sexta-feira, 26 de junho de 2026

Alvo da PF, Banco Digimais, do mercador Edir Macedo, dono da Igreja Universal, foi denunciado um mês antes do Master por praticar mesmo tipo de golpe

 

Com rombo de R$ 8,5 bilhões, instituição financeira de Edir Macedo teria inflado patrimônio com ativos podres e contratos falsos

Do Jornal GGN:


O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira (23), em decorrência de investigações sobre irregularidades no Banco Digimais. O caso traz à tona detalhes revelados em reportagem da revista piauí, assinada pela jornalista Consuelo Dieguez em março de 2026, que expõe uma crise profunda na instituição, cujo rombo estimado chega a 8,5 bilhões de reais.

A relação de Edir Macedo com o Digimais começou em 2009, quando ele adquiriu 40% do então Banco Renner, aumentando sua participação até assumir o controle total em 2020, quando a instituição foi rebatizada. Sob sua gestão, o bispo nomeou lideranças ligadas à Igreja Universal, como o bispo João Urbaneja, para comandar o banco, apesar da falta de experiência técnica desses nomes no mercado financeiro.

A reportagem da piauí aponta que o Digimais apresenta conexões estreitas com o escândalo do Banco Master, compartilhando os mesmos tipos de ativos e, em alguns casos, os mesmos gestores e administradores. A ID Corretora, que administra alguns fundos do Digimais, possui em seus quadros ex-executivos do Master, e o mercado suspeita que ela tenha absorvido carteiras da Reag, gestora ligada ao Master que foi liquidada pelo Banco Central.

Um mês antes do caso Master explodir, o Banco Digimais foi denunciado ao Banco Central após o fundo de investimento EXP1 relatar ter sido lesado em uma operação de 650 milhões de reais. Segundo a piauí, o fundo adquiriu carteiras de crédito consignado do banco, mas uma auditoria internacional descobriu que 22 mil contratos, no valor de 500 milhões de reais, eram falsos e não possuíam lastro. O Digimais teria admitido a inexistência dos créditos, que eram compostos por ativos originados justamente pelo Banco Master e pela Reag.

As fraudes praticadas por ambos os bancos, conforme detalhado pela reportagem, consistiam primordialmente na inflação artificial do patrimônio para forjar uma solidez financeira que permitisse a emissão desenfreada de novos títulos de dívida, os CDBs. De forma didática, a piauí explica que as instituições utilizavam “ativos podres” — como títulos da Vale da década de 1920 sem valor real ou terrenos superavaliados em mais de dez vezes o preço de mercado — para “maquiar” os balanços e elevar o patrimônio líquido. Com o balanço inflado artificialmente, os bancos podiam captar mais recursos de investidores, muitas vezes oferecendo taxas de retorno muito acima do mercado e utilizando a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como isca para atrair clientes, enquanto negociavam carteiras de crédito fictícias entre si para ocultar rombos bilionários.

Segundo a reportagem, hoje o Digimais é presidido por Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco Central, que foi chamado para tentar reestruturar a instituição, focando em áreas como crédito consignado e financiamento de automóveis. Sua missão principal é “limpar” o balanço do banco para torná-lo atraente para uma possível venda. A piauí aponta que sua nomeação pelo bispo Edir Macedo, que é de extrema-direita, foi vista como um movimento estratégico para negociar a dívida do banco junto ao Banco Central, atualmente presidido por Gabriel Galípolo, que é identificado com a esquerda. Logo após assumir, Bendine tomou a decisão de recusar o estorno de 650 milhões de reais solicitado pelo fundo EXP1, que havia denunciado a compra de carteiras de crédito falsas da instituição.

Outra ligação política feita pela reportagem é com o Partido Republicano, que atua como “braço político da Igreja Universal e de Edir Macedo” no Congresso por meio da bancada evangélica e do Centrão. Sob a presidência do bispo Marcos Pereira, um dos poucos homens de confiança de Macedo, a legenda transforma a crise técnica do Banco Digimais em um complexo dilema para o governo Lula (que busca a reeleição) e o Banco Central, que temem que uma intervenção rigorosa na instituição provoque instabilidade política e prejudique a governabilidade em anos eleitorais. Diante desse cenário, a situação do banco é vista como uma potencial “moeda de troca” política pela revista, uma vez que o apoio do Republicanos – que tem Tarcísio de Freitas em seus quadros – em futuras disputas presidenciais pode ser condicionado ao tratamento dado ao Digimais pelo órgão regulador.

Por fim, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é apontado pela reportagem da piauí como o órgão que deve arcar com o prejuízo bilionário caso o Banco Digimais venha a quebrar, uma vez que a instituição utilizou a garantia de depósitos de até 250 mil reais como “isca” para atrair clientes para seus CDBs de alto risco. A preocupação do FGC é imediata porque o rombo estimado em 8,5 bilhões de reais ameaça o patrimônio do próprio fundo, que já foi severamente afetado pelo colapso do Banco Master, custando 52 bilhões de reais aos seus cofres. Segundo a fonte, o FGC já dá o prejuízo como certo e propôs um acordo para assumir 70% da dívida, enquanto os 30% restantes seriam cobertos pelo controlador Edir Macedo, que elevou o risco para o fundo ao retirar 2 bilhões de reais da Record que estavam investidos no banco, deixando um passivo de 1,75 bilhão para o FGC pagar em caso de falência.

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Caso Lojas Americanas: anatomia de um golpe da elite em seis peças, por Luís Nassif

 

Há elementos para concluir que, por trás do jogo de balanços, esconde-se uma fraude monumental — que envolve diretamente os três acionistas.


Do Jornal GGN:

Americanas: anatomia de um golpe em seis peças, por Luís Nassif




É o maior escândalo da história do moderno mercado de capitais brasileiro. Durante anos, uma das campeãs da B3, a Americanas, escondeu um passivo que, pelas últimas atualizações, chegou a R$ 40 bilhões. E tudo sob a tutela dos três maiores bilionários do país — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, da 3G —, que se tornaram, nas últimas décadas, o símbolo máximo do capitalismo financeiro brasileiro.

Na época do estouro da Americanas, Jornal GGN foi o único a explicar os principais lances do golpe, que mostravam uma articulação entre os controladores – representado por Beto Sucupira – e a diretoria da Americanas. 

São os mais bem sucedidos representantes dos chamados “piranhas financeiras”, a geração que ascendeu com a financeirização da economia, seguindo as lições de Jack Welch – o trágico gestor que afundou a GE, a mais tradicional empresa industrial norte-americana. Seu modelo é o de assumir o controle de empresas e depena-la até o último dividendo, cortando investimentos, manutenção, planos estratégicos em favor unicamente dos dividendos.

O gráfico de desempenho do papel já dá a medida do rombo imposto aos mais de 150 mil acionistas e a inúmeros bancos credores. Mas há muito mais do que um tombo de bolsa: pelas informações disponíveis, o buraco começou a ser cavado há pelo menos dez anos, sob uma relação de cumplicidade entre controladores e diretores estatutários. Vamos por partes, para entender o jogo.

Peça 1 — como o golpe começa a ser armado

No caso da Americanas, o primeiro passo do golpe foi mudar a composição acionária, com os sócios da 3G se afastando do Conselho de Administração e reduzindo sua participação na Americanas.

Em 3 de novembro de 2021 deu-se o movimento inicial: a fusão da Lojas Americanas com a Americanas S.A. Os controladores — a 3G — reduziram a participação e deixaram de ser controladores formais. Lemann e Telles pediram demissão do Conselho de Administração; Beto Sicupira passou a “acionista de referência”. Abriram mão de parte das ordinárias sem exigir prêmio — quando um acionista troca ordinárias por preferenciais, o normal é embolsar um ágio pela troca; o 3G, generosamente, abriu mão dele. A participação caiu para 29,2% na empresa combinada.

Segundo a UOL, um laudo encomendado pela própria Lojas Americanas avaliou seu patrimônio líquido em R$ 10,3 bilhões, contra R$ 25,9 bilhões da Americanas. Os controladores tinham 38,2% da Lojas Americanas, com 60,8% das ordinárias.

O mercado reagiu mal. Mas o presidente Miguel Gutierrez tratou de acalmar, em registro que hoje soa como deboche: “Tudo na vida tem um amadurecimento. Como os bons vinhos, vão decantando, criando corpo, criando novas perspectivas.”

A partir daí, passaram a se desfazer de ações em bolsa. Em 1º de novembro de 2021, a AMER3 estava cotada a R$ 31,22 — a Americanas valia em bolsa R$ 28,2 bilhões, e a Lojas Americanas, R$ 9,7 bilhões. No último fechamento antes da quebra, o papel valia R$ 1,98.

Peça 2 — a cumplicidade dos executivos

O segundo movimento foi obter a adesão dos executivos, compensando o risco penal com remunerações altíssimas.

Miguel Gutierrez era subordinado a Beto Sicupira, e as reuniões do Conselho de Administração eram presididas pelo próprio Sicupira. A PwC, auditora da companhia, atuava sob esse comando. Seria impossível, nesse arranjo, que os controladores não soubessem das manobras contábeis. Ainda em 2019, um analista de mercado, na reunião de apresentação do balanço, apontou para as discrepâncias contábeis.

Ainda assim, choveram bônus milionários. Em 2018, decisão do TRF da 2ª Região derrubou liminar de 2010 e obrigou a CVM a divulgar os salários dos executivos de empresas abertas: o do presidente da Lojas Americanas era o sexto mais alto do país, acima de Vale, Bradesco, Ambev e Braskem. Os diretores estatutários receberam cerca de R$ 34 milhões em 2019, R$ 35 milhões em 2020 e R$ 36 milhões em 2021. Com os maus resultados escondidos nos balanços, a única explicação plausível para essa generosidade é o cala-boca — o preço da cumplicidade.

Peça 3 — o fator Sérgio Rial

O terceiro movimento foi trazer Sérgio Rial para montar a estratégia de saída.

Rial foi presidente festejado do Santander, um dos credores da Americanas. Em 19 de agosto de 2022, seu nome foi anunciado para a presidência do grupo. O anúncio causou estranheza: ele presidia o Conselho da Vibra e não tinha experiência em varejo. Mesmo assim, as ações, que vinham caindo, subiram 22,5% no primeiro pregão seguinte e 18,3% no segundo.

Foi justamente nesse período que, segundo dados da CVM, os diretores da Americanas venderam R$ 223 milhões em ações entre julho e outubro de 2022, a um preço médio de R$ 16,22. Como observou o Metrópoles, entre o anúncio de Rial e outubro de 2022 — véspera das eleições — as ações dispararam 61%, e a venda de R$ 223 milhões foi um movimento na contramão da alta.

Rial ficou na prateleira até o fim do ano. Assumiu em 2 de janeiro de 2023. No dia 11, a Americanas divulgou fato relevante informando “inconsistências contábeis” de R$ 20 bilhões. No dia seguinte, em videoconferência organizada pelo BTG Pactual, comunicou a renúncia — alegando ter tomado conhecimento dos fatos nos dias anteriores, hipótese improvável para um executivo de seu porte, que teve cinco meses para se inteirar da empresa. Admitiu que os problemas vinham da década de 1990.

O rombo não atingiu só os acionistas: contaminou os impostos pagos pelos bancos credores. Se um banco provisiona R$ 3 bilhões, o lucro cai R$ 1,8 bilhão e os tributos a pagar recuam mais de R$ 1,2 bilhão. Pelos cálculos de mercado, o fator Americanas deveria reduzir o lucro do Bradesco em R$ 1,8 bilhão, o do Itaú em R$ 1 bilhão e o do Banco do Brasil em R$ 400 milhões.

Peça 4 — a estratégia Rial

O quarto movimento foi Rial deixar a empresa e assumir a direção de estratégia da própria 3G.

A defesa da Americanas se armou nos campos financeiro e jurídico. Menos de três horas antes do fato relevante, a empresa tentou resgatar R$ 800 milhões investidos no BTG. Ao mesmo tempo, obteve liminar do juiz Paulo Estefan, da 4ª Vara Empresarial do Rio, impedindo qualquer antecipação de pagamento a credores e ainda obrigando o BTG a devolver R$ 1,2 bilhão que já recuperara.

Pelo contrato com a Americanas, o foro correto seria São Paulo. O juiz não só aceitou o pedido como indicou para a administração judicial o escritório Zveiter, de Sérgio Zveiter — irmão do ex-presidente do TJ-RJ Luiz Zveiter e membro de uma família de larga influência nos tribunais fluminenses. O detalhe curioso: o mesmo Zveiter atua como advogado da Americanas. O BTG recorreu, mas a decisão foi mantida pelo desembargador de plantão, Luiz Roldão de Freitas Gomes Filho.

No mesmo movimento em que pedia demissão da presidência, Rial trocava o terno e assumia a função de assessor dos acionistas de referência — os mesmos que armaram o golpe. Falou da necessidade de capitalizar a empresa em R$ 5 bilhões, mas avisou que o grupo responsável pelo rombo só ajudaria “desde que se consiga visualizar um cenário de rentabilidade consistente para a Americanas”. Fantástico.

Veio então nova retificação, que elevou a estimativa de passivos a R$ 40 bilhões. As ações caíram a R$ 1,98. A esse preço, investindo apenas 6,6% do que arrecadaram com a venda dos papéis, a 3G recompraria a mesma participação de antes. No fim do dia, Rial renunciou também ao posto de assessor do trio, substituído pela Rothschild.

Peça 5 — o histórico da 3G

Não é o primeiro golpe do grupo no mercado. No agravo de instrumento, os advogados do BTG traçam um pequeno histórico.

Em 2005, o administrador da Ambev Luiz Felipe Pedreira Dutra Leite teria autorizado transferência indevida de ações ordinárias, divulgando informações incorretas ao mercado e desvirtuando o plano de opção de compra da companhia, de modo a ampliar a fatia dos controladores em prejuízo dos minoritários. Em 2019, foi a vez de um escândalo internacional com a Kraft Heinz, adquirida pela 3G: descobriu-se a supervalorização de ativos entre 2015 e 2018, e a companhia teve de fazer um ajuste de US$ 15,4 bilhões no balanço.

Peça 6 — as consequências jurídicas e o caso Eletrobras

A Americanas lançou ADRs nos Estados Unidos e, com isso, expõe-se à class action dos acionistas locais. No Brasil, corre inquérito criminal conduzido pelo Ministério Público Federal.

Mas o ponto central é outro: o episódio expõe o estilo do grupo que assumiu, de fato, o controle da Eletrobras. O grande crescimento da 3G se deu sobre lobbies junto ao setor público.

Foi assim na aprovação, pelo Cade, da compra da Antarctica pela Brahma — já sob o comando dos três futuros bilionários. A aprovação foi um dos episódios suspeitos do governo Fernando Henrique Cardoso, e resultou na destruição da rede de distribuidores da Antarctica e na cartelização do mercado de cervejas. Para abrir caminho, a empresa contratou Milton Seligman, ex-Ministro de FHC.

Depois veio a Eletrobras. Primeiro, uma avaliação que subvalorizou a estatal. Em seguida, uma emissão de ações que captou cerca de R$ 35 bilhões e retirou a União do bloco de controle. O passo seguinte foi usar o caixa para recomprar ações — jogada perniciosa para o futuro da companhia. O resultado é uma anomalia: detendo participação acionária ínfima, o 3G passou a indicar a maioria do conselho e a comandar de fato a empresa que responde por cerca de 30% da geração e por perto de 40% da transmissão de energia do país. Se nada for feito, tende a esvaziar a energia contratada — aquela que assegura preços módicos a pequenos consumidores e residências — e, na primeira crise hídrica, terá poder quase absoluto sobre os preços.

A delação final

A manobra foi revelada na delação do ex-diretor financeiro Fabio Abrate, o “plano B” da estratégia dos controladores da Americanas era a entrada da companhia em recuperação judicial.

Esse plano precisou ser acionado rapidamente porque a estratégia inicial — que consistia em negociar com os bancos para tentar aprovar uma manobra de “baixa contábil” pagando menos do que o devido — deu errado e não foi bem recebida pelas instituições financeiras.

De acordo com o delator, o acionamento do plano B ocorreu da seguinte forma:

  • Preparação prévia: Abrate relatou que, no próprio dia da divulgação do fato relevante ao mercado (11 de janeiro de 2023), já existia o rascunho de um pedido de tutela antecipada na Justiça desenhado para impedir que os credores bloqueassem os bens da varejista.
  • A ordem de execução: Após a reunião inicial com os bancos naquele mesmo dia, o executivo Sergio Rial mandou executar imediatamente essa medida judicial de proteção, pois sabia que os bancos “iam vir com força” contra a empresa. Essa tutela antecipada foi a movimentação que culminou na recuperação judicial, oficializando o plano B.
  • O perfil de Sergio Rial: Abrate sugeriu que Rial foi o nome escolhido a dedo pelos controladores (porque tinha o perfil ideal para a crise: se o plano de acordo desse errado, ele já saberia como lidar com credores e conduzir perfeitamente uma recuperação judicial.

Essa delação fundamentou a decisão da Polícia Federal de providenciar busca e apreensão em endereços de controladores e executivos.

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (25/6/2026) a segunda fase da Operação Disclosure, com apoio do MPF, cumprindo nove mandados de busca e apreensão — inclusive buscas pessoais — no Rio e em São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio determinou ainda o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões.

A diferença em relação à primeira fase é exatamente o alvo. Em junho de 2024, a primeira fase mirou a antiga diretoria estatutária — foi quando Miguel Gutierrez chegou a ser preso na Espanha e depois solto —, e, em março de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários por maquiar resultados e ocultar a situação real da empresa. Agora a investigação rompe a bolha da diretoria e avança sobre os donos do capital e sobre o sistema financeiro. O foco passou a ser os acionistas de referência, operadores ligados aos sócios e executivos de bancos que mantinham relação com a varejista no período das supostas irregularidades.

Entre os alvos, no núcleo dos sócios: os acionistas de referência Carlos Alberto da Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia, apontado como operador direto dos sócios. No núcleo bancário — e este é o desdobramento novo, que a coluna original não alcançava —, são alvos José de Castro Araújo Rudge Júnior e Gustavo Balassiano (Itaú Unibanco), Carlos Henrique Villela Pedras (Bradesco) e André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian Abdo (Santander).

Provavelmente a investigação dos executivos de bancos está sendo realizada com apoio dos bancos, já que eles também foram vítimas das jogadas da Americanas.

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PL, o partido dos patriotas que apelam pela intervenção estrangeira no Brasil contra o Brasil, por Marcos Verlaine

 

Poucas contradições são tão evidentes na política brasileira contemporânea quanto a de setores do chamado núcleo duro do bolsonarismo


Do Jornal GGN:

PL, o partido da intervenção estrangeira, por Marcos Verlaine

    Reprodução Redes Sociais

Quando faltam argumentos internos, parte da extrema-direita brasileira volta os olhos para Washington e transforma a soberania nacional em instrumento de conveniência política.

por Marcos Verlaine

É o patriotismo de ocasião, de conveniência, de fancaria, esse do bolsonarismo. A história os punirá gravemente. Aqui lembramos a velha frase do pensador inglês Samuel Johnson, dita em 1775, e serve para criticar oportunistas que se escondem atrás de causas nobres para defender interesses pessoais: “o ‘patriotismo’ é o último refúgio dos canalhas”.

Poucas contradições são tão evidentes na política brasileira contemporânea quanto a de setores do chamado núcleo duro do bolsonarismo que, ao mesmo tempo em que se apresentam como defensores intransigentes da pátria, da bandeira e da soberania nacional, recorrem repetidamente a governos, autoridades e instituições estrangeiras para interferir em conflitos internos do Brasil.

A mais recente iniciativa do deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara, ao acionar a embaixada dos Estados Unidos para questionar decisão do TSE1, insere-se numa sequência de episódios que já se tornaram padrão político.

Sempre que enfrentam derrotas institucionais, investigações judiciais ou decisões do sistema de Justiça brasileiro, lideranças bolsonaristas buscam respaldo externo para pressionar autoridades nacionais e constranger instituições da República.

O fenômeno não é novo. O que chama atenção é sua frequência e sua naturalização. E ausência de punição por parte, principalmente, da Câmara.

Internacionalização do conflito interno

Em democracias maduras, divergências entre Poderes são resolvidas por mecanismos constitucionais internos. Recursos judiciais, debates parlamentares, controle social e disputa política constituem os instrumentos legítimos para enfrentar decisões consideradas injustas ou equivocadas.

O que se observa, entretanto, é tentativa recorrente de deslocar disputas domésticas para o cenário internacional, especial e particularmente para os Estados Unidos.

Nos últimos anos, integrantes do bolsonarismo buscaram apoio de parlamentares americanos, influenciadores conservadores estrangeiros, organismos internacionais e até integrantes do governo dos Estados Unidos para denunciar supostas perseguições políticas, questionar decisões do Supremo Tribunal Federal e contestar a legitimidade de instituições brasileiras.

O caso que agora envolve Sóstenes Cavalcante segue exatamente essa lógica. Em vez de apresentar provas que sustentem a acusação feita contra o PT ou contestar judicialmente a decisão do ministro André Mendonça, o parlamentar decidiu recorrer à embaixada de potência estrangeira para validar a narrativa política doméstica.

Trata-se de escolha reveladora.

Soberania como discurso seletivo

O episódio expõe a curiosa concepção de soberania nacional.


Quando organismos internacionais criticam políticas ambientais, ameaças golpistas ou violações de direitos, setores da extrema-direita costumam reagir com indignação e acusar estrangeiros de interferência indevida nos assuntos brasileiros.

Mas essa mesma indignação desaparece quando a interferência externa pode servir aos interesses políticos desses setores.

A soberania deixa então de ser princípio e passa a ser ferramenta retórica, utilizada conforme a conveniência do momento.

O problema não está em manter relações diplomáticas ou dialogar com governos estrangeiros. Isso faz parte da vida internacional de qualquer democracia. O problema surge quando atores políticos procuram substituir os canais institucionais brasileiros pela tutela simbólica de outra nação.

Nesse contexto, o patriotismo deixa de ser compromisso com o País e se transforma em instrumento de mobilização política.

A velha tentação do protetorado

A dependência psicológica de validação estrangeira possui raízes profundas na história latino-americana.

Durante décadas, elites políticas e econômicas do subcontinente recorreram a capitais estrangeiras em busca de apoio para resolver disputas internas. Em vez de fortalecer instituições nacionais, procuravam árbitros externos capazes de legitimar seus interesses.

O comportamento observado em parte do bolsonarismo reproduz essa tradição.

Ao recorrer constantemente aos Estados Unidos para denunciar decisões judiciais, pressionar autoridades brasileiras ou reforçar narrativas políticas internas, esses grupos transmitem mensagem implícita: as instituições brasileiras não seriam capazes de resolver os próprios conflitos sem a chancela de Washington.

Trata-se de visão incompatível com qualquer concepção séria de independência nacional.

Erosão da confiança institucional

Há ainda consequência mais profunda. Quando lideranças políticas buscam apoio externo para contestar decisões de tribunais nacionais, contribuem para corroer a confiança pública nas instituições democráticas.

O bolsonarismo está sempre atrás de causar distúrbios internos, a fim de corroer por dentro a democracia e o Estado de Direito.


Nenhuma democracia funciona adequadamente se seus atores políticos aceitam as regras apenas quando vencem.

O respeito às instituições não significa concordância permanente com suas decisões. Significa reconhecer que divergências devem ser enfrentadas dentro da ordem constitucional existente.

Transformar embaixadas estrangeiras em instâncias paralelas de recurso político enfraquece esse princípio e alimenta a percepção de que a legitimidade das instituições nacionais depende da aprovação de atores externos.

O verdadeiro patriotismo

O Brasil possui problemas reais e profundos. Suas instituições são imperfeitas. Seus tribunais podem ser criticados. Seus governos podem ser contestados. Seus partidos podem ser investigados. Tudo isso faz parte da democracia.

Mas nenhuma dessas circunstâncias justifica a busca permanente por tutela estrangeira em conflitos internos.

O verdadeiro compromisso com a soberania nacional não consiste em exibir bandeiras, cantar hinos ou repetir slogans patrióticos. Consiste em defender que os destinos do País sejam decididos pelos brasileiros, segundo as leis, as instituições e a Constituição nacional.

Quem recorre continuamente a potências estrangeiras para arbitrar disputas domésticas não fortalece a Nação. Ao contrário, contribui para enfraquecer a autonomia política que diz defender.

E essa talvez seja a maior contradição do bolsonarismo: em nome de suposto nacionalismo, que em geral é estridente, acaba frequentemente agindo como se o Brasil precisasse de autorização externa para governar a si próprio.

E de ser espécie de protetorado dos Estados Unidos. Nisso, eles seguem o líder deles, que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos.

Os verdadeiros patriotas podem usar, sem medo de errar, contra esses apátridas, a palavra de ordem que cabem para eles: “Brasil, quem te ama, não te USA”.

Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 Sóstenes aciona embaixada dos EUA após Mendonça determinar remoção de vídeo – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/sostenes-aciona-embaixada-dos-eua-apos-mendonca-determinar-remocao-de-video/#goog_rewarded – acesso em 22.06.26

sábado, 20 de junho de 2026

O 2º tempo da Lava Jato 2: a orientação do mercado, grande mídia e André Mendonça no caso Jaques Wagner em artigo de Luís Nassif

 

Entre a cautela jornalística e o método Lava Jato, a diferença está no respeito ao julgamento dos fatos.

Do Jornal GGN:

O 2º tempo da Lava Jato 2: o caso Jaques Wagner, por Luís Nassif


    Jaques Wagner em foto de Edilson Rodrigues - Agência Senado



É alto o preço da ingenuidade política das chamadas forças progressistas ou democráticas. Até hoje não entenderam que a escandalização é uma arma usada historicamente pela direita e pelo Departamento de Estado norte-americano.

Os mais velhos hão de lembrar da Cruzada contra a Corrupção de um tal padre Peyton, que percorria o Brasil financiado pela Grace — empresa de dois irmãos irlandeses, católicos, radicados nos Estados Unidos e representantes da Caterpillar no país. Ou, mais recentemente, da Lava Jato.

Independentemente do que é fato, do que é narrativa, não se pode perder de vista o objetivo político final das campanhas moralistas. Sem identificar esses interesses, seremos apenas patos na Lagoa, à mercê dos tiros e vazamentos.

Peça 1 — o primeiro tempo da Lava Jato 2

Quando o caso Master explodiu, a relatoria no Supremo Tribunal Federal coube a Dias Toffoli. De imediato, ele foi bombardeado por vazamentos que apontavam ligações de fundos do Master com um empreendimento do qual participava.

Caiu todo mundo de pau sobre ele — inclusive veículos da imprensa alternativa. Afinal, não se pode compactuar com a corrupção, não é mesmo?

O detalhe que se omitia: na relatoria, Toffoli atuava corretamente. Percebeu o vazamento de informações na perícia dos celulares e tentou trazer a perícia para o STF, indicando peritos da própria PF — tecnicamente respeitados e sem vínculo com a Lava Jato. Foi esmagado pela campanha anticorrupção.

Diariamente, O Globo atacava Toffoli e insinuava interferências dele nas investigações, em matérias de uma falta de objetividade ímpar. Se demorava a agir, “a PF está incomodada com a demora”. Se acionava o inquérito em regime de urgência, “a PF está incomodada com a pressa”.

Era nítido que as denúncias funcionavam como mero instrumento para retirar a relatoria de Toffoli, enfraquecer o STF e entregar as rédeas da operação ao grupo lava-Batista da PF. Jogo pesado, cuja arma principal foi o contrato da esposa de Alexandre de Moraes com o Master. O contrato existe, de fato — mas sua origem foi falsificada: atribuiu-se o documento à perícia nos celulares de Daniel Vorcaro e, depois, jamais se confirmou essa perícia específica. Ou seja, o contrato chegou por outras fontes, e a jornalista mentiu ao atribuí-lo à perícia.

Bastou Toffoli renunciar à relatoria, e o caso caiu para o ministro André Mendonça, que incontinente ordenou a quebra do sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva e proibiu o acesso do delegado-geral da PF à operação. Seguiu-se a mais explícita manipulação: a banda lava-Batista da PF divulgou a movimentação da conta ao longo de quatro anos. Era óbvio o objetivo — produzir um número altissonante para alimentar as manchetes.

Nada de ilegal se comprovou nas movimentações. Não estivesse o STF na defensiva, certamente Mendonça responderia por abuso de autoridade. O caso morreu, mas continuou vivo no imaginário popular.

Esses fatos — a insistência em repetir as denúncias diariamente, enquanto os principais envolvidos com o Master eram poupados — explicitaram o viés político da operação e obrigaram a um recuo.

Peça 2 — o intervalo para reorganizar a estratégia

Preparou-se, então, o segundo tempo: avançar sobre personagens centrais do caso Master que não pertencessem à frente bolsonarista.

Foi aí que surgiu o senador Ciro Nogueira, político que se blinda de denúncias oferecendo furos e futricas a jornalistas da cobertura política. Esqueceram Fábio Luís, passaram a citar Toffoli e Mendonça apenas de passagem e seguiram poupando Ibaneis Rocha. Nenhuma figura central do bolsonarismo apareceu — até explodir o áudio da conversa de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.

Pessoal, um mínimo de raciocínio político! Onde o áudio foi encontrado? Obviamente, no celular de Daniel Vorcaro. Quem controlava os celulares? A perícia da PF. E por que o vazamento se deu por um veículo da imprensa alternativa, o The Intercept, e não por O Globo e demais parceiros de sempre?

O episódio dispersou energias e obrigou a concentrar fogo no filme de Bolsonaro enquanto se preparava o segundo tempo.

Peça 3 — o segundo tempo da Lava Jato 2

Jaques Wagner estava no foco da operação desde o primeiro momento, já que o Credcesta — empresa que o Master usou para explodir seu crédito consignado — resultou de uma privatização do governo baiano.

Mas, depois de deixar os rastros da politização na investida sobre Fábio Luís, os vazamentos estavam desmoralizados. A operação concentrou-se, então,  nos personagens do Centrão e esperou esvaziar a repercussão do caso Flávio Bolsonaro. O caso Wagner ficou na prateleira, à espera do segundo tempo.

A essa altura, a Operação Master já era um chuveiro de vazamentos — a ponto de procuradores ligados à Procuradoria-Geral da República alertarem para a imprudência de Mendonça ao autorizar a divulgação de investigações em andamento, com risco de prejudicar a própria apuração.

Com a legitimidade supostamente restaurada pelas incursões contra o Centrão — embora sem nenhum movimento em relação a Eduardo e Flávio Bolsonaro ou outras figuras centrais do bolsonarismo —, a Lava Jato 2 inaugura o segundo tempo tirando a prateleira  as denúncias contra Jaques Wagner, personagem relevante no universo petista e no governo Lula.

Peça 4 — as denúncias contra Jaques Wagner

Não cometerei a leviandade de afirmar que Wagner é culpado ou inocente. Jornalismo sério publicaria os vazamentos com todas as ressalvas necessárias, daria a palavra ao acusado e aguardaria o julgamento antes de formular juízo de valor. O padrão Lava Jato, ao contrário, consiste em inundar o noticiário com denúncias, insinuações e suposições, até consolidar a convicção.

Vale, então, separar o que é fato do que é tese.

O que há de objetivo (fato processual, apreensão ou prova material)

O que está materialmente estabelecido é, em boa parte, processual e probatório — não conclusivo quanto ao crime:

  • A 9ª fase foi deflagrada em 18 de junho, com 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, autorizados pelo STF.
  • Houve apreensão física: US$ 49 mil e 13 relógios em endereços ligados a Wagner.
  • Existe uma mensagem interceptada no aparelho de Augusto Ferreira Lima em que o parlamentar envia o contato do gerente da construtora e informa a unidade e o preço do imóvel: “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”.
  • A base probatória citada por Mendonça é objetivamente listada: mensagens eletrônicas, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e planilhas de pagamentos obtidos em aparelhos apreendidos nas fases anteriores.

A versão de Wagner

Como manda o ofício, a palavra ao acusado: Wagner sustenta que a intervenção de Augusto Lima serviu apenas para reservar o apartamento à sua filha, enquanto ele providenciava a venda de um imóvel para assumir o contrato. É a sua explicação — não prova material, mas tampouco pode ser suprimida do noticiário.

O que é suposição, imputação “em tese” ou inferência

Aqui está o grosso da narrativa acusatória — ainda não comprovada:

  • A qualificação central é explicitamente hipotética: Wagner é “apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas”. “Suposto beneficiário” é tese, não fato provado.
  • O valor de R$ 8,35 milhões em suposto recebimento é estimativa da PF, não montante comprovadamente recebido por ele.
  • O nexo de contrapartida — a ideia de que a atuação parlamentar (consignado/Lei 14.431, PEC 65 sobre o FGC, operação Master/BRB) foi troca por vantagem — permanece hipótese: os investigadores “tentam esclarecer” se o senador atuou em favor das pautas de interesse do Master. O próprio verbo denuncia que o vínculo causal não está fechado.
  • A tipificação penal é condicional: apura-se, “em tese”, corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
  • A “relação antiga e de confiança” é inferência interpretativa: Mendonça diz que os autos apontam relação próxima e de elevado grau de confiança, “circunstância que poderia ter facilitado tratativas”. “Poderia ter facilitado” é construção probabilística.

O eixo decisivo, portanto, não é a existência dos repasses — que aparecem documentados —, mas o nexo de imputação a Wagner pessoalmente e a causalidade entre dinheiro e atuação parlamentar. E é exatamente nesses dois pontos que o material divulgado segue operando no campo do “em tese”.

É desmoralizador para toda a corporação da PF, que se utilizem vazamentos e se façam imputações baseadas em teses, suposições.

Mas a ofensiva do PADPF (Partido da Associação dos Delegados da Polícia Federal) foi eficiente no trabalho de enfraquecer o Supremo. Com as facilidades, aliás, proporcionadas pela atuação de Dias Toffoli e Alexandre Moraes.

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