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quinta-feira, 8 de julho de 2021

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo e educador da complexidade. Por Rômulo de Andrade Moreira

 

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Foto Sesc-SP

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo da complexidade

por Rômulo de Andrade Moreira[1]

Hoje, 08 de julho, Edgar Morin, o “humanista planetário” (como o chamou Alain Touraine[2]), um dos mais sofisticados filósofos contemporâneos, faz 100 anos. Ex-combatente da resistência francesa, sociólogo e pensador transdisciplinar e indisciplinado, doutor honoris causa de 34 universidades em todo o mundo, Morin está, desde o dia 17 de março do ano passado, confinado no seu apartamento em Montpellier, na companhia da sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam.[3]

Morin, a partir de uma frase de Montaigne (“mais vale uma cabeça bem-feita que bem cheia”), escreveu um livro dirigido, particularmente, para a docência e, mais ainda especialmente, para estudantes que se entediam, desanimam-se, deprimem-se ou se aborrecem com o ensino atual, a fim de que possam “assumir sua própria educação.”

Trata-se do A Cabeça Bem-Feita – Repensar a Reforma & Reformar o Pensamento, “dedicado, de fato, à educação e ao ensino”, visto não como uma mera transmissão de saber, mas como uma verdadeira e genuína transferência de “uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre”; educação concebida como algo que “pode ajudar a nos tornar melhores, se não mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas.”[4]

Definitivamente, é um livro prenhe de lições para professores, professoras, alunos e alunas. Aliás, as ideias de Morin acerca da educação e do ensino lembram, em muitos aspectos, os temas e os enfrentamentos encontrados nas obras de Paulo Freire, o nosso maior educador. Sim, pois lendo os escritos do brasileiro não é difícil encontrar incríveis semelhanças entre ele e o francês.

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Desde o início, Morin sustenta que nos tempos atuais há o que ele chama de uma hiperespecialização, ou seja, “a especialização que se fecha em si mesma sem permitir sua integração em uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto do qual ela considera apenas um aspecto ou uma parte.”

Este fenômeno, a um só tempo, fragmenta o global e dilui o essencial, separando disciplinas, dissociando os problemas, reduzindo e decompondo o complexo, fazendo com que “as mentes jovens percam suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos”, pois o progresso do conhecimento reside mais na “capacidade de contextualizar e englobar” do que na “sofisticação, formalização e abstração.” De uma tal maneira “que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e não atrofiada.”

Na contemporaneidade, especialmente com o acesso a várias mídias, a diversos conhecimentos, às mais sofisticadas técnicas científicas, há “uma expansão descontrolada do saber e um crescimento ininterrupto dos conhecimentos, construindo uma gigantesca torre de Babel, que murmuram linguagens discordantes.”

Ora, como “as informações constituem parcelas dispersas de saber”, afogando-nos a todos, “o conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações e inserido no contexto destas.” O pensamento, portanto, não pode isolar e separar, mas antes e pelo contrário, deve distinguir e unir, sendo necessário “substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento do complexo.”

A partir dessa reflexão, Morin constata “a grande separação entre a cultura das humanidades e a cultura científica.” Enquanto a primeira (a cultura humanística) é “genérica e alimenta a inteligência geral, seja a partir da filosofia, do ensaio ou do romance, enfrentando as grandes interrogações humanas, estimulando a reflexão sobre o saber e favorecendo a integração pessoal dos conhecimentos”, a segunda (a cultura científica) “separa as áreas do conhecimento que, nada obstante acarretar admiráveis descobertas e teorias geniais, não permite uma reflexão sobre o destino humano e sobre o futuro da própria ciência, tornando-se incapaz de pensar sobre si mesma e de pensar os problemas sociais e humanos que coloca, encarando a cultura das humanidades apenas como uma espécie de ornamento ou luxo estético.”

A propósito, veja-se o caso brasileiro em que o próprio presidente da República, secundado pelo ministro da Educação, defende explicitamente a descentralização dos investimentos para os cursos de filosofia e sociologia.[5] Nada tão redutor!

E qual seria a consequência (desastrosa) desse conhecimento meramente técnico-científico atual? Responde Morin: “o cidadão é despojado de qualquer ponto de vista globalizante ou pertinente”, causando “uma grande regressão da democracia” e subtraindo do cidadão o seu direito a um conhecimento global, “muito mal compensado pela vulgarização da mídia.”

É urgente, portanto, formarem-se cidadãos “capazes de enfrentar os problemas de sua época”, freando “o enfraquecimento democrático” causado pela “expansão da autoridade dos experts, especialistas de toda ordem, que restringe progressivamente a competência dos cidadãos.”

Assim, não se pode aceitar passivamente que os cidadãos estejam condenados “à aceitação ignorante das decisões daqueles que se presumem sabedores, mas cuja inteligência é míope, porque fracionária e abstrata.” Eis, para Morin, “uma condição sine qua nonpara sairmos de nossa barbárie.” (grifei, pois bem adequado ao caso brasileiro de hoje).

Voltando a Montaigne, Morin explica que “uma cabeça bem cheia é aquela onde o saber é acumulado, empilhado, e não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido”; ao contrário, uma “cabeça bem-feita” é aquela na qual, “em vez de acumular saber, sabe que o mais importante  é dispor ao mesmo tempo de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido”, pois “quanto mais desenvolvida é a inteligência geral, maior é sua capacidade de tratar problemas especiais.”

Segundo o autor, é preciso que desde a infância e também na adolescência, estimule-se ou se desperte sempre a dúvida, este “fermento de toda atividade crítica”, a curiosidade e a “aptidão interrogativa”, orientando-se o jovem “para os problemas fundamentais de nossa própria condição e de nossa época.” Afinal, “conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.”

 Neste sentido, ao contrário do que pensam nossos atuais governantes, “a filosofia deve contribuir eminentemente para o desenvolvimento do espírito problematizador”, pois se trata, “acima de tudo, de uma força de interrogação e de reflexão, dirigida para os grandes problemas do conhecimento e da condição humana.”

Morin adverte para a necessidade (desde os primeiros anos do ensino) de privilegiar a ligação dos conhecimentos e não a sua separação (fragmentação), pois, lembrando Pascal, é “impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”

Agora, utilizando-se de Durkheim, Morin estabelece como objetivo da educação, não somente o transmitir conhecimentos sempre mais numerosos ao aluno, mas, sobretudo, ensinar a viver e a transformar o conhecimento adquirido em “sapiência”.

A importância da literatura (e das artes em geral) também é enfatizada de modo muito especial por Morin, especialmente para o estudo da condição humana, pois mostram “os caracteres essenciais, subjetivos, afetivos do ser humano”, revelando “a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço.”

A literatura, desde o século XIX, “de Balzac a Dostoievsky e a Proust, restituíram a complexidade humana, que se esconde sob as aparências de simplicidade”, desvelando “os indivíduos, sujeitos de desejos, paixões, sonhos, delírios; envolvidos em relacionamentos de amor, de rivalidade, de ódio; submetidos a acontecimentos e acasos, vivendo seu destino incerto.” Montaigne, Cervantes, Kundera e Shakespeare também são referências literárias citadas por Morin.

A poesia, por exemplo, mostra-nos “a dimensão poética da existência humana”, e que estamos “destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase”, pondo-nos “em comunicação com o mistério, que está além do dizível.” De uma tal maneira que a literatura, a poesia e o cinema são verdadeiras “escolas de vida, em seus múltiplos sentidos”, reveladoras da miséria humana “e de sua grandeza trágica, com o risco de fracasso, de erro, de loucura.”

Enfim, a arte, esta “verdadeira escola da compreensão”, é capaz de nos ensinar (principalmente aos mais jovens) “as maiores lições da vida: a compaixão pelo sofrimento de todos os humilhados e a verdadeira compreensão.” Só assim seremos capazes de “sentir e conceber os humanos como sujeitos, abrindo-nos a seus sofrimentos e suas alegrias”, possibilitando “lutar contra o ódio e a exclusão.” Afinal, “vivemos em um mundo de incompreensão entre estranhos, mas também entre membros de uma mesma sociedade, de uma mesma família, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais.”

Morin também adverte acerca do fenômeno do autoengano, da ilusão, “da mentira para si mesmo”, fruto de um “egocentrismo auto justificador e a transformação do outro em bode expiatório”, concorrendo para isso “as seleções da memória que eliminam o que nos incomoda e embelezam o que nos favorece.”

Precisamos entender que o sentido da vida humana “não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar -, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência”, afinal a nossa “vida é uma aventura e todo destino humano implica uma incerteza irredutível, até na absoluta certeza, que é a da morte, pois ignoramos a data” e, portanto, devemos “estar plenamente conscientes de participar da aventura da humanidade, que se lançou no desconhecido em velocidade, de agora em diante, acelerada.”

Pensando a universidade, Morin encontra três características primordiais: ela deve ser, a um só tempo, conservadora, regeneradora e geradora: conservadora, pois “memoriza, integra, ritualiza uma herança cultural de saberes, ideias, valores”; regeneradora, porque vivifica essa “herança ao reexaminá-la, atualizá-la, transmiti-la”; e, por fim, também geradora, já que produz “saberes, ideias e valores que passam, então, a fazer parte da herança.”

Neste sentido, a autonomia da universidade é fundamental para que ela possa executar a sua missão e a sua função transnacional e transecular, “que vão do passado ao futuro, passando pelo presente.” Não pode ser uma “máquina de produção e consumo”, mas um ambiente de “conservação, transmissão e enriquecimento de um patrimônio cultural.” Eis a sua missão!

É necessário, portanto, estarmos atentos para que não se submeta o ensino e a pesquisa “às demandas econômicas, técnicas e administrativas do momento”, marginalizando “a cultura humanista” como pretende, ao que parece, o governo brasileiro.

Conformar-se ao mercado, reduzindo o papel do ensino, antes de ser um “indício de vitalidade”, trata-se de um “prenúncio de senilidade e morte pela perda da substância inventiva e criadora.”

Morin constata algo absolutamente verdadeiro e preocupante: “a imensa máquina da educação é rígida, inflexível, fechada, burocratizada, com professores instalados em seus hábitos e autonomias disciplinares”, comportando-se “como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram”; daí a razão de tanta e obtusa resistência, “inclusive entre os espíritos refinados: para eles, o desafio é invisível”, a tal ponto que “a cada tentativa de reforma, mínima que seja, a resistência aumenta.”

E, terminando, lembra da pergunta de Marx, em uma de suas teses sobre Feuerbach: “quem educará os educadores?” Ele, então, responde: “Será uma minoria de educadores, animados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e de regenerar o ensino, aqueles educadores que já têm, no íntimo, o sentido de sua missão, uma missão de transmissão, o que exige, além da competência e de uma técnica, uma arte, enfim, o eros(Platão) que é, a um só tempo, desejo e prazer (de transmitir) e amor (pelo conhecimento e pelos alunos)”, amor sem o qual “só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio para os alunos.”

Que aprendamos sempre com Morin e com a sua vida extraordinária e fascinante, inspirada sempre, como ele costuma dizer, pelos versos do poeta espanhol Antonio Machado:

“Caminhante, não há o caminho.
O caminho se faz ao andar,
ao andar se faz o caminho”.[6]


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

[3] Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/598378-esta-crise-nos-interroga-sobre-as-nossas-verdadeiras-necessidades-mascaradas-nas-alienacoes-do-cotidiano-entrevista-com-edgar-morin. Acesso em 07 de julho de 2021.

[4] O livro foi publicado no Brasil, pela Bertrand do Brasil, em 2002.

[5] Segundo o presidente da República, “a função do governo é respeitar o dinheiro do pagador de impostos, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/04/bolsonaro-propoe-reduzir-verba-para-cursos-de-sociologia-e-filosofia-no-pais.shtml. Acesso em 10 de abril de 2020.

[6] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

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domingo, 27 de dezembro de 2020

Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, diz Edgar Morin, filósofo e pesquisador francês

 

 "A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos. " - Edgar Morin


Por 

 Úrsula Passos na Folha de S.Paulo 

Foto: Edgar Morin, por Lucas Seixas/Folhapress


Edgar Morin é um dos mais importantes e relevantes pensadores vivos. Aos 98 anos, segue escrevendo e expondo ideias em conferências em universidades e eventos.


O francês de origem judaica é um grande intelectual público, sempre disposto a participar do debate, seja ele sobre o conflito na Palestina, cinema, transgênicos, aquecimento global ou imigração. 


Morin deve boa parte de seu sucesso ao pensamento complexo, conceito defendido por ele segundo o qual o conhecimento só é possível pela transdisciplinaridade.


Essa ideia impactou o pensamento sobre educação no mundo todo. Tanto que, em 1999 foi convidado pela Unesco a escrever um livro explicitando as modificações que julga necessárias na educação: Os Sete Saberes Necessários à Educação no Futuro, disponível em português.


No Brasil para uma conferência sobre prazer estético e arte, ele conversou com a Folha de S.Paulo sobre temas como arte, criatividade, democracia e identidade. Confira abaixo a entrevista com Edgar Morin:


O senhor frequentemente fala da prosa e da poesia na vida, sendo a prosa a sobrevivência, o cotidiano do que somos obrigados a fazer, e a poesia, as relações de afeto, o jogo. O espaço da poesia está diminuindo e a prosa está ganhando? 


Edgar Morin: Ela não poderá jamais vencer totalmente, mas eu diria que a prosa fez progressos consideráveis com a industrialização não só do trabalho mas da vida, com a burocratização que encerra as pessoas num pequeno espaço especializado, com a técnica, que se serviu tanto dos homens quanto dos materiais. 

Mas há uma resistência da poesia na vida privada, nas relações amorosas, de amizade, nos afetos, no prazer do jogo, no futebol, por exemplo. Há momentos de ambiguidade e devemos resistir a esse progresso enorme da prosa, que significa uma degradação da qualidade de vida.




O senhor tem uma conta bastante ativa no Twitter; ela é uma ferramenta de divulgação de seu trabalho?


Edgar Morin: É uma forma de me expressar, de expressar ideias que me ocorrem, reações que tenho frente a acontecimentos e de uma forma muito concentrada. É um exercício de estilo, que permite que eu expresse e comunique aos outros o que penso e vejo em diferentes momentos do dia.


O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte? 


Edgar Morin: Vivemos uma crise do pensamento. Aprendemos em nosso sistema de ensino a conhecer separando as coisas de maneira hermética segundo disciplinas. Os grandes problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas diversas. Isso não é possível dada a lógica que comanda nosso modo de conhecer e de pensar. 

Temos uma crise do pensamento que se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam, tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville.

Meu esforço nas minhas obras é tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós.


Qual o maior desafio do ensino? 


Edgar Morin: Não inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão. 

Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam.


O senhor disse em uma conferência recente que a democracia ficou rasa e que a consciência democrática está degradada. Esse diagnóstico vale para o mundo todo? Como chegamos a isso?


Edgar Morin: Chegamos progressivamente, primeiro porque as antigas concepções políticas se deterioraram e chegamos a uma política da urgência e do imediato. E, como sempre digo, ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial. 

A crise da democracia se deve aos enormes poderes do dinheiro terem levado a casos de corrupção em todo lugar. O vazio do pensamento, somado a essa corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia, e isso favoreceu os regimes neoautoritários, como vimos na Turquia, Rússia, Hungria e como vemos agora na crise da democracia no Peru e no Brasil. 

A regressão histórica começou muito fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro, que controla a política. 

A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que vê só os interesses imediatos, não tem consciência do destino da humanidade. A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.

Eu vivi —sou muito velho, como sabe— nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra, vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias democráticas. 

Vivemos esse período como sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre. Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre dos fanatismos. 

A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos. 


Vemos hoje uma política das identidades. Como conciliar a democracia, o espírito republicano e as lutas identitárias? 


Edgar Morin: Uma nação é sempre a unidade de diversidades. Se não se vê a unidade, ela se empobrece e perde sua diversidade, e se só se vê a diversidade, ela perde a unidade. O comunitarismo é uma forma degenerada da diversidade necessária, é uma forma fechada para uma demanda  justa de se manter ligado a suas origens. Infelizmente hoje perdemos a noção de unidade. Quando as comunidades se tornam importantes, elas esquecem a unidade nacional na qual se encontram.

Estamos numa época de interdependência. Concordo que as nações devam seguir soberanas, mas com soberania relativa, e não absoluta. Desde que haja um problema que diga respeito a toda a espécie humana, as nações deveriam subordinar seus interesses ao interesse coletivo.



O senhor já disse algumas vezes que o sul global, como chama, representa um pensamento anti-hegemônico. Ainda é o caso com a globalização?


Edgar Morin: A globalização é a hegemonia dos valores do norte sobre o sul, é a continuação, por meios econômicos, da colonização, que era política. O sul deve resguardar o que conseguir —como os modos de viver— como resistência à hiperforça da técnica, do lucro, do sucesso, e deve conservar a noção de poesia na vida, essa é a missão do sul.


Como fazer isso em países pobres, de democracias instáveis, países menos expressivos no jogo político global?

Edgar Morin: Não há uma receita. É preciso resguardar o que há de resistência, valores universalistas, humanistas e planetários, guardá-los enquanto preparamos tempos melhores. 

Estamos num movimento perpétuo no qual há um conflito entre as forças de união, de abertura, de democracia, fraternidade, e as forças de luta, de desprezo, de degradação e de morte. Esse conflito, como dizia Freud, entre Eros e Tânatos, é um conflito que existe desde o começo do universo e vai continuar. A questão é saber de que lado se está. Essa é a única questão, o futuro ninguém conhece.  


Como pensar modos de combater as fake news?


Edgar Morin: As fake news não têm nada de novo, sempre houve notícias falsas. Durante uma dezena de anos a União Soviética dava informações falsas sobre o que acontecia com ela, a China de Mao Tse-tung também, o sistema hitlerista escondeu os campos de concentração. As mentiras políticas e as notícias falsas não são novas, são banais, o novo é a internet, a difusão de notícias que podem vir de qualquer lugar. 

O problema é que, se quisermos informar o mundo, precisamos de pluralidade de fontes de informação e pluralidade de opiniões. Precisamos de uma imprensa diversa, com opiniões diversas, para que possamos fazer escolhas. Quando a imprensa perde sua diversidade, quando ela é controlada pela força do dinheiro, há uma diminuição do conhecimento e da informação.


O senhor sempre menciona o deus espinosano, que é intrínseco ao mundo, e não exterior a ele. Mesmo com toda a técnica e ciência que temos, as pessoas seguem com suas crenças num deus transcendental... 


Edgar Morin: Todas as sociedades, desde a pré-história, têm uma religião, uma crença na vida após a morte. A religião traz pela reza um sentimento que dá calma. Marx tinha razão ao dizer que a religião é o suspiro da criatura infeliz. 

Com a "morte" do comunismo, houve um retorno das religiões. Temos o retorno dos evangélicos aqui no Brasil, do islamismo. Nos países árabes houve movimentos laicos enormes, mas tudo deu errado. A religião ganha onde a democracia falha, a revolução fracassa, o mundo moderno falha. A religião triunfa no fracasso da modernidade. 


Como aceitar a incerteza e lidar com a angústia ou até mesmo o cinismo que advém disso? 


Edgar Morin: Mais do que sucumbir à incerteza, que nos dá angústia e medo, e que nos leva a buscar culpados e bodes expiatórios, é preciso enfrentar a incerteza com coragem, com ideias humanistas de fraternidade. As ciências acharam formas de encontrar certezas em incertezas. Eu digo sempre que a vida é uma navegação num oceano de incertezas passando por arquipélagos de certezas. Assim é a vida, não se pode mascarar a realidade.


Às vésperas de completar 98 anos, o que o estimula a continuar escrevendo e dando conferências? 


Edgar Morin: Há um demônio em mim, uma força no meu interior de intensa curiosidade. Eu conservei uma curiosidade da infância —eu tive um grande choque aos dez anos com a morte da minha mãe, eu envelheci muito, mas também isso me bloqueou na infância com a curiosidade e o amor pelo jogo. A sorte do mundo é cada vez mais incerta, não sabemos aonde vamos, então não podemos não estar preocupados com o futuro da espécie humana sobre a Terra.   


Ainda há lugar para utopias? 


Edgar Morin: Há duas utopias. A má e a boa. A má é sonhar com uma sociedade perfeita, totalmente harmonizada; isso não é possível. Mesmo numa sociedade melhor, sempre haverá conflitos. A perfeição não está no universo, não está na humanidade. 

A boa utopia é sonhar com coisas impossíveis mas que são, de certa forma, possíveis intelectualmente.  Por exemplo, hoje há muita fome, mas poderíamos alimentar toda a humanidade, basta desenvolver as culturas, a agricultura orgânica. É possível criar uma sociedade nova com a paz sobre a Terra, podemos pensar no fim dos conflitos entre nações; essa é uma boa utopia. Um mundo que não seja totalmente dominado pelo poder econômico e que seja mais fraterno — é preciso ainda ter utopias.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Aproximações e complementaridades sobre a visão de mundo, ciência e educação presentes no livro "Paulo Freire e Edgar Morin: sobre Saberes, Paradigmas e Educação", de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 



  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

terça-feira, 9 de junho de 2020

Sobre o livro Paulo Freire e Edgar Morin Sobre Saberes, Paradigmas e Educação: um diálogo Epistemológico, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

     


  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

sábado, 28 de dezembro de 2019

Destruir a educação, a cultura e o meio ambiente: esse é o Plano Bolsonaro, por Ricardo Kotscho



Não por acaso, esses são os três setores da sociedade brasileira historicamente com maior capacidade de mobilização contra os governos tiranos.

do Balaio do Kotscho

Destruir a educação, a cultura e o meio ambiente: esse é o Plano Bolsonaro

por Ricardo Kotscho


Aos que ainda cobram um programa de governo do capitão presidente, neste final do primeiro ano de mandato, o Plano Bolsonaro está a cada dia mais claro: é destruir a Educação, a Cultura e o Meio Ambiente para poder reinar absoluto. Simples assim.
Não por acaso, esses são os três setores da sociedade brasileira historicamente com maior capacidade de mobilização contra os governos tiranos.
Estudantes, professores, artistas e ambientalistas sempre estiveram na linha de frente na defesa da democracia e da liberdade em nosso país.
É até difícil acreditar que Fernanda Montenegro e Abraham Weintraub, Chico Buarque e Ricardo Salles, Paulo Freire e doutora Damares tenham nascido e vivam no mesmo país.
Com a destruição dos sindicatos e suas centrais, consumada pela “reforma trabalhista”, e a implosão dos partidos promovida pela Lava Jato, a única resistência que resta ao bolsonarismo em marcha vem das universidades, dos palcos e das ONGs que defendem a Amazônia e os povos da floresta ameaçada.
Os próximos alvos anunciados neste final de ano são os reitores das universidades federais e os estudantes em dívida com o Fies.
“MEC muda regra do Fies e pode cobrar na Justiça 584 mil alunos em atraso”, informa o Estadão deste sábado.
Criado nos governos do PT para facilitar o acesso de alunos pobres à universidade, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) vai oferecer menos financiamentos a partir de 2021 e exigirá nota mínima de 400 na redação do Enem para firmar contratos.
Até hoje, a cobrança de prestações atrasadas era feita no âmbito administrativo, mas nesta sexta-feira o MEC do inominável Weintraub resolveu fazer a cobrança judicial dos contratos firmados até o segundo semestre de 2017.
Se antes os estudantes já não conseguiam pagar as prestações, com o aumento do desemprego e a queda na renda, muito menos agora terão condições de saldar uma dívida que já chegou a R$ 12 bilhões.
Ou seja, mais de meio milhão de estudantes podem ser jogados para fora das universidades pela Justiça.
Embora a ditadura ainda não tenha sido oficializada no Brasil, os métodos são os mesmos dos militares que deram o golpe em 1964 e colocaram a Educação e a Cultura na linha de tiro logo nos primeiros dias.
Uma das primeiras medidas dos generais foi acabar com o Programa Nacional de Alfabetização, baseado no método de Paulo Freire, criado em janeiro de 1964 pelo presidente deposto João Goulart.
Não é de agora que os militares qualificam o maior educador brasileiro de todos os tempos como “energúmeno comunista”.
No dia 2 de abril de 1963, na solenidade de formatura da primeira turma de alfabetização de adultos em Angicos, no Rio Grande do Norte, com a presença de Jango, o então comandante do IV Exército, general Humberto Alencar de Castello Branco, que um ano depois se tornaria ditador empossado, não gostou do que viu e ouviu.
Durante o jantar oferecido às autoridades naquela noite, Castello Branco disse ao secretário de Educação do Rio Grande do Norte, Calazans Fernandes, que aquele trabalho de alfabetização serviria para “engordar cascavéis nesses sertões”.
Ao próprio Paulo Freire, o general disse que já havia sido alertado sobre o seu “caráter subversivo” e que agora estava convencido disso por sua defesa de uma “pedagogia sem hierarquia” (página 72 do livro “O Educador”, de Sergio Haddad, sobre o qual já escrevi na coluna anterior).
O Programa Nacional de Alfabetização tinha como meta alfabetizar 5 milhões de pessoas, que ganhariam o direito de votar, ampliando o colégio eleitoral em quase 40%, um golpe fatal nos currais de gente cevados pelos coronéis nos grotões do país, que sobrevivem até hoje.
Paulo Freire teve que partir para um longo exílio e o Brasil viveria a longa noite de 21 anos de uma feroz ditadura, que prendeu, torturou e matou, e acabou com as liberdades públicas e os direitos civis.
O Plano Bolsonaro nada mais é do que o prolongamento desse regime de exceção e arbítrio, agora pelo voto.
Ninguém pode alegar que foi enganado: durante toda sua campanha, o ex-capitão anunciou o que faria e agora suas ameaças à democracia estão sendo cumpridas, uma a uma.
Bom final de semana.
Vida que segue.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Liberdade de cátedra em tempos de autoritarismo, por Felipe Araújo Castro, no Justificando



O fato que a defesa da liberdade de cátedra e da livre produção e circulação de conhecimento científico esteja na pauta do debate político, aliás, é um preocupante alarme sobre a escalada do autoritarismo que vivenciamos.


Liberdade de cátedra em tempos de autoritarismo
Montagem: Justificando
 Felipe Araújo Castro
Segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Liberdade de cátedra em tempos de autoritarismo

Por Felipe Araújo Castro, no Justificando


 Desde a Constituição de 1988 a autonomia universitária constitui uma garantia constitucional (art. 207), portanto, faz parte do pacto social, compõe seu “bloco de constitucionalidade”, ou seja, integra as matérias que não tem (ou não deveriam ter) sua jusfundamentabilidade questionada. 

Ter autonomia, seja em uma perspectiva individual ou institucional, significa do sujeito determinar a sua própria vida. Para uma instituição de ensino, administrativamente, significa ter o controle sobre os processos de contratação de novos membros, sobre o processo de escolha de seus cargos de chefia, suas divisões internas etc., financeiramente, significa contar com dotação orçamentária suficiente para realização de seus objetivos, a serem alcançados pelos métodos decididos internamente e, por fim, didático e cientificamente, significa a liberdade de escolher sua própria metodologia de ensino e aprendizagem, o que abrange desde a escolha dos marcos teóricos até o material a ser utilizado, bem como as práticas e dinâmicas em sala de aula. 

Podemos discutir os contornos dessa autonomia, seus alcances, seus limites, mas nunca se devemos ou não ter liberdade de ensino e de aprendizagem, isto por que a liberdade de cátedra constitui um marco civilizatório frente àsexperiências autoritárias que invariavelmente atacam a livre produção do conhecimento científico e da crítica, em sua busca incessante de construção do pensamento único.

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Não é preciso argumentar muito para demonstrar como essa autonomia encontra-se em risco no Brasil, uma vez que a atual Presidência já desrespeitou a ordem da listra tríplice para nomeação de reitores – e pretende seguir e intensificar esse processo –, em um ano no qual aproximadamente 30% do orçamento das universidades foram cortados e em um clima de incentivo à perseguição de professores em sala de aula. O fato que a defesa da liberdade de cátedra e da livre produção e circulação de conhecimento científico esteja na pauta do debate político, aliás, é um preocupante alarme sobre a escalada do autoritarismo que vivenciamos. 

Aliás, é perceptível a chegada ao poder, no contexto das mais variadas democracias, de governos com fortes características autoritárias; regimes que invariavelmente atacam as liberdades científicas ao elegerem as universidades como parte integrante dos “inimigos da nação”; portanto espaços que precisam ser combatidos, derrotados, substituídos por algo “novo”. 

Esses governos têm em comum a representação de uma extrema direita reacionária como se fosse ela própria o verdadeiro “povo” e terem se beneficiado de estratégias políticas fascistas para tomada e sustentação do poder. O que, no entanto, não significa que estejamos frente a Estados fascistas, pelo menos não nos termos das experiências do sec. XX. 

Esse tema foi tratado, especialmente no que concerne ao exemplo dos EUA, em um livro recentemente traduzido para o português, Como funciona o fascismo(2018), de Jason Stanley. Para o autor, esse tipo de política identificada como fascista tem inúmeras estratégias como a construção de um passado mítico, a elaboração de uma irrealidade discursiva, o apego a hierarquia de inspiração militar, a implementação de políticas de lei e ordem na segurança pública, a obsessão pelo controle da sexualidade, apelos à noção de pátria e família euma plataforma anti-intelectual que ataca frontalmente a liberdade de cátedra.  

Stanley não é o único a apontar os perigos desse novo autoritarismo, a temática é também desenvolvida por Steven Levitsky, coautor do livro Como as democracias morrem, no qual desenvolve padrões para identificar políticos autoritários. Esse autor foi categórico ao afirmar, em setembro de 2018, em uma palestra promovida pelo instituto Fernando Henrique Cardoso, que Jair Bolsonaro não só preenchia todas as características do seu teste como, se eleito tenderia a implementar justamente suas promessas mais radicais, o que de fato está acontecendo, ao invés de contemporizar (ser amansado) pela política. A exemplo da análise de Stanley, mais uma vez figura entre as características do autoritarismo (fascismo) o anti-intelectualismo e as tentativas de reescrita da história. Os autores discordam sobre se podemos ou não taxar esses governos como fascistas, mas não que suas plataformas promovam o obscurantismo ao atacar a produção livre de conhecimento, com sérias consequências para o ambiente democrático.

Faço essa introdução fazendo menção a autores estrangeiros e de universidades consagradas (Harvard, Yale) não por que esses espaços sirvam como carimbo de qualidade e autoridade, nem por que esses autores estejam melhor posicionados e/ou habilitados a falar sobre a realidade brasileira; faço menção a esses autores por que, paradoxalmente, são professores justamente de universidades que compõe o modelo-fetiche (o padrão a ser copiado) pela universidade brasileira em tempos de Future-se, bem como serem justamente de Harvard e Yale as instituições favoritas pelos políticos e burocratas da “nova política” quando decidem mentir sobre onde estudaram. 

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Na safra nacional recomendo a leitura do Sobre o autoritarismo brasileiro(2019), de Lilia Schwarcz, do excelente texto do grupo GAMA (Grupo de Análise Marxista Aplicada), A guerra de todos contra todos e a Lava Jato: a crise brasileira e a vitória do Capitão Jair Bolsonaro e no campo do direito constitucional, recomendo ainda o texto Autonomia universitária, democracia e federalismo, de autoria de Emílio Meyer, Thomas Bustamante e Onofre Batista, no qual os autores argumentam pela inconstitucionalidade dos contingenciamentos na educação por meio de fraude à Constituição (utilização de uma norma jurídica para obtenção de um resultado antijurídico).

Para compreendermos em poucos exemplos por que nos encontramos hoje em um ambiente sócio-político no qual essas liberdades estão em perigo e os riscos que suas ausências causam à democracia brasileira proponho que pensemos por um momento no caso do hoje ex-diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Sociais), Ricardo Galvão. 

Trata-se de uma figura de carreira acadêmica de excelência, nacional e internacional (Doutor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Galvão foi indicado para o cargo por uma metodologia de um Comitê Independente de Busca – utilizada pela maioria das instituições científicas do mundo, justamente como estratégia de minorar a influência política dessas indicações – e teve sua nomeação confirmada pelo então Ministro de Ciência e Tecnologia Gilberto Kassab. O cientista foi demitido após divulgar dados objetivos do desmatamento na Amazônia que contrariaram os “sentimentos” do Presidente sobre o desmatamento. Após ser repreendido pela Presidência, Ricardo Galvão subiu o tom e defendeu-se do bullying presidencial, sustentado a metodologia e a seriedade do INPE; por isso foi exonerado. 
Podemos lembrar ainda o caso do “Terceiro levantamento nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira”, estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre os anos 2014-2016, financiado pelo Ministério da Justiça (7/8 Milhões), com participação de mais de 500 profissionais de diferentes áreas e que ouviu 16.000 mil pessoas. A referida pesquisa revelou o que já era esperado pelos profissionais da área de saúde, o fato que não vivemos sob uma epidemia de uso de drogas no Brasil. O fato, no entanto, desagradou o atual governo, uma vez que o discurso epidêmico serve de justificativa e base de sustentação para uma série de medidas “populares” como a guerra as drogas, as internações compulsórias e o repasse de verbas a entidades religiosas que atuam na questão. 

A justificativa do Ministério para o que insiste em não chamar de censura tergiversa sobre a metodologia adotada, afirmando que o edital teria sido descumprido em função da pesquisa não poder ser comparada com suas predecessoras. A FioCruz, por sua vez, defende-se argumentando que cumpriu todos os itens do edital e que a alegada incomparabilidade decorre da ampliação da base de coleta de dados, no que é apoiada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), para quem a pesquisa é “extremamente completa, com uma amostragem muito ampla de grandes e pequenas cidades”.

Obviamente que as descobertas de pesquisas científicas podem ser questionadas, porém, com base em argumentos igualmente científicos e não em sentimentos e impressões pessoais, sob pena de comprometer a autonomia do campo. Isso por que a autonomia didático-científica é uma subespécie da liberdade de expressão, porém, mais restrita que o gênero, pois não significa que o professor/pesquisador possa ministrar suas aulas e conduzir suas pesquisas exclusivamente com base em suas opiniões pessoais. Antes, a liberdade didático-científica demanda que as opiniões observem as regras do campo científico em questão, o que implica estarem embasadas e referenciadas em teorias científicas senão “comprovadas”, bem estabelecidas na literatura especializada, de forma que o conteúdo das aulas possa ser verificado, reconstruído, comparado e criticado; aliás, o único processo de avanço das ciências é justamente esse processo dialético de contestação e construção de novas “verdades científicas”.

O cerceamento de ambiente científico significa a condenação da ciência à repetição do dado, das coisas como estabelecidas, pois, como já nos alertavam Adorno e Horkheimer o conhecimento “não consiste no mero perceber, classificar e calcular, mas precisamente na negação determinante de cada dado imediato”. 

De outra parte, da importância da livre circulação de teorias e metodologias científicas não decorre que todos os “pontos de vista” mereçam igual consideração e espaço dentro do campo científico. Cada espaço social tem sua própria racionalidade e deve ter sua autonomia preservada. Nesse sentido, não existe qualquer incoerência no ensinamento do criacionismo em ambientes religiosos ou mesmo em escolas confessionais, porém, do ponto de vista científico não existem razões para que o criacionismo seja uma corrente de pensamento a que se consagre o mesmo espaço do evolucionismo de matriz darwiniana. Da mesma forma que o terraplanismo não deve ser uma teoria cientificamente aceita depois que o homem conseguiu chegar da Europa as Américas, das Américas à Ásia e da Ásia novamente a Europa por meio de navios e expedições terrestres ou quando, ao explorar o espaço pode constatar a esferecidada da Terra.

A retórica por trás da inserção dessas “correntes de pensamento” não é completamente ausente de um sentido prático, ela busca a contestação da possibilidade mesmo da construção de verdades e consensos, em uma espécie de ceticismo radical no qual tudo se transforma em uma questão de disputa de narrativas, na qual a ciência é apenas mais uma dessas narrativas, nem melhor nem pior que as impressões terraplanistas de uma seita qualquer: que vença aquela que tiver maior número de visualizações no Youtube. Esse procedimento serve a desconstrução dos espaços de produção de conhecimento livre e crítico, que são principalmente as Universidades, no caso brasileiro, especialmente as instituições de ensino público e gratuito.

Um desses consensos historicamente construído, principalmente por meio da observação das experiências autoritárias do sec. XX, é justamente a indissociabilidade entre as liberdades científicas e a democracia. Portanto, não é simples ignorância os atuais ataques às universidades públicas, mas sim parte da estratégia autoritária de condução do político. Se não quisermos ver materializados os piores prognósticos acerca do atual Governo brasileiro, é imperiosa a defesa coletiva do nosso sistema de educação superior público, gratuito e de qualidade frente aos cortes sofridos na educação e as promessas de privatizações. 

 Felipe Araújo Castro é doutor em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais e Professor na Universidade Federal Rural do Semi-Árido.