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terça-feira, 23 de julho de 2019

Clã Dallagnol (daquele mesmo) obteve metade de município do MT em área equivalente a Cabo Verde



Família do procurador da Lava Jato teve mais terras em Nova Bandeirantes do que “o maior grileiro do mundo” e clã dos “maiores pecuaristas e destruidores de florestas” do país



Deltan Dallagnol. Foto: José Cruz/Agência Brasil)
Jornal GGN – A família do procurador e coordenador da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol chegou a ser proprietária, nos anos 1970, de 400 mil hectares de terras em Nova Bandeirantes, município da região noroeste do estado do Mato Grosso, na região da Amazônia Legal.
O perímetro é equivalente a cerca de dois terços do Distrito Federal ou do tamanho de Cabo Verde, além de ser praticamente metade de Nova Bandeirantes, com área total de 953 mil hectares. Estes dados estão na segunda matéria da série de reportagens“Os Latifúndios dos Dallagnol na Amazônia“, produzida pelo site De olho nos ruralistas.
As informações foram possíveis graças a um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre a situação fundiária no Mato Grosso. O trabalho, coordenado pelo professor Bastiaan Philip Reydon, descobriu também que a família Dallagnol chegou à região de Nova Bandeirantes antes mesmo do processo oficial de colonização do município, iniciado na década de 1980 pela Colonizadora Bandeirantes (Coban).
A Coban foi criada por Daniel Meneghel, diretor da Usina Bandeirantes, na cidade de Bandeirantes, norte do Paraná. A reportagem do site De olho nos ruralistas conta que chegou até os Dallagnol graças ao sobrenome do empresário. Em novembro do ano passado, o portal publicou a matéria “Usineiro que bancou voo de Mourão tem histórico ligado à ditadura; vice foi apoiar o genro dele, ruralista”, falando de Serafim Meneghel, também conhecido como Tigrão, dono de time de futebol e amigo do vice-presidente.
Durante 30 anos, Tigrão foi presidente da Usina Açúcar e Álcool Bandeirantes S.A, no Paraná. A empresa, agora em nome do irmão Daniel Meneghel, foi aberta em 1966.
“É no nome de Daniel Meneghel que estão a Usina Bandeirante e a Coban, uma das empresas que, durante a ditadura, prestou-se a ‘colonizar’ o norte do Mato Grosso. Desse processo se formaram municípios como Colniza, Confresa, Colíder e – em homenagem ao município do empresário – Nova Bandeirantes, no noroeste do estado, a segunda terra dos Dallagnol”, destaca o portal de notícias.
A Coban chegou ao Mato Grosso em 1982, durante o governo João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar. Nesse período, Daniel Meneghel se tornou proprietário de uma fazenda de 328 mil hectares, em Nova Mutum (MT), que foi confiscada pela Justiça e chegou a ir a leilão, em 2017, avaliada em R$ 12,3 milhões, mas os lances foram suspensos.
Outro estudo do Instituto Centro de Vida (ICV) expõe ainda que as propriedades privadas demarcadas no município de Nova Bandeirantes totalizavam mais do que a área do próprio municípios: 113%, mostrando a existência de sobreposição nas declarações de terras feitas pelos fazendeiros.
Uma tabela que mostra a concentração de terras no município aponta que apenas 72 proprietários detém bem mais do que a metade de Nova Bandeirantes. Nesse grupo está a família Dallagnol. Em contraposição, 900 proprietários respondem por 2% da área do município.
“Somando-se os 72 proprietários que tinham entre 1 mil e 2,5 mil hectares – a maioria do restante da família Dallagnol -, o levantamento mostra que 144 latifundiários detinham, em 2015, 76% da área do município”, escreve a reportagem do De olho nos ruralistas.

Com quem tu andas 

Em 1978, as propriedades de Nova Bandeirantes foram regularizadas junto ao Instituto de Terras do Mato Grosso (Intermat), segundo relatório do Projeto Governança Fundiária do Mato Grosso, publicado em dezembro de 2014. Logo, a indicação é que, até aquele momento, o território era considerado público.
Quando o clã Dallagnol chegou no Mato Grosso, ainda nos anos 1960, a região de Nova Bandeirantes fazia parte do município de Alta Floresta e, em um curto espaço de tempo, se tornaram proprietários de uma extensão maior do que famílias conhecidas na região pela ocupação de grandes espaços de terra, como o também paranaense Cecílio Rego Almeida, que ficou conhecido como “o maior grileiro do mundo”, após o episódio dos 5 milhões de hectares no sudoeste do Pará, dos quais dizia ser dono.
A gleba recebeu o nome de Fazenda Curuá e, segundo o Ministério Público, abrangia a Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, Floresta Nacional de Altamira, Terras Indígenas dos Xipaya, Kuruaya, Baú, além dos projetos Nova Fronteira e Santa Júlia, de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A propriedade de Almeida foi contestada em uma ação da Justiça Federal que tramitou no município de Santarém.
Em Nova Bandeirantes, a construtura do fazendeiro, a CR Almeida, teve duas grandes gleba, de 150 mil e 65 mil hectares. Almeida também chegou a ser acusado de grilagem no município de Apiacás, Mato Grosso, na divisa com Nova Bandeirantes, de uma área com 300 mil hectares. Em 2009, a Procuradoria Geral do Estado do Mato Grosso moveu uma ação civil contra ele e outros envolvidos para reaver 579 mil hectares de área grilada.
Outra família que se destaca pela ocupação de terras devolutas é a paulista Junqueira Vilela. Uma reportagem do Intercept apontou a família como “os maiores pecuaristas e destruidores de florestas do Brasil”.
Os Junqueira Vilela tiveram uma área de 80 mil hectares em Nova Bandeirantes. Em junho de 2016, alguns membros da família foram presos na Operação Rios Voadores, sob a acusação de grilagem. Em 2015, o Ministério Público Federal denunciou parte da clã por crimes de trabalho escravo em áreas do Pará.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

The Intercept: Kim Kataguiri (o combatente das fake news) espala Fake News sobre o julgamento de Lula


Kim Kataguiri (R), leader of the Free Brazil Movement (MBL), meets with Brazilian Lower House President Eduardo Cunha in Brasilia, Brazil on May 27, 2015. Kataguiri, a 19-year-old college drop out, is the face of MBL, a growing force which seeks to harness some of the energy of the 2013 protest movement which brought more than a million onto the streets. AFP PHOTO/EVARISTO SA        (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)
Foto: Evaristo Sa/AFP/Getty Images

Do The Intercept Brasil:


18 de Janeiro de 2018, 



(Este texto contém atualizações)
KIM KATAGUIRI E o Movimento Brasil Livre vêm se dedicando a um hobby de inspiração trumpiana nos últimos meses: denunciar as “Fake News” (notícias falsas). Assim como Donald Trump, o MBL adora apontar erros involuntários ou tendências desonestas da imprensa para rebater qualquer crítica à sua atuação.
Por exemplo, quando o El País revelou que milhões de reais em doações caíam numa caixa preta controlada por uma família que é ré em 125 processos e têm uma longa ficha de crimes fiscais, integrantes do grupo se auto-proclamaram “o movimento político mais perseguido do Brasil” – sem rebater propriamente as denúncias.
Quando a Vice Brasil reportou que MBL manteve ligações diretas com o site de propaganda enganosa (o que alguns chamariam de “fake news”) Jornalivre, o MBL negou vínculos diretos com o site. “Fake news!”
E quando a Folha mostrou que seus membros “sem partido” e combatentes dos cargos públicos se beneficiam de empregos no governo, Kim chegou como um raio para “desmascara[r a] matéria canalha”.
Na sua conferência nacional no ano passado, até barrou e expulsou repórteres, para não arriscar a disseminação de falsidades. “Fake news! Fake news!”
Mas nesta semana, Kim Kataguiri se viu no espelho. O ativista compartilhou para seus 565.885 fãs no Facebook um vídeo do canal “Mamãe, Falei” que denunciava manifestantes segurando bandeiras sindicais, virando barreira e seguindo em direção à porta de um prédio oficial gritando as palavras de ordem “a casa é do povo”. Acima, em letras garrafais, o MBL cravou: “SINDICALISTAS INVADEM PRÉDIO PÚBLICO PARA TENTAR IMPEDIR CONDENAÇÃO DE LULA”.
No post que acompanha o vídeo, Kim escreveu: “Sindicalistas estão tentando impedir de todos os modos a condenação do Lula, mas não vão conseguir. FALTAM 9 DIAS!“ Até a publicação deste texto, o vídeo foi visualizado 481 mil vezes. Ele tinha apenas um problema: a manifestação nada tinha a ver com o julgamento do ex-presidente. Mentira pura. Uma autêntica Fake News.
Assista o vídeo:
Agora assista a reportagem da TV Pública Local que mostra exatamente o mesmo clipe e explica o real motivo da manifestação: servidores públicos protestavam contra um pacote de medidas que aumentava suas contribuições previdenciárias e achatava suas aposentadorias.
Parece que os dois vídeos até são da mesma fonte (ou pelo menos do mesmo ângulo e posição) e claramente estão mostrando o mesmo ato.
manifestacao-RN-protesto-1516310677
protesto-servidores-RN-1516310684
Janeayre Souto, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do Estado do Rio Grande do Norte, explicou para o jornalista do TVU porque eles estavam nas ruas naquele dia:
“Nós estamos aqui para impedir a venda, o desmonte do patrimônio público do estado do Rio Grande do Norte, a entrega à iniciativa privada do nosso patrimônio. Nós estamos aqui para lutar contra a demissão dos servidores e nós estamos aqui para lutar contra a retirada dos quinquênio dos servidores.”
Quando ligamos para Manoel Egídio Júnior, enfermeiro, membro do Fórum dos Servidores e um dos coordenadores do protesto, que está sem 13º e que recebeu o salário de dezembro apenas no último sábado, ele se surpreendeu: “Vejo com revolta essa cooptação do protesto. Tentaram usar nossa ação para outro objetivo. Não havia e não há nenhuma defesa de candidato ou partido”.
O governador kassabista Robinson Faria está tentando aprovar um pacote fiscal de 18 medidas (chamado de “RN Urgente”), apresentadas como solução para o derretimento financeiro do Rio Grande do Norte. Houve convocação extraordinária para a votação no dia 11 de janeiro, quando servidores tentaram entrar na Assembleia Legislativa para impedir a sessão – foram contidos pelo Batalhão de Choque da PM. Nada a ver com Lula. (“Fake News!”).
As propostas mais questionadas são aquelas que afetam diretamente servidores públicos que já tem seus salários atrasados: mudança na alíquota de 11% para 14% da contribuição previdenciária e limite da aposentadoria a um teto menor que o atual. A manifestação impediu que os os deputados votassem o pacote.
Cindo dias depois, os servidores voltaram a ocupar a frente da Assembleia. Manifestantes forçaram novamente as grades colocadas em frente ao prédio e superaram uma barreira policial para tentar entrar na Assembleia.
Como se vê por fatos e imagens, os manifestantes estavam preocupados com seu futuro imediato, e não com o julgamento de Lula, que ocorrerá ainda no dia 24, em Porto Alegre.
Mesmo alertados pelos fãs do MBL – os seguidores das páginas do Kim e do “Mamãe, Falei” chegaram a, respeitosamente, corrigir o erro evidente no vídeo – mas nada fizeram. A fake news (!) continua lá a gerar views.
Kim-Kataguiri-fake-news-RN-1516310584
Imagem: Facebook
Mamae-Falei-RN-fake-news-1516310590
Imagem: Facebook
The Intercept Brasil entrou em contato com Kim Kataguiri e “Mamãe, Falei” para perguntar se eles estão cientes de que o enunciado do vídeo está equivocado, que vários dos seus leitores já apontaram o erro – e por que eles não corrigiram ou apagaram o post. Até a publicação dessa matéria, ainda não responderam. Atualizaremos quando houver resposta.

ATUALIZAÇÃO (19 de janeiro, 11h58): Após a publicação deste texto, os links do vídeo nas páginas de “Mamãe, Falei” e Kim Kataguiri foram retirados do ar. Nenhuma delas publicou uma errata, explicação ou pedido de desculpa à audiência (a emissão de correções é prática padrão para qualquer provedor de informações respeitável). O vídeo enganoso foi visualizado pelo menos 481 mil vezes. The Intercept Brasil entrou em contato com Kim Kataguiri e a página “Mamãe, Falei” novamente e atualizará este texto se houver reposta.

sábado, 4 de novembro de 2017

Governo Temer, e daí? E daí, nada. É só um negócio de destruição do patrimônio público. Por Fernando Brito




Do Tijolaço:

O governo Temer, previsivelmente, passou a ter um único projeto, no qual os antecedentes do seu operador, teimosamente mantido ministro, Moreira Franco permite uma sonante imaginação: o de vender tudo o que for possível.
O resto esfumou-se no ar, inclusive o pouco poder de mando que teve. E a popularidade que nunca teve, qualquer um sabe, seguirá no zero estatístico em que se encontra.
Na área política, o seu maior esforço é para que nada aconteça, embora tudo aconteça até mesmo na “semana morta” do feriadão onde nada menos que três de seus ministros se meteram em escândalos, claro, sem que nada aconteça.
Aloysio Nunes Ferreira, responsável por representar nossas vergonhas perante o mundo como chanceler teve provado seu envolvimento com caixa 2 da Odebrecht, com quem mantinha reuniões sobre aditivos contratuais nas obras do Rodoanel. E daí? E daí, nada.
Sua Ministra dos Direitos Humanos, que ficou calada diante da portaria pró-trabalho escravo, foi apanhada com a boca na botija valendo-se do argumento de seu próprio “trabalho escravo” para furar o teto remuneratório constitucional. E daí? E daí, nada.
Torquato Jardim, ministro da Justiça e responsável pela Polícia Federal chama os comandantes da PM fluminense de “sócios do crime organizado” e não se tem notícia de que isso tenha virado sequer uma mísera investigação.
Como os procuradores da República estão curtindo seus desfiles de fantasias num resort em Pernambuco, finge-se que isso foi uma “bobagem pessoal” de Jardim e que daí, não saia nada.
Teríamos um quarto escândalo se ele não envolvesse o “santo” da mídia, Henrique Meirelles, que confirmou, na prática, ter ganho R$ 180 milhões dos irmãos Batista para presidir um conselho de administração que não se reunia e para montar um “banco de internet”cujo principal ativo é o dinheiro do próprio grupo J&F (a JBS e outras controladas).
Mas isso não repercute e a própria campeã da moralidade econômica – se é que pode haver moralidade num sistema econômico especulativo como o nosso -, não vai além do registro discreto do fato em sua coluna de hoje, dedicada à “candidatura presidencial” do Ministro:
Em quatro anos, segundo a reportagem, citando o BuzzFeed Brasil, ele ganhou R$ 217 milhões nas consultorias às empresas privadas. Como se sabe o que ele ganhou em algumas delas, como a Lazard, a KKR, a conclusão é de que ele teria recebido R$ 180 milhões da J&F, holding da JBS. Ele não confirmou nem desmentiu, mas disse à jornalista que é “um valor até pequeno”.
A diferença entre um “pro-labore” de R$ 180 milhões e um pombal no Guarujá  é imensa, não é? Todo mundo sabe que R$ 180 milhões é uma bobagem, quando se trata de Henrique Meirelles.
O Ministro da Fazenda, portanto, completa a quadra do Finados do Governo Temer com o seu “e daí?”.
O Brasil é apenas um negócio, não um país e um povo.
E daí? E daí, nada.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

The Intercept: Operação do ilegítimo presidente do Mercado para estancar a sangria cumpre mais uma etapa





Operação Estanca Sangria cumpre mais uma etapa

João Filho — 6 de Agosto - The Intercept Brasil
Temer faz o diabo para escapar da denúncia e deixa o mercado muito satisfeito
O CONGRESSO mais conservador desde 1964 cumpriu o papel que lhe cabia na Operação Estanca Sangria e enterrou a primeira denúncia por corrupção passiva da história do país contra um presidente da República. A cova é a mesma onde foi enterrada a democracia no ano passado, quando uma presidenta eleita foi deposta não por tentar comprar o silêncio de um criminoso ou por ter assessor flagrado carregando mala com propina, mas pelo hediondo crime das pedaladas fiscais.
A grande maioria dos deputados que votou pela varrição da sujeira do presidente para debaixo do tapete, havia votado para derrubar a ex-presidenta. É sempre bom lembrar como essa base de apoio herdada por Temer começou a ser construída. Às vésperas das eleições de 2014, Cunha, com ajuda de Padilha e do doleiro Funaro, teria financiado 140 deputados com dinheiro de propinas da Odebrecht para formar uma bancada com o objetivo de elegê-lo presidente da Câmara – tudo isso foi revelado por José Yunes, ex-assessor especial e amigo de Temer há mais de 50 anos. A história foi confirmada por Joesley Batista em delação e interlocutores de Funaro garantem que o doleiro fará o mesmo. Cunha foi eleito com o voto de 267 deputados. Temer se livrou da denúncia com 263.
Enfraquecido pelas denúncias e com a popularidade nas canelas, Temer viu sua base ameaçar debandada e usou despudoradamente a máquina pública para mantê-la. Arregaçou os cofres para atender qualquer demanda de qualquer deputado, distribuiu cargos, recebeu o baixo clero em seu gabinete, ameaçou traidores, enfim, fez o diabo. Tratam-se de práticas recorrentes na política brasileira, o ineditismo fica por conta do presidente tê-las utilizado unicamente para se safar de um julgamento por crime comum. E se safou.  
Rodrigo Maia, que chegou a articular nos bastidores uma traição, não resistiu ao rolo compressor governista e considerou prudente não pular do barco. Chorou na frente dos colegas de bancada e disse que sofreu muita pressão nos últimos meses. Até sua mãe mandou mensagem pedindo que ele não conspirasse contra Temer. Aí não tinha como mesmo. Decidiu não ser o Cunha da vez e trabalhou pelo engavetamento da denúncia.
Quem reagiu muito bem ao acobertamento da lama do presidente foi o mercado e o alto empresariado. A bolsa subiu, o dólar caiu.
O Financial Times tratou o engavetamento como uma “vitória histórica de Michel Temer” que trará “novas esperanças a investidores” de que o presidente “dará continuidade ao empacado programa reformas econômicas”.
Presidida por Skaf – correligionário de Temer citado na Lava Jato  – a FIESPtambém ficou felizona. Depois de participar intensamente da derrubada de Dilma, chegando a comprar anúncios gigantescos em jornais e servir filé mignon para manifestantes, Skaf passou a dizer durante o governo Temer que não cabia à entidade discutir política. Mas eles não puderam conter a felicidade e comemoraram a “superação de mais uma etapa da crise” nessa nota oficial:
A Band demonstrou mais uma vez sua fidelidade canina a Temer e, nas vésperas da votação, deu voz aos empresários e especialistas que consideram um grande passo para o Brasil não autorizar abertura de investigação de um presidente denunciado por corrupção passiva. Essa reportagem, cuja manchete é “Por avanços, empresários defendem permanência de Temer”, é uma demonstração de carinho tão grande que equivale a uma tatuagem com o nome do presidente no ombro. De henna, é claro.
Essa gente boa que até há pouco tempo estava disposta a passar o Brasil a limpo e combater a corrupção a todo custo, agora se preocupa em manter um presidente que já lhes entregou a reforma trabalhista e promete entregar a previdenciária – rejeitada pela maioria da população e que jamais seria avalizada pelas urnas. 2018 é logo ali e eles têm pressa. Não querem perder esta oportunidade única de cumprir seus objetivos antes daquele dispositivo democrático e inconveniente chamado eleição. Toda aquela indignação de outrora contra a corrupção agora murchou como o pato inflável da FIESP. A coluna de Arnaldo Jabor no dia seguinte à votação resume a lógica da turma:  
“Não sei se (o arquivamento da denúncia) foi bom ou não. Mas certamente acho que foi mais prático, mais simples. (…) Essa crise foi produtiva para conscientizar a população sobre a urgência de reformas que, de fato, transformem a realidade brasileira. Pode ser que tudo isso também motive o presidente Michel Temer a deixar um legado para o país.”
A Globo se manteve firme no objetivo de derrubar mais um presidente que ajudou a colocar no poder e foi a única a transmitir ao vivo a votação histórica em rede nacional. Deixou inclusive de exibir novelas e o Jornal Nacional, um fato raríssimo. Todas as outras emissoras não deram a mesma importância – bastante diferente da igualmente histórica votação do impeachment de Dilma, exibida ao vivo por todas emissoras, exceto o SBT. Talvez seja porque uma pedalada fiscal dê mais audiência que transportar mala com meio milhão em propinas.
Apesar de haver menos holofotes, mais uma vez os deputados deram o seu show de horror. Se na votação do impeachment de Dilma recorreram a Deus, à família brasileira e ao combate à corrupção, e não às pedaladas fiscais, para justificar seus votos, agora também recorreram a outros motivos alheios à denúncia da PGR, como a aprovação de reformas e a manutenção de uma estabilidade econômica que não existe.
E, assim, o bonde do golpe vai concluindo seus principais objetivos com sucesso: implantar na marra um plano de governo de centro-direita que foi rejeitado por quatro vezes seguidas pelas urnas, estancar a sangria e delimitar a Lava Jato onde está. Apesar dos percalços no caminho, tudo parece estar se ajeitando favoravelmente. Nem Aécio será comido.

ENTRE EM CONTATO:

João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Xadrez de quem é valente apenas contra os fracos, por Luis Nassif

"Os grupos que se uniram para assaltar o poder romperam o pacto democrático e, agora, há uma disputa feroz pelo controle do aparelho do Estado. É nítido na maneira como se pretender desconstruir o modelo de Estado que surge da Constituição de 1988."



Texto de Luis Nassif


Peça 1 – a Previdência e o pacto democrático


Os grupos que se uniram para assaltar o poder romperam o pacto democrático e, agora, há uma disputa feroz pelo controle do aparelho do Estado. É nítido na maneira como se pretender desconstruir o modelo de Estado que surge da Constituição de 1988.
A Previdência Social, com o Regime Geral e com a Seguridade Social significaram um avanço civilizatório gigantesco e foram fruto do pacto, da luta democrática e social que floresce em 1988, no pós-ditadura, como lembra o ex-Ministro Miguel Rossetto.
Como proposta, a reforma da Previdência e o desmonte da Seguridade Social é a barbárie, a própria negação do direito previdenciário construído pela democracia brasileira.
Os problemas enfrentados agora pela Previdência não decorrem do descontrole das despesas, mas da brutal queda da arrecadação previdenciária, por conta da recessão, desemprego e renúncias previdenciárias legais, acentuadas no governo Dilma.
O que se pretende não é a correção de distorções, mas o desmonte do modelo previdenciário.
Ao igualar homens e mulheres, as novas regras desconsideram a condição feminina, a maternidade ou o fato de, nos lares mais humildes, a mulher sempre receber o encargo de administrar os problemas familiares, um conjunto de responsabilidades que impede o cumprimento integral do tempo de trabalho.
Além disso, na realidade do mercado de trabalho brasileiro, com a rotatividade periódica do emprego, é muito difícil mesmo para o homem cumprir integralmente o tempo de trabalho. Sua renda não permite juntar uma poupança para pagar a Previdência nos tempos de desemprego.
Finalmente, é criminoso tirar o salário mínimo do BPC (Benefícios de Prestação Continuada), muitas delas famílias extremamente pobres, com pessoas com deficiência. Tenta-se tirar o único benefício dos pobres entre pobres, famílias em situação de miséria.
As distorções não param por aí.
Retirar o tempo de trabalho e de contribuição é um enorme erro, por conta do perfil de trabalho do brasileiro: pobres começam a trabalhar formalmente aos 16 anos; os mais ricos, aos 25 anos. No campo, começa-se a trabalhar muito mais cedo e em muito piores condições de trabalho.
Países que têm como critério a aposentadoria por tempo de trabalho são aqueles de mercado de trabalho mais homogêneo.

Peça 2 – os problemas reais da Previdência

Há um problema geracional em todos os sistemas de previdência, na medida em que aumenta a expectativa de vida das pessoas e aumenta também a idade média da população. Cria-se a situação em que o tempo de aposentadoria passa a ser maior que o tempo de contribuição.
São problemas de longo prazo que exigem acordos no presente, para implementação gradativa, sem grandes traumas.
Por ser tema estrutural, as soluções têm que ser negociadas, pactuadas, aceitas pelos cidadãos. Pela fórmula atual, a pessoa só conseguirá se aposentar com a aposentadoria integral com 45 anos de contribuição.
No governo Dilma, adotou-se inicialmente a fórmula 85/95 – a soma do tempo de contribuição com idade respectivamente para mulheres e homens. Permitia uma aposentadoria superior ao fator previdenciário, mas que iria se ajustando ano a ano.
Não resolvia o longo prazo, mas valia como como início de discussão. O passo seguinte seria convocar as centrais sindicais, o Congresso e os empresários para discutir as saídas e acertar o grande acordo.

Peça 3 – a impossibilidade de um acordo

Pela abrangência, pelos impactos sobre as próximas décadas, propostas dessa natureza não podem provir de um governo ilegítimo, empurrando goela abaixo da população, baseando-se na máquina de moer consciências das Organizações Globo.
Trata-se da consolidação de um modelo infame que, em outros tempos, envergonharia até mentes mais insensíveis, como o Ministro Luís Roberto Barroso – que se jacta de falar em nome do futuro, contra o atraso.
A insensibilidade de Barroso, a maneira como atropela princípios básicos de um regime democrático – como endossar as medidas autoritárias em cima do orçamento -, o pensamento autocrático  são típicos de uma burguesia da República Velha, pré direitos sociais básicos.
E, se insisto em mencioná-lo, é por ser o representante máximo do que mais anacrônico a elite brasileira produziu, o intelectual falsamente sofisticado, que trata as ideias com a mesma superficialidade com que busca bens de consumo da moda, sem jamais se introjetar princípios básicos constituintes de uma sociedade civilizada.
A agenda proposta inviabiliza o direito previdenciário.
É indecente num sistema tributário em que a maior parte dos tributos é arrecadado de contribuintes de baixa renda, cortar os benefícios dos mais pobres mantendo as brechas que permitem aos de maior renda beneficiar-se do planejamento fiscal e dos juros praticados pelo Banco Central.
Tenho sido, em geral, contrário às medidas radicais, à intolerância política, ao radicalismo estéril. Mas endosso a posição de Rosseto: qualquer tentativa de negociar esse pacote será um endosso à liquidação do direito previdenciário.

Peça 4 – o país da bazófia

A exacerbação em torno do golpe, a falsa frente majoritária que derrubou o governo criou em muitos de seus protagonistas a falsa sensação de segurança, típica das torcidas organizadas, que transforma os pusilânimes em valentes, os fracos em truculentos, os tímidos em arrogantes.
Passado o instante de catarse, muitos são apanhados em flagrante, com seus medos e fragilidades, como as cortinas do teatro que se abrem e flagram o ator urinando no vaso de flores na frente de uma plateia lotada.
Valente 1 – a Ministra Carmen Lúcia declara guerra aos políticos, dá palavras de ordem, pratica quatro frases de efeito e arregimenta a categoria e o populacho. Aí, no meio do caminho tinha um presidente do Senado, e ela recua tão ostensivamente que faz questão de registrar seu voto de presidente favorável a Renan. Nem seguiu a máxima do recuo: não seja tão lento que pareça provocação, nem tão rápido que sugira medo.
Valente 2 – O valente Eliseu Padilha anuncia a reforma da Previdência e retira dela os militares e a Polícia Militar – que supunha os únicos poderes armados. Aí a policia civil e os bombeiros fazem o maior pampeiro, inclusive enfrentando a PM do Rio de Janeiro. Depois, 190 representantes de sindicatos de policiais, bombeiros e agentes penitenciários invadem o Ministério da Justiça. O Ministro Alexandre de Moraes, depois de sua notável performance carpindo pés de maconha no Paraguai,  nem ousa aparecer.
No final do dia, vem o recado ligeiro: policiais e bombeiros estão fora da reforma.
Valente 3 – com a queda de Geddel Vieira Lima, depois de dias e dias ganhando coragem, Michel Temer nomeia o tucano Antônio Imbassahy como Secretário de Governo. O centrão bate o pé e Imbassahy sai de cena, antes mesmo de entrar.
Valente 4 – O douto representante de Eduardo Cunha e Eliseu Padilha na EBC, Laerte Rímoli, manda embora a apresentadora Leda Nagle. Os protestos invadem a rede e merecem home de O Globo Online. Imediatamente, recua, antes mesmo de pensar em uma saída estratégica.
Valentes 5 – Tal e qual um Aníbal, o Cartaginês, Geddel e Padilha irromperam nas hostes adversárias indo direto ao butim, mandando demitir servidores, criando um crivo ideológico nas verbas da Secom. Com os primeiros petardos, Geddel é flagrado aos prantos, pelos corredores do Planalto, e Padilha internado com pressão alta. Nesse ínterim, a postura altiva de Dilma Rousseff é reconhecida pelo Financial Time, que a premia como uma das mulheres de 2016 por seu comportamento na tragédia do impeachment.
Duas conclusões reiteradas:
1.     O governo Temer morreu.
2.     Não há saída fora do grande pacto em torno das eleições diretas.