segunda-feira, 26 de outubro de 2026

“Ícone da esquerda global” e “bastião progressista”: Imprensa internacional exalta vitória histórica de Lula

 

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um inédito quarto mandato ganhou as manchetes dos principais veículos de comunicação ao redor do mundo.


Do Brasil 247:

Jornais pelo mundo também destacam festa da vitória na Paulista e contestação bolsonarista

    O presidente Lula no ato da vitória, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), em 25 de outubro de 2026.Crédito: Ricardo Stuckert

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um inédito quarto mandato ganhou as manchetes dos principais veículos de comunicação ao redor do mundo. A imprensa internacional destacou o ineditismo da conquista, o freio ao avanço da direita na América Latina e os conturbados episódios envolvendo o transporte público durante a votação do segundo turno.

Nos Estados Unidos, a CNN International destacou que Lula venceu “derrotando o senador Flávio Bolsonaro, aliado do presidente dos EUA, Donald Trump, numa eleição de segundo turno com margem estreita”. A emissora frisou que “a vitória histórica torna o líder esquerdista de 80 anos o primeiro presidente brasileiro a ser eleito para o cargo quatro vezes”. O New York Times resumiu o impacto geopolítico em sua manchete: “Lula encerrou uma sequência de vitórias da direita na América Latina”.

Na Europa, o tom foi de destaque à resiliência da esquerda brasileira. O jornal francês Le Figaro ressaltou que “o Brasil afinal não virou à direita” como ocorreu na Argentina, no Chile ou na Colômbia, observando que o país “permanece como um dos raros bastiões progressistas na América Latina”. O espanhol El País sublinhou que “Lula consegue uma virada histórica e dá a vitória à esquerda”, enquanto o britânico The Guardian destacou que “Lula conquista o quarto mandato como presidente do Brasil após uma reviravolta histórica sobre Flávio Bolsonaro, de extrema-direita”.

No continente africano, a rede sul-africana SABC não poupou elogios à trajetória de Lula, descrevendo-o como “um ícone da esquerda global e a força mais dominante na política brasileira neste século”.

No Oriente Médio, a PressTV, do Irã, destacou a grande festa popular que tomou as ruas, relatando que “milhares de apoiadores de Lula da Silva encheram a Avenida Paulista, em São Paulo”, celebrando a vitória com cânticos e fogos de artifício após a garantia de 51,74% dos votos.

A mídia asiática deu ênfase aos próximos passos do governo e ao discurso de soberania. A agência chinesa Xinhua cobriu o discurso da vitória, onde Lula prometeu trabalhar com um Congresso conservador. A agência destacou a fala do presidente sobre a necessidade de fortalecer a regulação digital “após derrotar a interferência estrangeira através de plataformas digitais”, frisando o recado de que “o Brasil não é o quintal de ninguém”.

Parte da cobertura estrangeira também se voltou aos incidentes e tensões institucionais do dia da votação. O jornal português Diário de Notícias detalhou a crise do transporte eleitoral, relatando que “o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ordenou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento integral da frota, sob pena de multa de um milhão de reais por hora”. A publicação explicou a justificativa da prefeitura sobre os veículos adesivados e notou que em São Paulo, “o PT alegou que apenas cerca de 60% da frota municipal estava em circulação”.

A agência cubana Prensa Latina também abordou os obstáculos logísticos, notando que “o dia esteve marcado por denúncias de dificuldades no transporte público”. O veículo explicou que o ministro do STF, Cristiano Zanin, “determinou prolongar a votação até as 19h00”, e apontou que “tal decisão gerou questionamentos sobre a sua aplicação nos centros onde as urnas eletrónicas já tinham sido fechadas e sobre as competências das instituições eleitorais”.


Virada histórica: Lula vence eleição presidencial

 

 

Luiz Inácio Lula da Silva vence as eleições presidenciais de 2026, com diferença de 4 milhões de votos, e conquista novo mandato no Palácio do Planalto

Do Jornal GGN:


Foto: Maria Isabel Oliveira/@miopaa

Por Patricia Faermann ​

Presidente é reeleito com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro; votação foi prorrogada até as 19h após denúncias de restrições no transporte público e dificuldades para eleitores chegarem às urnas.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vence o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e conquista um novo mandato à frente do Palácio do Planalto, com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL), com 99,76% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h, com uma diferença de mais de 4 milhões de votos. A vitória ocorre em meio a um domingo marcado por denúncias de redução da oferta de transporte público, dificuldades de acesso aos locais de votação e uma decisão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) para estender o horário de votação em todo o país.

A instabilidade eleitoral levou o ministro Cristiano Zanin, do STF, a determinar a prorrogação da votação até as 19h deste domingo (25), atendendo a um pedido da campanha de Lula. A medida foi motivada por relatos de restrições na circulação de ônibus e dificuldades de deslocamento de eleitores em diferentes estados. O TSE ficou responsável por cumprir a decisão. A campanha de Flávio Bolsonaro também havia solicitado a ampliação do horário em municípios afetados por chuvas intensas e problemas de infraestrutura.

Falta de transporte leva STF a intervir nas eleições

Ao longo do dia, a campanha de Lula denunciou problemas na oferta de transporte coletivo em diferentes regiões do país, com destaque para São Paulo e a Bahia. Em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na região metropolitana da capital baiana, foram relatadas dificuldades para garantir o deslocamento dos eleitores.

Em São Paulo, a campanha também apontou redução da frota de ônibus em circulação. Os relatos motivaram pedidos à Justiça Eleitoral para assegurar o transporte público e ampliar o período de votação, diante do risco de que parte da população fosse impedida de exercer o direito ao voto.

A decisão de Zanin buscou responder às dificuldades relatadas e garantir mais tempo para a participação eleitoral. A prorrogação, entretanto, ocorreu em um cenário de incerteza operacional sobre a aplicação da medida e o andamento da apuração.

A controvérsia também reacendeu o debate sobre o cumprimento das regras que garantem o transporte público aos eleitores. Em 2023, o STF decidiu que o poder público deve assegurar transporte gratuito no dia das eleições e proibiu a redução da oferta de transporte coletivo nas condições abrangidas pela decisão.

Desafios do novo mandato

Com a reeleição, Lula terá pela frente o desafio de consolidar sua base política e transformar a vitória eleitoral em avanços concretos para a população. A relação com o Congresso Nacional, a condução da economia e a capacidade de ampliar investimentos e políticas sociais estarão entre os principais pontos de atenção do novo mandato.

A agenda do governo deverá envolver a geração de empregos, a recuperação da renda, o fortalecimento dos serviços públicos e a redução das desigualdades. Também estarão em debate os rumos da política industrial, os investimentos em infraestrutura e o papel do Estado na promoção do desenvolvimento nacional.

A vitória não encerra a disputa política no país. A oposição continuará representando uma força relevante no Congresso Nacional e na sociedade, enquanto o governo precisará responder às expectativas dos eleitores e lidar com uma Casa Legislativa de base da oposição.

Em meio à instabilidade registrada durante a votação, o próximo mandato começa com o desafio de reafirmar a confiança nas instituições democráticas e garantir que o direito ao voto seja efetivamente assegurado a toda a população.

A vida venceu: Lula é reeleito presidente do Brasil, por Eliane Brum

 

Do Canal SUMAÚMA Jornalismo:

Depois da mais espetacular virada desde o início da redemocratização, o bolsonarismo foi derrotado nas urnas e o país ganha algum fôlego para enfrentar a extrema direita que seguirá avançando



UOL - Flávio Bolsonaro termina eleição de 2026 da forma que começou: mentindo | Toledo

 

Do UOL:

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à eleição presidencial derrotado, disse na noite de hoje que vai pedir a anulação do pleito após o ministro Cristiano Zanin, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinar a prorrogação da votação em todo o país até as 19h. Flávio perdeu o pleito para Lula (PT) em uma virada histórica. O colunista José Roberto de Toledo afirmou que o senador termina a eleição da forma como começou: mentindo. Resultado ao vivo das eleições com Daniela Lima, Fabiola Cidral, Josias de Souza e todo o time do UOL.




Rádio CBN - Rui Tavares Maluf sobre Flávio Bolsonaro não reconhecer derrota: Fala grosseira e clara contradição

 

Da Rádio CBN:

Após a apuração dos votos, Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota e afirmou que pretende recorrer à Justiça para pedir a anulação do pleito, criticando decisões do STF e a condução das eleições. No estúdio da CBN, o cientista político e pesquisador Rui Tavares Maluf avalia a declaração do candidato derrotado, aponta contradições no discurso e analisa a postura das instituições eleitorais. Assista à análise completa. Foto: Reprodução/TV Globo



Dani Lima: Flávio Bolsonaro dificilmente conseguirá anulação da eleição; já há certo consenso no STF

 

 

Do UOL:

Resultado ao vivo das eleições com Daniela Lima, Fabiola Cidral, Josias de Souza e todo o time do UOL.



UOL - Virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro; sem espaço para contestação, diz Toledo

 

Do UOL:

Resultado ao vivo das eleições com Daniela Lima, Fabiola Cidral, Josias de Souza e todo o time do UOL



Reinaldo Azevedo - Lula vence; pesquisas erram feio; os fatores que contaram parfa a vitória de Lula, incluindo covardia de Nikolas

 


Da Rádio BandNews FM:




domingo, 25 de outubro de 2026

Carta aos Cínicos bolsonaristas, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal (também citando Bertolt Brecht)

 

Odeio como (vocês bolsonaristas) zombam de mulheres, gays e negros. Odeio porque vocês nos matam com armas e palavras. Odeio como berram e mentem descaradamente...

Do Jornal GGN:


    Arte na rua

Carta aos Cínicos, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Aos que vão nascer

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

(…)

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

(…)

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Bertolt Brecht, “An die Nachgeborenen” / “Aos que vão nascer”. Tradução de Paulo César de Souza.


Prezados Cínicos,

Talvez estranhem o “prezados” logo de cara e me interpretem também como uma cínica, por usá-lo no início desta missiva. De fato, não desconheço a contradição da minha primeira frase e a assumo, mas não sem constrangimento. Aí reside, talvez, nossa primeira diferença.

Constrangida por nascença. Um certo pudor por existir, por ocupar espaços e tempos dos outros. Alguma cerimônia, herdada talvez de meu pai mineiro, pobre e órfão, ou vinda da gestação tardia e de risco de minha mãe, quem saberá, me faz ter um receio exagerado de ser, de alguma forma, incômoda. Pior, uma certa necessidade de soar útil demais, de trabalhar neuroticamente muito além do que precisava, me levou ao divã, mas também ao lugar onde estou hoje e de onde escrevo esta carta: esse lugarzinho de defensora dos direitos humanos, tão odiado por vocês, caros Cínicos.

Eis a razão da carta.

Quero falar de nosso ódio. Sim, o nosso, porque também odeio, e não é com facilidade que digo isso, o que, reconheço, em nada ameniza a feiura do meu ódio por vocês, prezados Cínicos.

Odeio em sussurros, para as crianças, que agora dormem, não escutarem. Odeio sem contar aos vizinhos e sem colocar na rede social. Odiar me faz perder o sono. Me dá dores no corpo. Me faz chorar e, assim mesmo, odeio.

Olho extasiada para esse ódio estranho e familiar que emerge de dentro de mim e tento decifrá-lo, mas não o reconheço no que me move ou comove.

Meu ódio não está no meu quintal, nas platinelas do meu pandeiro, no pelo macio da minha gata ou na risada do meu filho. Não o encontro no azul que minha mãe inundava em mim quando me olhava, tampouco no violão do meu bem, esse Bem que um dia cruzou uma esquina de carnaval, quando tudo parecia vivido e desvivido.

Procuro, mas não o encontro na filha que vai à feira para comprar flores, nem nos desvalidos que, todos os dias, me atravessam tão profundamente com suas histórias e dores que fico capaz de erguer teatros, ruas e escolas, mover prefeitos, pastores, professores e ex-amores, os prédios, as pontes e os abismos, tudo e todos no mundo inteirinho, só para que ninguém mais sofra ou, pelo menos, não sofra sozinho.

E mesmo assim, odeio.

Volto para o divã, mais corajosa agora, para reconhecer e cavoucar o ódio que sinto dos senhores, prezadíssimos Cínicos. Destemida, fria e empoderada, vou até a menininha que queria salvar o pai de seus desenredos e a mãe de seus lutos. Cavuco tudo, toda a solidão miúda da menininha, até as entranhas, mas não o encontro.

Mas sim, odeio. Estou bem certa de que odeio.

Não duvidem. Não riam do meu ódio, porque posso provar que odeio.

Odeio como zombam de mulheres, gays e negros. Odeio porque vocês nos matam com armas e palavras. Odeio como berram e mentem descaradamente enquanto eu peço licença para existir. Odeio como gesticulam, ensaiam trejeitos e frases prontas para machucar, calar e humilhar. Odeio sua política de bullying e seu Deus vingativo, preconceituoso e tirano. Odeio ver minhas amigas fazendo cursos de autodefesa para sobreviverem a vocês nas ruas escuras. Odeio, com todo o nojo que sou capaz de sentir, como profanam a democracia e exaltam a tortura.

Odeio, Senhores Cínicos, esse mundo paralelo para onde levaram tantos dos que amo, afastando-os de mim, a ponto de eu não mais saber se eles são, também, agora, os cínicos para quem escrevo esta carta.

Odeio, Senhores Cínicos, por terem me tirado deles.

E mesmo assim, odeio.

Mas me contem, Senhores Cínicos, sentem-se aqui, tragam seus ódios para a roda. Fizemos uma roda nesta escola pública. O professor negro disse que quer contar que se afundou em depressão ao se sentir sozinho e sem retaguarda, depois que o pai de um aluno o ameaçou de morte por ter dado uma aula de história sobre a ditadura.

Venham cá, Senhores, escutem a menina de 14 anos tentando segurar as lágrimas enquanto conta que cresceu ouvindo que iam cortar seu cabelo para lavar a louça.

Cheguem pertinho, por favor, para ouvir a voz baixinha da mãe do menino gay que se matou.

Escutem essa outra mãe falando que sua filha com deficiência é rosto, não resto.

Por favor, tragam seu ódio para perto, sem robôs no meio de nós. Robôs não sentam em roda. Robôs não conhecem a professora negra cuja mãe lhe dava água com açúcar, na infância, para enganar a fome. Aparentemente, ela não precisou de coach, Senhores, mas de política pública para ser, hoje, doutoranda em uma das melhores universidades públicas do país.

Venham todos, por favor, vamos ouvir músicas juntos.

Agora é a vez de vocês.

Contem suas histórias. Quem embalou vocês? Do que vocês brincaram nos parquinhos? Quem vocês amaram? Por quem já choraram escondidos? O que já desejaram ter e não tiveram? Quem ama os Senhores, Caros Cínicos?

Quero escutá-los, preciso escutá-los, posso aguentar porque já odeio vocês.

Trago meu ódio, declarado e reconhecido em cartório. Posto. Eu odeio. O ódio está nu na roda.

Venham, venham, Senhores Cínicos, vamos improvisar nossas falas. Respeitar as pausas e os silêncios. Respirar. Deixemos os ensaios para as coreografias de dança.

Conseguem escutar meu ódio?

Meu gigantesco ódio grita que odeia muito, odeia mesmo, de verdade. Odeia odiar.

E o de vocês?

Espera…

Eu não trouxe armas.

Esqueci de odiar com elas… espera…

Espera…


A criança procurava o lápis de cor quando achou a carta. Os adultos sempre contavam sobre a tal carta da espera.

Naquele dia, quando os ódios foram se sentar em roda, apareceu tanta gente para falar e escutar que a roda já não coube em si mesma. Foi crescendo, crescendo, até virar uma espiral gigantesca em direção aos céus.

A espiral subiu, subiu, subiu, levantando ventos que abriram frestas nos mundos paralelos.

Diz a lenda que, naquele dia, com a ventania, a letra R escapou das aRmas que os Senhores Cínicos levaram para a roda.

Os professores, os estudantes, as merendeiras e as gentes todinhas foram recolhendo os erres voadores e espalhando-os pelos cantos do mundo.

Era um tal de gente aRRebatada, aRRepiada, ReeRguida, Resistente, Reexistente e Risonha como jamais se viu. O mundo rangeu de vida.

E os cínicos, coitados, sem robôs para ajudá-los, tiveram que se haver com o que sobrou da palavra arma sem a letra R mesmo.

CRISTIANE CORRÊA DE SOUZA HILLAL – Promotora de Justiça do MPSP