domingo, 25 de outubro de 2026

Carta aos Cínicos bolsonaristas, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal (também citando Bertolt Brecht)

 

Odeio como (vocês bolsonaristas) zombam de mulheres, gays e negros. Odeio porque vocês nos matam com armas e palavras. Odeio como berram e mentem descaradamente...

Do Jornal GGN:


    Arte na rua

Carta aos Cínicos, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Aos que vão nascer

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

(…)

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

(…)

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Bertolt Brecht, “An die Nachgeborenen” / “Aos que vão nascer”. Tradução de Paulo César de Souza.


Prezados Cínicos,

Talvez estranhem o “prezados” logo de cara e me interpretem também como uma cínica, por usá-lo no início desta missiva. De fato, não desconheço a contradição da minha primeira frase e a assumo, mas não sem constrangimento. Aí reside, talvez, nossa primeira diferença.

Constrangida por nascença. Um certo pudor por existir, por ocupar espaços e tempos dos outros. Alguma cerimônia, herdada talvez de meu pai mineiro, pobre e órfão, ou vinda da gestação tardia e de risco de minha mãe, quem saberá, me faz ter um receio exagerado de ser, de alguma forma, incômoda. Pior, uma certa necessidade de soar útil demais, de trabalhar neuroticamente muito além do que precisava, me levou ao divã, mas também ao lugar onde estou hoje e de onde escrevo esta carta: esse lugarzinho de defensora dos direitos humanos, tão odiado por vocês, caros Cínicos.

Eis a razão da carta.

Quero falar de nosso ódio. Sim, o nosso, porque também odeio, e não é com facilidade que digo isso, o que, reconheço, em nada ameniza a feiura do meu ódio por vocês, prezados Cínicos.

Odeio em sussurros, para as crianças, que agora dormem, não escutarem. Odeio sem contar aos vizinhos e sem colocar na rede social. Odiar me faz perder o sono. Me dá dores no corpo. Me faz chorar e, assim mesmo, odeio.

Olho extasiada para esse ódio estranho e familiar que emerge de dentro de mim e tento decifrá-lo, mas não o reconheço no que me move ou comove.

Meu ódio não está no meu quintal, nas platinelas do meu pandeiro, no pelo macio da minha gata ou na risada do meu filho. Não o encontro no azul que minha mãe inundava em mim quando me olhava, tampouco no violão do meu bem, esse Bem que um dia cruzou uma esquina de carnaval, quando tudo parecia vivido e desvivido.

Procuro, mas não o encontro na filha que vai à feira para comprar flores, nem nos desvalidos que, todos os dias, me atravessam tão profundamente com suas histórias e dores que fico capaz de erguer teatros, ruas e escolas, mover prefeitos, pastores, professores e ex-amores, os prédios, as pontes e os abismos, tudo e todos no mundo inteirinho, só para que ninguém mais sofra ou, pelo menos, não sofra sozinho.

E mesmo assim, odeio.

Volto para o divã, mais corajosa agora, para reconhecer e cavoucar o ódio que sinto dos senhores, prezadíssimos Cínicos. Destemida, fria e empoderada, vou até a menininha que queria salvar o pai de seus desenredos e a mãe de seus lutos. Cavuco tudo, toda a solidão miúda da menininha, até as entranhas, mas não o encontro.

Mas sim, odeio. Estou bem certa de que odeio.

Não duvidem. Não riam do meu ódio, porque posso provar que odeio.

Odeio como zombam de mulheres, gays e negros. Odeio porque vocês nos matam com armas e palavras. Odeio como berram e mentem descaradamente enquanto eu peço licença para existir. Odeio como gesticulam, ensaiam trejeitos e frases prontas para machucar, calar e humilhar. Odeio sua política de bullying e seu Deus vingativo, preconceituoso e tirano. Odeio ver minhas amigas fazendo cursos de autodefesa para sobreviverem a vocês nas ruas escuras. Odeio, com todo o nojo que sou capaz de sentir, como profanam a democracia e exaltam a tortura.

Odeio, Senhores Cínicos, esse mundo paralelo para onde levaram tantos dos que amo, afastando-os de mim, a ponto de eu não mais saber se eles são, também, agora, os cínicos para quem escrevo esta carta.

Odeio, Senhores Cínicos, por terem me tirado deles.

E mesmo assim, odeio.

Mas me contem, Senhores Cínicos, sentem-se aqui, tragam seus ódios para a roda. Fizemos uma roda nesta escola pública. O professor negro disse que quer contar que se afundou em depressão ao se sentir sozinho e sem retaguarda, depois que o pai de um aluno o ameaçou de morte por ter dado uma aula de história sobre a ditadura.

Venham cá, Senhores, escutem a menina de 14 anos tentando segurar as lágrimas enquanto conta que cresceu ouvindo que iam cortar seu cabelo para lavar a louça.

Cheguem pertinho, por favor, para ouvir a voz baixinha da mãe do menino gay que se matou.

Escutem essa outra mãe falando que sua filha com deficiência é rosto, não resto.

Por favor, tragam seu ódio para perto, sem robôs no meio de nós. Robôs não sentam em roda. Robôs não conhecem a professora negra cuja mãe lhe dava água com açúcar, na infância, para enganar a fome. Aparentemente, ela não precisou de coach, Senhores, mas de política pública para ser, hoje, doutoranda em uma das melhores universidades públicas do país.

Venham todos, por favor, vamos ouvir músicas juntos.

Agora é a vez de vocês.

Contem suas histórias. Quem embalou vocês? Do que vocês brincaram nos parquinhos? Quem vocês amaram? Por quem já choraram escondidos? O que já desejaram ter e não tiveram? Quem ama os Senhores, Caros Cínicos?

Quero escutá-los, preciso escutá-los, posso aguentar porque já odeio vocês.

Trago meu ódio, declarado e reconhecido em cartório. Posto. Eu odeio. O ódio está nu na roda.

Venham, venham, Senhores Cínicos, vamos improvisar nossas falas. Respeitar as pausas e os silêncios. Respirar. Deixemos os ensaios para as coreografias de dança.

Conseguem escutar meu ódio?

Meu gigantesco ódio grita que odeia muito, odeia mesmo, de verdade. Odeia odiar.

E o de vocês?

Espera…

Eu não trouxe armas.

Esqueci de odiar com elas… espera…

Espera…


A criança procurava o lápis de cor quando achou a carta. Os adultos sempre contavam sobre a tal carta da espera.

Naquele dia, quando os ódios foram se sentar em roda, apareceu tanta gente para falar e escutar que a roda já não coube em si mesma. Foi crescendo, crescendo, até virar uma espiral gigantesca em direção aos céus.

A espiral subiu, subiu, subiu, levantando ventos que abriram frestas nos mundos paralelos.

Diz a lenda que, naquele dia, com a ventania, a letra R escapou das aRmas que os Senhores Cínicos levaram para a roda.

Os professores, os estudantes, as merendeiras e as gentes todinhas foram recolhendo os erres voadores e espalhando-os pelos cantos do mundo.

Era um tal de gente aRRebatada, aRRepiada, ReeRguida, Resistente, Reexistente e Risonha como jamais se viu. O mundo rangeu de vida.

E os cínicos, coitados, sem robôs para ajudá-los, tiveram que se haver com o que sobrou da palavra arma sem a letra R mesmo.

CRISTIANE CORRÊA DE SOUZA HILLAL – Promotora de Justiça do MPSP

sábado, 24 de outubro de 2026

Até este domingo, dia 25 de outubro, LULA VAI VIRAR: ANÁLISE SOBRE AS ÚLTIMAS PESQUISAS

 


Do Canal Desmascarando:




Bispos católicos falam que Flávio é ameaça ao Brasil

 

 

Carta foi assinada por diferentes líderes católicos de todo o país e fala em "uma das candidaturas" a ameaçar o Brasil.

Do Jornal GGN:

    Foto: Vatican Media/­Handout



Carta foi assinada por diferentes líderes católicos de todo o país e fala em “uma das candidaturas” ameaçar o Brasil; manifesto convoca fiéis a votar em defesa dos direitos sociais, da soberania e do meio ambiente

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, um grupo de bispos e arcebispos católicos divulgou uma carta aberta em que alerta para os riscos à democracia, à soberania nacional e aos direitos sociais em posições que estão associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Mesmo não citado nominalmente, a carta visivelmente critica o senador.

O documento, intitulado Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, sustenta que propostas de “uma das candidaturas” entram em contradição com princípios centrais da Doutrina Social da Igreja (DSI). A manifestação foi divulgada na quinta-feira (22) e, nesta sexta-feira (23), continua aberta a novas adesões.

Os bispos questionam posições atribuídas sobre a jornada de trabalho, o acesso a armas, a política externa brasileira e a crise climática. Em contraponto, descrevem explitadamente “o atual Governo”, na candidatura do presidente Lula (PT), como uma alternativa que, apesar de sujeita a críticas, demonstrou responsabilidade com os mais pobres e respeito à Constituição e à ordem democrática.

“Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição”, traz o documento.

Democracia, direitos sociais e soberania

No centro da manifestação está o alerta de que a disputa eleitoral não se limita à escolha de um novo governo, mas pode determinar mudanças profundas nos rumos do país. “O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, escrevem os líderes católicos.

Os religiosos associam essa preocupação a propostas que consideram incompatíveis com os princípios da Igreja Católica. Entre elas, destacam a posição contrária ao fim da escala de trabalho 6×1 e a defesa de medidas que ampliariam o acesso da população a armas de fogo.

A carta também critica a perspectiva de uma política externa que, na avaliação dos signatários, submeteria os interesses brasileiros aos dos Estados Unidos. No campo ambiental, os bispos questionam o que descrevem como a negação da crise climática e dos problemas ecológicos.

Referência à ditadura e alerta contra o autoritarismo

A carta também faz referência à ditadura militar brasileira e às homenagens prestadas pela família Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante o regime militar.

Os signatários associam esse histórico a preocupações com a preservação da ordem constitucional. O documento afirma que “um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por
atentar contra a democracia” e segue suas ideias”
e sustenta que a continuidade dessas ideias poderia abrir espaço para ameaças institucionais.

Os bispos afirmam ainda que uma eventual maioria parlamentar alinhada ao candidato poderia criar condições para a concentração de poder e a imposição de uma orientação política contrária aos princípios democráticos. Ao recorrer às experiências autoritárias do século 20, os religiosos defendem que os eleitores considerem as consequências históricas de projetos que, em sua avaliação, ameaçam a democracia.

“Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes”, diz outro trecho da carta.

CNBB e Conselho concordariam

Os signatários afirmam estar em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade em 21 de outubro, que defendeu a Constituição e o respeito às urnas e recomendou aos eleitores que avaliassem a trajetória dos candidatos.

Ao abordar diretamente a escolha eleitoral, os bispos afirmam que eventuais críticas ao governo Lula não deveriam se sobrepor aos princípios que, segundo eles, estão em jogo na disputa. “Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirma o texto.

A carta conclama os católicos a comparecer às urnas no domingo (25), defendendo a democracia, os valores humanitários, os direitos dos pobres e os ensinamentos da Igreja. Até a manhã desta sexta-feira, 64 bispos católicos assinavam a carta, que segue aberta para novas adesões públicas.

Leia mais:

GLOBONEWS ESCANCARA VIRADA DE LULA NO DEBATE! FLÁVIO ATACA, PASSA VERGONHA E PEDE DESCULPAS!

 

Do Canal Fatos da Política com trechos da GloboNews após o debate final entre Lula e o filho do coiso golpista preso...

*LULA VIROU O JOGO!* Jornalistas da GloboNews analisam os momentos mais marcantes do debate da Globo entre Lula e Flávio Bolsonaro! O ataque capacitista, o pedido de desculpas, o constrangimento no caso Ana Clara e a força de Lula ao falar sobre o Nordeste ganharam destaque. Confira a análise e veja por que o desempenho de Flávio gerou tantas críticas!



UOL - Caso da criança Ana Clara: mãe rebate fala de Flávio Bolsonaro em debate da Globo; Bilenky: 'Reação foi momento marcante'

 

 

Do UOL:

A mãe de Ana Clara contestou duramente as declarações de Flávio Bolsonaro durante o debate presidencial na TV Globo sobre a morte de sua filha. Cristiane Gomes da Silva rebateu a tese de confronto armado e afirmou que não havia traficantes no local quando a menina de 5 anos foi baleada em Niterói. Thais Bilenky conta os bastidores




Revelando: Uma Dor Familiar com Alessandra Orofino | Ep #09

  Sobre o Clã Bolsonaro e o culto fascista às armas e à violência...

Do Canal Revelando:

em político dizendo que comprar armas deveria ser tão simples quanto tirar carteira de motorista. Mas será que mais armas realmente vai proteger sua família? Flávio Bolsonaro e seus aliados querem facilitar ainda mais o acesso a armas no Brasil. Quando o governo de Jair Bolsonaro flexibilizou as regras sobre o armamento, armas compradas legalmente foram parar nas mãos do crime organizado, enquanto mulheres e crianças ficaram ainda mais expostas à violência. No último episódio da temporada, Alessandra Orofino, diretora geral do Revelando, revela como a política armamentista dos Bolsonaro colocou ainda mais vidas brasileiras em risco. 🔦 Assista ao novo episódio do Revelando: Uma Dor Familiar com Alessandra Orofino.



sexta-feira, 23 de outubro de 2026

UOL: Bispos católicos afirmam que Flávio Bolsonaro representa ameaça à democracia

 

Do UOL:

Um grupo de bispos católicos divulgou uma carta aberta em que manifesta preocupação com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. No documento, os religiosos afirmam que a candidatura representa uma ameaça à democracia, à soberania nacional e a princípios defendidos pela Doutrina Social da Igreja. A carta também faz críticas a posições relacionadas a direitos trabalhistas, meio ambiente, armamento da população e relações internacionais.



G1: Policia Federal encontra sala secreta usada por advogado Willer Tomáz - muito amigo de Flávio Bolsonaro - para guardar dinheiro em Brasília

 

Do G1:




Xadrez da grande maratona entre a mídia oligáquia alimentada por banqueiros e em empresários e Lula, por Luís Nassif

 


Vitória de Lula seria a sinalização do início da reversão do autoritarismo no mundo. E a eleição vem sendo acompanhada por todos os países.

Do Jornal GGN:

Xadrez da grande maratona entre a mídia e Lula, por Luís Nassif


Lula em foto de Lula Marques - Agência Brasil

Peça 1 – o tiro de partida

O século 21 é o tiro de partida para dois corredores disputarem o poder no país. 

De um lado, Lula, ganhando envergadura depois da maxidesvalorização de 1999 e do esgotamento do modelo Fernando Henrique Cardoso. Especialmente o aumento do nível de miséria foi o grande impulsionador de sua candidatura.

De outro, os grupos de mídia. Eles emergiram na década de 1990 como a maior força política do país. Derrubaram Fernando Collor, ameaçaram derrubar FHC e, até a maxidesvalorização, tiveram a década mais rentável da história. Tinham, ao mesmo tempo, o controle da publicidade nacional, da local e dos classificados. Com o uso de sorteios e outros expedientes, a edição dominical da Folha, por exemplo, chegou a superar 1 milhão de exemplares.

A maxidesvalorização de 1999 foi o ponto de recorte. De um lado, determinou o fim do ciclo FHC e acentuou ainda mais a miséria, perceptível nas ruas e nos cruzamentos das grandes cidades. De outro, viabilizou uma candidatura alternativa. E a única com consistência, com um líder de dimensão nacional, era o PT de Lula.

Nos meses seguintes, a Internet avançou, quebrando as barreiras de entrada para novos grupos de mídia. Os grupos brasileiros enfrentavam o duplo problema: financeiramente quebrados e vendo o desmantelamento de seu modelo de negócios.

Ali teve a corrida entre os dois personagens.

A saída encontrada pelos jornais foi seguir o modelo Rupert Murdoch – o Roberto Marinho australiano que saiu pelo mundo captando financiamento e adquirindo veículos em vários países. A partir de agora, não vamos apoiar Partido A ou B. Seremos a verdadeira oposição, como proclamou a presidente da Associação Nacional dos Jornais.

Seguiu-se a pior etapa do jornalismo brasileiro, o chamado jornalismo de esgoto, puxado pela revista Veja e seguido pelos demais veículos. A importação do modelo Murdoch por Roberto Civita acabou, definitivamente, com a muralha da China que separava a área comercial da redação.

O grande negócio da imprensa sempre foi a construção ou destruição de reputações. Mas, antes, havia um certo pudor nos acordos comerciais.

O quadro começou a desandar com os acordos de Daniel Dantas com a revista Veja, na qual a publicação, além de reportagens contratadas, entregou a Dantas o controle de um de seus colunistas, Diogo Mainardi. As incursões de Daniel Vorcaro, que se tornaram públicas devido à quebra do seu sigilo, são outro exemplo prático desse jogo.

Peça 2 – O modelo tradicional e a segmentação do público

Mas, enquanto a imprensa se esmerava na fabricação do antilulismo, nascia uma nova etapa na economia, que acabaria de vez com o modelo de negócios da imprensa.

Historicamente, o grande negócio da mídia sempre foi a venda da construção ou destruição de reputações, para fins políticos ou de disputas empresariais. Mas, mesmo na venda da opinião, havia um cuidado, uma muralha chinesa entre o departamento comercial e a redação, para que a extrapolação dos negócios não afetasse a imagem do produto – o que, em última instância, comprometeria os próprios negócios.

Havia, também, uma precificação da publicidade, que era calculada em função da tiragem do veículo e do perfil do seu leitor. Jornais de opinião cobravam mais; jornais populares, menos. As agências de publicidade tinham a métrica da análise técnica sobre o perfil dos leitores. E os diretores de mídia dos grandes anunciantes tinham suas predileções, mas sempre respaldados por uma suposta análise técnica.

Digo suposta porque, em seu último sopro de vida, a revista Veja manipulava até as medições de tiragem. O Instituto Verificador de Circulação limitava-se a comparar a tiragem com o encalhe.  Veja passou a distribuir edições a torto e a direito, mesmo para quem não as solicitava, mascarando seus números reais.

Peça 3 – O novo modelo e a nova segmentação

Com a Internet, gradativamente as análises técnicas escaparam das agências de publicidade para as plataformas. 

No início, os algoritmos passaram a fornecer a audiência de cada post. O novo modelo viabilizou o aparecimento de blogs e, depois, portais jornalísticos. Estavam todos democraticamente igualados na contagem de leitores. Mas a estratégia de comercialização ainda era das agências.

Naquele início, Veja planejou um golpe pesado. Encomendou uma pesquisa a Pablo Ortellado — um pesquisador que surgiu defendendo os black blocs e depois se converteu ao jogo da mídia. Na pesquisa, Ortellado analisava os chamados blogs tóxicos. Pela direita, selecionou vários que se notabilizaram pelo uso de fake news. Pela esquerda, incluiu portais que competiam com o jornalismo tradicional no mercado de opinião. A pesquisa foi apresentada em um seminário para o mercado publicitário bancado pela Editora Abril, proprietária da Veja, fechando as portas das agências de publicidade para o jornalismo alternativo.

No momento seguinte, porém, os algoritmos evoluíram, a ponto de definir o perfil do público em cada momento e para cada veículo digital, com uma precisão muito maior.

No modelo de organização de notícias, os jornais dividiam as páginas entre Opinião, Nacional, Internacional, Cidades, Saúde, Esportes e Ilustrada. O leitor de Esportes não era necessariamente o mesmo de Economia.

Com os algoritmos, a segmentação se dava de forma muito mais aperfeiçoada. Em pouco tempo, os modelos de publicidade programática conquistaram o mercado. Publicidade programática é a compra e venda de espaço publicitário digital feita de forma automatizada, por meio de software e algoritmos, em vez de negociação direta entre pessoas. O anunciante define quem quer atingir (perfil, interesses, localização, comportamento) e o sistema decide, em milissegundos, qual anúncio exibir para cada usuário, em cada página ou aplicativo.

  1. O usuário abre uma página ou app que tem espaço publicitário.
  2. O site aciona uma plataforma de venda (SSP), que oferece essa “impressão” ao mercado junto com dados sobre o usuário.
  3. Em um leilão em tempo real (RTB, real-time bidding), plataformas de compra (DSPs) fazem lances em nome dos anunciantes.
  4. Vence o lance mais alto que atenda aos critérios, e o anúncio aparece na tela. Tudo isso ocorre antes de a página terminar de carregar.

Assim, a publicidade direta tornou-se residual ou como ferramenta de negociar a opinião do veículo. Disparou o controle da publicidade pelas plataformas.

Em 2016, Google e Facebook detinham 20% da publicidade global (em 2012, esse número era de 10%). A projeção para 2027 é que Alphabet, Meta e Amazon cheguem a 58,8% do mercado global, sem contar a China (Warc).

Peça 4 – os influenciadores e as plataformas

O novo modelo – de medir audiência – em um primeiro momento viabilizou o aparecimento de veículos alternativos, no mesmo formato e mesmo modelo de negócio dos jornais.

Com o tempo, surgiram os influenciadores oferecendo diretamente os produtos e criando uma relação muito mais umbilical com seu público. Tornaram-se, ao mesmo tempo, a mídia e os garotos propaganda dos produtos. Não eram mais modelos impessoais oferecendo roupas, eletrodomésticos. Eram pessoas, com personalidade definida e com empatia explícita com seu público.

Por outro lado, surgiu a competição vigorosa das plataformas de e-commerce. Passaram a operar de forma digital, vendendo espaços no portal da mesma maneira que os supermercados tradicionais vendem espaço nas suas prateleiras: o produtor tem que pagar para conseguir mais visibilidade. Mas, aí, disputando as verbas publicitárias com a mídia tradicional.

O modelo funciona por diferentes mecanismos:
Produtos patrocinados: o fornecedor paga para aparecer nas primeiras posições das buscas.
Destaque nas vitrines: marcas compram espaços privilegiados nas páginas comerciais.
Publicidade direcionada: as plataformas utilizam dados de navegação e compras para oferecer anúncios segmentados.
Campanhas promocionais: fornecedores investem em publicidade para ampliar sua presença em grandes eventos de vendas.

Os maiores anunciantes gastam proporcionalmente menos, e as plataformas absorvem esse crescimento. No Brasil, o que mais pesa sobre a mídia tradicional é o varejo e a indústria farmacêutica (além das bets), somados ao dinheiro público, que é expressivo em valor absoluto e concentrado em poucas agências.

No mesmo período, houve um crescimento exponencial do mercado financeiro e o aparecimento de um novo tipo de competição, com bancos de investimento adquirindo veículos voltados ao mercado para comandar diretamente sua opinião. E os veículos tradicionais foram atrás, conforme atestou Daniel Vorcaro. A muralha chinesa entre redação e comercial foi definitivamente rompida.

Peça 5 – o fim da maratona

Agora, a grande maratona iniciada no pós FHC vai chegando ao final. 

A mídia conseguiu o feito de incutir em parte do país o antilulismo mais selvagem. É um desserviço imenso que impediu, em vários momentos, a montagem de pactos nacionais em defesa de um projeto nacional – e da democracia – entre centro-esquerda, centro-direita, direita civilizada.

Hoje em dia, a mídia respira por aparelhos. Até o fim não conseguiu entender quem era seu público. Não o público das redes sociais e suas matérias caça likes, mas a elite pensante, as lideranças empresariais mais lúcidas, as lideranças populares, a classe jurídica, a área acadêmica. Ficou órfã de todas elas. E a democracia ficou órfã da mídia.

Por outro lado, todo o desafio de garantir a democracia restou nas costas de Lula. Foi preso, em uma conspirata da mídia, do Supremo Tribunal Federal e do Centrão, para impedi-lo de concorrer em 2018. Depois foi solto, como única arma para salvar a democracia brasileira nas eleições de 2022.

Agora, volta como a tábua de salvação não apenas a democracia brasileira, mas a mundial. Uma vitória de Lula seria a sinalização do início da reversão do autoritarismo no mundo. Não por outro motivo, essa eleição vem sendo acompanhada por todos os países.

Vive-se, nesses dias, um momento histórico único na vida do país. E a consagração final de Lula como a grande liderança democrática de um país forjado a golpes de estado e a imediatismo.

Bispos católicos divulgam carta ao "povo brasileiro" sobre 2º turno das Eleições 2026 e criticam ameaças à Democracia, à Constituição e à Soberania Nacional