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sábado, 13 de agosto de 2016

O “14 Bis” de Miguel Nicolelis voou no Brasil. Artigo de Conceição Lemes

Pela primeira vez no mundo, pesquisa mostra que paraplégicos podem recuperar movimentos e tato


A função da verdade é aparecer. Sempre. Mesmo que às vezes demore. Em ciência, especificamente, costuma levar tempo.

Meados da década de 1990, Estados Unidos. O laboratório do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, na Universidade Duke, em colaboração com o de John Chapin na Filadélfia, criou o paradigma moderno da interface cérebro-máquina.

Através dessa combinação, qualquer pessoa pode usar apenas a sua atividade elétrica cerebral para controlar os movimentos de braços e pernas robóticos e virtuais, ou colaborar mentalmente na execução de tarefas motoras.

Publicado em 1999, o primeiro trabalho de Nicolelis, envolvendo cérebro-máquina, foi em ratos.

12 de junho de 2014, Brasil. Abertura da Copa do Mundo, Arena Corinthians, mais conhecida como Itaquerão, em São Paulo.

Projeto Andar de Novo, liderado por Nicolelis e que envolveu 150 participantes (entre os quais, pesquisadores e técnicos) de 25 países, realizou uma demonstração científica inédita.

Usando a tecnologia interface cérebro-máquina, o jovem Juliano Pinto, com o corpo paralisado do peito para baixo, deu o chute inaugural da Copa.

Nas pernas, Juliano “vestia” um exoesqueleto. É uma “roupa robótica”.

Na cabeça, por baixo do capacete, múltiplos eletrodos (não invasivos) embutidos numa espécie de touca aplicada no couro cabeludo, imediatamente acima das áreas cerebrais envolvidas no controle motor.

Essa tecnologia permitiu que Juliano controlasse os movimentos do exoesqueleto e, ao mesmo tempo, recebesse dele sinais táteis nos pés e, assim, desse o pontapé inicial.

A Fifa, por motivos até hoje não esclarecidos, fez de tudo para derrubar a apresentação. Após longa batalha, só concedeu 29 segundos. Por razões misteriosas também, apenas 8 segundos foram exibidos na transmissão ao vivo, pela TV.

De pronto, a grande mídia e alguns cientistas brasileiros tacharam o êxito como “fracasso”.

Enquanto o feito era saudado na Europa e EUA, aqui Nicolelis e equipe sofreram toda a sorte de difamação e injúrias.

Uma perseguição implacável. Por inveja, preconceito — ele escolheu o Nordeste para erguer o Instituto Internacional de Neurociência —, sabotagem — o nosso vira-latismo crônico insiste em desprezar o que é feito aqui —, picuinhas acadêmicas e suas posições políticas progressistas.

Mas, desespero dos desafetos e alegria de todos os que torcem por um mundo realmente melhor, 2 anos, 1 mês e 29 dias depois, a verdade apareceu.

11 de agosto de 2016. Nessa quinta-feira, a revista Scientific Reports, da Nature, publicou o primeiro artigo científico sobre Projeto Andar de Novo. São 16 páginas.

Nicolelis - Nature  combinação

O artigo relata os resultados obtidos por oito pacientes paraplégicos crônicos, entre os quais o Juliano Pinto, que treinaram durante um ano (janeiro a dezembro de 2014), usando interfaces cérebro-máquina. Entre elas, a realidade virtual para ajudá-los a imaginar que estavam se movimentando com as suas próprias pernas.

Nicolelis - óculos virtual

No início do estudo, os pacientes (duas mulheres e seis homens):

* Tinham entre 26 e 36 anos de idade.

* Estavam paralisados por lesão medular de três anos a 13 anos.

* Sete foram classificados como portadores de lesão medular completa e um como tendo lesão incompleta.

* Nenhum havia apresentado qualquer sinal de melhora clínica com métodos tradicionais de reabilitação antes da entrada no Projeto Andar de Novo.

* Nenhum também tinha movimentos voluntários abaixo do nível da sua lesão medular no início do treinamento.

Após um ano de treinamento com sistemas controlados pela atividade cerebral, incluindo um exoesqueleto motorizado e realidade virtual, descobertas fantásticas.



Os pacientes readquiriram a habilidade de mover voluntariamente alguns músculos das pernas e sentir o tato e dor.

Também recuperaram grau importante dos movimentos peristálticos do intestino e do controle da bexiga, além de melhora sensível das funções cardiovasculares.

Conclusão: Pela primeira vez no mundo, um estudo mostra a recuperação neurológica parcial em pacientes portadores de paraplegia completa, com base no uso de interfaces cérebro-máquina.

Uma esperança concreta para milhões de pessoas, que, até agora, tinham como única perspectiva a cadeira de rodas.

Nicolelis é pesquisador e professor da Duke University (EUA) e coordenador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) (Brasil).

Eu o entrevistei sobre os resultados da pesquisa e o seu significado para milhões de pessoas com lesão medular.

— Professor, o trabalho publicado nessa quinta-feira é o coroamento de três anos e meio do Projeto Andar de Novo?

Miguel Nicolelis — Mais do que isso. É o coroamento de 18 anos de pesquisa de interface cérebro-máquina, área que eu e John Chapin criamos.

Em 1999, quando publicamos o primeiro trabalho em ratos, nós achávamos que o máximo que se conseguiria era criar métodos para tecnologias assistidas, permitindo que pacientes severamente paralisados pudessem readquirir mobilidade por meios artificiais. Por exemplo, membros protéticos ou exoesqueletos controlados diretamente pela atividade dos seus cérebros.

Lá atrás, a gente nunca imaginou que o treinamento contínuo com interface máquina-cérebro pudesse levar a qualquer tipo de melhora clínica.

É justamente essa descoberta que relatamos neste trabalho publicado agora. É o primeiro de uma série. Outros já estão a caminho. Um inclusive já foi aceito.

— Em resumo, o que demonstrou o estudo até agora?

— Aparentemente a prática crônica de reabilitação pode levar à melhoria da sensibilidade e à reativação do controle voluntário muscular abaixo da lesão em níveis que ninguém jamais registrou na literatura de lesões medulares.

— Eu assisti ao vídeo da pesquisa. É possível ver pacientes fazendo movimentos nas pernas. Eles tinham esses movimentos antes?

— Nenhum deles tinha qualquer movimento das pernas. Sete deles foram classificados por anos — de 3 a 13 — como paraplégicos completos. No momento em que começaram a ter esses movimentos, eles passaram também a ter sensibilidade nos mesmos segmentos do corpo abaixo da lesão.

— Exatamente começou esse trabalho com os pacientes?

— Desde dezembro de 2013. Nos primeiros 12 meses (janeiro a dezembro de 2014), quatro deles foram reclassificados como paraplégicos incompletos e mudaram de categoria.

Mas como a gente continua a acompanhá-los, agora em junho de 2016 todos os sete foram reclassificados como paraplégicos parciais. Todos os pacientes tiveram recuperação significativa.

Cada um mudou num momento diferente. O tempo de recuperação também é diferente de um para outro, assim como as lesões são diferentes.

— São sete ou oito pacientes?

— Eram oito, mas um teve de deixar o projeto no final do ano passado, porque mudou de cidade.

— O grupo é o mesmo desde o início?

— O mesmo.

— Então, quando o senhor começou o projeto não cogitava essa melhora real dos pacientes?

— Ninguém no mundo esperava por isso. Eu nunca falei a respeito antes porque imaginei que isso não seria possível.

— Em que momento percebeu que estava ocorrendo algo além do previsto inicialmente?

— Logo depois da Copa, quando refizemos os exames neurológicos. Á medida que o tempo foi passando, fomos percebendo que eles foram obtendo ganhos. Recuperando a possibilidade de controlar voluntariamente os músculos dos quadris, das pernas… Tem um paciente no vídeo que consegue mover ambas as pernas, envolvendo o quadril, o joelho e até o tornozelo. Ele estava há 13 anos numa cadeira de rodas sem movimentação alguma!



— O tempo de lesão interfere? E a idade?

— Eles são jovens, numa faixa etária que vai de 26 a 36 anos. Mas o mais importante é o tempo de lesão. Variava de 3 a 13 anos quando entraram no projeto.

Eles são os chamados pacientes crônicos. Já tinham feito reabilitação convencional e não melhoraram nada clinicamente.

O mais interessante é que a melhora não se restringe à parte motora e sensorial. Há também um componente visceral muito importante. Esses pacientes recuperaram movimentação peristáltica intestinal. Adquiriram melhor controle da bexiga. Tiveram melhoras cardiovasculares. Enfim, uma recuperação fisiológica global. Algo inédito até agora.

— Para o paciente conseguir esses resultados, qual a duração do tratamento?

— No paciente que parou de treinar, a gente já nota queda de performance. Portanto, é um caso mostrando que o treinamento é essencial.

— Então tem de ter continuidade?

— Os efeitos não desaparecem imediatamente se o paciente parar. Leva alguns meses para começar a haver algum tipo de regressão. Mas até onde as melhoras continuam a gente não sabe. Até o momento a gente não tem um platô.

— Qual é a sua hipótese para essa melhora?

— Essa prática de usar o cérebro para controlar um sistema e receber simultaneamente feedback visual e tátil leva a um processo de plasticidade cortical. E como os nossos pacientes estavam andando com exoesqueleto, que é um equipamento robótico, provavelmente houve plasticidade de medula espinhal também. Ou seja, se sobra algum nervo numa lesão espinhal talvez seja possível usá-lo para restabelecer um contato do córtex com os músculos.

— Professor, como a gente explica para o leigo a questão do exoesqueleto, da interface cérebro-máquina?

— Basicamente o cérebro é como se fosse uma orquestra sinfônica que muda a configuração dos seus instrumentos cada vez que ele produz uma nota musical.

É o único sistema que a gente conhece que é capaz de se autorremodelar para otimizar a sua performance.

Então, a ênfase não é no exoesqueleto, na máquina. É no treinamento mental que faz o paciente tentar readquirir a capacidade de imaginar movimentos nas pernas.

O que interessa é o que o paciente faz mentalmente para isso e os sinais que ele emite.

Assim, por meio de eletroencefalograma, a gente captura esses sinais. É o suficiente para criar uma sensação de realismo de marcha autônoma.

O cérebro precisa de feedback, precisa de sinais do mundo para se autoconfigurar.

Nós inserimos feedback tátil na camiseta especial que o paciente usa — há sensores dela no pé. À medida que caminha, ele vai recebendo feedback tátil do contato do pé no solo, na pele dos braços.

E com isso a gente criou uma ilusão. O cérebro criou uma sensação de membro fantasma. E essa sensação dá a nítida impressão para o paciente de que ele está andando pelos próprios meios, que ele não está dependendo da tecnologia assistida que nós usamos.

Eu acho que isso que foi essencial para disparar o processo de plasticidade cerebral.

Quando os pacientes chegaram aqui, eles não tinham mais no córtex motor a representação dos membros inferiores ou a ideia de se locomover.

Isso tinha sido removido quase que completamente do cérebro. O nosso treinamento reinseriu no cérebro deles esse conceito de ter pernas e caminhar.

— O que significa esse trabalho para as pessoas com lesões medulares?

— Abre uma perspectiva enorme para o mundo da reabilitação de lesões medulares. Existem no mundo pelo menos 25 milhões de pessoas sofrendo com paralisia severa, principalmente medula espinal. Existem também centenas de milhões de pessoas com déficit motor decorrente de derrames e outras doenças neurovegetativas.

— E para a ciência?

— Esse trabalho é um coroamento daquilo que foi tentado no mundo. É mais um componente de esperança para todas essas pessoas, pois mostra que o cérebro tem formas de se autorreorganizar e tentar compensar o que foi perdido.

Nós precisamos entender qual é a linguagem da plasticidade cerebral para basicamente poder tirar vantagem dela e oferecer opções terapêuticas que aumentem a qualidade de vida.

E isso é o que a ciência faz. A ciência só tem sentido se ela é focada no bem da humanidade.

A propósito. Todo esse trabalho clínico foi totalmente desenvolvido no Brasil.

Sem a infraestrutura que foi criada no Instituto de Neurociência de Natal, nós nunca teríamos conseguido fazer esse projeto aqui.

— Professor, especialmente nos últimos dois anos, o senhor sofreu ataque feroz por parte de alguns colegas desafetos e da grande mídia. O que diria para eles agora?

— A melhor resposta é o resultado da pesquisa. Ela demonstrou uma coisa que nunca tinha sido demonstrada antes no mundo. Além de sermos os pioneiros, os resultados foram em tempo recorde. A nossa perspectiva era isso ocorrer em cinco anos. Eles vieram com três anos e meio, já o Projeto Andar de Novo começou em dezembro de 2013.

— E a tua equipe como está, já que ela também enfrentou uma pressão tremenda?

— Nós todos estamos muito felizes. Além da descoberta inédita, ele foi feito completamente aqui no Brasil. A ideia veio da minha carreira da Duke.

Mas este trabalho tem DNA brasileiro. Eu considero este trabalho o mais importante da minha carreira. O nosso “14 Bis” voou aqui.



Conceição Lemes
No Viomundo

domingo, 1 de setembro de 2013

Jorge Pontual fala dos avanços da medicina de Cuba e constrange Eliane Cantanhêde, a Rede Globo e a mídia golpista


   O repórter Jorge Pontual faz entrevista com socióloga norte-americana e reconhece que a Organização Mundial de Saúde vê no sistema médico e na educação médica cubana um exemplo para o mundo. Também fala da resistência ao modelo médico humanista cubano entre os médicos locais, inclusive a elitista classe médica brasileira. Veja o vídeo acima e tire as suas conclusões.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A ética de marketing neo pentecostal midiática, o espírito do capitalismo e o fascismo "cristão"


Segue interessante e atualíssimo texto do jornalista internacional e teólogo Chris Hedges sobre o avanço do fundamentalismo pentecostal e seus traços fascistas



EUA: O fascismo cristão está cada vez mais forte
por Chris Hedges (*)
Dezenas de milhões de cidadãos estadunidenses, reunidos em um movimento difuso e aparentemente rebelde conhecido como a direita cristã, começam a desmantelar o rigor científico e intelectual do Iluminismo. Eles estão a criar um Estado teocrático, baseado na lei bíblica, e buscam aniquilar a todos aqueles que definem como inimigos. Esse movimento, que vai cada vez mais se aproximando ao fascismo tradicional, procura forçar um mundo recalcitrante e submisso ante uma América imperial. Ele defende a erradicação dos “desviantes sociais”, a começar pelos homossexuais, e avança sobre os imigrantes, os humanistas seculares, feministas, judeus, muçulmanos e aqueles que rejeitam como "cristãos nominais", como são denominados os fiéis que não aceitam a sua interpretação literalista, machista,  pervertida e herética da Bíblia. Os que se opõem a este movimento de massas são condenados por constituírem uma ameaça à saúde e higiene do país e da família. Todos devem ser expurgados.
            Os seguidores das religiões desviantes, do judaísmo ao islamismo, deverão ser convertidos ou reprimidos. Os meios de comunicação desviantes, as escolas públicas desviantes, a desviante indústria do entretenimento, os desviantes governos e judiciários seculares e humanistas e as igrejas desviantes serão enquadradas, ou fechadas. Haverá uma promoção implacável de "valores cristãos", que já ocorre nas cadeias de rádios e televisões cristãs e nas escolas cristãs, com informações e fatos sendo substituídos por formas abertas de doutrinação. A marcha em direção a essa terrível distopia já começou. Isso está acontecendo nas ruas do Arizona, nos canais de notícias a cabo, nos comícios do Tea Party, nas escolas públicas texanas, entre membros de milícias e no interior de um Partido Republicano que está sendo açambarcado por estes lunáticos.

            Elizabeth Dilling, que escreveu "The Red Network" (A Rede Vermelha) e foi simpatizante do nazismo, é leitura recomendada por apresentadores de TV trash-talk como Glenn Beck. Thomas Jefferson, que favoreceu a separação entre igreja e estado, é ignorado nas escolas cristãs e em breve será ignorado nos livros das escolas públicas do Texas. A direita cristã passou a saudar a contribuição "significativa" da Confederação sulista [que reunia os estados separatistas durante a Guerra Civil]. O senador Joseph McCarthy, que comandou a caça às bruxas anticomunista na década de 1950, foi reabilitado, e o conflito entre Israel e a Palestina é definido como parte da luta mundial contra o terror islâmico. Leis semelhantes às recém-aprovadas Jim Crow [conjunto de leis que definiam a segregação racial nos EUA] do Arizona estão em discussão em 17 outros estados do país.
            A ascensão do fascismo cristão, que temos ignorado por nossa conta e risco, é alimentada por uma classe dirigente liberal[1] ineficaz e falida, que tem se mostrado incapaz de reverter o desemprego crescente, proteger-nos dos especuladores da Wall Street, ou salvar a nossa desafortunada classe trabalhadora das retomadas de casas hipotecadas, da falência pessoal e da miséria. A classe dirigente revelou-se inútil na luta contra o maior desastre ambiental da nossa história, incapaz de encerrar caras e inúteis guerras imperiais ou de parar a pilhagem do país por suas empresas. A covardia dessa classe dirigente e os valores que ela representa acabaram por se tornar injuriados e odiados.
            Os democratas se recusaram a revogar as graves violações ao direito internacional e nacional transformadas em lei pela administração Bush. Isto significa que, quando o fascismo cristão ascender ao poder, terá à disposição as ferramentas legais para espionar, capturar, negar habeas corpus e torturar ou assassinar cidadãos estadunidenses, como faz o governo Obama.
            As pessoas que vivem no mundo real muitas vezes imaginam que essa massa de descontentes é constituída por bufões e imbecis. Eles não levam a sério aqueles que, como Beck, cultivam seus desejos primitivos de vingança, nova glória e de renovação moral. Os críticos do movimento continuam a empregar as ferramentas da razão, da pesquisa e dos fatos para contestar os absurdos propagados pelos criacionistas, que crêem que boiarão pelados no céu quando Jesus retornar à Terra. O pensamento mágico, a interpretação flagrantemente distorcida da Bíblia, as contradições abundantes em seu conjunto de crenças e a pseudociência ridícula são, no entanto, impermeáveis à razão. Não podemos convencer aqueles que se engajam nesse movimento a despertar. Nós é que estamos a dormir.
            Aqueles que abraçam este movimento veem a vida como uma batalha épica contra as forças do mal e do satanismo. O mundo é em preto-e-branco. Eles precisam ver-se, mesmo que imaginariamente, como vítimas cercadas por bandos sombrios e sinistros empenhados na sua destruição. Eles precisam crer que conhecem a vontade de Deus e podem cumpri-la, principalmente através da violência. Eles precisam santificar sua raiva, uma raiva que está no cerne da ideologia. Eles buscam a dominação cultural e política total. Eles estão usando o espaço que a sociedade lhes oferece para destruí-la. Estes movimentos trabalham dentro das regras estritas do Estado secular porque não têm escolha. A intolerância que promovem é suavizada em público por seus operadores mais sagazes. Uma vez que reúnam energia suficiente, e eles estão a trabalhar duramente para obtê-la, tal cooperação desaparecerá. Em seus templos, fica evidente a ideia de construção de uma nação cristã baseada em controle total sobre os indivíduos e na recusa a permitir que qualquer dissidência se manifeste explicitamente. Estes pastores criaram, dentro de suas igrejas, pequenos feudos despóticos, e buscam replicar essas pequenas tiranias em uma escala maior.
            Muitas dessas dezenas de milhões de pessoas que hoje se encontram na direita cristã vivem no limite da pobreza. A Bíblia, interpretada por pastores cuja conexão direta com Deus os coloca à prova de questionamentos, é o seu manual para a vida diária. A rigidez e simplicidade de suas crenças são armas potentes na luta contra seus próprios demônios e no combate diário pela sobrevivência. O mundo real, no qual Satanás, os milagres, o destino, os anjos e a magia não existem, golpeia-os como a troncos de árvore em um rio. Leva seus empregos e destroi o seu futuro. Este mundo apodreceu as suas comunidades e inundou as suas vidas com álcool, drogas, violência física, privação e desespero. E então eles descobriram que Deus tem um plano para eles. Deus vai salvá-los. Deus intervirá em suas vidas para promovê-los e protegê-los. A distância emocional que separa o mundo real do mundo da fantasia cristã é imensa. E as forças seculares e racionais, aquelas que falam a língua dos fatos e dados, são odiadas e temidas, em última instância, porque puxam os fiéis de volta para a “cultura da morte” que quase os destruiu.
            Há contradições selvagens neste sistema de crenças. A independência pessoal é exaltada ao lado de uma subserviência abjeta aos líderes que afirmam falar por Deus. O movimento diz que defende a santidade de vida e defende a pena de morte, o militarismo, a “guerra justa” e o genocídio. Ele fala de amor e promove o medo da condenação e o ódio. Há uma dissonância cognitiva aterrorizante em cada palavra que proferem.
            O movimento é, para muitos, um salva-vidas emocional. É tudo o que os une. Mas a ideologia, que rege e ordena suas vidas, é impiedosa. Aqueles que dela se desviam, como "apóstatas" que deixam as organizações da igreja, são marcados como heréticos e submetidos a pequenas inquisições, que surgem como conseqüência natural de movimentos messiânicos. Se o fascismo cristão vier a conquistar os poderes republicanos, as pequenas inquisições pouco a pouco se tornarão grandes.
            O culto da masculinidade permeia o movimento. Os crentes são levados a pensar que o feminismo e homossexualidade tornaram o homem estadunidense física e espiritualmente impotente. Jesus, para a direita cristã, é um vigoroso homem de ação, que expulsa demônios, luta contra o Anticristo, ataca hipócritas e castiga os corruptos. Este culto da masculinidade, com sua glorificação da violência, é profundamente atraente para aqueles que se sentem impotentes e humilhados. Ele transmite a raiva que levou muitas pessoas para os braços do movimento. Ele os incita a chicotear aqueles que, dizem, procuram destruí-los. A paranóia sobre o mundo exterior é alimentada através de bizarras teorias da conspiração, muitas delas defendidas em livros como o de Pat Robertson, “The New World Order", uma tirada xenófoba que inclui ataques contra os liberais e as instituições democráticas.
            A obsessão com a violência permeia os romances populares como o escrito por Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins. Em seu apocalíptico “Glorious Appearing” (Glorioso Aparecimento), baseado na interpretação própria de LaHaye das profecias bíblicas sobre o Segundo Advento, Cristo volta e estripa a carne de milhões de não-crentes com o som de sua voz. Há descrições longas de horror e sangue, de como “as palavras do Senhor haviam superaquecido seu sangue, fazendo com que estourassem suas veias e pele. Olhos se desintegraram. Línguas derreteram. A carne se dissolveu.” A série Left Behind (Deixados para Trás), à qual pertence este romance, é a mais vendida para adultos no país.
            A violência deve ser usada para purificar o mundo. Os fascistas cristãos são chamados a um permanente estado de guerra. “Qualquer ensinamento de paz antes do retorno [de Cristo] é uma heresia...” diz o televangelista James Robinson.
            Os desastres naturais, ataques terroristas, a instabilidade em Israel e até mesmo as guerras no Iraque e no Afeganistão são vistos como indícios gloriosos. Os fiéis insistem que a guerra no Iraque está prevista no nono capítulo do Apocalipse, onde quatro anjos “que estão presos no grande rio Eufrates serão libertados, para matar a terça parte dos homens.” A marcha é inevitável e irreversível e exige que todos estejam prontos para lutar, matar e talvez morrer. A guerra mundial, até mesmo nuclear, não é para ser temida, mas sim celebrada como precursora do Segundo Advento. À frente dos exércitos vingadores virá um bravo e violento Messias que condenará centenas de milhões de apóstatas a uma morte terrível e horripilante.
            A direita cristã, enquanto abraça o primitivismo, procura legitimar suas mitologias absurdas nos marcos do direito e da ciência. Seus membros o fazem, a despeito de suas idéias retrógradas, porque se constituem em movimento totalitário distintamente moderno. Eles tratam de cooptar os pilares do Iluminismo, a fim de aboli-lo. O criacionismo, ou o “projeto inteligente”, assim como a eugenia para os nazistas ou a “ciência” soviética de Stalin, deve ser introduzido no mainstream como uma disciplina científica válida – daí, portanto, a reescrita dos livros didáticos. A direita cristã defende-se no jargão jurídico-científico da modernidade. Fatos e opiniões, a partir do momento em que são utilizados “cientificamente” para apoiar o irracional, tornam-se intercambiáveis. A realidade não é mais baseada na coleta de fatos e provas, e sim, baseada em ideologia. Fatos são alterados. Mentiras se tornam verdades. Hannah Arendt chamou a isso “relativismo niilista”, embora uma definição mais adequada pudesse ser “insanidade coletiva”.
            A direita cristã tem, assim, o seu próprio corpo de “cientistas” criacionistas que usam a linguagem da ciência para promover a anticiência. Ela lutou, com sucesso, para ter seus livros criacionistas vendidos em livrarias como a do parque nacional do Grand Canyon e ensinados nas escolas públicas de estados como Texas, Louisiana e Arkansas. O criacionismo molda a visão de centenas de milhares de estudantes nas escolas e faculdades cristãs. Esta pseudociência alega ter provado que todas as espécies animais, ou pelo menos seus progenitores, couberam na arca de Noé. Contesta as pesquisas sobre a AIDS e a prevenção da gravidez. Ela corrompe e desacredita as disciplinas de biologia, astronomia, geologia, paleontologia e física.
            No momento em que os criacionistas podem argumentar em pé de igualdade com geólogos, afirmando que o Grand Canyon não foi criado há 6.000.000.000 de anos, e sim há 6.000 pela grande enchente que ergueu a arca de Noé, estamos perdidos. A aceitação da mitologia como uma alternativa legítima à realidade é um duro golpe para o Estado racional e secular. A destruição dos sistemas de crença racional e empiricamente fundamentados é essencial para a criação de todas as ideologias totalitárias. A certeza, para aqueles que não podem lidar com as incertezas da vida, é um dos apelos mais poderosos do movimento. A desapaixonada curiosidade intelectual, com suas correções constantes e sua eterna procura de provas, é uma ameaça às certezas. Por isso, a incerteza deve ser abolida.
            “O que convence as massas não são fatos”, Arendt escreveu nas “Origens do Totalitarismo”, “nem sequer a invenção dos mesmos, mas apenas a coerência do sistema de que presumivelmente fazem parte. A repetição, com sua importância um pouco exagerada devido à crença difundida na capacidade inferior das massas de compreender e lembrar, é importante porque as convence de que há uma consistência ao longo do tempo”.
            Santo Agostinho definiu a graça do amor como Volo ut sis – Desejo que sejas. Há – escreveu – uma afirmação do mistério do outro nas relações baseadas no amor, uma afirmação de diferenças inexplicáveis e insondáveis. As relações baseadas no amor reconhecem que os outros têm o direito à existência. Essas relações aceitam a sacralidade da diferença. Esta aceitação significa que nenhum indivíduo ou sistema de crenças apreende ou defende uma verdade absoluta. Todos se esforçam, cada um à sua maneira, uns fora dos sistemas religiosos e outros dentro deles, para interpretar o mistério e a transcendência.
A sacralidade do outro é um anátema para os cristãos de direita, que não reconhecem a legitimidade de outras formas de ser e de pensar. Caso se reconheça que outros sistemas de crenças, inclusive o ateísmo, têm uma validade moral, a infalibilidade da doutrina do movimento, que constitui o seu principal apelo, é destruída. Não pode haver formas alternativas de pensar ou de ser. Todas as alternativas devem ser esmagadas.
          
  Debates teológicos, ideológicos e políticos são inúteis com a direita cristã. Ela não responde a um diálogo. É impermeável ao pensamento racional e à discussão. As tentativas ingênuas de aplacar um movimento voltado à nossa destruição, através de provas de que nós, também, temos "valores", só reforça a sua legitimidade e a nossa própria fraqueza. Se não temos o direito de ser, se nossa existência não é legítima aos olhos de Deus, não pode haver diálogo. A esta altura, trata-se de uma luta pela sobrevivência.
            As pessoas arregimentadas para o fascismo cristão lutam desesperadamente para sobreviver em um ambiente cada vez mais hostil aos seus olhos. Nós falhamos e estamos em dívida para com eles e não o contrário: esta é sua resposta. As perdas financeiras, o enfrentamento da violência doméstica e sexual, a luta contra os vícios, a pobreza e o desespero que muitas delas têm de suportar são trágicas, dolorosas e reais. Elas têm direito à sua raiva e alienação. Mas elas também estão sendo usadas e manipuladas por forças que buscam desmantelar o que resta da nossa democracia e eliminar o pluralismo que um dia foi um marco da nossa sociedade.
            A faísca que poderá atear as chamas deste movimento pode estar adormecida nas mãos de uma pequena célula terrorista islâmica. Pode estar nas mãos de gananciosos especuladores de Wall Street que jogam com dinheiro do contribuinte no elaborado sistema global do capitalismo de cassino. O próximo ataque catastrófico, ou o colapso econômico seguinte, podem ser o nosso incêndio do Reichstag[2]. Pode vir a ser a desculpa empregada por essas forças totalitárias, este fascismo cristão, para extinguir o que resta da nossa sociedade aberta.
            Não nos deixemos ficar humildemente aos portões da cidade, esperando que os bárbaros apareçam. Eles já estão chegando. Eles estão indo tranquilamente para sua Belém. Deitemos fora nossa complacência e nosso cinismo. Desafiemos abertamente o establishment liberal, que não irá nos salvar, para exigir e lutar por reparações econômicas para a nossa classe trabalhadora. Vamos reintegrar esses despossuídos em nossa economia. Vamos dar-lhes uma esperança real para o futuro. O tempo está se esgotando. Se não agirmos, os fascistas estadunidenses, empunhando cruzes cristãs, agitando bandeiras nacionais e orquestrando corais do Juramento à Bandeira[3], usarão essa raiva para nos destruir a todos.

(*) Chris Hedges é formado na escola teológica de Harvard e foi, por quase vinte anos, correspondente estrangeiro para o New York TimesÉ autor de vários livros, entre os quais: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle
 Notas:
[1] Nos EUA, o termo “liberal” corresponde à definição dada, aqui, a “social-democrata”, como pretendido pelo PSDB.
[2] Episódio que precipitou a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha.


[3] Em inglês, Pledge of AllegianceTrata-se da cerimônia de juramento de fidelidade ao país e à bandeira dos EUA.