sexta-feira, 17 de abril de 2026

O casamento fracassado entre democracia e capitalismo, por Luis Felipe Miguel

 

A “crise da democracia”, hoje cantada em verso e prosa, não vem de hoje: vem de sempre.


Cinquenta anos de crise: o casamento fracassado entre democracia e capitalismo

por Luis Felipe Miguel - Jornal GGN

A revista Lua Nova acabou de publicar meu artigo “Cinquenta anos de crise: o casamento fracassado entre democracia e capitalismo”. Apresento aqui um resumo de partes dele, com o aparato acadêmico em grande medida limado.

Para a Ciência Política, o início da “crise da democracia” tem data e hora certas: 9 de novembro de 2016, às três da madrugada (no horário da Costa Leste dos Estados Unidos). Foi quando a contagem dos votos garantiu a Donald Trump a maioria de delegados no Colégio Eleitoral para se tornar o próximo presidente da maior potência mundial. Tratado como piada de mau gosto quando lançou sua candidatura às primárias do Partido Republicano, ao vencer ele mostrou que algo estava funcionando mal naquela que era considerada a democracia mais sólida do mundo. No mesmo momento, a ideia de que as democracias liberais estavam ameaçadas se tornou um tema dominante para jornalistas e cientistas políticos. Usando mais que uma pitada de ironia, Adam Przeworski escreveu, no início de seu livro intitulado precisamente Crise da democracia: “Se Trump tivesse perdido, muitas pessoas que estão agora correndo para escrever livros semelhantes a este, eu mesmo incluído, estariam ocupadas em outras atividades”.

Colocado dessa maneira, parece que a crise foi um acontecimento mais ou menos súbito, que colocou sob ameaça um regime que estava trabalhando a contento. No entanto, a percepção que as democracias liberais se tornavam disfuncionais é constante desde a década de 1970, retornando desde então em diferentes ondas. A “crise” parece ser, assim, o modo de operação normal das democracias ocidentais, um efeito necessário da acomodação entre um ordenamento político nominalmente democrático e uma estrutura econômica capitalista. A excepcionalidade a ser explicada é o breve período de bonança, quando, em alguma medida, em alguns lugares de mundo, o sistema parecia funcionar com reduzidas tensões – as três décadas chamadas, com exagero, de les trente glorieuses (os trinta gloriosos).

O ordenamento político que hoje é correntemente aceito como “democrático” foi o fruto de uma longa evolução, pela qual princípios liberais (como um governo aberto à competição e responsivo ao público) cederam às pressões por inclusão política de grupos dominados (a classe trabalhadora, as mulheres, as minorias étnico-raciais). Concretamente, ela evoluiu como um pacto interclassista em que os direitos políticos formais e as eleições competitivas permitiram à classe trabalhadora ter sua voz ouvida nos processos decisórios, mas a burguesia manteve um poder de veto, respeitado por todos ainda que apenas tácito, em relação a possíveis políticas anticapitalistas.

After the Marriage (1874) by Firs Sergeevich Zhuravlev, a dramatic realist painting portraying a young bride in a white wedding gown leaning despondently against a piece of ornate furniture. Her expression is anguished, with one hand covering her forehead and the other loosely holding a sprig of flowers. Her veil and gown are still on, suggesting the ceremony has just ended. An older man, possibly her new husband, stands in the doorway behind her, partially in shadow, watching her with a stern or resigned expression. The somber, richly decorated interior underscores the emotional weight and tension of the moment.
Firs Sergeenvich Zhuravlev, Depois do casamento (1874)

Fica claro que o sistema não depende de um consenso abstrato quanto às “regras do jogo”, como diz a Ciência Política convencional, mas da correlação de forças na sociedade. Precisa de uma classe trabalhadora com capacidade de pressão e de uma burguesia que entende que é necessário comprar a pacificação da sociedade para perpetuar sua própria dominação. Uma economia em expansão facilita a composição dos diversos interesses e, portanto, a estabilidade do arranjo.

Por isso, as três décadas de relativa estabilidade e prosperidade após o fim da Segunda Guerra Mundial são vistas como a época de ouro da democracia liberal. Altos índices de crescimento econômico combinavam-se com progressiva integração da classe trabalhadora à sociedade do consumo e aparente consenso sobre as estruturas básicas da sociedade. O capitalismo parecia capaz de regular a si mesmo e de minimizar algumas de suas principais contradições. Havia estabilidade política, com a disputa ocorrendo de forma relativamente tranquila, entre partidos que, não importa quais fossem os seus rótulos, compartilhavam desse compromisso básico.

O relato é esquemático e, claro, se refere à situação dos países capitalistas avançados. Na periferia do mundo capitalista, estes 30 anos pouco têm de gloriosos. Foram um período de ditaduras sangrentas, apoiadas pelas potências imperialistas, e de profunda concentração da riqueza.

Mesmo nos países centrais, a realidade correspondeu plenamente ao relato edulcorado dos “trinta gloriosos”. Formas de perseguição política ostensiva manchavam a democracia liberal onde ela existia, como as leis alemãs que vetavam a presença de pessoas de esquerda em cargos no sistema educacional. Nos Estados Unidos, além do macarthismo, nos anos 1950, havia a segregação racial e a violência sistemática perpetrada contra a população negra no Sul.

Ainda assim, a percepção dominante já na época é que se havia encontrado um modelo acertado e sustentável de organização política. A Ciência Política anglófona desenvolveu o tema por diferentes aspectos, mas sempre entendendo que a perda de dramaticidade das escolhas eleitorais, uma vez que as opções tinham compromisso com a manutenção do arranjo existente e diferiam apenas no acessório, era um ganho civilizatório a ser festejado.

As agitações de maio de 1968 serviram de alerta de que nem tudo funcionava tão bem. À rebelião juvenil juntaram-se setores importantes da classe trabalhadora e os movimentos feminista e negro, numa onda de protestos que tomou conta da Europa Ocidental e chegou não só aos Estados Unidos, mas também a países do bloco soviético, ao Japão, ao Brasil da ditadura empresarial-militar. Um sentimento comum era a ausência de autonomia, a ideia de que não se podia participar da definição do próprio destino. Por trás da acomodação e da apatia louvadas pela literatura que advogava uma democracia não participativa parecia se esconder uma sensação opressiva de impotência e de frustração.

A situação foi consideravelmente agravada pelas crises do capitalismo mundial no início dos anos 1970 – o fim do sistema de Bretton Woods em 1971, quando os Estados Unidos decidiram unilateralmente pelo fim da convertibilidade do dólar em ouro, e o primeiro choque do petróleo, em 1973, que quadruplicou o preço do barril. A era de ouro da democracia liberal estava chegando a seu fim.

Feitas as contas, essa época áurea durou apenas um punhado de anos, existiu em um punhado de países capitalistas desenvolvidos e, mesmo neles, nunca correspondeu perfeitamente à descrição de suas características. Ainda assim, a Ciência Política tende a apresentar o funcionamento “normal” da democracia liberal como aquele das três décadas de relativa estabilidade e prosperidade que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Todo o resto é crise, equívoco, desacerto.

A obra que inaugurou definitivamente a era da crise foi o relatório elaborado por Samuel Huntington e seus colegas para a Comissão Trilateral (espécie de think thank multinacional, fundado por David Rockefeller e unindo grandes corporações da América do Norte, da Europa Ocidental e do Japão). Embora os problemas econômicos servissem de pano de fundo, a tese ali desenvolvida vê a democracia dos países centrais ameaçada por mecanismos que são internos à sua própria operação. A possibilidade de participação popular pelo voto, mesmo que limitada, como que inevitavelmente leva à sobrecarga do sistema. Incapaz de atender às demandas crescentes de diferentes grupos da população, o Estado se tornaria também incapaz de cumprir sua função básica de garantir a dominação política: estava decretada a ingovernabilidade das democracias.

O relatório identifica dois problemas principais, relacionados entre si. O primeiro é a responsividade dos governantes ao eleitorado – uma decorrência necessária do fato de que a permanência no poder depende da anuência dos governados. Com isso, cada grupo social é estimulado a fazer exigências cada vez maiores (de direitos, de políticas sociais, de prerrogativas e privilégios, de proteções).. O excesso de pressões empurra o Estado para aumento de gastos, hipertrofia, crescimento da carga tributária.

O segundo problema é o entranhamento da ideia de igualdade, que desliza do acesso ao direito de voto e da formalidade jurídica (o “todos são iguais perante a lei”) para a materialidade da vida social. Isso alimenta as demandas apresentadas ao Estado, que deveria agir para combater as desigualdades, e também, uma vez mais, ameaça a reprodução do capitalismo, que tem a ampliação da desigualdade material tanto como resultado inevitável quanto como incentivo necessário.

A solução encontrada para a ingovernabilidade da democracia foi o neoliberalismo. Ele reduziu a capacidade de ação do Estado, que, sendo um regulador ostensivo, hierarquizado e comandado por pessoas identificáveis, é suscetível a reivindicações. Em seu lugar, foi entronizado o mercado, um regulador oculto, impessoal e impermeável ao controle democrático. A solução, portanto, foi a retração do espaço da democracia.

Isso produziu um declínio generalizado da confiança nas instituições da democracia liberal. Os objetivos de redução da responsividade e desmobilização foram alcançados em grande medida, com os Estados agindo de forma cada vez mais indisfarçada em favor dos já privilegiados. O preço foi que os cidadãos passaram a entender que o sistema era insensível às suas pressões. Estava aberta a “crise da representação”: o sentimento de que não se estava representado nas instituições representativas.

Os sinais de que havia uma crise da representação política em democracias que, no entanto, se definiam como “representativas” eram abundantes desde os anos 1980. Taxas declinantes de comparecimento eleitoral, padrões reduzidos de identificação partidária e respostas a surveys convergiam para o mesmo cenário. Por mais que certo civismo convencional lesse a desconfiança como um déficit de cidadãos inadaptados à ordem democrática, ela era bem sustentada pela vivência em regimes que se mostravam cada vez mais inacessíveis e invulneráveis às pessoas comuns.

O que a Ciência Política identificou, a partir sobretudo de 2016, como a crise da democracia é, portanto, o fruto de um longo processo de erosão do pacto que permitiu o florescimento da ordem liberal competitiva nos países do Norte global. Na literatura acadêmica e no jornalismo, é frequente sua associação com o “populismo”, um termo pouco preciso que indica, em geral, um tipo de liderança política que evoca permanentemente o povo como sujeito real de suas decisões, apresentando-se como sua encarnação perfeita.

O populismo é uma manifestação da dificuldade crescente da compatibilização entre a fachada democrática do sistema e sua operação efetivamente censitária. Na leitura de Bourdieu, a solução passava pela abstenção, apatia e desinteresse de um eleitorado que introjetava sua própria impotência, lendo a impermeabilidade do campo político às demandas vindas de baixo como a demonstração de uma incapacidade pessoal. Mas agentes políticos souberam mobilizar essa situação em benefício próprio, sem desafiar – ou apenas fingindo que desafiavam – as assimetrias de fundo que limitam o alcance das democracias realmente existentes.

Fica claro que o casamento da democracia com o capitalismo está cada vez mais insustentável. O neoliberalismo, que leva à tomada de consciência sobre esta situação, é a resposta da classe dominante a uma mudança de condições que tanto estimulou quanto permitiu que dobrasse suas apostas, reduzindo espaço para as concessões aos dominados. A democracia política pode ser enumerada entre essas concessões e, ao mesmo tempo, ser vista como o mecanismo necessário para calibrar a extensão e profundidade delas. No novo cenário, ela se torna tanto inoperante quanto um estorvo.

A democracia dos “trinta anos gloriosos” nos países centrais, apresentada como modelo a ser recuperado, é melhor entendida como excepcionalidade histórica do que como padrão. As condições que permitiram seu florescimento – sempre parcial, como se viu – estão erodidas.

É necessário pensar em novas formas de organização democrática, entendendo que elas só têm como emergir com uma mudança da correlação de forças na sociedade, que permita frear, regular e, e idealmente, superar o capitalismo.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).


ÁUDIOS: Investigados na Carbono Oculto, que descobriu as ligações entre PCC, empresários e banqueiros da Faria Lima e políticos bolsonaristas, dizem que Ciro Nogueira é ‘amigo’ de Beto Louco

 

Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI).


Do ICL:

ÁUDIOS: Investigados na Carbono Oculto dizem que Ciro Nogueira é ‘amigo’ de Beto Louco 

Investigados dizem no Whatsapp que senador do Piauí iria facilitar negócios entre Beto Louco e o grupo.


Por Alice Maciel e Flávio VM Costa 

Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A relação também foi mencionada nos depoimentos prestados pelos investigados ao longo da apuração.

Beto Louco e seu sócio, Mohamed Mourad, o Primo, são acusados de liderar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de postos de combustíveis. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.

São eles também os donos da aeronave pilotada por Mauro Mattosinho, que revelou, em entrevista ao ICL Notícias em setembro do ano passado, ter transportado uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo. Segundo o piloto, o voo ocorreu dia 6 de agosto de 2024, mesma data em que Beto Louco comentou com outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira. Mattosinho também prestou depoimento à Polícia Federal (PF).

Antes da publicação da primeira matéria do ICL Notícias sobre o assunto, Ciro Nogueira negou ter “tido proximidade de qualquer espécie” com Beto Louco.

A Operação Carbono Oculto 86 (referência ao DDD do Piauí) é um desdobramento da operação homônima com foco principal em São Paulo. O inquérito foi trancado no último dia 2 de abril por decisão do juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos do Tribunal de Justiça do Piauí. O Ministério Público piauiense (MP-PI) recorreu da decisão. A promotoria havia denunciado os empresários Haran Sampaio, Danillo Coelho de Sousa e Victor Linhares de Paiva por adulteração de combustíveis, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e associação com Beto Louco e Primo.

Ciro Nogueira conversa em aeroporto com empresários investigados na Carbono Oculto 86
À esquerda, Danilo Coelho de Souza. Á direita, Haran Santhiago Girão Sampaio. Ciro Nogueira ao centro

Ciro Nogueira não é formalmente investigado no caso. No entanto, após a menção ao seu nome e ao do deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) ao longo da apuração, a Polícia Civil solicitou o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado dos parlamentares.

De acordo com os relatos reunidos no inquérito, a aproximação entre os empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa — antigos proprietários da rede de postos de combustíveis HD – e o grupo ligado a Beto Louco e Primo – donos das empresas Copape, produtora de gasolina, e Aster, uma distribuidora –  teve início em outubro de 2023. A dupla baseada em São Paulo já mantinha contato prévio com o senador Ciro Nogueira, mas buscava estreitar essa relação.

O movimento teria ocorrido em meio à disputa por espaço no mercado de combustível com o dono da Refit (antiga Refinaria Manguinhos), Ricardo Magro. Apontado como o maior sonegador do país, Magro é amigo de longa data de Ciro Nogueira, conforme mencionou em entrevista à Folha de S. Paulo.

Mensagens extraídas dos celulares de Haran Sampaio e Danillo de Sousa reforçam que o nome do senador – a quem se referiam como “Sena” – era recorrente nas tratativas. Em um dos áudios que estava nos celulares apreendidos, Danillo relata conversas envolvendo o grupo de Beto Louco e Primo e sugere o uso da proximidade com Ciro Nogueira como fator de influência para viabilizar os negócios.

“Se o ‘Sena’ desse uma ligada aí, Vitinho, pra esse Beto que é o que a gente vai encontrar amanhã, aí era top, viu. Porque ele disse que esse cara aí é muito amigo do Ciro, e é o cara que concorre com o Ricardo [Ricardo Magro]. O Ricardo é mais forte, pelo que eu entendi pela conversa, o Ricardo lá de Miami é mais forte que esse Beto, mas esse Beto era o cara que disputava com ele quem era mais forte, sabe?”, disse Danillo em mensagem de áudio enviada num grupo com Haran Sampaio e Victor Linhares, a quem chama de “Vitinho”.

Em outra mensagem, Haran contou para o sócio Daniel: “Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente”. No mesmo áudio, o empresário contou que havia incluído o senador Ciro Nogueira num grupo de Whatsapp. O grupo se chamava Ciro Vitor Haran Danilo, em referência ao nome dos integrantes.

Conforme revelou a Revista Piauí, o senador interagiu no grupo, inclusive convidando os empresários para um encontro em sua casa, em novembro de 2023. Semanas depois, em meio às negociações para a venda de parte da rede de postos HD ao grupo de Beto Louco e Primo, mensagens indicam que um aval de Ciro Nogueira foi dado — e o negócio acabou fechado ainda em dezembro daquele ano.

Negócio começou numa festa em Trancoso

A relação entre os empresários do setor de combustíveis do Piauí com o grupo de Beto Louco e Primo, segundo depoimentos dos investigados, teria começado em uma festa em um bar na beira da praia em Trancoso (BA), em outubro de 2023. Na ocasião, Haran, Danillo e Victor teriam sido apresentados a um intermediário ligado ao grupo paulista. De acordo com os relatos, o encontro teve clima informal. Em determinado momento, o interlocutor teria mencionado a proximidade com o senador Ciro Nogueira: “a gente é amigo do senador”. “É meu pai”, teria respondido Victor Linhares.

Homem de confiança de Ciro Nogueira, Victor Linhares trabalhou no gabinete do parlamentar entre abril de 2018 e março de 2019, e também na liderança do Partido Progressista (PP) no Senado em 2020. O político é padrinho de uma filha de Linhares, e há ainda diversas fotos publicadas em redes sociais que indicam a proximidade entre os dois.

O encontro em Trancoso foi mencionado em um áudio enviado por Danillo a Haran. Na mesma mensagem, Danillo menciona uma conversa que teve com o interlocutor da dupla baseada em São Paulo e volta a falar sobre a amizade entre Ciro Nogueira e Beto Louco.

“Era melhor vir aqui porque não adianta ser em Salvador, porque não vai estar a pessoa que deveria estar, que eu acho que é esse Beto, entendeu, que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né, que é o amigo do Ciro. Aí ele falou assim: ‘rapaz, eu até falei de vocês aqui pro meu sócio e ele ficou interessado’.

Na sequência, Danillo reforça a expectativa de que uma eventual aproximação política pudesse acelerar os negócios. “Já adiantei sobre vocês, ele se interessou, e tem amigos em comum… aí, pô, o Ciro… você já pulou 90% das etapas”, disse, referindo-se ao que teria ouvido do interlocutor. “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, falando que a gente se conheceu lá, falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, a gente já chega lá com as portas abertas. A gente pede pro Sena fazer essa ligação aí.”

Empresa de Ciro Nogueira e seu ex-assessor receberam dinheiro de empresários

Dois meses após o encontro narrado pelos empresários, em 20 de dezembro de 2023, Victor Linhares recebeu a quantia de R$ 230 mil de Haran Sampaio. O fato foi revelado pelo ICL Notícias, que teve acesso exclusivo a um documento que comprova a transação.

A movimentação financeira coincide com o período em que Haran Sampaio e Danilo de Sousa venderam os postos de combustíveis da rede HD para a Pima Energia Participações Ltda, aberta por Beto Louco e Primo apenas seis dias antes de fazer negócio com o grupo do Piauí.

A suspeita dos investigadores é a de que Victor Linhares Paiva recebeu a quantia por intermediar a negociação.

Reportagem do ICL Notícias também mostrou que o posto de combustível HD Petróleo Uruguai, de Haran e Danilo, já dividiu endereço com uma firma do irmão de Ciro Nogueira e recebeu recursos públicos da cota parlamentar do político.

Além disso, o ICL Notícias revelou que a empresa do senador, a Ciro Nogueira Agropecuária Imóveis, recebeu R$ 63,9 mil do Posto Pima Energia. Os repasses aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo o relatório, foram enviados R$ 47,9 mil em 2 de maio de 2025 e R$ 15,9 mil em 17 de abril do mesmo ano.

As transferências foram feitas por meio da conta do posto na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank. A instituição financeira foi apontada como peça-chave no esquema investigado pela Carbono Oculto em São Paulo. Ainda de acordo com o relatório do Coaf, a empresa de Ciro transferiu 25,1 mil reais para a HD Petróleo Uruguai.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Ciro Nogueira não respondeu aos questionamentos do ICL Notícias. Os advogados de Beto Louco e Primo não quiseram se manifestar.

Foragidos da Justiça brasileira desde a deflagração da Operação Carbono Oculto em agosto do ano passado e provavelmente escondidos na Líbia, Beto Louco e Primo tentam firmar um acordo de delação premiada. Uma proposta foi enviada ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo) nesta semana e aguarda parecer do procurador-geral de justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Juiz tranca investigação; MP-PI contesta

Os relatórios do Coaf foram usados pelas defesas dos investigados Haran Santiago e Danilo de Sousa para pedir o trancamento da investigação policial, sob a alegação de irregularidades no compartilhamento dos dados. A Justiça do Piauí acolheu os argumentos e determinou o trancamento do inquérito, além de anular as informações obtidas junto ao órgão. O trancamento do inquérito foi revelado pelo portal Uol. O ICL Notícias também teve acesso à decisão.

Na decisão, o juiz Valdemir Ferreira Santos entendeu que houve envio indevido de dados financeiros sem autorização judicial prévia e sem base investigativa suficiente. Também considerou que os relatórios teriam sido solicitados no início da apuração, sem indícios prévios que justificassem a medida.

Segundo a defesa, o inquérito foi instaurado em 10 de setembro do ano passado e, cinco dias depois, a polícia já havia solicitado relatórios de inteligência financeira (RIFs) ao Coaf. Para o magistrado, isso indica que a investigação “não se desenvolveu a partir de elementos previamente constituídos”.

O juiz também citou decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes que restringiu o compartilhamento de dados do Coaf com Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para embasar o trancamento.

Em nota publicada nesta quarta-feira (15), o Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) contestou a decisão. O órgão afirma que o juiz não tinha competência para determinar o trancamento naquele momento, já que haveria denúncia apresentada em procedimento relacionado, o que transferiria o caso para outra instância. Ou seja, para o STF.

A promotoria sustenta ainda que não houve ilegalidade na obtenção dos relatórios, que teriam sido utilizados de forma complementar a indícios já existentes, e afirma que a investigação se baseia em um conjunto consistente de provas independentes. O MP-PI já recorreu e pede a reversão da decisão. A expectativa é de que o caso siga para a Suprema Corte.

Além de Ciro Nogueira, a Polícia Civil encontrou nos celulares dos investigados mensagens que sugerem tratativas com o deputado federal Júlio Arcoverde, referente a emendas parlamentares, conforme também foi revelado pela Revista Piauí: “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de R$ 1 trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero”, disse Danillo em um dos áudios enviados a Haran.

Por meio de nota, o deputado federal Júlio Arcoverde informou desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado”. Ele acrescentou que não é investigado no âmbito da operação, “nem em qualquer outro inquérito”. “Ressalta-se, ainda, que o próprio Tribunal de Justiça do Piauí já determinou o arquivamento do desdobramento citado, afastando questionamentos relacionados ao caso. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com ações ilícitas”, acrescentou na nota.

Procurado por telefone, Danillo de Souza não respondeu. Já Haran Sampaio afirmou desconhecer a existência dos áudios revelados nesta reportagem e enviou uma nota assinada pelos seus advogados em que reiteram os argumentos usados no pedido de trancamento da investigação.

terça-feira, 14 de abril de 2026

A Grande Batalha: Lava Jato 2, os empresários pró-golpismo, o Caso Master e a Disputa pelo STF

 

Do Jornal GGN:


Como a parceria entre delegados lavajatistas, André Mendonça e a mídia aliada tenta transformar o escândalo do Banco Master em instrumento de desestabilização democrática

A Grande Batalha: Lava Jato 2, o Caso Master e a Disputa pelo STF


Está-se diante de um emaranhado institucional cujas peças precisam ser examinadas separadamente antes de se compreender o conjunto.




O Partido da PF se põe a campo

I. O Ecossistema Criminoso e a Âncora Democrática

Não se trata de um jogo simples de resolver. Está-se diante de um emaranhado institucional cujas peças precisam ser examinadas separadamente antes de se compreender o conjunto.

Os seis anos de desmonte institucional dos governos Temer e Bolsonaro permitiram a consolidação de um vasto ecossistema criminoso que se infiltrou em todos os desvãos da institucionalidade brasileira: no Congresso, através das emendas secretas; nas prefeituras, por meio de Organizações Sociais que operam como fachada; no tráfico de drogas e no comércio de combustíveis; e em tribunais e órgãos regulatórios. Esse sistema funciona como uma bacia hidrográfica — todos os rios desaguam na Faria Lima, onde o dinheiro sujo é lavado, reciclado e reinvestido em novos golpes mediante fundos fictícios interconectados. No centro dessa estrutura está o Banco Master e, acima dele, o grande maestro Nelson Tanure.

Diante dos abusos do governo Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal reinventou-se como principal âncora da democracia brasileira. Sua atuação foi além de barrar tentativas de golpe: tornou-se o avalista da Polícia Federal no combate ao ecossistema criminoso. Alexandre de Moraes personificou essa resistência. Seu destemor no julgamento dos crimes de 8 de janeiro, a firmeza diante das represálias do governo Trump, a persistência na operação contra as fake news — cada um desses episódios já bastaria para incluí-lo no panteão dos grandes ministros do Supremo.

Nos últimos meses, uma sucessão de operações ampliou exponencialmente o alcance do STF: a devassa nos arquivos da 13ª Vara Federal de Curitiba, capaz de revelar um sistema de chantagens que contaminou o Judiciário por mais de uma década; o avanço da PF sobre estruturas criminosas no mercado financeiro e no comércio de combustíveis; operações que podem implicar até 90 parlamentares em desvios de emendas secretas; e o estouro do Banco Master, envolvendo inúmeras lideranças do Centrão. O Brasil estava sendo passado a limpo — e é precisamente isso que explica a violência da reação.

II. A Politização da PF: Da Saída de Lacerda à República dos Delegados

A ofensiva atual não pode ser compreendida sem retornar ao episódio fundador da politização da Polícia Federal. Em 2008, Paulo Lacerda, então diretor da ABIN, foi falsamente acusado de instalar grampos telefônicos durante a Operação Satiagraha — uma articulação que envolveu ministros do STF e a revista Veja. Apesar de a denúncia ter sido desmentida, Lula cedeu às pressões e o afastou. O ex-ministro Márcio Thomaz Bastos chegou a telefonar a Dilma Rousseff pedindo encarecidamente que alertasse Lula: sem Lacerda, não haveria liderança capaz de impedir a politização ampla da corporação. O alerta foi ignorado.

Nos anos seguintes, montaram-se grupos deletérios na PF e consolidou-se a parceria com jornalistas-sela — aqueles que se deixam cavalgar pelas fontes — culminando na Operação Lava Jato, o maior episódio de antijornalismo da história brasileira. A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal consolidou-se como força política. Com a nomeação de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, houve a ascensão meteórica da ala lavajatista — Moro montou uma verdadeira República dos Delegados.

Com a eleição de Lula, firmou-se um pacto implícito: indicou-se um diretor-geral tecnicamente qualificado, mas não se exigiu punição pelas irregularidades da Lava Jato. Houve apuração contra delegados bolsonaristas; o lavajatismo, porém, permaneceu incólume. O resultado é uma corporação fraturada.

Com as operações Colossus e Carbono Oculto, parecia que a PF havia recobrado o profissionalismo. Com o caso Master, os vazamentos sistemáticos retornam — e não se fala em punição dos responsáveis.

III. O Modelo Operacional da Lava Jato — e Seu Retorno

O padrão operacional da Lava Jato seguia uma lógica precisa: vazamento inicial sem provas concretas, amplificação midiática com denúncias frágeis, acúmulo de suspeitas independente de evidências, adesão em cascata de outros veículos e, por fim, a blindagem retórica — quem critica é a favor da corrupção. O grande jornalista investigativo José Roberto de Alencar tinha uma definição exemplar sobre o lobby: há duas maneiras de exercê-lo, defendendo o lobista ou, mais eficientemente, atacando seus adversários. Toda campanha sistemática na mídia contra alvos específicos exige, portanto, uma pergunta prévia: a quem serve?

O caso Master reúne todos os ingredientes para uma nova Lava Jato: escândalo envolvendo caciques do Centrão, enquadramento no bojo da Operação Colossus, apreensão em massa de dispositivos gerando volume imenso de informações e — portanto — enorme poder para quem controla o que vaza. O primeiro vazamento direcionou-se contra Alexandre de Moraes: o contrato do escritório de sua esposa com o Banco Master, com valores de honorário fora de qualquer parâmetro. A cobertura ignorou completamente o segundo fato: que a informação sigilosa foi extraída dos celulares apreendidos de Daniel Vorcaro. Nenhuma nota de denúncia sobre a quebra da cadeia de custódia. O carrossel da narrativa não comporta detalhes que atrapalhem o carnaval.

O editorial da Folha de São Paulo explicita a estratégia sem pudor: “Que não haja complacência com petistas e cupinchas de Lula pelo fato de amigos do presidente comandarem a Polícia Federal e vestirem togas no Supremo. A ruptura do pacto da impunidade fará mal apenas aos corruptos.” O editorialista merece o troféu de autoincriminação mais transparente do ano.

Os três grandes conglomerados jornalísticos tentam reeditar o modelo Lava Jato: parceria midiática visando a destruição do PT — e, desta vez, do próprio STF.

IV. A Dupla Mendonça-Marcantonio e a Arquitetura da Lava Jato 2

O elemento novo e mais grave da atual operação é a arquitetura institucional que a sustenta. As investigações do Banco Master estão nas mãos da Superintendência Regional da PF do Distrito Federal — que concentra a maior parcela dos delegados lavajatistas. Entre eles, o delegado Thiago Marcantonio Ferreira.

A trajetória de Marcantonio fecha um circuito político preciso. Em agosto de 2020, no auge da crise do “dossiê antifascista”, André Mendonça — então ministro da Justiça de Bolsonaro — nomeou Marcantonio para diretor de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas (SEOPI). Nessa função, Marcantonio foi responsável pelo dossiê que identificava 579 servidores públicos — entre professores e policiais — participantes de grupos antifascistas nas redes sociais. Em outubro de 2025, o mesmo Mendonça, agora ministro do STF, nomeou Marcantonio assessor de seu gabinete — nível CJ-3, o mais alto da assessoria ministerial — exatamente no período em que assumia a relatoria do caso Master.

O conjunto de irregularidades que essa parceria produziu é grave: vazamentos das mensagens do celular de Vorcaro nos primeiros dias de perícia; alimentação sistemática de colunas em O Globo contra Toffoli e Moraes; quebra do sigilo de Fábio Luiz Lula da Silva sem qualquer indício concreto de envolvimento com a operação; divulgação seletiva de sua movimentação bancária, omitindo deliberadamente os dados que contextualizariam os valores; e tentativa de controlar o acordo de delação com Vorcaro — prerrogativa exclusiva do Ministério Público Federal.

Mendonça agravou o quadro ao entregar parte do inquérito à CPMI do INSS, ampliando as fontes de vazamento para além da PF — incluindo agora os próprios parlamentares do Centrão investigados. O juiz da Lava Jato 1 era Sérgio Moro. O da Lava Jato 2 é André Mendonça. O roteiro é o mesmo. Ampliam-se as fontes para ficar mais difícil identificar os vazadores

V. A Jogada dos Vazamentos: Anular Para Salvar

Uma hipótese relevante, levantada pelo jurista Pedro Serrano, merece atenção: os que vazam sabem que estão cometendo crime — e esse pode ser exatamente o objetivo. A estratégia seria contaminar as investigações com irregularidades suficientes para gerar a anulação dos inquéritos contra Vorcaro, tal como ocorreu com a Lava Jato.

As bases para eventual anulação são conhecidas: violação ao direito de defesa; inversão da ordem processual prejudicando réus; abusos em prisões preventivas utilizadas como mecanismo de pressão para delações; e, o mais relevante, a contaminação política de decisões judiciais demonstrada pelos próprios vazamentos.

Quando Toffoli assumiu a relatoria, agiu corretamente: trocou os peritos responsáveis pelos vazamentos e anunciou filtragem para identificar casos com prerrogativa de foro. Foi atropelado por seus próprios negócios com fundos ligados ao Master e pela estratégia conjunta mídia-PF de desviar o foco das investigações do Centrão. No fim, como na Lava Jato 1, a intenção de vários jogadores é apenas valer-se politicamente do episódio.

VI. O Ponto de Vulnerabilidade e o Dilema Democrático

Sobre esse quadro paira o contrato do Banco Master com o escritório Barci e Barci Sociedade de Advogados, da esposa de Alexandre de Moraes. Os maiores interesses do Master concentravam-se no Banco Central e na CVM — não no STF. Seja qual for a natureza da contratação, não há explicação razoável para os valores envolvidos. Isso criou um ponto de vulnerabilidade para Moraes e, por extensão, para o tribunal — abrindo espaço para especulações que alimentam tanto a campanha de impeachment quanto a narrativa lavajatista.

Configuram-se dois fronts simultâneos. No Congresso, o Centrão mobiliza-se para reunir votos suficientes ao impeachment de ministros do STF — movimento que, se bem-sucedido, pavimentaria o caminho para a consolidação da ditadura da maioria parlamentar, eliminando o último obstáculo institucional significativo. Na mídia, há suspeitas de que André Esteves, do BTG, financie a ofensiva: em maio de 2025, quando a intervenção no Master já era possibilidade concreta, o BTG adquiriu aproximadamente R$ 1,5 bilhão em ativos ligados ao banco e a Vorcaro, com autorização do BC e do FGC. Com a liquidação posterior do Master, esses ativos ficaram protegidos — indisponíveis para ressarcir investidores prejudicados. As investigações do STF poderão iluminar a rede de influências que retardou a ação do Banco Central.

Forma-se assim a polarização mais perigosa do atual momento político. De um lado, forças que desejam enfraquecer o STF e desestabilizar o governo Lula. Do outro, setores convencidos de que a permanência de Moraes é indispensável à sobrevivência da democracia. Pairando sobre ambos: o contrato da esposa do ministro com o Banco Master. O dilema permanece sem resposta fácil — como esclarecer completamente esse episódio sem enfraquecer o STF em seu papel de fiador último do regime democrático brasileiro?

VII. O Que Está em Jogo

Evidentemente há muito a explicar da parte dos ministros do STF. Situações incômodas exigem código de conduta claro. Investigações sérias devem ser conduzidas com rigor, sobre provas colhidas pela PF profissional, sem vazamentos e sem direcionamento político.

Mas é ainda mais evidente que o enfraquecimento de Alexandre de Moraes interessa diretamente ao mercado financeiro, ao crime organizado e ao bolsonarismo. Da mesma forma, o enfraquecimento de Toffoli interessa à ala lavajatista, especialmente após as operações contra a antiga 13ª Vara Federal de Curitiba. E o controle das delações de Vorcaro, nas mãos de uma força-tarefa sem supervisão institucional, interessa a quem quer direcionar as investigações para alvos previamente escolhidos.

O país entrará em uma eleição decisiva com um Congresso cercado por investigações, um Supremo fragilizado, uma Polícia Federal dividida e uma mídia que repete os vícios da Lava Jato. Os verdadeiros condutores da operação midiático-judicial seguem impunes — e esse é o ponto que a cobertura dominante se recusa sistematicamente a examinar.

Alexandre Ramagem, bolsonarista, é preso pelo ICE nos EUA após fugir do Brasil condenado por tentativa de golpe. Reportagem de Camila Bezerra

 

Do Jornal GGN:


Ex-diretor da Abin e ex-deputado federal, condenado a 16 anos de prisão pelo STF, foi detido em Orlando por questões migratórias


Crédito: Reprodução/ TV Justiça


O ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi preso nesta segunda-feira (13) pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), em Orlando, na Flórida. A detenção ocorreu por volta de 12h (horário de Brasília).

Ramagem foi levado a um centro de detenção na cidade. A informação foi confirmada pela Polícia Federal, que está em contato com autoridades norte-americanas para dar prosseguimento aos trâmites de retorno ao Brasil.

“A prisão é fruto da cooperação internacional Brasil-Estados Unidos no combate ao crime organizado. Ramagem é um cidadão foragido da Justiça brasileira e, segundo autoridades norte-americanas, está em situação migratória irregular”, afirmou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Fuga

Ramagem deixou o Brasil clandestinamente em setembro de 2025, no mesmo dia em que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, votou pela sua condenação, o que levou à decretação imediata de sua prisão.

Investigações da PF revelaram que ele cruzou a fronteira entre Roraima e a Guiana pela cidade de Bonfim (RR), onde apenas um rio separa os dois países, fazendo o percurso de carro. Já em território guianense, embarcou para Miami.

Há registro da sua chegada aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2025. Embora tenha entrado sozinho no país, passou a residir lá acompanhado da esposa e dos filhos. Aliados do ex-parlamentar afirmavam que ele pretendia solicitar asilo político nos EUA.

Condenação

Ramagem foi condenado pelo STF a 16 anos de prisão por integrar o núcleo central da trama golpista que tinha como objetivo manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no poder após a derrota nas eleições de 2022.

O ministro Alexandre de Moraes também determinou a inclusão de seu nome na lista vermelha da Interpol, o que viabilizou a possibilidade de detenção por autoridades estrangeiras.

Em 30 de dezembro de 2025, o Ministério da Justiça formalizou o pedido de extradição, encaminhando a documentação por meio da Embaixada do Brasil em Washington ao Departamento de Estado dos EUA. Em janeiro de 2026, o órgão confirmou ao STF que o pedido havia sido recebido pelo governo norte-americano.

Sanções

Enquanto permanecia foragido, Ramagem acumulou uma série de punições. Em dezembro de 2025, teve o mandato de deputado federal cassado pela Mesa Diretora da Câmara, em decorrência da condenação criminal.

Na sequência, perdeu o passaporte diplomático. Por determinação do STF, a Câmara também bloqueou seus vencimentos parlamentares.

Perfil

Delegado da Polícia Federal desde 2005, Ramagem ganhou projeção ao chefiar a segurança de Jair Bolsonaro após o atentado em Juiz de Fora, durante a campanha de 2018.

No governo Bolsonaro, dirigiu a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Sua gestão é alvo de investigações por suposto uso da estrutura para monitorar ilegalmente adversários políticos, caso conhecido como “Abin Paralela”.

Em 2020, Bolsonaro tentou nomeá-lo diretor-geral da PF, mas a indicação foi suspensa pelo próprio Moraes pela proximidade entre os dois. Eleito deputado federal em 2022, também disputou a prefeitura do Rio de Janeiro em 2024, terminando em segundo lugar.

*Com informações do g1 e Metrópoles.

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