Mostrando postagens com marcador Banco dos Brics. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Banco dos Brics. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de julho de 2025

Por que Trump teme o sistema monetário do BRICS, por Luís Nassif


 Não há mais nenhum setor da economia mundial capaz de se rivalizar com as big techs, com exceção dos Estados nacionais.

Do Jornal GGN:




Há certa dificuldade em entender os movimentos erráticos do presidente norte-americano Donald Trump. Especialmente as ameaças aos países que aderirem à moeda do BRICS.

Há uma mudança fundamental na lógica do poder norte-americano. A partir do acordo de Bretton Woods, o poder se manifestava através de um multilateralismo enviesado, em torno de instituições como FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, sempre com predomínio norte-americano e tendo como peça central o dólar.

As duas formas de poder de uma Nação são as Forças Armadas e a moeda. Desde então, o dólar cumpriu todas as funções de uma moeda referência:

  • Moeda de reserva internacional: cerca de 58% das reservas cambiais globais sendo denominadas em dólar.
  • Moeda de comércio internacional: mais de 80% do comércio mundial é faturado em dólar.
  • Moeda de financiamento internacional: emissão de dívida soberana e corporativa em dólar, especialmente em países emergentes.
  • Referência cambial: muitas moedas sendo atreladas ao dólar.
  • Moeda dos contratos internacionais: contratos de leasing, financiamentos de aviões, energia e infraestrutura.

Gradativamente, o dólar foi perdendo relevância. Nas represálias contra a Rússia, o país foi proibido de usar o swift (o sistema internacional de troca de reservas em dólares), um golpe político que feriu de morte a credibilidade do sistema.

Além disso, a dívida pública norte-americana criou uma relação negativa com a China. Esta aplicava suas reservas nos EUA, permitindo o crescimento da economia norte-americana via endividamento, enquanto a própria China crescia via produção voltada para o comércio exterior e, depois, para a economia interna.

Ao mesmo tempo, a diplomacia dos canhoneiros tornou-se muito onerosa para a economia norte-americana, da mesma maneira que sucedeu com outras civilizações, como a romana e a britânica.

O poder das big techs

Enquanto isto ocorria, as big techs norte-americanas ascendiam ao topo do mundo, mudando a natureza do poder norte-americano e confrontando o poder até então absoluto de Wall Street e da City londrina.

A ascensão de Trump mudou completamente a estrutura de poder. Agora não se trata especificamente de manter a supremacia norte-americana com o poder das canhoneiras e do dólar, mas de submeter o mundo – e o próprio EUA – ao poder das big techs. 

Não há mais nenhum setor da economia mundial capaz de se rivalizar com as big techs, com exceção dos Estados nacionais. Ora, uma das manifestações do poder nacional é o sistema monetário. Hoje em dia, o único poder a confrontar a postura ditatorial de Trump, nos Estados Unidos, é o FED – representando o poder do mercado financeiro.

Nos EUA, os embates de Trump com o FED e um conjunto de medidas intempestivas, tirando a previsibilidade do dólar, parecem ter a intenção de ser o último prego no caixão do sistema monetário pós-Bretton Woods.

A estratégia interna de Trump está explícita: a troca das moedas nacionais pelas moedas privadas.

  • No dia 1 do novo mandato (23‑jan‑2025), assinou a EO 14178 (Fortalecimento da liderança em finanças digitais), revogando regras anteriores e estabelecendo um grupo de trabalho para criar um marco regulatório claro para as criptomoedas.
  • Pouco depois, instituiu a criação de um Crypto Summit na Casa Branca e nomeou um “cripto czar”, David Sacks.
  • Em março de 2025, aprovou um Decreto Presidencial para criar uma Reserva Estratégica de Bitcoin e um Estoque Digital de Ativos (BTC, ETH, XRP, SOL, ADA) – chamados por ele de “crypto capital of the world”
  • A ordem determinou que os EUA mantenham e auditem cerca de 200 mil BTC apreendidos, comparando-a ao “Fort Knox Digital”.
  • A SEC foi orientada a suavizar sua atuação — novas empresas cripto cresceram e várias ações foram suspensas ou abandonadas .
  • A CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities) recebeu reforço, enquanto uma unidade de combate a crimes cripto do DOJ foi dissolvida.
  • Trump é fortemente investidor: plataformas como World Liberty Financial (stablecoin USD1), memecoins ($TRUMP, $MELANIA), e grandes participações em Bitcoin e Ethereum, o que elevou sua fortuna em centenas de milhões 

O papel do BRICS

No Ocidente, o poder absurdo das big techs vem sendo questionado justamente pelos Estados nacionais – a União Europeia e o Brasil. Apesar de seu escorregão no episódio do IOF, o Ministro Alexandre de Moraes transformou-se na principal liderança global contra o poder sem limites das redes sociais.

Google, Apple, Amazon, PayPal estão avançando céleres para serem dominantes na categoria de meios de pagamento de base ampla (retail payment instruments), categoria onde se enquadram os cartões de crédito. No futuro, bastará trocar as moedas nacionais por criptomoedas. Com o avanço da Inteligência Artificial, o controle global ficará mais próximo.

É nesse quadro que surge o BRICS trabalhando um novo sistema monetário, articulando, preservando e fortalecendo o papel das moedas nacionais e desenvolvendo uma rede BRICS Pay e na interoperabilidade de sistemas de pagamento. A regulação das redes e, agora, a montagem do sistema monetário dos BRICS, são empecilhos às pretensões de Trump, de ser o novo dono do mundo.

Nas discussões do NDB (Novo Banco dos BRICS), uma das preocupações era justamente definir limites para o uso da IA e a preservação da chamada soberania monetária.

Todos os países BRICS defendem a preservação de suas moedas nacionais (real, rublo, rupia, yuan, rand, etc.) como pilar de autonomia macroeconômica. Isso se reflete em três frentes:

DimensãoEnfoque
Política cambialCada país mantém regime de câmbio próprio (flutuante, administrado ou fixo), com metas e prioridades nacionais.
Política monetáriaBancos centrais dos BRICS seguem regras locais: metas de inflação, crescimento ou estabilidade cambial.
DesdolarizaçãoA substituição do dólar é buscada, mas sem sacrificar a autonomia das moedas nacionais.

É interessante a comparação da BRICS+ AI Charter (Carta de Inteligência Artificial dos BRICS), com o EU AI Act (União Europeia) e as diretrizes OCDE/ONU:

📊 TABELA COMPARATIVA: BRICS+ AI Charter × EU AI Act × Diretrizes da OCDE/ONU

Critério🇧🇷🇷🇺🇮🇳🇨🇳🇿🇦 BRICS+ AI Charter🇪🇺 EU AI Act (2024)🌐 OCDE/ONU (Recomendações globais)
Modelo regulatórioÉtico, pluralista, voltado à soberania e inclusãoRegulação ex ante, com regras rígidas por nível de riscoDiretrizes não vinculantes, baseadas em consenso técnico
Base jurídicaProposta político-normativa em construçãoLei aprovada e vinculante em todos os países membros da UESoft law (recomendações e princípios)
Classificação de riscoEm discussão; princípio da contextualização cultural e socialDivisão em 4 níveis: proibido, alto risco, médio e mínimoAponta riscos, mas sem categorização jurídica obrigatória
Foco ético e culturalDiversidade, pluralismo ético, evita imposições culturaisDireitos fundamentais europeus (non-discrimination, privacy)Foco em transparência, inclusão, sustentabilidade
Uso militar e estatal da IAFlexível; pode incluir usos soberanos e militares (ex: China, Rússia)Proíbe IA para vigilância biométrica em tempo real em públicoRecomenda cautela, mas não veda
Transparência e explicabilidadeFortemente apoiada, mas com adaptação à realidade técnica localObrigatória para sistemas de alto riscoRecomendação central (princípio da “explainability”)
Proteção de dados e uso de conteúdoPropõe compensação a criadores de dados usados em treino de IAProteção forte via GDPR e proibição de scraping sem base legalRecomendação de consentimento informado e uso justo
Soberania digitalPonto central: dados, infraestrutura e LLMs locaisNão é prioridade; depende de empresas privadasPromove interoperabilidade, não necessariamente soberania
Governança internacional propostaONU + BRICS+ Secretariat + países do Sul GlobalUnião Europeia (comissão, parlamentos, tribunais)Fóruns multilaterais (UNESCO, OCDE, G7/20)

Nesse jogo, a posição do Brasil pode ser sintetizada em 3 princípios:

  • Valorização da ética, direitos humanos e justiça algorítmica, como o EU AI Act;
  • Também defende soberania tecnológica e dados locais, como o Charter BRICS;
  • Tem criticado propostas da OCDE por não refletirem as realidades do Sul Global.

Leia também:


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Como os Brics podem desafiar o dólar. Por Paulo Nigueira Batista Jr

 

Sistema monetário comandado pelos EUA tornou-se obsoleto e disfuncional; além de injusto, é claro. Mas substituí-lo exige determinação e criatividade políticas. Quais os obstáculos. Como superá-los. Por que a transição é imprescindível

.

Os BRICS vêm discutindo há algum tempo a possibilidade de construir arranjos alternativos ao dólar norte-americano e ao sistema de pagamentos ocidentais. A atual ordem – mais correto seria dizer desordem – monetária e financeira internacional, dominada pelos Estados Unidos e seus aliados, se mostra crescentemente disfuncional e insegura. O sistema foi transformado em arma geopolítica para aplicação de sanções, punições e confiscos.

Nas últimas semanas, estive em Moscou e participei de três debates sobre essa temática, em eventos precursores da cúpula dos líderes dos BRICS, que ocorrerá em Kazan, na Rússia, de 22 a 24 de outubro. Tento fazer aqui um resumo das conclusões a que cheguei.

O desafio para os BRICS é, antes de tudo, político. Os americanos sempre foram apegados ao que De Gaulle, nos anos 1960, chamava de “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos – entendido, em resumo, como a capacidade de pagar suas contas e dívidas simplesmente emitindo moeda. Os EUA não hesitam em acionar os aliados e clientes que possuem em outros países para minar iniciativas desse tipo.

China, Rússia e Irã não são provavelmente muito vulneráveis a esse tipo de pressão. Mas o mesmo não pode ser dito de outros países dos BRICS. Até Beijing pode hesitar em comprar essa briga com Washington.

O desafio também é técnico. Construir um sistema monetário e financeiro alternativo requer trabalho árduo e especializado, bem como negociações prolongadas e difíceis. Somos capazes de realizar isso? Acredito que sim. Mas será que fizemos progresso desde que o assunto ganhou as manchetes? Algum progresso foi feito, mas menos do que se poderia esperar.

Sob a presidência russa dos BRICS, em 2024, houve tentativas parcialmente bem-sucedidas de avançar. Por exemplo, foi criado um grupo de especialistas independentes, do qual faço parte, que discutiu a reforma do sistema monetário internacional e a possibilidade de uma moeda dos BRICS. O conhecido economista americano Jeffrey Sachs é parte desse grupo. Mais importante do que isso: a Rússia preparou uma proposta detalhada para um sistema alternativo de pagamentos transfronteiriços baseado em moedas nacionais – um passo importante na direção de um novo arranjo monetário e financeiro internacional.

Até agora, no entanto, poucos avanços foram feitos no que diz respeito à questão mais fundamental, que seria criação de uma nova moeda como alternativa ao dólar. E mesmo a discussão da proposta russa de um novo sistema de pagamentos ainda é incipiente. O Brasil exercerá a próxima presidência dos BRICS em 2025 e terá a oportunidade de coordenar a discussão, aprofundar a proposta da Rússia e preparar novos passos.

Limites às transações em moedas nacionais e sistemas de pagamento alternativos

O sistema de pagamentos SWIFT, controlado pelos EUA e aliados, é usado sistematicamente como instrumento para punir e ameaçar países e entidades vistas como hostis ou pouco amigáveis. Bancos desses países são sumariamente excluídos do sistema, como aconteceu com a Rússia. Mesmo outros países podem sofrer sanções secundárias, quando procuram transacionar com países ou entidades sancionadas. Por isso, o progresso feito durante a presidência russa na elaboração de alternativas ao SWIFT é, sem dúvida, uma iniciativa muito bem-vinda, que avança na direção de nos livrar da dependência excessiva das moedas e dos sistemas de pagamento ocidentais. Também vêm avançando as transações bilaterais em moedas nacionais entre os BRICS e entre os BRICS e outros países. Crescem, além disso, os swaps bilaterais em moedas nacionais entre bancos centrais, primordialmente com o banco central da China.

Contudo, deve-se reconhecer que transações em moedas nacionais e as alternativas ao SWIFT têm suas limitações. A questão essencial, nem sempre bem compreendida, é que a existência de uma moeda de reserva alternativa constitui, em última análise, uma pré-condição para que a desdolarização funcione plenamente. A razão reside no fato de que apenas acidentalmente haverá um equilíbrio nas transações bilaterais em moedas nacionais. Uma moeda de reserva internacional alternativa é necessária para permitir que os países registrem superávits e déficits ao longo do tempo. Na ausência disso, os países têm que recorrer a esquemas custosos equivalentes a escambo – ou então voltar ao dólar americano e outras moedas tradicionais, o que derrotaria todo o propósito do exercício.

Um exemplo. A Rússia tem um superávit substancial com a Índia. O comércio e outras transações são realizados principalmente em moeda nacional. Portanto, a Rússia vem acumulando grandes estoques de rúpias. O banco central russo pode não querer manter essa moeda permanentemente em suas reservas, talvez porque a rúpia não seja totalmente conversível e haja dúvidas sobre sua estabilidade. Quais são as suas opções? A Rússia pode tentar dispor desses excedentes em rúpias buscando oportunidades de investimento na Índia ou fazendo um esforço adicional para comprar bens e serviços indianos. Mas isso pode ser difícil e demorado. Ela também pode usar essas rúpias em terceiros países que tenham interesse em obter moeda indiana devido a proximidade econômica com a Índia. Mas isso também pode ser difícil, levando a vendas de rúpias com desconto. Essas alternativas são claramente second-best ou third-best e remetem ao sistema antiquado de escambo, no qual os agentes econômicos trocavam bens e serviços bilateralmente e saíam à cata de terceiros para se desfazer de mercadorias indesejadas e obter em troca mercadorias desejadas. Foi precisamente para evitar esse sistema ineficiente que o dinheiro foi criado para servir como meio de pagamento, padrão comum de valor e instrumento para manutenção de reservas. Pelas mesmas razões, os BRICS precisam de uma nova moeda de reserva como alternativa ao dólar dos EUA e outras moedas tradicionais de reserva.

Uma nova moeda de reserva – a NMR

Como poderia ser essa nova moeda? Existem várias possibilidades. Vou tentar apresentar, de maneira sintética, um caminho que me parece promissor. Para uma explicação um pouco mais completa, remeto ao trabalho que preparei para um dos eventos em Moscou (“BRICS: Geopolitics and monetary initiatives in a multipolar world – how could a new international reserve currency look like?”, 23 de setembro de 2024 (https://www.nogueirabatista.com.br/).

Vamos chamar essa nova moeda de NMR, sigla para “nova moeda de reserva”. Um nome anterior interessante era R5, proposto por economistas russos quando eram cinco os países membros dos BRICS e todas as suas moedas começavam com a letra R. No entanto, esse nome ficou prejudicado, pois alguns dos quatro novos membros possuem moedas cujos nomes não começam com a letra R. Não é algo tão importante, claro. Poderíamos chamá-la então de moeda BRICS ou BRICS+? Infelizmente, não. E esse ponto é importante: alguns dos países dos BRICS parecem se opor à ideia, sendo a Índia um exemplo notável. Isso representa uma grande barreira, mas pode ser contornada, como veremos mais adiante.

A NMR poderia ter as seguintes características. Não seria uma moeda única, que substituiria as moedas nacionais dos países participantes. Não seria, portanto, uma moeda semelhante ao euro, emitida por um banco central comum. Seria uma moeda paralela, projetada para transações internacionais. As moedas nacionais e os bancos centrais continuariam a existir em seus formatos atuais. Não haveria perda de soberania e nem mesmo necessidade de coordenar as políticas monetárias.

A NMR não teria existência física na forma de papel-moeda ou moeda metálica. Seria uma moeda digital, análoga às MDBCs (moedas digitais de bancos centrais – CDBCs em inglês) que estão sendo criadas em vários países.

Vale notar, de passagem, que o formato digital substitui em grande parte o papel tradicional dos bancos como intermediários e criadores de meios de pagamento. As MDBCs e a NMR reduziriam o papel dos bancos, desde que não se estabeleça que seu uso ficaria vinculado à posse de uma conta bancária.

Os países participantes poderiam constituir um banco emissor – vamos chamá-lo de NAMR, a Nova Autoridade Monetária de Reserva – que seria responsável por criar NMRs e também por emitir títulos – podemos chamá-los de NTRs, novos títulos de reserva – nos quais a nova moeda seria livremente conversível. Os NTRs seriam por sua vez integralmente garantidos pelos Tesouros nacionais dos participantes.

Um primeiro passo na direção da NMR poderia ser a criação de uma unidade de conta na forma de uma cesta de moedas em que o peso das moedas dos países participantes corresponderia à sua participação no PIB do grupo. O renminbi da China teria o maior peso na cesta, digamos 40%; Brasil, Rússia e Índia, 10% cada; e os 30% restantes poderiam ser divididos entre a África do Sul, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos – admitindo-se que todos os BRICS venham a participar. Essa nova unidade de conta seria uma ponte para a nova moeda.

Bem, esse passo relativamente simples, aventado há muitos anos por economistas russos, já poderia ter sido dado. A razão para o lento progresso parece ser a falta de consenso. Há relatos de que a Índia e a África do Sul, presumivelmente por razões políticas, são contra a ideia. A Índia – e isso é apenas uma conjectura – pode não querer desagradar aos EUA em uma questão tão crucial. Talvez porque sinta que pode precisar do apoio americano caso haja uma deterioração nas já tensas relações com a China. O Brasil, ressalto de passagem, também não é invulnerável a dificuldades análogas. Na sociedade brasileira, inclusive dentro do governo Lula, há muitos que se identificam com os EUA e têm laços com círculos empresariais e governamentais americanos.

Espero que essas vulnerabilidades e as tensões entre China e Índia sejam superadas. Enquanto isso, cabe perguntar se não poderíamos avançar com base em uma coalizão de países aptos e dispostos. A NMR poderia perfeitamente ser criada por um subconjunto dos BRICS. Os outros se juntariam mais tarde. Isso é recomendável, na minha opinião, mas esbarra na arraigada tradição de consenso dos BRICS, que marca a atuação do grupo desde o seu início em 2008. No entanto, se nos apegarmos a essa tradição, o meu receio é que não se chegue a lugar algum.

A alternativa a algo como a NMR seria a substituição gradual do dólar americano pelo renminbi chinês, a moeda da potência emergente. Isso já está acontecendo, em certa medida. Mas parece duvidoso que se possa avançar muito por essa via. Não se deve perder de vista que a potência emergente é um país de renda média. Tem vulnerabilidades e preocupações não necessariamente presentes nos EUA e em outras nações de alta renda.

O que quero dizer é que, no caso da China, o “privilégio exorbitante” poderia se tornar um “fardo exorbitante”. Em outras palavras, ela teria provavelmente dificuldade de atender certos pré-requisitos para que o renminbi possa se estabelecer como moeda internacional em grande escala. A China estaria disposta, por exemplo, a tornar o renminbi plenamente conversível? Consideraria abandonar as restrições à conta de capital e os controles cambiais que protegem a economia chinesa da instabilidade das finanças internacionais? Aceitaria a apreciação cambial decorrente do aumento da demanda por renminbi como ativo internacional? Essa apreciação não prejudicaria a competitividade internacional e o dinamismo da economia chinesa? É claro que a tendência à apreciação poderia ser contida pela venda de renminbi e acumulação de reservas internacionais adicionais. Mas onde a China aplicaria essas reservas adicionais? Em ativos denominados em dólar, euro ou iene? De volta à estaca zero.

Portanto, os BRICS. ou um subconjunto de países dos BRICS, devem se preparar para criar uma nova moeda de reserva, que poderia ser um divisor de águas nos assuntos monetários e financeiros globais. Paralelamente, deveriam continuar com a expansão das transações internacionais em moedas nacionais e iniciar a construção de um sistema de pagamento alternativo ao SWIFT.

Os BRICS causarão decepção em todo o Sul Global se permanecerem no reino dos discursos, comunicados e proclamações sem avançar em iniciativas práticas inovadoras.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Lula e a explosão dos BRICS, por Luís Nassif

 

O BRICS é consequência direta da falência do multilateralismo criado com o acordo de Bretton Woods.


Ricardo Stuckert

GGN. - Um dos pontos mais burlescos, na discussão sobre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é a colocação de grupos de ditaduras contra as democracias do G7. Ou a suposição de que, por dispor da maior reserva de petróleo e de alimentos, os países do BRICS montariam uma frente contra os Estados Unidos.

Há um desconhecimento amplo sobre o funcionamento de organismos multilaterais. Cada país tem sua política interna, sua política externa, seus interesses regionais. Só faltava, agora, uma organização multilateral, como os BRICS, articulando as políticas nacionais.

Ou então, como o articulista do Estadão supondo que o Brasil estaria apoiando o BRICS apenas para obter apoio para fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Como se a lógica do BRICS fosse servir de escada para a ONU.

O BRICS é consequência direta da falência do multilateralismo criado com o acordo de Bretton Woods. Pelo acordo, haveria um controle do fluxo de capitais, impedindo ataques especulativos a moedas. Países em dificuldades com as contas externas receberiam ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (|FMI), mediante várias condicionantes, e, depois, financiamentos do Banco Mundial, para investimentos estruturantes.

Com o fim da paridade dólar-ouro, nos anos 70, e com a financeirização selvagem que se seguiu, o FMI tornou-se um mero porto seguro para especuladores. É só conferir o que aconteceu com o Brasil em fins de 1998. O câmbio apreciado produziu um desequilíbrio nas contas externas. O FMI ajudou com um empréstimo de emergência. Em vez de reservá-lo para importações essenciais, o então Ministro da Fazenda Pedro Malan utilizou para garantir uma saída segura para os especuladores.

Na crise de 2008, o papel do FMI e dos bancos centrais ficou mais nítido, quase destruindo países para preservar interesses da banca.

Na crise de 2002, o Banco Latinoamericano de Comércio Exterior (Bladex) foi mais útil para garantir dólares para o Brasil do que todo o sistema FMI.

Mais que isso, em todo período de auto-estima nacional, a autonomia na diplomacia externa foi ponto de honra. Foi assim com Juscelino Kubitschek, quando Augusto Frederico Schmidt planejou a Operação Panamericana. Ou mesmo na ditadura militar, com o chanceler Azeredo da Silveira articulando com países do sul. E, especialmente, após o advento da era Lula-Celso Amorim, na qual o Brasil assume um protagonismo mundial inédito.

Lembro-me das conversas com André Araújo – que tinha relações estreitas com o Departamento de Estado norte-americano. Ele mostrava a decepção com a busca de protagonismo pelo Brasil. De fato, o soft power brasileiro se espalhava pela África, pela América Latina, eram implantados escritórios da Embrapa em países africanos. E os americanos decepcionados. Tinham reservado para o Brasil o papel de representante maior da diplomacia estadunidense para o sul global, e o Brasil queria atuar por conta própria.

Nos seus dois governos, Lula conseguiu consolidar uma dimensão internacional. Teria tido papel central na tentativa de um acordo nuclear entre EUA e Irã, não fosse o recuo vergonhoso de Obama. Mas conseguiu o feito de desfilar em carro aberto em Israel e na Palestina, mostrando seu papel de agente da paz mundial.

O BRICS visará reconstituir o papel perdido do Banco Mundial. Visará trazer alternativas ao dólar, obter financiamentos aos países membros, criar formas de facilitar o comércio entre eles. E obrigará o sistema FMI-Banco Mundial a reagir, voltando a recuperar parte da relevância que tiveram em outros tempos.



Novo BRICS potencialmente explode a injusta ordem internacional, por José Luís Fiori, Professor Emérito da UFRJ.

 

BRICS poderá se transformar num grupo de poder com capacidade de estreitar cada vez mais o horizonte da dominação euro-americana do mundo


Divulgação

Novo BRICS explode a ordem internacional

por José Luís Fiori


A importância histórica da ampliação dos BRICS

Entrevista concedida a Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena no site Tutaméia, reproduzida pelo Jornal GGN:

De forma muito curta e direta: a incorporação dos seis novos membros do BRICS – Arábia Saudita, Irã, Argentina, Egito, Emirados Árabes e Etiópia – significa uma verdadeira “explosão sistêmica” da ordem internacional construída e controlada pelos europeus e seus descendentes diretos há pelos menos três séculos. Mas seus efeitos e consequências mais importantes não serão imediatos, e irão se manifestando na forma de ondas sucessivas, e cada vez mais fortes.

Exatamente porque o BRICS não é uma organização militar do tipo OTAN, nem é uma organização econômica do tipo União Europeia. Nasceu como um de ponto de encontro – quase informal – e um espaço de convergência geopolítica e econômica, entre países situados fora do núcleo central das grandes potencias tradicionais, concentradas sobre o eixo do Atlântico Norte. Países que não são atrasados, nem, subdesenvolvidos, nem dependentes e que já são, ou se propõem ser grandes potências econômicas e políticas dentro de seus respectivos tabuleiros regionais. Na verdade, o próprio grupo original do BRICS já inclui três das cinco economias mais ricas do mundo, tomando em conta o seu “poder de paridade de compras”.

Chamá-los de “sul global’ me parece ser uma forma anódina e geográfica apenas, de renomear os antigos países do “terceiro mundo”, na sua maioria ex-colônias europeias. Os números estão sendo amplamente divulgados e todos já sabem que depois da incorporação dos seis novos sócios o grupo do BRICS terá mais de 40% da população mundial e cerca de 40% do PIB mundial, o que por si só já fala da importância deste grupo e de sua ampliação decidida na reunião de Joanesburgo.

Agora bem, apesar de que o BRICS tenha tido até hoje uma postura muito mais propositiva do que contestaria, não há dúvida que nos anos recentes, devido a belicosidade crescente entre os Estados Unidos e a China, e devido sobretudo à guerra no território da Ucrânia entre os países da OTAN e a Rússia, o BRICS acabou sofrendo uma mudança de natureza, tornando-se uma organização de resistência, sobretudo, com relação às estruturas e instituições econômicas e financeiras utilizadas pelos EUA e seus aliados europeus e asiáticos, que operam como verdadeiras armas de guerra nos momentos de intensificação da competição e de acirramento dos conflitos entre esses países reunidos no G7 e os demais países que eles agora chamam de “sul global”, apesar da incorreção geográfica da expressão uma vez que seu principal inimigo neste momento, a Rússia, encontra-se ao norte de quase todos os países do G7.

Seja como for uma coisa é certa, depois de Joanesburgo, o BRICS já é um ponto de referência incontornável dentro do sistema internacional, e dependendo da reação dos Estados Unidos e dos europeus, poderá se transformar nos próximos anos, num grupo de poder com capacidade de estreitar cada vez mais o horizonte da dominação euro-americana do mundo.

Uma nova organização comercial?

Não há dúvida que a partir de 2024 o BRICS+ estará reunindo alguns dos países detentores das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, além de incluir alguns dos seus maiores produtores de grãos e alimentos. Para não falar dos recursos minerais estratégicos que se concentram nesses mesmos países, associados às velhas tecnologias nucleares e às novas tecnologia associadas à computação quântica, à inteligência artificial e a robótica. Mas não creio na possibilidade de que nasça daí nenhuma nova organização comercial, até porque seria rebarbativo com relação à OPEP, no caso do petróleo e do gás.

Não creio que seja este o objetivo do grupo, nem creio que seja necessário para que possam exercer de outras maneiras o seu poder de influenciar os mercados globais destes produtos. Mas sim creio que o maior poder e o maio golpe econômico desferido contra os interesses americanos e do G7 virá por outro lado, e atingirá em cheio o poder monetário e financeiro do dólar e dos Estados Unidos.

De fato, a reunião de Joanesburgo não criou uma nova moeda nem discutiu abertamente a criação dessa moeda. Mas de forma discreta antecipou a substituição do dólar nas transações energéticas entre os países-membros do grupo e desses países com todas as suas “zonas de influência”. E este talvez seja o maior golpe desferido até hoje contra a hegemonia do dólar, desde os Acordos de Bretton Woods, em 1944, e desde o grande acordo firmado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, logo depois da Segunda Guerra Mundial, quando ficou estabelecida e garantida a intermediação do dólar, em todas as grandes operações do mercado mundial do petróleo.

Ação militar

Acho que o Brics nunca se tornará uma organização militar, nem jamais foi ou será este seu objetivo. Do ponto de vista militar, a aliança estratégica da Rússia com a China, que se consolidou nos dois últimos anos, já é por si mesma um contraponto ao poder miliar dos EUA e da Europa. E não creio que China ou Rússia queiram ter qualquer tipo de compromisso com seus novos parceiros, do ponto de vista de sua defesa mútua, como a Rússia tem, por exemplo, com a Bielorrusia.

Uma derrota importante para os Estados Unidos

Por conta disso tem aumentado a cada dia que passa as pressões e promessas do Departamento de Estado, exatamente em cima do Brasil, da Índia, e da África do Sul, três membros fundadores do BRICS. Aliás, deste ponto de vista, tem sido patética a peregrinação recorrente dos senhores Anthony Blinken e John Sullivan, e da onipresente senhora Victoria Nuland, tentando convencer – sem muito sucesso – os governos africanos, latino-americanos, ou mesmo asiáticos a apoiarem as sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos contra a Rússia, por conta da guerra na Ucrânia.

Um sinal inequívoco de perda de liderança que se repetiu agora mesmo no caso do golpe militar do Niger, ocasião em que nem os Estados Unidos nem os europeus conseguiram, até agora pelo menos, convencer algumas de sus ex-colônias africanas a invadirem o Niger, ou seja convence-los a fazer a mesma coisa que atribuem e criticam na Rússia, com relação à Ucrânia.

Lula perdeu com essa ampliação?

Não há nada que sugira que Lula e o Brasil tenham perdido poder ou influência com a ampliação do BRICS, nem tampouco que ele tenha feito algo com que estivesse em desacordo submetendo-se à China ou a quem quer que seja. Pelo contrário, minha impressão é que ele conseguiu recuperar pelo menos em parte o que o Brasil perdeu e se submeteu durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Uma coisa completamente diferente é compreender que o Lula sozinho não tem como transformar o Brasil do dia para a noite numa potência equivalente à China, ou mesmo à Índia, do ponto de via econômico e tecnológico, ou mesmo à Rússia, do ponto de vista militar. Estes países lutaram muitos anos para chegarem a ser potências com capacidade de projeção de sua influência a escala global. O que esta reunião deixou claro é que o Brasil precisará ainda de tempo para chegar onde eles chegaram.

Os demais dão sinais inequívocos de que respeitam o presidente brasileiro e sua liderança ética e carismática mundial, mas isto não muda do dia para a noite a visão que o mundo construiu do Brasil ao ver sua elite política e econômica entregar o seu o seu país e o Estado brasileiro (como está se vendo agora) nas mãos de uma quadrilha de pequenos escroques e ladrões de carteira. E ainda mais, ao saber agora da participação que tiveram membros destacados das Forças Armadas brasileiras em toda a corrupção, e em todas as tratativas golpistas de um presidente que veio das suas próprias fileiras.

O que a imprensa corporativa não consegue entender é que o Brasil saiu da reunião de Joanesburgo do tamanho que tem hoje no mundo, o tamanho com que ficou depois de seis anos de destruição do seu Estado e de sua política externa, corrigido até onde foi possível, e até agora, pelo trabalho incessante da política externa brasileira e pela liderança mundial conquistada pelo presidente Lula.

Os novos integrantes do bloco são “ditaduras”?

Esta separação e polarização entre países democráticos e autoritários foi uma ideia da política externa do governo Biden que não teve maior repercussão internacional. Basta olhar para as duas reuniões que Joe Biden organizou com o objetivo de mobilizar a opinião pública mundial e que foram um absoluto fracasso. Mas o mais importante aqui não é isto, é apenas que o BRICS nunca se propôs a ser um grupo de países democráticos, nem muito menos um grupo missionário pregador da fé na democracia. Trata-se de um grupo pragmático e que tem por princípio a ideia chinesa do respeito absoluto pela autonomia política e cultural de cada um de seus membros e dos seus povos.

Paralelo entre os BRICS e o movimento dos países não alinhados

São propostas e organizações que nasceram em momentos geopolíticos muito diferentes. O Movimento dos Não Alinhados nasceu à sombra da Guerra Fria e da polarização mundial entre o mundo socialista e os países capitalistas ocidentais. Foi um enfrentamento e uma bipolarização com forte conotação ideológica e dimensão global. Já o BRICS nasceu em um mundo que se fragmenta cada vez mais e que é cada vez mais intolerante com relação a todo e qualquer tipo de polarização do sistema mundial.

E agora está se expandindo no espaço aberto justamente pela perda de liderança de liderança dos europeus e dos norte-americanos, sobretudo depois do fracasso de sua tentativa de universalizar suas sanções econômicas contra a Rússia. Afinal, alinharam-se com os Estados Unidos e a OTAN um grupo de apenas 30 ou 40 países, uma minoria dentro do sistema das Nações Unidas. O objetivo das sanções era isolar e enfraquecer economicamente a Rússia, mas acabou isolando o G7 e enfraquecendo a economia europeia, que já foi ultrapassada em poder de compra pela própria Rússia, apesar de que este país esteja sob o mais intenso ataque econômico jamais desfechado contra qualquer outro país do mundo, em qualquer tempo da história.

Impacto sobre a guerra na Ucrânia

Eu acho que a ordem dos fatores é inversa. A simples invasão e resistência russa dentro do território da Ucrânia, frente à mobilização e intervenção direta dos Estados Unidos e de todos os países sócios da OTAN, já rompeu com a “ordem mundial” estabelecida pelos Estados Unidos e seus aliados depois do fim da Guerra Fria.

Além disso, a guerra na Ucrânia acelerou a formação de uma aliança estratégica entre a Rússia e a China, que deu alguns passos diplomáticos gigantescos à sombra da própria guerra, na direção do estreitamento de suas relações econômicas e estratégicas e do alargamento de sua influência sobre o Oriente Médio e a África. Incluindo esta expansão recente e bem-sucedida do BRICS.

As próprias sociedades europeias estão começando a se dar conta e reagir frente ao fato de que os Estados Unidos estão se comportando cada vez mais na defensiva, e atuando de forma completamente reativa, frente à inciativa militar russa, e frente à iniciativa econômica chinesa. Neste sentido, já se pode mesmo dizer que a guerra na Ucrânia apressou o declínio da hegemonia cultural dos valores europeus, e vem encolhendo significativamente o poder do império militar global dos Estados Unidos.

O lugar da Argentina no BRICS

Considero a entrada da Argentina no BRICS uma vitória diplomática do Brasil, e um passo extremamente importante na construção de uma “zona de co-prosperidade” na Bacia do Prata. Uma decisão e um passo cujos efeitos, entretanto, deverão se dar ao longo do tempo, não de forma imediata. Mas não há como enganar-se: este estreitamento da aliança entre o Brasil e a Argentina, como prognosticou o geopolítico americano Nicholas Spykmen, já em1944, será visto hoje como já foi no passado como uma “linha vermelha” para os interesses dos EUA e de sua rede de apoios dentro do continente.

E muito mais ainda, neste caso, em que este estreitamente ocorre dentro de uma organização liderada economicamente pela China, e que conta ainda com a participação do grande “demônio do ocidente” neste momento, que é a Rússia. Desse ponto de vista, é necessário olhar com cuidado para o futuro imediato, porque se as próximas eleições presidenciais argentinas não forem vencidas pelas forças de extrema direita contrárias à participação da Argentina no BRICS, não é impossível que a Argentina entre na linha tiro das chamadas “guerras híbridas” que vão mudando governos e regimes ao redor do mundo que são considerados inimigos ou obstáculo para o projeto de poder global euro-americano

Uma nova liderança global?

Tudo indica que a China não se propõe a substituir os Estados Unidos e seus aliados europeus como centro hegemônico do sistema mundial, pelo menos na primeira metade do século XXI. Nem tampouco a Rússia tem possibilidade de alcançar este objetivo. Mesmo assim, a aliança entre a força militar russa e o extraordinário sucesso tecnológico e econômico da China deve ter um impacto “exemplar” sobre o resto do mundo. Muito mais agora em que a China assumiu de forma explicita e declara a liderança de um projeto “desenvolvimentista global” (ocupada pelos EUA depois da Segunda Guerra Mundial), propondo a construção de um “mundo inclusivo” e de soma positiva entre todos os povos do universo, sem exclusão do Atlântico Norte.

Como se pode observar na própria estratégia de expansão do BRICS, já agora trazendo para dentro da organização representantes de todas as grandes civilizações que dominaram o mundo até o século XVII, e que depois disto foram deslocadas, derrotadas ou submetidas pela expansão vitoriosa do colonialismo europeu, que na segunda metade do século XX foi substituído pelo império militar e financeiro global dos Estados Unidos. Como já dissemos, esse império está se enfrentando com seus limites, estes limites estão aumentando, mas isto não significa automaticamente que a China vá substituir de imediato esta posição de liderança global.

José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes).

Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena no site Tutaméia.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Fora do domínio imperial do dólar? Brasil e China construindo o futuro do Sul Global, por Elias Jabbour

 


Brasil e China com esse acordo monetário deram um grande passo no sentido de reorganização dos interesses do Sul Global neste novo momento histórico



Fora do dólar? Brasil e China construindo o futuro do Sul Global

por Elias Jabbour

Antes de tratar do assunto principal deste artigo, acho necessária uma grande digressão histórica para situar o nosso leitor do alcance dos acontecimentos que estão a ocorrer no mundo hoje. Vamos lá.

Nguyen Von Giap, comandante dos exércitos guerrilheiros que derrotaram o imperialismo no Vietnã, foi perguntado sobre a razão da vitória sobre o “mais poderoso exército do mundo”. Sua resposta foi objetiva: a “inteligência” dos generais dos USA. Na verdade, a falta de inteligência desses generais. Essa mesma falta de inteligência já havia levado o imperialismo a uma derrota na Guerra da Coreia (1950-1953). Muitos na década de 1990 imaginavam que a vitória dos USA na Guerra Fria contra a União Soviética havia demonstrado que a história sempre esteve ao lado dos Estados Unidos. Foram raras as exceções que diziam o contrário e já apontavam os limites do poder e as fragilidades da sociedade norteamericana. Entre eles, um dos membros da alta liderança chinesa, Wang Huning, que escreveu em 1991 um interessante livro chamado “America against America”.

Novamente a inteligência dos generais dos USA vão confirmando sua fama histórica. No campo interno e externo a exportação da financeirização como novo padrão acumulação global está demonstrando seus limites e levando o próprio capitalismo ao colapso e transformando os USA em uma exportadora de seitas de extrema-direita. Uma série de decisões políticas equivocadas tomada nos últimos 20 anos deixam clara essa “inteligência”. Uma série de intervenções militares massivas e altamente custosas colocou os USA em um beco sem saída que vai das guerras no Iraque e Afeganistão até apoio a milícias islâmicas, e também participação direta, que destruíram um dos países mais estáveis da África (Líbia), a tentativa de derrubada de Bachar Al-Assad na Síria e a expansão da OTAN até as fronteiras da Rússia. Foram várias as frentes de batalha, incluindo golpes (Honduras, Paraguai e Brasil) e tentativas de golpe (Venezuela, Bolívia) onde as digitais do imperialismo eram claras. A crise de 2008 e o surgimento de blocos alternativos mundo afora, como o BRICS, fizeram os USA dobrarem a aposta na tentativa de impor uma ditadura fascista em âmbito global.

Já falando no Brasil, nosso país foi um grande laboratório de testes das chamadas guerras de quinta geração: Guerra de narrativas, financiamento de organizações criminosas, financiamento de organizações para-militares, ONGs com interesses duvidosos e cooptação de setores do serviço público, principalmente do poder judiciário. A intenção era clara: destruir um capitalismo que estava emergindo com força desde a vitória dos governos populares de Lula da Silva e Dilma Roussef e para isso uma grande operação foi esboçada no Departamento de Estado com vistas à destruição de nossa indústria e a prisão de Lula e, enfraquecer os BRICS e retirar Dilma Roussef da chefia do Estado brasileiro. Desde o golpe de 2016 o Brasil passou por um processo de autodestruição que Lula da Silva tenta impedir.

Em nível internacional, desde Obama, outro movimento estava em andamento que consiste na transformação plena do dólar em arma de destruição em massa. Todos sabemos sobre os bloqueios financeiros que sofrem Cuba, Coreia Popular, Irã, Venezuela e outros inimigos do imperialismo. Atualmente cerca de um terço dos países do mundo sofre algum tipo de sanção comercial ou financeira pelos Estados Unidos. Mas existe limites para tudo na vida, inclusive para um poder que se julgava invencível. O imperialismo chegou seu limite ao forçar a Rússia a entrar em um conflito na Ucrânia para em seguida tentar “expulsar a Rússia do mundo”, incluindo sanções financeiras e congelamento de ativos em dólares. Ninguém tenta expulsar um país do tamanho da Rússia e com seus imensos recursos naturais e industriais impunemente. São momentos como este na história que um dia vale mais do que décadas de luta.

Tudo isso ocorria enquanto a China já tinha se tornado o maior parceiro comercial de 140 países e a Iniciativa Cinturão e Rota já era responsável por cerca de 3000 projetos de infraestruturas em todos os cantos do mundo. É irresistível a analogia histórica: foi justamente com a utilização do dólar para financiar obras na Europa na década de 1920 que os Estados Unidos iniciaram o projeto de transformação do dólar em moeda de referência internacional. Ora, o congelamento de ativos financeiros russos denominados em dólar demonstrou o inegável: os Estados Unidos nunca foi um país confiável e suas preocupações não passam por democracia e direitos humanos. A manutenção de seu poder total no mundo demanda a completa desestabilização da ordem internacional e o conflito na Ucrânia é mais uma expressão desse processo de “desordem mundial” patrocinada pelo imperialismo.

E o Brasil? Há cinco anos o então ex-presidente Lula da Silva foi condenado e preso pela operação Lava Jato em um processo posteriormente denunciado como a maior farsa da história da justiça brasileira. A esquerda brasileira passava por um processo de brutal destruição de sua imagem pela grande imprensa e a extrema-direita comandada por Jair Bolsonaro passava a ser força hegemônica no cenário político nacional. Junto com Bolsonaro veio a completa submissão do Brasil ao governo de Donald Trump, uma política econômica ultraliberal e um rastro de fascismo que quase destruiu a sociedade brasileira. Anticomunista e abertamente contra a China, Jair Bolsonaro foi a página mais triste da história brasileira. E continua com muita força política mesmo após sua derrota nas eleições gerais de 2022.

O que ninguém imaginava é que não somente Lula da Silva sairia da cadeia. Ele liderou uma frente ampla antifascista que derrotou Bolsonaro nas últimas eleições. No front externo, sinalizou com a volta de uma política exterior em prol da multipolaridade e de um Brasil mais próximo da China e do Sul Global. Mais uma reviravolta típica na história de nosso país.

O maior país da América Latina voltou a ser governado por forças progressistas, mas o preço da destruição de nosso país tem sido muito caro. O país se desindustrializou rapidamente com seu capital industrial destruído, cerca de 100 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança alimentar, institucionalizou-se o trabalho precário e o ódio passou a fazer parte de nossa sociedade. Por mais que Lula sinalize para uma participação mais ativa do Brasil no mundo, a realidade de nosso país não é a mesma a época em que chegamos ao posto de sexta maior economia do mundo. A ascensão chinesa acendeu o alerta generalizado no chamado “ocidente”. O Brasil tem sofrido muita pressão em todos os fóruns internacionais no sentido de tomar uma posição, por exemplo, em relação ao conflito na Ucrânia. Mais: as autoridades norte-americanas já assumem publicamente que os investimentos chineses na América Latina devem ser tratados como um problema de segurança nacional. É neste mundo em transição que nosso país é chamado à sua reconstrução.

Enquanto o Brasil passava por uma grande prova existencial a China inaugurava o paradigma “Laos/Camboja” em detrimento do paradigma norte-americano “Iraque/Afeganistão”. A China levou ferrovias e outros tipos de infraestruturas aos dois países citados enquanto os Estados Unidos destruíram om bombas o Iraque e o Afeganistão. O socialismo voltava a pautar as relações internacionais em oposição ao imperialismo. Não como nos tempos da União Soviética onde se apostou em financiamento direto de insurgentes pelo mundo e sim pela via da construção de um ponto de gravitação conforme Marx imaginava para o “socialismo” que surgiria primeiro na Inglaterra, França e Alemanha e a periferia do sistema se tornaria socialista por gravitação econômica. A China socialista é esse ponto hoje e com a conflito na Ucrânia e a desmoralização do imperialismo no Oriente Médio novas paradigmas em matéria de relações internacionais são inaugurados pela China. O lema da “construção de uma comunidade de futuro compartilhado” é um fato objetivo, não apenas palavras vazias.

Voltando ao dólar e a desdolarização. O conflito na Ucrânia acelerou o processo de unificação do território econômico e financeiro da Rússia e da China. Este processo terá impactos ao mundo semelhantes ao momento histórico em que os Estados Unidos, no último quarto do século XIX unificou seu território econômico e formou uma imensa economia continental. São grandes marcos do novo tempo que vivemos: Rússia e China unidas pelo yuan e imensos projetos de infraestruturas, acrescidas pela utilização pela Índia do yuan para comprar petróleo da Rússia e a Arábia Saudita abrir mão do dólar para fazer negócios com a China. A completa desmoralização do imperialismo no Oriente Médio se completa com o acordo histórico, mediado pela China, entre Irã e Arábia Saudita e a possibilidade de fim da guerra, patrocinada pelo imperialismo, no Iêmen.

Mas a construção deste processo histórico só será completa com a total inclusão da América Latina, e seu principal país – o Brasil, como parte fundamental deste mundo em transformação. Um grande e ousado passo foi dado com o acordo assinado recentemente entre os dois países prevendo a utilização de suas próprias moedas em negociações comerciais, dispensando o dólar. As vozes do imperialismo não tardaram a aparecer. O congressista de extrema-direita Marco Rubio foi direto ao ponto: “o acordo real-yuan impedirá sanções unilaterais do Ocidente”. O congressista deixa muito clara uma ordem a ser superada onde o os Estados Unidos, e o dólar em particular, se tornou uma ameaça real ao progresso humano, sinônimo de retrocesso civilizacional.

Lênin elaborou sobre as possibilidades reais do socialismo a partir dos chamados “elos débeis da corrente imperialista”. Durante muito tempo este elo débil esteve presente na Ásia onde as relações entre centro e periferia haviam se tornado explosivas. As revoluções chinesa, coreana e vietnamita deram razão ao revolucionário russo. Atualmente a América Latina é o elo débil da corrente imperialista. Talvez o último refúgio de poder do imperialismo no mundo. Sem antes, os Estados Unidos irão manter acesos os distúrbios no Estreito de Taiwan, a tentativa de destruir a Rússia e o socialismo na China e o patrocínio de grupos neonazistas mundo afora.

Brasil e China com esse acordo monetário deram um grande passo no sentido de reorganização dos interesses do Sul Global neste novo momento histórico que vivemos. Aos revolucionários, a obrigação com a visão de processo histórico. A consolidação do socialismo em âmbito mundial depende sobremaneira da multiplicação destes acordos. Um centro de gravidade socialista (China) ensejando imensos fluxos financeiros, monetários, de investimentos e de comércio é fundamental para a causa da libertação nacional dos povos na periferia do sistema. Já existe uma globalização alternativa comandada pela China em andamento (Iniciativa Cinturão e Rota). Os países periféricos devem tirar mais consequências deste projeto e o próprio Brasil deve ter uma adesão negociada de forma que nossa entrada na Iniciativa sirva aos propósitos estratégicos de meu país.

Brasil e China podem reescrever juntos a história da América Latina e do Sul Global. No caso do Brasil ainda imensos desafios políticos internos deverão ser enfrentados e superados. Nosso país não tem muito tempo a perder diante de seus dramas internos e de uma oposição de extrema-direita pronta para utilizar de todas as formas possíveis para a destruição das esquerdas enquanto alternativa de poder no Brasil. O Brasil e o mundo vivem momentos muito interessantes. Tenho certeza da vitória da humanidade.

Elias Jabbour, Professor Associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Vencedor do Special Book Award of China 2022