setores da sociedade. Aquela lenda do “brasileiro cordial” foi para o espaço.

Tudo dessa gente é baseado em ódio. Seja ódio aos direitos humanos, às mulheres, aos negros, aos pobres, à ciência… Para eles, praticamente tudo é odiável se não seguir sua cartilha ideológica.

Nessa trip rancorosa, os neofascistas brasileiros dedicam repulsa especial a uma categoria: os artistas.

Como consequência, desde que Bolsonaro se tornou presidente, os recursos para a cultura encolheram drasticamente. Nos encontros presenciais de bolsonaristas e nas suas redes sociais, os artistas passaram a ser tratados como parasitas, vagabundos que se beneficiam do dinheiro público.

O Ministério da Cultura, que já foi chefiada por Gilberto Gil (!), foi rebaixado a Secretaria e os seres mais desprezíveis designados para comandá-la: um sujeito que mimetizava nazistas e um ator de terceira categoria do antigo elenco de “Malhação”.

Entende-se essa raiva.

A arte constrói um espaço que é oposto do que eles pretendem instaurar.

Por incrível que pareça, faz todo sentido que eles odeiem os artistas.

A cultura é capaz de nos tirar desta realidade pesada e transportar para um espaço abstrato, poético, sensível. No sentido oposto, também pode nos resgatar da alienação, do falso paraíso, e esfregar na nossa cara as mazelas do presente que não queremos enxergar, ou os traumas do passado que nos querem fazer esquecer.

É justamente essa a tarefa que cumpre o filme ‘Ainda estou aqui’.

Talvez porque a realidade atual esteja tão barra pesada, lembramos muito pouco dos opressores do passado recente, buscamos temas mais agradáveis, imaginando que a sociedade brasileira estava em consenso mínimo.

Foi assim que a brutalidade da ditadura militar deixou de ser citada com a frequência devida, a tal ponto que jovens se surpreenderam com a repressão retratada no filme, mesmo de forma tão sutil.

A maneira delicada com que aborda os anos de chumbo fez o público se colocar no lugar daquela família que repentinamente perde o pai, o homem que desaparece para nunca mais voltar.

Talvez essa abordagem, bem distante do banho de sangue que o cinema e os canais de filmes proporcionam diariamente, tenha sido decisiva para o envolver o público.

Conduzido pela interpretação magistral de Fernanda Torres, o espectador se emociona com a mulher que contém o desespero de ver Rubens Paiva sumir, sem saber se voltará a vê-lo e sem querer desesperar os filhos.

Foi assim que Fernanda ganhou o Globo de Ouro e conquistou a indicação para concorrer ao Oscar de melhor atriz. Da mesma forma, ela deu empurrão decisivo para as indicações da obra para disputar a estatueta de “melhor filme” e “melhor filme estrangeiro”.

O filme, como este colunista já assinalou, não precisa do aval gringo como atestado de qualidade. Mas é fenomenal a visibilidade planetária que o Oscar confere à película, ao diretor, aos atores, à ditadura militar, a Rubens Paiva e… a Eunice Paiva.

Em uma entrevista após a indicação ao Oscar, Fernanda Torres destacou a principal característica que ajudou Eunice a enfrentar a ditadura militar sem se contaminar pela brutalidade dos algozes de Rubens Paiva: a civilidade.

E foi assim, dessa forma toda própria, que ela protegeu os filhos, protegeu os amigos, protegeu os indígenas e vários outras pessoas.

A dignidade de Eunice, descrita de forma emocionada no livro do filho Marcelo, atravessou o tempo e, por causa do filme, atraiu a admiração do mundo.

Aos opressores de ontem e aos que têm saudades deles, resta recolherem-se à sua incivilidade e emitir rosnados escatológicos nas redes sociais, para dar vazão aos ressentimentos.

No topo do mundo, onde estão aqueles que resgataram a história de Eunice Paiva, não é possível ouví-los.


terça-feira, 19 de novembro de 2024

PF prende "kids pretos" que pretendiam matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes

 

Ação dos golpistas bolsonaristas pretendia implantar uma ditadura no Brasil


    Lula e Alexandre de Moraes (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta terça-feira (19), a Operação Contragolpe, desarticulando uma organização criminosa composta por militares e apoiadores de Jair Bolsonaro (PL). O grupo é acusado de planejar assassinatos do presidente Lula (PT), do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como parte de um plano maior para implantar uma ditadura no Brasil, segundo a revista Veja.

Os alvos incluem cinco prisões preventivas, sendo quatro militares — entre eles, um general da reserva — e um policial federal. Além disso, a PF cumpriu três mandados de busca e apreensão e aplicou 15 medidas cautelares, como a entrega de passaportes e a proibição de contato entre os investigados. As ações ocorreram no Rio de Janeiro, Goiás, Amazonas e Distrito Federal, com o apoio do Exército Brasileiro.

Plano detalhado e nome codificado - Batizado de “Punhal Verde e Amarelo”, o plano previa o assassinato de Lula e Alckmin no dia 15 de dezembro de 2022, além da prisão e execução de Alexandre de Moraes. Segundo a PF, o grupo havia monitorado o ministro do STF por semanas e possuía conhecimento técnico-militar avançado para executar as ações.

A investigação revelou ainda que o grupo tinha um projeto para instituir um “Gabinete Institucional de Gestão de Crise”, comandado pelos golpistas, com o objetivo de administrar os conflitos resultantes do golpe de Estado e consolidar o regime autoritário. 

Nível técnico-militar e ameaça institucional - Os envolvidos, em sua maioria militares com formação em Forças Especiais, utilizavam técnicas operacionais avançadas para planejar o golpe. O esquema também incluía o levantamento de recursos humanos e bélicos suficientes para ações coordenadas contra alvos estratégicos. 

As ações e planos configuram crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa, conforme aponta a investigação.


segunda-feira, 24 de julho de 2023

GGN: Para que servem as Forças Armadas? Por Luís Nassif

 

Jornal GGN:

Qual a função das Forças Armadas? Defesa nacional não é. Não há ameaça dos vizinhos, não há protagonismo algum das FFAA brasileiras nos embates geopolíticos

José Cruz – Agência Brasil

Uma hora haverá a necessidade de se discutir: qual é, afinal, a função das Forças Armadas? Nos longínquos anos 70, a primeira Página Amarela que consegui emplacar na Veja foi com Fábio Konder Comparato. E ele situava nessa ausência de propósito claro a tendência dos militares de se imiscuírem em todos os poros da vida nacional – e estávamos em plena ditadura.

De lá para cá, nada aconteceu. Qual a função das Forças Armadas na atual quadra da história? Defesa nacional, é que não é. Não há ameaça dos vizinhos, não há protagonismo algum nos grandes embates geopolíticos globais. E se houvesse ameaça, não haveria Forças Armadas preparadas. Não há investimentos em inovação ou tecnologia, capazes de transbordar para o setor civil. E tanques e outros instrumentos de dissuasão são utilizados apenas contra brasileira, como ficou claro na invasão do Morro do Alemão.

O Plano Nacional de Defesa, elaborado na gestão Nelson Jobim, mostrava a necessidade de uma força enxuta, tecnológica e com capacidade de mobilização. Para tal, houve investimentos vultuosos no submarino nuclear e nos caças Gripen. 

Haveria dois objetivos potenciais para serem trabalhados. Um deles, as ameaças à Amazônia, especialmente com a invasão de traficantes. Mas já está comprovado a ineficácia do uso das FFAAs contra o crime organizado.

O segundo, seria a defesa da Amazônia Azul, da costa brasileira, das plataformas da Petrobras e, especialmente, das novas fronteiras de exploração mineral, no Elevado Rio Grande.

Mas a gloriosa Marinha dos Almirantes Álvaro Alberto e Othon Luiz transformou-se em uma força contaminada pela ultradireita mais indisciplinada – bastando conferir o comportamento abusivo do Alto Comando na transição para o governo Lula.

Coube a um Almirante ligado à energia nuclear, Bento Albuquerque, permitir o maior atentado à segurança nacional, o golpe da privatização da Eletrobras. Ao que tudo indica, seu objetivo é ajudar a desenvolver – e a participar – do mercado privado de pequenas centrais.

Mesmo com participação direta nas decisões de poder, os militares permitiram a venda da Embraer à Boeing, sabendo que a empresa era a única maneira do país absorver a tecnologia do Gripen. E tudo isso no governo militar de Jair Bolsonaro. 

Dia desses, uma publicação chinesa taxou as FFAAs brasileiras como as piores do planeta. Foi um exagero retórico, mas que reflete a extraordinária perda de foco do orçamento de defesa, consumido quase que inteiramente com gastos com pessoal. E para quê?

O país tem carência de pessoal na saúde, nos órgãos ambientais, na Previdência Social. O máximo que o governo militar de Bolsonaro ousou foi alocar militares em alguns quadros, mas com superposição de vencimentos.

Nos anos 70, o governo militar de Médici e Geisel tiveram preocupação em criar instituições ligadas ao financiamento da inovação. Nos anos 2020, o governo militar de Bolsonaro permitiu o esvaziamento dos centros de pesquisa E seu único foco foi a criação de empregos para patentes inferiores e negócios para superiores.

Por falta total de objetivos, de projetos ou de conceitos, o que restou às Forças Armadas foi tentar empalmar o poder civil, sem nenhum projeto nacional consistente de desenvolvimento como álibi.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Ex-legista vira réu por ser conviente e ocultar torturas cometidas no regime da ditadura militar

 

José Manella Netto é acusado de falsidade ideológica e ocultação de cadáver ao omitir causa mortis de Carlos Roberto Zanirato

Foto: Reprodução

Jornal GGN – O ex-médico legista José Manella Netto se tornou réu por falsidade ideológica e ocultação de cadáver pela Justiça Federal, ao omitir a causa mortis do militante político Carlos Roberto Zanirato.

Junto do legista Orlando Brandão, Manella Netto assinou laudo afirmando que Zanirato cometeu suicídio ao saltar na frente de um ônibus na Avenida Celso Garcia, em São Paulo, em 1969 quando, na verdade, ele foi submetido a sessões de tortura.

Zanirato tinha 19 anos quando entrou no Exército, em janeiro de 1969. Ele integrou o 4º Regimento de Infantaria em Osasco, que deixou o quartel para formar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) ao lado do capitão Carlos Lamarca para combater a ditadura.

De acordo com o Ministério Público Federal, Zanirato foi torturado durante seis dias até ser levado ao local onde foi empurrado na frente de um ônibus. Nenhum tipo de registro da ocorrência chegou a ser feito.

O jovem foi enterrado como indigente no Cemitério da Vila Formosa, e seus restos mortais não foram identificados até hoje.

Como explica reportagem do jornal O Globo, Zanirato foi o primeiro militante sob custódia do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops/SP) a desaparecer.

Segundo denúncia feita pelo procurador da República Andrey Borges Mendonça, e aceita pela 5ª Vara Criminal da Justiça Federal em São Paulo, o laudo assinado pelos legistas ocultava diversas lesões causadas por agressões anteriores, cometidas por agentes da ditadura militar.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A "santidade" profanada dos militares. Por Manuel Domingos Neto

 

Por décadas, Forças Armadas nutriram aura quase religiosa sobre si mesmas. Foi esta intocabilidade que estimulou, sob o esgoto do bolsonarismo, muitos militares a se corromperem. Insistência em protegê-los pode comprometer toda a instituição

Imagem: JoIImagem: João Montonaro

Desde a última ditadura, a representação política viveu intimidada pelos militares.

Em 1979, acatou uma anistia que preservou praticantes do terrorismo de Estado que atentaram contra a humanidade. Na Constituinte de 1988, através do Artigo 142, reconheceu os superpoderes das corporações armadas. O Ministério da Defesa, organismo essencialmente político, foi entregue ao desígnio do militar. Os negócios da Defesa foram simploriamente assimilados como assuntos militares. Com uma tuitada um general condicionou as últimas eleições presidenciais. Com o país em profunda crise multidimensional, a representação política admitiu que Bolsonaro concedesse privilégios a perder de vista à “família militar”.

Não será baixando a cabeça diante das fileiras que os brasileiros preservaremos a democracia. Agiu bem o senador que preside a CPI ao dizer que não seria intimidado por generais. Militares se envolveram em falcatruas e devem responder por isso. Outra opção seria encerrar os trabalhos da CPI e deixar o morticínio correr frouxo.

Hoje à noite eu ministrarei uma aula cujo primeiro tópico é a religiosidade dos guerreiros. Homens que se preparam para abater semelhantes, mesmo que movidos por pura cobiça, cobrem-se de razões sagradas. Suas credibilidades derivam de imagens construídas. Guerreiros precisam mostrar-se alheios aos interesses pequenos. O sentido de honra cultivado nas fileiras é estreitamente relacionado às causas elevadas que juram defender.

O guerreiro ideal é incorruptível, como Platão teorizou há mais de dois mil anos. A cristandade recheou sua hagiografia de figuras militares. São Sebastião, São Jorge, São Longuinho, Santa Joana D’Arc, São Luís… Guerreiros vivem passando a ideia de que prezam o interesse coletivo ao custo da própria vida. Demandam a divindade como parceira. Perdendo a sacralidade, o guerreiro se esfarela.

Os comandantes brasileiros sabem disso e se empenharam em destacar a diferença entre o político paisano, corrupto por índole, e o militar ilibado, íntegro por formação. Fileiras se legitimam como defensoras da pátria sacrossanta. Assim ensinam as escolas castrenses. Fora dos quartéis, a extraordinária lenda segundo a qual na ditadura não havia corrupção foi religiosamente disseminada. O povo sempre foi propenso a acreditar no extraordinário.

Eis que a imagem de alto padrão moral das instituições armadas brasileiras entra em chamas a partir dos trabalhos da CPI. Podia ser diferente? As corporações não passariam ilesas integrando o governo Bolsonaro. Os militares sempre souberam da folha-corrida do Presidente.

Se os parlamentares baixarem a cabeça, cairemos numa sinuca de bico. Aliás, os senadores fizeram de tudo para poupar os militares, adiando o que estava escrito. Demoram para colher o depoimento dos oficiais e entoaram loas às corporações.

De tão protegidos, ousaram cada vez mais. O Presidente do Superior Tribunal Militar julgou-se autorizado a delimitar o espaço da oposição e não perdeu a oportunidade. Disse que a esquerda estava esticando demasiado a corda. Não foi admoestado. Previsível, pois, que os homens de muitas estrelas continuassem o jogo das “aproximações sucessivas”, assinando uma nota contra o presidente da CPI.

A preservação da democracia passa pela contenção de tais manifestações. O senador Omar agiu de forma ponderada. Condenou a “banda podre”, não o conjunto das corporações. Como negar o fato de militares estarem envolvidos no escândalo de corrupção mais repugnante da história brasileira?

A santidade castrense está em chamas. Sem uma postura firme da consciência democrática, as labaredas podem tomar conta do país.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Do El País: Braga Netto mente sobre ditadura, enquanto diz que Forças Armadas respeitarão a Constituição

 

  A afirmação de que não houve ditadura militar tem sido repetida como mantra por militares das Forças Armadas. Até uma nota oficial do Ministério da Defesa deste ano afirmou que o golpe de 1964 deveria ser “celebrado” como um “movimento” que permitiu “pacificar o país”. Tudo isso é uma negação da História.

Do El País:


Chamado a se explicar sobre ameaças ao Congresso, ministro da Defesa afirmou que “se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui”. Ele negou, ainda, que tenha enviado mensagem para ameaçar eleições

O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, chega à Câmara dos Deputados para prestar esclarecimento sobre ameaças, nesta terça-feira, 17 de agosto, em Brasília.


O ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, mentiu nesta terça-feira na Câmara dos Deputados ao dizer que não houve ditadura militar entre 1964 e 1985 no Brasil. “Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui. Ditadura, como foi dito por outro deputado, é em outros países”, afirmou. A fala de Braga Netto foi feita durante uma sessão, para a qual foi convocado, em que prestava esclarecimentos sobre uma nota em tom ameaçador, assinada por ele e pelos comandantes das Forças Armadas para intimidar o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Pandemia. Deputados também o questionavam sobre uma notícia veiculada na imprensa que afirmava que ele usou um interlocutor político para avisar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que não haveria eleições em 2022 caso o voto impresso fosse rejeitado —o que aconteceu na semana passada, quando a Câmara derrubou a proposta. “Reitero que não enviei ameaça alguma, não me comunico com presidente dos Poderes por intermédio de interlocutores”, afirmou nesta terça.

MAIS INFORMAÇÕES

A afirmação de que não houve ditadura militar tem sido repetida como mantra por militares das Forças Armadas. Até uma nota oficial do Ministério da Defesa deste ano afirmou que o golpe de 1964 deveria ser “celebrado” como um “movimento” que permitiu “pacificar o país”. Tudo isso é uma negação da História. A Comissão Nacional da Verdade listou 434 pessoas mortas e desaparecidas por ação direta da ditadura e apontou 377 nomes de pessoas que violaram os Direitos Humanos durante o período, recomendando a responsabilização criminal, civil e administrativa de 196 dessa lista que permanecem vivos. O relatório também afirma que mais de 8.000 indígenas morreram durante o período e que ditadura perseguiu 6.591 militares.

Entre os perseguidos pelo regime estão, por exemplo, os jornalistas Vladimir Herzog —assassinado em 1975—, Luiz Eduardo Merlino —assassinado em 1971— e o então deputado Rubens Paiva —desaparecido em 1971. Há relatos de tortura nos porões da ditadura, sobretudo após 1968, quando o regime publicou o Ato Institucional de número 5 (AI-5). O decreto institucionalizou a repressão política e o terror promovido pelo Estado, prevendo o fechamento do Congresso e a cassação de mandatos de parlamentares, a suspensão dos direitos políticos de qualquer cidadão, entre outros pontos. Esses fatos foram ignorados por Braga Netto. “Houve um regime forte, isso eu concordo. Cometeram excessos dois lados, mas isso tem que ser analisado na época da história, de Guerra Fria e tudo mais, não pegar uma coisa do passado e trazer para o dia de hoje”, afirmou nesta terça-feira.

Essa negação também serve para justificar a presença dos militares no Governo. Eles não só ocupam ministérios, como também mais de 6.000 fardados estão espalhados entre diretorias, conselhos administrativos e gerências de empresas estatais, como Petrobras, Itaipu, Correios e Eletrobras, acumulando suas pensões de reservistas com seus salários.

Além disso, Bolsonaro foi incluído neste mês no inquérito das fake news do Supremo e, desde então, intensificou sua investida autoritária contra as instituições. Em entrevista, chegou a dizer que se veria obrigado a jogar “fora das quatro linhas da Constituição”. O presidente vem alimentando o discurso de que as Forças Armadas devem atuar como poder moderador, em mais uma leitura enviesada sobre os papéis atribuídos pelo artigo 142 da Constituição. A tese do “poder moderador” foi repetida pelo general da reserva Augusto Heleno nesta segunda-feira. Em entrevista à rádio Jovem Pan, o chefe do GSI opinava que o Judiciário, e não Bolsonaro, “tem colocado as coisas numa tensão ainda maior”. ”Mas não acredito numa intervenção no momento. Essa intervenção poderia acontecer num caso muito grave”, admitindo como possibilidade.

Nesta terça-feira, porém, Braga Netto tentou apaziguar os ânimos ao dizer que Bolsonaro atua dentro das “quatro linhas da Constituição”. Também amenizou a fala alimentada pelos bolsonaristas sobre o papel das Forças Armadas. “O País tem somente Três Poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que têm de estar harmônicos e independentes. A Força Armada trabalha com o que está em cima do artigo 142 [da Constituição]. É isso, sem especulações e sem ilações”, afirmou.

Sobre sua defesa do voto impresso e a suposta ameaça de que não haverá eleições, teve de ouvir do deputado Paulo Teixeira (PT), autor de uma notícia-crime contra Braga Netto, o seguinte recado: “Quem decide sobre voto impresso não é vossa excelência. Quem decide é o Congresso Nacional, e a vossa excelência caberá obedecer. E caso não obedeça, será preso.”

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Governo Bolsonaro tem relatórios sobre jornalistas no estilo dos que eram feitos pela ditadura militar para perseguição política

 

Relatório do governo Bolsonaro classifica 81 jornalistas, intelectuais e influenciadores em “detratores”, “neutros” e “favoráveis” em linguagem similar aos relatórios dos órgãos de repressão da ditadura. Veja a lista. O relatório afirma sobre Xico Sá: “"Faz oposição contumaz ao governo, além de reverberar matérias de teor desfavorável à gestão Bolsonaro"

Jair Bolsonaro e Xico Sá

Jair Bolsonaro e Xico Sá (Foto: REUTERS/Pilar Olivares | Brasil 247)

247 - O  governo Jair Bolsonaro tem produzido relatórios sobre jornalistas e  "outros formadores de opinião"  nos mesmos moldes dos realizados pelos órgãos de repressão durante a ditadura militar, especialmente  os DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), espalhados por todas as unidades da Federação. Num desses relatórios, 81 jornalistas e influenciadores são separados entre “detratores”, “neutros” e “favoráveis”.

“O relatório revela e leva ao governo as impressões sobre esses profissionais”, escreve o jornalista Rubens Valente, do UOL, em reportagem sobre o assunto. O levantamento intitulado "Mapa de influenciadores", que analisou postagens do mês de maio de 2020 sobre o Ministério da Economia e o ministro Paulo Guedes, foi produzido pela BR+ Comunicação. Ela tem um contrato com o MCTIC (Ciência e Tecnologia) que é aproveitado pelo ME por meio de um Termo de Execução Descentralizada de junho de 2020, no valor total de R$ 2,7 milhões, que inclui outros serviços de comunicação.

O grupo dos “detratores” é o mais numeroso, com 51 nomes. Os "favoráveis" da lista são 23. E os "neutros informativos", oito. 

Entre os supostos "detratores" estão jornalistas com milhares de seguidores, como Vera Magalhães, Guga Chacra, Xico Sá, Hildegard Angel, Cynara Menezes, Carol Pires, Claudio Dantas, Luis Nassif, Brunno Melo, Igor Natusch, George Marques, Palmério Dória, Flávio V. M. Costa, Márcia Denser, Rachel Sheherazade, além dos professores universitários Silvio Almeida, Laura Carvalho, Jessé Souza, Claudio Ferraz, Sabrina Fernandes, Marco Antonio Villa, Conrado Hubner, Rodrigo Zeidan, entre outros - o próprio Rubens Valente está na lista. Ainda no campo dos supostos "detratores" aparecem youtubers e influenciadores como Felipe Neto, Nathália Rodrigues e Jones Manoel. 

Os oito "neutros informativos" citados são Alex Silva, Malu Gaspar, Altair Alves, Cristiana Lôbo, Mônica Bergamo, Marcelo Lins, Ricardo Barboza e Octavio Guedes.

No grupo dos "favoráveis" estão Roger Rocha Moreira, Milton Neves, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Winston Ling, Camila Abdo, Tomé Abduch, entre outros.

O relatório sobre Xico Sá,  que tem 1,5 milhão de seguidores no Twitter, e é hoje protagonista do programa Papo de Segunda, no GNT, e colunista da edição brasileira do jornal El Pais, está redigido nos mesmos moldes dos antigos relatórios do DEOPS: "Faz oposição contumaz ao governo, além de reverberar matérias de teor desfavorável à gestão Bolsonaro". A recomendação sobre Xico é o "monitoramento preventivo das publicações do influenciador em conteúdos relativos ao Ministério da Economia".

domingo, 8 de novembro de 2020

Para quem se indigna com a impunidade e o revisionismo da extrema-direita, recordemos mais um crime dos apoiadores dos militares da Ditadura (e como estes últimos tentaram abafar o caso)

 



Segue reportagem do Correio Braziliense:



Caso Ana Lídia: 45 anos de impunidade


Aos 7 anos, menina foi levada do colégio, em 11 de setembro de 1973, e encontrada morta, em uma cova rasa, no dia seguinte. Apesar da barbárie, grande repercussão e comoção, ninguém foi condenado pelo assassinato


Crime bárbaro


Renato Alves e Isa Stacciarini


Há 45 anos, Ana Lídia era levada com vida do colégio e encontrada morta, no dia seguinte, nua, com os cabelos louros cortados de forma irregular, bem rente ao couro cabeludo, e violentada, em uma cova rasa no cerrado. Tocada durante o mais duro período da ditadura militar, uma investigação cheia de falhas resultou em impunidade. 

Pairavam suspeitas sobre filhos de poderosos. Brasília nunca soube quem foram os algozes da menina vítima do primeiro crime a abalar toda a capital. A cidade ainda em construção perdia a inocência.

A Brasília do início dos anos 1970 tinha população e ritmo de interior. Os crimes se restringiam a pequenos roubos e furtos. As drogas do momento eram a maconha e a cocaína. Não havia crack.

Playboys disputavam rachas nas largas, vazias e não monitoradas avenidas. Ana Lídia morava com os pais, Eloyza Rossi Braga e Álvaro Braga, servidores do Departamento de Serviço de Pessoal (Dasp), em um apartamento do Bloco 40 (hoje Bloco B) da 405 Norte. Além da menina, o casal era pai de Álvaro Henrique Braga e Cristina Elizabeth Braga.

A caçula era o xodó da família. Muito protegida, não brincava nos pilotis, não tinha amiguinhos nem saía de casa desacompanhada. Com 7 anos, Ana Lídia cursava, pela manhã, a 1ª série do ensino fundamental da escola Madre Carmen Salles, na 604 Norte, perto da casa dela. No turno vespertino, no mesmo colégio, tinha aulas de reforço — às terças e sextas-feiras — e de piano — às segundas, quartas e quintas-feiras. Como sempre trabalhou, Eloyza contava com a ajuda de uma empregada. Rosa da Conceição Santana estava com a família havia 20 anos.

Em 11 de setembro de 1973, antes de seguirem para o trabalho, os pais levaram Ana Lídia à escola. A deixaram no pátio às 13h50. Por volta das 16h30, como de costume, Rosa foi buscá-la a pé. Ao procurar a menina, recebeu a notícia de que ela não havia comparecido ao colégio naquela tarde. Preocupada, Irmã Celina, diretora da instituição, telefonou para a mãe da aluna a fim de certificar-se de que ela fora deixada no colégio. Começava o pesadelo.

Asfixia e estupro

Testemunhas contaram que, logo após os pais de Ana Lídia a deixarem na escola, um homem alto, loiro, de cabelos compridos, com blusa branca e calça verde-oliva, a abordou. Ele não deixou a menina entrar na sala de aula. Vinte e duas horas depois, policiais civis encontraram o corpo da menina em um matagal próximo à Universidade de Brasília (UnB).

Próximo ao local em que ela foi enterrada havia duas camisinhas. O laudo do Instituto de Medicina de Legal (IML) atestou que a morte se deu por asfixia, provavelmente provocada por sufocação, entre 4h e 6h de 12 de setembro. Havia ainda manchas roxas e escoriações em várias partes do corpo. O exame comprovou também o estupro da criança.

“A polícia só descansará quando o responsável pela morte da menor for localizado e preso”, garantiu o então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, coronel Aimé Laimaison, em 12 de setembro de 1973. Em depoimento, o jardineiro do colégio, Benedito Duarte da Cunha, descreveu o homem com quem a criança saiu do Madre Carmem Salles e contou que Ana Lídia não parecia assustada ou nervosa. Ao contrário, deixara o colégio animada e alegre. As características físicas batiam com as de Álvaro, irmão e padrinho de Ana Lídia.

Tráfico de drogas

Álvaro tinha 18 anos, dois a menos que a irmã mais velha, Christina. Para os pais, era absurda qualquer suspeita sobre o filho. Eles afirmaram que Álvaro estava no carro quando deixaram Ana Lídia na escola e foi, em seguida, levado à Rodoviária do Plano Piloto para buscar informações no Detran sobre o processo de habilitação.

Apesar de ainda não ter carteira de motorista, ele ia diariamente de moto — presente do pai — para o colégio Laser, na Asa Sul. “No dia 11, inclusive, ele foi flagrado em uma blitz, e nós ficamos preocupados”, justificou, à época, Eloyza. Durante a apuração, o Ministério Público encaminhou ofício ao Departamento de Trânsito para saber se alguma operação havia sido feita naquele dia. O órgão negou ter havido qualquer ação de fiscalização no DF naquela data.

Os investigadores trabalhavam com a hipótese de Ana Lídia ter sido morta em função de um possível envolvimento de Álvaro com o tráfico de drogas. O irmão de Ana Lídia teria dívidas de drogas e o sequestro da irmã seria uma maneira de resolver a pendência. O credor seria Raimundo Duque Lacerda, funcionário do Dasp, subordinado da mãe de Ana Lídia, e conhecido pela personalidade descontrolada. Além de problemas com bebida e drogas, ele foi acusado de ser “um dos principais traficantes de maconha do DF” pelo então chefe de polícia, Aderbal Silva.

Quatro dias depois do crime, ao saber que era um dos suspeitos, Duque arrumou documentos falsos e fugiu. Em cinco meses, andou por cinco estados, até ser preso em Conceição do Araguaia (GO) e transferido para Brasília. Em seguidos interrogatórios, o irmão da vítima assumiu ter fumado maconha apenas três vezes. Depois, passou a negar o uso da substância. Negou qualquer envolvimento com o rapto e a morte de Ana Lídia, assim como Raimundo Duque.

Policiais e curiosos no terreno da UnB onde foi encontrado o corpo de Ana Lídia |Cláudio Alves/CB/D.A Press - 12/09/1973

Denúncia e prisões

Paralelamente, o Ministério Público do DF iniciou uma investigação. Procurador-geral de Justiça do DF à época, José Júlio Guimarães Lima designou o promotor José Jerônymo Bezerra de Souza para o caso. Ele averiguou denúncias contra Alfredo Buzaid Junior, filho do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, e Eduardo Ribeiro de Rezende, filho do também então senador Eurico Rezende. José Jerônymo disse não ter encontrado indícios que ligassem os dois ao crime. O mesmo ocorreu com a suposta relação da morte da criança com traficantes.

Durante a investigação, o promotor, que depois prestou concurso para o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT) e se tornou desembargador, notou uma “certa dose de cinismo” e de frieza por parte de Álvaro. José Jerônymo se convenceu de que Álvaro retirou a garota da escola, mas de que não havia participado da morte e do estupro da irmã.

A defesa incondicional do filho feita pelos pais de Álvaro chamou a atenção do MP. Um fato narrado em depoimento pela irmã Sacrário, funcionária da escola, ajudou a formar a convicção da promotoria. Ela estava no apartamento dos Braga quando a mãe soube da morte de Ana Lídia. Após abraçá-la, o marido teria dito: “Eloyza, Deus queira que não seja o que estou pensando. Depois disso, vêm coisas piores”.

Poucas provas

Com a certeza da participação de Álvaro e muitos indícios que ligavam Duque ao crime, em 29 de maio de 1974, o MP contrariou o inquérito policial, que afirmava não ter provas contra os suspeitos, e pediu a prisão preventiva da dupla. A Justiça acatou.

Eles ficaram trancafiados por mais de um ano, à espera do julgamento. De acordo com o Ministério Público, enquanto ao primeiro coube a responsabilidade de tirar Ana Lídia do colégio, o segundo torturou, matou e violentou sexualmente a criança.

Falhas e absolvição

Em 16 de junho de 1975, o juiz Dirceu de Faria, da 2ª Vara Criminal, absolveu os réus baseado na denúncia de que o sequestro havia sido combinado por Duque e Álvaro. Para o magistrado, não havia provas nem que a dupla se conhecia. Ambos sempre alegaram que se viram pela primeira vez só no dia da prisão. O MP, no entanto, apresentou provas da ligação entre eles, como o depoimento de testemunhas, e decidiu recorrer da decisão. Mas, em 2 de dezembro de 1977, a 1ª Turma do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios confirmou a decisão do juiz Dirceu.

Os promotores de Justiça ressaltaram falhas na investigação, que, segundo eles, começaram poucas horas após o rapto de Ana Lídia. Apesar de o desaparecimento ter sido comunicado à polícia menos de três horas após o sumiço, o inquérito só foi aberto seis dias depois. Com isso, os primeiros depoimentos prestados pela família nunca constaram no processo, assim como o retrato falado feito a partir do relato de uma dona de casa que viu um homem acompanhando a menina em direção à UnB.

Na época do crime, a polícia ignorou outras pistas, como o álibi usado pela família de Álvaro para inocentá-lo. A justificativa é de que ele teria ido à Rodoviária e ao Detran. As marcas de pneu de moto encontradas ao lado da vala onde estava o corpo de Ana Lídia não foram confrontadas com a Yamaha de Álvaro. Os investigadores não foram às poucas farmácias do Plano Piloto apurar vendas recentes de camisinha. Na década de 1970, a população não tinha o hábito de usar o protetor, por isso poucos estabelecimentos vendiam preservativo.

“Bodes expiatórios”

O crime prescreveu em 11 de setembro de 1993. Raimundo Duque morreu em 2005, em Anápolis (GO), aos 62 anos, de complicações decorrentes do alcoolismo. Policiais prenderam Raimundo dois anos após o crime por falsidade ideológica. Tentou se passar por outra pessoa para evitar morrer, segundo ele. Depois que saiu da prisão foi para o Rio de Janeiro. Vendeu ouro, roupas, caixão, até se mudar para o interior de Goiás. Em 2003, por telefone, deu a última entrevista, ao Correio.

À época, aposentado, Duque vivia com um terço do salário que ganhava no emprego. Morava com a mulher e uma filha de 19 anos. Ele jurou inocência. “Eu era muito doido, fumava maconha, cheirava cocaína, me picava com cocaína, e a Polícia Federal nunca conseguia me pegar. No dia da morte da menina, fui lá prestar solidariedade porque era muito amigo da mãe da menina, da família. Quando chego lá, só tinha polícia. Logo depois, eu fui para Mato Grosso. Estava de férias e fui visitar meu pai. Prestei depoimento, às vezes dopado, drogado e, às vezes, bêbado”, disse.

Sem respostas

Duque ainda acrescentou: “Minha foto saiu na televisão e nos jornais. Sei que os policiais, nos dias 14 ou 15 de setembro de 1973, receberam ordens para abafar o caso e que, segundo os federais, tinha gente importante na jogada. Não posso falar se foi o ‘B’(Buzaid), porque não gosto de condenar ninguém sem prova. Mas tudo indica que foi ele. Fomos julgados. Não tinham provas contra a gente. O crime foi uma coisa diabólica. Só Álvaro e eu pagamos o pato. Pra mim, Álvaro é inocente. Foi outro escolhido para bode expiatório. A primeira conversa da Federal é que ele estaria devendo meio quilo de cocaína para o filho de um ministro em Brasília. Depois foi desviada para cima de mim."

“Foi uma maldade muito grande e, por fim, não se descobriu nada. Se estiver vivo, o matador continua em liberdade. Se morto, foi dado como inocentado, porque ninguém nunca descobriu quem foi”Safe Carneiro, advogado que defendeu Álvaro Henrique à época

A mãe de Ana Lídia, que sempre afirmou não acreditar no envolvimento do filho, morreu em março de 2005. O pai, Álvaro Braga, se mudou com a família para o Rio de Janeiro após a absolvição do crime. Ele morreu na capital carioca, em 2011, sem nunca dar entrevista sobre o caso. Álvaro Henrique é médico e mora no Rio de Janeiro. O Correio tentou contato com ele, pelo telefone do consultório, no bairro de Vila Isabel. A secretária informou que Álvaro, “não falaria sobre o assunto”.

Em depoimento ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2000, a mais recente declaração dele sobre o caso, Álvaro afirmou que foi torturado várias vezes por suposto envolvimento no assassinato. “O governo federal arranjou bodes expiatórios”, disse à época. Segundo ele, a verdadeira história do assassinato de sua irmã jamais aparecerá. “Os presidentes estão mortos, os ministros envolvidos estão mortos e seus filhos estão mortos.”

Na entrevista, ele diz ter descoberto desde o início que o governo não tinha interesse em investigar o crime. Conta que na primeira vez que foi à delegacia para acompanhar as investigações, ficou sabendo que havia “ordens superiores para parar as buscas”.

Túmulo da menina no Campo da Esperança: o mais visitado no Dia de Finados | Foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press -  2/11/2013

Investigação refeita e frustrada

Por ordem do Governo do Distrito Federal, a Polícia Civil criou uma comissão para apurar novamente o caso Ana Lídia, 11 anos depois do crime. A instituição falhou mais uma vez. Aposentado há 23 anos, o delegado Álvaro Caetano dos Santos, 78 anos, esteve à frente do grupo de delegados e agentes responsáveis pela missão de desvendar o crime. Ele fez mais de 40 viagens com equipes de investigação, ouviu testemunhas e jovens de Brasília, mas não conseguiu chegar aos autores do assassinato. “Certamente, se não morreram, os responsáveis ficaram impunes”, destacou Álvaro, em entrevista ao Correio, por telefone, na última sexta-feira. Natural da Bahia, ele chegou a Brasília na década de 1970.

Apesar de não desvendar o caso, o delegado refuta a hipótese de que o irmão seria coautor do sequestro. “Se houvesse provas de que ele tirou a criança da escola, a investigação seria mais fácil. Mas não houve essa comprovação. Tanto que ele foi absolvido pela Justiça”, destacou Álvaro dos Santos.

Para o delegado aposentado, as falhas da primeira investigação dificultaram o trabalho posterior. “Se não chegaram aos responsáveis dois, três anos depois, passado todo esse tempo, ficaria mais difícil. As provas tinham sido extintas e os depoimentos não eram mais tão fiéis”, observou. “Ficou o sentimento de frustração por não ter conseguido comprovar os fatos e responsabilizar os devidos autores”, completou.

Defesa

Alto, loiro, cabelos compridos: Álvaro, irmão da vítima, se encaixava na descrição do sequestrador | Foto: Arquivo CB/D.A Press

Advogado de Álvaro Henrique à época, Safe Carneiro, hoje com 84 anos, defende a inocência do cliente até hoje. Para ele, havia uma “campanha da imprensa” contra o irmão de Ana Lídia. “Foi uma maldade muito grande e, por fim, não se descobriu nada. Se estiver vivo, o matador continua em liberdade. Se morto, foi dado como inocentado, porque ninguém nunca descobriu quem foi”, observou.

Safe Carneiro conta ter recebido ameaças. “Foi um sofrimento grande. Recebi diversas ameaças, inclusive de gente dizendo que retirariam os meus filhos do colégio onde estudavam, na Escola Classe 208 Sul. Tive que sair às pressas do escritório e, chegando lá, era tudo mentira. Foi uma tortura”, lembrou.

Ele se recordou também da hipótese levantada à época de Ana Lídia não ser filha de Eloyza, mas de uma irmã dela. “Desmoronaram essa família, que teve a infelicidade de contar com uma filha retirada de seu seio dessa forma tão brutal”, ressaltou o advogado.

Carneiro manteve contato com a família de Álvaro Henrique, que, inclusive, o convidou para a formatura em medicina, no Rio. “Também tenho até hoje um retrato de Ana Lídia com uma dedicação que fizeram. O senhor Álvaro (pai da criança) me visitou no consultório até antes de falecer, assim como dona Eloyza, mas, depois, os anos foram passando e perdemos o contato”, contou o defensor, que por seis anos presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF).

O Correio procurou o desembargador José Jerônymo para comentar a denúncia oferecida por ele quando era promotor de Justiça do Ministério Público do DF (MPDFT), mas a assessoria de imprensa do TJDFT informou que ele preferiu não dar entrevista.

Furos na investigação

Álibi

Os pais de Ana Lídia afirmaram que Álvaro Henrique estava com eles no momento em que deixaram a menina na escola, versão contestada por duas testemunhas. Além disso, ele afirma ter ido à Rodoviária do Plano Piloto em busca de informações para tirar a habilitação. A polícia nunca checou com funcionários do órgão se o jovem, de fato, esteve no departamento na tarde de 11 de setembro de 1973.

Retrato falado

A dona de casa Diva Aparecida morava em um barraco próximo ao Colégio Madre Carmen Salles e, na tarde em que Ana Lídia foi retirada da escola, viu a menina loira, de vestido branco e azul e sandálias vermelhas passar pelo matagal em direção à UnB na companhia de um homem moreno, de estatura baixa, de cabelos ondulados. A polícia colheu o depoimento de Diva e peritos fizeram um retrato falado, que se parecia muito com Raimundo Lacerda Duque. Mas a peça nunca foi anexada ao processo.

Testemunhas

A polícia só tomou o depoimento das freiras da escola em abril de 1974, mais de seis meses depois do crime. Um dia antes de as irmãs comparecerem à delegacia, elas receberam um telefonema com ameaças.

Provas

As duas camisinhas encontradas ao lado da cova em que Ana Lídia foi enterrada. À época, o uso de preservativos não era comum e poucas farmácias vendiam o produto. Apesar disso, os investigadores não fizeram diligências nos estabelecimentos para tentar descobrir a identidade do possível assassino.

Local do crime

No terreno em que o corpo da menina foi encontrado, havia marcas de pneus de motocicleta, mas não houve perícia nos vestígios. Álvaro Henrique, irmão da menina, tinha uma Yamaha 100 cilindradas.

Quem é quem

Álvaro Braga, pai de Ana Lídia.

Funcionário do Departamento de Serviço de Pessoal (Dasp), tinha 55 anos quando a menina foi morta. Sempre negou o envolvimento do filho no crime. Depois da absolvição, decidiu mudar-se com a família para o Rio de Janeiro. Morreu em 2011.


Eloyza Rossi Braga, mãe de Ana Lídia.

Também trabalhava no Dasp, era casada havia mais de 20 anos e estava com 48 à época da tragédia. Era chefe de Raimundo Lacerda Duque, um dos suspeitos, e, em algumas oportunidades, aconselhou o subordinado a procurar tratamento para os problemas com drogas e álcool. Morreu em março de 2005.

Álvaro Henrique Braga

, irmão de Ana Lídia, acusado e absolvido do crime.

Aos 18 anos, cursava o 3º ano do ensino médio no colégio Laser, na Asa Sul. Foi denunciado pelo sequestro da irmã. De acordo com a polícia, ele tinha dívidas de drogas e o rapto seria uma forma de saldá-las. Ficou mais de um ano preso à espera do julgamento. Em outubro de 1974 foi absolvido por falta de provas. Formou-se médico em 1982 no Centro Universitário de Volta Redonda, no Rio. Angiologista, atende em um consultório no bairro Vila Isabel, na capital carioca.

Raimundo Lacerda Duque

, acusado e absolvido do crime.

Tinha 30 anos, era funcionário do Dasp e conhecido da família Braga. Alcoólatra e viciado em drogas, havia sido submetido a vários tratamentos de desintoxicação. Foi acusado de torturar, matar e estuprar Ana Lídia. Fugiu de Brasília quando soube que era suspeito e acabou preso, em Goiás, cinco meses depois. Ficou detido na mesma cela que Álvaro, enquanto aguardava o julgamento. Também foi absolvido e aposentado por invalidez. Passou a viver com o benefício de três salários mínimos pagos pelo governo federal. Morreu em 2005, aos 64 anos, por complicações decorrentes do alcoolismo, em Anápolis (GO).

Romance retrata caso

Ahistória do sequestro e assassinato de Ana Lídia se transformou em um romance policial escrito pelo jornalista Roberto Seabra. Na obra Silêncio na cidade, da Editora Camará, lançada no fim do ano passado e relançado na 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, mês passado, ele narra a história com adaptações, sem compromisso de retratar a realidade ou desvendar o crime.

O nome da menina é trocado por Ana Clara. Roberto recorreu às memórias do pai, Manoel Esperidião Pereira, perito criminal que morreu em 2003, aos 63 anos, mas participou das investigações, além daquilo que se recordava de coberturas jornalísticas à época. “Trata-se de uma história real, mas escrita da forma com que os especialistas chamam de roman à clef (romance com chave). De toda forma, as pessoas que conhecem o caso se identificam”, ressaltou o escritor.

Roberto também recolheu reportagens e fez pesquisas em arquivos públicos. “Fui criando a versão do caso e comecei a investigar de forma inicial. A própria ficção assume esse papel de denúncia. Quando os fatos não aparecem, penso que é válido lançar mão de outras ferramentas, como o que foi feito”, frisou ele, que, de início, pretendia escrever um livro-reportagem. Mudou de ideia após perceber que não havia um desfecho do caso.

Para o autor, Ana Lídia se tornou vítima de uma armadilha. “A criança era o elo mais fraco de uma história que envolvia pessoas relacionadas com o tráfico de drogas, sendo fornecedores e consumidores, a maioria membros da elite de Brasília e filhos de poderosos. Inocente, nada tinha a ver com a história, e deu azar de o irmão estar possivelmente envolvido de alguma forma”, destacou.

O jornalista acredita que o irmão da menina teria uma dívida com os suspeitos que se vingaram com a morte da menina. Ele reclama da impunidade: “Trata-se de um caso falado há 45 anos e sob o qual não se tem quase nada de concreto. Não tivemos condenação nem a responsabilidade de cada um.”

Para Roberto, a brutalidade e a impunidade moldaram a forma como a cidade trata o caso. “Brasília é uma cidade muito nova para ter lendas, e o caso Ana Lídia não pode ser transformado nisso. O nome dela virou título de parque infantil e, todos os anos, no Dia de Finados, o túmulo recebe visitas de pessoas que vão levar flores, brinquedos. A imagem dela se transformou como de uma santa na cidade.”

Curiosidades

Durante as investigações da morte de Ana Lídia, alguns fatos ajudaram a aumentar o interesse sobre o caso. Confira:

Vestibular

Em novembro de 1974, enquanto estava preso à espera do julgamento, o irmão de Ana Lídia pediu autorização para deixar a prisão a fim de estudar para o vestibular. A solicitação foi negada.

Bancário

Depois de ser absolvido em primeira instância, Álvaro Henrique foi aprovado em um concurso do Banco do Brasil. Foi convocado para assumir vaga de escriturário, mas não tomou posse. “O que querem? Marginalizar-me? A Justiça de primeira instância já declarou a minha inocência. Será que, para eles, eu sou culpado?”, disse, à época.

Maternidade

Muitos boatos relativos à família Braga foram ventilados enquanto o brutal assassinato era investigado, entre eles o de que Ana Lídia seria filha de Cristina e não de Eloyza e Álvaro. O próprio Duque e a empregada da família disseram não se lembrar da gravidez da matriarca.

Caso Araceli

A polícia chegou a investigar supostas semelhanças entre a morte de Ana Lídia e o assassinato da menina Araceli Cabreira Crespo, 8 anos, ocorrido quatro meses antes, em Vitória. Nunca foi comprovada qualquer ligação.

Freiras

No dia em que receberam a intimação para depor, as madres da escola em que Ana Lídia estudava receberam uma ameaça por telefone. “Vocês foram chamadas. Cuidado com o que vão dizer”, afirmou uma voz masculina à irmã Sacrário.

Torturas

Em várias oportunidades, tanto Duque quanto Álvaro Henrique relataram ter sofrido tortura nas dependências das polícias Civil e Federal.

Bruna Rocha/Divulgação

Silêncio na cidade

De Roberto Seabra

Editora Camará

Número de páginas: 284

Preço médio: R$ 40

É vendido na Banca da Conceição, na SQS 308, ou na versão eletrônica na Amazon