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domingo, 23 de agosto de 2020

O fascismo no Brasil sob Bolsonaro, por Virgínia Fontes, em vídeo



  " O tema da conversa impertinente de hoje é doloroso mas incontornável. Para Virgínia Fontes, estamos hoje diante da mais difícil quadra histórica já vivida por ela. Quais são os traços fundamentais do governo Bolsonaro que permitem denominá-lo de protofascista? Como se articulam nesse caldo os militares, as milícias e o chamado "olavismo"? O que diferencia o fascismo da ditadura, estes dois pés nos quais o bolsonarismo se apoia? Em termos históricos, políticos e sociais, de onde veio, como nasceu e como combater esse monstrengo? "

Do Canal da TV Boitempo:


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Carla Borges e Camilo Vannuchi: Autoritarismo e violência militarista e opressora do Estado não são questões do passado


Na Comissão da Verdade, "a gente sempre falava 'conhecer para não repetir', e agora nem sei se a gente poderia mais usar esse lema, porque está se repetindo". Assista


Jornal GGN – “A gente está vivendo um período bastante difícil e frustante, onde as semelhanças com o período [da ditadura] são imensas.” A sentença é da Carla Borges, ex-coordenadora de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da gestão Fernando Haddad em São Paulo. Carla não está sozinha em sua percepção.
Em entrevista a Luis Nassif, na tarde desta segunda (10), o jornalista e escritor Camilo Vanucchi, ex-membro da Comissão da Verdade de São Paulo, também traçou paralelos com o autoritarismo e a violência de Estado que o Brasil registrou no regime miliar e os tempos atuais.
“A gente está vivendo num momento completamente distópico, em que essa violência está presente. A gente nunca parou de ter ocultação de cadáveres e tortura na população periférica”, disse.
Nos governos passados, a proliferação de comissões da verdade, como lembrou Camilo na entrevista, visava, em parte, “registrar esses crimes e violações que aconteceram, justamente para a gente deixar orientações e um arcabouço teórico com propostas para que não volte a acontecer.”
Mas o trabalho ficou incompleto. De um lado, o pilar da Justiça foi enterrado com a Lei de Anistia. De outro, a sociedade tampouco desenvolveu uma memória similar ao que ocorreu nos vizinhos latinos americanos. O resultado é o passado de autoritarismo e violência sendo exaltado e exortado, pela extrema-direita, a se repetir.
“A gente sempre falava: ‘conhecer para não repetir’. E agora nem sei se a gente poderia mais usar esse lema, porque está se repetindo”, pontuou Carla. “A gente percebe que essa política de extermínio dos indesejáveis não já é uma coisa que a gente testemunha só agora.”
“Falar de ditadura militar não é falar só de um passado esquecido. Assim como falar do genocídio da juventude preta, pobre, periférica não é só falar de agora. É importante que esse trabalho possa ter a conexão do ontem e do hoje”, ela comentou.
“Não sei se a gente pode mais falar que é ‘para que não mais aconteça’, porque a gente está vivendo num momento em que muita coisa voltou. Vejo as coisas cíclicas, a terra plana também gira, mas espero que a gente consiga ultrapassar essa fase”, acrescentou Camilo.
Para Carla, Bolsonaro “já deu claras marcas de autoritarismo” e revisionismo histórico. “O negacionismo da violência de Estado se espalha por várias frente e não é de agora. Vem disso, da gente nunca ter interrompido essa cultura de violência estatal que marca nossa história.”
“Acho que a gente pode pagar um preço caro por não ter penalizado [os torturadores da ditadura] e concluído essa etapa [da história] que outros [países] conseguiram”, acrescentou Camilo.
Assista:


sábado, 25 de julho de 2020

ABJD ( Associação Brasileira de Juristas Pela Democracia) repudia ‘arapongagem’ ditatorial e autoritário no governo Bolsonaro contra movimentos antifascistas



O pluralismo político é um dos fundamentos de nossa Constituição Federal. A liberdade de expressão é princípio de nosso modelo de democracia, não podendo conviver com práticas ditatoriais.
Jornal GGN:

da ABJD

ABJD repudia ‘arapongagem’ no governo Bolsonaro contra movimentos antifascistas

A denúncia publicada hoje em vários portais, como Uol e Revista Época on line, sobre a existência de uma ação sigilosa, com produção de um dossiê elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, para monitorar 579 servidores identificados como militantes antifascistas, em sua maioria policiais e agentes de segurança e, ainda, dois ex-secretários nacionais de segurança pública e um ex-secretário nacional de Direitos Humanos é gravíssima.
Há menos de dois meses uma lista de pdf com mais de 900 nomes foi enviada no WhatsApp de jornalistas. Homens e mulheres de diferentes idades e profissões foram listados com alguma identificação “antifascista”.
As tentativas de perseguição aos militantes que se opõem ao governo Bolsonaro têm se repetido como tática de intimidação. Típica de regimes autoritários, a criação de listas de identificação de pessoas e movimentos da sociedade civil demonstra que o governo de Jair Bolsonaro não possui qualquer respeito pela liberdade de expressão e de organização.
Dossiês dessa natureza, além de seu caráter claramente intimidatório, merecem o repúdio veemente de toda a sociedade, e requerem uma resposta institucional e urgente dos poderes legitimamente constituídos e órgãos de controle, Ministério Público, Poder Legislativo e Poder Judiciário.
O pluralismo político é um dos fundamentos de nossa Constituição Federal. A liberdade de expressão é princípio de nosso modelo de democracia, não podendo conviver com práticas ditatoriais.
A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD, além de se solidarizar com todos os atingidos por essa ação espúria e ilegal, exige o esclarecimento, por parte do Sr. Ministro da Justiça, André Mendonça, sobre a informação divulgada e repudia a montagem de dossiês para identificar e perseguir opositores ao governo de Jair Bolsonaro.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Do site Consultor Jurídico: Se houvesse Justiça de transição, como houve na Argentina e Chile, defensores da ditadura não estariam na vida pública




Em entrevista à ConJur, a procuradora Eugenia Gonzaga afirma que condutas como a de Bolsonaro podem ser explicadas pelo fato de que o Brasil nunca elucidou os crimes cometidos durante a ditadura. 

do ConJur

Se houvesse Justiça de transição, defensores da ditadura não estariam na vida pública

por Tiago Angelo
Foi incomodado com os rumos de uma investigação que o presidente Jair Bolsonaro deu um dos sinais mais fortes a respeito do tom que adotaria enquanto chefe do Executivo. O mandatário queria que a apuração sobre o atentado a faca sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018, envolvesse não apenas Adélio Bispo, o autor do ataque, mas também o advogado do réu.

A OAB impetrou uma medida de segurança em favor da defesa de Adélio. Contrariado, Bolsonaro disparou não contra a entidade, mas contra o seu presidente, Felipe Santa Cruz, filho do militante da Ação Popular (AP) Fernando Santa Cruz, assassinado em 1974 por agentes da ditadura militar (1964-1985).
“Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”, disse, sabendo que tocaria em um ponto sensível: o paradeiro do corpo de Fernando, como o de diversas vítimas do regime de exceção, ainda é desconhecido.
A declaração, feita no dia 29 de julho de 2019, gerou reações imediatas. A procuradora regional da República Eugênia Gonzaga, então presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), afirmou, no dia seguinte, que “nunca um presidente da República, nem mesmo da própria ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil”. Em 1º de agosto, pouco depois da fala, ela acabou exonerada pelo presidente, deixando a comissão que chefiava desde 2014.
Em entrevista à ConJur, Gonzaga afirma que condutas como a de Bolsonaro podem ser explicadas pelo fato de que o Brasil nunca elucidou os crimes cometidos durante a ditadura.
“Quando falamos sobre Justiça de Transição [conjunto de medidas políticas e judiciais utilizadas como reparação das violações de direitos humanos], não estamos falando apenas de processar os responsáveis pelos assassinatos, mas de elucidar os crimes e dar uma resposta aos familiares. A Argentina teve agora um governo conservador, mas ninguém ousou atentar contra a democracia fazendo apologia a torturadores. Se houvesse Justiça de Transição efetiva no Brasil, Bolsonaro não teria se tornado presidente. Não teria sido eleito nem deputado”, diz.
De acordo com ela, o Judiciário e os governos civis tiveram a chance de abordar o tema com maior sensibilidade, mas acabaram optando, em muitos casos, pela adoção de políticas mais protocolares do que verdadeiramente eficazes.
A procuradora comentou ainda a atuação de Marco Vinícius Pereira na Presidência da CEMDP. O advogado filiado ao PSL e assessor da ministra Damares Alves (Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) já anunciou uma série de mudanças no regimento da comissão.
Criada em 1995 por meio da Lei 9.140, a CEMDP tem como objetivo primordial localizar e identificar vítimas da ditadura. A normativa também estabelece um valor indenizatório aos familiares de mortos e desaparecidos políticos.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
ConJur — Em janeiro, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um novo regimento interno para a CEMDP. O que achou da mudança e quais foram as alterações mais sensíveis?
Eugênia Gonzaga —
 Para os atuais integrantes, a comissão nem deveria estar funcionando mais. Basta ver a declaração do atual presidente de que os trabalhos serão encerrados até o meio deste ano. A mudança mais grave foi a revogação da Resolução nº 2, que determina a retificação dos assentos de óbito dos mortos e desaparecidos políticos.
A comissão também só poderá fazer buscas para famílias que tenham entrado com a solicitação em um prazo de até 120 dias desde que a Lei 9.140 entrou em vigor, e nós estamos falando de uma norma que passou a valer em 1995. É uma posição absolutamente inédita e os familiares jamais foram orientados sobre isso.
As medidas deixam a comissão em débito com as famílias. Além disso, contrariam justamente os motivos pelos quais ela foi criada. Uma coisa é você estipular prazo para indenização, outra é limitar a mera declaração de que determinada pessoa foi vítima da ditadura. Mas no entendimento do novo presidente, a comissão esgotou seu papel e ela não irá mais atuar em nenhuma frente que não tenha sido criada a partir de ordem judicial.
ConJur — Mas o novo presidente pode simplesmente encerrar a comissão?
Eugênia Gonzaga —
 O que o Marco Vinícius pode fazer é dizer que as investigações já chegaram ao seu limite e que não há mais para onde prosseguir. A comissão só deveria acabar quando houvesse resposta para cada um dos casos, quando as apurações puderem indicar quais corpos apareceram, quais não apareceram e o que foi feito com eles. Nesses casos, até o não é uma resposta. E por que digo que até o não é uma resposta? Porque na vala de Perus [vala clandestina encontrada em 1990 no Cemitério Dom Bosco, zona norte de São Paulo] foi identificado, por exemplo, o corpo do sindicalista Aluísio Palhano, assassinado em 1971.
A situação dele era muito parecida com a do Fernando Santa Cruz. Ele passou pela Casa da Morte, DOI-Codi de São Paulo e Rio de Janeiro, e aí foi aparecer na vala de Perus. Então há uma possibilidade, ainda que remota, do corpo do Fernando Santa Cruz estar aqui também. E para essas famílias que nunca tiveram resposta nenhuma, o não já diz algo, porque permite poder afirmar que o seu familiar não está aqui.
ConJur — O novo presidente da CEMDP também propôs a transferência das ossadas analisadas pelo Grupo de Trabalho Perus para Brasília, o que só não não se concretizou porque o Gabinete de Conciliação do TRF-3 impediu e disse que o material deveria ficar em São Paulo. Bolsonaro já tentou encerrar as investigações por meio de decreto. Por que especificamente a CEMDP e o GTP parecem incomodar tanto?
Eugênia Gonzaga —
 As pessoas que, de algum modo, apoiam a ditadura ou que acham que ela não foi tão grave, ficam incomodadas quando há alguma identificação. A vala de Perus é a prova de que o governo ocultou corpos. E os militares sempre negaram tudo isso. A identificação é uma prova incontestável que confronta o discurso dos militares. A vala é um produto do governo. Ninguém vai parar em um cemitério se não tiver um órgão público que coloque essas pessoas lá.
Então toda vez que surge uma comprovação, fica estampado que houve ditadura, que houve assassinatos e que o governo municipal participou, escondendo esses corpos. Isso é ruim para os simpatizantes desse período.
A questão do desaparecimento é um tema que ninguém nunca quis tratar no Brasil, desde a Anistia, em 1979. Quando aprovaram a Lei de Anistia (Lei 6.683/79), ninguém falou nada sobre os desaparecidos. E de lá para cá os familiares não conseguiram ser devidamente ouvidos. Houve apenas a Lei 9.140, que já tem 25 anos. E mesmo com essa norma, o Estado só reconheceu a morte daqueles militantes políticos que foram assassinados em aparelhos policiais ligados à repressão política. Foram admitidos apenas os casos praticamente incontroversos, mas a existência da vala deixa o discurso oficial em aberto.
ConJur — Em 2010, o Supremo Tribunal Federal teve a chance de rever a Lei de Anistia. A corte, no entanto, decidiu pela sua manutenção. O STF deixou de ouvir os pedidos dos familiares de mortos e desparecidos políticos ou não quis se indispor com os militares?
Eugênia Gonzaga — As duas coisas. O Nelson Jobim [ex-deputado, ministro e presidente do STF, ex-ministro da Justiça e da Defesa], que contou ter negociado uma solução para os mortos e desaparecidos políticos, explica muito bem o pacto que foi feito.
Os políticos queriam voltar à legalidade, as cortes queriam voltar à normalidade. Todos eles deram sua palavra de honra aos militares. Houve um avanço com a Lei 9.140, mas já faz muito tempo.
Se relacionarmos os marcos, em 2006 nós lançamos o relatório da CEMDP; em 2012, foi criado o Grupo de Trabalho Perus; de 2012 a 2014, houve a Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Mas os relatórios das comissões apenas chancelaram o que os próprios familiares já haviam descoberto. As políticas de reparação, de memória, verdade e justiça no Brasil sempre foram protocolares.
Basta notar que o país precisou ser condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010 [Caso Gomes Lund e Outros] para que a CNV fosse criada. A instauração dessa comissão era uma pauta bem mais antiga que isso.
No Brasil, causar mal-estar aos militares sempre foi um problema. Nenhum governo lidou adequadamente com a questão porque houve um pacto de impunidade e isso não é um mal apenas dos políticos mais conservadores.
O Lula sempre foi muito mais ligado aos movimentos sociais. Em 2010, quando o Estado brasileiro foi condenado a fazer buscas na região do Araguaia [sul do Pará e hoje norte do Tocantins], ao invés de ele dar estrutura para a CEMDP proceder e coordenar a busca, ele deu suporte para o Ministério da Defesa.
Na época, os familiares ficaram de fora, só participaram depois que o Ministério Público questionou a medida. Na solenidade que instituiu a CNV, os generais estavam se sentindo desconfortáveis. Na ocasião, a Vera Paiva, que era representante dos familiares, foi convidada a falar, mas acabou desconvidada.
Entre descontentar os militares ou os familiares, a Dilma escolheu descontentar os familiares. É como se as medidas adotadas fossem sempre aplicadas com certo constrangimento. E todas as políticas ocorreram por meio do impulso dos familiares. Muito mais poderia ter sido feito e todos os presidentes — sobretudo os progressistas — deveriam pedir perdão aos familiares, porque eles não fizeram o bastante.
ConJur — Acredita que essa omissão com relação às políticas de memória ajuda a explicar o fenômeno Bolsonaro, que foi eleito justamente com um discurso saudosista da ditadura?
Eugênia Gonzaga —
 Com certeza. Quando falamos sobre Justiça de Transição, não estamos falando apenas de processar os responsáveis pelos assassinatos, mas de elucidar os crimes e dar uma resposta aos familiares.
Nesse sentido, o Brasil sempre adotou uma conduta nacional em favor do esquecimento. A Argentina teve agora um governo conservador, mas ninguém ousou atentar contra a democracia fazendo apologia a torturadores. Isso nunca esteve em questão.
Aqui no Brasil, o Bolsonaro, enquanto deputado, homenageou torturadores, fez apologia ao crime e declarações pró-tortura. Isso configura quebra de decoro. Mas ele nunca foi questionado. As nossas representações sempre foram arquivadas.
Quando ele se tornou candidato à Presidência da República, deu declarações contra os princípios democráticos que estão na Constituição sobre a qual ele iria jurar.
Não há compatibilidade com o exercício do mandato. Mais da metade dos eleitores escolheu o Bolsonaro, mas a gente vive em um Estado Democrático de Direito. Existe uma Constituição com princípios e regras que são diariamente desrespeitadas por Bolsonaro.
Tentar derrubar um ordenamento vigente para instituir outro se chama golpe ou revolução, não democracia, ainda que estejamos falando de um presidente que foi eleito.
Parafraseando o Caetano Veloso, em terra em que há tortura — ou a defesa dela —, ninguém é cidadão. Se houvesse Justiça de Transição efetiva no Brasil, Bolsonaro não teria se tornado presidente. Não teria sido eleito nem deputado.
ConJur — Após o Bolsonaro atacar o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, a senhora se posicionou afirmando que “nunca um presidente da República, nem mesmo da própria ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil”. Dois dias depois, acabou exonerada da CEMDP. Acredita que foi retaliação?
Eugênia Gonzaga —
 Não tenho dúvida. Foi uma decisão política. O próprio Bolsonaro disse que agora o presidente é de direita, como se isso fosse motivo para exonerar alguém e como se eu tivesse declarado qualquer tipo de preferência política.
Eu estava simplesmente cumprindo o meu trabalho. A Lei 9.140 determina que a CEMDP acolha as famílias, repare e reconheça as responsabilidades do Estado. Negar essa responsabilidade e colocar em dúvida quem é que matou essa ou aquela pessoa, jogando com a contra-informação, como está sendo feito, é justamente o contrário. Bolsonaro usou de um golpe baixo contra outra autoridade. A conduta foi abusiva e eu respondi.

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Reinaldo Azevedo, no UOL: Bolsonaro agride também o STF; comete nove crimes tipificados com um só ato...


Chegado a um tiroteio também institucional, Jair Bolsonaro disparou nove vezes contra a Constituição - Reprodução
Chegado a um tiroteio também institucional, Jair Bolsonaro disparou nove vezes contra a ConstituiçãoImagem: Reprodução
Do UOL:

Reinaldo Azevedo
Colunista do UOL

26/02/2020 17h50

O novo crime de responsabilidade cometido pelo presidente Jair Bolsonaro tem um elemento agravante. Além de ele ter incidido nas várias vedações estabelecidas pela Lei 1.079 apontadas por mim nesta manhã, há uma outra agressão a que não me referi naquele post. Explico.
O ato fascistoide que está sendo convocado para o dia 15 também tem como alvo o Supremo. A fagulha é de autoria do general Augusto Heleno, e Bolsonaro está incentivando a manifestação passando adiante vídeos com a convocação. 
Além dos crimes já apontados, o presidente também incorre no Item 5 do Artigo 6º da Lei 1.079: Art. 6º São crimes de responsabilidade contra o livre exercício dos poderes legislativo e judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados: 5 - opor-se diretamente e por fatos ao livre exercício do Poder Judiciário, ou obstar, por meios violentos, ao efeito dos seus atos, mandados ou sentenças. 
Sintetizo, pois, as vedações expressas na Lei 1.079 que foram desrespeitadas por Bolsonaro: 
- Do Artigo 6º: itens 1, 3 e 5; 
- Do Artigo 7º: itens 5, 6, 7 e 8; 
- Do Artigo 8º: itens 1 e 2. 
Estamos falando de um presidente cuja conduta incide nove vezes no que a lei define como crime de responsabilidade. 
Reitere-se: a Constituição prevê como princípio o crime de responsabilidade, e a lei 1.079 tipifica a conduta. Não há, pois, a menor dúvida de que a punição deveria ser o impeachment.
Mas, como aqui também já se disse, não haveria hoje os dois terços da Câmara necessários para enviar o caso ao Senado para a abertura do processo e o julgamento. Também não creio que haveria os dois terços de senadores para condená-lo. 
Então ele continuará a agredir a Constituição sem que se lhe possam pôr freios?
A resposta está com o Congresso. 
Há formas de conter os arroubos do candidato a tirano sem que precise ser deposto. Ainda chegarei lá.

Carnaval, censura e golpe com base em PMs amotinados e rebentos podres da Ditadura: a democracia é uma fantasia?, por Tania Maria de Oliveira, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia


No derradeiro dia da folia de Momo, Bolsonaro resolveu vestir sua fantasia de amante da ditadura, e atrair a atenção para uma festa diferente. Uma que está sendo planejada por seus apoiadores.

Carnaval, censura e golpe: a democracia é uma fantasia?

por Tania Maria de Oliveira

“Custei a compreender que a fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida”
(Aldir Blanc e João Bosco)
A relação ente arte e política faz parte da História da humanidade. São incontáveis os exemplos de manifestação política por meio da música, do teatro, da literatura, do cinema, da poesia. Não significa que todos os artistas façam algum tipo de engajamento ou ativismo político, ou que a arte seja necessariamente transformadora. Ela pode servir também, e há experiências, como instrumento de dominação.
O carnaval não é uma festa de origem brasileira. Segundo os historiadores, ele existe desde a Antiguidade e assume diversas facetas, variando no tempo e no lugar, associado a outros rituais, influenciado por diferentes movimentos, incluindo a religião. Mas, é certo que temos aqui no Brasil a mais famosa celebração do mundo, desde o surgimento do samba e das escolas durante o Século XX. Expandido pelos diversos cantos do país, a festa assume as cores do lugar, como o frevo em Pernambuco e o axé na Bahia.
O desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro é o maior evento do calendário carnavalesco brasileiro. Transmitido com exclusividade pela maior emissora de TV do Brasil, e visto ao vivo por milhares de pessoas, que se aglomeram em luxuosos camarotes, ou nas simples arquibancadas. As agremiações desenvolvem um enredo a partir da concepção de um carnavalesco, profissional com expertise na celebração, que interpreta um samba previamente escolhido e divulgado.
Em alguns anos, mais que outros, os enredos adquirem uma dramaturgia que se volta para os problemas sociais. Em regra, são temas que remetem ao passado histórico. Em 1988, a Liga Independente das Escolas de Samba – Liesa, determinou como tema único para todas as escolas: o centenário da abolição da escravatura. Mas, não raramente, agremiações são ameaçadas de censura prévia, provocada sobretudo pelas Igrejas. O caso clássico foi sobre a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, no ano de 1989, ao levar um Cristo mendigo para a avenida, em seu carro abre alas. Irreverente, o carnavalesco Joãozinho Trinta cobriu a alegoria e escreveu: “mesmo proibido, rogai por nós”
Recentemente, escolas têm escolhido contar a história do tempo presente. Em 2018, a Paraíso do Tuiuti abordou as manifestações populares, que levaram ao golpe parlamentar que tirou a presidenta Dilma do poder, e a situação do país pouco mais de um ano depois. Apresentou o famoso pato da Fiesp, fantoches manipulados, carteiras de trabalho rasgadas, tudo entoado por um samba que expunha o formato da escravidão nos tempos atuais, um “cativeiro social”. E foi agraciada com o vice-campeonato, apesar de ser uma escola egressa do grupo de acesso, e sem visibilidade até então.
No carnaval de 2020 a crítica foi mais coletiva e mais severa. Escolas bateram fundo no uso indevido da religião. O Cristo que não foi permitido como mendigo à Beija-Flor em 1989, ganhou a feição de índio, de negro e de mulher, na interpretação da Mangueira. Como homem pobre e favelado, Jesus apanhou da polícia e foi ressignificado como alguém que hoje seria novamente crucificado. De outro lado, a figura do Presidente da República foi escancaradamente levada à Sapucaí vestido de palhaço, em teatralização ridicularizante, em carros com a figura de burros e decorados com laranjas, em alusão às candidaturas de fachada do PSL, partido que o elegeu.
O carnaval transmitido ao vivo e depois exposto na internet, nos jornais e revistas não deve ter sido fácil para Jair Bolsonaro. De tal modo que, no derradeiro dia da folia de Momo, ele resolveu vestir sua fantasia de amante da ditadura, e atrair a atenção para uma festa diferente. Uma que está sendo planejada por seus apoiadores.
O presidente encaminhou um vídeo de convocação para manifestação no dia 15 de março próximo, ´pedindo o fechamento do Congresso Nacional, cometendo claro crime de responsabilidade, pela letra do art. 85, II, da Constituição Federal de 1988, que dispõe especificamente sobre atos do Presidente da República que atentem contra o livre exercício dos demais poderes.
Após a repercussão, Bolsonaro afirmou, pelas redes sociais, na manhã de hoje (26) que usa o WhatsApp “para fins pessoais” e afirmou haver ilações fora de contexto para “tumultuar a República”.  Com a manifestação, assume o envio do vídeo, agindo como se o encaminhamento para um número menor de pessoas o isente do crime cometido.
A voz do Poder Judiciário veio do decano do STF, ministro Celso de Mello, dura e contundente, concluindo que o atual governante não está à altura do cargo que exerce.
Por outro lado, o inaceitável silêncio dos presidentes das duas Casas do Congresso Nacional causa estranheza, espanto e expectativa. Para além de ser o poder afetado pela ação de Bolsonaro, é à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal que cabe a análise de impedimento e o afastamento do Presidente da República, diante do cometimento de crime de responsabilidade.
Portanto, a responsabilidade de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre é muito maior que simplesmente responder ao ataque. Da palavra deles deve vir a afirmação da independência do Poder Legislativo e da supremacia da Constituição Federal. É preciso dar o devido enquadramento à vontade autoritária do governante, para que tenha noção de que não se trata mais apenas dos seus já costumeiros discursos reacionários, violadores de direitos, mas de um ato gravíssimo de significação política extrema.
É preciso uma exibição de autoridade institucional. Ou ficará consignado que o que temos, na verdade, é apenas uma democracia carnavalesca, uma fantasia, que pode ser despida e jogada às cinzas antes mesmo da quarta-feira.
Sem máscaras, o que está em jogo e sob ameaça é a garantia da ordem democrática.
Tania Maria de Oliveira é da ABJD – Associação Brasileira de Juristas pela Democracia

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

ONU condena claramente a política do governo Jair Bolsonaro e suas aspirações ditatoriais



Em golpe ao discurso da embaixadora do Brasil nas Nações Unidas, comitê conclui que presidente brasileiro viola tratado sobre tortura
Jornal GGN – A política de combate à tortura mantida pelo governo Jair Bolsonaro foi condenada por um organismo da Organização das Nações Unidas (ONU).
Em sua coluna no UOL, o jornalista Jamil Chade explica que os peritos do Subcomitê das Nações Unidas para a Prevenção da Tortura emitiram uma avaliação a respeito de queixas recebidas contra Brasília, na primeira constatação da violação de tratados internacionais pelo Brasil por parte de um organismo da ONU.
Tal reconhecimento é um golpe direto no discurso da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Nazareth Farani Azevedo – que recentemente declarou que o país era um “exemplo” e “inspiração” em termos de direitos humanos, e marca o grande mal-estar das entidades internacionais com relação às políticas do governo Bolsonaro.
A queixa foi recebida em setembro e, após análise, a conclusão é de que as regras precisam ser revistas. O ponto central da análise era o decreto 9.831 de 10 de junho, que foi denunciado como um desmonte dos sistemas de controle de tortura e prevenção no Brasil. Na visão da entidade internacional, o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura que foi comprometido pelo governo Bolsonaro não é uma opção, mas uma obrigação do estado brasileiro.
A recomendação da entidade é que o governo ofereça os recursos humanos e financeiros necessários para o mecanismo preventivo nacional funcionar de maneira efetiva, além de conceder autonomia institucional para o uso dos recursos.
Embora o posicionamento do organismo da ONU não gere sanções concretas, ele ajuda a aprofundar a crise de credibilidade brasileira em termos de cumprimento de acordos internacionais – o que também compromete a imagem internacional do governo Bolsonaro.