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terça-feira, 9 de junho de 2020

Sobre o livro Paulo Freire e Edgar Morin Sobre Saberes, Paradigmas e Educação: um diálogo Epistemológico, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

     


  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Para jurista, sociólogo e filósofo português Boaventura de Sousa Santos, para escapar da armadilha dizimadora do capitalismo nortista, devemos enxergar o mundo com os olhos do Sul


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Ao inculcar, com agressividade, que não há alternativa a si e a seu modo de vida, capitalismo lança um desafio de morte. Escapar da armadilha requer recorrer às cosmovisões não-eurocêntricas
Por Boaventura de Souza Santos | Imagem: Antún Kojton, Cosmovisão dos tzeltales maias
Fonte do Texto: site Outras Palavras
Os seres humanos vivem dentro e fora da história. É isto o que os distingue dos animais não-humanos. Fazemos história na medida em que resistimos ao que a história faz de nós. Vivemos o que já foi vivido (o passado nunca passa ou desaparece) e o que ainda não foi vivido (o futuro é vivido como antecipação do que em realidade nunca será vivido por nós). Entre o presente e o futuro há um hiato ou um vazio sutil, que permite reinventar a vida, romper rotinas, deixar-se surpreender por novas possibilidades, afirmar, com a convicção do poeta José Régio, “não vou por aí”. O que irrompe é sempre uma interrupção. A vida é a constante recriação da vida. Doutro modo, estaríamos condenados ao Animal Farm de George Orwell, a viver no pântano de só poder pensar o que já foi pensado.
Neste sentido, podemos afirmar que a forma de capitalismo que hoje domina, vulgarmente designada por neoliberalismo, ao inculcar com crescente agressividade que não há alternativa ao capitalismo e ao modo de vida que ele impõe, configura uma proposta necrodependente, uma economia de morte, uma sociedade de morte, uma política de morte, uma convivência de morte, um vício de ver na morte dos outros a prova mais convincente de que estamos vivos.
Os danos que esta proposta está causando já são hoje evidentes. A imaginação e a criatividade que tornam possível a vida estão sendo sequestradas pelas forças necrodependentes. Apesar de tudo que o que existe na história ter um princípio e um fim, é já hoje difícil imaginar que o capitalismo, que teve um princípio, tenha fim. Se tal dificuldade se comprovar inultrapassável, teremos desistido de sair da história para fazer história, teremos assinado os papéis para entrar na animal farm.
A dificuldade é ultrapassável, mas para tal é necessário des-pensar muito do que até agora foi pensado como sendo certo e perene, sobretudo no Norte Global (Europa e América do Norte). O primeiro des-pensamento consiste em aceitar que a compreensão do mundo é muito mais ampla e diversificada que a compreensão ocidental do mundo.
Entre os melhores teóricos do pensamento eurocêntrico da passagem do século XIX para o século XX houve sempre uma grande curiosidade pelo mundo extra-europeu – de Schopenhauer a Carl Jung, de Max Weber a Durkheim –, mas ela foi sempre orientada para compreender melhor a modernidade ocidental e para mostrar a sua superioridade. Não houve nunca o propósito de apreciar e valorizar nos seus próprios termos as concepções do mundo e da vida que se haviam desenvolvido fora do alcance do mundo eurocêntrico, e que dele divergiam.
Em total consonância com o momento culminante do imperialismo europeu (a Conferência de Berlim de 1884-85 repartiu a África pelas potências europeias), tudo o que não coincidia com a cosmovisão eurocêntrica dominante era considerado atrasado e perigoso e, consoante os casos, objeto de missionação, repressão, assimilação. A força desta ideia residiu sempre na ideia da força dos canhões e do comércio desigual que a impuseram.
No momento em que o mundo eurocêntrico dá evidentes sinais de exaustão intelectual e política, abre-se a oportunidade para apreciar a diversidade cultural, epistemológica e social do mundo e fazer dela um campo de aprendizagens que até agora foi bloqueado pelo preconceito colonial do Norte Global, o preconceito de, por ser mais desenvolvido, nada ter a aprender com o Sul Global.
O segundo des-pensamento é que essa diversidade é infinita e não pode ser captada por nenhuma teoria geral, por nenhum pensamento único global capaz de a cobrir adequadamente. São infinitos os saberes que circulam no mundo. A esmagadora maioria da população do mundo gere a sua vida quotidiana segundo preceitos e sabedorias que divergem do saber científico que reputamos ser o único válido e rigoroso. A ciência moderna é tanto mais preciosa quanto mais se dispuser a dialogar com outros conhecimentos. O seu potencial é tanto maior quanto mais consciente estiver dos seus limites.
Do reconhecimento desses limites e da disponibilidade para o diálogo emergem ecologias de saberes, constelações de conhecimentos que se articulam e enriquecem mutuamente para, a partir de uma maior justiça cognitiva (justiça entre saberes), permitir que se reconheça a existência e o valor de outros modos de conceber o mundo e a natureza e de organizar a vida que não se pautam pela lógica capitalista, colonialista e patriarcal que tem sustentado o pensamento eurocêntrico dominante. Não há justiça social global sem justiça cognitiva global. Só assim será possível criar a interrupção que permita imaginar e realizar novas possibilidades de vida coletiva, identificar alternativas reprimidas, descredibilizadas, invisibilizadas, que, em seu conjunto, representam um fatal desperdício de experiência.
Daí o terceiro des-pensamento: não precisamos de alternativas, precisamos de um pensamento alternativo de alternativas. Esse pensamento, ele próprio internamente plural, visa reconhecer e valorizar experiências que apontam para formas de vida e de convivência que, apesar de pouco familiares ou apenas embrionárias, configuram soluções para problemas que cada vez mais afligem a nossa vida coletiva, como, por exemplo, os problemas ambientais. Tais experiências constituem emergências e só um pensamento alternativo será capaz de, a partir delas, construir uma sociologia das emergências. Consideremos o seguinte exemplo.
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Na Nova Zelândia o rio Whanganui foi formalmente declarado uma entidade viva
A natureza como ser vivo digno
Em 15 de março deste ano o Parlamento da Nova Zelândia aprovou uma lei que confere personalidade jurídica e direitos humanos ao rio Whanganui, considerado pelos índios Maori um rio sagrado, um ser vivo que consideram ser seu antepassado. Ao fim de 140 anos de luta, os Maori conseguiram obter a proteção jurídica que procuravam: o rio deixa de ser um objeto de propriedade e de gestão para ser um sujeito de direitos em nome próprio que deve ser protegido como tal. À luz da concepção eurocêntrica de natureza, que assenta na filosofia de Descartes, esta solução jurídica é uma aberração. Um rio é um objeto natural e como tal não pode ser sujeito de direitos. Foi precisamente nestes termos que a oposição conservadora questionou o primeiro-ministro neozelandês. Se um rio não é um ser humano, não tem cabeça, nem tronco, nem pernas, como lhe atribuir direitos humanos e personalidade jurídica? A resposta do primeiro-ministro foi dada em forma de contra-pergunta. E uma empresa tem cabeça, tem tronco, tem pernas? Se não tem, como nos é tão fácil atribuir-lhe personalidade jurídica?
O que está perante nós é a emergência do reconhecimento jurídico de uma entidade a que subjaz uma concepção de natureza diferente da concepção cartesiana que a modernidade ocidental naturalizou como sendo a única concepção possível. Inicialmente, esta concepção estava longe de ser consensual. Basta recordar Espinosa, a sua distinção entre natura naturata e natura naturans e a sua teologia assente na ideia Deus sive natura (deus, ou seja, a natureza). A concepção espinosista tem afinidades de família com a concepção de natureza dos povos indígenas, não só na Oceânia como nas Américas. Estes últimos consideram a natureza como Pachamama, terra-mãe, e defendem que a natureza não nos pertence; nós é que pertencemos à natureza.
A concepção espinosista foi suprimida porque só a concepção cartesiana permitia conceber a natureza como um recurso natural, transformá-la num objeto incondicionalmente disponível à exploração dos humanos. Afinal era esta uma das grandes razões, senão a maior razão, da expansão colonial e a melhor justificação para a apropriação não negociada e violenta das riquezas do Novo Mundo. E para que a apropriação e a violência fossem plenas, os próprios povos indígenas foram considerados parte da natureza. Foi precisa uma encíclica papal (Sublimis Deus, do Papa Paulo III em 1537) para garantir que os índios tinham alma, uma garantia menos generosa do que pode parecer, uma vez que se destinava a justificar a evangelização (se os índios não tivessem alma, como pretender salvá-los?).
A novidade jurídica vinda da Nova Zelândia tem precedentes. A Constituição do Equador de 2008 estabelece no artigo 71 que a natureza, concebida como terra-mãe, é um sujeito de direitos. E uma semana depois da promulgação da lei neozelandesa, o tribunal supremo do Estado de Uttarakhand da Índia decidiu que os rios Ganges e seu afluente Yamuna eram “entidades humanas vivas”. Se levadas à prática, estas decisões estão longe de ser triviais. Significam, por exemplo, que as empresas que contaminam um rio cometem um ilícito criminal e a indenização a que ficam obrigadas será imensamente superior às que hoje pagam – quando pagam. Já em 1944, Karl Polanyi lembrava na sua obra-mestra, A Grande Transformação, que se as empresas capitalistas tivessem de indenizar adequadamente todos os danos que causam aos seres humanos e à natureza deixariam de ser rentáveis.
Estas inovações jurídicas não surgem de concessões generosas das classes dominantes e elites eurocêntricas. São o culminar de processos de luta de longa duração, lutas de resistência contra a exploração capitalista e colonial, imposta como imperativo de modelos de desenvolvimento que, previsivelmente, só beneficiaram os exploradores. O seu carácter de emergências reside no fato de serem aflorações de uma outra relação entre humanos e natureza que pode ser potencialmente decisiva para resolver os graves problemas ambientais com que nos defrontamos. São emergências porque não servem apenas os interesses dos grupos sociais que as promovem, mas antes os interesses globais da população mundial junto com o aquecimento global e as dramáticas consequências que daí advêm. Para lhes dar o crédito que merecem, não podemos nos apoiar no pensamento eurocêntrico hegemônico. Precisamos de um pensamento alternativo de alternativas, a que venho chamando epistemologias do sul.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Luis Fernando Veríssimo sobre as duas asas do homem: a razão e a busca sensível de sentido... A caminhada para uma nova unidade...



Segundo o crítico George Steiner, os filósofos ocidentais poderiam ser divididos em dois times: os que, como Platão, Descartes, Spinoza, Pascal e Wittgenstein, entre outros, usaram a matemática como referência para entender o mundo e deram mais valor a códigos e padrões do que ao discurso e à especulação, e os que, como Aquinas, Hegel, Nietzsche, Heidegger e Sartre foram fundo nas motivações humanas e preferiram a História e suas surpresas às equações e suas certezas. No fim o que os diferenciava era o modo de encarar o tempo.

Havia o tempo mensurável do matemático sem o qual a ciência e a tecnologia seriam impossíveis, e o tempo como “durée”, ou duração, experimentada por seres em constante devir. O passado e o futuro articulados pela memória e pela imaginação, de maneiras que a ciência não explicava. A literatura contra o cronômetro, o mistério contra a lógica. Os filósofos “matemáticos” não representavam a razão sem alma assim como os outros não partiam, necessariamente, de premissas metafísicas (não se imagina Sartre começando por Deus) mas a oposição ciência/religião era parecida com a oposição cronômetro/literatura.

Todas as grandes religiões são construções literárias, narrativas episódicas e histórias de homens santos ou a caminho da santidade, e seu devir no mundo. Já a ciência lida com reincidências, com fenômenos sem história e sem desenlaces, com o que é e não com o que acontece. Mas isto mudou com o surgimento da teoria e das subsequentes experiências com a mecânica quântica, quando a ciência subitamente, fascinantemente, adquiriu características literárias.

Descobriu-se que há partículas subatômicas imprevisíveis como heróis picarescos e temperamentais como divas. O mundo natural, ai de nós, também tem sua retórica e suas ironias e também pode ser uma narrativa rumo a uma epifania ou mais. Na guerra ciência x religião, a ciência — quem diria — dá armas e argumentos para a religião, com a revelação do comportamento nada matemático, ou lógico, de partículas em constante devir. Impossíveis de serem cronometradas.

Uma das revelações mais intrigantes da mecânica quântica é a de que quando uma partícula subatômica é dividida e vai cada metade para um lado, o que acontece com uma metade afeta a outra, mesmo que estejam a grande distância uma da outra. Neste caso, a ciência apenas chegou onde a literatura já tinha estado, com histórias de gêmeos com a mesma sincronia a distância. Ponto para o mistério.

Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Muito além do saber cartesiano





De que forma novas concepções filosóficas estão questionando o que imaginávamos sobre “aquisição” de conhecimentos. Como elas podem transformar a Educação e a Universidade


Werner Heisenberg, físico teórico alemão que desenvolveu, a partir de suas próprias descobertas, o Princípio da Incerteza. Examiná-lo pode ser essencial para enfrentar, de maneira propositiva,  a crise do ensino
Werner Heisenberg, físico teórico alemão que desenvolveu, a partir de suas próprias descobertas, o Princípio da Incerteza. Examiná-lo pode ser essencial para enfrentar, de maneira propositiva, a crise do ensino

De que forma novas concepções filosóficas estão questionando o que imaginávamos sobre “aquisição” de conhecimentos. Como elas podem transformar a Educação e a Universidade
Por Alex Bretas Vasconcelos - extraído do Outras Palavras
Imagine um círculo que contém todo o conhecimento humano:
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Quando você completa o ensino básico, você sabe um pouco:
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Quando você completa o ensino médio, sabe um pouquinho mais:
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Com uma graduação, você sabe um pouco mais e ganha uma especialização:
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Um mestrado te aprofunda naquela especialização:
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Ler e estudar teses te leva cada vez mais em direção ao limite do conhecimento humano naquela área:
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Quando chega lá, você se foca:
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Você tenta ultrapassar os limites por alguns anos:
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Até que um dia os limites cedem:
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Este pequeno calombinho de conhecimento que ultrapassou os limites é chamado de doutorado
(Ph.D.):
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É claro que na sua visão de mundo fica diferente:
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Mas não esqueça da dimensão das coisas:
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Fonte: “The Illustrated Guide to a Ph.D”, de Matt Might.
Esta é a forma que Matt Might, professor da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, encontrou para explicar didática e visualmente o que é um doutorado. Inspirado pelo modelo de Matt, também busquei um jeito de comunicar minha visão a respeito do doutorado informal, da qual falarei no próximo post. Antes de apresentá-la, porém, vale destacar quatro questionamentos que tive enquanto lia a explicação de Matt. Vamos a eles:
Só se aprende na escola ou na universidade?
A sequência de gráficos tende a uniformizar os caminhos de aprendizagem, admitindo implicitamente que somente se adquire conhecimento quem segue o trajeto ensino básico  —  ensino médio  — graduação —  mestrado  — doutorado. Não é porque essa via conteudista ainda seja mais valorizada hoje que outros aprenderes deixem de ter importância.
O caso do mecânico mineiro Alfredo Moser, que inventou as lâmpadas engarrafadas que iluminam a partir da luz do sol, exemplifica quão fundamental é estar atento para as aprendizagens da vida. A partir da necessidade  — a invenção foi feita durante os apagões de 2002 –, Alfredo criou uma forma de se obter luz que não depende da energia elétrica e utiliza apenas água, um pouco de cloro e garrafas pet. Hoje, suas lâmpadas bioeficientes já estão instaladas nas casas de centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo.
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Alfredo Moser e suas lâmpadas de garrafa pet
Somando-se à questão inicial, trago outra pergunta, mais polêmica:
Alguém que fez doutorado tem, necessariamente, mais conhecimentos do que aquela pessoa que não completou o ensino fundamental?
Cada um de nós responderá de acordo com suas crenças e interpretações. Eu acredito que não: isso porque não vejo o conhecimento acadêmico ou científico como superior a nenhuma outra forma de se conhecer. Paul Feyerabend já denunciava o privilégio que a ciência adquiriu historicamente frente a outros campos por um suposto método científico padrão e infalível. Sinceramente, não é porque eu frequentei mais tempo escolas e universidades do que Alfredo Moser que sou mais conhecedor do mundo do que ele  — isso é uma daquelas verdades que às vezes aceitamos sem questionar.
Aliás, a própria construção dessa pergunta já encerra uma crença de que é possível quantificar o aprender, isto é, alguém “ter mais” conhecimentos do que outro. Como se fosse uma competição (infelizmente, muitas vezes ainda é). Falaremos disso mais à frente.
Os conhecimentos humanos existem antes que as pessoas interajam com eles?
A explicação de Matt pressupõe que o conhecimento já existe, e o que as pessoas podem fazer é adquiri-lo e acumulá-lo por meio de sucessivas incursões escolares. A visão de mundo por trás desse raciocínio é o realismo — isto é, há uma realidade objetiva (imutável) e cada um de nós abocanha o que consegue por meio de suas ferramentas cognitivas.
Essa visão ainda é bastante cara a vários nichos da comunidade científica, mas já foi discutida e relativizada exaustivamente pela filosofia. No campo das ciências, alguns físicos quânticos e biólogos (para citar alguns, dentre psicólogos, cientistas sociais e vários outros) começaram a cutucar essa ideia porque suas pesquisas apontavam para evidências incongruentes com o paradigma da qual ela se origina. O princípio da incerteza de Heisenberg, na primeira metade do século XX, e mais recentemente a Biologia do Conhecer de Humberto Maturana são exemplos de achados científicos que sedimentaram o caminho para que alguns cientistas começassem a questionar o materialismo. Em seu lugar, vem à tona a intersubjetividade.
Desta forma, os conhecimentos humanos — tecnologias, métodos, saberes, teorias, invenções e tantos outros  —  passam a existir porque nós nos relacionamos com eles. Mais precisamente, nós os cocriamos continuamente por meio da linguagem. Interagimos com o mundo, com os outros e conosco e a nossa realidade vai surgindo assim, de uma forma diferente para cada pessoa e para cada ser vivo.
É por isso que pressupor uma grande soma de conhecimentos a priori, acessível de modo igual a todos que frequentam determinadas instituições é inconsistente com uma visão de realidade intersubjetiva. Meu aprender vai sendo sempre diferente e único, não dá pra achar que é indústria.
Apenas os doutores podem somar novos conhecimentos à humanidade?
Vejamos: só quem chega no “topo” da escalada do conhecimento humano pode agregar novos desdobramentos a ele. Não coincidentemente, esses alguéns são os doutores.
Já vimos porque não se aprende somente na escola ou na universidade e porque não faz sentido, segundo uma visão mais relativizada de mundo, pressupor que os conhecimentos estão dados e existem a despeito de um sujeito que se relaciona com eles. Agora, para responder a esse novo questionamento, gostaria de propor algumas reflexões.
Se a construção do conhecimento não é objetiva e o aprender é com a vida, então todos nós, sujeitos plenamente capazes de interagir com o mundo (cada um à sua maneira) podemos sim fazer descobertas, criar inovações e sustentar novas perspectivas. Pessoas fazem isso o tempo todo e os aprendizados que elas fazem florescer são decisivos para diversas comunidades ao redor do globo, não apenas para a comunidade científica. O exemplo que citei de Alfredo Moser e sua invenção da luz engarrafada ilustra perfeitamente isso.
Cada vez mais, acredito que a humanidade se interessará e precisará de inovações que surjam da cocriação, que atravessem as relações hierárquicas das instituições acadêmicas e escolares e que bebam da aprendizagem intersubjetiva de cada um.
Por outro lado, você poderia me dizer que a sequência de imagens de Matt está se referindo apenas ao campo científico, pelo fato do objeto em questão ser o doutorado acadêmico. Isso invalidaria, de certa forma, o que eu acabei de argumentar. Ainda que, especificamente no domínio da ciência, a regra do doutor como proponente oficial da inovação possa valer, penso que também a comunidade científica poderia ser muito beneficiada caso isso fosse revisto.
Estudantes de graduação e mestrado – e não raro também os doutorandos  — passam anos acreditando não poder criar coisas novas. Como seria a universidade se, desde o primeiro momento de cada estudante, o ambiente estimulasse radicalmente a descoberta e a inovação? Certamente haveria mais erros, e isso seria ótimo, inclusive para o progresso da ciência.
 Todos nós “adquirimos” conhecimento da mesma forma?
Suponha que a sequência explicativa de Matt represente a minha própria trajetória educacional. Uma outra pessoa, ainda que tenha passado pelas mesmas instituições de ensino que eu, teria seu “gráfico de conhecimentos” muito diferente do meu. Na verdade, isso aconteceria mesmo se fôssemos gêmeos idênticos, porque a maneira com que cada um de nós percebe, conhece e se relaciona com o mundo é singular. Pressupor que pessoas diferentes têm o mesmo “nível” de conhecimento ao terminarem o ensino médio, por exemplo, é querer quantificar o que é eminentemente qualitativo e, além disso, desconsiderar as relações distintas que cada um estabelece com os conteúdos e com a vida. A rigidez e a uniformidade que boa parte das escolas e universidades nos impõe tenta nos fazer acreditar que nossas aprendizagens deveriam ser as mesmas… Mesmo assim, no fundo sabemos que não funcionamos assim.
A própria ideia que criamos, de “aquisição” de conhecimentos, como se fossem produtos industrializados que pegamos na prateleira do supermercado, é uma imagem que deriva de uma compreensão estática e objetiva da realidade. O conhecimento não está lá para pegarmos, ele é construído biológica e culturalmente por nós, numa lógica muito mais “toque do chef” do que comida manufaturada. Somos como grandes chefs de cozinha que conseguem transformar simples ingredientes em pratos saborosos e incomparáveis: ao interagirmos com a realidade, produzimos percepções únicas sobre o que distinguimos, isto é, conhecimento.
Pode parecer que eu não gostei do modelo que Matt criou, mas isso não é verdade. A parte final da narrativa é especialmente interessante, pois propõe aos doutores “descerem do salto” e perceberem o tamanho do conteúdo das suas teses em relação a todo o conhecimento existente no mundo. Além disso, partindo de uma proposta calcada no diálogo, não me cabe desqualificar um ponto de vista, tampouco achar que a minha visão é melhor. Mas, cabe sim eu poder expressá-la.
Em suma: a sequência de figuras diz o que é um doutorado, mas é importante dizer segundo quem. Minha visão de mundo vai mais na linha “toque do chef”.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Visão de mundo, paradigmas e comportamento humano





texto de

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

(Escrito em 1998)



   Uma palavra que vem sendo muito utilizada - e infelizmente, várias vezes, muito mal utilizada, até mesmo para justificar as mazelas do mecanicismo - com o fim de discernir a sutil mudança da sociedade a partir de uma nova maneira e/ou de novos insights compreensivos sobre a forma de se compreender o mundo é a palavra paradigma na frase já meio banalizada, mudança de paradigmas, ou seja, a mudança de um conjunto de idéias básicas generalizadas e compartilhadas sobre a maneira de funcionar do mundo para novas possibilidades de entendimento do real, mudando-se ou ampliando-se o entendimento convencional do real. Esta palavra foi popularizada pelo físico Thomas Kuhn em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, publicado em 1962.

       A palavra paradigma significa, portanto, um modelo ou um conjunto das formas básicas e dominantes do modo de se compreender o mundo e o modo de uma sociedade ou mesmo de uma civilização - do modo de se perceber, pensar, acreditar, avaliar, comentar e agir de acordo com uma visão particular de mundo, numa descrição mais aceita, culturalmente repassada pela educação, do que seja a nossa realidade, numa bem sucedida maneira de ver, se ver, nos vermos o/ou o mundo e que é culturalmente transmitida às novas gerações.

   Atualmente, vivemos numa era onde o triunfo capitalista estabelece algumas idéias como sendo "naturais" tais como a competitividade, a eficácia tecnológica e que o acúmulo de conhecimentos técnicos tão amplamente cultivados e incentivados, dentro do contexto de uma sociedade industrial e tecnicista qual a nossa, é o processo comum de se atingir o progresso geral, e onde as únicas avaliações válidas são as dos balanços contábeis sobre mercadorias, pouco ou nada se importando com o desenvolvimento humano ou com a preservação da natureza, a não ser se esta lhe trouxer lucros imediatos. 

    Assim,  valores mais humanos, como irmandade,  cooperação, comunidade, união e partilha de bens e informações soam estranhas, ultrapassadas ou sem um sentido de mercado utilitarista/pragmático dentro deste universo de entendimento/comportamento competitivo atual. A"mentalidade" dominante aceita leva a um comportamento compatível com a mesma, por isso podemos dizer que a época atual é a época do individualismo parcial levado ao mais alto grau, pois assim são, também, as empresas e instituições privadas, detentoras dos meios de produção e do processo de formação e distribuição de riquezas, ao mesmo tempo que da impessoalidade provinda da cultura e consumo de massas ligadas à indústria de produção em série e ao mercado financeiro e, por isso, as detentoras do acesso, ou não, da população ao mercado de trabalho. Como detêm o dinheiro e, conseqüentemente, o PODER econômico e político, estes não se cansam de gritar aos quatro ventos (com a conivência da mídia comercial) o capitalismo é o estado natural da humanidade. Em se existindo pessoas, grupos e organizações não governamentais que se preocupam com o homem, eles dão de ombros, pois a única coisa que realmente lhes é significativa é o máximo lucro obtido no menor prazo de tempo possível. 

  O homem, neste contexto paradigmático, só tem significado como produtor ou consumidor anônimo ( preferencialmente, mais como consumidor) de mercadorias, tendo, ele próprio, se transformado em mercadoria no que se refere à questão do trabalho assalariado, ou como apêndice da máquina. De qualquer modo, a mercadoria, como objeto de venda e de lucro, tem primazia sobre o homem, pois este além de "dar trabalho", é mais indócil que a mercadoria, que não se pode queixar da alienação, infelicidade e desajuste social. Aliás, quanto menos "homens" em uma fábrica, maiores os lucros.  O mais grave, porém, é que esta visão mecanicista e mercadológica de mundo é imposta constantemente pelos meios de comunicação, e, como uma sutil lavagem cerebral, vai sendo incorporada ao psiquismo coletivo, sem grandes questionamentos.


     Lewis Munford observa que "Cada transformação do homem... apóia-se numa nova base ideológica e metafísica (= visão de mundo); ou melhor, sobre as comoções e intuições mais profundas, cuja expressão racionalizada assume a forma de uma teoria ou visão de cosmos, homem e natureza" (cit. in Harman, 1989). 

    Cada sociedade existente ou que já existiu tinha por base - o que lhe dá ou davam suas características próprias - alguns pressupostos  comuns, compartilhados a toda a sua população, ou à uma parcela significativa dela, na forma de um conjunto de premissas básicas que dão identidade à uma forma de ser no mundo. Estas pressuposições básicas são formadoras do pensamento coletivo e constituem um conjunto de referenciais teóricos (ainda que tacitamente vigentes) e que estabelecem em linhas gerais quem somos, em que tipo de universo estamos, e o que é importante ou não pa nós (ou que pensamos ser para nós). Muitas destas pressuposições são visíveis na constituição de instituições e costumes culturais (por exemplo, na divisão tripartite dos poderes no Estado moderno, elaboração e criação feitas pelo Iluminismo), padrões de pensamento e sistemas de valores vigentes na sociedade, e são tão aceitas, como lugar comum, que são ensinadas de modo indireto pelo contexto social em que se vive, ou/e tão assimiladas e introjetadas que passam a ser encaradas (caso se pensam nelas), como o óbvio (por exemplo, a competitividade das pessoas refletindo a das empresas que, por sua vez, refletem a "natural" competitividade animal - que realmente tem bem pouco da feroz competitividade refletida do homem,etc) e dificilmente são questionados.


     Mas, dentro de nossa época mecanicista e altamente neurótica, que tipo de evidência há que nos mostre que isso, esse império ideológico, está a se transformar? Bem, para podermos indicar estes indícios ( uma pessoa do século XVII também não tinha muita consciência da revolução científica que estava se processando em seus dias ) teremos que nos ater ao modo como a ciência tem formulado a atual visão de mundo, visão mecânica e pragmática, bem evidenciada, enquanto crítica social, no filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin...


     Em todo o processo de desenvolvimento humano, nossos atos sempre seguem em harmonia com um entendimento ou concepção de mundo, já o dissemos. Igualmente, por ser formada por homens, a ciência, em todas as suas fases de desenvolvimento, nos mostra que a teoria e a prática científicas são baseadas em uma visão de mundo implícita, em especial na dos econômicos setores que financiam a pesquisa científica. Ou seja, tanto o homem/mulher comum quanto o cientista - que também é um homem/mulher comum com um treinamento mais aprofundado em certas técnicas de pesquisa, procuram explicar os fenômenos que lhes interessam dentro de um conjunto de pressupostos mais ou menos conscientes, que são as linhas lógicas que estabelecem o vínculo do raciocínio. A diferença entre o homem comum e o cientistas está em que este último geralmente adota - e isto é ainda mais real na ciência moderna - um conjunto de pressupostos que o fazem explicar os fenômenos de uma maneira apropriada a certos critérios aceitos como sendo científicos, critérios estes que em muitas ciências apresentam um aspecto reducionista, ou seja, explicado a partir da redução de fenômenos complexos a certos elementos ou acontecimentos elementares. O sucesso e o poder deste método é o que estabelece que o que é "verdadeiro" é o que pode ser enquadrado no critério da medição, da mensuração e das relações numéricas, garantido a tal da objetividade científica, ou seja, de fatos constatáveis por todos (ou quase todos, já que o formalismo matemático há muito que se transformou numa linguagem esotérica, acessível a uma minoria de iniciados ), sendo as impressões psicológicas e emocionais elementos subjetivos que devem ficar longe do domínio do cientificismo - crença irracional e fanática na "verdade" e no "poder" da ciência - a nova "religião" dominante, mesmo não sendo necessariamente a melhor...


     Esta tendência matemática e reducionista da ciência teve inúmeras repercussões e trouxe, sem dúvida alguma, seus frutos úteis, principalmente por distinguir as explicações objetivas de interpretações simplórias como as dos caprichos de deuses, demônios e outras entidades fantásticas, ou de interpretações equivocadas, como os postulados da física de Aristóteles, ou a visão de universo de Ptolomeu, por exemplo. Porém, como todo conhecimento humano, está vinculada a uma época, é fruto de um momento histórico e possui suas limitações, tanto que teorias - por mais bem sucedidas que sejam em dado momento - são sempre substituídas por outras, ainda melhores.


     Nunca é demais falar do impacto deste paradigma dito "científico" nas chamadas ciências humanas. Por exemplo, em Psicologia e Neurologia, até fins dos anos 50, a principal característica básica das ciências do comportamento estava na ênfase em que somente atitudes e estímulos mensuráveis poderiam ser pesquisados seriamente; daí a forte influência do Behaviorismo na América capitalista, tendo moldado várias gerações de psicólogos. Nestes termos, o domínio da experiência psicológica subjetiva só poderia ser considerado se fosse redutível à análise e medida do comportamento observável, dentro dos critérios de estímulo e resposta. Enfoques que tentavam a tratar da percepção e da consciência, como a das escolas da Gestalt , fenomenologia e outras, eram desprezadas, e só a muito custo - devido ao poder político dos médicos - a psicanálise pôde fincar raízes nos meios acadêmicos da América. Cientistas comportamentais (behavioristas) se mostraram altamente contagiados pela obsessão de fazer de sua ciência uma "física humana" ao proclamarem que uma psicologia só seria confiável se fosse erguida sobre sobre os critérios de estímulos e respostas, como as forças de ação e reação da dinâmica newtoniana, e que era pura fantasia tentar erguer uma ciência calcada em relatos individuais de experiências subjetivas internas. (Harman, 1989; Capra, 1986; Grof, 1988). 

    A sociologia, ciência que teve  seu nascimento formal em meados do século XIX, se desenvolveu justamente no rastro da racionalidade  cada vez mais materialista das ciências naturais e físicas [pré-Einsteiniana e pré-física-quântica] e de seu método cartesiano, já obtido o amplo reconhecimento da academia como de extrema eficácia para se atingir uma "verdadeira" compreensão da natureza, e, portanto, apta a substituir as cristalizadas e enferrujadas religiões dogmáticas para explicação da origem e funcionamento do mundo. 

  A possibilidade de descobrir todas as leis naturais do mundo, seguindo o exemplo bem sucedido as leis do movimento de Newton, por meio de procedimentos de experimentação, dedução e indução, por terem sido bem sucedidos na biologia e na medicina (embora em parte), havia estimulado uma euforia racionalista e acabando por adquirir  "parte da sacralidade que antes pertencia às explicações religiosas: a de descobrir e apontar aos homens o caminho em direção à verdade. A ciência já não parecia uma forma particular e especializada de saber, mas a única cazpaz de explicar a vida, abolir e suplantar as crenças religiosas e até mesmo as discussões éticas. Supunha-se que, utilizando-se adequadamente os métodos de investigação, a verdade se descortinaria diante dos cientistas - os novos 'magos'  da civilização -, quaisquer que fossem suas opiniões pessoais, seus valore éticos sobre o bem e o mal, o certo e o errado " (CRISTINA COSTA, Sociologia, p. 41 Ed. Moderna, 1999).

    Assim sendo, a ciência têm estimulado e influenciado uma visão de mundo em que tudo o que existe existe de forma fortuita e se relaciona com as demais coisas de uma maneira mecânica, previsível, controlável e mensurável.  A mesma maneira pela qual deve seguir e agir o mercado financeiro que junto com a indústria financiava e promovia o desenvolvimento da ciência e da tecnologia...


      O sucesso desta abordagem em psicologia sempre causou algum incômodo em todos, até mesmo entre os behavioristas, e atingiu muitas pessoas. O romance de Anthony Bourrughs, A Laranja Mecânica, posteriormente transformado em um filme de sucesso dirigido por Stanley Kubrick, fez uma ácida crítica ao pensamento mecanicista behaviorista, que teve seu maior teórico em B. F. Skinner. Afinal, se a consciência não existia senão como um epifenômeno biológico, como dar valor a única realidade experiencial direta que temos que é a nossa percepção consciente??? É algo muito estranho, anti-natural mesmo, que a ciência queira repudiar a consciência como "uma realidade causal", quando temos a profunda convicção e certeza de que é o nosso querer, junto com a nossa reflexão íntima, em suma, nossa consciência que nos faz agir sobre o mundo e decidir nossas ações.


      E se a mente não existe a não ser como subproduto da atividade cerebral assim como a urina é um subproduto dos rins, que tipo de conseqüências isso traz com respeito aos valores e ao livre-arbítrio humano? A mente existe ou não existe? O que é que, dentro do cientista, compreende, escolhe, aprende, "intui" e explica? Segundo a ciência mecanicista, as maravilhas do pensar humano nada mais são que frutos da complexidade de um cérebro que se desenvolveu de modo casual e acidentalmente através de longos milhões de anos de evolução cega, submetido a um tipo de "seleção natural" igualmente mecânico. Guardando as proporções, isso é o mesmo que dizer que um satélite espacial de telecomunicações pode muito bem surgir da explosão de uma mina de ferro e de silício. Sendo assim, tanto o pensar racional humano, quanto os instintos dos animais, bem como o desenvolvimento de sistemas fisiológicos altamente complexos e inimitáveis, como os olhos, nada mais seriam que fortuitas combinações de átomos que deram certo ao longo de uma evolução sem objetivo algum além do de se combinar elementos bioquímicos de acordo com as leis da natureza juntamente com a mágica da seleção natural.


      Mesmo que algo nesta concepção de realidade (advinda de uma visão de mundo onde toda a natureza e as criaturas que a habitam não passam de máquinas biológicas, masmáquinas assim mesmo) nos deixe meio que desconfiados de que algo de importante está sendo deixado de lado, ela foi amplamente aceita e, por sua força e influência, rejeitou todas as inúmeras evidências de que esta explicação, na verdade, explica muito pouco e mal a realidade em si. Aliás, foi este tipo de visão de mundo que veio a desacreditar muitos dos valores humanos e humanistas, incluindo os de igualdade e fraternidade, lema de todas as revoluções. Além disso, existiam certos acontecimentos e fenômenos que não se encaixam de modo algum dentro desta visão de mundo mecanicista global e constituem-se em verdadeiras anomalias desta abordagem. Através dos séculos, das culturas, das modas e dos acontecimentos, fala-se sempre de um tipo específico de fenômenos psicológicos que escapam gritantemente da abordagem mecanicista da ciência, entre eles a telepatia, a intuição, a vidência à distância e muitos outros, confirmados por pesquisadores sérios e célebres (Jung, 1987;Grof, 1988; Weil, 1986; Fadiman & Frager, 1986). 

  A ciência convencional ofereceu um grande número de explicações possíveis e prováveis, algumas delas tão complexas quanto realmente fantasiosas, na tentativa de demonstrar que, por não estarem de acordo com o paradigma vigente, estes acontecimentos não passam, na melhor das hipóteses, de equívocos. Vários cientistas de grande competência se alistaram de ambos os lados, dos que acreditam na veracidade dos fatos transpessoais, e dos que os negam. De qualquer forma, cresceu muito os que engrossam a filas dos primeiros nos últimos trinta anos (Walsh & Vaughan, 1992).


      O que mais irrita nestes ditos "fenômenos anômalos" aos cientistas mecanicistas é o fato de que eles parecem confirmar que a mente, esse ser fictício, pode agir diretamente sobre os meios físicos. Só que eles se esquecem de que é isso mesmo que ela faz o tempo todo, em nossas vidas. É a minha decisão mental de andar que me leva daqui para ali, e são minhas atitudes mentais frente à vida e às dificuldades externas que me levam a tomar atitudes, que criam ou atenuam nosso stress e que, em última análise, influenciam todo o meu organismo e meu comportamento, como vemos nas sessões de hipnose, biofeedbak, etc. A mente pode até mesmo causar doenças, como o câncer, como já está mais que suficientemente provado por inúmeras pesquisas, assim como pode levar a melhoras e a cura, como no tal efeito placebo. Seria muito irreal negar, como fazem os grandes cientistas mecanicistas, especialmente os behavioristas radicais, que a nossa mente não tem qualquer efeito sobre as nossas ações no mundo físico. Assim sendo, o posicionamento de vários cientistas de vanguarda, tais como Carl Jung, Roger Sperry, Fritjof Capra, Stanislav Grof e inúmeros e inúmeros outros ao enfantizar a realidade mental como uma realidade causal traz um impacto semelhante ao de Copérnico ao reformular os sistemas astronômicos no século XVI, dando início à revolução científica que teve nomes como Galileu, Descartes, Newton, LaPlace e tantos outros.


      Roger Sperry, prêmio Nobel de Medicina em 1981, escreveu um artigo para a Annual Review of Neuroscience, de 1981. Tradicionalmente, esse artigo deveria passar em revista as conquistas da abordagem biomédica na abordagem mecanicista da ciência, reforçando a visão de mundo reducionista convencional. Mas, ao contrário, Sperry tratou da área e da importância da experiência subjetiva, que, de certa forma, ainda era negilgenciada, e demonstrou o progresso em ciências biomédicas em termos do interesse de alguns pesquisadores no estudo da consciência:

    "Os conceitos atuais da relação mente-cérebro envolvem uma absoluta ruptura com as doutrinas materialistas e comportamentais, há muito instituídas, e que dominaram a neurociência por muitas décadas. Em vez de renunciar à consciência ou de ignorá-la, a nova interpretação confere pleno reconhecimento à primazia da percepção consciente interior como realidade causal".

      Como nos diz Willis Harman, "assim como a frase 'A Terra gira ao redor do Sol' converteu-se, de certa forma, na súmula inadequada da revolução copernicana, assim também tornou-se 'a consciência como realidade causal' a súmula da 'segunda revolução copernicana' (Harman, 1989). Mas, seguindo o pensamento de Harman, devemos lembrar, recordando-nos da insistência de Sigmund Freud, de que nossos processos mentais inconscientes também são processos causais, definindo muito de nossas crenças e comportamentos. Assim, precisamos estudar a amplidão destes elementos nas crenças inconscientes.

      Freud, Jung e outros teóricos têm constantemente demonstrado que todos nós temos uma série de crenças que nos faz - de modo automático - conceitualizar a nossa experiência, pessoal e coletiva. São crenças quanto à história, crenças quanto ao futuro, quanto ao que deve ser valorizado ou feito. Mas, o mais importante, é que algumas destas crenças são inconscientes.

      Freud demonstrou que as pessoas, sem se dar conta destas crenças inconscientes, as deixam transparecer por inferência de seu comportamento, por exemplo, no caso clássico dos lápsos de linguagem, ou dos atos compulsivos, dentre tantos outros. Um outro caso clássico, visível na psicoterapia e na educação, é a crença inconsciente na própria inferioridade ou incompetência, mesmo que, conscientemente, se diga o contrário. E, assim, estas pessoas acabam por promover ações e ocorrências que lhes indicam a sua incongruência íntima, usando a terminologia de Carl Rogers.

      Assim, embora tenhamos consciência de uma grande parcela de nossas crenças, as que estão fora de nossa percepção consciente nem por isso deixam de estar atuantes, influenciando nossos comportamentos. O grau de autonomia individual vai depeder do graude congruência psicologógica do indivíduo, tal como nos expressa Rogers. Não sabemos, realmente, do grau de crenças ou no que acreditamos inconscientemente, mas é muito provável que estas sejam de uma ordem ou qualidade bem diversas de nossas crenças conscientes (Freud, 1916; Grof, 1988; Harman, 1989).

          "O sistema total de crenças de uma pessoa consiste num conjunto de crenças e expectativas - expressas ou não, implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes - que ela aceita como verdadeiras com relação ao mundo em que vive.

          "Esse sistema de crenças não precisa ter consistência lógica; na verdade, provavelmente nunca a tenha. Pode ser dividido em compartimentos contendo crenças logicamente contraditórias que, de maneira típica, não assomam à percepção consciente nas mesmas ocasiões. Inconscientemente, a pessoa rechaça os sinais que possam revelar tal contradição interior. Observem que essa decisão de não se tornar conscientemente cônscio de algo é inconsciente. Nós optamos, como também acreditamos inconscientemente (...)

          A forma como percebemos a realidade é fortemente influenciada por crenças, adquiridas do meio, de forma inconsciente. Os fenômenos de recusa e de resistência na psicoterapia ilustram a intensidade com que tendemos a não ver coisas que ameaçam imagens profundamente enraizadas, conflitantes com crenças bastante conservadoras. Pesquisas sobre hipnose, auto-expectativa e expectativa por parte do pesquisador, autoritarismo e preconceito, percepção subliminar e atenção seletiva, demonstram reiteradamente que nossas percepções e 'verificações' da realidade são influenciadas. muito mais do que geralmente se acredita, por crenças, atitudes e outros processos mentais, sem o que grande parte desses processos é inconsciente. Percebemos que o que esperamos, o que nos foi sugerido que devêssemos preceber, o que 'precisamos' perceber - a tal ponto que poderíamos ficar chocadas se o percebêssemos conscientemente.

          "Essa influência de crenças sobre a percepção se intensifica quando um grande número de pessoas acredita na mesma coisa. Os antropólogos culturais documentaram em detalhe de que modo pessoas que crescem em culturas diferentes percebem com clareza realidades diferentes".

Willis Harman, 1994

      Os fenômenos da sugestão hipnótica nos mostram muito claramente, e de forma dramática, o quanto a mudança de crenças podem alterar a percepção e a sensação, até mesmo fazendo o sujeito "ver", "ouvir" e "sentir" um objeto ou pessoa que não está presente. Enfim, o nosso modo de "perceber", "sentir" e "experimentar" a realidade é altamente condicionado por nossas crenças arraigadas, principalmente as crenças paradigmáticas coletivas. Estas crenças, por sua vez, são afetadas positivamente pela maneira de atuar sobre a realidade, a partir de seus referenciais - que, claro, reforça as crenças e o paradigma. Se ocorre alguma "anomalia", sentimo-nos tão pouco à vontade, que relegamos o fato ao mundo do erro de experimentação, ilusão ou simplesmente são esquecidos.

      "Pois bem, cada um de nós, a partir da infância, está sujeito a uma complexa série de sugestões advindas do meio social que, com efeito, nos ensinam a perceber o mundo"(Harman, 1994). Por exemplo, todos nós sabemos como uma visão de mundo bastante tendenciosa é posta por meio da propaganda do atual governo Federal brasileiro, altamente incongruente com a realidade nacional. Da mesma forma, a sociedade e a cultura nos passam uma visão de mundo que, para ela, é o correto, mesmo que surjam o tempo todo fenômenos que lhe apontem as mazelas.

    De fato, vivemos hoje uma era de defesas e contradições altamente racionalizadas, na busca frenética pela justificação destas nossas mesmas contradições, tomando por base o sistema capitalista. Segundo Antônio Houaiss e Roberto Amaral, "os raciocínios fundadores de certas práticas, mais que teorias, de certa parte da imprensa internacional e da quase totalidade da boa imprensa terceiro-mundista, e, nela, conspicuamente, a brasileira, autoritariamente unânime, são uma ciranda de lógicas e paralógicas que assumem ares de filosofia da História e se fazem triunfalistas, condenando não apenas os erros do passado, mas - como se apresentam oniscientes - os erros presentes e os erros futuros: fora do capitalismo - com suas moralizações, o imperialismo (...), o transcapitalismo, o gerencialismo, o oligomonopolismo, o monopólio da mente, da técnica e da ciência, da formação e da informação... a Globalização econômica (sob os auspícios dos EUA, evidentemente), enfim - fora do capitalismo (repitamos) não há salvação, tanto (é óbvio) para os já salvos, quanto (é muito mais óbvio) para os salvandos, salaváveis e salvaturos: a estes, só se lhes pede compreensão, inteligência e paciência. Apenas mais dois, três seculozinhos, quem sabe?"(Houaiss & Amaral, 1997, adaptado).

      Um outro exemplo, o capitalismo, em sua guerra ao comunismo detrator dos direitos humanos, financiou um grande número de golpes militares na América Latina e Ásia, cujos horrores e torturas aos civis são indizíveis. Da mesma forma, a industria sofisticada - em seu mito de progresso material - tem sido um verdadeiro câncer ecológico, rompendo o bem-estar de inúmeras pessoas, povos e espécies, principalmente nos trópicos. Ou, então, impõem seu sistema de tratamento, por exemplo, da saúde, como prevenção a que doenças do Terceiro-Mundo não atinja os países do Primeiro Mundo, muito embora a Educação em Massa seja um aspecto negligenciado, taticamente, nos primeiros países, mas extremamente bem sucedida nos últimos. O mito do super-sábio médico alopata, o super sacerdote da saúde, financiado pelos cartéis da indústria farmacológica, tem feito mais de um profissional inflar seu orgulho, mesmo às custas de vidas humanas, etc. Mas estas experiências que são apontadoras de anomalias são, sempre, "corrigidas" para que, através de racionalismos, não sejam mais percebidas, graças ao poder do paradigma dominante... "E, sendo assim, cada um de nós é literalmente hipnotizado desde a infância para perceber o mundo da maneira pela qual as pessoas da nossa cultura o percebem" (Harman, 1984).

    Mais uma vez nos ensina os professores Antônio Houaiss e Roberto Amaral, como exemplo máximo dos papeis do paradigma cartesiano na economia e na política de nosso país: "O Brasil, segundo o BIRD (Banco Interamericano de Desenvolvimento), conquistou, em 1996, pelo segundo ano consecutivo, o troféu de campeão mundial de desigualdade social, disputado com Botswana, jovem país africano. De acordo com o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), do Ministério do Planejamento, os 50% dos brasileiros mais pobres detinham 11,6% da renda nacional. Em 1994, os mesmos 50% detinham 10,4% da renda nacional. Apesar da pequena melhora, a situação de 1995 é pior que em 1991, quando os 50% mais pobres detinham 13% da renda nacional. Também em 1995 os 20% mais ricos ficaram com 63,3% da renda nacional (...) (cf. "Brasil é campeão da desigualdade social", in Folha de São Paulo de 09.07.97) (Houaiss & Amaral, 1997, página 231).  

  Apesar desta gritante desigualdade (sem falar em inúmeras outras, como a da distribuição agrária, estúpida e opressora desde os descobrimento do Brasil), a mentalidade da maior parte da "elite" nacional concorda com a forma de administração do governo dentro dos padrões liberais ditados pelos países economicamente dominantes, pois o mote do Neoliberalismo implica em que tudo isso (a concentração de renda nas mãos de uma minoria) é normal dentro do que se chama do neodarwinismo econômico e político: "a disputa de mercado pelos países (e dentro de cada país pelos seus nacionais entre si) é um processo de seleção do mais forte, e por isso o capitalismo de hoje é o capitalismo de quem tem a melhor capacidade de sobreviver. A neossemântica não fala mais nem em lei da selva, nem em imperialismo: o discurso dominante varia entre 'modernidade' e 'globalização' (...)" (Houaiss & Amaral, 1997, página 232). No final, como bem colocam os ditos autores, o mundo foi reduzido a gráficos e contas de onde foi expulso, e se considera penetra indesejável, o ser humano. 

  Mais uma vez percebe-se o quanto os modelos científicos - que descrevem simbolicamente as principais características ou dimensões dos fenômenos que representam - moldam-se e se combinam no sentido de se transformarem em óculos que determinam a percepção e a filtragem do que aceitamos como realidade. No caso, a teoria biológica evolucionista de Darwin, com sua ênfase na sobrevivência do mais forte, cai como uma luva na justificação das contradições humanas do capitalismo, que, por sua vez, incentiva uma ciência sempre mais voltada para uma compreensão "darwinista" da natureza, ad infinitum, na aberração chamada Darwinsmo Social. Algo semelhante foi feito pelos nazistas a partir da genética, com base numa tal pseudo-superioridade da raça ariana...

    "(...) Os modelos, em especial quando implícitos, pressupostos ou não-questionados, vêm a funcionar como organizadores auto-realizáveis e autoproféticos da experiência, que modificam a percepção, sugerem áreas de pesquisa, dão formas à investigação  e determinam a interpretação dos dados e experiências. A natureza auto-realizadora e autoprofética desse processo indica que os modelos são autovalidadores. Isto é, os seus efeitos na percepção e na interpretação favorecem a sua própria validade, moldando a percepção de maneiras autoconsistentes. Em outras palavras, tudo o que percebemos tende a nos dizer que os nossos modelos e crenças são os corretos, em detrimento de outros, de outros pensadores e de outras culturas. O maior perigo desse efeito reside no fato de a sua operação ser quase toda inconsciente (...)" (Walsh & Vaughan, 1992, página 19).

      Mais de um antropólogo e outros cientistas sociais descrevem como algumas sociedades ditas primitivas usam de certos "poderes", que para o ocidente são impossíveis, de modo corriqueiro em suas vidas diárias, e que funcionam tanto quanto as terapias respeitadas convencionais do ocidente. Temos assim os xamãs, os médiuns, os curandeiros e muitos outros. É até interessante como um sistema não ocidental de cura e tratamento de doenças, como o chinês, tenha tido uma aceitação considerável entre os médicos ocidentais, já que ele se apóia num conceito de corpo-mente-energia que é desconhecido na alopatia ocidental, tendo apenas analogia com a homeopatia. E hoje, usando de seu poder político, os médicos brasileiros conseguiram que só eles possam usar a acupuntura...

      Outros fenômenos que antes eram considerado impossíveis, como o auto-controle das funções corporais como batimentos cardíacos, temperatura corporal e pressão sanguínea que são freqüentes entre os yoguis indianos, são agora reconhecidos como possíveis, através de experimentos técnicos de biofeedback.

          Estes vários exemplos ressaltam a dificuldade que temos em reconhecer o quanto a 'realidade' que percebemos é peculiar à nossa hipnose cultural. Tendemos a achar curioso o fato de que outras culturas 'tradicionais' ou 'primitivas' percebam a realidade de forma discrepante do ponto de vista global da ciência moderna. É muito penoso alimentar o pensamento de que nós, na moderna e tecnológica sociedade ocidental, podemos ter as nossas próprias peculiaridades culturais quanto ao modo de perceber o mundo, e de que nossa realidade possa ser tão intrinsecamente provinciana quanto a da Idade Média nos parece hoje. Uma vez que a ciência ocidental é o'melhor' sistema já concebido de saber, parece razoável que consideremos nossos valores 'normais', nossas preferências 'naturais' e o nosso mundo percebido e medido, como uma máquina sujeita ao homem técnico, o 'real " (Harman, 1994, com adaptações).

          Onde está os indícios de que nosso paradigma está se modificando? No reconhecimento das falhas de nossa visão de mundo e no ressurgir de uma concepção maisogânicaholísticaecológicatranspessoal e humana do homem na natureza. Na aceitação de que nossa visão de mundo não é a melhor. Que as outras, em sua diferença, têm muito a nos dizer e ensinar, inclusive sobre nós mesmo... de que o universo é muito mais sutil e complexo do que o que nos faz crer nossa "vã filosofia" científica, ou melhor, cientificista...

         É interessante notar o paradoxo entre algumas ciências humanas, ansiosas por fazerem de suas disciplinas campos mais científicos de acordo com os paradigmas da física clássica newtoniana, e a grande mudança de paradigma ocorrida na própra Física moderna, cada vez menos mecanicista e determinista.

        Desde a revolução conceptual ocorrida na década de vinte, com o desenvolvimento da Física Quântica, que está cada vez mais claro - pelo menos para muitos físicos célebres e importantes - que a ciência, através de seu desenvolvimento e descobertas, apresenta uma visão de mundo que é apenas um modelo, ou um mapa temporário, uma construção intelectual, parcial, da realidade, e que deve passar por inúmeros retoques, ou até mesmo ser completamente reformulado, através do tempo, à medida que novos insights e novas descobertas - muitas delas incompatíveis com a visão de mundo dominante - ganham terreno. Portanto, para muitos físicos, filósofos, psicólogos e antropólogos, bem como para ecologistas e outros estudiosos sistêmicos, não é surpreendente a descoberta de que um dado modelo é como uma janela que nos permite ver parte da realidade sem, contudo, apresentar uma adequada visão para toda a complexa realidade, que extrapola - e muito - a área de observação da janela-teoria aceita.

         O conceito de complementaridade, introduzido por Niels Bohr na Física, pode muito bem ter sido um dos pontos altos mais significativos da ciência nos últimos duzentos anos, levando a um processo de maturação em ciência cujas conseqüências ainda trarão gratas surpresas. Por este conceito, formas aparentemente contraditórias de se compreender uma fenômeno passam a ser aceitas como complementares, integrando o conhecimento que temos. O exemplo clássico é o do estudo dos fenômenos luminosos, onde modelos de descrição das características da luz - os modelos ondulatórios e de partículas - que, pelo paradigma clássico são incompatíveis - passam a ser ambos aceitos para a descrição de certos aspectos observáveis da luz. Da mesma forma, as ciências humanas bem que podem romper com os grilhões de sua obsessão mecanicista-mensurável para se lançar numa integração complementar de teorias que englobassem, como na física, sistemas complementares corpo-mente-consciência-ecologia.

         Sem tocarmos em inúmeros exemplos da Física, onde o paradigma mecanicista e reducionsta ruiu completamente, como vemos muito bem exemplificado na Teoria de Bell, e outras, basta por hora citar que o grande físico teórico David Bohm formulou uma teoria holística onde não podemos jamais entender a realidade em termos de campos ou partículas apenas; é necessário perceber o todo não fragmentado, as caraceterísticas do conjunto, não a análise sempre mais fragmentada das partes.

         Este entendimento da evolução perceptual na ciência modelo, a Física, pode nos liberar para vôos mais altos num sistema mais complexo que o da matéria inerte e mercantilizável, cujos valor extrapolou o domínio do paradigma científico e atingiu sistemas complexos, qual a da sociedade humana que, de tão fiel à visão reducionista da ciência clássica, acabou por se fragmentar e mecanizar ao extremo.

         Isso aponta para grandes paradoxos de nossa civilização, tal qual a corrida armamentista incontrolável, aumentando as possibilidades de uma catástrofe bélica, em nome da segurança nacional, mas, na verdade, em nome da hegemonia da atual única super-potência, ou a desigualdade da distribuição de riquezas, amparadas que são por gráficos extremamente belos em termos cartesianos, mas humanamente pífios. E neste desequilíbrio extremamente doloroso, desumano, cruel e cínico, as organizações políticas colocam em posição de destaque, como o ponto alto do desenvovimento social, as frias e calculistas instituições econômicas, voltadas para o dinheiro e sua multiplicação para o bem de uns poucos, em detrimento de instituições voltadas para o bem-estar humano, ecológico e global.

        Não existe nenhuma razão óbvia e/ou natural para que se acredite que a lógica matemática dos valores econômicos conduzam a cada vez mais sábias e humanas decisões sociais. E, em nome do crescimento econômico, a opinião pública deve ser amplamente moldada nos valores do capital. A frugalidade, o equilíbrio, antes consideradas virtudes e condição para a saúde mental individual e coletiva, é cada vez mais desencorajada diante de modelos de consumo e imagens de venda, pois a frugalidade é prejudicial à economia. Que importa o câncer? "Vá ao sucesso com o cigarro H..."

         À pergunta "por que tanto consumo?", a resposta racionalizada é "para escoar a produção", qualquer que seja ela, inclusive a armamentista. Os indicadores econômicos, como o PIB, são essencialmente padrões de aparência, mas que nos indicam que o crescimento estúpido de consumo está a exaurir de forma irreparável os recursos naturais, que deveriam ser patrimônio de toda a humanidade e não só desta, mas de futuras gerações e de outros seres vivos além dos humanos.

         É realmente saudável que num planeta com recursos naturais não renováveis e outros em cujo equilíbrio ecológico está sendo destruído, incentivar a velocidade de consumo, principalmente pela minoria dos países ricos? A resposta capitalista seria: "é bom para criar empregos e para dar poder de compra, e fazer a roda girar, fazendo tudo de novo" (adaptado de Harmann, 1989). Bom, mas sendo assim, será que estes empregos e esta visão estará devotada ao desenvolvimento do homem, do humanismo como um todo, ao embelezar as cidades, cuidar do meio ambiente, promover uma relação integrativa entre todos? "Não", reponde o capitalista, " estas coisas são consideradas desperdícios econômicos, não dão lucros, e são perigosas para o capitalismo. Deve-se produzir coisas que dêem dinheiro de forma rápida e faça o povo ficar acomodado. Assim, vamos lançar cada vez mais jogos de computador, que exijam o equipamento mais moderno para incentivar o consumo, casas pré-fabricadas para a uniformização dos gostos, e coisas assim. Além do mais, é necessário que o capital tenha o máximo controle de tudo, garantindo sua sobrevivência à longo prazo, e tenha em mãos os meios de propagar sua ideologia. Por isso é necessário a privatização de estatais e o controle da informação, principalmente através das mídias mais populares, como a televisão, que é um veículo comercial".

         A produção econômica, num círculo vicioso, onde se busca manter o máximo poder, é considerada a base primordial da relação social. Grande parte das profissões e cursos universitários mais bem aceitos implicam a inserção na máquina capitalista, mesmo que sejam cursos onde a pessoa aprende a manipular a vontade de outros, como Marketing e Publicidade. Além disso, à medida que a globalização ideológica econômica vem atingindo os limites do mundo, a racionalização dos lucros impõem um grau de automação tecnológica que visa a eliminar mão de obra, e, assim, os empregos...

         Mas nosso país têm homens ilustres, intelectuais, não têm? Vai ver que esse é exatamente o problema. Estes são pessoas que são ciosas de seu intelecto, que acredtiam ser mais do que são e pensam em termos de duas dimensões: só entendem os gráficos no papel. A forma artificial deles os levam a optar pelas decisões que apontem em crescimento dos gráficos cartesianos, que levem em conta o custo-benefício de instituições, bancos e empresas no tempo mais rápido possível para que eles mesmos tenham os louros do dinheiro, da fama e da vaidade. Tome-se o exemplo do imperador FHC.... E isso tudo não tem dado mais segurança, bem-estar social ou desenvolvimento da qualidade de vida, muito pelo contrário. Cada vez mais a população é forçada a agir e a doar suas forças, sonhos e anseios para que este sistema corrupto sobreviva e cresça.

         A única solução para tudo isso é mudarmos radicalmente nossos valores, e percebernos a força que há me nós, seres humanos, para mudarmos o quadro reducionista que o século XX, infernal e mecanicista, tem nos dado e feito acreditar como o único válido. Ou mudamos, ou deixamos de ser humanos para sermos tecnocratas, como o Darth Vader, o general negro do filme Guerra nas Estrelas....

    Bibliografia Sugerida e Links:
     
  • Capra, Fritjof: O Ponto de Mutação, Ed. Cultrix, São Paulo,1986.
  • Fadiman, J. & Frager, R. : Teorias da Personalidade, São Paulo, Harbra, 1986.
  • Freud, Sigmund: Cinco Lições de Psicanálise, Imago Editora, 1986.
  • Grof, Stanislav: Além do Cérebro, McGraw-Hill, 1988.
  • Harman, Willis: Global Mind Change, Institute of Noetic Scientes, 1989.
  • Harman, Willis: Uma Total Mudança de Mentalidade, Cultrix/Pensamento, São Paulo, 1994.
  • Houaiss, A. & Amaral, R.: Socialismo: Vida, Morte Ressurreição, Ed. Vozes, Petrópolos, 1997.
  • Jung, Carl: O Homem e Seus Símbolos. Ed. Nova Fronteira, 1977.
  • Walsh, R. N. & Vaughan, F.: Além do Ego. Ed. Cultrix/Pensamento, São Paulo, 1992.