quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Xadrez do Brasil sob o perigo Flávio Bolsonaro: como terminaria a democracia, por Luís Nassif

 

Quem vencer em 2026 indicará três novos ministros ao STF. Se Flávio for eleito, a sequência é óbvia, seguindo o modelo [de aparelhamento e controle] de Orbán na Hungria.

Do Jornal GGN:


Xadrez do Brasil sob Flávio: como terminaria a democracia, por Luís Nassif

    Reprodução

Peça 1 — A hipótese: um Brasil governado por Flávio Bolsonaro

Imagine o Brasil a partir de 2027, sob um governo Flávio Bolsonaro, apoiado por maioria no Congresso e por uma nova composição no Supremo Tribunal Federal. E sob o controle da mesma família que assegurou que, para parar o Supremo, bastaria um cabo e um soldado.

(1) O mercado e o crime organizado

A flexibilização regulatória iniciada por Roberto Campos Neto (2019-2024) não será revertida — mas aprofundada. As fintechs que a Operação Carbono Oculto e as operações da Polícia Federal (Quasar, Tank, Fluxo Oculto) mostraram serem dutos de lavagem de dinheiro do PCC continuam operando sob supervisão frouxa. Sem reforço de capital mínimo e de fiscalização, o mesmo modelo que produziu o rombo do Banco Master e a infiltração de R$ 52 bilhões do crime organizado na Faria Lima seguirá de pé — e sem correção, tenderá a se repetir em escala maior.

(2) A perda de soberania

O veto à TerraBras, a aquisição da Serra Verde pela americana USA Rare Earth e o vácuo de controle sobre o capital estrangeiro no setor mineral (temas do PL 2780/2024) deixam de ser exceção para virar política de Estado. Um governo alinhado a Washington, no contexto de pressão coercitiva americana já em curso na região, tende a acelerar a entrega de reservas estratégicas de minerais críticos — moeda de troca disponível diante da escalada que já levou à intervenção na Venezuela. Petróleo na foz do Amazonas, reservas conhecidas e não conhecidas de terras raras, tudo ficará nas mãos de grupos norte-americanos ou grupos financeiros associados ao capital internacional. Acaba o sonho de Brasil nação. Flávio já prometeu a Marco Rubio a participação dos EUA nos planos de governo, o que significa acesso a todas as informações estratégicas nacionais.

(3) O fim da preservação ambiental

Sem meta climática no programa de governo (o plano registrado no TSE não menciona Acordo de Paris, desmatamento ou transição energética) e com o próprio candidato relativizando a existência do aquecimento global em sabatina pública, a política ambiental federal se resumirá à liberação já em curso no Congresso: redução de unidades de conservação (caso Flona do Jamanxim, -37%), Marco Temporal aprovado, mineração liberada em terra indígena.

E os grandes desastres climáticos irão se repetir por todo o país. Globalmente, será a falência do Acordo de Paris, trazendo riscos crescentes à vida no planeta.

(4) O desmonte das grandes estatais

Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal entram formalmente na mesa de negociação. Flávio já declarou que dará “continuidade ao que o Paulo Guedes começou”; aliados mais à direita do espectro bolsonarista (caso Sergio Moro) já defenderam abertamente privatizar Petrobras e todos os bancos públicos, sem a ressalva que o próprio Jair Bolsonaro mantinha para BB e Caixa.

(5) A mudança de regime democrático

Com ao menos 3 indicações ao STF garantidas por aposentadoria natural até 2030 (Fux, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes), somadas aos 2 ministros já indicados por Jair Bolsonaro, mais a possibilidade — com precedente formal na PEC Collor de 2013 — de ampliar o número de cadeiras da Corte para fechar maioria antes disso, o desenho institucional que sustenta o Estado de Direito passará a operar sob o controle de um único campo político. Como mostra a literatura sobre “autocratic legalism” (Hungria, Turquia), não haverá necessidade de um golpe tradicional: a mudança passará por PEC aprovada, indicação constitucional e decisão fundamentada, capturando, com o STF, também o TSE, que tem 3 de seus 7 assentos ocupados por ministros do Supremo.

Peça 2 — Explicando os grupos que apoiam Flávio

(1), (2) e (4) A Faria Lima: pela volta da flexibilização total — e pela escalada de pressão americana

A gestão de Campos Neto (2019-2024) abriu o sistema financeiro por meio da expansão das categorias de instituições de pagamento e fintechs (arcabouço da Lei 12.865/2013), com relaxamento de exigências de capital para entrantes menores. Foi nesse ambiente que o Banco Master, sob Daniel Vorcaro — que visitou o BC ao menos 24 vezes durante o período, segundo a Revista Fórum —, encontrou espaço para expansão meteórica com CDBs a até 150% do CDI.

A Operação Carbono Oculto (MPSP, ago/2025) revelou R$ 52 bilhões movimentados pelo PCC via 42 empresas da Faria Lima, com R$ 30 bilhões aplicados em 40 fundos. Simultaneamente, a Polícia Federal — em operações distintas e específicas, a Quasar e a Tank — cumpriu mandados na própria Avenida Faria Lima; a decisão judicial que autorizou a Quasar aponta a Reag Investimentos (R$ 299 bilhões sob gestão, maior gestora de patrimônio do país) como “principal responsável pela ocultação de valores sem origem”.

Dos 14 mandados de prisão expedidos, só 6 foram cumpridos — a PF abriu apuração interna sobre possível vazamento. Uma nova fase, a Fluxo Oculto (mai/2026), mostrou que o esquema seguiu ativo com seis novas fintechs e R$ 26 bilhões movimentados. Entre os nomes: Maurício Quadrado, ex-Bradesco e ex-sócio do Banco Master, sócio das administradoras Trustee e Banvox, ambas alvo da Quasar — o mesmo operador circulando entre o caso Master e o caso Faria Lima/PCC.

A grande questão é que essa flexibilização abre espaço para o crime organizado, mas também aumenta os lucros do mercado.

XP, BTG e Nubank foram as três maiores distribuidoras de CDBs do Master na liquidação (XP ≈ R$ 26 bi, BTG ≈ R$ 6,7 bi, Nubank ≈ R$ 2,9 bi, de um total de R$ 41 bi garantidos pelo FGC). O ganho documentado aqui é receita de distribuição — comissão sobre volume vendido a varejo —, não lucro direto com a fraude, que não está demonstrado.

No caso Americanas, bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Safra, BTG) financiaram via risco sacado uma operação que mascarava R$ 25,3 bilhões de dívida; a CVM acusou formalmente 8 ex-executivos por venda de mais de R$ 200 milhões em ações antes da revelação da fraude (out/2024).  Ganharam comissões emprestando às Americanas e, depois, vendendo ações da empresa, em cima de balanços falsificados.

No plano da soberania, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram Maduro (jan/2026); o Departamento de Estado classificou PCC e CV como ameaças regionais (mar/2026); essas facções podem ser designadas organizações terroristas — o que abriria caminho para sanções financeiras extraterritoriais sobre instituições que operem com elas, ainda que involuntariamente, via fintechs contaminadas. 

É esse parte do  interesse real e verificável da Faria Lima em relação ao cenário americano.

De um lado, sabe que um mercado financeiro que pode ser alvo de sanções americanas por sua própria exposição ao PCC tem interesse direto em um governo alinhado a Washington, capaz de negociar politicamente essa exposição em vez de enfrentá-la como adversário. Na verdade, a caracterização como organização terrorista visa unicamente abrir espaço para uma futura intervenção norte-americana no país, com intenção política clara. O mercado prefere a rendição ao enfrentamento. Por outro lado, as grandes tacadas norte-americanas sobre os ativos brasileiros sempre terão na ponta fundos de investimento associados a fundos nacionais.

Finalmente, o desmonte das estatais abre enormes possibilidades de negócios.

(3) Agro e mineração: pelo fim das restrições ambientais

Em agenda no Pará, Flávio defendeu pessoalmente a flexibilização do licenciamento ambiental para agronegócio e mineração, no mesmo momento em que estava no centro do escândalo do Master.

A Câmara aprovou, na “Semana do Agro”, o PL 2.486/2026 (reduz ~37% a Flona do Jamanxim) e outros textos que liberam desmatamento em vegetação nativa e dificultam a fiscalização — tramitação discreta, no mesmo período em que a atenção pública estava no Master.

O PL 490/07 (Marco Temporal) e o PL 191/2020 (mineração em terras indígenas) seguem como prioridade da bancada ruralista; aliados avaliam que a aprovação do Marco Temporal pode reduzir a rejeição eleitoral do campo bolsonarista.

Em 2022, coube ao próprio Flávio — “Zero Um” — articular a arrecadação de doadores do agronegócio para a campanha do pai: mais de R$ 9 milhões entre empresários do setor, dos quais R$ 10,7 milhões vieram de fazendeiros e executivos respondendo a acusações de crimes socioambientais (grilagem, desmatamento, sobreposição em terra indígena, trabalho escravo).

(1), (2) e (4) Grupos de mídia: pela subordinação ao mercado financeiro

Peça 3 — Como terminaria a democracia no Brasil

Quem vencer em 2026 indicará ao menos 3 novos ministros ao STF por aposentadoria natural: Fux (abr/2028), Cármen Lúcia (abr/2029), Gilmar Mendes (dez/2030) — somados aos 2 já indicados por Bolsonaro (Mendonça, Nunes Marques), chegando a 5 de 11 ao final do mandato, ainda sem maioria absoluta e só a partir de 2028.

Se Flávio for eleito, a sequência é absurdamente óbvia, seguindo o modelo de Orbán na Hungria..

Como a democracia terminou (ou quase) com Orbán e outros autocratas — passo a passo

Passo 1 — a maioria qualificada que a lei eleitoral amplificou. Em 2010, o Fidesz venceu as eleições com maioria simples de votos, mas a lei eleitoral então em vigor transformou isso em maioria de dois terços no Parlamento — o suficiente para alterar a Constituição sozinho, sem precisar de nenhum outro partido. Esse é o ponto de partida técnico de tudo o que veio depois: sem os 2/3, nada do resto seria possível pela via legal.

Passo 2 — velocidade e volume como estratégia. Nos cinco anos seguintes, o partido aprovou mais de mil leis, a maioria “depois de apenas algumas horas de debate” — a ponto de deputados do próprio Fidesz não saberem o que estavam votando. A velocidade tem uma função: satura a capacidade de reação da oposição, da imprensa e da sociedade civil.

Passo 3 — nova Constituição (2011-2012). Com os 2/3 garantidos, o Fidesz substituiu a Constituição por uma nova (o “Alaptörvény”), criticada pela UE e pela sociedade civil húngara — um eurodeputado a chamou de “cavalo de Troia” de um sistema autoritário.

Passo 4 — captura do Tribunal Constitucional. O tribunal foi colocado sob controle do partido: ampliação do número de juízes, todos indicados pela maioria parlamentar, e redução formal dos poderes da própria Corte.

Passo 5 — reforma eleitoral recorrente. A lei eleitoral e os distritos foram redesenhados várias vezes, sempre a favor do partido no poder — mudança de quocientes, remapeamento de distritos. O resultado: eleições continuaram sendo livres, mas deixaram de ser equitativas.

Passo 6 — captura da mídia. Concentração de veículos privados sob propriedade de aliados (via uma fundação, a KESMA, que reuniu centenas de outlets em 2018), asfixia de mídia independente por falta de publicidade estatal e pressão regulatória. No caso brasileiro, não haveria resistência da parte da mídia corporativa

Passo 7 — captura da autoridade eleitoral. O órgão que administra as eleições passou para controle de indicados do partido.

Passo 8 — perseguição a universidades e sociedade civil. Caso mais visível: a Universidade Centro-Europeia (fundada por George Soros) foi expulsa do país por lei específica; ONGs financiadas do exterior foram alvo de legislação restritiva.

Passo 9 — clientelismo institucionalizado. Entre € 3,2 e € 5,5 bilhões em fundos europeus foram direcionados a uma rede de empresas ligadas ao círculo de Orbán (destaque para o oligarca Lőrinc Mészáros) — a corrupção deixou de coexistir com o Estado de Direito degradado e passou a ser o próprio uso do Estado.

Passo 10 — o nome dado ao próprio regime. Em 2014, Orbán chamou publicamente seu projeto de “democracia iliberal” — um raro caso de autocrata descrevendo o próprio método sem eufemismo, antes de trocar o termo por “democracia cristã”.

Resultado, segundo a Freedom House: a Hungria virou o primeiro país da União Europeia classificado como apenas “parcialmente livre”.

Por que as democracias morrem, por Luís Nassif. Uma análise do golpismo bolsonarista ainda em curso.

 

Há poucos dias para reverter o caos. E existe um empenho gigantesco dos brasileiros democratas e patriotas para impedir o desastre final.


Do Jornal GGN:

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A democracia exige ritos, tanto no processo político quanto no jurídico. São esses ritos que garantem os freios e contrapesos, definem limites e direitos e impedem abusos.

A democracia brasileira começou a morrer no impeachment de Dilma Rousseff. O clamor das ruas, alimentado pela Lava Jato, uma imprensa submissa e um Supremo Tribunal Federal que se deixou intimidar, fizeram com que os procedimentos fossem atropelados. Aceitou-se uma inovação jurídica — as tais “pedaladas” — como fundamento para um processo de impeachment espúrio. Nem o ministro do STF que comandou a ópera bufa acreditava nos argumentos.

Foi um período desmoralizante, no qual uma ministra, Rosa Weber, votou por uma regra que tirava Lula das eleições de 2018 em nome da “colegialidade” — isto é, para acompanhar a maioria. Com o detalhe de que seu voto era o de desempate.

De lá para cá, o trem descarrilhou. Abriu-se espaço para um presidente envolvido com milícias, trazendo para o primeiro plano da política nacional o pior rebotalho político da história. Tentou-se até um golpe de Estado. No último momento, houve uma reação das forças democráticas, o STF acordou e, graças aos poderes conferidos ao ministro Alexandre de Moraes, conseguiu desmontar a primeira tentativa de golpe.

Mas o trem já estava descarrilado. Em nome da defesa da democracia, os procedimentos continuaram sendo atropelados, com o sentido de urgência justificando a pressa em resolver questões para conter a ameaça golpista.

De atropelo a atropelo, a democracia foi recolocada nos eixos. Mas os ritos continuaram sendo desrespeitados, e o poder absoluto cumpriu a regra histórica de corromper quem o exerce. Tudo isso ocorreu em uma quadra de profundas transformações nos tribunais superiores, marcada por práticas inimagináveis em outros tempos: parentes de magistrados atuando nas cortes, viagens internacionais patrocinadas e seminários organizados em torno do poder individual de ministros, depois de atropelada a colegialidade.

Não foi preciso muito para o pequeno André Mendonça conseguir implodir o Supremo. Bastou uma granada de mão para que todo o edifício viesse abaixo. Logo ele, ligado até as tampas ao esquema Bolsonaro e, possivelmente, a Daniel Vorcaro.

Atrás da bomba vieram os justiceiros oportunistas de sempre: juristas e editorialistas de baixíssimo nível, buscando esfolar o Supremo e abrir caminho para Flávio.

Como dois e dois são quatro, na hipótese terrível de uma eleição de Flávio, acaba a democracia brasileira — ou qualquer veleidade de o país sobreviver como nação. Não se trata de passar pano, mas a prioridade máxima é preservar o Supremo.

Nem sei o que acontecerá na sessão de logo mais. Mas, se forem expostas as vísceras do Supremo, para gáudio dos urubus jurídicos e da mídia, pouco restará da democracia brasileira.

A cumplicidade de jornais e jornalistas com o bolsonarismo já conseguiu embolar o meio de campo: trinta dias de manchetes em torno de uma notícia falsa — o envolvimento de Fábio Luís com a esbórnia — lançaram confusão sobre a opinião pública, proporcionaram o crescimento de Flávio e afastaram de Lula o centro e a direita racional.

Há poucos dias para reverter a situação. Mas existe um empenho gigantesco dos brasileiros democratas e patriotas para impedir o desastre final.

Se isso não ocorrer, setembro de 2026 será registrado nos livros de história como o mês em que a imprensa conseguiu destruir a democracia brasileira.

LEIA TAMBÉM:

O grande golpe da "grande" mídia hegemônica hereditária partidária, por Luís Nassif. Uma análise sobre o PiG (Partido da imprensa Golpista, como a ela se referia Paulo Henrique Amorim)

 

Imprensa que seleciona vazamentos, omite contradições e amplifica acusações frágeis deixa de fiscalizar o poder e passa a integrar a disputa

Do Jornal GGN:

    Reprodução


Um dos indícios mais graves de possível manipulação do inquérito do Banco Master surgiu com a constatação de que os HDs contendo os arquivos apreendidos ficaram guardados no gabinete do ministro André Mendonça. Delegados da Polícia Federal destacados para auxiliá-lo admitiram a quebra da cadeia de custódia. Segundo a explicação apresentada à UOL, os equipamentos teriam sido levados à sala do ministro por receio de pressões de Alexandre de Moraes.

A justificativa agrava, em vez de atenuar, o problema. Por maiores que fossem as supostas pressões, elas não autorizariam o atropelo dos procedimentos destinados a preservar a integridade das provas. Moraes poderia questionar a legalidade dos atos praticados, mas não alterar o material submetido à perícia. A cadeia de custódia existe justamente para impedir dúvidas sobre o acesso, o manuseio ou a seleção do conteúdo apreendido.

A pergunta inevitável é outra: que irregularidades os responsáveis pela investigação temiam ver expostas? A hipótese mais evidente é a dos vazamentos seletivos para o setor lavajatista da mídia — mecanismo já conhecido, no qual informações escolhidas chegam a redações alinhadas e passam a orientar a agenda política. Se confirmada essa engrenagem, não se trata apenas de desvio funcional, mas de uma operação com potencial para interferir diretamente na eleição presidencial.

Completa-se, assim, o golpe mais escancarado contra a democracia desde as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. O primeiro movimento foi a campanha contra Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, alimentada pelos vazamentos. Os malfeitos atribuídos aos dois merecem investigação rigorosa. Mas o objetivo imediato da ofensiva parecia ser outro: retirar de Toffoli o controle do inquérito do Banco Master e preparar o terreno para diluir a presença recorrente de Flávio Bolsonaro no caso.

O passo seguinte foi a exploração do episódio envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. No futuro, talvez se erga um Museu do Golpe, à maneira do Museu da Lava Jato, com um painel dedicado a todas as pessoas — delegados, jornalistas e editores — que participaram da patranha. Não cabe tratar os jornalistas como receptores passivos de informações fornecidas pelos delegados ligados a Mendonça. Houve cumplicidade editorial: a fragilidade e a irrelevância do material eram evidentes, mas ainda assim ele foi transformado em manchete durante semanas.

Há dois pontos centrais. O primeiro é o contraste entre o detalhamento do roteiro golpista e a inação do governo e das forças democráticas. Desde o início da campanha contra Toffoli, alertamos que se tratava de mais um passo da Lava Jato 2, destinado a alterar o comando do inquérito.

O primeiro ato de Mendonça foi determinar a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís, extrapolando suas atribuições sem que houvesse indício concreto de participação dele na trama. Em um país com imprensa responsável, a arbitrariedade seria examinada com rigor. Aqui, prevaleceu o jornalismo-sela: quase trinta dias de matérias frágeis, repetitivas e jornalisticamente imprestáveis.

Quando a apuração finalmente se aproximava dos fatos objetivos do caso Master, Mendonça lançou acusações contra Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, numa clara manobra diversionista. Moraes respondeu. Ainda assim, os grandes jornais concentraram seus ataques em Moraes e pouparam Mendonça. O foco nacional deslocou-se novamente para a crise do STF, encobrindo Flávio — a mesma manobra usada no início do caso Master, quando a cobertura privilegiou as relações com integrantes do Supremo e deixou em segundo plano as informações sobre o golpe financeiro e suas conexões políticas.

O segundo ponto é a responsabilidade direta das empresas jornalísticas. Não se trata de exigir silêncio sobre abusos cometidos por ministros do STF, mas de cobrar critérios iguais, apuração independente e respeito à relevância dos fatos. Uma imprensa que seleciona vazamentos, omite contradições e amplifica acusações frágeis deixa de fiscalizar o poder e passa a integrar a disputa pelo poder. Não sei qual será o desfecho dessa mixórdia. Mas, se a eventual eleição de Flávio Bolsonaro resultar de uma campanha sustentada por vazamentos seletivos e por semanas de cobertura manipulada, os grandes jornais terão cometido um dos mais graves atos de irresponsabilidade política de sua história. E não será necessário esperar muito para medir as consequências.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Análise Histórica do analista político Bob Fernandes sobre o golpismo calculado de André Mendonça, levando adiante a ameaça da extrema-direita entreguista aos interesses americanos representado por Flávio Bolsonaro

 

Do Canal do Analista Político Bob Fernandes:





UOL: Dino pede explicações sobre elo entre Master e instituto ligado a Mendonça

 

Do canal UOL:

    O ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), pediu explicações sobre o elo entre o Banco Master e o Instituto Iter, ligado ao ministro André Mendonça. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi recebido por Mendonça no instituto em março de 2025.



Flávio Dino, após ações da PF, aponta possíveis conexões de Mendonça com Banco Master, enquanto STF julga Moraes. Leia a reportagem de Patricia Faermann

 

O ministro levantou possíveis conexões de André Mendonça - o relator bolsonarista que iniciou a saga persecutória contra Moraes - com o banco Master.


Do Jornal GGN:


Dino aponta possíveis conexões de Mendonça com Banco Master, enquanto STF julga Moraes


    Foto: Gustavo Moreno/STF




Pouco antes do julgamento do STF que decidirá se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado por ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o ministro Flávio Dino levantou possíveis conexões de André Mendonça, o relator que iniciou a saga persecutória contra Moraes, com também interesses ligados ao banco.

Na manhã desta terça (15), Dino enviou ao presidente da Corte, Edson Fachin, novos elementos e pediu a apuração de possíveis conexões entre o Banco Master, o Instituto Iter, fundado pelo ministro André Mendonça, e interesses relacionados à concessão dos serviços funerários e cemiteriais de São Paulo.

Na decisão, Dino aponta uma sequência de fatos que exigem o esclarecimento de eventuais relações de Mendonça e o Caso Master. Entre eles, um encontro de Mendonça com o banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Master; a atuação do irmão do ministro na agência reguladora responsável pelo setor funerário de São Paulo e contratos firmados pelo Instituto Iter com órgãos públicos paulistas.

Encontro com Vorcaro ocorreu antes de julgamento

Um dos principais pontos levantados por Dino é a cronologia entre o encontro de Mendonça com Vorcaro e sua atuação em um processo que tratava da concessão dos serviços funerários de São Paulo.

Em 14 de março de 2025, Mendonça recebeu Vorcaro na sede do Instituto Iter, em São Paulo. No dia seguinte, o ministro pediu vista em um julgamento no STF que discutia medidas relacionadas aos serviços funerários, cemiteriais e de cremação na capital paulista.

Segundo a decisão de Dino, naquele período havia interesses de fundos administrados pelo Banco Master relacionados justamente à privatização dos cemitérios. O julgamento havia sido iniciado após medidas adotadas pelo próprio Dino para limitar preços cobrados pelas concessionárias e ampliar mecanismos de transparência e fiscalização.

Mendonça confirmou posteriormente o encontro. Segundo sua versão, a reunião durou entre 20 e 30 minutos e tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, relacionada ao pagamento de precatórios decorrentes de prejuízos envolvendo a Agroindustrial Tabu, uma usina do setor sucroalcooleiro.

O encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), alvo de Operação da PF nesta segunda-feira (leia mais aqui). Em declarações anteriores, Mendonça afirmou que não discutiu o Banco Master com Vorcaro e que se limitou a ouvi-lo.

A versão, entretanto, passou a ser questionada após a divulgação de áudios encontrados no celular de Vorcaro. Em uma mensagem enviada antes do encontro, Ciro Soares afirma ao banqueiro que Mendonça queria recebê-lo e menciona que o ministro já teria conhecimento da situação envolvendo o Banco Central. Segundo o áudio, Cezinha de Madureira também teria conversado com Mendonça sobre o assunto.

Mendonça votou contra medida de Dino

Quando o julgamento foi retomado, em 4 de abril de 2025, Mendonça abriu divergência e votou pela não confirmação da medida cautelar concedida anteriormente por Dino. A decisão acabou sendo novamente suspensa após pedido de destaque e, posteriormente, outro pedido de vista, desta vez do ministro Luiz Fux. Outros ministros acompanharam a divergência aberta por Mendonça.

Para Dino, a proximidade temporal entre o encontro com Vorcaro, o pedido de vista e a posterior atuação de Mendonça no processo é um dos elementos que justificam a necessidade de esclarecimento.

O ministro, porém, faz uma ressalva importante: os fatos apresentados não significam, por si só, que tenha ocorrido interferência externa na atuação de Mendonça. Dino afirma também que não está antecipando qualquer juízo sobre responsabilidade penal ou improbidade administrativa. A eventual caracterização de irregularidades dependeria de investigação própria e da comprovação dos elementos necessários.

Irmão de Mendonça atua na agência reguladora

Outro ponto destacado no pedido é a atuação de Alexandre de Almeida Mendonça, irmão do ministro do STF, na SP Regula, agência responsável pela regulação dos serviços públicos municipais de São Paulo.

Alexandre foi nomeado superintendente da agência em julho de 2024 e, em maio de 2026, passou a ocupar o cargo de secretário-executivo. Segundo a decisão de Dino, sua atuação inclui justamente a área funerária e cemiterial.

O ministro também chama atenção para contratos firmados pelo Instituto Iter, instituição fundada por André Mendonça em 2023 e voltada à formação de lideranças e capacitação de profissionais dos setores público e privado.

Em setembro de 2025, o instituto firmou contrato de R$ 380 mil, por contratação direta, com a Prefeitura de São Paulo para oferecer cursos a agentes públicos municipais. Dino cita ainda outro contrato, também sem licitação, de aproximadamente R$ 1,63 milhão com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vinculada ao governo paulista.

A decisão não estabelece uma relação causal entre esses contratos, o encontro de Mendonça com Vorcaro ou o julgamento sobre os cemitérios. O ministro afirma que a finalidade é justamente permitir que essas conexões sejam investigadas e esclarecidas.

Cortel entra no foco da apuração

O pedido de apuração também mira a Cortel, concessionária responsável pela administração de cemitérios e serviços funerários em São Paulo.

Dino menciona que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, atuou como conselheiro da empresa entre 2022 e 2025. Segundo informações citadas na apuração, Zettel teria utilizado endereços institucionais do Banco Master em documentos relacionados à companhia. A Prefeitura de São Paulo já apura eventual interferência do banco em empresas concessionárias do setor.

Em seu despacho, o ministro determinou que o município de São Paulo e a SP Regula apresentem, em 10 dias, informações e documentos sobre a concessão dos serviços cemiteriais à empresa Cortel, incluindo sua composição societária e eventuais vínculos econômicos, societários ou financeiros com o Banco Master. Também requisitou informações ao Ministério Público de São Paulo e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre relações entre fundos de investimento e as concessionárias de cemitérios da capital paulista.

A íntegra da decisão também foi encaminhada por Dino a Fachin para ser anexada aos autos em que já são apuradas condutas relacionadas a André Mendonça. O ministro afirma que os fatos deverão ser analisados com contraditório e ampla defesa e, conforme o caso, após autorização do plenário do STF.

A nova frente de apuração surge no mesmo dia em que o Supremo realiza uma sessão para discutir as relações de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, provocando uma crise institucional no STF envolvendo as investigações do caso Master. O Plenário também discutirá, na próxima semana, a condução de Mendonça no caso.


Do UOL: Investigação da PF sobre 'Dark Horse' implode mote da campanha de Flávio Bolsonaro | Dani Lima e Charleaux

 

Do UOL:

O ministro do STF Flávio Dino retirou o sigilo da decisão que autorizou uma operação da Polícia Federal no caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro (PL).




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

UOL: Festa das 'suíças' mostra como Vorcaro (o "irmãozão" de Flávio Bolsonaro) comprava intimidade com políticos | Sakamoto

 

Do UOL:

Segundo reportagem do Piauí, Daniel Vorcaro fazia festas como forma de estreitar laços, conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus interesses. Em 2023, escalou duas pessoas para organizar uma festa de Halloween. Ex-ministro de Jair Bolsonaro, Fábio Faria ficou responsável por convidar alguns poucos homens. Já o promoter Tiago Polo encarregou-se de convocar muitas mulheres. No fim, a festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres. Vorcaro tinha preferência por determinado tipo de mulheres para lotar a pista de dança: “Só menina nova.”





Reinaldo Azevedo – André Mendonça impedido mas que impede ainda acesso ao conteúdo do celular de Vorcaro aos outros juízes do STF. Adie a sessão por isso para a outra terça-feira, dia 23, Fachin! Escolha a lei, não o sangue para os canibais bolsonaristas-golpistas

 

 

Da Rádio BandNews FM:




Reportagem de Juliana Dal Piva e Cléber Lourenço citando investigação do Ministério Público: Empresa de produtora de Dark Horse de Bolsonaro ocultou de contrato nome de ‘integrante relevante do PCC’

 

    A dona da produtora Go UP, Karina Gama, que também é a presidente do Instituto Conhecer Brasil assinou em 2024 um contrato de R$ 12 milhões com Alex Leandro Bispo dos Santos, dono da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, até fevereiro deste ano. Santos foi apontado pelo ministro Flávio Dino, na Operação Make Up, como “integrante relevante do PCC” e responde por feminicídio.


    Do ICL Notícias:

MP: Empresa de produtora de Dark Horse ocultou de contrato nome de ‘integrante relevante do PCC’

Documento assinado por Karina Gama, produtora do filme sobre Bolsonaro, previa atuação no Wi-Fi Livre SP


Por Juliana Dal Piva e Cleber Lourenço

A dona da produtora Go UP, Karina Gama, que também é a presidente do Instituto Conhecer Brasil assinou em 2024 um contrato de R$ 12 milhões com Alex Leandro Bispo dos Santos, dono da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, até fevereiro deste ano. Santos foi apontado pelo ministro Flávio Dino, na Operação Make Up, como “integrante relevante do PCC” e responde por feminicídio.

Nas investigações, o Ministério Público de São Paulo apontava que o contrato original entre Santos e Gama foi apresentado “com ausência de dados essenciais de qualificação do representante da empresa, identificado apenas como “Alex”, posteriormente apontado como Alex Leandro Bispo dos Santos”. Ele precisou ser refeito posteriormente para a contratação. O MP-SP ainda diz que, após a prisão de Santos, por feminicídio, a “empresa teria sido formalmente transferida a Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, residente no mesmo endereço do antigo sócio, sem alteração substancial na execução das atividades empresariais, havendo suspeita de blindagem patrimonial e ocultação de pessoas”. O contrato de Santos, porém, não tem relação direta com o filme Dark Horse.

O documento, identificado como CPS 0015/2024, é uma das peças centrais nas investigações que levaram à Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na semana passada. No contrato, ao qual o ICL Notícias teve acesso, está descrito, em detalhes, que Karina Gama contratou a empresa de Santos para participar de um edital da prefeitura de São Paulo.

Contrato entre Karina Gama e Alex Santos

A Polícia Civil de SP já apurava os crimes de “frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas públicas”. Ao informar que Santos é “integrante relevante do PCC”, Dino apontou que a informação veio de órgãos de inteligência policial e pelo Ministério Público de São Paulo. Segundo a revista Fórum, ele seria o “Escorpião do PCC”.

A Polícia Federal apura, na Operação Make Up, suspeitas de desvio de recursos públicos, fraudes contratuais, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A operação atingiu também o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a própria Karina Gama. Entre os 49 alvos da operação desta semana estão empresas que prestaram serviços ao ICB. Entre elas, a Urban Connect, novo nome da antiga Favela Conectada, a Ultra IP e a Complexsys.

Na representação enviada ao Supremo, a Polícia Federal inclui formalmente a Favela Conectada, atual Urban Connect, entre as pessoas jurídicas de interesse da investigação. A PF descreve a empresa como subcontratada pelo ICB no contrato com a Prefeitura de São Paulo e registra que ela recebeu recursos da organização. Em outro trecho, Alex Leandro Bispo dos Santos aparece entre as pessoas consideradas relevantes para a compreensão da estrutura investigada.

Karina Gama tem afirmado para pessoas próximas que contratou a empresa de Santos porque ele já era prestador de serviços do mesmo setor e apresentou a ela todas as certidões tributárias e fiscais e que a empresa estava regularizada. Ao saber do episódio de feminicidio, a empresa estava em período de renovação contratual e o mesmo não foi renovado. A dona da Go UP explicou que a escolha da Favela Conectada se deu porque como o serviço é comunitário, e as relações são dentro das comunidades, é sempre melhor contratar serviços com absoluta dominância local.

O que diz o contrato

O instrumento particular de prestação de serviços tem como objeto a implantação, operação e manutenção de rede de internet pública em 2 mil pontos de Wi-Fi nas zonas sul e oeste de São Paulo, no âmbito do Edital nº 01/SMIT/2024 — o programa Wi-Fi Livre SP, da Prefeitura de São Paulo. O valor global previsto para os 12 meses de vigência é de R$ 12 milhões, a serem pagos mensalmente mediante o envio de ordens de serviço.

Segundo a Revista Fórum, Alex foi o único sócio da Favela Conectada desde a fundação da empresa, em agosto de 2020, até transferir a totalidade das cotas à companheira, em janeiro deste ano. Ele é considerado foragido da Justiça desde o mês passado. Ele é réu pelo feminicídio  Maria Katiane Gomes da Silva, que caiu do 10º andar do prédio onde os dois viviam, na Zona Sul de São Paulo. A polícia obteve imagens de câmeras de segurança que registraram agressões contra Maria Katiane antes da queda. Em 10 de agosto, a  5ª Vara do Tribunal do Júri da Barra Funda determinou o fim da prisão preventiva e impôs medidas cautelares, mas ele não foi mais visto.

A empresa foi criada como ALBS Consultoria Empresarial, mudou o nome para Favela Conectada em setembro de 2024 e, em agosto de 2025, tornou-se Urban Connect Serviços e Tecnologia. Em 27 de fevereiro de 2025, a empresa Favela Conectada pediu à instituição financeira aumento do limite para transferências via TED, solicitando um limite diário de R$ 600 mil e de R$ 300 mil por operação. Como justificativa, informou que passaria a receber recursos de um contrato com o ICB relacionado ao Wi-Fi Livre SP. O negócio era de R$ 12 milhões.

A instituição encontrou inconsistências nos documentos apresentados. A primeira versão do contrato tinha assinatura simples, não apresentava data e não permitia verificar sua autenticidade.

Após questionamentos, a empresa entregou outra versão, com firmas reconhecidas e assinaturas das partes. Ainda assim, segundo a investigação, não estava claro como havia sido calculado o valor contratado.

No dia seguinte ao pedido de aumento do limite, em 28 de fevereiro de 2025, a empresa recebeu R$ 611.111 do ICB. Em 16 de abril, entraram outros R$ 666.666,67. Nove dias depois, em 25 de abril, a Urban Connect transferiu R$ 250 mil para a Ultra IP Tecnologia e Serviços, outra empresa que aparece entre as principais destinatárias de recursos identificadas pela PF.

Recursos vieram principalmente da Prefeitura de São Paulo

O ICB mantinha contrato com a Prefeitura de São Paulo para implantação e manutenção de pontos gratuitos de internet em regiões periféricas. O projeto tinha valor inicialmente estimado em R$ 108 milhões e foi posteriormente ampliado por aditivos.

A análise financeira citada na decisão aponta que os recursos recebidos pelo instituto eram predominantemente oriundos da Prefeitura e depois distribuídos a um grupo de empresas. Em uma das comunicações financeiras analisadas pela PF, referente ao período entre maio de 2025 e maio de 2026, a Prefeitura de São Paulo aparece como a principal remetente de recursos ao ICB, com R$ 47,34 milhões enviados em 14 lançamentos.

Em um dos conjuntos de movimentações, o ICB aparece recebendo R$ 24,59 milhões. A Make One Tecnologia Digital recebeu R$ 16,97 milhões; a Complexsys, R$ 7,8 milhões; a Fastfuture, R$ 5,55 milhões; e a Ultra IP, R$ 4,4 milhões. A Favela Conectada, atual Urban Connect, aparece entre as destinatárias desses recursos. Segundo o relatório, a empresa recebeu R$ 7.874.943,40. A própria PF relaciona esses pagamentos à condição da empresa como uma das contratadas pelo ICB no âmbito dos contratos firmados com o Município de São Paulo.

A investigação sobre esses contratos municipais foi conectada à apuração de emendas parlamentares destinadas ao ICB e à Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por Karina Gama. Ao analisar o conjunto das movimentações, a PF afirma que o ICB aparece como o “principal captador de recursos da rede investigada”. Segundo os investigadores, os valores eram “predominantemente oriundos da Prefeitura de São Paulo” e depois distribuídos a um grupo relativamente restrito de empresas, entre elas Urban Connect, Complexsys, Fastfuture e Ultra IP.

A investigação também passou a analisar a circulação de recursos envolvendo a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse e empresa de Karina Gama. Na representação, a PF afirma que a produtora foi identificada como destinatária de recursos provenientes de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, o que, segundo os investigadores, revela uma “possível integração patrimonial e operacional” com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares.

Nota da defesa de Karina Gama

“A defesa da Sra. Karina Gama recebe com absoluto respeito e considera positiva a decisão do Ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo.

A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa.

Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.

Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito.

A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados.

A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política.

Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal.

Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.

Ao contrário, deseja que o Brasil tenha acesso à realidade integral dos acontecimentos e que cada documento, contrato, pagamento e circunstância seja examinado tecnicamente, dentro da legalidade e sem contaminação por disputas políticas ou narrativas previamente construídas.

A Sra. Karina Gama continuará colaborando com as autoridades competentes e exercendo, com serenidade, seu direito constitucional de defesa, convicta de que a verdade dos fatos prevalecerá.

A Constituição protege a investigação, mas também protege o investigado. E é justamente nos casos de maior repercussão pública que essa garantia precisa ser mais rigorosamente observada.

Ricardo Sayeg
OABSP 108.332”