O "inquestionável" Mercado tem uma vida emocional surpreendentemente rica para alguém que ninguém jamais viu. Também possui opiniões que são sacralizadas pela grande mídia oligárquica empresarial que ele, ó o Mercado, alimentada.
Do Jornal GGN:
Mercado, ó o Mercado
Ele se inquieta, perde a confiança, aprova ministros e cobra governos. Depois de apostar na eleição e perder, o personagem mais poderoso da economia brasileira já apresenta suas condições ao vencedor. Mas, afinal, quem é o Mercado?
“O inimigo da sabedoria convencional não são as ideias,
mas o curso dos acontecimentos.”
John Kenneth Galbraith, A sociedade afluente (1958).
O dia seguinte
O Mercado acordou nervoso.
Não sabemos exatamente onde dormiu, nem quantas pessoas foram consultadas para estabelecer seu estado de espírito. Sabemos apenas que estava nervoso. Nos dias seguintes, ficou também preocupado, cauteloso, decepcionado e, em certos momentos, esperançoso. O Mercado tem uma vida emocional surpreendentemente rica para alguém que ninguém jamais viu.
Também possui opiniões. Cobra responsabilidade fiscal, exige sinais, recomenda moderação, avalia ministros, recupera ou perde a confiança. Na semana passada, tinha ainda preferências eleitorais. Parte dos investidores havia montado suas posições e carteiras apostando em uma vitória de Flávio Bolsonaro, antecipando uma política econômica mais próxima daquela que consideravam desejável. O eleitor decidiu de outra maneira.
O Mercado perdeu a eleição no domingo. Na segunda-feira, começou a apresentar seu programa de governo.
Uma banca examinadora chamada Mercado
Entre as primeiras preocupações surgiu, naturalmente, o Ministério da Fazenda. E um nome começou a circular com insistência: Rafael Fonteles.
A escolha teria méritos difíceis de contestar. Fonteles é matemático, mestre em Economia Matemática pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), foi premiado nas Olimpíadas Internacionais de Química, Física e Matemática, comandou durante anos a Secretaria da Fazenda do Piauí, presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) e acaba de ser reeleito governador com ampla maioria.
É um currículo respeitável.
Ainda assim, parece faltar uma qualificação: Rafael Fonteles precisa conquistar a confiança do Mercado.
Não deixa de ser curioso. Um governador eleito precisa demonstrar ao Mercado que merece sua confiança, mas raramente ocorre a alguém perguntar se o Mercado precisa demonstrar ao governador que merece a dele.
A situação se torna ainda mais interessante porque nem sequer está claro que exista essa entidade coletiva capaz de aprová-lo. Alguns gestores receberam seu nome com entusiasmo; outros disseram conhecê-lo pouco. Surge então uma pergunta elementar: se nem o Mercado sabe exatamente o que o Mercado pensa, quem fala quando o Mercado fala?
O próprio Fonteles ofereceu uma pista ao comentar a reação dos investidores à eleição. Lula, lembrou ele, “não é presidente apenas para quem atua nos mercados”; é presidente pensando no conjunto do país.
Parece uma obviedade. Talvez por isso precise ser lembrada.
A confiança tem memória curta
Não seria a primeira vez que um presidente eleito se defrontaria, antes mesmo de iniciar o mandato, com a necessidade de conquistar outra espécie de sufrágio.
Dilma Rousseff conhece a experiência. Reeleita em 2014, começou o segundo mandato promovendo uma forte inflexão na política econômica. Chamou Joaquim Levy para a Fazenda e adotou um ajuste destinado, entre outras coisas, a recuperar a credibilidade fiscal e a confiança dos agentes econômicos.
Seria simplista atribuir àquela escolha a crise que terminaria no impeachment. Mas também seria imprudente esquecer que a guinada não produziu a tranquilidade econômica prometida nem protegeu o governo da deterioração política que se seguiu.
A confiança do Mercado revelou então uma propriedade peculiar: pode custar caro para ser conquistada e, mesmo depois de conquistada, não vem acompanhada de garantia.
Lula talvez tenha alguma razão para se lembrar disso.
Há gastos e há “serviços”
A cobrança atual tem um centro conhecido: responsabilidade fiscal. A preocupação é legítima. Nenhum governo pode tratar indefinidamente receitas, despesas e dívida como variáveis independentes. A trajetória da dívida brasileira merece atenção, e juros elevados tornam seu financiamento particularmente oneroso.
O curioso começa quando procuramos descobrir onde se concentra o olhar.
Há despesas que aparecem no debate público acompanhadas de adjetivos. O gasto social pode ser excessivo; o reajuste do salário mínimo, dispendioso; a Previdência, insustentável; o investimento público precisa caber no orçamento. Saúde, educação, universidades, infraestrutura e programas de transferência de renda entram rapidamente na planilha quando chega a hora do ajuste.
Os juros da dívida pertencem a outra categoria linguística. Constituem o “serviço da dívida”.
E o serviço não é pequeno. Para 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma despesa federal líquida com juros equivalente a cerca de 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo quadro fiscal, as despesas federais de capital aparecem em torno de 0,6% do PIB.
Não se trata, evidentemente, de comparar mecanicamente rubricas de natureza diferente. Os juros remuneram quem financiou o Estado, e sem financiamento não existe Estado moderno. Mas a diferença de escala deveria ao menos suscitar uma pergunta que raramente abre os debates sobre austeridade: por que custa tanto ao Brasil financiar sua dívida?
Porque existe também uma diferença muito concreta entre os destinos do dinheiro. O investimento público pode ampliar a infraestrutura, a produção e a capacidade tecnológica do país. O crédito agrícola pode gerar uma safra; a política industrial, ampliar a capacidade produtiva; o investimento em ciência, criar uma tecnologia que ainda não existia.
O pagamento de juros cumpre uma função econômica necessária: remunera o capital que financiou o Estado. Mas não deixa diretamente um novo pé de milho no campo, outro parafuso na fábrica, mais um quilômetro de ferrovia – nem uma escola, um porto ou um laboratório.
Talvez por isso seja tão curioso que, quando chega a hora de procurar o responsável pelo desequilíbrio, a lupa costume pousar primeiro sobre as despesas primárias.
Há o salário do professor, o benefício do aposentado, o Bolsa Família destinado à família pobre – e os juros pagos ao credor.
Mas, no debate sobre o gasto público, quase sempre são os três primeiros que acabam sentados no banco dos réus.
Noventa por cento de quê?
Nesse momento costuma surgir o número capaz de encerrar a conversa: pela metodologia brasileira, a dívida bruta do governo geral caminha para perto de 90% do PIB; pela metodologia internacional utilizada pelo FMI, a projeção para 2026 é de aproximadamente 98%.
É muito. E sua trajetória deve preocupar.
Mas números também viajam. Pela mesma metodologia, a dívida dos Estados Unidos está perto de 127% do PIB; a da França, de 119%; a da Itália, de 138%.
Isso não torna a dívida brasileira pequena, muito menos autoriza comparações mecânicas entre países cujas moedas, mercados financeiros e condições de financiamento ocupam posições muito diferentes no sistema internacional. Mostra apenas que a relação dívida/PIB, sozinha, não traz uma política econômica escondida dentro dela.
Importam os juros, os prazos, a moeda, os credores, a capacidade tributária do Estado e o crescimento da economia. Importa ainda uma pergunta quase sempre esquecida: o que um país constrói enquanto se endivida?
Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra Mundial com dívida pública equivalente a 106% do PIB. Em 1974, a relação havia caído para 23%. Superávits primários, inflação inesperada e juros nominais mantidos baixos durante parte do período tiveram papel importante nessa redução, ao lado do crescimento econômico. Enquanto a dívida encolhia em relação ao produto, porém, o país expandia universidades, infraestrutura, pesquisa científica, habitação, rodovias, energia e tecnologias que ajudariam a definir a economia do pós-guerra.
A dívida não registra apenas quanto um país deve. A história econômica também pergunta o que ele construiu enquanto devia.
Há, afinal, duas maneiras de melhorar uma fração: diminuir o numerador ou aumentar o denominador.
Na relação dívida/PIB, o denominador tem um nome. Chama-se economia.
Os intérpretes do invisível
O Mercado, naturalmente, precisa de intérpretes.
Todas as noites eles aparecem nos jornais, nos canais de notícias e nas páginas de economia. São economistas de bancos, gestores de fundos, analistas de consultorias, operadores e especialistas que conhecem profundamente os mecanismos financeiros e têm todo o direito de apresentar suas avaliações.
Seria absurdo não os ouvir.
Há, porém, algo curioso nessa mediação. Como certas entidades que não se manifestam diretamente e precisam de médiuns para ganhar voz, o Mercado só se torna audível quando alguém fala por ele. E seus intérpretes, embora numerosos, parecem muitas vezes captar mensagens surpreendentemente semelhantes.
É aí que começa o problema. Uma escolha entre políticas possíveis adquire lentamente a aparência de consenso técnico. A preferência vira recomendação; a recomendação, necessidade; a necessidade, realidade. Ao final do percurso, já não sabemos muito bem onde terminou a análise e começou a vontade da entidade interpretada.
Talvez Galbraith reconhecesse aí uma velha conhecida. A “sabedoria convencional” não precisa ser falsa para adquirir poder; basta que determinadas ideias, de tão repetidas, passem a parecer menos escolhas do que descrições inevitáveis da realidade. Até que, como lembrava a epígrafe, o curso dos acontecimentos resolva submetê-las a novo exame.
E a própria linguagem ajuda.
Quando trabalhadores querem alguma coisa, sindicatos reivindicam. Movimentos sociais pressionam. Empresários defendem interesses. Partidos propõem. Professores pedem recursos. A indústria solicita incentivos.
O Mercado não faz nada disso. Ele reage.
A diferença é pequena apenas na gramática.
Quem reivindica possui interesses. Quem reage parece obedecer às leis da natureza.
A temperatura cai. A chuva aumenta. O dólar sobe.
O Mercado reage.
E quase nunca perguntamos quem estava do outro lado da frase.
Quando o plural desaparece
Por trás do singular há, naturalmente, um plural. Existem bancos, fundos de investimento, seguradoras, corretoras, gestores de patrimônio, investidores estrangeiros, empresas, credores e milhões de pessoas que aplicam suas economias. Seus interesses não são necessariamente iguais e, algumas vezes, são abertamente contraditórios.
Todos são legítimos.
O truque acontece quando o plural desaparece.
Um conjunto de interesses econômicos identificáveis deixa de aparecer como uma das forças que disputam escolhas numa democracia e passa a falar como entidade única, sem rosto e aparentemente sem interesses próprios. Suas preferências tornam-se “sinais”; suas demandas, “condições”; sua aprovação recebe o nome de “confiança”.
Lula terá de ouvir o Mercado. Seria irresponsável não fazê-lo. Um governo precisa preservar a estabilidade da moeda, financiar sua dívida, atrair investimentos, estimular empresas e manter contas públicas sustentáveis.
Mas talvez o Mercado também pudesse experimentar uma inovação: ouvir o país.
Na segunda-feira
No domingo da eleição, banqueiros, gestores de fundos, credores, empresários, professores, trabalhadores, aposentados e desempregados foram chamados a decidir quem deveria governar o Brasil pelos próximos quatro anos.
Cada um recebeu exatamente um voto.
O resultado desagradou a muitos e alegrou a muitos outros. É assim que funcionam eleições.
Na segunda-feira, os jornais informaram que o Mercado estava nervoso. Logo soubemos que cobrava responsabilidade fiscal, queria sinais, examinava candidatos ao Ministério da Fazenda e aguardava garantias de que o novo governo compreenderia suas preocupações.
Talvez não seja necessário combater o Mercado. Nem o ignorar. Muito menos silenciá-lo.
Bastaria apresentá-lo.
Dizer quem está falando, em nome de quem, representando quais interesses e defendendo quais escolhas. Interesses legítimos não precisam ser transformados em forças da natureza.
Porque no domingo o Mercado ainda era feito de cidadãos.
Cada um com seu voto.
Foi somente na segunda-feira que voltou a ser uma entidade.
Celso P. de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq, Membro da Academia Brasileira de Ciências


