Em 120 dias de funcionamento, 18 reuniões e 220 páginas de documentos, a CPI realizou um levantamento dos crimes relacionados às atividades econômicas, à lavagem de dinheiro e de infiltração no poder público, com destaque para o caso do Banco Master. Até aí, trabalho legítimo. O problema está na conclusão: depois de toda essa investigação, o relator escolheu pedir o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes — e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por supostos crimes de responsabilidade.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, não foi indiciado. Fabiano Zettel, seu cunhado e operador financeiro identificado pela própria CPI como responsável por pagamentos ilegais, não foi indiciado. Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central que autorizou a absorção do Master pelo BRB, não foi indiciado.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, resumiu a contradição: “Do ponto de vista de indiciamento, Zettel não foi indiciado, Daniel não foi indiciado, o ex-presidente do Banco Central não foi indiciado.” Wagner votou contra. Soraya Thronicke, que não é governista, também votou contra. O presidente da CPI, Fabiano Contarato, igualmente se opôs.
A questão que o relatório levanta — e que recusa responder — é estrutural: uma CPI criada para investigar o crime organizado pode encerrar seus trabalhos tendo escolhido como alvo principal as instituições que investigam o crime organizado?
As formas do lobby
Há duas maneiras de montar um lobby.
Uma, é defendendo o padrinho. Se for inviável – reputação muito pesada, imagem negativa consolidada – ataque o adversário do padrinho.
Aparentemente foi o que fez o senador Alessandro Vieira, no relatório da CPI do Crime Organizado. Seja qual for sua intenção, Alessandro Vieira transformou-se no principal lobista do crime organizado no Senado federal.
Analise, por exemplo, a Operação Colossus – primeira grande investida contra o crime organizado. E, depois, o caso Master.
A primeira etapa envolveu Polícia Federal e Ministérios Públicos. A segunda etapa envolverá Supremo Tribunal Federal e Procuradoria Geral da República, a partir do momento que se identifique a participação de deputados e senadores nas tramóias.
É aí que entra o fator Alessandro Vieira.
Envolvimento de políticos com o crime organizado:
Cerca de 70 deputados federais envolvidos no escândalo das emendas secretas.
Três governadores e inúmeros prefeitos que liberaram depósitos dos fundos de previdência para o Master:
Rio de Janeiro (Cláudio Castro): ~R$ 970 milhões via Rioprevidência.
Amapá (Clécio Luís): ~R$ 400 milhões.
Amazonas (Wilson Lima): ~R$ 50 milhões.
Prefeituras: Maceió/AL, Cajamar/SP e São Roque/SP (somas que superam R$ 270 mi).
Ciro Nogueira (PP-PI): Senador e presidente do PP, frequentemente citado como um dos principais articuladores e ligado ao banqueiro.
Antonio Rueda (União Brasil): Presidente do União Brasil, classificado como parte da rede de influência.
Ibaneis Rocha (MDB-DF): Governador do Distrito Federal, também citado entre os próximos políticos.
Ao desviar os ataques dos criminosos para os julgadores, é nítido que a intenção de Alessandro Vieira foi dobrar ambas as instituições em seu trabalho profilático no Congresso.
Mais que isso, deixou de lado a imensa rede de organizações que atuavam no entorno do caso Master. Deixou de apurar a atuação do crime organizado nos seguintes setores:
1. Transporte e logística.
2. Construção civil e empreiteiras.
3. Postos de combustíveis.
É caso da PGR investigar os reais motivos que levaram Alessandro Vieira a atuar claramente em teses benéficas ao crime organizado.
Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
Mensagens trocadas por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, indicam que o empresário se referia ao presidente do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), como um “grande amigo de vida”.
Mensagens trocadas por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, indicam que o empresário se referia ao presidente do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), como um “grande amigo de vida”.
Em diálogo com sua namorada, a blogueira Martha Graeff, Vorcaro apresenta o parlamentar — uma das principais figuras do centrão — como alguém muito próximo. “Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, escreveu ele em maio de 2024.
O diálogo faz parte do conjunto de mensagens e documentos sob análise da CPMI do INSS.
Meses depois, em agosto, Vorcaro voltou a mencionar o senador em conversa com Martha. Na mensagem, afirmou que “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro”. Segundo ele, a proposta ajudaria bancos médios e reduziria o poder das grandes instituições. “Está todo mundo louco”, acrescentou.
“Wow amor. Louca pra saber de tudo ao vivo”, respondeu Martha.
Naquele período, Ciro Nogueira havia apresentado uma emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor da garantia oferecida pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). A proposta foi incluída na PEC que tratava da autonomia do Banco Central.
A emenda foi criada às 17h57 e modificada pela última vez às 18h09. A mensagem de Vorcaro para a namorada foi enviada pouco mais de uma hora depois, às 19h44.
A emenda passou a ser apelidada de “emenda Master”, por supostamente favorecer o banco. Os CDBs do Banco Master chegaram a oferecer rendimentos de até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e destacavam, em campanhas de marketing, a proteção do FGC para transmitir segurança aos investidores.
Diante da resistência de entidades do setor bancário, a proposta acabou sendo engavetada.
Também há uma conversa entre Vorcaro e o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP). Na mensagem, o parlamentar escreveu: “Oi, amigo, precisamos fazer a videoconferência eu, você e Ciro”. O ex-banqueiro respondeu: “Opa. Vamos. Só me chamar”.
O senador afirmou, por meio de sua assessoria, que troca mensagens com centenas de pessoas e que esse tipo de interação não significa proximidade pessoal.
“Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”, completou, em texto enviado à Folha de S. Paulo..
Além disso, reportagem de Aguirre Talento, Gustavo Côrtes e Vinícius Valfré, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, revela que a Polícia Federal identificou no celular do banqueiro Daniel Vorcaro conversas com o senador Ciro Nogueira, além de registros em que o empresário determinava o pagamento a uma pessoa identificada apenas como “Ciro”, sem menção ao sobrenome.
Procurado pelo jornal, o senador disse não ter proximidade com o banqueiro e negou ter recebido qualquer quantia. A seguir, a íntegra da nota enviada ao Estadão:
“Associar meu nome ao recebimento de qualquer tipo de pagamento por ter o primeiro nome citado em diálogos, sem oferecer outra informação, tais como sobrenome ou cargo, é um ato irresponsável, inconsequente e até leviano. Segundo o IBGE, existem mais de 11 mil pessoas com o nome Ciro no Brasil, incluindo um ‘Ciro’ entre os advogados que atuam na defesa de Vorcaro, segundo informações de minha assessoria.
Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia. Informo que, embora conheça Daniel Vorcaro, assim como conheço centenas de empresários, ele jamais pertenceu ao meu círculo de amizades próximas. Estou absolutamente tranquilo quanto aos resultados das investigações da Polícia Federal, uma vez que, reafirmo, não tenho envolvimento algum com as denúncias relacionadas ao empresário”.
O aprofundamento da apuração revelou uma conexão direta entre empresários locais e o grupo de operadores financeiros de São Paulo que já estavam na mira da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto pela Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo contra um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
Carbono Oculto: A expansão do esquema financeiro do PCC de São Paulo para o Piauí
Pima Energia foi aberta em um endereço em São Paulo, apenas seis dias antes de comprar a rede de postos HD
Por Flávio VM Costa e Alice Maciel
Material apreendido pela Polícia Civil do Piauí durante a Operação Carbono Oculto 86 levanta suspeita de que a distribuidora paulista Aster Petróleo, acusada de integrar o esquema de lavagem de dinheiro do PCC, controlava a rede de postos de combustíveis piauiense HD. Durante as buscas realizadas em endereços da companhia em Teresina (PI), na semana passada, os agentes também encontraram um papel com a descrição de uma fórmula de adulteração de gasolina semelhante à utilizada em São Paulo. O ICL Notícias teve acesso ao teor do documento.
Os autos do inquérito policial obtidos pela reportagem revelam ainda que além da Aster Petróleo, outras cinco empresas ligadas à dupla acusada de comandar o braço financeiro do PCC – Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo” – passaram a atuar no Piauí desde 2023. Ambos estão foragidos da Justiça. Entramos em contato com a defesa dos dois, mas não obtivemos retorno.
A investigação teve início após a venda suspeita da rede de postos HD, que chamou atenção da Polícia Civil piauiense devido a “inconsistências patrimoniais, alterações societárias simultâneas e a criação de empresas com endereço na Avenida Paulista (SP), sem lastro econômico compatível com o volume de negócios”.
Agentes também encontraram um papel com a descrição de uma fórmula de adulteração de gasolina semelhante à utilizada em São Paulo
O aprofundamento da apuração revelou uma conexão direta entre empresários locais e o grupo de operadores financeiros de São Paulo que já estavam na mira da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto pela Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo contra um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
A Polícia Civil do Piauí identificou modus operandi parecido ao descrito na operação paulista: aquisição de postos por empresas de fachada, substituição de bandeira comercial sem alterações operacionais reais, criação de fundos e holdings para mascarar os beneficiários finais, movimentação financeira atípica via fintechs e contas interligadas, adulteração de combustíveis e emissão de notas fiscais sobrepostas.
Por ser um desdobramento da operação Carbono Oculto, a investigação piauiense foi batizada com mesmo nome, mas com acréscimo do número 86, referente ao DDD do estado. A Justiça autorizou o compartilhamento de provas entre as duas operações.
“O presente procedimento investigativo com o esquema de atuação do Primeiro Comando da Capital no mercado de combustíveis, exposto pela Operação Carbono Oculto, conclui-se pela existência de fundados indícios de que a rede de postos em questão vem sendo instrumentalizada para a execução regional da mesma dinâmica criminosa”, lê-se na decisão judicial que autorizou os mandados de busca e apreensão no Piauí, Maranhão e Tocantins.
Conforme revelou o ICL Notícias, a Operação Carbono Oculto 86 atingiu o ex-assessor, aliado político e compadre do senador Ciro Nogueira (PP/PI), Victor Linhares, que recebeu R$ 230 mil de um dos donos da rede de Postos HD. Mostramos ainda que a incorporadora do senador, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, recebeu R$ 63,9 mil de uma empresa investigada e que a firma do irmão de Ciro Nogueira dividiu endereço com um dos postos suspeitos de integrar o esquema de lavagem de dinheiro.
Victor Linhares é homem de confiança do senador Ciro Nogueira
O ICL Notícias também publicou, em setembro, uma entrevista exclusiva com o ex-piloto da companhia Táxi Aéreo Piracicaba, Mauro Matosinhos, em que ele afirmou ter transportado em voo uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, na mesma data em que Beto Louco mencionou a outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira.
O senador foi procurado, mas não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre as possíveis conexões entre ele, seu ex-assessor e empresas investigadas na Operação Carbono Oculto 86. Linhares não retornou às tentativas de contato do ICL Notícias e não conseguimos contato com Raimundo Nogueira, irmão de Ciro Nogueira.
Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, e Roberto Leme, o Beto Louco
Ordens de SP e notas fiscais suspeitas
Uma conversa de Whatsapp retirada de um celular apreendido pela Polícia Civil do Piauí mostra um funcionário da Aster Petróleo dando ordens para Moisés Eduardo Soares Pereira, da rede de postos piauiense HD.
“Gu, tem um inspetor de qualidade da CIA Ipiranga no HD 10, querendo fazer análise do produto. Nossas compras foram em outras Cias. Autoriza fazer análise?” perguntou Pereira a um contato da Aster Petróleo. “Não deixa”, respondeu o interlocutor. “Diz que não está autorizado”, acrescentou.
A Aster comercializa combustíveis fabricados pela Copape Produtos de Petróleo. O grupo Copape/Aster, ligado a Beto Louco e Primo, foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada em São Paulo. A Polícia Civil do Piauí identificou que a rede de postos HD emitiu notas fiscais para a Copape, evidenciando movimentações comerciais entre as empresas.
Além disso, foram emitidas 504 notas fiscais pela Duvale Distribuidora, também vinculada ao grupo de Beto Louco e Primo, conforme revelado pela investigação da Carbono Oculto. De acordo com relatório da Polícia Civil do Piauí, a maior parte dessas operações refere-se à comercialização de combustíveis, concentrando-se no período de dezembro de 2023 a maio de 2024.
“Verificou-se que parte das notas fiscais emitidas pela Duvale não apresenta rastreabilidade logística, em razão da ausência de documentos fiscais de transporte ou da inexistência de registro de passagem das mercadorias no Piauí”, informa o documento.
Investigadores ouvidos pela reportagem afirmam que as notas fiscais foram emitidas com fraudes para ludibriar a fiscalização. Insumos de combustível seriam registrados tendo como destino o Piauí, que tem uma alíquota de imposto menor, mas seriam enviados para São Paulo.
Haran Santiago foi alvo da polícia quando estava no aeroporto de Guarulhos
Fundo de investimentos também conecta SP ao Piauí
A transferência de propriedade da rede piauiense de postos de combustíveis HD, que pertenciam aos empresários Haran Sampaio e Danilo Souza, para um fundo de investimento suspeito, é outra prova da ligação da expansão do esquema de São Paulo para o Piauí. Em dezembro de 2023, o grupo foi vendido para a Pima Energia Participações Ltda.
O que chama atenção, segundo relatório da Polícia Civil do Piauí, é que a Pima Energia foi aberta em um endereço em São Paulo, apenas seis dias antes de comprar a rede de postos HD, “levantando a suspeita de que foi criada especificamente para formalizar a referida transação comercial”.
Os investigadores suspeitam que foi uma venda de fachada, uma vez que houve uma “substituição de bandeira (de HD para Pima e Diamante) sem alteração operacional real”.
Em depoimento prestado à Polícia Civil, Sampaio e Souza negaram envolvimento no esquema de adulteração de combustíveis.
O único sócio da Pima Energia à época da venda era o Jersey Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, que por sua vez é administrado por uma empresa também suspeita de lavar dinheiro e, igualmente, alvo da operação Carbono Oculto: a gestora de fundos Altinvest Gestão e Administração de Recursos de Terceiros.
Hub de soluções financeiras, a Altinvest é liderada pelo empresário Rogério Garcia Peres e administra 10 fundos citados pelos promotores na Carbono Oculto. O MP-SP afirma que Peres é um dos responsáveis pelas “dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos e a BK Instituição de Pagamento”. A Altinvest e Peres negam envolvimento com o crime organizado.
Segundo relatório da Polícia Civil do Piauí, após a conclusão da venda dos postos de combustível da rede HD, Moisés Eduardo Soares Pereira passou a figurar como único sócio da Pima Energia Participações Ltda. Ele é um ex-funcionário de Haran Sampaio e Danilo de Souza. Investigadores suspeitam que ele é um laranja de seus patrões.
Após a compra pela Pima Energia, os postos de gasolina da rede “Postos HD” passaram a ser chamados de Red Diamante. De acordo com a investigação da Operação Carbono Oculto 86, há evidências de uso de empresas de fachadas vinculadas às marcas “Postos HD”, “Postos Pima” e “Postos Diamante”, “que tem suspeita de ligação com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC)”.
“As evidências apontam para possível sobreposição de registros ou compartilhamento de estrutura física entre diferentes pessoas jurídicas, indicando manobra para ocultar operações financeiras e dificultar a rastreabilidade de recursos, prática típica de lavagem de capitais”, destacam os investigadores.
Piloto diz que Rueda é dono de aviões operados por empresa de voos do PCC
Segundo o piloto, presidente do União Brasil, Antonio Rueda, era citado pelo dono e por funcionários da TAP como o líder de um grupo que financiou clandestinamente a compra de aeronaves particulares
Por Leandro Demori, Cesar Calejon, Flávio VM Costa e Alice Maciel, do ICL Notícias; Thiago Herdy, Colunista do UOL
Um piloto que transportava regularmente a dupla que liderava um mega-esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC afirmou em depoimento à Polícia Federal que o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, está entre os verdadeiros donos de quatro dos dez jatos executivos operados por uma empresa de táxi aéreo.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, Mauro Caputti Mattosinho, 38 anos, disse que Rueda era citado por seu chefe como o líder de um grupo que “tinha muito dinheiro que precisava gastar” na compra de aeronaves, avaliadas em dezenas de milhões de dólares.
“Havia um clima de ‘boom’ de crescimento na empresa. E isso foi justificado como sendo um grupo muito forte, encabeçado pelo Rueda, que vinha com muito dinheiro que precisava gastar. Então, a aquisição de várias aeronaves foi financiada”, diz Mattosinho na entrevista gravada em vídeo.
Rueda nega ser dono das aviões e “repudia com veemência qualquer tentativa de vincular seu nome a pessoas investigadas ou envolvidas com a prática de algum ilícito”, afirmou em nota oficial.
O presidente do União Brasil diz que “já voou em aeronaves particulares em voos fretados por ele ou como convidado”, mas que “nunca participou da compra das aeronaves”. E que costuma realizar seus deslocamentos “em voos comerciais”.
Piloto Mauro Caputti Mattosinho
“A história que contei para vocês eu repeti para a Polícia Federal”, afirmou Mattosinho, na entrevista ao ICL Notícias. A reportagem teve acesso ao depoimento, prestado por ele há 17 dias no aeroporto Catarina, em São Roque (SP), antes de pedir demissão.
Mattosinho entrou na TAP (Taxi Aéreo Piracicaba) em 2023 e saiu há duas semanas, depois de transportar os parentes de Beto Louco para o Uruguai na véspera da mega-operação da PF, da Receita e do Ministério Público de SP, realizada no fim de agosto, que revelou um enorme esquema de lavagem de dinheiro que inclui o uso de fundos de investimento.
O piloto afirma ter transportado ao menos 30 vezes Mohamad Hussein Mourad, mais conhecido como Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco. Ambos são apontados como líderes do esquema que atendia ao PCC e estão foragidos da Justiça.
Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco
O depoimento à PF ocorreu na volta do voo ao Uruguai com a família de Beto Louco. Havia a suspeita de que ele pudesse estar no voo.
O piloto, que se diz indignado pelo conteúdo das conversas que presenciou, procurou o ICL Notícias pela primeira vez em novembro do ano passado.
O ICL Notícias e o UOL apuraram que duas aeronaves atribuídas por Mattosinho a Rueda pertencem a fundos de investimentos que têm apenas um controlador, cujo nome não é divulgado.
Uma terceira aeronave está em nome de uma empresa registrada na periferia de Imperatriz (MA). Em entrevista, a única sócia da empresa disse desconhecer a firma e a aeronave.
Na entrevista em vídeo, Mauro Mattosinho reafirmou ter transportado em voo uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, na mesma data em que Beto Louco mencionou a outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, conforme revelou o ICL Notícias no dia 1º deste mês.
O senador nega ter “tido proximidade de qualquer espécie” com Beto Louco e também nega ter recebido qualquer valor. Ciro ingressou com processo contra o ICL Notícias, pedindo pagamento de indenização por danos morais.
“O senador tem direito de buscar a Justiça em uma sociedade em pleno exercício do Estado Democrático de Direito. Não o teria em caso de ditaduras, nem armadas e nem ‘de toga’. O ICL não se intimida com tentativas de assédio judicial e reafirma a qualidade de suas práticas jornalísticas”, reagiu Leandro Demori, diretor de jornalismo do ICL Notícias..
O piloto trabalhou de novembro de 2023 até o começo deste mês na empresa Táxi Aéreo Piracicaba, conhecida pela sigla TAP. Ele começou atuando como piloto de voos do Primo e depois passou a atender Beto Louco. Os dois estão foragidos da Justiça.
A TAP é administrada pelo empresário Epaminondas Chenu Madeira. O ICL Notícias teve acesso a conversas de Whatsapp entre Mattosinho e Epaminondas, em que o dono da TAP cita “Beto” e “Moha”, referindo-se a Beto Louco e Mohamed (Primo).
Mauro Caputti Matosinho e Epaminondas Chenu Madeira
“Irmão ta foda a situação Beto e Moha Velho. Eu voltando vamos trocar uma ideia. Pra nós alinhar. Mas os caras lá tão foda. Mas to carregando nas costas sozinho”, escreveu Epaminondas no dia 14 de março de 2025, às 16h50. A reportagem transcreveu a mensagem da maneira como ela foi escrita.
Procurada, a defesa de “Primo” informou que não irá se manifestar. Já o advogado de “Beto Louco”, Celso Vilardi, não retornou os contatos.
A TAP operava cinco aeronaves em 2023 e, neste ano, passou a operar dez, de acordo com Mattosinho.
Em nota, a empresa informou “desconhecer qualquer declaração atribuída a funcionário sobre aquisição de aeronaves” e atuar “em observância à lei”. A empresa afirma que “não tinha conhecimento do envolvimento de investigados na Operação Carbono Oculto até sua deflagração”.
“Por fim, não pode fornecer informações sobre clientes ou passageiros sem autorização destes ou por requisição das autoridades competentes”, acrescentou, em nota.
Aeronaves em nome de terceiros
Mattosinho diz que Rueda viaja constantemente em jatos operados pela mesma empresa, embora ele não fosse o piloto destes voos. Era mencionado como “Ruedinha”, diminutivo de seu nome.
A vida de luxo e as polêmicas que envolvem o político foram relatadas no ano passado em reportagem do UOL.
“[Rueda] É uma pessoa que já fazia negócios com a Táxi Aéreo Piracicaba desde quando eu cheguei lá como funcionário, aproximadamente dois anos atrás. Ele já era um nome que circulava como [sendo] sócio em uma aeronave de pequeno porte”, lembra.
A aeronave à qual ele se refere é o jato bimotor Raytheon 390 Premier, matrícula PR-JRR.
De acordo com os registros da Anac, a aeronave pertence à empresa Fênix Participações, controlada pelo advogado Caio Vieira Rocha, filho do ex-ministro César Asfor Rocha; pelo ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos-CE) e por um dono de concessionárias de Pernambuco.
Falando em nome dos sócios, Vieira Rocha negou que Rueda tenha participação na aeronave ou tenha viajado nela.
”Antonio Rueda não é proprietário da aeronave e nem sócio de nenhuma das 3 empresas sócias da aeronave”, escreveu Vieira Rocha.
Conforme registros oficiais,o jatinho foi comprado pela Fênix por US$ 2,3 milhões (R$ 13 milhões), em 2 de outubro de 2024. A transação foi feita com a RZK Empreendimentos Imobiliários, que havia adquirido a aeronave em 2014.
A RZK pertence a José Ricardo Rezek, que é doador do União Brasil, dentre outros partidos, e próximo a Antônio Rueda. Rezek estava na lista de convidados do aniversário de 50 anos do presidente da legenda este ano. A empresa informou por meio de nota que nunca vendeu nenhuma aeronave a Rueda. “Ele jamais atuou como intermediário em qualquer compra e venda e muito menos participou das negociações. A aeronave citada foi regularmente vendida à Fênix Participações Ltda., em conformidade com todas as normas legais, devidamente registrada na Anac”, acrescentou.
Os outros três jatinhos bimotores que, segundo o piloto, teriam sido adquiridos com participação de Rueda são: um Gulfstream G200, matrícula PS-MRL; um Citation Excel, matrícula PR-LPG; e um CitationJet 2, matrícula PT-FTC.
O Gulfstream G200 e o Citation Excel pertencem a empresas controladas pela Bariloche Participações S/A, empresa com capital social de R$ 110 milhões e controlada por fundos de investimentos geridos pelo banco Genial.
Um único cotista do Viena Fundo de Investimento Multimercado é dono do patrimônio da Bariloche, de acordo com a Comissão de Valores Imobiliários (CVM). Sua identidade não é divulgada em documentos públicos.
“Rueda não tem relação com a Bariloche Participações S.A., tampouco é ou foi cotista do Viena Fundo de Investimento Multimercado”, informou a assessoria do presidente do União Brasil.
A quarta aeronave citada pelo piloto, o CitationJet, está em nome da Serveg Serviços.
Localizada em imóvel da periferia de Imperatriz (MA), a empresa tem como atividade principal criação de bovinos, mas registra atividades secundárias diversas, que vão de serviços de malote não realizados pelos Correios a limpeza, conforme cadastro na Receita Federal. A firma está em nome de Antonia Viana Silva Soares.
Procurada, ela disse que desconhece as atividades da Serveg. “Não sei o que você está falando, não”, disse ela, desligando o telefone. Em seguida, bloqueou o número de contato da reportagem.
O uso de fundos de investimento para ocultar patrimônio ou para realizar operações de lavagem de dinheiro foi uma das principais descobertas das operações recentes da PF que miraram no PCC e em empresas financeiras sediadas na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Interesse em aeronave que foi à Grécia
Mattosinho afirmou que o presidente do União Brasil tinha interesse em adquirir uma quinta aeronave, um Gulfstream de Série 550, matrícula PS-FSR, capaz de realizar viagens intercontinentais. A negociação desse modelo de luxo começa a partir de US$ 10 milhões (R$ 54,5 milhões). O piloto não sabe se a transação foi concretizada.
O jatinho foi colocado à venda em julho deste ano, conforme anúncio publicado nas redes sociais de uma empresa que comercializa aeronaves.
No entanto, o site da empresa informava nesta semana que ela não está mais disponível.
A aeronave está registrada em nome do agente de jogadores Luís Fernando Garcia, dono da Elenko Sports. Ele negou ao ICL Notícias que seu jatinho tenha sido vendido e que Rueda tenha realizado viagens nele.
Garcia bloqueou o contato da reportagem no aplicativo. Ele alegou que não responderia aos questionamentos por entender que se trata de negócios particulares.
Em agosto, Rueda reuniu políticos, empresários e artistas para comemorar seus 50 anos na ilha grega Mykonos, que faz parte de um arquipélago no Mar Egeu.
O site de monitoramento global de voos, Adsb Exchange, mostra que o Gulfstream viajou em 31 de julho de Brasília à região de Mykonos, na Grécia. O aniversário de Rueda foi comemorado em 4 de agosto na ilha.
Ainda segundo o site de monitoramento, a aeronave saiu dia 10 da região em direção ao Brasil, aparecendo próximo a Sorocaba (SP) no dia 11.
O dono da TAP enviou mensagens de Whatsapp a Mattosinhos no dia 6 de agosto, falando sobre o serviço na Grécia, aos quais também tivemos acesso. “Irmão. Tô numa correria absurda com avião lá na Grécia. Pode tocar com Brunão pfv Ta foda aqui. 2 dias varados.
“Acompanhando programação da Grécia”, escreveu Epaminondas ao funcionário.
À reportagem, Rueda disse ter viajado em voo comercial da British Airways para a Grécia, dias antes do voo identificado pela reportagem. E negou ter adquirido a aeronave citada pelo piloto.
Investigado do governo Bolsonaro
A TAP está oficialmente registrada no nome da mãe de Epaminondas Chenu Madeira. O empresário, e também piloto, no entanto, é quem toca os negócios. Ele é sócio de outras duas empresas de táxi aéreo, a ATL Airlines e a Aviação Alta.
Mattosinho afirma que pilotava o bimotor Israel G150, prefixo PR-SMG, que pertence aos donos da Copape Produtos de Petróleo. Primo e Beto Louco ainda seriam sócios ocultos de Epaminondas na compra de outros dois jatinhos.
Documentos públicos mostram que a ATL Airlines e a Aviação Alta são cotistas da Capri Fundo de Investimento em Participações, que tem como representante legal Rogério Garcia Peres, alvo da operação realizada pelo MP-SP contra o esquema do PCC. Ele está foragido.
Advogado, Peres é apontado pela promotoria como “administrador de fundos de investimento, amplamente envolvido com o grupo Mohamad, sócio em postos de combustíveis”.
Ele foi nomeado em 17 de setembro de 2019 pelo Secretário Executivo do Ministério da Economia, Marcelo Pacheco dos Guaranys, para exercer o mandato de Conselheiro, representante dos Contribuintes, junto à Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do ministério.
A pasta à época era chefiada por Paulo Guedes.
Segundo o MP-SP, Peres também seria o controlador da Altinvest Gestão e Administração de Recursos de Terceiros, também alvo da operação.
A gestora de fundos aparece como administradora do fundo Capri em um relatório de demonstração financeira de 2024, registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com o nome Ruby Capital Gestão e Administração de Recursos de Terceiros.
A reportagem apurou, no entanto, que o CNPJ registrado no documento com este nome é o mesmo da Altinvest.
Mattosinho afirma que o nome da Ruby foi citado por Epaminondas Madeira e por um advogado da TAP, durante um diálogo que mantiveram quando o piloto apresentou sua demissão.
De acordo com o piloto, o advogado de Epaminondas afirmou que o “Ruby estava intacto”, querendo dizer que o fundo não tinha sido identificado pelas operações da PF e do MPSP, o que revelou não ser verdade já que a Altinvest foi alvo da Operação Carbono Oculto.