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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Como os fundamentalistas neopentecostais teocráticos de extrema-direita conquistaram o Brasil, por Luis Nassif


Em 1984, dos 12,9 milhões de simpatizantes do pentecostalismo fora dos EUA, 9,9 milhões estavam na América Latina, e mais de 6 milhões no Brasil
Do GGN:
Um relatório de 2014 sobre o movimento pentecostal na América Latina, da consultoria espanhola Lorentz & Cuenca, traz boas luzes sobre o avanço do movimento pentecostal na América Latina.
O relatório é de 2014, período em que a candidatura Marina Silva, nas eleições presidenciais, expôs pela primeira vez a relevância do voto pentecostal. 
O relatório se concentra especialmente em países como Guatemala, Honduras, Brasil e Chile, nos quais entre um terço e 40% da população trocou o catolicismo por algumas das igrejas evangélicas.

A procedência dos protestantes

O pentecostalismo é um amplo movimento religioso, com grande variedade de grupos com formação e práticas distintas.
Historicamente, o protestantismo era composto pelas chamadas igrejas missionárias, de duas procedências. 
Da Europa vieram os luteranos (alemães), presbiterianos (escoceses), anglicanos (ingleses), valdenses (franceses e italianos), reformadores (holandeses e suíços), batistas (galeses), menonitas (holandeses e suíços). 
Dos Estados Unidos vieram as igrejas luteranas, episcopais (anglicanas de origem americana), presbiterianas, quakers, metodistas e batistas.
O pentecostalismo nasceu em 1904 nos Estados Unidos, como uma reforma religiosa dentro do evangelismo.
A primeira onda evangélica é de 1910, com as Igrejas Assembleia de Deus, Igreja da Profecia e a do Príncipe da Paz na Guatemala.
A segunda onda é dos anos 50, com o Evangelho Quadrangular – Cruzada Nacional de Evangelização (1953), Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo” (1956), Igreja da Nova Vida (1960), Igreja Pentecostal “Deus é Amor” (1961), Casa da Bênção (1964), Metodista Wesleyana (1967). 
Foi uma rápida penetração. Em 1984, dos 12,9 milhões de simpatizantes do pentecostalismo fora dos EUA, 9,9 milhões estavam na América Latina, e mais de 6 milhões no Brasil, especialmente atuando junto aos setores populares urbanos.

A onda neopentecostal

O neopentecostalismo nasceu dos pentecostais e dos grupos renovadores carismáticos dos anos 50 e 60. Começa a crescer a partir dos anos 70. 
Sua principal característica são as mudanças na doutrina, especialmente em relação ao papel do Espírito Santo, passando a dar ênfase ao fervor emocional, apelando para as emoções.
Os principais representantes são as igrejas Salão da Fé (1975), a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça (1980). 
Enquanto o pentecostalismo tinha como foco os setores populares (emigrantes internos, desempregados e setores populares), o neopentecostalismo procurou os setores médios e altos da sociedade, universitários, profissionais liberais e empresários.
Cresceram apoiados por investimento nos meios de comunicação de massa (rádio, TV e Internet), mas também em uma ampla infraestrutura com colégios, livrarias, cafeterias e estúdio de gravação.  E administrando as igrejas com um estilo empresarial de produção e distribuição de bens religiosos.

A influência americana

 O estudo lembra o Relatório Rockefeller de 1969, que sugeria o uso das igrejas como estratégia dos EUA e da CIA para deter o auge da Teologia da Libertação. O Relatório Rockefeller se tornou uma lenda, mas é enquadrado pelo trabalho na relação das teorias conspiratórias. 
Mas não ignora a profunda influência americana nas primeiras investidas neopentecostais.
As novas missões protestantes, especialmente as vindas dos Estados Unidos, traziam novos rituais, baseados na conversão e no êxtase religioso. Gradativamente foram se adaptando às condições latino-americanas, em um processo de aculturamento originalíssimo.
Mas, para entender esse processo, há que se passar antes pelas mudanças socioeconômicas ocorridas, que mudaram a face do continente.

Mudanças socioeconômicas

Ao contrário do resto do mundo, a modernização da América Latina não levou a uma secularização. Aumentou o número de agnósticos e de não crentes. E houve também um retorno ao sagrado, uma busca das raízes para enfrentar a insegurança ante o novo. 
Enfim, um conjunto de novas circunstâncias, uma diversidade ampla, gerando insegurança e demanda por apoio. É nesse quadro que o modelo de gestão passa a ter papel fundamental.
De um lado, a Igreja Católica, pesada, dividida entre tradicionalistas e progressistas, presa ao conjunto de símbolos da idade média. De outro, os pentecostais com modelos de gestão modernos, descentralizados e com foco no cliente.

A religiosidade latino-americana 

Para se adaptar aos novos tempos, já nos anos 70, as igrejas latino-americanos passaram a desenvolver um estilo próprio, libertando-se da influência norte-americana, com suas normas adaptadas ao liberalismo do país. Cria-se um pentecostalismo latino, uma miscelânea religiosa emulando várias características do catolicismo tradicional.
Enquanto o protestantismo norte-americano se adaptava ao liberalismo do país, as igrejas latino-americanas recriaram as relações patriarcais das fazendas, dos colonos colocados sob o guarda-chuva protetor dos coronéis e da fé. Era o patriarcado colonial adaptado às condições das megalópoles contemporâneas.
Reside aí o centro das críticas dos cristãos norte-americanas ao hibridismo das religiões evangélicas na América Latina. Elas se tornaram parte genuína da sociedade latino-americana, justamente por emular características históricas do continente.
Mencionado no trabalho, Jean-Pierre Bastian ressalta que
“poderíamos dizer que nesta ‘hibridez’ se está lidando não só com a adaptação ao mercado latino-americano, mas também com a criação de produtos originais, híbridos, que os pentecostalismos ofereceram em toda a região. Isso se nota em particular a partir da produção musical dos hinos, que de fato até os anos 70 era de origem anglo-saxão, e que a partir de então se transformou em cantos diretamente inspirados pelas tradições musicais populares endógenas. Hoje em dia, vemos se desenvolver o que estes movimentos chamam de “Ministérios de louvor”, que adotam a música local, em particular o samba ou outros gêneros tropicais como a sal-sa etc. Inclusive se chamou a este tipo de expressão musical com algum tipo de anglicismo como “salsa-gospel” ou “samba-gospel”.
No Brasil, as igrejas evangélicas mais relevante são a Assembleia de Deus, com 12 milhões de fieis, e liderada pelo pastor Manoel Ferreira; a Igreja da Graça, liderada por Romildo Ribeiro Soares; a Igreja Universal do Reino de Deus, dirigida pelo Bispo Edir Macedo, com 1,8 milhão de seguidores ; a Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdomiro Santiago, com 400 mil seguidores.
Vamos destrinchar um pouco o modelo de gestão adotado.

O modelo de gestão

Em cada Igreja, há uma liderança carismática como fator de coesão. Na Guatemala, é Cash Luna; em Honduras, René Peñalba, Tomás Barahona e Misael Argeñal em Honduras.
O que sustenta a expansão é a estrutura horizontal de bispos associados, através de igrejas locais e grupos independentes ou semiautônomos, nos quais a figura-chave é o pastor. Ele é o velho coronel da guarda nacional, incumbida de abrir o guarda-chuva onde os fiéis vão se abrigar e receber segurança.
No interior de cada Igreja, a estrutura é fortemente piramidal, com suficiente capacidade, flexibilidade e autonomia para se adaptar às circunstâncias de cada região ou país.
Essa flexibilidade foi essencial para dar respostas rápidas às demandas provocadas por crises econômicas, terremotos sociais, urbanização acelerada.
Nos anos 80, depois dos terremotos de Manágua, em 1974, e da Guatemala, em 1976, os evangélicos criaram redes de apoio. 
No Brasil, os fatores que levaram à expansão das igrejas foram:
  • a crise econômica do final dos anos 70 e de toda a década dos 80; 
  • o explosivo aumento da urbanização com a multiplicação das áreas marginais (favelas) onde existe tradicionalmente pouca presença do Estado e da Igreja Católica, e onde a insegurança física (roubos, assaltos, assédio das quadrilhas) e a econômica (emprego informal e poucas expectativas de trabalho) é uma constante.
Para compensar a ausência de estado, passaram a oferecer aos fiéis apoio religioso, mas também escolas, consultórios legais, postos de saúde. Desenvolveram estratégias para combate ao alcoolismo e às drogas. Aproximaram-se das mulheres com sua defesa das famílias estáveis e combate à violência doméstica. Montaram sistemas de apoio nos presídios. Por aí, sua influência se estendeu para as organizações criminosas que, nas favelas, se tornaram peças essenciais na guerra contra as religiões afro.
Ao mesmo tempo, os neopentecostais investiram sobre a classe média alta, com a nova teologia da prosperidade, e encontros de oração em hotéis de luxo. Justificaram, pela fé, a posição dos privilegiados. Trocaram o remorso da riqueza pela predestinação divina.

O uso modernos dos símbolos

Um grande publicitário brasileiro, Roberto Dualibi, costumava associar o catolicismo ao uso de técnicas de marketing, a cruz, o sino, as imagens, a confissão. A renovação foi ínfima.
Já o neopentecostalismo apela para a parte irracional, sentimental e experimental dos indivíduos. Seu marketing se baseia em curas físicas, na promessa de prosperidade econômica, na utilização da música nas cerimônias, na ênfase na oralidade e nas práticas populares tradicionais. Segundo o trabalho, utiliza com desenvoltura as línguas autóctones (daí seu sucesso na penetração entre os setores rurais indígenas), assim como a linguagem comum para se aproximar de seus seguidores.
Uma de suas marcas é a construção de grandes tempos. Em 2013, Cdash Luna inaugurou a Igreja Casa de Deus, com capacidade para 11 mil fiéis. Mas também investem em escolas, colégios e universidades.
Sua estratégia consiste em recriar espaços de refúgio comunitário, em contraposição à crise da familia tradicional. Daí se entende seu conservadorismo moral.
Segundo o sociólogo guatemalteco e pastor protestante Vitalino Similox, mencionado no trabalho: 
“as igrejas pentecostais se transformaram em empresas que desenvolvem estratégias de comercialização e de distribuição multilateral de bens simbólicos, religiosos. Sua hibridação se traduz na justaposição de diferentes níveis de empréstimos, que incluem o conteúdo das crenças, as formas de transmissão e comunicação, os recursos a mediações tanto arcaicas como modernas”. 

Os evangélicos e a política

Há muita heterogeneidade entre os evangélicos, mas com predominância dos setores mais conservadores, especialmente em temas morais. E um ativismo político cada vez mais amplo.
As primeiras incursões foram na Colômbia, durante a Assembleia Constituinte dos anos 90.
Seu partido, a Renovação Absoluta (Mira) recebeu 327 mil votos nas eleições para o Senado de 2014. E 412 mil para a Câmara, permitindo eleger três deputados.
No Chile, foram eleitos 200 candidatos evangélicos entre prefeitos e vereadores, principalmente nas regiões indígenas doBiobío  e  La  Araucanía,  em cidades como Lota, Curanilahue, Arauco, Lebu e Los Álamos. Entre eles há militantes da Democracia Cristã (DC), Renovação Nacional (RN), União Democrata Independente (UDI), Partido Pela Democracia (PPD), Partido Radical Social Democrata (PRSD), Partido Socialista (PS) e Partido Regionalista Inde-pendente (PRI). 
No Brasil, os evangélicos estão distribuídos por 16 legendas políticas, e em três partidos próprios: o Partido Republicano de Brasil (PRB), o Partido Social Cristão (PSC) e o Partido da República (PR). 
No Peru, o partido mais forte é o Restauração Nacional (RN) liderado pelo pastor Humberto Lay Sun. Em 1990, Alberto Fujimori foi apoiado pelos evangélicos, que forneceram um pastor como segundo vice-presidente.
A primeira incursão política foi com a Frente Parlamentar Evangélica, de 2003. 
Logo depois, a bancada foi atingida pelo escândalo da Máfia dos Sanguessugas, com o desvio de emendas para o bolso década parlamentares.
Foram envolvidos 23 integrantes da bancada, dez da Igreja Universal do Reino de Deus e nove da Assembleia de Deus.
O escândalo reduziu a participação evangélica nas eleições de 2006, mas se recuperou nas eleições de 2010.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Altamiro Borges: Um tsunami conservador arrasa o país




Ainda é muito cedo para analisar o resultado das eleições municipais deste domingo (2). A contagem dos votos segue em muitas cidades médias e pequenas e o segundo turno, no final de outubro, é que definirá, de fato, o novo quadro de correlação de forças no país. Mesmo assim, a primeira impressão é de que o Brasil sofreu um tsunami conservador, que terá consequências desastrosas para o sofrido povo brasileiro. No rastro do "golpe dos corruptos", que depôs a presidenta Dilma e levou ao Palácio do Planalto uma gangue de mafiosos neoliberais, a eleição confirmou a guinada direitista no Brasil.


O principal partido de esquerda do país, o PT, só conseguiu vencer o primeiro turno em uma capital, Rio Branco (AC). Em outras capitais e centros urbanos, a sigla não conseguiu nem chegar ao segundo turno. O "inesperado" crescimento de Fernando Haddad na reta final da campanha - que novamente coloca em dúvida a lisura do "Datafalha" e do "Glopobe" - não foi suficiente para evitar a vitória no primeiro turno do empresário-picareta João Doria, expressão maior do elitismo nativo. Já o PCdoB também sofreu duros revezes eleitorais. A sigla segue na disputa do segundo turno em Aracaju (SE).

O PSOL obteve importantes vitórias parciais no Rio de Janeiro, com o candidato Marcelo Freixo, e em Belém, com Edmilson Rodrigues. No segundo turno, ambos enfrentarão disputas dificílimas, o que exigirá uma amploa unidade do campo popular para derrotar as forças conservadoras. A legenda não obteve, porém, o resultado desejado em Porto Alegre, onde a presidenciável Luciana Genro ficou em quarto lugar e dificultou a chegada do campo popular, com Raul Pont (PT), ao segundo turno. A mesma frustração se manifestou em São Paulo, com a candidatura de Luiza Erundina.

No computo geral, o PSDB surge como o maior vitorioso da direita nativa. Elegeu prefeitos em duas capitais (São Paulo e Teresina) e disputará o segundo turno em outras sete capitais - incluindo Porto Alegre e Belo Horizonte. É certo que os tucanos seguem rachados e que as bicadas no ninho tendem a ficar ainda mais sangrentas. O governador Geraldo Alckmin bancou, na marra, a candidatura de João Doria e quase levou a sigla à implosão. Ele desponta agora como o principal presidenciável da sigla, para desespero do cambaleante Aécio Neves e do eterno candidato José Serra.

Também houve o crescimento de várias siglas fisiológicas, com a eleição de falsos pastores, policiais metidos a justiceiros e outros trastes conservadores. É preciso também analisar o fiasco do PMDB do Judas Michel Temer, o que fica para um próximo texto. Uma visão parcial sobre o mapa dos prefeitos eleitos indica que o Brasil pendeu mais à direita neste domingo. O tsunami conservador terá reflexos em importantes pautas, devendo reforçar a onda pela retirada dos direitos sociais e pela regressão civilizatória no país. O novo cenário político exigirá forte unidade do campo popular, intensa batalha de ideias na sociedade e muita disposição para a luta.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Boechat, Malafaia e "A hora da rola", em texto de Aytron Centeno



  "E hoje, na democracia duramente conquistada à Ditadura, quem tornará caro, muito caro, o desplante de ameaçar de morte, ao vivo e nas caixas de comentários, uma deputada federal — ou qualquer outra pessoa? Quando a pichação, nos mesmos termos, da calçada da casa de um homem de TV que ousou contrariar o decálogo da mídia empresarial, merecerá algo mais do que palavras sussurradas? Ameaças que também alcançam um dos mais conhecidos jornalistas e escritores do país? E que preço pagarão aqueles militares e policiais que desonram suas fardas e cospem nos seus deveres perante o Estado Democrático de Direito ao postarem nas redes sociais exortações ao assassinato? Quem se interporá entre a civilização e a barbárie para impedir que a última estupre a primeira como parece ser o desejo da bancada BBB, a maior do congresso, a do Boi, da Bala e da Bíblia?"

Segue trechos do texto "A hora da rola", de Ayrton Centeno, extraído do Contexto Livre:

Jornalista, Boechat foi de uma imprecisão inaceitável. Que diabos de rola Malafaia deveria localizar? Seria a Stratophelia turtur mais conhecida como rola-comum? Teria que ser a rola-do-Senegal — Streptopelia senegalensis — ou bastaria uma simples rola-miniatura, a Mathula? Qual o peso da variável cromática na afanosa busca? Sim, porque o enrolado Malafaia poderia optar pela rola-de-peito-rosa, a Streptopelia lugens, ou a rola-de-olhos-vermelhos, que os ornitólogos identificam como Streptopelia semitorquata. Para depois Boechat dizer-lhe que deveria ter capturado uma insinuante rola-gemedora, a Streptopelia decipiens.

Ignora-se até mesmo se o pastor saiu à cata de ave tão esquiva. Tampouco se esclareceu como o pipilar da rola aplacaria a ansiedade de Malafaia. Por isto mesmo, o bom pastor pode ter ignorado a prescrição e perseverado na sua trilha. Sem nenhum cajado, apenas munido das próprias forças para enfrentar e vencer os demônios que urdem o sequestro da alma daquele homem de Deus.

Significa, então, que o destampatório de Boechat caiu no vazio? Suspeito que não. Pilhérias à parte, ele apontou o caminho. Não necessariamente para a adoção do desaforo como prática cotidiana visando a definição de litígios. Mas para cravar um marco, balizar um limite: daqui nem um passo mais atrás. A proposta está posta, resta saber se haverá quem a assuma e honre.

Quem peitará o fascismo ascendente? Quem o denunciará em todas as frentes, formas e momentos? Nas noites da ditadura, uma aterrorizada Marília Pêra ouvia berros na frente de casa: “Marília, vamos te matar!” Compreende-se, eram as trevas e os fascistas estavam com as mãos livres para punir sem punição. E, hoje, na democracia, quem tornará caro, muito caro, o desplante de ameaçar de morte, ao vivo e nas caixas de comentários, uma deputada federal — ou qualquer outra pessoa? Quando a pichação, nos mesmos termos, da calçada da casa de um homem de TV que ousou contrariar o decálogo da mídia empresarial, merecerá algo mais do que palavras sussurradas? Ameaças que também alcançam um dos mais conhecidos jornalistas e escritores do país? E que preço pagarão aqueles militares e policiais que desonram suas fardas e cospem nos seus deveres perante o Estado Democrático de Direito ao postarem nas redes sociais exortações ao assassinato? Quem se interporá entre a civilização e a barbárie para impedir que a última estupre a primeira como parece ser o desejo da bancada BBB, a maior do congresso, a do Boi, da Bala e da Bíblia?

Quem contestará, pelo Direito e com o Direito, a banalização de prisões por parte de uma Justiça partidarizada que mais aparenta portar um tapa-olho de pirata e não a venda sobre os dois olhos da efígie que a interpreta? Quando o Supremo Tribunal Federal deixará de julgar com um olho no Direito e outro na direita para assumir plenamente sua função de protetor dos direitos do cidadão? Quem informará ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal que o fato de procuradores e agentes engajados explicitamente na campanha da chapa presidencial derrotada de 2014 não os qualifica para investigar aqueles que os venceram?

Alguém avisará, no interior de um governo que empanturra corporações midiáticas com publicidade oficial, que corvos arrancam os olhos daqueles que os criam? Quem explicará ao centro do poder que não é possível jogar o peso da disputa por corações e mentes nas costas da blogosfera progressista que, com bodoques, enfrenta diariamente as Panzer Divisions da ofensiva midiática? Quem confrontará as forças que levaram Getúlio ao suicídio, golpearam Jango, aliaram-se à ditadura e tentam destruir os governos que, aos trancos e barrancos, transformaram o Brasil em uma nação menos feroz com seus pobres? Quis o destino que um partido, acusado de atrasado e intolerante, fosse aquele que mais combateu o atraso e a intolerância. Onde anda? E onde se enfiaram as todas as vozes comprometidas com a agenda civilizatória, de todas as siglas, quando o atraso urra nas nossas portas?

The Second Coming, o mais famoso poema de W. B. Yeats e o único que conheço e me atrevo a citar, foi escrito na Europa há quase 100 anos mas parece que foi ontem e no Brasil. Sobretudo por dois versos, quando diz algo como “os melhores carecem de convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional”. É uma fotografia de 2015. A um desses entupidos de passionalidade, Boechat respondeu na bucha. E, sem querer, estabeleceu um desafio na arena política. Há mais rolas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Todas aguardando invocação.

Uma coisa é certa: esta batalha não será ganha por gente que pensa com as pernas. Não será ganha debaixo da cama. É um lugar que acumula mofo, imundície e covardia. E nenhum desses elementos serve à luta política.