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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Rubens Paiva era torturado por sádicos assassinos da ditadura militar ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, por Urariano Mota

 

"Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

Do Jornal GGN:

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo.



Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos*

por Urariano Mota

Hoje pela manhã, enquanto seguia para um médico, disse à senhora  Francêsca:

– Não me sai da cabeça esta composição de Mozart – e tentei cantarolar, ou assassinar com a voz esta obra-prima

E continuei:

– Isso é bem melhor que Roberto Carlos, não é?

Ao que ela me respondeu:

– É. Aí já seria uma tortura.

Aquilo me ficou. Depois, enquanto esperava no consultório, me lembrei de que eu já havia escrito sobre Roberto Carlos e a tortura nos anos da ditadura brasileira. Ao chegar em casa, revi o texto de 2014, que volta à tona com o justo sucesso do filme “Ainda estou aqui’. Aos trechos.

Em mais de uma oportunidade já escrevi que podíamos escrever a história política do Brasil a partir do som da sua música popular. Assim foi, por exemplo, em páginas de Soledad no Recife, quando a ressurreição dos malditos anos da ditadura se fez sob a canção dos tropicalistas. (Ao que acrescento agora em 2025: assim é com o romance “A mais longa duração da juventude”, onde há discussões homéricas sobre os grandes compositores da música popular).

Mas jamais poderia imaginar, e aqui mais uma vez a realidade supera o imaginado, que a música popular fosse usada do modo mais vil, como o noticiado na imprensa dos últimos dias.

A informação consta de um depoimento escrito pela professora Cecília Viveiros de Castro, que esteve presa nas mesmas instalações que Rubens Paiva. Cecília estava então com 48 anos. Ela foi detida ao voltar de uma visita ao filho, Luiz Rodolfo, exilado no Chile

Com ela estava Marilene Corona Franco, cunhada de seu filho. As duas traziam cartas de outros exilados para suas famílias.  No prédio da Aeronáutica, elas ouviram gritos de um preso que estava sendo interrogado. ‘Era a primeira vez que constatava a existência dos horrores da tortura, tão negados pelo governo’, diz.

Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

A notícia não informa, talvez em nome da objetividade, que o ex-deputado Rubens Paiva foi morto ao som de Roberto Carlos por diferentes razões na escolha das músicas. Tentemos um esboço aqui. Roberto Carlos, o Rei, veio na contramão, contrário à rebeldia política, em real estado de conformismo.

A “maioria silenciosa”, nela incluídos os jovens mais alienados do mundo, os pequeno-burgueses que apenas queriam uma razão de se dar bem na vida, em lugar de uma razão de viver, acompanhavam Roberto Carlos na canção “Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui / Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui … / Quem poderá dizer o caminho certo / É você, meu Pai / Jesus Cristo! Jesus Cristo!….”

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo. As pessoas nascidas nos últimos anos não sabem que no tempo da ditadura a música era também uma realização política, a música era uma concreção, o mais próximo de uma arma possível. O seu lugar na vida e no imaginário da juventude rebelde era um ato inalienável de combate.

Sei que os fãs do “Rei” vão dizer: “Roberto Carlos não tem culpa dos crimes da ditadura”. É verdade. Mas, por coincidência, a música de Roberto Carlos acabou por ser uma das mais representativas desses anos. O Rei não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas que realçavam o mundo ordenado pelo regime. Entre outras, o Rei compôs a canção que foi um hino, um gospel de corações vazios, um som sem fúria de negros norte-americanos. O Rei orou “Jesus Cristo, eu estou aqui”. Que profunda ironia para o nome do filme “Ainda estou aqui”.

É uma perversa vitória do real que esse crime expresse tão cruel o valor da música popular no Brasil. Roberto Carlos e Rubens Paiva, numa estranha associação que eles não queriam.

*Vermelho Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

domingo, 11 de outubro de 2020

Do Portal do Prof. José Fernandes: Governo com alma de torturador! Brasil: monstros que elogiam criminosos no poder! Biden, que entregou documentos sobre os crimes dos militares brasileiros na Ditadura, não aprovará bolsonarismo!

 

Do Portal do José, no Yourube:



"O vídeo de hoje é uma homenagem a João Luiz Morais e Célia Morais, pais de Sonia Stuart Angel, presa política torturada e morta aos 27 anos nas instalações do Doi-Codi sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra.

"Conheci o casal durante minha graduação em direito na UFRJ e pude ver o quão visceral é o sofrimento de pais que tem esse drama em suas vidas! Eles peregrinavam em busca de informações sobre o paradeiro do corpo de sua filha que jamais foi entregue pelo Exército ou das forças de segurança com as quais atuavam em conjunto.

"Jamais esquecerei seus rostos sofridos!

"E hoje?

"Impressionante termos o Vice Mourão como alguém que não repudia a tortura e elogia torturador. Essa é a alma do governo Bolsonaro!"

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Vale a pena mexer a história podre do autoritarismo, por Clarisse Gurgel



Bolsonaro representa, sem dúvida, as dívidas históricas de um país marcado pelo coronelismo, pelo populismo, pelo fisiologismo, mas expressa uma cultura autoritária de tempero distinto, que, não sem razão, convoca-nos a refletir sobre o aspecto moderno do fascismo. 


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Vale a pena mexer

por Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Faculdade Ciências Sociais, da UNIRIO

A semana começou com mais um ato de violência de Bolsonaro. Desta vez, porém, parece que o atual presidente extrapolou os limites até para seus apoiadores. Curiosamente, medidas absurdas acerca da reforma da previdência não são suficientes para provocar tamanha comoção. Até hoje, o que mais chamou atenção, dentre as medidas deste que mais parece o Rei de Hegel – aquele que é, sem fundamento, que é porque é, ao ponto de poder ser qualquer um -, foi a nomeação de seu filho, Eduardo Bolsonaro, para o consulado americano. Se este lugar de Rei, para Hegel, é esta unidade inquestionável, oriunda da indubitável hereditariedade, caberia a nós decifrar que unidade é esta que Bolsonaro representa e que, em grande medida, herdou de Lula, tal como se nos transferíssemos de um populismo de esquerda para um populismo de direita. Este, que é um conteúdo comum, cultivado em anos de história, parece apontar para algo que não mudou em nosso país. 


Bolsonaro abriu o segundo semestre de 2019 com mais uma declaração bombástica – e a alusão à bomba não é mera coincidência. Declarou que sabe o destino de um desaparecido político, Fernando Santa Cruz, em uma provocação ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, filho do militante morto. Diante desta última atitude ofensiva, a jornalista Cristiana Lobo, da Globo, disse: “isto é reflexo de grupos alternativos da ditadura… Coisa que não vale a pena mexer”. Do que Cristiana estava falando? E quanto vale não mexer nesta coisa? Em que medida isto que é, no mínimo, uma abstenção, explica a pena imposta aos brasileiros, desde 2016, quando ocorre o golpe que impede Dilma de governar?

 É sabido, tal como pode ser visto em memoriais da ditadura de 64, que os grupos aos quais se refere Cristiana envolvem a divisão, mais tensionada em 74, quando da ocasião da chamada abertura política, no Brasil: de um lado, o campo favorável ao arrefecimento do regime autoritário, do outro, aquele que reunia os defensores do endurecimento, ainda maior, da ditadura. João Figueiredo, um dos nomes da primeira ala, parecia sintetizar este nó em que estamos, hoje, em que um ditador é eleito. Encarregado de abrir o regime, em reação “ao grupo alternativo” de Silvio Frota – de que faziam parte o atual General Heleno e o Coronel Brilhante Ustra -, Figueiredo alardeava: “a democracia será estabelecida no Brasil, nem que seja à força!”. Em que medida o regime estatal brasileiro foi aberto, efetivamente, e no que consistiria esta abertura? 


Ernesto Geisel, sem dúvida, correspondia também ao setor dos militares que já começava a entender a diferença – até mesmo prática e funcional – entre autoritarismo e autoridade. Razão pela qual a democratização passava a ser o novo método – mais econômico – de imposição – agora, velada, por meio de filtros representativos – de um modelo baseado na exploração social.  O “grupo alternativo” de Silvio Frota insistia em aprofundar o autoritarismo, aumentar as torturas e crimes de Estado, mesmo diante de uma esquerda exilada, asilada, torturada, morta e desaparecida.

Esta escolha por seguir massacrando os massacrados, mesmo diante de técnicas de combate mais sutis e sofisticadas, aponta para um aspecto distintivo, quase patológico, do setor de Silvio Frota, ao qual, mais tarde, Bolsonaro se filia. Se há uma dificuldade em caracterizar o que estamos vivendo, no Brasil, este traço perverso parece auxiliar neste esforço e envolve aquilo que o filósofo e sociólogo grego, Nicos Poulantzas, apontava como aspecto “fascistizador” de um estatismo autoritário. A fascistização, segundo Poulantzas, correspondia, justamente, ao fenômeno de acirramento da violência de Estado, de um regular estado de exceção, em face de um movimento popular derrotado. Este parece ser o excesso que escandaliza até os mais insensíveis e que nos dá a impressão de que o governo chuta cachorro, se não morto, moribundo. 

Bolsonaro representa, sem dúvida, as dívidas históricas de um país marcado pelo coronelismo, pelo populismo, pelo fisiologismo, mas expressa uma cultura autoritária de tempero distinto, que, não sem razão, convoca-nos a refletir sobre o aspecto moderno do fascismo. Tal como alertava Florestan Fernandes, isto que corresponde, aqui no Brasil, a um totalitarismo de classe, consiste em uma força onde uma burguesia relativamente impotente prefere a capitulação política ao imperialismo a lutar pelas bandeiras tradicionais. Este novo sabor, esta fascistização, tem a marca do chamado Frotismo, que alguns já compreendem como aquilo que imprime um caráter de revanche ao governo Bolsonaro: o retorno do “grupo alternativo” que prendeu Dilma e foi contra a democratização do Brasil. 


O que testemunhamos, hoje, é, pois, a volta do cipó no lombo de quem já levou, a mando de um grupo de militares que não só carrega traços fascistas, mas também de um setor que, curiosamente, mescla doutrina de guerra com a defesa do Estado mínimo. Uma mistura que explica, em grande medida, um governo que realiza todos os seus fetiches de Capitão América, no combate aos comunistas, e que entrega o país à espoliação de estrangeiros, como EUA e União Europeia. Estamos falando, portanto, de uma revanche de tempero entreguista, nos marcos dos neo-conservadores formados na Escola de Chicago – o que nos ajuda a compreender como a democracia, assim como qualquer outra coisa, torna-se mais um gênero de mercado nas mãos dos bolsonaristas.

 O método pelo qual este “grupo alternativo”, radicalmente avesso à democracia, chega ao poder, em sua revanche de 2019, é, justamente, o da democracia, pelo voto. Sem prejuízo do debate acerca dos recursos para a obtenção de voto – debate que envolve os limites da própria democracia burguesa -, o meio pelo qual o grupo do “autoritarismo forte” retorna é estranho ao seu próprio vocabulário. Isto é o que inaugura uma dinâmica em que, na medida em que fazem uso da democracia, a destroem. E esta concomitância entre uso e destruição nada mais é do que o ato de consumir, basta pensarmos no consumo de qualquer coisa: de um pão, de um suco (na medida em que nos apropriamos deles, eles vão desaparecendo até acabar). 

Este parece ser o destino de um país entregue a “grupos alternativos”, nos quais alguns acham que “não vale a pena mexer”. A que pena nos destinaram por não mexermos? 

 Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Faculdade Ciências Sociais, da UNIRIO.

sábado, 2 de março de 2019

“Meninas de 10 a 15 anos eram levadas a ele para ser estupradas”: o relato de uma sobrevivente de Stroessner, ídolo de Bolsonaro, por Kiko Nogueira



Do DCM:

"Meninas de 10 a 15 anos eram levadas a ele para ser estupradas": o relato de uma sobrevivente de Stroessner, ídolo de Bolsonaro

Em Itaipu para a inauguração de uma obra, Bolsonaro rendeu tributo a um ditador paraguaio morto em 2006 em Brasília, onde estava exilado.
“Isso tudo não seria suficiente se do lado de cá não houvesse um homem de visão, um estadista, que sabia perfeitamente que o seu país só poderia progredir se tivesse energia. Então aqui também a minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner”, disse.

Julia Ozorio no sítio onde foi mantida como escrava sexual aos 12 anos

Stroessner ficou no poder durante 35 anos. Sua tirania foi corrupta, homicida e pervertida. 
O monstro cultuado por Jair (mais um) era, inclusive, pedófilo.
Abaixo, o relato de Julia Ozorio publicado no site Ultima Hora:
Julia Ozorio, que aos 12 anos foi raptado de sua casa em fevereiro de 1968 pelo coronel Peter Julian Miers e levada para um sítio em Laurelty [cidade vizinha a Assunção], onde foi mantida como escrava sexual por dois anos, é uma das poucas que se atreveram a depor perante a Comissão da Verdade e da Justiça sobre o horror que sofreu.
Ela escreveu sua história em um livro intitulado “Uma rosa e mil soldados”.
Em um testemunho em vídeo, gravado no Museu Virtual Meves (“Memória e Verdade do Stronismo”), Julia diz que o coronel Miers, então comandante da escolta especial presidencial, mantinha um harém com várias meninas com idades entre 10 a 15 anos e “as mais graciosas eram levadas a Stroessner para serem estupradas”. (…)
Os depoimentos sugerem que houve várias casas para onde foram levadas as meninas seqüestradas de áreas rurais e mantidas em haréns à disposição do ditador e de vários líderes do regime.
Uma delas era a casa de Laurelty, de que o coronel Miers cuidava. Julia Ozorio diz que quando chegou em 1968, havia outras quatro garotas que também estavam trancafiadas.
“Os militares caçavam garotas e as arrancavam de suas casas em troca de posições em instituições públicas para seus parentes. Ninguém podia dizer nada. Nós fomos estupradas sem piedade. Eles não queriam ninguém com mais de 15 anos porque falavam que já tinham ossos duros”, diz.

Figueiredo e Stroessner em Itaipu em 1982: ídolos de Bolsonaro

No sítio de Laurelty elas eram mantidas em cativeiro por um guardas armados. O ditador Stroessner aparecia com freqüência e eram colocadas à sua disposição jovens virgens para serem estupradas.
“Havia pilhas de fotos de meninas nuas ou usando vestidos curtos que serviam para eles escolherem suas vítimas. Eles tiraram fotos parecidas de mim”, diz ela.
Ela teve que fugir do país quando a libertaram após completar 15 anos, com ameaças de assassinato se não permanecesse em silêncio.
A casa de Popol
Outro dos “haréns” de moças disponíveis para o ditador funcionava numa casa no bairro de Sajonia, dirigida pelo tenente-coronel da reserva Leopoldo Perrier, mais conhecido como Popol Perrier.
Naquela casa ficavam “as meninas trazidas especialmente do interior do país, que estavam prontas para ser oferecidas como delícia ao presidente e sua corte”, destaca o jornalista e historiador Bernardo Neri Farina em seu livro “O Último Supremo”.
Ali, um dia, a Sra. Malena Ashwell, filha do conhecido historiador Washington Ashwell, teve que ajudar uma menina que estava correndo na rua, toda ensanguentada após um estupro cruel, conforme relatado pelo colega historiador Aníbal Miranda em seu trabalho “Stroessner”.
Intervir nesse incidente e denunciá-lo em um pequeno círculo custou a Malena Ashwell ser perseguida pelo governo. (…)

Bolsonaro bate continência para o torturador Ustra, outro de seus herois

00:00/00:40Diário do Centro do Mundo