terça-feira, 14 de maio de 2024

Xadrez do segundo tempo de 8 de janeiro, agora envolvendo as inundações do RS com enchentes de fak news calculadas, e o New Deal de Lula, por Luís Nassif

 

Há inúmeras semelhanças com a tentativa de golpe de 8 de janeiro com a ação de políticos, parte da grande mídia empresarial-rentista e bolsonaristas hoje. Essa semelhança pode ser sintetizada em três eixos, confome aponta Luis Nassif em seu artigo.





Monto esse Xadrez com a ajuda inestimável do Luiz Melchert, na identificação da estratégia bolsonarista.

Há inúmeras semelhanças com a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Essa semelhança pode ser sintetizada em três eixos.

Eixo 1 – Bolsonaro se abrigando no seu bunker

Na intentona de 8 de janeiro, Bolsonaro abrigou-se, antecipadamente, no seu bunker em Orlando. Agora, se abriga em um hospital. Na condição de paciente, pode receber visita de todos seus filhos, do governador paulista Tarcísio de Freitas e de envolvidos no 8 de janeiro, sem ser incomodado.

Efeito 2 – a operação de Fakenews

No pré-8 de janeiro, foi a campanha articulada contra as urnas eletrônicas. Agora, é a mesma estrutura de Fakenews contra a suposta incapacidade dos governos em enfrentar o problema. Desligitamam o governo, dão a entender que o povo é dono do seu próprio destino e, por trás desse discurso, a figura do bolsonarismo.

Os personagens centrais da atual onda são todos bolsonaristas: Pablo Marçal, Nego Di, Eduardo Bolsonaro, Senador Cleitinho, governador Jorginho Mello, Nikolas Ferreira, Gayer. É significativo que a primeira fake de Pablo Marçal tenha sido endereçado a Eduardo Bolsonaro. Aliás, hoje é a figura central do discurso de ódio, um mitômano com milhões de seguidores.

O prefeito de Farroupilha – perfeito idiota de novela de Dias Gomes – escancarou o jogo na tentativa de armação em cima do Secretário de Comunicação de Lula, Paulo Pimenta.

Efeito 3 – a teoria do choque

É óbvio que há um comando central, o mesmo de 8 de janeiro. Tenta-se reeditar parcialmente a estratégia da “teoria do choque” – desenvolvida na Universidade de Chicago de Milton Friedman.

Na economia, a teoria do choque se refere à ideia de que a implementação rápida e radical de reformas econômicas, mesmo que dolorosas no curto prazo, pode levar a um crescimento econômico de longo prazo. Essa teoria foi popularizada pelo economista Milton Friedman e tem sido aplicada em vários países, incluindo o Chile e a Polônia. É chamada de teoria do choque porque é implementada em situações de choque – político, desastres naturais -, em que há espaço para desestabilização das instituições.

Foi o que ocorreu no Brasil no pós-impeachment, reeditando o que ocorreu em várias regiões dos Estados Unidos, após o furacão Katrina. Houve a privatização selvagem dos serviços públicos, deslocamento de populações, impacto desproporcional sobre comunidades marginalizadas, tudo isso na esteira da desorganização que tomou conta das regiões afetadas e da desmoralização da ação pública.

O cenário dos conspiradores é relativamente óbvio:

  1. A tragédia do Rio Grande do Sul terá longa duração. À medida em que o tempo passe, aumentará a revolta contra a incapacidade do Estado brasileiro em administrar a crise na velocidade exigida pelas vítimas. Pela complexidade do problema, haverá problemas em qualquer nível de eficácia que o governo demonstre.
  2. Ao mesmo tempo, haverá impactos severos sobre a economia, acabando com a fantasia do déficit zero e abrindo espaço de conflito com o mercado.
  3. A economia real será afetada pelo impacto sobre a safra e a economia gaúcha.

Em suma, haverá meses de turbulências pela frente, com impacto no mercado e na macroeconomia, discussão sobre a distribuição da ajuda. Enfim, um pandemônio que jogará pela janela toda a tentativa de normalizar o dia a dia da economia e da política.

E, aí, entra em cena o modelo do New Deal.

Efeito 4 – o modelo do New Deal

A crise de 1929 inspirou o New Deal, de Franklin Delano Roosevelt. A base do plano foi a criação de um sentimento de união nacional, inclusive utilizando os novos meios de comunicação (das rádios, com programas diários de Roosevelt, aos filmes de Frank Capra), e obras públicas com o intuito de gerar empregos e renda.

A campanha de ódio – que tem no mitômano Pablo Marçal a peça central – visa impedir essa solidariedade. É relevante observar que um dos alvos dos ataques são as Forças Armadas envolvidas na operação.

O desafio do governo será em duas frentes:

  1. Frente política.

Montar um plano eficiente de promoção da solidariedade, recorrendo a artistas populares, influenciadores, lideranças civis empresariais e de. movimentos sociais.

  1. Plano de recuperação

O segundo desafio será um plano de ação eficiente para coordenar a recuperação do Rio Grande do Sul.

O New Deal criou vários mecanismos de coordenação:

  • Criação de novas agências governamentais: O New Deal criou uma série de novas agências governamentais, como a National Labor Relations Board (NLRB), a Federal Housing Administration (FHA) e a Works Progress Administration (WPA). Essas agências foram responsáveis por implementar os programas e políticas do New Deal.
  • Conselhos de assessoria: O presidente Roosevelt criou uma série de conselhos de assessoria para fornecer conselhos sobre questões econômicas e sociais. Esses conselhos incluíam o Council of Economic Advisers (CEA), o National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Administration (AAA).
  • Cooperação intergovernamental: O governo federal cooperou com os governos estaduais e locais para implementar os programas do New Deal. Isso foi feito por meio de doações federais, acordos de compartilhamento de custos e outras formas de assistência.
  • Relações com o setor privado: O governo federal também trabalhou com o setor privado para implementar os programas do New Deal. Isso foi feito por meio de regulamentações, incentivos fiscais e outras formas de cooperação.
  • Comunicação pública: O governo Roosevelt usou uma variedade de ferramentas de comunicação pública para promover o New Deal e explicar seus objetivos ao público americano. Isso incluiu discursos de rádio, conferências de imprensa e materiais informativos.

Os especialistas atribuem o sucesso do New Deal aos seguintes fatores:

  • Liderança forte: O presidente Roosevelt forneceu uma liderança forte e visionária para o New Deal. Ele foi capaz de articular uma visão clara para o país e mobilizar o apoio do público e do Congresso para seus programas.
  • Pragmatismo: O governo Roosevelt estava disposto a experimentar novas ideias e programas para lidar com a crise. Essa flexibilidade foi essencial para o sucesso do New Deal.
  • Compromisso com a justiça social: O New Deal estava comprometido com a promoção da justiça social e da igualdade de oportunidades para todos os americanos. Isso se refletiu em programas como a Social Security e a Fair Labor Standards Act.

Para o bem ou para o mal – espera-se que para o bem – o governo Lula começará agora.

A desinformação fascista sobre desastres como do RS criou raízes. Mas há sim como combatê-la. Leia um pequeno trecho do artigo de Natália Viana, da Agência Pública

 

Segue um trecho da coluna de Natália Viana:

É fato. Toda tragédia ou desastre, como a atual calamidade no Rio Grande do Sul, que chega a mobilizar a sociedade e unir as atenções, trará sempre consigo uma realidade alternativa, paralela, criada por redes de desinformação que acharão sempre uma maneira de se beneficiar do caos. Como bem sabe o leitor, vivemos em um ambiente informativo altamente concentrado, privatizado e sem regras, um faroeste digital, em que as mentiras se espalham sete vezes mais que as verdades porque plataformas e mentirosos lucram juntos. Então, enquanto não se regular o ambiente em que viajam as notícias, assim será. 

Haverá sempre alguém que ganha ao espalhar mentiras, por exemplo, corroendo a confiança em governos eleitos democraticamente, sejam locais, estaduais ou federal. Haverá quem lucra com o pânico, conseguindo alavancar doações para entidades de reputação duvidosa. Haverá quem lucra com golpes contra aqueles que estão desesperados. E haverá, fruto muito do nosso tempo, quem consegue encaixar todo e qualquer desastre em narrativas de mais longo prazo, como é o caso do bolsonarismo, que usa a atual crise não só para criticar o governo Lula, mas para criar desconfiança em relação a instituições governamentais essenciais, como a própria Anvisa, acusada de impedir a chegada de medicamentos ao Rio Grande do Sul, que teve que desmentir em nota oficial. (...).

Leia o artigo completo no site da Agência Pública

Reinaldo Azevedo: Sem regular redes sociais, seremos governados por 'coronéis' enquanto as pessoas padecem

 

Do UOL:

O colunista Reinaldo Azevedo fala sobre a onda de fake news sobre a tragédia das chuvas no Rio Grande do Sul. Com apresentação de Fabíola Cidral, Reinaldo Azevedo analisa os principais assuntos do dia. O Olha Aqui! vai ao ar às segundas, quartas e quintas, ao vivo, às 13h.



Reinaldo Azevedo: Quantos dilúvios e secas o Congresso reacionário bolsonarizado planeja para o futuro?

  Um congresso reacionário bolsonarizado, fomentado pela bancada ruralista do boi, da bala e da bíblia, contra o meio-ambiente ecologia, é problema e causa de problemas, não é solução...

Da Rádio BandNews FM:




segunda-feira, 13 de maio de 2024

TV AFIADA: DANIELA LIMA DETONA BOLSONARISTAS AO VIVO E EXPÕE FAKE NEWS DA DIREITA

  Dois vídeos disponibilizados pela TV Afiada a partir do Globo News:


Vídeo 01: Daniela Lima expõe as táticas de deturpação e fake news dos bolsonaristas

Daniela Lima detona bolsonaristas ao vivo na GloboNews e explica didaticamente como funciona o mecanismo de fakes bolsonaristas após mentiras sobre o Rio Grande do Sul.


Vídeo 02: Daniela Lima desabafa sobre os ataques dos bolsonaristas a ela

Daniela Lima, que viralizou na TV e na internet por ter mostrado o passo a passo do trabalho de bolsonaristas na criação de fake news sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, virou alvo de uma mentira espalhada por eleitores do Bolsonaro. Na informação falsa propagada em redes da extrema-direita, Daniela teria menosprezado o trabalho de voluntários no Rio Grande do Sul.






Marco Antonio Villa: TRAGÉDIA GAÚCHA EXPÕE CRUELDADE DE BOLSONARO E SEUS ASSECLAS


Do Canal de Marco Antonio Villa:



Gestão do RS colocou estado à venda e permitiu deterioração ambiental

 

Os efeitos do aquecimento global são uma realidade e tendem a ser cada vez mais frequentem, mas políticas públicas corretas poderiam mitigá-los

Do Jornal GGN:

Crédito: Defesa Civil/ RS


O número de gaúchos em abrigos dobrou em menos de 24 horas, de acordo com o boletim da Defesa Civil divulgado às 18h desta segunda-feira (6), em razão das fortes chuvas que atingem o estado desde o final de abril. 

Até as 12h de segunda, 20.070 pessoas recorreram a abrigos para fugir de inundações. Seis horas mais tarde, o total de abrigados era de 47.676. 

O órgão estadual informou ainda que o número de desalojados em todo o estado ultrapassou a marca de 153 mil, e que mais de um milhão de cidadãos foram afetados pelos temporais desde a última semana. 

Para explicar as razões que levaram mais de 300 municípios do Rio Grande do Sul ao estado de calamidade, o programa TVGGN contou com a participação do professor doutor Rualdo Menegat, titular do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS. 

Segundo Menegat, é plausível, sim, a justificativa de que tamanho caos é consequência da precipitação de 800 milímetros em quatro dias seja um dos fatores que explicam o estado de calamidade pública – volume que equivale a precipitação do outono inteiro. 

Porém, o estado carece de serviços ecossistêmicos e, assim, em vez de a água se infiltrar no solo, ela corre pela superfície carregando argila e chega rapidamente aos cursos d’água. 

“A questão central é que sim, por um lado temos a descarga d’água e por outro lado temos a questão da desestruturação dos serviços ecossistêmicos. É o rio natural que transporta a água, são as matas ribeiras que conseguem reter a água, que conseguem frear a velocidade das águas, são os balneários que funcionam como uma esponja, facilitando a infiltração da água. Esse conjunto vem sendo desestruturado por políticas públicas, políticas essas que têm tornado o Rio Grande do Sul um quintal da soja. Somos um quintal da China que produz soja”, aponta o doutor. 

Rualdo Menegat comenta ainda que o agronegócio não está preocupado aos danos causados ao meio ambiente. Não há respeito do setor pela faixa mínima de proteção aos rios, o que deteriora o ecossistema, assim como o uso intensivo da monocultura para a produção de soja precariza o solo. 

Existe, ainda, a conivência do setor público neste processo de deterioração ambiental. “Os planos diretores têm colocado as cidades praticamente à venda. Há especulação imobiliária sem limites. No caso do de Porto Alegre, inclusive, favorecendo a implantação de espigões exatamente na margem agora totalmente inundada do Lago Guaíba”, continua o entrevistado.

Gestores

Além da especulação imobiliária, os gaúchos têm de lidar ainda com o caos no estado graças às gestões de Eduardo Leite (PSDB) no estado e Sebastião Melo (MDB) na prefeitura de Porto Alegre. Em 2019, Leite alterou cerca de 500 artigos do Código Ambiental do Rio Grande do Sul. 

“Hoje alguém que vai implantar uma plantação pode ele mesmo fazer o auto licenciamento ambiental. É inacreditável, do ponto de vista técnico, do ponto de vista da gestão territorial, porque obviamente não tem critérios. Isso vai levando a uma situação limite das configurações da paisagem e que agrava o ambiente”, continua Menegat. 

Ainda que o aquecimento global e, consequentemente, as chuvas mais intensas sejam uma realidade, os efeitos dos elementos climáticos podem ser mitigados com políticas públicas corretas, segundo o professor doutor. Uma delas é a boa gestão do território. 

Menegat ressalta ainda que ter uma infraestrutura estadual adequada para responder aos eventos climáticos, com a Defesa Civil equipada e munida de metodologias, é um ponto importante. “Ano passado foram definidas uma série de questões de melhoria da Defesa Civil, de implantação, e elas não tem ocorrido da forma necessária. No mínimo, o que podemos dizer é que estão atrasadas. Não houve dedicação, vontade política fundamental. E isso, claro, vai ter um preço em uma época em que a frequência dos eventos climáticos está anunciada no IPCC.”

Despreparo

Em 2023, o Rio Grande do Sul foi atingido por um grande volume de chuvas três vezes entre junho e novembro. Mas, em vez de aumentar o orçamento para a Defesa Civil, o orçamento da pasta foi reduzido pela metade e contou com apenas R$ 50 mil em 2024 para responder a emergências. 

O doutor afirma ainda que o Rio Grande do Sul carece de inteligência de estado para responder aos eventos climáticos cada vez mais frequentes. “Eduardo Leite afirma que ninguém esperava uma precipitação de 800mm. Até pode ser verdade. Mas esperava uma de 500mm.” 

Assim, o estado precisa investir em uma estrutura capaz de oferecer o mínimo aos cidadãos, como a garantia do funcionamento de hospitais e orientação sobre como proceder em caso de chuvas fortes e onde os cidadãos podem se abrigar com segurança. 

Caso contrário, os gaúchos seguirão enfrentando situações que beiram o limite do caos e do sofrimento humano. “Há cerca de 200 mil desabrigados. Crianças que se separaram dos pais, números que dão conta de mais de 200 crianças nessa situação. Desabastecimento de água e energia elétrica, avisos errôneos de evacuação de rompimento de diques que não se verificam”, critica o entrevistado.


Rio Grande e o grande desafio da reconstrução da democracia, por Luís Nassif

 

É preciso devolver ao país o sonho do pacto nacional de reconstrução, sabendo que uma falha será explorada vilmente pela turba bolsonarista.


Do Jornal GGN:

Repito o que escrevi no “Xadrez do segundo tempo de 8 de janeiro e o New Deal de Lula“. O movimento de fakenews atual, em torno da tragédia do Rio Grande do Sul, emula em tudo a conspirata de 8 de janeiro.

  1. Bolsonaro esconde-se em um bunker. Em 2022, em Miami; agora, no hospital.
  2. Há um movimento articulado de redes, tentando desqualificar a ação do governo na tragédia, da mesma maneira com que tentaram fazer em relação às urnas eletrônicas.
  3. Junto, o discurso de ódio articulado por influenciadores, dos quais o mais ostensivo é um tal de Pablo Marçal, que parte para a agressão ostensiva contra os poderes, nitidamente esperando um confronto.

Todo esse alvoroço do bolsonarismo tem uma razão de ser: uma tragédia, da proporção da gaúcha, permitirá a consolidação de um pacto de solidariedade nacional, dependendo da maneira como o governo se conduzir nesse episódio.

O exemplo óbvio é o New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, que salvou os Estados Unidos – e a própria democracia – após a crise de 1929.

No artigo detalhamos aspectos centrais do plano. Os pontos centrais foram a constituição de vários comitês para organizar o plano de ação e de gastos do governo; o foco central na questão social e na construção da solidariedade.

É curiosa a comparação da tragédia gaúcha com aquela produzida pelo furacão Katrina nos Estados Unidos.

O furacão Katrina inundou uma área superior a 225.000 km², afetando severamente os estados da Luisiana, Mississipi e Alabama. As cidades de Nova Orleans e Gulfport sofreram os danos mais extensos, com grande parte de suas áreas submersas sob as águas da inundação.

Calcula-se que houve o deslocamento de mais de 1 milhão de pessoas, saindo de suas casas e abrigando-se em outras regiões. O custo total ficou entre US$ 100 e US$ 200 bilhões, representado pela reconstrução de casas, empresas, estradas e pontes, além dos esforços humanitários.

A reconstrução da infraestrutura básica, energia e água potável, foi completada nos primeiros meses. Mas a reconstrução de casas, empresas e comunidades foi um processo mais lento, exigindo um esforço conjunto de governos, organizações sem fins lucrativos e moradores locais.

Assim como em Porto Alegre, a principal causa do desastre foram as falhas nos sistemas de diques de contenção de Nova Orleans. Os maiores afetados foram as comunidades de baixa renda.

Ainda não há um cálculo da extensão da área alagada no Rio Grande do Sul. Mas o número oficial de famílias desabrigadas é de 537.380. Mais de 81.285 pessoas estão em abrigos temporários espalhados pelo estado.

Há um mar de possibilidades à frente, se houver planejamento, determinação política e foco na responsabilidade social e ambiental.

No plano fiscal, há uma série de medidas possíveis, já adotadas em outras épocas, como empréstimo compoulsório, CPMF para financiar a transição ambiental do país, além das aguardadas tributações sobre renda e patrimônio. Há ainda os recursos orçamentários disponíveis.

Mas o grande desafio será o do planejamento da reconstrução do estado. Será demorado, custoso, polêmico e com o gabinete do ódio explorando maciçamente as dificuldades de atuação oficial na região.

Administrar esse desastre será uma questão de vida ou morte para a democracia brasileira. Um fracasso do governo abrirá espaço para a volta do bolsonarismo. Daí a responsabilidade de Lula, de espelhar-se no planejamento do New Deal, cercar-se de gestores competentes e valer-se da criatividade e da ousadia para o redesenho do Rio Grande do Sul.

Tem que explorar com eficiência o sentimento de solidariedade que brotou em todo país; articular adequadamente as parcerias com o estado e os municípios; envolver o setor privado, especialmente o setor bancário – puxado pelo Banco do Brasil e BNDES. E, principalmente, devolver ao país o sonho do grande pacto nacional de reconstrução, sabendo que qualquer falha será explorada vilmente pela turba bolsonarista.

Rio Grande do Sul: a catástrofe e a Chance, por Jessé Souza

 

É a chance de mostrar na cara dos negacionistas que a culpa não é da natureza, mas sim deles próprios


Do site ICL Notícias:

Todos nós ficamos chocados com as cenas de uma Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, arrasada, e um estado que enfrenta a destruição social e econômica.

Nessa hora trágica, a desigualdade onipresente brasileira se manifesta, mais uma vez, já que os ricos podem se movimentar e se resguardar, mas os pobres, com casas e sonhos destruídos, não têm a mesma mobilidade.

Apesar de toda a destruição e da compaixão com as vítimas — o estado vai ter que ser reconstruído — existe um aspecto de oportunidade e de chance nesta tragédia.

É a chance de mostrar na cara dos negacionistas que a culpa não é da natureza, mas sim deles próprios. É uma oportunidade também para expor as contradições do agro (suposto pop) selvagem nacional e do seu potencial destrutivo.

Refazer a cadeia de causa e efeito é fundamental agora. E ela nos leva à crítica de todo um modelo de capitalismo selvagem baseado na destruição da natureza e no saque da riqueza de todos. É preciso aproveitar as janelas de oportunidade que se abrem.

O Rio Grande do Sul e o calor intenso em muitas capitais no outono mostram, sobejamente, que não temos tempo a perder. E quem atrasa qualquer projeto nacional para uma transição de matriz energética é o agronegócio e seus aliados no sistema financeiro.

É preciso apontar o dedo e mostrar o verdadeiro culpado. O negacionismo bolsonarista também pode ser contraposto de outra maneira a partir de agora.

O fundamental é que essa janela de oportunidade seja percebida pelos que podem alavancar e elevar a racionalidade mínima de uma sociedade entregue à propaganda e a manipulação do pior tipo. A humanidade e seu aprendizado, infelizmente, vivem das catástrofes.

A Segunda Guerra Mundial pariu um mundo, para citar apenas um exemplo dentre muitos, que elevou a humanidade a outro patamar civilizatório. A democracia, o respeito a autonomia dos povos, o acordo social-democrata, todos são decorrentes do aprendizado do pós-guerra.

As situações limite impõem a reflexão sobre o que é essencial e o que é secundário, e este é um grande processo de aprendizado civilizatório.

A tragédia do Rio Grande do Sul é a nossa maior catástrofe até aqui. Precisamos usar este fato, além de ajudar as vítimas, obviamente, para nos contrapor aos negacionismos, que servem ao capital predador, e conseguir também um outro patamar civilizatório para o país.

A luta contra a desigualdade e o cuidado da natureza precisam andar juntos e serem postos acima de qualquer outra coisa. E a inundação do estado gaúcho nos fornece a melhor janela de oportunidade que poderíamos ter.

Mas é preciso primeiro inteligência, para compreender a importância da chance, e, depois, coragem para agir. A urgência deste assunto é para ontem.


Extrema-direita (neofascista) e o RS: fake news podem ser analisadas como causa e efeito, por Pedro Barciela

 

rrelevante no tema, extrema-direita apela para informações falsas como solução para interferir no debate sobre o RS


Texto de Pedro Barciela, publicado no site do ICL Notícias:

Um dos pontos que mais geraram atenção da imprensa e do governo federal foram as inúmeras fake news que foram disseminadas ao longo dos últimos dias. Abordando temas que vão desde suposta escassez de arroz até a recusa de auxílio internacional e passando por um boicote contra doações, estes conteúdos apresentam uma linha única de condução: descredibilizar a atuação do poder público no amparo e atendimento à população gaúcha.

A partir de uma análise perspectivista das redes sociais este movimento precisa ser entendido não apenas como causa (de um cenário ainda mais caótico), mas também como efeito. Seria assim uma consequência de um ambiente de debate nas redes onde a oposição, aqui liderada pela extrema-direita, não estaria conseguindo incidir no debate por meio de caminhos oficiais, político-partidários e/ou institucionais. Assim, a atuação de entes municipais, estaduais e federais, bem como o engajamento da sociedade civil com campanhas de solidariedade acabaram por superar, no debate sobre o tema, os clusters polarizados nas redes sociais.

Assim, as avalanches de notícias falsas que assolam o debate sobre o tema são uma – se não a única – forma encontrada pelo bolsonarismo até aqui para incidir no debate sobre a tragédia no Rio Grande do Sul. Ainda sob o prisma da análise perspectivista de redes sociais, é essencial que analisemos para além da quantidade de conteúdo produzida. É preciso compreender quem percebe e como percebe esse tipo de conteúdo. Precisamos, para além de análises quantitativas, analisar os impactos deste tipo de conteúdo no local da tragédia (estado do RS) mas também nos outros estados da federação indiretamente atingidos pelo evento (ex.: notícias falsas sobre escassez de arros). Apenas esse tipo de análise nos proporcionará elementos confiáveis para lidar com este tipo de conteúdo, evitando assim uma reação caótica e cacofônica no combate às fake news que, neste momento, só atende os anseios da extrema-direita no país.