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segunda-feira, 15 de julho de 2019

Noam Chomsky mergulha na estratégia imperialista de Trump


Do Outras Palavras

Para o intelectual dissidente, há uma lógica brutal na aparente loucura do presidente. Reeleger-se, tirando proveito do declínio do debate público nos EUA; e liderar a direita global — único caminho para manter a supremacia de Washington
Entrevista a C.J.Polychroniou, no Truthout | Tradução: Inês Castilho
Não é tarefa fácil dar sentido à política exterior atual dos EUA. Trump é violentamente imprevisível e desprovido de qualquer tipo de coerência em sua visão das relações internacionais, parecendo acreditar que só se exige “a arte de negociar” para transformar “inimigos” em amigos. Entretanto, desde sua ascensão ao poder, o fim da hegemonia dos EUA tornou-se visível.
Na entrevista exclusiva a seguir, Noam Chomsky – um dos críticos mais sagazes da política exterior dos EUA no pós-guerra – ilumina esta política, inclusive as relações de Trump com os líderes da Coreia do Norte, Rússia e China, assim como o chamado “Plano de Paz do Oriente Médio” deles.
Em 2016, Trump chamou a política exterior dos EUA de “um desastre completo e total”, alegando que os governos anteriores na era pós-Guerra Fria eram guiados por expectativas irrealistas que prejudicaram os interesses nacionais do país. Desde que assumiu, ele tirou Washington de uma série de acordos internacionais, exigiu que nações aliadas paguem por proteção e buscou promover os interesses econômicos dos EUA por meio de tarifas e protecionismo. Essas ações levaram muitos analistas a falar numa nova era das relações norte-americanas com o mundo. Qual a sua visão disso tudo?
Um dos comentários mais pertinentes que vi sobre a política exterior de Trump é de um artigodo The New Republic escrito por David Roth, editor de um blog de esportes: “O espetáculo de analistas e líderes de opinião analisando as ações de um homem sem competência ou capacidade de análise é uma sátira corrosiva – menos por causa de quanto essa análise falhou do que por causa de quão é deslocada. Não há nada para analisar, nenhum significado oculto ou elisões táticas ou uma lenta campanha estratégica”.
Isso parece preciso. Trata-se de um homem, afinal, que descarta a informação e análises de seu enorme sistema de “inteligência” em favor do que ocorre no programa Fox e Friends, onde todos lhe dizem o quanto o amam. Com todo o ceticismo devido à “inteligência”, é pura loucura.
E isso continua, de modo quase surreal. Na recente conferência do G20, perguntaram a Trump sobre a declaração de Putin, de que o liberalismo do Ocidente está obsoleto. Trump deve ter pensado que estava falando sobre a Califórnia: liberalismo a oeste... “Putin vê o que está acontecendo. E eu suponho, se você vê o que se passa em Los Angeles, é tão triste; e o que está acontecendo em São Francisco e algumas outras cidades governadas por um grupo extraordinário de pessoas à esquerda”.
Perguntaram-lhe por que só os EUA estão se recusando a se juntar ao G20 no compromisso de enfrentar o aquecimento global. Respondeu elogiando a qualidade do ar e da água dos EUA, aparentemente não entender a diferença.
É difícil encontrar um comentário sobre política exterior que destoe dessa norma impressionante. Os esforços para enxergar uma estratégia global coerente parecem levar a uma espécie de sátira ácida.
Não que não haja política coerente. Há uma política que emerge do caos – o tipo que poderíamos esperar de um homem egoísta que tem um princípio: Eu! A consequência é que qualquer tratado ou acordo conseguido pelos seus predecessores (particularmente o desprezado Obama) é o pior negócio da história, que será substituído pelo Grande Negócio da História, feito pelo negociador mais bem-sucedido de todos os tempos e maior presidente norte-americano. Da mesma forma, qualquer outra ação realizada no passado foi equivocada e prejudicou os EUA, mas será corrigida pelo “gênio resistente”, agora encarregado de defender o país daqueles que o estão enganando e atacando por todos os lados.
Não faz diferença quais serão as consequências – terríveis, decentes, indiferentes – desde que as imagens sejam preservadas.
Pode-se lembrar que um presidente que recebe esse retrato do mundo da Fox and Friends não é um fenômeno inteiramente novo. Há quarenta anos, um predecessor reverenciado (Ronald Reagan) aprendia sobre o mundo com os filmes e estava tão encantado que até acreditou ter participado da libertação dos campos de concentração nazistas (mesmo não saindo da Califórnia).
Tudo isso nos diz alguma coisa sobre a política moderna. Mas Trump não pode ser comparado a Reagan, não mais do que a farsa pode ser comparada à tragédia, parafraseando Marx.
É compreensível que a farsa esconda o ridículo, e sem dúvida há gente saboreando a próxima foto de Trump com o possível premiê britânico, Boris Johnson, defendendo a civilização anglo-americana. Mas, para o mundo, é terrivelmente sério: desde o risco de destruição ambiental e crescentes ameaças de uma guerra nuclear terminal até uma longa lista de outros crimes e horrores.
A crise de política externa mais perigosa no curto prazo é o conflito com o Irã, considerado a fonte oficial de todo o mal. O Irã precisaria acabar com sua “agressão” e tornar-se um “país normal” – como a Arábia Saudita, que está fazendo rápido progresso no mundo de fantasia de Trump, inclusive “um ótimo trabalho na Arábia Saudita do ponto de vista das mulheres”, explicou ele no G20.
As acusações contra o Irã ressoam através das câmaras de eco da mídia com pouco esforço para aferir a validade das “denúncias” – que dificilmente resistem a análise. O que quer que se pense sobre o comportamento internacional iraniano, Teerã não tem a mínima condição de competir com Washington para ver quem se enquadra melhor como “Estado vilão”.
No mundo real, o unilateralismo dos EUA destruiu um acordo nuclear (chamado de JCPOA) que ia bem, com acusações absurdas não aceitas por virtualmente ninguém com um mínimo de credibilidade. Além disso, impôs sanções extremamente duras, destinadas a punir o povo iraniano e minar sua economia. O governo dos EUA usa também seu enorme poder econômico, incluindo controle virtual do sistema financeiro internacional, para obrigar os outros a obedecer aos ditames de Washington. Nada disso tem a menor legitimidade – e o mesmo é verdade no caso de Cuba e de outros. O mundo pode protestar. Em novembro passado, a Assembleia Geral da ONU condenou outra vez o embargo dos EUA contra Cuba, por 189 a 2 (só os EUA e Israel votaram contra a resolução). Mas em vão. A estranha ideia dos fundadores do país, de que se deve “digno respeito às opiniões da humanidade” desapareceu há muito e os dolorosos gemidos do mundo passam em silêncio.
Há muito mais a dizer sobre o recurso, pelos EUA, a sanções com alcance extraterritorial, para punir populações. É uma forma de “excepcionalismo norte-americano” que encontra seu lugar naquilo que Nick Turse chamou de “o sistema de sofrimento norte-americano” quando expôs, de forma devastadora, o assalto dos EUA à população civil do Vietnã do Sul. O direito de se engajar nessa prática perversa é aceito como normal no sistema doutrinário dos EUA, com pouco esforço para analisar os verdadeiros motivos em cada caso, a legitimidade de tais políticas ou mesmo a sua legalidade. São assuntos sem a menor relevância.
Em relação ao Irã, no sistema doutrinário da mídia governamental, a única questão que surge é se a vítima irá responder de alguma maneira, talvez “violando” o acordo que os EUA demoliram, talvez com algum outro ato. E se esta vítima responde, obviamente irá merecer punição brutal.
Segundo a mídia e os funcionários dos EUA, o Irã “viola” acordos. Os EUA meramente “retiram-se” deles. A postura é uma reminiscência do comentário do grande escritor anarquista e ativista dos Wobblies, T-Bone Slim: “somente os pobres infringem as leis – os ricos esquivam-se delas”.
Os analistas tentam duramente detectar alguma grande estratégia por trás do assalto dos EUA ao Irã. É outro exercício de inutilidade. É fácil perceber os objetivos dos criminosos que estão em volta de Trump. Para Mike Pompeo e John Bolton, o objetivo é esmagar os hereges – de uma distância segura, de modo a não gerar custos. E danem-se as consequências. O próprio Trump parece ver isso de forma bem diferente. Quem sabe se ele de fato cancelou um ataque militar por causa de sua compaixão por 150 possíveis vítimas? A única evidência vem de uma fonte que não é famosa por sua credibilidade. Mas parece claro que ele não quer uma guerra, o que estragaria os jogos que tanto aprecia, e prejudicaria suas perspectivas eleitorais. É muito melhor chegar às eleições enfrentando a ameaça cósmica de um inimigo mau, que apenas um Líder Corajoso poderá deter — não algum daqueles “democratas fracotes” e, certamente, nenhuma “mera” mulher. Reagan também agarrou-se a esse princípio quando enfrentou com força a ameaça da Nicarágua, amarrando suas botas de caubói, avisando que as tropas nicaraguenses estavam a apenas dois dias de distância de Harlingen, no Texas, e declarando emergência nacional por causa da “extraordinária ameaça” à segurança e à sobrevivência dos EUA.
O histórico do conflito com o Irã tem fatos inenarráveis. A alegada ameaça das armas nucleares iranianas pode ser prontamente superada com a aceitação da demanda dos Estados Árabes, do Irã e praticamente do mundo inteiro, de estabelecer uma zona livre de armamentos no Oriente Médio, uma política diante da qual os EUA e o Reino Unidos têm uma obrigação especial, e que os EUA bloqueiam regularmente – por razões que não chegam a ser obscuras. Se Washington reconhecesse oficialmente a existência do arsenal nuclear de Israel, o enorme fluxo de ajuda a Tel Aviv seria ilegal sob a lei norte-americana. Por isso, é claro, as armas de destruição em massa de Israel não podem ser objeto de inspeção.
E as tarifas, então? O “homem das tarifas” nos diz que elas estão destinadas a promover os interesses econômicos dos EUA. Se ele acredita nisso ou não, ou se dá importância, não temos a menor ideia. Pronunciamentos políticos raramente podem ser tomados por seu valor de face, e Trump não é notório por sua sinceridade e credibilidade.
Há, para dizer caridosamente, escassos indícios para Trump gabar-se de que suas tarifas estão forçando a China a despejar “bilhões de dólares” no Departamento do Tesouro. “Nunca tivemos 10 cent vindos para nosso Tesouro” sob os governos anteriores, explicou ele. “Agora estão chegando bilhões”. No mundo real, os custos das tarifas são pagos não pela China, mas pelas empresas norte-americanas (que podem escolher compensá-las com a redução de salários) e consumidores, sobrecarregados com um imposto altamente regressivo, que recai principalmente entre os menos abastados. Em suma, as tarifas de Trump são mais uma de suas políticas para prejudicar trabalhadores e pobres.
É verdade, contudo, que estão envolvidos “bilhões”. Um estudo do Banco Central (Fed) de Nova York em parceria com as universidades de Princeton e Columbia estima que as empresas e consumidores norte-americanos pagaram US$ 3 bilhões por mês em impostos adicionais por causa da taxação sobre produtos chineses e sobre alumínio e aço provenientes de outros lugares do mundo – além do US$ 1,4 bilhão que custou a empresas norte-americanas a perda de eficiência, em 2018.
A guerra tarifária contra a China pode levar montadoras de automóveis a mudar suas operações da China para o Vietnã e outros países com custos de mão-de-obra ainda mais baixos. Mas, para a economia dos EUA a decisão mais típica é a da Apple, alguns dias atrás, de mudar a montagem de computadores Mac Pro do Texas para a China.
A guerra de tarifas de Trump parece relacionada principalmente à política doméstica, elaborada de olho na próxima eleição. Ele tem de convencer de algum modo sua base de eleitores de que é a pessoa que protege os agoniados norte-americanos, que estão sofrendo o “massacre” causados por seus predecessores – o que é até bem real para muitos deles, como dramaticamente ilustrado pela impressionante queda da expectativa de vida dos americanos em idade de trabalho, atribuída a “mortes de desespero”, um fenômeno desconhecido em sociedades desenvolvidas. O truque de Trump é acenar para um grande clube de seguidores e ameaçar outros com terríveis ameaças, para que que parem de torturar seu pobre país e concordem em “jogar de forma justa”. Quando tiramos isso tudo da frente, nos deparamos com outro quadro, como no caso da nefasta ameaça do Irã. Mas o que importa para o jogo é a “realidade alternativa” que os conspiradores estão inventando.
Com pouco sucesso. É um erro subestimar Trump. Ele é um demagogo e manipulador esperto, que está conseguindo manter a fidelidade das multidões de adoradores, crentes de que luta por eles, contra as odiadas elites, e ao mesmo tempo assegurar que o principal eleitorado republicano, extremamente rico e com poder corporativo, vá muito bem, apesar de algumas queixas. Estão, de fato, saindo-se como bandidos com a ajuda de Trump e seus associados.
É notável ver como uma realidade alternativa é efetivamente criada. O caso do Irã é típico, mas os sucessos são muito maiores. Considere a acusação de que “a China está nos matando”, roubando nossos empregos, junto com os “ladrões mexicanos”. Como a China está nos matando? A China tinha uma arma na cabeça de Tim Cook, o CEO da Apple, obrigando-o a acabar com o último vestígio de produção dos computadores Apple nos EUA? Ou a Boeing, GM, Microsoft, ou qualquer um dos outros que mudaram a produção para a China? Ou as decisões foram tomadas por banqueiros e investidores nas salas de reunião corporativas de Nova York e Chicago? Se é assim, a solução é mostrar os punhos para a China ou mudar o modo de tomar decisões nos EUA – transferindo-as para os trabalhadores e comunidades, dando a eles um papel substancial, como sugeriria a teoria democrática? Parece uma questão bastante óbvia. Estranhamente, ela não é levantada, enquanto o mantra oficial se mantém imperturbável.
Fala-se que a China impõe condições desiguais aos investidores, demandando transferência de tecnologia. Talvez. Se à Apple e às outras não agradam essas condições, elas estão livres para não investir na China. Adoradores da livre empresa e do mercado certamente concordariam.
Outra acusação é de que a China está perseguindo injustamente uma política industrial que subsidie indústrias favorecidas. Se sim, os líderes políticos e analistas dos EUA deveriam estar aplaudindo. De acordo com as doutrinas econômicas que professam, a China está prejudicando sua economia, ao desprezar o modelo de desenvolvimento supostamente ideal, do livre mercado, contribuindo assim com a hegemonia norte-americana. Qual é o problema?
O que parece ser uma acusação mais crível é que a China está violando o regime de direitos de propriedade intelectual (TRIPS) definido na Organização Mundial de Comércio. Suponhamos que sim. Várias questões surgem. Quem ganha, quem perde? Em grande medida, os consumidores norte-americanos ganham, enquanto a Big Farma, a Microsoft e outras garantiram direitos de patente exorbitantes e sem precedentes, sob TRIPS, que sofrem alguma redução em seus lucros enormes. 
Isso nos leva a uma outra questão: o regime TRIPS é legítimo? Foi, é verdade, estabelecido por um acordo interestatal. Mas quem tomou aquelas decisões? O público sequer sabia do que estava acontecendo. Dificilmente. Os mal denominados “acordos de livre mercado” são mais adequadamente descritos como acordos de direitos dos investidores, com frequência de pouca relação com o mercado em qualquer sentido significativo. Não por acaso, servem aos interesses de quem os concebe — os grandes investidores.
Outros elementos das queixas de que “a China está nos matando” fazem sentido. É abertamente manifesta a preocupação de que o progresso chinês deve deixar os EUA pra trás – por exemplo, de que a tecnologia Huawei, mais barata e superior, pode dar a eles uma “injusta vantagem” no estabelecimento de redes 5G. É claro que deve ser detida, argumentam as autoridades dos EUA, juntamente com o desenvolvimento econômico chinês em geral. Suas preocupações são reminiscentes dos anos 80, quando as técnicas superiores de fabricação japonesas estavam minando as empresas ineficientes dos EUA, e o governo Reagan teve de intervir para bloquear as importações japonesas por meio de “restrições voluntárias às exportações”. No caso, “voluntário” significa “concordo ou concordo”…
Há boas razões para concordar que a visão dos “especialistas” que buscam detectar uma grande estratégia por trás das travessuras de Trump é “a mais pura sátira corrosiva”. Mas há uma estratégia. E está funcionando bastante bem.
Um dos objetivos declarados de Trump, por trás de seu entendimento da diplomacia, é “transformar inimigos em amigos”. Há alguma evidência de que ele está perseguindo esse objetivo diplomático? Tenho em mente, em particular, os casos da Coreia do Norte e da Rússia.
Nesse caso, o objetivo declarado parece real. Ele provoca o ridículo e amarga condenação em todo o espectro político dominante. Mas quaisquer que sejam os motivos de Trump, a política geral faz algum sentido.
Declaração Panmunjom das duas Coreias, em abril de 2018, foi um evento altamente significativo. Ele falava sobre os países continuarem em busca de relações amigáveis e de eventual desnuclearização “por acordo mútuo”, sem a interferência externa que no passado frequentemente minou o que pareciam iniciativas promissoras: as repetidas interferências dos EUA, como mostram os registros históricos. Nessa declaração e acordos relacionados, pela primeira vez as duas Coreias definiram calendários específicos e tomaram medidas concretas e promissoras para a redução das tensões e o desarmamento – processos que deveriam ser bem-vindos e apoiados.
Para seu crédito, Trump aderiu amplamente ao requisito das duas Coreias. Seu recente encontro com o presidente norte-coreano Kim na zona desmilitarizada, o cruzamento simbólico de fronteiras, e possíveis acordos provisórios são passos que, com boa vontade, podem ter consequências salutares. Podem facilitar esforços das duas Coreias para prosseguir no difícil caminho em direção a uma acomodação e podem oferecer uma maneira de aliviar as sanções que estão bloqueando a ajuda terrivelmente necessária ao Norte e contribuindo com uma grande crise humanitária por lá. Tudo isso pode enfurecer comentaristas de todo o espectro político. Mas se há uma maneira melhor de trazer paz à península e dar passos em direção à desnunclearização e à reforma interna da ditadura norte-coreana, ninguém ainda nos informou sobre ela.
A Rússia de Putin não precisa ser transformada numa “amiga”, mas relações cooperativas com ela são um pré-requisito para a sobrevivência.
O histórico de Trump nesta questão é controverso. A Revisão de Postura Nuclear (Nuclear Posture Review – fevereiro de 2018) apresenta ameaças muito severas, ampliadas pela decisão inacreditável de levar adiante o desenvolvimento de armas hipersônicas. Os adversários estão fazendo o mesmo. A abordagem certa é a da diplomacia e negociações para prevenir um caminho suicida, mas não há nenhum sinal disso. O mesmo é verdade quanto ao Tratado INF negociado por Reagan e Gorbachev, que reduziu significativamente os riscos de uma guerra terminal. 
Cada lado reclama que o outro está violando o tratado. A abordagem correta é fazer uma análise investigativa neutra das reclamações e negociar o fim dessas violações à medida em que são descobertas. A pior abordagem é deixar o tratado, como estão fazendo os EUA, seguidos pela Rússia. As mesmas considerações valem para o outro grande tratado de controle de armas, o New Start. Em todo o caso, parece que John Bolton, consistente em sua perversidade, conseguiu bloquear o progresso e empurrar a política em direções extremamente sinistras.
Qual a sua análise sobre o plano do governo Trump para o Oriente Médio? E quão instrumental é o papel de seu genro, Jared Kushner, nisso?
Presumo que Kushner é o principal arquiteto, como se noticia. O que foi divulgado até aqui é bastante simples e consistente com as políticas anteriores do governo que autorizaram a tomada das colinas de Golan por Israel e o desenvolvimento da Grande Jerusalém, todas violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU (apoiadas na época pelos EUA). Ao mesmo tempo, a escassa ajuda dos EUA aos palestinos foi encerrada com o argumento de que eles não agradecem educadamente ao patrão quando mina seus direitos mais elementares.
O plano Kushner leva isso adiante. Deve-se garantir a Israel os melhores votos por sua liderança expansionista. Os palestinos devem ser excluídos dos fundos de desenvolvimento fornecidos por outros (não pelos EUA). A essência do “Acordo do Século” de Trump-Kushner foi captada de modo sucinto pelo embaixador israelense na ONU Danny Danon, no The New York Times: os palestinos deveriam perceber que o jogo acabou e “se render”. Então pode haver paz, outro triunfo do “grande negociador”.
Neste caso há um objetivo estratégico subjacente: consolidar a aliança de Estados reacionários (as monarquias do petróleo, Egito, Israel) como base do poder dos EUA na região. Isso de modo algum é novidade, embora as variantes anteriores tinham de certo modo diferentes formas e fossem menos visíveis do que hoje.
Esses objetivos estão dentro de uma estratégia mais ampla de formar uma aliança global reacionária sob a tutela dos EUA, incluindo “democracias não-liberais” da Europa Oriental (Orbán da Hungria, etc.) e o grotesco Jair Bolsonaro do Brasil, que, entre outras virtudes, compartilha com Trump a dedicação em minar perspectivas de um ambiente em que se possa viver, quando abre a Amazônia à exploração de seus amigos do agronegócio e da mineração. Essa é uma estratégia natural para o atual partido Republicano de Trump-McConnell, bem integrado à extrema-direita no espectro internacional, muito além dos partidos “populistas” de direita europeus, que até há pouco eram considerados franjas desprezíveis.
Sem lhe pedir que desempenhe o papel de Cassandra, como pensa que a história irá avaliar a posição de Trump sobre mudanças climáticas, que é de longe o maior desafio global que o mundo enfrenta?
Tomo emprestada a frase de Wittgenstein, com um pequeno ajuste, “aquilo que não se pode falar educadamente, é preciso silenciar”.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Historiador e professor norte-americano da Universidade de Wisconsin, Alfred W. McCoy escreve sobre as insanidades de Trump acelerando o declínio da diplomacia norte-americana



Entenda como o governo Trump destrói alianças de décadas e acelera a erosão do poder geopolítico, econômico e militar de Washington com o professor de Wiscosin, Alfred W. McCoy




Do Outras Palavras:


Novo ataque à Síria nada mudará, no essencial. Como o governo de Trump acelera a erosão do poder geopolítico, econômico e militar de Washington
Por Alfred W. McCoy, no TomDispatch | Tradução: Mariana Carioni, do Círculo de Tradutores Voluntários de Outras Palavras
Enquanto 2017 acabava com os bilionários norte-americanos torrando os cortes de impostos e executivos do setor de petróleo comemorando acesso irrestrito a terras federais, bem como águas costeiras, um setor da elite americana não bebeu do espumante comemorativo: o corpo de especialistas em política externa de Washington. De diferentes pontos do espectro político, muitos sentiram um profundo mau pressentimento pelo futuro global do país sob a presidência de Donald Trump.
Em uma longa reclamação de final de ano, o comentarista conservador da CNN Fareed Zakaria criticou a “decisão tola e derrotista da administração Trump de abdicar a influência global dos Estados Unidos – algo que levou mais de 70 anos para ser construído.” A grande “história global de nossos tempos”, ele continua, é que “o criador, defensor e executor dos sistema internacional existente está retirando-se ao isolamento egocêntrico”, abrindo um vácuo de poder que será preenchido por poderes não liberais como a China, a Rússia ou a Turquia.
Os editores do The New York Times lamentaram que “as brincadeiras, a beligerância e a tendência ao auto-engrandecimento do presidente estejam custando não apenas o apoio do resto do mundo, mas isolando-o.” Descartando o polido bipartidarismo da nata dos diplomatas de Washington, a ex-consultora de segurança nacional de Obama, Susan Rice, criticou Trump por descartar a  “liderança com princípios – a base da política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial” – por uma postura “América Primeiro” que vai apenas “encorajar rivais e enfraquecer a nós mesmos.”
A crítica é amplia e afiada. Mas não consegue assimilar o escopo do dano que a Casa Branca de Trump está impingindo ao sistema global de poder que Washington construiu e cuidadosamente manteve ao longo destes 70 anos. Na verdade, líderes americanos permaneceram no topo do mundo por tanto tempo que nem lembram mais como chegaram lá. Poucos, dentre a elite da política externa de Washington, parecem realmente compreender o complexo sistema que fez do poder global dos Estados Unidos e o que é hoje — particularmente suas bases geopolíticas cruciais. À medida em que Trump viaja pelo mundo tuitando e falando mal de tudo e todos, ele inadvertidamente revela estrutura essencial desse poder, da mesma forma que um incêndio devastador deixa as vigas de aço de um edifício arruinado de pé, sobre os escombros esfumaçados.
A Arquitetura do Poder Global Americano
A arquitetura  da ordem mundial que Washington construiu depois da Segunda Guerra Mundial foi não apenas formidável; mas, como Trump tem-nos mostrados quase todos os dias, surpreendentemente frágil. Em seu cerne, este sistema global reinava sobre uma delicada dualidade: uma idealística comunidade de nações soberanas iguais sob o jugo da lei internacional, unida de maneira tensa e tênue a um império americano fundamentado na realpolitik de seu poder militar e econômico. Em termos concretos, pense nessa dualidade como Departamento de Estado versos o Pentágono.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, Os Estados Unidos investiram seu prestígio em formar uma comunidade internacional que promoveria paz e compartilharia prosperidade através de instituições permanentes, incluindo as Nações Unidas (1945), o Fundo Monetário Internacional (1945) e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (1947), o precursor da Organização Mundial do Comércio. Para governar esta ordem mundial através da lei, Washington também ajudou a estabelecer a Corte Internacional de Justiça em Haia e mais tarde promoveria direitos humanos bem como direitos das mulheres. Pelo lado realpolitik da dualidade, Washington construiu um aparato apoiado em quatro pilares – militar, diplomático, econômico e clandestino – para avançar sombriamente seu domínio global. No seu cerne estava um poderio militar sem precedentes que (graças a centenas de bases estrangeiras) circundava o globo, o mais formidável arsenal nuclear do planeta, forças aéreas e navais maciças e uma variedade sem paralelos de exércitos clientes. Ademais, para manter sua superioridade militar, o Pentágono promoveu vastamente a pesquisa científica, produzindo incessantes inovações que levariam, dentre tantas outras coisas, ao primeiro sistema global de satélites de telecomunicações do mundo, o que efetivamente adicionava o pilar espacial ao seu aparato para exercer poder global.
Complementando tudo isso estava um corpo diplomático ativo em todo o mundo, trabalhando para promover laços bilaterais próximos com aliados como Austrália e Grã-Bretanha e alianças multilaterais como a OTAN, a SEATO [Organização do Tratado do Sudeste Asiático] e a Organização dos Estados Americanos. No processo, Washington distribuía ajuda econômica a nações novas e velhas. Protegidas pela hegemonia global e ajudada pelos pactos de comércio multilaterais costurados por Washington, as corporações multinacionais competiam de maneira lucrativa em mercados internacionais ao longo de toda a Guerra Fria.
Adicionando outra dimensão ao seu poder global estava um quarto pilar clandestino que envolvia vigilância global pela Agência de Segurança Nacional (NSA) e operações secretas nos cinco continentes  pela Agência Central de Inteligência (CIA). Desta maneira, com regularidade notável e por vastas extensões do globo, Washington manipulou eleições e promoveu golpes para garantir que quem quer liderasse um país de seu lado da Cortina de Ferro seria sempre parte de um grupo confiável das elites subordinadas, amigáveis e subservientes aos EUA.
Por caminhos que até hoje poucos observadores compreendem em sua totalidade, esse aparato maciço de poder global erguia-se também sobre bases geopolíticas de força extraordinária. Como John Darwin, historiador de Oxford, esclareceu em sua avassaladora história dos impérios eurasianos ao longo dos últimos 600 anos, Washington conquistou seu “Império colossal… em uma escala sem precedentes” ao tornar-se o primeiro poder na história a controlar os pontos axiais estratégicos nas duas pontas da Eurásia” através de bases militares e pactos de segurança mútuos.
Enquanto Washington defendia seus pontos axiais no Ocidente por meio da OTAN, sua posição no leste era garantida por quatro pactos de defesa mútuos ao longo do litoral Pacífico, desde o Japão e a Coreia do Sul passando pelas Filipinas e indo até a Austrália. Tudo isso era, por sua vez, amarrado por sucessivos arcos de aço que circundavam o vasto continente eurasiano – bombardeiros estratégicos, mísseis balísticos e frotas navais robustas no Mediterrâneo, no Golfo Pérsico e no Pacífico. Na última adição a este aparato, os EUA construíram uma sucessão de 60 bases de drones ao redor de todo o continente eurasiano, desde a Sicília até Guam.
A dinâmica do Declínio
Na década anterior à entrada de Donald Trump no Salão Oval, já havia sinais de que esse aparato impressionante estava em uma trajetória de declínio de longo prazo, ainda que figuras chave, em uma Washington absorta em orgulho imperial, tenham preferido ignorar essa realidade. A diplomacia desajeitada de Trump não tão somente acelerou este processo, mas deu-lhe evidência de maneira arrebatadora.
Ao longo do último meio século, a participação norte-americana na economia global, por exemplo, caiu de 40% em 1960 para 22% em 2014 e apenas 15% em 2017 (de acordo com o índice realista de paridade de poder de compra). Muitos especialistas agora concordam que a China vai ultrapassar os EUA, em termos absolutos, como a economia número um do mundo dentro de uma década.
Enquanto sua dominância econômica desvanece, seus instrumentos clandestinos de poder vêm se enfraquecendo visivelmente. A vigilância da NSA sobre uma considerável gama de líderes estrangeiros mundo afora, bem como milhões de habitantes de seus países, foi um dia um instrumento de custo relativamente eficiente para o exercício do poder global. Agora, graças em parte às revelações de Edward Snowden sobre a bisbilhotagem da agência e à raiva dos aliados atingidos por ela, os custos políticos subiram bruscamente. De maneira similar, durante a Guerra Fria a CIA manipulou dezenas de grandes eleições mundo afora. Agora, a situação foi revertida com a Rússia usando suas sofisticadas capacidades de cyber guerra para interferir na campanha presidencial americana de 2016 – um sinal claro do declínio do poder global de Washington.
Ainda mais impressionante, Washington agora encara o primeiro desafio contínuo a sua posição geopolítica na Eurásia. Ao optar por começar a construir uma “nova rota da seda”, uma estrutura ferroviária de trilhões de dólares e oleodutos atravessando todo o vasto continente, e preparar-se para construir bases navais nos mares da Arábia e da China, Pequim está montando uma campanha contínua para acabar com a longa dominação de Washington sobre a Eurásia.
Fortaleza América
Em apenas 12 meses no cargo, Donald Trump acelerou seu declínio ao prejudicar praticamente todos os componentes chave na intrincada arquitetura do poder global americano.
Se todos os grandes impérios precisam de liderança habilidosa em seu epicentro para manter o que é sempre um equilíbrio global frágil, então o governo Trump falhou espetacularmente. Enquanto o Departamento de Estado é eviscerado e o (agora ex) Secretário de Estado Rex Tillerson descreditado, Trump – peculiarmente para um presidente americano – tomou controle total sobre a política externa (com os generais que ele mesmo indicou para postos civis chave a reboque).
Como, então, estes que têm estado em contato próximo com ele neste período avaliam sua habilidade intelectual para se adaptar a um papel tão desafiador?
Apesar de desde sua campanha eleitoral Trump ter repetidamente se gabado por sua excelente educação em Wharton, Universidade da Pensilvania, como uma qualificação para o posto, ele começou lá no final dos anos 1960 achando que já sabia tudo de negócios, levando seu professor de marketing, que lecionava por mais de 30 anos, a taxá-lo como “o estudante mais burro que eu jamais tive”. Essa impetuosa falta de vontade de aprender perdurou durante a campanha presidencial. Como o consultor político Sam Nunberg, enviado para ensiná-lo sobre a Constituição, relatou, “Eu fui até a Quarta Emenda antes… que seus olhos começassem a se revirar.”
Segundo Michael Wolff conta em seu novo best-seller sobre a Casa Branca de Trump, , Fire and Fury (Fogo e Fúria), alguns meses depois, ao final de uma conversa por telefone com o presidente eleito sobre a complexidade do programa de vistos H-1B para imigrantes especializados, o magnata da mídia Rupert Murdoch desligou e disse, “Mas que porra de idiota.” E em julho último, como ninguém deve esquecer, depois de um briefing ultrassecreto do Pentágono para diretores na Casa Branca sobre operações militares pelo mundo, o (agora ex) Secretário de Estado Tillerson demonstrou, a portas fechadas, compartilhar da mesma percepção, ao chamar  o presidente de “idiota de merda.”
“É pior do que você pode imaginar. Um idiota cercado de palhaços,” um adido da Casa Branca escreveu em um e-mail, de acordo com Wolff. “Trump não lê nada; nem memorandos de uma página, nem documentos breves; nada. Ele se levanta antes do final de reuniões com líderes do mundo porque fica entediado.” A vice-chefe de staff da Casa Branca declarou que lidar com o presidente era “como tentar adivinhar o que uma criança quer.”
Essas qualidades mentais estão amplamente evidentes no recente relatório de Estratégia de Segurança Nacional do governo norte-americano, um documento vago que oscila entre o equivocado e o delirante. “Quando eu assumi o cargo,” Trump (ou quem quer que esteja escrevendo por ele) escreve sombriamente em um prefácio pessoal, “regimes nefastos desenvolviam armas nucleares… para ameaçar todo o planeta. Grupos terroristas radicais islâmicos floresciam… poderes rivais minavam os interesses norte-americanos ao redor do mundo de maneira agressiva… o injusto compartilhamento de responsabilidades com nossos aliados e investimentos inadequados na nossa própria segurança evocavam o perigo.”
Em apenas 12 curtos meses, contudo, o presidente – assim indica “seu” prefácio – salvou o país da destruição quase certa sozinho. “Nós estamos reunindo o mundo contra o regime nefasto da Coreia do Norte e… a ditadura no Irã, que aqueles determinados a continuar um acordo nuclear falho tinham negligenciado,” continua o documento, numa celebração tipicamente Trumpiana de si mesmo. “Nós renovamos nossas amizades no Oriente Médio… para ajudar a remover terroristas e extremistas… os aliados da América agora contribuem mais para nossa defesa comum, fortalecendo mesmo as nossas mais fortes alianças… nós estamos fazendo investimentos históricos nas forças armadas dos Estados Unidos.”
Refletindo as amplamente documentadas dificuldades de seu governo com a verdade, praticamente cada uma das declarações é inexata, incompleta ou irrelevante. Deixando de lado estes detalhes, o documento em si reflete a maneira como o presidente (e seus generais) abandonaram décadas de liderança confiante da comunidade internacional e agora estão tentando se retirar de “um mundo extraordinariamente perigoso” para um verdadeiro Festung America(Fortaleza América), por trás de muros de concreto e barreiras tarifárias. É um movimento que lembra a Muralha do Atlântico dos bunkers litorâneos do Terceiro Reich de Hitler, construídos para sua fracassada Festung Europa (Fortaleza Europa). Mas além de uma agenda de política externa tão obviamente míope, existem vastas áreas, largamente negligenciadas pela estratégia de Trump, que continuam críticas para a manutenção do poder global norte-americano.
Tudo que você tem a fazer é examinar as manchetes diárias na mídia no ano passado para perceber que a dominação mundial de Washington está desmoronando, graças ao tipo de revés em cascata que frequentemente acompanha o declínio imperial. Considere os sete primeiros dias de dezembro de 2017, quando o The New York Timespublicou (sem ligar os pontos) que nação após nação estava se retirando das alianças com Washington. Primeiro foi o Egito, um país que recebeu 70 bilhões de dólares de ajuda norte-americana ao longo dos últimos 40 anos e agora está abrindo suas bases militares a caças russos. Em seguida, apesar do namoro assíduo de Obama com o país, Mianmar claramente aproxima-se cada vez mais de Pequim. Enquanto isso, a Austrália, fiel aliada da América pelos últimos 100 anos, estaria adaptando sua diplomacia, ainda que relutantemente, para acomodar o poder cada vez mais dominante da China sobre a Ásia. Finalmente, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, o bastião americano na Europa desde 1945, aponta publicamente o crescente distanciamento de Washington em questões de políticas chave e insiste que confrontos serão inevitáveis e que as relações “jamais serão as mesmas.”
E isso é apenas um olhar superficial sobre uma semana de notícias, sem sequer chegar aos tipos de rupturas com aliados regularmente inflamadas ou enfatizadas pelos tweets diários do presidente.
Apenas três exemplos de muitos são suficientes: o cancelamento da visita de estado do presidente mexicano Peña Nieto, depois de um tweet que dizia que seu teria que pagar pelo “grande e lindo muro” na fronteira comum; o ultraje de líderes britânicos depois de o presidente repostar vídeos racistas anti-islâmicos da conta de um vice-líder de um grupo político neo-nazista do Reino Unido, seguido de sua repreensão à primeira ministra Theresa May por criticá-lo por isso; ou sua explosão de ano novo acusando o Paquistão de “nada mais que mentiras e enganação” como um prelúdio ao corte da assistência norte-americana ao país. Considerando o dano diplomático como um todo, pode-se dizer que Trump está tuitando enquanto Roma arde.
Como apenas 40 a 50 nações têm riquezas suficientes para assumir um papel de liderança regional, menos ainda um papel global, alienar ou perder aliados neste ritmo poderia deixar Washington sem amigos muito em breve. É algo que o presidente Trump descobriu em dezembro, quando desafiou inúmeras resoluções da ONU ao reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. A Casa Branca logo recebeu uma reprimenda por 14 votos contra 1 no Conselho de Segurança da ONU, com aliados próximos como alemães e franceses votando contra Washington. Isso veio depois de a embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Hakey ter vaticinado que “os Estados Unidos vão fazer uma lista” para punir países que se atrevam a votar contra e de Trump ter ameaçado cortar ajuda àqueles que o fizessem. A Assembleia Geral prontamente votou 128 a 9 (com 35 abstenções), condenando o reconhecimento – testemunho eloquente do declínio da influência internacional de Washington.
Em seguida, vamos considerar os “investimentos históricos” em um pilar central do poder global americano, as forças armadas norte-americanas, mencionadas na Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Não se deixe distrair pelos polpudos 10% de aumento proposto ao orçamento do Pentágono para financiar novas aeronaves e navios de guerra, com boa parte indo direto para os bolsos das gigantes empreiteiras de defesa. Foque, ao invés disso, no que outrora teria sido inconcebível em Washington. O orçamento proposto por Trump golpeia o financiamento para pesquisa básica em áreas estratégicas como  “inteligência artificial” que provavelmente serão críticas para sistemas de  armamentos autômatos dentro de uma década.
Na verdade, o presidente e sua equipe, distraídos por visões de navios cintilantes e aviões brilhantes (com seu previsível e colossal sobrecusto futuro), estão prontos a abandonar o básico na dominação global: os implacáveis esforços em pesquisa científica que estiveram na proa da supremacia militar americana. E ao expandir o orçamento do Pentágono, enquanto corta o do Departamento de Estado, Trump também está desestabilizando a delicada dualidade do poder dos EUA ao empurrar a política externa cada vez mais em direção a soluções militares dispendiosas (que provaram ser tudo menos soluções de fato).
No início da campanha, em 2016, Trump martelou outro pilar do poder norte-americano, atacando o sistema de comércio global e pactos de comércio multilaterais, que durante muito tempo deram vantagem às empresas transnacionais do país. Ele não só cancelou a Parceria Trans-Pacífica (TPP), que prometia direcionar 40% do comércio mundial pra longe da China, na direção dos Estados Unidos, como também ameaçou esvaziar o pacto de livre-comércio com a Coreia do Sul e tem sido tão insistente em redesenhar o NAFTA para servir sua agenda “América primeiro” que as negociações em andamento podem muito bem fracassar.
A posição geopolítica dos EUA em ruínas
Tão sério quanto isso possa ser, Trump revelou o mais profundo dano que seria capaz de causar para as bases geopolíticas do poder global norte-americano em dois momentos-chave em suas viagens à Europa e à Ásia ano passado. Em ambas ocasiões, ele demonstrou sua vontade de sair martelando a posição de Washington nessas duas saídas axiais estratégicas da Eurásia.
Durante uma visita à sede da OTAN em Bruxelas em maio, ele puniu aliados europeus, cujos líderes escutaram “perplexos” por não pagar sua “devida parte” nos custos militares da aliança. Aproveitou pra recusar a reafirmação do princípio central da OTAN de defesa coletiva. Apesar de tentativas posteriores de contenção de danos, isto espalhou o medo pela Europa e com razão. Sinalizou o fim de mais de três quartos de século de supremacia inquestionada na região.
Em seguida, em uma reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico no Vietnã, em novembro, o presidente começou “um ataque” contra acordos multilaterais de comércio e insistiu que iria sempre “colocar a América primeiro.” Era como se, em uma Ásia com uma China em rápida ascensão, ele estivesse anunciando mais uma vez que a supremacia pós-Segunda Guerra de Washington fosse um artefato da história. Apropriadamente, na mesma reunião, os 11 parceiros Trans-Pacíficos remanescentes, liderados por Japão e Canadá, anunciaram grande progresso em finalizar o acordo TPP que ele tão simbolicamente rejeitou – e o fizeram sem os EUA. “Os EUA perderam seu papel de liderança“, comentou Jayant Menon, um economista do Banco de Desenvolvimento Asiático. “E a China está rapidamente substituindo-os.”
Sob Trump, na verdade, as próximas relações com três aliados-chave dos EUA no Pacífico continuam a enfraquecer-se de maneira visível. Durante uma chamada telefônica de cortesia por ocasião de sua posse, Trump gratuitamente insultou o primeiro ministro australiano, um ato que apenas ressaltou a constante alienação dos EUA e uma crescente inclinação de mudar sua aliança estratégica primária em direção à China. Em pesquisas recentes, quando perguntados que país prefeririam como primeiro aliado, 43% dos australianos escolheram a China – uma transformação antes inimaginável, que a versão de diplomacia de Trump está apenas reforçando.
Nas Filipinas, a posse do presidente Rodrigo Duterte em junho de 2016 trouxe uma súbita mudança na política externa do país, terminando com a oposição de Manila a bases de Pequim no Mar do Sul da China. Apesar das agressivas investidas de Trump e uma certa afinidade temperamental entre os dois líderes, Duterte continuou a diminuir as manobras militares em conjunto com os EUA, que eram um evento anual para seu país, e recusou-se a reconsiderar sua decisiva inclinação em direção a Pequim. Esse realinhamento já era evidente em uma transcrição vazada de um telefonema entre os dois presidentes, na qual Duterte insistia que a resolução da questão nuclear da Coreia do Norte deveria ser deixada a cargo da China somente.
É, entretanto, na península coreana que as limitações de Trump enquanto líder global ficam mais evidentes. Em duas iniciativas descoordenadas e mal informadas – desgastando uma aliança norte-americana que vem desde a era da Guerra da Coreia e exigindo total desarmamento nuclear pelo Norte – Trump fomentou a dinâmica diplomática que permitiu a Pequim, Pyongyang e até mesmo Seul ultrapassar Washington.
Durante sua campanha presidencial e primeiros meses no cargo, Trump repetidamente insultou a Coreia do Sul, diminuindo sua cultura e exigindo um bilhão de dólares para instalar um sistema de mísseis de defesa norte-americano. Ninguém deveria ter se surpreendido quando Moon Jae-in ganhou a presidência deste país ano passado baseado em uma plataforma “diga não” à América e em promessas de reabrir negociações diretas com a Coreia do Norte, de Kim Jong-un. Então, durante uma visita de estado a Washington em junho passado, o novo líder sul-coreano foi pego de surpresa quando Trump classificou o acordo de livre-comércio entre os dois países de “injusto com o trabalhador americano” e achincalhou a proposta de Moon por negociar com Pyongyang.
Enquanto isso, Kim Jong-un supervisionou 16 testes com foguetes em 2017 que deram ao seu país mísseis que poderiam levar uma arma nuclear a Honolulu, Seatle ou mesmo a Nova Iorque ou Washington até o final do ano, enquanto testava sua primeira bomba de hidrogênio. Convencido de que a Coreia do Norte “busca a capacidade de matar milhões de americanos,” Trump tornou-se obcecado por cercear o programa nuclear de Pyongyang de qualquer modo, até mesmo ameaçando em agosto passado soltar sobre o país “fogo e fúria como o mundo jamais viu.”
Num espaço de dias, contudo, o então estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, expôs a fanfarronice vazia de tudo isso ao contar à imprensa, “Não existe solução militar até que alguém resolva a equação que… dez milhões de pessoas em Seul não morram nos primeiros 30 minutos por armas convencionais.”  Então as ameaças fracassaram e Trump fracassou , repetidamente mandando tweets para Kim Jong-un xingando-o de “Homenzinho do Foguete” e se gabando de seu “botão nuclear” ser “muito maior” do que o do líder norte-coreano. Estes 12 meses de bizarras e desestabilizantes viradas e tweets do presidente, praticamente sem precedentes nos anais da diplomacia moderna, empurraram Seul na direção de conversas diretas com Pyongyang – excluindo Washington e enfraquecendo o que havia sido uma sólida aliança.
Na guerra de nervos com a Coreia do Norte sobre testes com mísseis, a estratégia de Trump de triangulação com a China (isto é, Washington cutuca Pequim, Pequim empurra Pyongyang) já impingiu uma grande e inédita derrota sobre o poder norte-americano no Pacífico. Pelos últimos seis meses, para encorajar Pequim a pressionar Pyongyang, a Casa Branca suspendeu as patrulhas de “liberdade de navegação” que desafiava as reinvindicações espúrias de Pequim sobre o controle do Mar do Sul da China, efetivamente concedendo esta estratégica rota marinha à China. Em uma hábil dissimulação, Pequim demonstrou cooperação com Washington ao expressar “graves preocupações” sobre os testes com mísseis de Pyongyang e impor sanções nominais, enquanto negocia uma estratégia mais inteligente e de longo prazo. No processo, vem trabalhando para reduzir manobras militares conjuntas entre os dois países e neutralizar a marinha americana no que a China considera seu mar territorial.
Nesta edição diplomática de The Art of the Deal, Pequim está vencendo Washington.
Derrubando o Império
Muito compreensivelmente, muitos norte-americanos focaram nos danos que os primeiros meses de Trump no cargo causaram internamente, de abrir imensidões selvagens e águas marítimas para a exploração de gás natural a ameaçar o acesso à saúde, distorcer o sistema tributário para favorecer os ricos, cancelar a neutralidade da internet e esvaziar proteções ambientais de todos os tipos. A maioria senão todas essas políticas regressivas podem, todavia, ser reparadas ou revertidas se os democratas tomarem o controle do Congresso e da Casa Branca.
A versão tão contundentemente inepta de Trump de diplomacia de um homem só, no contexto do atual declínio global dos Estados Unidos é algo completamente distinto. A liderança global perdida nunca é prontamente recuperada, em particular quando poderes rivais estão preparados para preencher a vacância. Enquanto Trump depreda a posição estratégica dos EUA nas saídas axiais da Eurásia, a China exerce incansável pressão para afastar os Estados Unidos e dominar aquele vasto continente com o que Edward Wong, correspondente do New York Times, chama de “um contraponto brusco… sinônimo de força bruta, suborno e intimidação.”
Em apenas um ano extraordinário, Trump desestabilizou a delicada dualidade que há tempos tem sido a base para a política externa dos EUA: favorecer a guerra sobre a diplomacia, o Pentágono sobre o Departamento de Estado e interesses nacionais obtusos sobre liderança global. Mas em um mundo globalizado interconectado pelo comércio, pela internet e pela rápida proliferação de mísseis com armas nucleares, muralhas não vão funcionar. Não poderá existir uma Fortaleza América.

Alfred W. McCoy

Alfred W. McCoy é historiador norte-americano e atual professor de História no Centro para Estudos do Sudoeste Asiático, na Universidade de Wisconsi, Madison. Pesquisa e escreve principalmente sobre a história das Filipinas e o comércio de heroína e ópio no Triângulo Dourado. Seu livro "A Política da Heroína no Sudeste Asiático" foi um marco documentando as interações entre a CIA e os cartéis de droga na região.