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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Jurista Pedro Serrano discorre sobre a era do autoritarismo líquido e lawfare como instrumento político e de corrupção real da justiça





Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da PUC-SP, analisa o que identificou como novas mutações do poder e da política na atualidade

Fotos: Divulgação (à esq)/Foto: Denisse Gacitúa Bustos/ spanishrevolution.org (à dir.)

do Extra Classe 

A era do autoritarismo líquido

por Gilson Camargo
Depois de investigar os processos penais de exceção que no século 20 caracterizaram uma ditadura jurídica do capital, linha de pesquisa que deu origem ao livro Golpismo e Autoritarismo na América Latina– Breve ensaio do Judiciário como instrumento de exceção (Alameda, 2016), o advogado Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da PUC-SP, pela qual é mestre e doutor em Direito do Estado, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa, analisa o que identificou como novas mutações do poder e da política na atualidade: o autoritarismo líquido. Diferente dos regimes ditatoriais do passado, caracterizados por tropas nas ruas e estados de sítio, os autoritários do século 21 são governos eleitos democraticamente, que produzem medidas de exceção por dentro da democracia e podem ser tão letais quanto aqueles. Essas políticas simulam uma aparência de constitucional, de jurídica e de democrática, mas em realidade seu conteúdo material é tirânico, de persecução aos inimigos, não mais o “comunista”, mas a população jovem, negra e pobre da periferia, e também líderes políticos de esquerda. “Nesses processos, o réu é tratado não como um cidadão que errou, mas como um inimigo político”, resume Serrano, pesquisador convidado da Universidade de Paris-Nanterre.
Extra Classe – O conceito de autoritarismo líquido aborda a natureza das medidas de exceção por dentro das democracias. Como essa nova modalidade de autoritarismo do século 21 se instala?
Pedro Serrano – Autoritarismo líquido significa exatamente um modelo de autoritarismo que não se dá pela via de um governo de exceção, ou seja, de uma ditadura, de um nazifascismo ou de um bonapartismo. Trata-se de governos eleitos, democraticamente em geral, mas cujo mecanismo de autoritarismo é a produção intensa de medidas de exceção no interior da democracia.
EC – Mas os regimes democráticos têm lá as suas disfunções, não?Serrano – Todo regime democrático tem, às vezes, medidas autoritárias no seu interior, no seu cotidiano. São disfunções. Mas nesse caso não se trata de medidas de exceção isoladas e sim de uma patologia, ou seja, com uma intensidade muito maior do que seria admissível ou imaginável, embora indesejado, num sistema democrático de intensidade regular. O autoritarismo líquido é um mecanismo mais evoluído de autoritarismo na sua ótica autoritária.
EC – Como essa forma fluida de autoritarismo se instala nas democracias?Serrano – A lógica de todo sistema autoritário é camuflar o seu elemento autoritário, se fortalecer em justificativas e ter o mínimo desgaste possível, para permanecer o máximo possível no poder. O Maquiavel falava, com muita correção a meu ver, que a virtude do político é alcançar o poder e nele permanecer o máximo de tempo possível. Um sistema autoritário busca permanecer o máximo possível como tal no poder, e na medida em que ele dificultar a sua identificação como autoritário é mais tempo de permanência, em tese, que ele tem. Essas medidas de exceção que compõem o autoritarismo líquido são interessantes para o sistema autoritário exatamente porque elas são mais cirúrgicas, não implicam  suspensão dos direitos de toda a comunidade, pelo menos ao mesmo tempo. São produzidas medidas de exceção no mesmo ambiente em que são produzidas medidas democráticas, então fica mais difícil a sua identificação. E elas sempre têm mais bem construídos os seus discursos de justificação.
EC – Tirania com um verniz democrático?Serrano – A característica de uma medida de exceção é ser uma fraude no sentido jurídico da expressão. Ou seja, ela tem uma aparência de constitucional, uma aparência de jurídica, uma aparência de democrática, mas em realidade tem um conteúdo material tirânico, de persecução ao inimigo político.
EC – Como isso ocorre na prática?Serrano – Por exemplo, um processo penal de exceção, que é uma das espécies do gênero medidas de exceção, tem uma aparência de processo penal, uma aparência de cumprir a ordem jurídico-constitucional, mas no seu conteúdo não trata o réu como um cidadão que eventualmente errou. Ele trata de um conteúdo material político de persecução à figura de um inimigo, entendendo-se inimigo como a pessoa que é desprovida de sua condição humana no sentido jurídico-político da expressão, ou seja, um ser, um corpo que não tem proteção jurídico-política mínima.
EC – Como se diferencia o autoritarismo deste século dos regimes de exceção do século 20?Serrano – Há uma mudança, uma alteração muito grande na forma e, por consequência, na natureza do autoritarismo do século 20 para o século 21. Antes eram governos de exceção em que o estado de exceção se instaurava como medida de emergência, sempre com o discurso da defesa da segurança e do Estado e da sociedade. A título de garantia da segurança e da paz da sociedade se realizava o combate ao inimigo, suspendendo os direitos desse inimigo. Os inimigos do século 20, no plano social eram gerais. O comunista, por exemplo, pode ser negro, branco, pobre, rico. Os direitos da sociedade como um todo eram suspensos parcialmente, como o direito da livre expressão. E se constituía para isso um governo de exceção, uma ditadura, um nazifascismo, um bonapartismo.
EC – O que provocou essa mudança?Serrano – A Segunda Guerra Mundial provocou uma revolução na forma como o homem ocidental encara o mundo, uma vez que os dois grandes pilares da sociedade ocidental, democracia e ciência, deixaram de garantir a adoção de medidas ou decisões éticas. A ciência foi utilizada para o genocídio e a democracia para acabar com a própria democracia. O nazismo e o fascismo ascenderam ao poder por vias democráticas, e pela via democrática, se utilizando das autoridades democráticas, acabaram com a própria democracia e com os direitos. O pós-Segunda Guerra é uma ressaca dessa tragédia que foi o nazismo, a radicalização de algumas estruturas ocidentais. No século 21 isso já muda.
EC – Isso levou a uma radicalização antifascismo no pós-guerra…Serrano – No plano jurídico, o que sobrou como resíduo disso é a formulação de um sistema jurídico pautado em constituições rígidas, que não deixavam mais as decisões políticas ser totalmente livres. Obrigavam essas decisões a terem que respeitar os direitos de liberdade, as liberdades públicas da cidadania. E a realizar os direitos sociais. Também estabeleciam outros tipos de opções político-ideológicas que as constituições rígidas trazem no campo material. Mudou profundamente o constitucionalismo a partir daí.
daí.

Foto: Divulgação
“A característica de uma medida de exceção é ser
uma fraude no sentido jurídico. Ou seja, ela tem
aparência de constitucional, jurídica e democrática, mas
tem um conteúdo material tirânico, de persecução ao
inimigo político”
EC – Diante disso, o autoritarismo se reinventou?Serrano – O impacto desse pós-guerra torna difícil a existência de ditaduras, ainda existiram até muito recentemente na América Latina, mas como um resíduo que vinha sendo combatido por esse modelo de vida do pós-guerra. Mas isso não significa que acabou o autoritarismo. Faz surgir uma nova forma de autoritarismo no século 21, que media discursivamente com esse constitucionalismo e com essa visão de democracia que inclui direitos do pós-guerra. O autoritarismo líquido se caracteriza como uma mera mediação discursiva, a finalidade é autoritária. Por isso se criam medidas de exceção. São medidas que têm uma aparência de juridicidade e de constitucionalidade, uma aparência democrática, mas o seu conteúdo material é tirânico, no sentido clássico da expressão tirania na filosofia política.
EC – Qual o papel do Judiciário na ascensão dos novos regimes de exceção na América Latina e no Brasil?Serrano – Na América Latina a minha pesquisa concluiu que se mantém até hoje o sistema de justiça ou – e isso é absolutamente novo em termos de exceção, de autoritarismo – como soberano fundamental e agenciador das medidas de exceção. O inimigo aqui não é o estrangeiro, não é o terrorista. Portanto, não verificamos um regime jurídico especial de segurança nacional no qual são produzidas medidas de exceção.
EC –  Afinal, quem o Estado sob autoritarismo líquido elege como inimigo?Serrano – Essa técnica desenvolvida com a juventude negra das periferias, pobres, levou ao aumento do encarceramento em massa de forma brutal e também um aumento brutal nos homicídios e na violência pública. E por que esse tipo de mecanismo aumenta a violência? Porque ele aumenta o encarceramento, aprisionando um exército de jovens que praticaram crimes de baixa intensidade, por exemplo, pequeno tráfico etc. Dentro da cadeia eles acabam tendo que se filiar a organizações criminosas para poder manter sua integridade física e as próprias vidas. E passam a ser soldados dessa organização, matando e praticando violência. Isso faz alavancar a violência. Saímos de um índice de violência razoável no fim dos anos 1980 para isso.  Em números absolutos, somos o país que mais mata no mundo, temos a polícia que mais mata e morre no planeta. Chegamos a ser o terceiro país que mais aprisiona e atualmente, entre os cinco maiores aprisionadores, o que mais cresce. Nos Estados Unidos, por exemplo, já está caindo o número de aprisionados, na China e na Rússia também, mas o Brasil insiste em crescer 6% a 7% ao ano em número de aprisionados. Permanecemos nessa política.
EC – Qual a relação entre os processos forjados contra civis e os de persecução a inimigos políticos?Serrano – O interessante é que essa técnica de investigação, o processo penal de exceção, migra para a política, como no caso do Mensalão aqui no Brasil. Líderes políticos passam a ser tratados como a juventude negra da periferia era tratada nos inquéritos dos processos penais. O que ocorre não só no Brasil, mas em diversos países da América Latina. Passamos a ter líderes políticos, em geral de esquerda, perseguidos. Mas na Venezuela líderes políticos de direita também são perseguidos pelo governo de esquerda.  Os processos de direito penal comum, normalmente de corrupção ou crimes contra a administração pública, passam a ser utilizados contra os líderes políticos de segmentos que assumiram o poder na América Latina, com o fim de persecução política.
EC – Como se caracterizam esses processos penais de exceção?Serrano – Têm uma aparência de juridicidade, de cumprimento das normas democráticas, mas no conteúdo são ações materiais tirânicas, de combate ao inimigo. Isso não é novo na humanidade. Temos por exemplo os processos de Moscou, de estrutura semelhante, onde havia tribunal, advogado, recurso, juiz, mas todo mundo já sabia o resultado antes de ocorrer, ou seja, era um processo meramente pantomímico, mera formalidade, mera forma num conteúdo político agressivo e de trato do inimigo, em que o réu era e é tratado nesses casos não como um eventual cidadão que errou, mas como um inimigo político. Isso passa a ser usado contra lideranças na América Latina e, em especial aqui no Brasil, nós vimos isso acontecer no caso do Mensalão.
EC – Nesse sentido, o impeachment forjado contra a ex-presidente Dilma Rousseff e a fraude processual que mantém o ex-presidente Lula preso, só para citar os mais escandalosos, são exemplares?Serrano – O caso Dilma, eu não vou ter tempo aqui de me estender, mas esse é um debate que todos já conhecem bem. Eu me posicionei desde o começo pela intensa inconstitucionalidade do conteúdo da decisão. As chamadas pedaladas fiscais não justificam o impeachment de forma nenhuma. O jurista norte-americano Ronald Dworkin deixa bem claro em um artigo publicado na revista The New Yorker, no final dos anos 1990, que o processo de impeachment do então presidente Bill Clinton, nos EUA, depois rejeitado pelo Legislativo, era um golpe constitucional. Dworkin foi a primeira pessoa a usar essa expressão “golpe” para se referir a esses impeachment inconstitucionais. E exatamente porque ele observava a Constituição sendo utilizada para golpear a própria Constituição. A interpretação constitucional, os agentes que deveriam interpretar e garantir a Constituição, se utilizando da figura da interpretação constitucional para golpear a própria Constituição. E ele faz uma observação que eu acho brilhante nesse artigo: num presidencialismo democrático o impeachment deve ser encarado que nem apertar o botão da arma nuclear. Ou seja, é um instituto a ser usado em situação de absoluta emergência, de forma extremamente rara. E o que a gente viu foi ele ser banalizado na América Latina como forma de persecução política a governos de esquerda legitimamente eleitos, portanto, medidas de exceção.
EC – Mas com aparência de medida democrática…Serrano – Na América Latina nós vamos ter duas grandes categorias de medidas de exceção: os inquéritos e processos penais de exceção e os impeachment constitucionais, sem prejuízo de outros tipos de medidas que possam existir, mas esses são os mais impactantes sistemicamente. O autoritarismo é líquido por quê? Como ele é realizado por medidas de exceção e não por governos de exceção, ele tem baixa densidade como autoritarismo e ele não instaura uma ditadura, mas ele dilui, em um certo ponto ele liquidifica as diferenças entre o que é uma ditadura e o que é uma democracia. Às vezes é difícil identificar se um país é democrático ou não exatamente por causa dessa liquidez de medidas que são adotadas, ora medidas democráticas, ora medidas autoritárias ou de exceção.
EC – Isso levou a uma radicalização antifascismo no pós-guerra…
Serrano 
– No plano jurídico, o que sobrou como resíduo disso é a formulação de um sistema jurídico pautado em constituições rígidas, que não deixavam mais as decisões políticas ser totalmente livres. Obrigavam essas decisões a terem que respeitar os direitos de liberdade, as liberdades públicas da cidadania. E a realizar os direitos sociais. Também estabeleciam outros tipos de opções político-ideológicas que as constituições rígidas trazem no campo material. Mudou profundamente o constitucionalismo a partir daí. A ideia dessas constituições era ser, como disse o Luigi Ferrajoli (jurista italiano, principal teórico do Garantismo), uma semente antifascista. No Brasil, a Constituição de 1988 vem nessa tradição e nessa estrutura, uma constituição cidadã, semente antiditadura, e que estabeleceu uma série de direitos e liberdades sociais que deveriam ser observadas nas decisões políticas, além de uma série de outras opções estruturais do Estado. Mas o núcleo fundamental, a pauta ideológica mais relevante da Constituição é exatamente os direitos, e esses teriam que ser observados, ou seja, não pode haver, ou não deveria haver, decisão majoritária contraditória a esses direitos. E a função do Judiciário deveria ser de garantidor desses direitos, de forma contramajoritária.
EC – O autoritarismo líquido se instala sem que haja uma ruptura clara com a democracia. É uma definição que lembra muito o caso brasileiro, tanto no que se refere à violência de Estado contra a população civil, jovens, negros, pobres das periferias, quanto na criminalização de lideranças políticas de esquerda. Onde essas medidas são produzidas e quem são os inimigos?
Serrano – Na América Latina, as medidas de exceção são produzidas no Direito Penal comum e na democracia cotidiana, na ação democrática e na vida política cotidiana. O primeiro grande inimigo que nós temos por aqui é a figura do “bandido”, que no Brasil se traduziu como “traficante” na década de 1990, com a guerra às drogas, onde passam a haver investigações e processos penais de exceção. É a primeira modalidade de medida de exceção. Os processos tinham aparência de processo penal, aparência de cumprir a lei e a Constituição, mas no conteúdo eram tirânicos. Eram ações políticas que visavam combater o inimigo, no caso, o traficante, que era acusado de tráfico, e passou a não ter os seus direitos como ser humano garantidos no processo. O processo virou uma mera pantomima, a defesa de fato não é ouvida, a gente viu isso, estudamos diversos processos da época, desde os anos 1990. Nós vimos que foi se esvaziando aos poucos o sentido dos direitos fundamentais nesses processos.
EC – Os processos penais de exceção são mais frequentes em democracias europeias do que nas latino-americanas?Serrano – A Europa já tem adotado processos penais de exceção no Direito Penal comum, já tem mudado esse quadro, mas há alguns anos era bem clara a diferença entre o que acontecia no primeiro mundo e aqui na América Latina. No primeiro havia medidas de exceção, que podem ser produzidas pelo Legislativo ou pelo Judiciário, mas a figura que saía fortalecida e o soberano que gerenciava e agenciava as medidas de exceção é sempre o Executivo. E produzindo as medidas de exceção no que eu chamo de regime jurídico especial, ou seja, um regime jurídico de emergência, de proteção da segurança nacional. No cotidiano do Direito Penal comum, os direitos continuavam vigindo, mas quando se trata de questão de garantir a segurança nacional contra o ataque do estrangeiro, chamado de terrorista, aí passa a haver medidas de exceção no interior desse regime jurídico especial. Tínhamos essa situação no primeiro mundo. Os Estados Unidos são um pouco híbridos com o nosso modelo da América Latina, mas o típico de primeiro mundo era isso. E são vários os exemplos, o Patriotic Act, nos EUA, que fortalecia o Executivo, dava inclusive o poder de sequestrar pessoas, usar a tortura como método de investigação; as leis antiterrorismo na Europa, os decretos de exceção na França etc.
EC – Qual o papel do Judiciário?Serrano – A prática de medidas de exceção gera o que o Luigi Ferrajoli chama de processo desconstituinte, ou seja, a Constituição permanece, com vigência, mas a interpretação que é dada aos direitos que ela estipula vão restringindo cada vez mais o âmbito de incidência desses direitos, vão roubando seu significado. Vão esvaziando de sentido a Constituição. Ocorre uma retirada do sentido material da Constituição, sem se retirar sua validade formal. E esse processo desconstituinte de que fala Ferrajoli vai se realizando por medidas de exceção produzidas pelo sistema de justiça.
EC – Após Trump, Bolsonaro e Boris Johnson, quando será a hora de tocar o alarme do caos político?Serrano – Essas são características relevantes para a gente levar em conta o autoritarismo vigente na atualidade. No Brasil, Bolsonaro, nos EUA, Trump, na Europa, Le Pen etc.; são líderes que vão ser produzidos como decorrência desse autoritarismo líquido das últimas décadas. Eles vão se consolidando. O autoritarismo não se produz por meia dúzia de sujeitos que estão numa mesa pensando como implantar um sistema autoritário. Ele vai sendo tateado, vai-se experimentando, vai-se vendo, então, como produto disso houve um adensamento na política dessa ideologia autoritária traduzida num populismo de extrema-direita, mas um populismo diferente também do que foram os populismos de extrema-direita do século 20, diferente das ditaduras militares que governaram a América Latina, diferente do nazismo, do fascismo, exatamente porque eles propõem se estabelecer no meio desse mecanismo líquido de autoritarismo. Eles ascendem ao poder pela via da democracia, se utilizam de direitos e de estruturas da democracia, não pretendem, pelo menos aparentemente, interromper o ciclo democrático, mas nele permanecer. Só que praticam cotidianamente medidas de exceção, como rotina. E mais do que isso, fundamentam ideologicamente essas medidas de exceção.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Heloísa, filha do ex-astrólogo e mentor de Bolsonaro e Wintraub, Olavo de Carvalho, revela em entrevista à Revista Época pontos obscurantistas do pai


Da Revista Época, reproduzida no Contexto Livre

Heloísa, filha do ideólogo Olavo de Carvalho, fala da infância desassistida, da relação conflituosa com ele e das antigas convicções religiosas do pai, que agora são negadas

Heloísa e o pai, Olavo de Carvalho, em foto dos anos 90.
"Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano
e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele
na época para o islamismo"
Foto: Reprodução/Facebook
Aos 49 anos, Heloísa de Carvalho Martin Arribas mora numa casa simples e aconchegante em Atibaia, com árvores e flores pelo quintal. 

Professora de artesanato, saiu do anonimato em 2017, quando escreveu "Carta aberta a um pai". O texto relata parte da infância dela e dos irmãos, período marcado pela ausência do pai, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, guru do governo de Jair Bolsonaro. Heloísa o acusa de não a ter enviado à escola. 

Carvalho, ainda segundo a filha, teria colocado a família para morar nos fundos da Escola Júpiter, onde dava cursos de astrologia, enquanto usava a casa da frente para se relacionar com a nova esposa. Em entrevista a ÉPOCA, Heloísa fala sobre o relacionamento com o pai e sobre a mágoa em relação ao abandono intelectual — ela foi alfabetizada pelo Mobral, antigo programa do governo de alfabetização de adultos. 


Você tinha um relacionamento ruim com seu pai? 


Eu sempre tive contato com meu pai. Todas as férias, quando dava, ia passar uns dias na casa dele no Rio ou em Curitiba. Mesmo depois de 2005, quando ele foi para os Estados Unidos, falávamos por e-mail, telefone, WhatsApp. Essa distância que meu pai diz que existe entre nós nunca existiu. Sempre tivemos contato. É apenas uma maneira de ele dizer "não sei da vida dela", "é uma filha que coloquei no mundo e perdi". Uma forma para justificar a falta de responsabilidade como pai, como não ter mandado os filhos para a escola. Não é nada disso que ele fala. Fico pasma de os meus irmãos dizerem que quem mente sou eu.  


Vocês tiveram uma criação religiosa?  


Teve épocas em que rezávamos antes das refeições, mas minha mãe rezava porque era obrigada. Isso não durou nem um ano e não íamos mais à missa. Quando fui morar com meu pai e a Silvana, a segunda esposa dele, frequentávamos uma igreja na Mooca de vez em quando, mas também não durou. Acordar cedo nunca fez parte da vida do meu pai. Às vezes, chegávamos atrasados à missa por ele perder a hora. 

Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele na época para o islamismo. Chegou a ter três esposas muçulmanas ao mesmo tempo. Não batizou nenhum dos quatro filhos do primeiro casamento. Dos outros casamentos não sei, mas nunca ouvi falar em madrinha ou batismo. Ele me casou no islamismo. Eu optei por ser católica e, em 2015, depois de adulta, fui batizada.  


Por que ele foi morar nos Estados Unidos? 


No começo eu não entendia. Acompanhava ele pelo Facebook de vez em quando. Via as publicações, os ataques, mas sempre me mantive neutra. Quando começou a união com a campanha do Jair Bolsonaro, vi que a coisa era maior do que eu imaginava. Lembro de coisas do passado, das amizades que ajudaram ele a chegar onde chegou. 

Dos Estados Unidos ele tem condições de atacar as pessoas. É uma forma de falar o que quer sem ser atingido ou processado. Xinga e ofende todo mundo. Mas quem tem condição financeira de processar Olavo de Carvalho com ele morando lá? É caro, tem carta rogatória, tradução juramentada. Custa tempo e dinheiro. Eu mesma o processaria. Meu pai disse que fui presa em briga de bar, que sou usuária de drogas. Fora a questão do abandono intelectual que sofri na infância e me causa grande transtorno até hoje, com deficiência muito grande na escrita. 


Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA Foto: Acervo pessoal
Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto
de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA
Foto: Acervo pessoal


Seu pai tinha dinheiro para viver nos Estados Unidos? 


Ele foi em 2005, ajudado pelo Guilherme Almeida, um dos herdeiros do Grupo CR Almeida. Meu pai morava em Curitiba e, um dia, me ligou: "Dá para vir para cá? Preciso falar com você urgente". Eu já morava aqui em Atibaia, trabalhava durante a semana e, nos fins de semana, fazia “bico” como caixa numa pizzaria para complementar a renda. Sempre trabalhei muito para me sustentar. Então eu fui. O Guilherme Almeida mandou três carros blindados para levar a gente até o aeroporto e pagou o almoço de despedida, com umas 40 pessoas. Uma vez meu pai falou que recebeu US$ 40 mil de um amigo para se estabelecer nos Estados Unidos. Imagino que tenha sido dele. 


Você falou recentemente que viveu numa comunidade islâmica com seus pais. Como foi isso? 


Foi em 1985, quando meus irmãos foram morar com ele numa casa no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Eu tinha 16 anos e morava com uma tia aqui em Atibaia. Tinha começado a estudar. Fazia jazz, jogava vôlei. Minha mãe veio e disse que estavam ela, meu pai e meus irmãos morando todos juntos — só faltava eu. Qual o filho de pais separados que não quer ver todo mundo junto? Até briguei com minha tia para ir. Mas, quando cheguei lá, não era uma casa normal. Era uma casa onde viviam umas 30 pessoas. Pelo menos 12, fora a minha família, moravam lá. Ele estava numa seita islâmica e todo mundo se converteu. Era uma comunidade, com rezação o dia todo, um monte de regra preconceituosa. 


Que tipo de regra? 


Tinha de sair na rua de véu, com saia comprida até o tornozelo e mangas compridas. Era proibido falar qualquer tipo de palavrão. Também era proibido ter contato com homossexuais ou prostitutas. Todas as sextas-feiras íamos a uma mesquita na Avenida do Estado [importante via da capital paulista]. Ele dizia que muçulmano não namora, só casa. Me apaixonei por um aluno dele. Eu tinha 16 anos e o rapaz, que é o pai do meu filho, tinha 18. Casamos e ficamos juntos durante seis anos. Vivemos na comunidade por uns dois anos. Depois meu pai brigou com todo mundo e a seita acabou, desmantelou. Primeiro fui morar com a minha avó materna. Depois minha tia nos chamou para morar aqui em Atibaia. Eu voltei a estudar e ele também. Nos separamos, mas mantemos a amizade. Ele tem urticária só de ouvir falar em Olavo de Carvalho.  


Você diz que não estudou, que foi alfabetizada no Mobral. Seus pais eram contra a escola? 


Não é que proibissem, mas nunca deram importância. Quando a gente ia à escola, não tinha material, roupa, uniforme. Nessa época, eu era criança. Morávamos na Zona Norte de São Paulo e ele chegou até a matricular a gente numa escola particular chamada Recanto da Petizada. Mas não pagava. Eu voltava da escola levando o boleto de cobrança para casa. Também não pagava perua para levar para a escola. Não tinha como ir. Só consegui me alfabetizar mesmo quando me matriculei no Mobral, incentivada por minha tia, que era professora.  


Quando você deixou de morar com seus pais para morar com sua tia?  


Minha mãe e meu pai se separaram e eu fiquei primeiro morando com ele e a Silvana, a segunda esposa dele. Eu tinha uns 11 anos e a Silvana havia tido a minha irmã Inês, que era um bebê ainda. Silvana não era boa dona de casa. Eu vivia jogada, sem comida pronta, roupas limpas ou ajuda para estudar. Às vezes, tinha de comprar cartolina para levar para a escola e eu não achava nem meu pai nem ela para pedir dinheiro. Ficava sem o material. Morria de vergonha. Tinha uma amiguinha que morava no mesmo prédio que eu e que estudava na minha classe. Quando dava, ela dividia o material comigo. Tenho muita saudade dela, mas nunca mais a encontrei. Só sei o primeiro nome dela: Irina. A única lembrança que guardei foi uma foto nossa. Eu com o cãozinho dela e ela com meu gatinho, tirada pela Silvana, no prédio onde morávamos, na Rua Tutoia.  


A segunda mulher dele era como? 


A Silvana é de família bem rica. Foi criada com empregada e mordomo. Quando a coisa apertava, ela saía correndo com a Inês para a casa do pai ou da avó dela. Ficava lá o dia todo. Só aparecia quando meu pai estava em casa. Nessa época, ele dava cursos de astrologia, viajava muito para o Rio, e eu ficava sozinha no apartamento, que era do pai dela. Um dia, minha tia foi levar minha mãe para me visitar e eu pedi para morar com minha tia. Eu tinha uns 12 ou 13 anos. Foi bom. Voltei a estudar, fazer esportes, ter amigos, casa, comida e roupa limpa. Foi com a minha tia que aprendi a me cuidar e cuidar de uma casa. Foi com a minha tia que fui estudar no Mobral. 


Seus pais continuaram morando com seus irmãos? 


Meus pais viviam num tal de separa e volta. Acho que ele morou com a gente até antes de o Davi nascer. Davi é o mais novo. Depois não me lembro mais de eles morarem juntos. Ele aparecia, dormia uma ou duas noites e sumia. Foram anos assim até ele montar a Escola Júpiter de Astrologia. Depois de várias namoradas, ele começou a namorar com a Silvana, até que ela engravidou e eles passaram a morar juntos. Foi nessa época que a minha mãe tentou suicídio e foi internada por ele num hospício. Eu fiquei morando com ele e a Silvana. E meus irmãos foram morar com a minha avó materna. 


E sua mãe? Nunca falou para você estudar? 


Os dois sempre foram ligados a religião, astrologia e ocultismo. Não estavam nem aí. Viravam a noite fumando, tomando café, fazendo "filosofia". No dia seguinte, minha mãe não acordava, não tinha café da manhã, nada. Sabe quando seu pai trabalha, ganha uma nota, vai para o restaurante com a família inteira e, no dia seguinte, vem a companhia energética e “corta” a luz pois ele não pagou? Essa foi a infância que eu tive. Ele também ia para restaurantes caros com os alunos, pagava a conta de todos, e, no dia seguinte, cortavam a água da minha casa. Não foi uma nem duas vezes que aconteceu isso. Foram muitas. Fora os despejos. Não passamos necessidade porque a família da minha mãe sempre deu amparo. Minha avó materna atravessava da Vila Guilherme, onde ela morava, até o Jardim Brasil [bairros da Zona Norte de São Paulo] para fazer a xepa da feira e ter comida para as crianças — eu e meus irmãos. Remédio, médico, era tudo na base da amizade. Quando ficava doente, nos levavam num médico amigo do Olavo. Meu pai trabalhou como jornalista na Revista Médica e conheceu o Dr. Paulo. Ele acabou sendo o pediatra da gente, uma pessoa com quem mantenho um pouco de contato até hoje. 


Seus irmãos estudaram? 


Meus irmãos, filhos da mesma mãe que eu, não têm o ensino fundamental. Sou a primogênita dele — a mais velha. Minha mãe se casou com ele em 1968 e fez separação de corpos nos anos 80. Em 2005, Olavo fez o divórcio porque precisava ir embora casado para os Estados Unidos. O Luiz estudou até a quarta série, o Tales até a terceira e o Davi até a segunda. Eu estudei porque fui morar com minha tia, que era professora. Fiz o Mobral e, em 2005, entrei num curso de Direito aqui em Atibaia. Demorei sete anos e meio para me formar porque tinha dificuldades. Os professores nunca perguntaram, mas achavam que eu tinha algum tipo de problema cognitivo. Eu não contava que tinha feito Mobral, supletivo. Não fui alfabetizada. Morria de vergonha. Eles acabavam dividindo a nota entre prova escrita, trabalho e apresentação. Teve uma prova que escrevi terra com um erre só. Na prova escrita eu ia mal, na apresentação dava show. Meus irmãos do segundo casamento dele — a Inês e o Percival — tiveram escola boa. Estudaram na escola da madrasta da mãe deles, com pedagogia Waldorf, classe com no máximo 10 crianças. Fizeram USP, são bem estudados, mas graças à mãe deles. Meus irmãos do terceiro casamento dele — a Leilah e o Pedro — moram com ele nos Estados Unidos. A Leilah faz faculdade e o Pedro foi ser  mariner  [fuzileiro naval dos Estados Unidos]. 


Sua divergência com o seu pai começou quando? 


Foi depois do filme O jardim das aflições [que retrata as ideias e o cotidiano de Carvalho e que foi lançado em 2017]. Comecei a ver uma briga pela internet entre os diretores do filme. O diretor de fotografia [Daniel Aragão] começou a falar coisas no Facebook e entrei em contato com ele para saber o que tinha acontecido. Ele estava sendo sacaneado. A questão não era dinheiro, era o reconhecimento do trabalho. Falavam do filme, mas omitiam o nome dele. Eu falei que ia interceder por ele e liguei para o meu pai. Meu pai disse para eu não me meter, que era melhor eu me calar. Perguntei por que era melhor eu me calar e ele falou: "Era o que me faltava, uma puta vagabunda se envolver com um maconheiro vigarista para me foder". Bateu o telefone na minha cara, me bloqueou no Facebook e no WhatsApp. Aí resolvi começar a falar o que sei sobre o lado que o Olavo esconde. Esse lado agressivo, maldoso, violento com as pessoas. É um lado que somente quem convive com ele já viu ou sabe. 


Você citou numa carta pública, em 2017, que a reação de seu pai em relação a sua defesa do Daniel Aragão parecia surto. O que são esses surtos? 


Quando ele fica nervoso, ele surta, com gritos, murros na mesa, muitos palavrões e grosserias com quem está por perto. Isso acontece quando ele se sente provocado ou ameaçado. Diz que a culpa é dos outros; nunca é dele. Uma vez, na casa da Bela Vista, logo depois que ele foi expulso da seita do Frithjof Schuon, ele ficou surtado, com mania de perseguição. Dizia que queriam matá-lo. Ficava paranoico, colocava tranca nas portas e janelas. Dizia que estava sendo vigiado e andava armado pela casa. Eu morava lá e não via nada de estranho. Acho que era tudo coisa da cabeça dele. 


Seu pai chegou a ficar internado? Você sabe algo sobre esse período?  


Sim. Eu tinha entre 5 e 7 anos, não sei exatamente. Fui duas ou três vezes visitar ele na clínica. Não podíamos entrar na casa, então ficávamos na área da piscina, que por sinal era enorme, com um belo jardim. Era uma clínica particular em regime comunitário, coisa bem diferente para aquela época. 


O que seus irmãos fazem hoje? 


Quando meu pai foi embora para os Estados Unidos, o Luiz e o Davi se mudaram para Curitiba e o Luiz herdou as aulas do meu pai. Há uns três anos, pelo que sei, fundaram um instituto e hoje só dão aulas, consulta astrológica e orientação espiritual pela internet. O Luiz hoje vive na Romênia. Ouvi dizer que virá para o Brasil este ano encontrar com os alunos. O Davi ajuda a conseguir alunos, a divulgar os cursos. O Tales é muçulmano e é o único que assume isso publicamente. É chefe de uma  tariqa  [confrarias esotéricas islâmicas, da corrente contemplativa e mística do Islã], tem duas mulheres e se mudou com elas para o Paraguai. O Luiz também faz parte da  tariqa , mas não diz publicamente. Na prática, todos vivem da marca Olavo de Carvalho e propagam a mesma filosofia. Eles nunca foram ligados em política, mas, de repente, viraram todos bolsonaristas. Pior! O Luiz fez campanha para o Bolsonaro nas redes sociais, mas nem foi votar. Depois das eleições, vi que ele estava com o título de eleitor cancelado por não ter ido votar. 


Você não permaneceu adepta da seita muçulmana. O que sabe dela? 


É difícil explicar. Trata-se de uma seita islâmica ligada ao sufismo. Entendem que todas as religiões, de alguma forma, se fundem para elevar a espiritualidade. Por isso, algumas  tariqas  recebem pessoas que não são muçulmanas, mas nem todas. Existem várias pelo mundo. Meu pai hoje tem essa fachada de católico tradicional, mas eu e meus irmãos não fomos sequer batizados na Igreja Católica e a única religião que meu pai fez a gente seguir foi o islamismo. As práticas são exercícios de respiração e muita oração em árabe, onde sacodem a cabeça para entrar em transe e ficam repetindo frases do Alcorão incessantemente, tudo sempre em árabe. Na nossa casa do bairro da Bela Vista, ele até montou uma sala especial apenas para essas orações. Era toda decorada com quadros com dizeres do Alcorão, tudo escrito em árabe. Eu nunca aprendi uma frase em árabe. Fui obrigada a me converter ao islamismo e, assim que deu, pulei fora daquilo e da convivência na mesma casa com meu pai. Foi meu meio de escapar da doutrinação religiosa.

Cleide Carvalho
No Época