E o Supremo, com todos os seus defeitos, é uma das últimas cidadelas contra o avanço da ultradireita, associada ao crime organizado.
Do Jornal GGN:
STF no 8 de janeiro de 2023 - foto de Joedson Alves - Agência BrasilÉ fato que o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu a guarda. Nos últimos anos, deixou o pudor de lado, permitiu seu uso para enriquecimento pessoal de ministros e abusou de viagens patrocinadas e seminários pagos. Com isso, criou uma enorme vulnerabilidade geopolítica para o país, da qual se valem os quinta-colunistas do trumpismo.
A campanha midiática contra o STF vai além de qualquer limite jornalístico. Trata-se de uma guerra de extermínio, uma sucessão diária de notícias — como ocorreu no início do caso Master, interrompida pelo áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Essa obsessão tem alvo certo e deve ser analisada no foco da grande guerra pelo controle do país, que será decidida nas próximas eleições. E o Supremo, com todos os seus defeitos, é uma das últimas cidadelas contra o avanço da ultradireita, associada ao crime organizado.
Nas últimas décadas, houve um aumento exponencial do poder dos grandes grupos financeiros internacionais, que se tornaram forças políticas expressivas. A eles vieram se somar as big techs. Sua lógica de crescimento é a derrubada de todas as barreiras regulatórias. E essa soma de forças globais encontrou o escoadouro no personalismo do governo Donald Trump.
Todo o arcabouço de organizações e regulações construído após a Segunda Guerra Mundial foi sendo paulatinamente desmontado. Liquidaram organismos multilaterais, como os dedicados a combater a fome e a promover a saúde global. E agora, sob Donald Trump, investem contra a última cidadela: os estados nacionais, os países..
A questão da soberania não envolve apenas o sentimento nacional. Passa a ser tratado como obstáculo para grandes negócios internacionais.
A diplomacia Trump
A diplomacia de Donald Trump combina três elementos: poder de Estado, interesses de grandes empresas e negócios ligados à própria família. Não se trata de uma aliança formal com divisão pública de cotas, mas de um método recorrente. Washington oferece proteção, financiamento, acesso ao mercado ou alívio regulatório; empresas norte-americanas, e alguns de seus parceiros nacionais, recebem oportunidades em energia, minerais, tecnologia e reconstrução; governos aliados ganham sustentação política; e os negócios da família Trump operam no mesmo ambiente criado pelas decisões presidenciais. Esse modelo, agora, expande-se para o controle político de países – especialmente da América Latina.
O método
- O Estado abre a porta. Tarifas, sanções, ajuda militar, crédito público e pressão diplomática são usados como instrumentos de negociação, interferindo nas eleições nacionais.
- O setor privado ocupa o espaço. Fundos, petroleiras, mineradoras e empresas de tecnologia entram nos projetos apresentados como estratégicos para os Estados Unidos.
- O aliado local recebe apoio. Governos alinhados obtêm financiamento, respaldo eleitoral ou integração preferencial com empresas norte-americanas. E grupos internos, associados, ganham parte do butim.
- A família monetiza a proximidade. Criptomoedas, imóveis, mídia e contratos privados atraem recursos de empresários e governos que também possuem interesses diante da Casa Branca.
A nova diplomacia do bolo
A novidade não é a associação entre Estado e empresas — ela sempre existiu na política externa norte-americana. A diferença está na personalização. Trump atua ao mesmo tempo como presidente, negociador-chefe, promotor de empresas norte-americanas e centro de uma marca familiar global.
Segundo levantamento da Associated Press, uma criptomoeda ligada a Trump gerou pelo menos US$ 320 milhões em taxas, enquanto um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos utilizou US$ 2 bilhões na stablecoin USD1, da World Liberty Financial, empresa associada à família. A estrutura permite que os sócios reinvistam os recursos e recebam juros estimados em até US$ 80 milhões anuais. [7]
A Reuters calculou que a família ganhou cerca de US$ 500 milhões com a World Liberty desde seu lançamento. Uma empresa ligada aos Trump tinha direito a 75% do dinheiro obtido com a venda do token WLFI, descontadas reservas e despesas. [8]
Há ainda contratos que conectam diretamente grandes empresas à família presidencial. A Amazon fechou um acordo de US$ 40 milhões para um documentário sobre Melania Trump, ao mesmo tempo que mantinha interesses regulatórios, fiscais e comerciais diante do governo. [7]
É essa fusão que define sua diplomacia: o poder público abre os mercados, os grupos aliados ocupam os ativos e a proximidade com o presidente se converte em valor econômico.O padrão comum é a transformação da política externa em uma plataforma de negócios:
- A Ucrânia oferece receitas futuras de recursos naturais em troca de reconstrução e compromisso estratégico por parte dos Estados Unidos. As negociações foram tocadas por Jared Kushner, genro de Trump (casado com Ivanka).
- Em Gaza, Jared Kushner e Steve Witkoff foram negociadores-chave do cessar-fogo entre Israel e Hamas. Witkoff é amigo próximo de Trump e bilionário do setor imobiliário.( aol yahoo). No Conselho da Paz, a lista também inclui Marc Rowan, CEO da Apollo, que doou US$ 1 milhão à campanha de 2024, e Yakir Gabay, bilionário imobiliário cipriota-israelense. Kushner e Gabay apresentaram o “plano diretor” para a “Riviera Mediterrânea”. (Agência Pública)
- A Venezuela abre petróleo a empresas escolhidas após intensa pressão norte-americana. Alejandro Betancourt, venezuelano dono da NABEP, foi intermediário com capital privado e operadores americanos. O acordo dá à NABEP uma concessão de 100 anos sobre 17 campos, com cerca de 65 bilhões de barris de reservas.
- A Argentina recebe socorro financeiro enquanto direciona setores estratégicos ao capital dos Estados Unidos. Barry Bennett, lobista que assessorou Trump em 2016, tornou-se o canal privilegiado entre Washington e Buenos Aires (Elagora La Política Online), contando com Rob Citrone, dono do fundo Discovery Capital, investidor importante na Argentina e cliente de sua consultoria (Buenos Aires Times Exame). Leonardo Scatturice, empresário da OCP Tech e ex-agente da SIDE, é sócio de Bennett — uma foto de 11 de junho de 2025 mostra os dois com Trump (Perfil Perfil).
- As Big Techs apoiam o governo e recebem desregulação, infraestrutura e acesso a mercados.
- A família Trump mantém negócios capazes de captar a parte privada do valor produzido por essa rede de relações.
O complexo de vira-lata
No caso do Brasil, juntaram-se vários fatores, tornando a ameaça externa um risco iminente.
Primeiro, o histórico sentimento de vira-lata, que faz com que qualquer manifestação de soberania e de defesa do interesse nacional receba críticas. O comentarista do Estadão produziu um clássico sobre o tema:

O segundo ponto foi o controle de duas fontes de narrativas: as redes sociais e a mídia corporativa. Há meses, os jornais esmeram-se em manchetes negativas sobre o país.
Um dos objetivos mais profundos da guerra híbrida não é convencer a população a apoiar uma tese específica. É algo anterior: romper a confiança de uma sociedade em si mesma. Um país que perde o amor próprio deixa de se perceber como sujeito da história e passa a se enxergar apenas como problema, atraso ou fracasso.
A partir daí, toda disputa fica mais fácil. Se nada funciona, qualquer tutela externa parece razoável. Se o Estado é apresentado como incapaz por natureza, privatizar deixa de ser uma escolha econômica e passa a parecer exigência técnica. Se a política é sempre sinônimo de corrupção, o governo dos “especialistas”, dos militares, dos juízes ou do mercado surge como solução inevitável. Se o país não possui futuro, vender ativos, tecnologia e recursos naturais torna-se apenas uma maneira de escapar do naufrágio.
O ponto principal é que, no final do túnel, encontram-se a estagnação econômica, a rapinagem sobre todas as riquezas nacionais e o retorno dos Estados nacionais ao estágio de dependentes crônicos de produtos primários, com instituições definitivamente estraçalhadas, abrindo mais espaço para o crime organizado.
Mais que isso, refém de uma aliança entre grupos políticos espúrios, o crime organizado infiltrado no mercado financeiro e em todas as instâncias da vida nacional. Com a ultradireita internacionalista assumindo o controle do Executivo, do Congresso e da Suprema Corte, o fim inexorável da democracia.






