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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Do El País: Volkswagen assina acordo milionário de reparação por colaborar com a horrenda ditadura militar brasileira na prisão e tortura de funcionários e abre precedente histórico

 

Do El País:

 Em termo de ajuste com procuradores, empresa reconhece cumplicidade com os órgãos de repressão brasileira e destina 36,3 milhões de reais a ex-trabalhadores e iniciativas pró-memória


Volkswagen assina acordo milionário de reparação por colaborar com ditadura e abre precedente histórico


Lúcio Bellentani, que foi preso pela ditadura enquanto trabalhava na Volks, durante entrevista em 2017.LUCAS LACAZ RUIZ / FOLHAPRESS



Volkswagen do Brasil assinou nesta quarta-feira um acordo extrajudicial que abre um precedente histórico no campo da reparação às violações de direitos humanos cometidos durante a ditadura brasileira (1964-1985). A montadora de origem alemã, cuja cumplicidade com a repressão nos anos de chumbo já havia sido apontada no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) de 2014, assumiu o compromisso de destinar 36,3 milhões de reais tanto a ex-empregados presos, perseguidos ou torturados como a iniciativas de promoção de direitos humanos. Em troca, serão encerrados três inquéritos civis que cobram a empresa pela aliança com os militares assim como ficam vetadas novas proposições de ações.

É a primeira vez que uma companhia ―uma pessoa jurídica, e não física― admite reparar crimes durante a ditadura, o que abre um precedente jurídico para que outras empresas envolvidas com a repressão sejam investigadas. Ainda em 2014, o relatório final da CNV enumerou 53 empresas, tanto estrangeiras quanto nacionais e de portes variados, que contribuíram de alguma forma com a concretização do golpe de 1964. Entre elas estão Johnson & Johnson, Esso, Pirelli, Texaco, Pfizer e Souza Cruz.

Tecnicamente, a montadora assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), que foi negociado com representantes dos ministérios públicos Federal, Estadual e do Trabalho e está pendente de homologação pela Procuradoria Geral da República. “O ajuste de condutas estabelecido nesta data é inédito na história brasileira”, comemoram os procuradores em nota, frisando que, no mundo, ainda são raros os casos de empresas que aceitam analisar a sua colaboração com regimes autoritários. Pelo acordo, a Volks também deverá publicar em jornais de grande circulação uma declaração pública sobre sua cumplicidade com os órgãos de repressão. Todo o arranjo é um revés para o Governo Bolsonaro, que nega as violações cometidas no período e tem agido ativamente para desmontar estruturas oficiais ligadas à memória e à reparação.

O acordo da Volks é paradigmático num momento em que a Justiça brasileira segue dando passos lentos na direção da punição dos repressores e da compensação das vítimas da ditadura. O Brasil segue ignorando decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que há uma década decidiu que a Lei da Anistia, que impede a investigação e a sanção a graves violações de direitos humanos, deve ser invalidada. Nesta segunda-feira, o mecanismo voltou a ser evocado, desta vez pela 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, que decidiu interromper a tramitação da ação penal contra cinco militares pela morte do ex-deputado Rubens Paiva em 1971. Ou seja, por ora, o crime contra o parlamentar, cujo corpo até hoje não foi localizado, continuará sem julgamento.

Da CNV às ações de reparação

A elucidação do papel da Volks durante a ditadura militar vinha caminhando desde a divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, em 2014. Na época, a empresa encomendou um parecer próprio, produzido pelo historiador Christopher Kopper, professor da Universidade de Bielefeld (na Alemanha) sobre o tema. O documento divulgado pela própria companhia em 2017 reconhece a colaboração entre a segurança industrial da fábrica brasileira e a polícia política do governo militar, que começou em 1969 e se estendeu até 1979.

Diversos ex-empregados afirmam que durante a ditadura militar a empresa forneceu aos órgãos policiais informações sobre os funcionários e permitiu, dentro de sua própria fábrica, prisões sem ordem judicial e tortura policial. Lúcio Bellentani foi uma das vítimas desta parceria que foi mantida em segredo por décadas. Em entrevista concedida ao EL PAÍS em 2017, o ferramenteiro, que trabalhou na montadora entre 1964 e 1972, disse que foi preso sem qualquer mandado judicial enquanto trabalhava. “Ali mesmo começaram as torturas. Comecei a ser espancado dentro da empresa, dentro do departamento pessoal da Volkswagen. Por policiais do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] e na frente do chefe da segurança e dos outros seguranças da fábrica”, contou ele. Militante do Partido Comunista brasileiro, Bellentani foi detido porque os policiais queriam que ele indicasse quem eram seus companheiros que exerciam atividades sindicais ou políticas. Como ele, outros empregados passaram por situações parecidas, todas com o conhecimento e aval da montadora.

Ao longo das investigações apurou-se que houve cooperação dos funcionários da segurança interna da Volkswagen com os militares e que a empresa se beneficiou economicamente de medidas do período como o enfraquecimento dos benefícios trabalhistas. O reconhecimento de sua responsabilidade e conivência com violações de direitos humanos pela montadora é um primeiro passo para o direito à reparação histórica que as vítimas do período fazem jus.

Do montante total fixado no acordo assinado nesta quarta-feira, R$ 16,8 milhões serão doados à Associação Henrich Plagge, que congrega os trabalhadores da Volkswagen, e repartido entre os ex-funcionários que foram alvo de perseguições por suas orientações políticas. Outros R$10,5 milhões serão destinados ao reforço de políticas de Justiça de Transição, com projetos de preservação da memória das vítimas das violações de direitos humanos na época. A Volkswagen também pagará 9 milhões de reais aos Fundos Federal e Estadual de Defesa e Reparação de Direitos Difusos. Na nota divulgada, os procuradores cobram a Justiça que dê seguimento aos julgamentos de repressores e lamentam que o Brasil siga “como um caso notável de resistência à promoção ampla dessa agenda” de reparação. “Não por acaso ecoam manifestações de desapreço às suas instituições democráticas.”


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Luis Nassif: Não apenas Bolsonaro: Witzel, Doria e Zema são responsáveis diretos pela violência racista e proto-fascista da PM no carnaval




Neste carnaval, a Policia Militar chegou a níveis inéditos de violência, não apenas contra a periferia – os invisíveis de periferia, mortos diariamente -, mas contra a classe média. 

A tragédia final é o dia em que a polícia subir e começar a buscar alvos nas classes de cima.

Neste carnaval, a Policia Militar chegou a níveis inéditos de violência, não apenas contra a periferia – os invisíveis de periferia, mortos diariamente -, mas contra a classe média.
Wilson das Neves consagrou um samba historico, “O dia em que o morro descer e não for carnaval”.
A tragédia final é o dia em que a polícia subir e começar a buscar alvos nas classes de cima.
Ontem, os governadores do Rio de Janeiro, Wilson “Mira na Cabecinha” WItzel, e de São Paulo, João Doria Jr. anunciaram um futuro acordo entre as respectivas PMs estaduais contra a “milicização” das PMs. Eles também são responsáveis diretos pela liberação da violência, que destrói qualquer veleidade de disciplina.
Aqui, alguns exemplos desses dias sombrios de violência:
Tocador de áudio

- advogados e imprensa! Lucas Nascimento, professor de teatro do município. Viu uma abordagem policial violenta e filmou, tentando ajudar dois rapazes. Os policiais se viraram para ele e o prenderam. Precisamos de ajuda lá, 5DP.

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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sobre a politização proto-fascista dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra), por Luiz Eduardo Soares



A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial.

Sobre a politização dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra)

por Luiz Eduardo Soares

em seu blog
A politização dos policiais não começou com Bolsonaro, nem se esgota entre os militares. Conheço muitos ultra-direitistas militantes nas polícias civis e federais. E não se trata apenas de afinidades eletivas entre espíritos conservadores e instituições que portam a marca histórica de culturas corporativas conservadoras. Há bem mais que isso e o que há não é óbvio. A rotina policial -e aqui não generalizo a análise, refiro-me apenas aos segmentos (e são numerosíssimos) infectados pelo bolsonarismo, em todo o país- põe em marcha uma vida de militância e ativismo, sem dizer seu nome. A prática policial desses segmentos corresponde a um verdadeiro ativismo político contínuo. Ela se dá sob a forma de reafirmação de um crivo de leitura da história, ideologicamente enviesado, que foi viabilizado (legitimado) pela continuidade institucional e valorativa das polícias, fruto da transição política negociada, sem ruptura, que prevaleceu no Brasil. Trata-se ao mesmo tempo de leitura do passado e construção do presente à sua imagem e semelhança. A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial. A história no que ela tem de essencial e inercial, como se fora menos um fluxo e mais uma condição ontológica reposta, reencenada, reinstalada. A prática desses segmentos policiais tem escrito e reescrito a história na pele, no corpo (e no espírito) dos escravos, no dorso da sociedade (dorso pobre e negro) -a imagem eu a devo a Kafka, em seu conto magnífico, Na Colônia Penal.
O que move os agentes policiais bolsonarizados (que já pressentiam Bolsonaro no lusco-fusco da democracia, já ansiavam pela era Bolsonaro, já preparavam o terreno para o advento do messias, já ensaiavam, diariamente, o novo sebastianismo como profetas da barbárie) não é a paixão pela ordem, a lei, nem o ardor corporativo. O que os motiva, essencialmente, embora as questões corporativistas, aliás justíssimas, aqueçam os sentidos e propulsionem as disposições, é outro fenômeno. Não é sequer o cumprimento do dever como vocação, embora também esse impulso esteja eventualmente presente. É, isto sim, a exaltação tribal da guerra. Real ou latente, a iminência da morte pulsa e se manifesta no sangue dos irmãos tombados no cumprimento da missão. Os irmãos abatidos enlaçam os membros da fratria. A iminência da morte confere coloração distinta aos contornos ordinários. Os sentimentos reduzem-se aos imperativos da sobrevivência: medo, ódio, a urgência da solução final. Há até mesmo prazer, a lubricidade da adrenalina, os sentidos fricionados pelo risco à flor da pele. O companheirismo na fratria bélica anula escrúpulos de consciência.
Por outro lado, e esse ponto é crucial, em momentos não bélicos, o que mobiliza é o ódio motivado pelo desafio do civil à autoridade, manifesto ou tácito. Trata-se de reação defensiva (insegurança, senso de inferioridade, impotência) ante a recusa do outro (o civil, o cidadão, o não-policial) a curvar-se face à auto-atribuição de autoridade. A arma e o uniforme, ou a carteira, deveriam bastar (supõem), mas há dúvidas e questionamentos por parte dos cidadãos. A dúvida do cidadão ecoa a dúvida e a insegurança dos agentes que não se reconhecem nas instituições nem nas leis, nem na República, seja como ideia, seja como valor e muito menos como prática -o cinismo mais cáustico prepondera, nenhum respeito à política, o sistema é rechaçado. Só podem crer em si mesmos, em seus colegas, em sua missão tal como a entendem e experimentam, auto-atribuída. É o exercício da força que confere poder aos agentes que só se identificam com o poder auto-conferido, ou seja, que emana da arma, da intimidação, da violência. O grupo é autorreferido, o agente ancora, solipsisticamente, em si mesmo e na fratria a autoridade da qual deriva a justificativa (o valor e a legitimidade) da própria autoridade. Sendo assim tão instável a autoridade, o que resta é a força, sem a qual nem poder esses grupos policiais mobilizariam. Sua patologia é a angústia que resulta do fato de que não se reconhecem, não se identificam, não valorizam nem prestam lealdade a leis, República, democracia, instituições, tampouco se vêem como prestadores de serviço à cidadania. A angústia que resulta do fato de que dependem de si mesmos para fundar sua autoridade, sabendo-se que a autoridade que exercem e que os constitui, subjetiva e objetivamente, apoia-se no constrangimento imposto pela intimidação, a força, a arma. Autoridade autorreferida é violência ilegítima, mesmo uniformizada. Mas deixa de sê-lo, quando as instituições abençoam esse processo de extravio institucional, e a sociedade, parte dela, aplude e enaltece os “heroísmos”.
Uma sociedade que tolera e convive pacificamente com os cantos guerreiros de policiais, entoados nas ruas da cidade, à luz do sol, já aninhou a serpente (“Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”). Por isso, pela milionésima vez em décadas dedicadas ao tema, repito: a violência policial contra pobres e negros não é tema lateral. É absolutamente chave para a democracia. Não só por conta de direitos violados e vidas destruídas, mas também porque, na tolerância, na conivência, na cumplicidade prática dos poderes (governos, MP e Justiça) com execuções extra-judiciais perpetradas por policiais, está presente a consolidação gradual de um poder autorreferido que só se deixa guiar ou governar por si mesmo, ou seja, por quem encarna a própria serpente, de modo a ser aceito como sua cabeça. 
A cabeça é o que põe para fora, no mundo, em palavras e gestos, a brutalidade autorreferida, e esta é a lógica da milícia, esta é a política miliciana que conquistou o poder no Brasil. A cabeça deu alma ao corpo, retirou da sombra a própria abjeção. O poder na lógica miliciana é o que é porque pode, funda-se a si e em si mesmo, em seu exercício autóctone continuamente reproduzido, que não pode deixar de reproduzir-se sob pena de desmanchar no ar. A dinâmica da autorreferência -que exclui o Outro, a sociedade, os poderes plurais, as instituições, as regras e os limites- prescinde de justificativas, fundamentos, pressupostos. Trata a ciência com escárnio e o questionamento como desafio cuja resposta só pode ser a bala ou a difamação. Não há verdade e mentira nesse universo, nem qualquer instância externa à dinâmica da autorreprodução. Hoje, a lógica miliciana reina sobre nós, sob aplausos da FIESP e do mercado. E dos nefelibatas, que repetem como robôs: as instituições estão funcionando. Sim, como o ventilador a pilha que gira depois do apocalipse.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Do Justificando: Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la, por Cassiano Martines Bovo



     “A vida começa verdadeiramente com a memória”. (Milton Hatoum)

  "Pensemos na memória em relação às violações cometidas no período da ditadura militar (principalmente execuções, desaparecimentos e torturas); belo exemplo de força memorialista, talvez o mais vigoroso em nossa sociedade no que tange às violações de direitos humanos (creio que também na Argentina, Chile, Uruguai, Espanha, ao menos), e seu amplo leque de recursos, desde os relatos, passando por filmes e os tantos eventos, repetindo-se ano a ano, ressaltando-se as Comissões, sobretudo da Verdade, e comitês. Lembra-se funestamente que a memória tem sempre o outro lado, ela alimenta também os que defendem as violações, como “memórias rivais”, no dizer de Elizabeth Jelin. "


Do Justificando:

Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la

Quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la

Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

Por Cassiano Ricardo Martines Bovo, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Ativista de Direitos Humanos na Anistia Internacional Brasil

“A vida começa verdadeiramente com a memória”. (Milton Hatoum)

 Há dias em que nos deparamos com “comemorações” (não deixa de ser, embora, de luto) de casos emblemáticos de violações de direitos humanos, às vezes ocorridas há muito tempo (será que tão distante?), como a Chacina da Candelária (1993), ou recentemente, como a Chacina de Pau D’Arco (2017), sobressaindo-se, ou “recortando-se”, as mais contundentes como representações das tantas outras; afinal, sabemos que lembranças do tipo poderiam estar estampadas todos os dias neste país das execuções, desaparecimentos e torturas. Da mesma forma, a comemoração de datas, por ex., Dia Internacional do Combate à Tortura, da Consciência Negra, da Visibilidade Trans, dentre outras. 
 A lembrança se faz de várias formas: matérias jornalísticas, fotos, filmes, documentários, espetáculos, depoimentos, relatos, monumentos, dentre outros, além dos eventos (atos, marchas, encontros, seminários, palestras); uma dessas formas pode ser a narrativa memorialista; no meu caso, busco um repertório na forma de reconstruções de casos, descrevendo detalhada e cruamente as ações e atentando para discursos significativos, afinal, o como se conta deve ter sua importância. Qual o sentido de se contar o que passou? Por que relembrar?   
Narrativas como estas, resgates que incomodam, nos reporta ao papel da memória na sociedade, sobretudo na luta contra as violações de direitos humanos. Memória entendida aqui não no seu sentido médico-fisiológico, neurolinguístico etc., mas noutra inscrição: a histórica, e sem a pretensão do debate teórico.   
 Pensemos na memória em relação às violações cometidas no período da ditadura militar (principalmente execuções, desaparecimentos e torturas); belo exemplo de força memorialista, talvez o mais vigoroso em nossa sociedade no que tange às violações de direitos humanos (creio que também na Argentina, Chile, Uruguai, Espanha, ao menos), e seu amplo leque de recursos, desde os relatos, passando por filmes e os tantos eventos, repetindo-se ano a ano, ressaltando-se as Comissões, sobretudo da Verdade, e comitês. Lembra-se funestamente que a memória tem sempre o outro lado, ela alimenta também os que defendem as violações, como “memórias rivais”, no dizer de Elizabeth Jelin. 

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Como contraponto poderíamos pensar: por que algo vigoroso desse tipo não acontece em relação às pessoas que são executadas, desaparecidas e torturadas diariamente, e sinistramente contabilizadas (números aterrorizantes), apesar das já importantes iniciativas que existem e mesmo diante da continuidade da filosofia utilizada pelas instituições policiais no pós-ditadura? E em relação àqueles casos que ganham ritos memorialistas, por que são apenas alguns e não tantos outros? Por que esses casos não ganham a mesma atenção, vigor e um movimento unificado que consiga aglutinar todas as vítimas, parentes e outros atores relevantes? Geralmente se trata de pessoas pobres, marginalizadas e moradoras em regiões periféricas. Será que não é por isso mesmo que não ganham atenção? 
 Isso nos leva a pensar no caminho da memória em cada caso. A eficácia memorialista, se assim pudermos dizer, se dá pelo impacto do caso? Por que determinados casos e não outros operam a representação? Em função do impressionamento (a violência e covardia empregadas, as injustiças que em geral ocorrem em todo o processo)? Ou das semelhanças? Ou pela singularidade? Será que não é pela forma como atuam os atores relevantes (a ideia da construção da memória via organização, estratégias etc., como os “empreendedores da memória”, de Elizabeth Jelin)? Ou por quem são as vítimas e os seus algozes? 
Muitos dos que se debruçam sobre a memória nesse sentido que falamos (e, como desdobramento, das narrativas) apontam a sua relação com o esquecimento (aliás, inerente ao ser humano), como Paul Ricouer, sobre o dever de memória: 
 “(…) este pode ser igualmente expresso como um dever de não esquecer”.[2]
 Nada mais verdadeiro, porém, podemos indagar: como neste país das chacinas e massacres vamos nos esquecer, se elas acontecem o tempo todo? 
O que me faz pensar na luta via memória noutra perspectiva. A repetição de chacinas, massacres, tortura, a permanência do racismo, homotransfobia e discriminações outras, imaginamos que deveriam incomodar (e levar à mudança) muito mais. Mas não. Ao que parece a repetição, num tênue limiar entre passado e presente, aqui, lembra, mas o faz naturalizando, anestesiando, numa sociedade com os seus já tantos apelos alienantes. Assim, contraditoriamente, denunciando algo que permanece ao longo do tempo, cada caso cotidiano se torna uma engrenagem repetitiva a tal ponto que faz esquecer; porém, por outro lado, veja que os recursos memorialistas (dentre eles, as narrativas) têm a função de fazer lembrar sempre. Desse modo, justifica-se, sim, a repetição memorialista compensatória: a “comemoração” de casos e mais casos, o quanto for possível, pois, como já se disse, a memória é luta contra o esquecimento e, neste caso, contra a naturalização anestesiante. 

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Memória, memória, memória, com todos os seus recursos, sensibilização que possa ser o antídoto contra uma morte coletiva, porque a cada caso todos estamos morrendo. Repetição como luta contra a sucessão avassaladora de casos (como a “Marcha da Chacina da Baixada Fluminense”, que todo ano se repete). E para que não nos esqueçamos nunca o quão violenta e injusta é nossa sociedade, e como se violam direitos impunemente. Assim, memória como lembrança de algo do presente.  
 “O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança”.[3]
 E essas pessoas que sobreviveram ou assistiram às cenas? Testemunhas construtoras da memória, cruciais para a reconstrução do passado através de suas lembranças. E os parentes? 
 “Os historiadores não devem esquecer que são os cidadãos que fazem realmente a história – os historiadores apenas a dizem; mas eles são também cidadãos responsáveis pelo que dizem, sobretudo quando o seu trabalho toca nas memórias feridas”.[4]
 Pensemos também na rica contribuição da História Oral, seguindo os rastros de Paul Thompson.
 As lembranças pessoais não são importantes apenas na literatura, como naIlídada de Homero ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. As lembranças das memórias individuais, incrustradas nas mentes, entrelaçadas, são o ponto de partida para reconstruirmos a memória coletiva e isso, por si só, já deveria levar a dar mais atenção a essas pessoas pelos seus desdobramentos subjetivos, o apoio psíquico, afetivo, para além do legal. E elas constroem uma memória local, a da comunidade. Um exemplo: atualmente jovens de Vigário Geral que, obviamente, não vivenciaram a famosa chacina de 1993, a conhecem e guardam sentimentos, pois passa de pai para filho em cada lar, como “atos de transferência”, no dizer de Paul Connerton.
 Como um feixe de memórias autobiográficas, atreladas aos locais em que se sucederam os fatos, temos uma memória coletiva: 
 “(…) cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva”.[5]
 E a memória coletiva pode ter potência:
 “Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida”.[6] 
Maior exemplo de sucesso na luta do tipo de violações em pauta, via memória, nos pós-ditadura, a meu ver, e com status de movimento (com o grau de unificação necessário, sem competição de casos), vem de atores muito especiais: as mães. O papel das organizações de mães contra a violência policial sofrida pelos seus filhos e a devida Justiça em relação aos responsáveis, espalhadas pelo país e articuladas em redes, é potência de luta, seguindo o DNA da luta das mães contra as ditaduras. Elas fazem valer a ideia de que “(…) a última palavra deve ser do conceito moral de dever de memória, que se dirige, como se disse, à noção de justiça devida às vítimas”.[7] Mais que isso: atuam para o fundamental reconhecimento, como discutiu Henri Bergson. 

Ainda: fazem pairar na sociedade uma ética – outro papel da memória -, que espraia a empatia a tantas e tantas vítimas de outras violações também, apontando para a Justiça, numa sociedade terrivelmente injusta.  

E temos outros exemplos de luta memorialista em outras pautas (embora entrelaçadas de forma interseccional). Por ex. o movimento LGBT+ em torno do caso Laura Vermont, Luana Barbosa etc., o movimento feminista no caso Maria da Penha; o racismo no de Rafael Braga, dentre outros. 
 Continuemos então na luta que, dentre todos os instrumentos necessários, tem na memória um deles, e aqui a memória como luta nos reporta a Edmund Burke: 
 “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” 
 Cassiano Ricardo Martines Bovo é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Ativista de Direitos Humanos na Anistia Internacional Brasil.
Notas:
[1] Em alusão ao documentário “Vigário Geral: lembrar para não esquecer”(https://pmrj.wordpress.com/tag/chacina-de-vigario-geral-documentario-completo/).
[2] Conferência “Memória, história, esquecimento”, p. 6, proferida por Paul Ricoeur em Budapeste, 8 de março de 2003, no âmbito de uma conferência internacional intitulada “Haunting Memories? History in Europe after Authoritarianism”.
[3] Santo Agostinho. Confissões. São Paulo: Canção Nova, 2007, digitação de Lucia Maria Csernik, p. 123.
[4] Paul Ricoeur, op. cit., p. 6
[5] Halbwachs, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, p. 51.
[6] https://listadelivros-doney.blogspot.com/2009/05/as-palavras-andantes-eduardo-galeano.html
[7] Paul Ricoeur, op. cit, p. 6.
Quarta-feira, 11 de setembro de 2019