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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Olavistas, generais e golpistas, por Aldo Fornazieri




O Congresso vem se mostrando covarde: terceiriza a tarefa de conter e de apertar Bolsonaro e o bolsonarismo golpista para o STF.
Jornal GGN:
Foto Geledés

Olavistas, generais e golpistas

por Aldo Fornazieri

Desde Sun Tzu, praticamente todos os estrategistas sustentam a tese de que conhecer o inimigo é condição fundamental para a vitória nas batalhas. Esta tese militar, em geral, vale também para as batalhas políticas. Quem estudou Maquiavel e Klausewitz, mas também Mao e Lênin, sabe que existe um intercâmbio entre as categorias da estratégia militar com as categorias da estratégia política. Daí que tanto a afirmação de que “a guerra é a continuidade da política por outros meios” é verdadeira, assim como a afirmação inversa, a de que “a política é a continuidade da guerra por outros meios”.
Todos os líderes prudentes são capazes de prever e de predizer os acontecimentos futuros. Para isso, uma das condições fundamentais consiste em saber ler as circunstâncias e as conjunturas, o que engloba também conhecer os inimigos. É esta capacidade que, em boa medida, as lideranças políticas de esquerda e de centro perderam, assim como os analistas da mídia. Por isso, é necessário fazer um esforço para destrinchar melhor o bolsonarismo.
O bolsonarismo se compõe de vários grupos e subgrupos. Não se trata aqui de fazer o inventário desses grupos, embora este seja um trabalho necessário. Indica-se apenas as linhas de força que influenciam o governo. A rigor, são três: os olavistas, os generais e os golpistas.
  1. Os olavistas. São os seguidores de Olavo de Carvalho, foram alunos dos seus cursos e rezam pela sua cartilha. Os olavistas se definem como liberais-conservadores, o que, resumidamente, significa as seguintes coisas: conservadorismo nos valores, liberdade radical na economia (neoliberalismo) e liberdade política com referência ao ultraliberalismo individualista norte-americano e uma forte referência à Quinta Emenda. Daí a liberdade de criticar, ofender, de se armar etc..
Existe uma questão mais de fundo no olavismo, que o vincula à chamada nova direita. Questão que vem sendo formulada desde a década de 1980, nos Estados Unidos. Trata-se da ideia de que o Ocidente está em declínio e de que a China vai se tornar a maior potência do século XXI. A nova direita definiu uma estratégia para enfrentar o declínio do Ocidente e o avanço da China: contra a globalização, valorização do nacionalismo, dos valores conservadores da família, da propriedade, do individualismo e de Deus. Bolsonaro segue esta cartilha e esta cartilha, com este discurso, faz pontes com os neopentecostais, transformados em espada dessa contrarrevolução conservadora.
Os olavistas se articulam em duas estruturas: uma é o chamado gabinete do ódio, grupo de assessores que atua dentro do Palácio do Planalto e, outra, os que atuam nas redes sociais, que são uma espécie de cavalaria ligeira de ataque, disseminação das fake News e das ideias do bolsonarismo. Os olavistas são contra o golpe militar, defendem a democracia e a liberdade e, dia sim e outro também, Olavo ataca generais do governo. Sabem que se houvesse um golpe, perderiam influência.
Os olavistas dizem que o artigo 142 da Constituição não se aplica, pois se refere apenas a situações de segurança pública. Defendem um governo civil, se dizem antissistema e pregam uma revolução conservadora. Entendem que Bolsonaro deve confrontar o STF, pois existiria uma ditadura do Judiciário no Brasil, fruto da aprovação da Emenda Constitucional 45. Sustentam que há uma crise institucional que confronta o Executivo e o Judiciário e que não há um poder mediador neste conflito. Assim, Bolsonaro, como detentor da força, precisa decidir e encaminhar uma saída. Depois da decisão de Bolsonaro, poder-se-ia convocar um plebiscito ou uma reforma constitucional.
Os olavistas utilizam a astuciosa estratégica de criação de inimigos imaginários, tão conhecida dos movimentos autoritários, para arregimentar, doutrinar e disciplinar suas tropas. Para eles, os grandes inimigos são o Foro de São Paulo e o comunismo, dois entes que, a rigor, não existem. Dentro desses entes colocam todas as esquerdas, a grande mídia e até alguns generais. Atacam mais o Foro de São Paulo e o comunismo do que o PT e o PSol.
  1. Os generais. Telegraficamente, há que se dizer o seguinte: após a redemocratização, as Forças Armadas enfatizaram mais a preparação profissional e o afastamento da política. Mas caíram na “armadilha Bolsonaro” por dois motivos: 1) por interesse, pois foram beneficiados na reforma da previdência e nos reajustes do alto oficialato e, ao ocuparem cargos, aumentam seus ganhos; 2) oportunidade de reescrever a história, pois acreditavam que eles tutelariam Bolsonoro e que era possível fazer um governo competente com ele no âmbito dos parâmetros democráticos. Com milhares de mortes na pandemia, com o colapso da economia, com a destruição de instituições públicas e com a desmoralização de Bolsonaro no mundo, os militares estão sendo arrastados para a perda de credibilidade.
A grande maioria dos generais e dos comandos das Forças Armadas não quer o golpe. Sabem que o mundo não comporta isto, que ingressariam numa aventura, que dividiriam as Forças Armadas e que não seriam anistiados. Entendem também que o STF extrapola as suas funções com uma ingerência excessiva na política e nas decisões do Executivo. Entre os generais que estão no governo existem duas linhas. Uma alinhada ao general Heleno, mais radical, mais saudosista e que agrega mais os contingentes da reserva. A outra, constituída pelos generais Ramos, Azevedo e Silva, Braga Neto e Mourão, que se vincula à maioria do Estado Maior. Querem, claro, que Bolsonaro se modere, termine o seu mandato com êxito e que tenha chances nas eleições. Para isso, buscam uma aliança com o centrão e veem os olavistas como um estorvo.
  1. Os golpistas. A base eleitoral e militante do bolsonarismo, de modo geral, é golpista. Prega uma intervenção militar, o fechamento do Congresso e do STF e um poder discricionário para Bolsonaro. Invocam a aplicação do artigo 142. Essa base vem se radicalizando. É constituída por eleitores dispersos, mas também por grupos organizados, por ex-militares, por setores das polícias militares, por milicianos, por pequenos comerciantes e empresários e por setores ruralistas. Não tem uma presença direta dentro do governo, mas nem por isto significa que deixa de ser uma linha de força e de influência sobre o governo. Não são controlados nem por Bolsonaro, nem pelos olavistas e nem pelos generais. E nisto há o risco do descontrole, do caos, dos conflitos de rua e da convulsão.
Neste ponto, é preciso analisar a conduta da família Bolsonaro. O presidente e Eduardo Bolsonaro oscilam entre as três linhas de força. Deixam-se influenciar ideológica e politicamente pelo olavismo, o presidente se acautela pela pressão dos generais e os dois trafegam para o golpismo, pois este se expressa mais no calor dos atos, das carreatas e da ocupação das ruas. Os dois parecem ter uma personalidade instável, muito suscetível a pressões. Não têm um atributo fundamental ao grande líder: o autocontrole. Os dois são o principal fator das crises e da instabilidade do governo. Bolsonaro é um presidente fraco e nesse momento em que seu isolamento cresce, mais tende a recorrer aos militares. Eduardo Bolsonaro se dá uma importância muito maior à do que realmente tem. Ele prevê para si mesmo um futuro grandioso.
Carlos Bolsonaro vestiu o figurino do homem das sombras, da eminência parda do poder e do próprio pai-presidente. O seu caráter reservado não permite que se diga muita coisa sobre ele. Mas ele parece ter mais afinidade com a linha de força olavista. Se apoia ou não um golpe, é difícil dizer. O cero é que também apoia um confronto com o STF e com o Congresso. Parece professar a visão antissistêmica do olavismo e do chamado gabinete do ódio.
O que se pode concluir disso é que o golpe militar não é uma possibilidade imediata, nem provável, mas remota. E nisso, a estratégia das esquerdas está errada. O governo também não é fascista, embora existam alguns fascistas no governo e muitos no bolsonarismo. O STF está certo em apertar o torniquete no bolsonarismo para contê-lo. Mas não se deve esperar do STF ou do TSE uma atitude para tirar Bolsonaro da presidência.
O impeachment neste momento não é factível, embora desejável: em que pese a crescente rejeição, Bolsonaro conserva pouco mais de 30% de apoio e o centro e as esquerdas não estão muito à vontade para avançar o sinal do impedimento. Contudo, o agravamento da crise econômica, que parece inevitável, poderá jogar as pessoas nas ruas pelo impeachment. O Congresso vem se mostrando covarde: terceiriza a tarefa de conter e de apertar Bolsonaro e o bolsonarismo para o STF. No mínimo, o Congresso deveria cumprir seu papel cassando o mandato de alguns parlamentares bolsonaristas que feriram o decorro parlamentar.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

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domingo, 29 de março de 2020

Grupos fascistas de extrema-direita comemoram o coronavírus e atacam quarentenas



Nos Estados Unidos, um neonazista foi morto ao tentar explodir um hospital. Ele estava incomodado com a quarentena decretada em sua cidade
creative commons

Neonazistas esperam fazer do vírus uma "arma secreta" para matar minorias


São Paulo – Radicais de extrema-direita em todo o mundo estão irritados com estratégias para frear a pandemia do novo coronavírus, como isolamentos e quarentenas. Nos Estados Unidos, parte deles se voltaram contra o presidente, Donald Trump, até então querido por essa parcela da sociedade. Isso, porque Trump demorou, mas seguiu recomendações da Organização Mundial da Saúde e decretou isolamentos e quarentenas.
Um desses radicais é Timothy Wilson. Ele foi morto na terça-feira (24) por agentes do FBI após resistir à prisão. Isso, porque Wilson tentou explodir um hospital. Ele estava revoltado com a quarentena decretada na cidade de Belton, no estado do Missouri. O neonazista estava armado e planejava explodir uma bomba na unidade médica.
“Wilson decidiu acelerar seu plano de usar um dispositivo explosivo improvisado em um veículo na tentativa de causar danos graves e baixas em massa”, disse o FBI, em nota. O órgão policial também afirmou que o terrorista de extrema-direita já era monitorado por posições racistas e supremacistas.

Coronavírus: arma para radicais

O número de contaminados pelo novo coronavírus passa da marca de meio milhão. Os mortos devem alcançar os 30 mil neste fim de semana. Líderes mundiais de todas as orientações ideológicas, até aqueles que flertam com a extrema direita como Trump, estão adotando medidas de isolamento para conter a pandemia. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), vai na contramão. O político radical de extrema-direita desdenha da doença e da saúde pública.
Sem representação política marcante, outros radicais acham o vírus bem-vindo. Neonazistas esperam fazer do vírus uma “arma secreta” para matar minorias. O fato foi reportado pela rede de notícias Al Jazeera, com sede no Catar . Os radicais esperam “construir uma nova sociedade” em cima dos escombros do novo coronavírus.
Movimentos com tal ideologia possuem adeptos em países como Estados Unidos, Noruega, Ucrânia e Alemanha. Muitos deles se organizam por redes sociais como o Telegram. “É uma oportunidade para aumentar a tensão e defender a violência. Um canal neonazista popular convoca membros para tossir em sinagogas. Em outro, pedem para infectados com covid-19 espalharem saliva em policiais”, diz a matéria.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Bolsonaro é a revanche da ignorância e da mediocridade, por Luis Nassif



Quando Bolsonaro mostra saídas simples (e falsas) para os problemas nacionais, todos os ignorantes se sentem contemplados: não falei? É isso o que penso?





Quando Bolsonaro mostra saídas simples (e falsas) para os problemas nacionais, todos os
ignorantes se sentem contemplados: não falei? É isso o que penso.



Esse simplismo mistificador é praticado, revestido do manto diáfano da fantasia, pelos procuradores da Lava Jato, por Sérgio Moro, pelo Ministro Luis Roberto Barroso, e por uma legião de oportunistas que valem-se do desmonte das instituições para lançar fórmulas salvadoras.


Aqui em Montreal, conheci pesquisadores de porte investigando o fenômeno do "regressismo” no mundo e, particularmente, no Brasil. Não será difícil mostrar as relações de causa e efeito entre o “novo iluminismo” pregado por Barroso, e o seu resultado final, o “regressismo” atual no Brasil.

Por todos esses fatores, minha opinião é que o bolsonarismo não sobrevive sem Bolsonaro.


Quem seria o substituto? Dória, o almofadinha, cuja representação pública da violência são os chiliques e o menosprezo a tudo o que não seja Avenida Faria Lima? Wilson Witzel, que só conseguirá atrair sociopatas com seu o discurso da morte e da violência?


A única liderança capaz de substituir Jair Bolsonaro é Eduardo Bolsonaro. Mas Bolsonaro sem presidência será apenas uma milícia no Rio, com órfãos pelo Brasil.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Xadrez do efeito Bolívia sobre o jogo político brasileiro, por Luis Nassif





A cada dia que passa fica mais claro que a bandeira da anticorrupção é um biombo político visando tirar as últimas garantias constitucionais para abrir espaço para uma nova Noite de São Bartolomeu

Cena 1 – o golpe na Bolívia

A violência do golpe na Bolívia deve servir de alerta ao Brasil. Quem assume o poder é o fundamentalismo moralista, trazendo de volta a violência clássica do continente: golpe militar com violência, prisão indiscriminada, incluindo até autoridades do Tribunal Superior Eleitoral, invasão e destruição das residências de Evo Morales e seus ministros, repressão violenta nas ruas. Ponto central: o golpe surgiu a partir da Guarda Nacional, não das Forças Armadas.
Aliás, com ordem de prisão expedida contra Evo, mais as suspeitas de uma operação visando eliminá-lo fisicamente, mais as prisões ocorridas até agora, sugere-se aos bons cultivadores da retórica dos falsos paralelismos, que parem de invocar os erros políticos de Evo para justificar um golpe militar. Vale quando erros políticos provocam derrotas políticas, não como álibi para um golpe.

Cena 2 – as semelhanças Brasil-Bolívia

A violência boliviana tem todos os ingredientes disponíveis no Brasil, a começar por uma ascensão social prévia inédita de setores historicamente abandonados, criando um quadro de reações: 
  • Ultradireita fundamentalista e violenta.
  • Mídia insuflando a opinião pública.
  • Ressentimento da classe média com a ascensão das maiorias.
  • Politização crescente das forças policiais.
  • Ministério Público atuando como gendarme do golpe, inclusive decretando a prisão de juizes do Tribunal Superior Eleitoral.
  • Apoio do governo Donald Trump a aventuras fundamentalistas na América Latina.

Peça 3 – as diferenças Brasil-Bolívia

Por enquanto, há duas diferenças fundamentais entre Brasil e Bolívia: o STF (Supremo Tribunal Federal) e as Forças Armadas, até agora sob controle de legalistas. Daí a importância de preservar essas conquistas, que não são permanentes.
O STF é a última barreira a um aprofundamento do arbítrio. Mas nele há uma luta permanente dos legalistas contra as forças dos porões.
A cada dia que passa fica mais claro que a bandeira da anticorrupção é um biombo político visando tirar as últimas garantias constitucionais para abrir espaço para uma nova Noite de São Bartolomeu, que impeça a volta de Lula ao jogo político. A ofensiva de Luis Roberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux contra o garantismo já não dispõe do atenuante da falta de visão sobre as consequências de suas posições: é carne fresca para o tigre do golpismo. 
A segunda frente contra o STF vem sendo armada por Sérgio Moro, tentando estimular o Congresso a aprovar uma PEC trazendo de volta a prisão em segunda instância, mesmo atropelando cláusulas pétreas da Constituição.
Nas Forças Armadas calhou um Chefe do Estado Maior legalista e responsável, que sucedeu um militar com franca atuação política. Nem por isso reduziu o preconceito antilulista e antipopulista histórico nas Forças Armadas.
Em ambas as frentes, portanto, as barreiras ao arbítrio são tênues. E a falta de convicção democrática da chamada opinião pública midiática ajuda a alimentar o tigre.
Por exemplo, estão minimizando dois episódios relevantes. Um, o recente decreto de Garantia de Lei e Ordem (GLO) barrando o acesso ao STF, a pretexto de resguardar o encontro dos BRICS na Esplanada dos Ministérios. Outro, o fato de o governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, utilizar sua Polícia Civil como polícia política.
São transgressões que, naturalizadas pela opinião pública, vão permitindo os avanços do estado de exceção. E a radicalização da política guarda relação diretamente proporcional à dimensão política de Lula no quadro atual.

Peça 4 – o papel de Lula

Steve Bannon, o ideólogo da ultradireita, avaliou bem o papel de Lula no jogo ideológico global, em entrevista concedida à BBC News.
Tratou Lula como o maior ídolo da “esquerda globalista”, agora que Barak Obama está fora do jogo. Dois pontos são relevantes: o fato de colocar Lula ao lado (e, agora, à frente) de Obama; e o fato de ambos representarem o que ele chama de “esquerda globalista”, deixando subtendido que o ideário bolsonarista é o do nacionalismo fechado. Tornou-se liberal por questões táticas.
Além disso, o golpe na Bolívia deixou claro o efeito-dominó do impeachment. O Brasil de Lula e Dilma atuava como fator de moderação e de equilíbrio para as disputas regionais, moderando o radicalismo de Hugo Chávez, fortalecendo o trabalho admirável de Evo Morales. Não fosse o impeachment e o bolsonarismo, a esta altura o Brasil estaria alinhado com a OEA (Organização dos Estados Americanos) garantindo novas eleições, mas com a manutenção de Morales no cargo até o final do mandato.
O terraplanismo de Bolsonaro tornou o Brasil mero apêndice do trumpismo, isolou-o progressivamente da liderança do continente, embarcando na canoa furada do Grupo de Lima, deixando o continente à deriva e à mercê de fundamentalistas. E com um caldeirão de ódio espalhado por todos os cantos

Peça 5 – as torrentes de ódio

Por trás desses dois diques, do STF e do Alto Comando, há um oceano de ódio, revanchismo, envolvendo milícias e grupos com pouco apreço pela vida humana, uma polarização que irá se acirrar mais ainda com a libertação de Lula. Daí a importância de Lula ponderar esses fatores em sua estratégia política. 
A estratégia tem lógica. Um primeiro tempo de discursos eloquentes visando despertar a militância, reorganizar o PT, prepara-lo para as eleições municipais do ano que vem e mostrar cacife para pilotar a reorganização das esquerdas  Um segundo tempo, com um discurso racional, de novo projeto nacional, visando consolidar a frente das esquerdas em torno de propostas factíveis, e definindo uma candidatura para 2022. O segundo tempo deverá ser necessariamente flexível para permitir o terceiro tempo, os pactos que se darão no 2º turno das eleições, visando aglutinar as forças democráticas de espectro mais amplo.
O grande problema é o timing, o sentido de tempo. O caldeirão do golpe-sobre-golpe está sendo aquecido pelos seguintes fatores:
  • O fator Bolívia, mais o fator Chile, sendo explorados pela ultradireita.
  • O impacto da libertação de Lula, mostrando seu potencial eleitoral.
  • As investigações da morte de Marielle Franco, acuando a cada dia os Bolsonaro.
  • A revanche da Lava Jato, que provavelmente induzirá a incursões da banda radical da primeira instância do Ministério Público e da Polícia Federal.
  • As ofensivas das milícias bolsonaristas, com a radicalização retóricas das redes sociais podendo induzir a atos mais graves no mundo real.
Mais que nunca, haverá necessidade de bom senso e de bombeiros atuando ininterruptamente. 
Ficará claro, nesses tempos de paroxismo, que incursões oportunistas a favor da radicalização, por parte de Ministros do STF, procuradores, políticos, terão graves consequências para a paz social brasileira. Essa mesma precaução tem que ser adotada pelas esquerdas, sem se deixar contaminar pelo falso triunfalismo que se seguiu à libertação de Lula.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Corrupção do clã do Falso Mito deve realmente ser “muito grave” para Bolsonaro promover autogolpe visando intimidar ou fechar o Congresso e o STF, diz Eliane Brum



Para escritora e colunista do El País, Bolsonaro não governa para a Nação, mas para o próprio clã, formado por família e seguidores. E é para defender o clã que quer aumentar o próprio poder





Jornal GGN Deve ser “muito fundo e muito grave o que os investigadores poderão encontrar, caso não forem impedidos”, no inquérito contra Flávio Bolsonaro. É possível que a suposta corrupção do zeroum não tenha ficado restrita ao gabinete, estendendo-se a outros membros do clã Bolsonaro. É o que explica o “antipresidente” Jair querer colocar as tropas de “bolsocrentes” nas ruas. A avaliação é da jornalista e escritora Eliane Brum, em artigo no El País.
“Bolsonaro não é um presidente, mas sim um chefe de clã na presidência”, afirma a jornalista. “O que o domingo mostrará é quantos crentes o clã Bolsonaro conseguirá mover na tentativa de barrar as investigações do filho zeroum.”
Na visão da escritora, Bolsonaro pode até tentar argumentar que não consegue governar com instabilidades causadas pelas instituições, incluindo Congresso e Judiciário. Mas a verdade é que apenas Bolsonaro impede Bolsonaro de governar para a Nação. Em cinco meses no poder, fez gestos apenas em favor de seu clã, que envolve familiares e seguidores.
“O autogolpe está em andamento não porque o projeto de Bolsonaro para o país está ameaçado. E sim porque o projeto de Bolsonaro para o seu próprio clã está ameaçado. Primeiro pelas investigações que, se não forem barradas, possivelmente alcançarão outros membros do clã. Como impedir então que as investigações continuem? Pelo golpe. Botando os crentes na rua para, como eles próprios gritam nas redes sociais, fechar o Congresso e fechar o STF, a instância máxima do judiciário.”
“Não há ninguém impedindo Bolsonaro de governar para o país, além dele mesmo e de seu clã. A questão é que eles nunca quiseram governar para o país, porque a nação não lhes interessa. O que eles sempre quiseram foi governar para o clã e, assim, transformar o território da nação no território do clã. Agora o clã está ameaçado porque as instituições democráticas funcionam mal, mas ainda funcionam. Funcionam o suficiente para investigar se o filho zeroum cometeu os crimes dos quais é suspeito e apurar quem mais está envolvido”, complementou.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Do El País: Dia 26 - A Marcha da Loucura e Insensatez, por Juan Arias



  "É difícil encontrar no Brasil precedentes de uma alucinação semelhante à que esse Governo vive, que vê por todos os lados inimigos e intrigas para derrubá-lo antes ainda de ter iniciado seu caminho. É difícil encontrar no passado um clima de política baseado na negatividade, na raiva e no ódio, como se de repente o Brasil e os brasileiros tivessem se transformado em monstros irreconhecíveis e inimigos de seu próprio país." - Juan Arias







Bolsonaro durante sua campanha eleitoral, em 7 de outubro de 2018, no Rio de Janeiro MAURO PIMENTELAFP




do El Pais

A marcha da loucura

por Juan Arias

A anunciada manifestação para o domingo 26 dos seguidores do presidente Jair Bolsonaro contra os que teriam transformado esse país em “ingovernável” poderá ter consequências difíceis de se calcular.
Cresce o medo sobre os resultados dessa marcha sobre Brasília para defender o “mito” que se sente encurralado pelos que pretendem impedi-lo de realizar a missão que Deus lhe encomendou de devolver ao país corrompido sua pureza perdida. Medo que começou a preocupar até políticos de seu partido e muitos que votaram nele e hoje se sentem assustados e tentam dissuadi-lo dessa manifestação chamada de “marcha da loucura”.
E eu acredito que não existem precedentes na história das democracias mundiais de um Governo que cinco meses após sua eleição e que deveria viver sua lua de mel decide mobilizar o país em sua defesa ao se sentir sitiado pelos que, segundo ele, tentam impedi-lo de governar.
As manifestações, normalmente, são organizadas pelas oposições para exigir que as promessas de suas campanhas eleitorais sejam cumpridas. Curiosamente, no Brasil, até agora, a oposição parece na verdade muda e desunida contra um Governo que se apresenta incapaz de entender o que a sociedade pede dele.
Não é de se estranhar que a manifestação que está sendo organizada nas redes sociais pelas hostes mais aguerridas e violentas de Bolsonaro seja batizada também como “a marcha do medo”. Parece que de repente os demônios foram liberados e se fala sem pudor de “incendiar Brasília”, de “fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal”, que seriam a grande meretriz da política. Há até um general da reserva, Luiz Eduardo Rocha Paiva, que acha natural que se não deixarem Bolsonaro governar “estaríamos dispostos a pegar em armas para defender a liberdade e a justiça”, incitando a uma guerra civil. Curiosamente o general destoa da atitude de moderação que até agora demonstrou o restante de seus colegas militares.
Essa ideia de incendiar os outros poderes que dividem com o presidente a liderança e governabilidade do país nos faz lembrar como, já entre os romanos, imperadores como Nero usaram da artimanha de provocar incêndios de verdade, como o que destruiu meia Roma, para jogar sua responsabilidade sobre seus supostos inimigos.
No caso de Nero, o imperador aproveitou o incêndio de Roma para acusar os cristãos de sua autoria, considerados como inimigos do Império. Conhecemos os resultados: aqueles cristãos, dentre os quais estavam os apóstolos, Pedro e Paulo, foram martirizados, queimados na fogueira, crucificados e jogados aos cachorros para que fossem devorados vivos.
É difícil encontrar no Brasil precedentes de uma alucinação semelhante à que esse Governo vive, que vê por todos os lados inimigos e intrigas para derrubá-lo antes ainda de ter iniciado seu caminho. É difícil encontrar no passado um clima de política baseado na negatividade, na raiva e no ódio, como se de repente o Brasil e os brasileiros tivessem se transformado em monstros irreconhecíveis e inimigos de seu próprio país.
É difícil encontrar um grupo político tão apaixonado pela força das armas em guerra contra inimigos imaginários. Sua bandeira é a da desconfiança e da caça aos que não se ajoelharem diante de seus novos preceitos mortificadores de liberdades, que pretendem calar os que tentam ver o mundo e a vida com olhos que não sejam os seus.
A manifestação prevista para domingo não será mais uma. Deixará marcas profundas, triunfando ou fracassando. O Brasil ficará perigosamente dividido. No caso de o Governo conseguir encher as ruas do país gritando contra os pilares que hoje sustentam a democracia, não é difícil prever que os conflitos se agravarão. Seria um passaporte para que um Governo autoritário imponha suas leis com mão de ferro.
E se fracassar? Se não forem capazes de mobilizar mais gente do que o fizeram os jovens estudantes, e se não conseguir ser pacífica? Nesse caso, o mito Bolsonaro deveria ter a grandeza de admitir seu fracasso, de renunciar e passar o comando a alguém que seja capaz de reunificar um país cada dia mais perigosamente cético da política e da democracia.
Existe o perigo real de que essa guerra ideológica e essa desconfiança nas regras democráticas também acabem arrastando o país a uma crise econômica que quebraria a já martirizada caravana de milhões de pobres e desempregados que acabam sendo sempre o alvo das loucuras dos que deveriam protegê-los.




sexta-feira, 8 de março de 2019

Mulheres de todos os países, uni-vos!



Nova greve feminista marcará, em dezenas de países, o 8 de Março. Por que o movimento de mulheres cresceu e mudou tanto, em poucos anos. Como superou a onda individualista e volta-se, agora, contra as próprias lógicas do capitalismo?
Por Marisa Kohan | Tradução: Rôney Rodrigues
Há quem discorda que estamos em uma terceira ou quarta onda do feminismo. Quem pensa que a mera classificação do movimento em ondas não tem sentido ou, inclusive, possa ser contraproducente. O que ninguém discute é o fato de que estamos assistindo a um ressurgimento da luta feminista que, pela primeira vez na história, aglutina mulheres de todas as idades, classes sociais, raças, identidades e lugares. Meninas de 12 anos e ativistas com várias décadas de luta nos bastidores compartilham uma visão de mundo e uma batalha travada nas casas, nas ruas, nas empresas, nos parlamentos, nas cortes de justiça e nas redes sociais.
Seja qual for o número dessa onda, estamos diante de um verdadeiro tsunami que não se conforma com a exigência de direitos específicos, mas que questiona a raiz toda e cada uma das violências machistas: de gênero, a econômica, a judicial, a educativa, a trabalhista, a cultural, a ambiental… “No momento, a luta pelo acesso à uma moradia é feminista, assim como a luta pelos direitos trabalhistas, pelo fechamento dos centros de detenção de imigrantes… E isso é algo novo. Não se trata de reivindicações para as mulheres ou para determinado tipo de mulheres, mas de questionar o modelo. O feminismo vê que a desigualdade da mulher não é um erro do sistema, mas o próprio sistema”, aponta a advogada e ativista Pastora Filigrana.
Para poder analisar a quarta onda do feminismo convém recordar alguns elementos que caracterizam as anteriores. A primeira onda, que as pensadoras europeias situam na época do Iluminismo, serviu para colocar em evidência que os recém-lançados direitos do homem deixavam de lado a mulher. A essa onda pertencem obras como a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de Olimpia de Gouges, publicada em resposta à a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa, que negava às mulheres a condição de cidadãs e direitos tão básicos como o voto, a educação ou o trabalho. Na Inglaterra, Mary Wollstonecraftt publicava também sua Reivindicação dos direitos da mulher.
A onda seguinte, que a tradição anglo-saxã considera como a primeira, se produziu nos finais do século XIX e em princípios dos século XX. Foi protagonizada, sobretudo, pelo movimento das sufragistas e sua reivindicação de direito ao voto feminino. Depois de algumas décadas de avanço progressivo em todos os âmbitos da vida pública e privada, o auge dos fascismos em boa parte da Europa foi um importante freio e um retrocesso para milhões de mulheres.

Questionando os pilares do sistema

A terceira onda do feminismo (que é a segunda para as anglo-saxãs) começou entre os anos 60 e 70 do século passado e é considerada por muitos como uma onda de feminismo radical. Um movimento que se viu estimulado por obras fundamentais do pensamento como O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, ou A mística da feminina, de Betty Friedan. A luta pelos direitos da mulher começa, por fim, a questionar os pilares do sistema patriarcal, incindindo em todas as suas manifestações: desde a violência sexual até os estereótipos sobre o que é ou não é feminino.
A frase mais emblemática dessa etapa é a de que “o privado é político”, que enfatiza a necessidade de ter poder político real para poder mudar as estruturas que perpetuavam a discriminação da mulher. O avanço não é, no entanto, linear. “A cada onda segue uma reação do patriarcado que é, às vezes, fonte de outra reação feminista – e assim sucessivamente”, explica a filósofa e professora da Universidade Complutense, Luisa Posada. Uma dinâmica na qual, depois de se conseguir avanços importantes, às vezes se produzem retrocessos e perdas de direitos que já se consideravam adquiridos.
Como explica graficamente Cristina Sánchez, filósofa e diretora do Instituto Universitário de Estudos da Mulher da Universidade Autônoma de Madri, as onda “se caracterizam por atirar, como pedras que na lagoa provocam ondas expansivas, novas demandas no espaço público, que provocam por sua vez ações – e também reações”.
Para a especialista, as reações aos avanços de mulheres com as quais o patriarcado contra-ataca costumam ter um mesmo padrão de comportamento: “O negacionismo das questões; reações violentas, tanto no terreno simbólico como no discurso político e social; a criação de imaginários e discursos que alertam sobre os perigos e desordem que supõem as demandas feministas em termos de destruição da ordem patriarcal”.

O romantismo, Doris Day e os hormônios

Muitas destas reações são tão sutis que se tornam difíceis de identificar. Rosa Cobo, teórica feminista e professora de Sociologia da Universidade de A Coruña, detalha algumas delas: “Depois da primeira onda do feminismo iluminista surgiu o Romantismo, a misoginia romântica. A resposta a segunda onda foi uma psicoanálise, como assinala Kate Miller. A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
Doris Day, atriz e cantora estadunidense. “A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
“A reação patriarcal que temos tido tem sido duríssima”, assinala Cobo. “A publicidade, a conversão da prostituição em um negócio internacional, a ideologia que gera a mercantilização e a coisificação dos corpos das mulheres. Acredito que tudo isso formou parte da reação patriarcal e do neocapitalismo do século XXI: a prostituição, as barrigas de aluguel… e acredito que isso é uma afirmação amplamente aceita, independentemente se você é abolicionista ou regulacionista”.
A historiadora da Universidade do País Vasco, Nerea Aresti, destaca como o movimento sufragista não só trouxe consigo campanhas de rechaço frontal ao voto feminino, mas também fez ressurgir muitas teorias misóginas. Algumas criadas no sagrado nome da ciência. “No princípio do século XX surgem teorias que defendem a inferioridade da mulher com argumentos científicos e empíricos de todo tipo. Utilizaram argumentos retirados da craniologia, da endocrinologia e da neurologia. Ideias encaminhadas para demonstrar que o organismo, o corpo e o cérebro das mulheres são inferiores por natureza. Argumentos usados em nome da ciência e que penetravam no debate público”. No meio desse movimento constante de ação e reação, podemos afirmar que estamos na quarta onda? Segundo Posada, sem dúvida estamos. “Se vê isso no movimento MeToo, nas mobilizações contra a sentença de La Manada, na Argentina pelo aborto, nas marchas contra Trump e Bolsonaro, nos cordões de mulheres na Índia, no feminismo africano, que está muito ativo em Uganda ou em Burquina Faso…” Uma onda que, na opinião da filósofa, tem características muito específicas. “É uma onda que foi ativada contra a violência, que aglutina de maneira especial a muitas jovens e que tem um caráter transnacional, próprio do momento de globalização em que vivemos. Não me refiro só à violência sexual, mas também à desigualdade econômica e trabalhista, a não redistribuição de cuidados, a pornografia, às barrigas de aluguel, a prostituição. Essas são as coisas especificas contra a qual a onda se levantou”, explica Posada.
Para Nerea Aresti, não é realmente tão importante determinar se estamos ou não diante de uma nova onda. “O que sim está claro é que estamos diante de um ressurgimento do feminismo que não ocorria há anos”. Segundo Aresti, diante dos avanços dos anos 70 e 80, “parecia que se havia conquistado importantes níveis de igualdade. Na Espanha, diante do franquismo, se conquistaram mudanças legislativas, sociais e de mentalidade que levaram muitas pessoas a pensar que o feminismo havia deixado de ter sentido. Além disso, o feminismo não foi a causa ou o motivo dessas mudanças. Para muitas jovens, essas mudanças pareciam somente frutos de uma evolução progressiva para a igualdade e não o resultado de uma luta”.

O feminismo domesticado dos anos 80 e 90

A feminista e antropóloga argentina Andrea D’Atri incide também nesses pontos ao analisar os anos 80 e 90. “Houve uma política por parte dos regimes de incorporar demandas levantadas nos anos 70, mas retirando os aspectos mais subversivos ou radicalizados e incorporando o feminismo às instituições do regime. É quando nascem os institutos da mulher, os departamentos de gênero das instituições do Estado ou as grandes instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional. Se cria assim o que algumas feministas definem como uma tecnocracia de gênero”.
O questionamento dessa falsa sensação de igualdade e da perda de radicalidade junto a uma virulenta reação do patriarcado são, para muitas especialistas, alguns dos elementos que explicam o surgimento dessa nova onda. Para Aresti existem dois fatores essenciais que acabaram com essa ilusão de igualdade: a violência sexual e a violência econômica, agravada notavelmente com a crise que eclodiu no ano de 2008.
Para Cristina Sánchez está claro que estamos assistindo a um movimento social transformador que, mais que rótulos, pressupõe um “salto qualitativo na presença massiva de um movimento intergeracional, internacionalista e interclassista que, em todas as partes, em quase todos os países, enfrenta o status quo patriarcal, tornando visíveis os pilares em que se sustenta: a violência e a exclusão das mulheres dos lugares de tomada de decisões”.
“Neste caso, já faz alguns anos que estamos vivendo o surgimento em muitos países de movimento de mulheres que reivindicam seus direitos, seu lugar na vida social e política ou uma justiça que as escute e acredite nelas”.
A pesquisadora Cecilia Cienfuegos concorda que assistimos a uma momento de “efervescência feminista”, mas alerta sobre o fato de que apresentar esse movimento em forma de ondas pode ser contraproducente. “Essa ideia de onda tende a ser simplificadora e busca uma uniformidade que não existe no feminismo em geral. E é saudável que não exista”. Cienfuegos explica que quem coloca nome e número às onda é quem controla o discurso dominante em cada momento. “Como temos nomeado essas onda corresponde a uma história que é eminentemente branca e ocidental”, destaca.
Identificar cada onda com a conquista de um direito específico supõe também “como se fosse um objetivo único. O direito ao voto, modificar a lei do aborto… Uma vez conseguido esse direito, que mais querem? Pode ter um efeito desmobilizador. Implica também uma ideia de ruptura, como se rompesse com a anterior e fechasse os debates que vieram antes”, acrescenta Cienfuegos.

Enfrentar o neoliberalismo

Um dos elementos que mais caracteriza essa onda do feminismo é a crítica feroz a um modelo capitalista neoliberal que se sustenta firmemente sobre os pilares do patriarcado. Para que o sistema funcione, uma condição necessária é contar com o trabalho não-remunerado de milhares de mulheres e meninas. Mulheres que também ocupam os empregos mais precários, inseguros e com pior remuneração. A cara mais machista do capitalismo tem aflorado com força depois da crise que estourou há dez anos atrás e que trouxe consigo mais precarização do emprego, sobretudo o feminino, e cortes significativos no gasto social que, sistematicamente, resultam em menos apoio e mais trabalho e responsabilidade para as mulheres.
Segundo Posada, “muitas jovens estão chegando ao anticapitalismo através do feminismo, não através de outras teorias políticas como ocorria há algumas décadas atrás. Então, introduzir o tema do feminismo é muito complicado na esquerda. Mas essas jovens estão chegando ao anticapitalismo ou ao antineoliberalismo através do sentimento de que são tratadas como mercadorias”.
Nesse contexto, alguns movimentos feministas muito ligados às lutas de classes que surgiram com força na década de 60 e 70 do século passado, e que durante décadas pareciam estar em silêncio, ressurgiram com força. É o caso do chamado feminismo 99%, nascido no calor do movimento Ocupy Wall Street, no Estados Unidos. Uma de suas representantes máximas, Nancy Fraser, afirma que durante as últimas décadas o feminismo tomou um rumo neoliberal e manteve com ele um flerte perigoso.
Conforme descreve Fraser, o feminismo renunciou a uma concepção mais ampla e sólida do que significa igualdade de gênero ou igualdade social em geral, em favor da meritocracia. Ou seja, em “derrubar barreiras que permitam a um reduzido grupo de mulheres talentosas avançar a postos mais altos das organizações ao invés de abolir as hierarquias”. Esse feminismo de “teto de vidro” saltou pelos ares com o advento da crise econômica, o que evidenciou a falácia da suposta igualdade alcançada.

Não voltar para as trincheiras

Atingido esse ponto, para onde caminha o feminismo? Segundo muitas das especialistas consultadas, para uma mobilização permanente, transversal e internacional que já não se conforma em reclamar determinadas mudanças do sistema político, econômico, social e cultural, mas que questiona elementos essenciais do sistema.
Pastora Filigrana assegura que “defender os direitos conquistados vem em primeiro lugar. Mas nos conformarmos só com isso, não é possível. O sistema está nos expulsando, então vamos ter que defender o que conquistamos, conquistando mais coisas. Temos que organizar uma resistência que comece a mudar as regras do jogo”, destaca.
Para Cecilia Cienfuegos está claro que “tem que sair das trincheiras em que nos querem colocar. Tem que evitar cair na lógica de resistência e não voltar para a defesa do básico e do irrevogável. O feminismo está agora em posição de enfrentar o sistema de igual para igual e propor um projeto alternativo”.
No momento em que é frequentemente dito que o feminismo está no alvo dos neofascistas do todo o mundo, Cienfuegos aponta que “o feminismo não foi posto no centro dos ataques. Nós ganhamos essa centralidade”. E tem milhões de mulheres em todo o mundo que não estão dispostas a ceder essa centralidade que tanto custou conquistar.
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