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sexta-feira, 1 de abril de 2022

O regime destrutivo de 1964 – revendo o “legado” maldito, por João Furtado

 

    Não, eles, os militares e os seus associados, não “desenvolveram a economia”, apesar da política violenta. A política violenta fez uma economia violenta. Violenta contra os pequenos, contra o trabalho, contra as organizações dos trabalhadores, contra tantos.


O regime destrutivo de 1964 – revendo o “legado”

por João Furtado

Enquanto não fizermos a crítica completa de 1964 não teremos paz.

A dicotomia que ainda prevalece na história que a sociedade brasileira recebeu é que existe uma dicotomia entre a política sangrenta da ditadura e as realizações econômicas, que “não são de se jogar fora” (na versão comedida). Essa visão é é um veneno da vida brasileira.

Não, eles, os militares e os seus associados, não “desenvolveram a economia”, apesar da política violenta. A política violenta fez uma economia violenta. Violenta contra os pequenos, contra o trabalho, contra as organizações dos trabalhadores, contra tantos.

Os militares e seus tecnocratas, que escondiam por detrás do discurso técnico e racional os interesses daqueles a quem serviam, não desenvolveram a economia, fizeram a economia crescer com anabolizantes mortais. A crise que ficou clara a partir de 1979 ou 1982, e que nos empobrece e assombra há 40 anos, é produto desse discurso e de políticas nefastas, muitas vezes perversas, cujos efeitos ainda sentimos, porque anabolizantes produzem efeitos imediatos aparentemente revigorantes, mas fragilidades destrutivas que só o tempo vai revelando, às vezes de maneira muito diferida e gradual.

O golpe medonho de 1964 criou ou reforçou o poder da indústria concentrada (os grandes oligopólios). Há muitos exemplos desse imenso poder dos grandes oligopólios, mas fiquemos com um, para guardar e não esquecer:  sempre que um pobre faz um puxadinho, com aqueles blocos e cimento, aquela família brasileira (que depois renegou a ditadura) embolsa uns dólares. Sim, dólares, porque a fortuna vai sendo dolarizada e colocada “a salvo dos efeitos nefastos da democracia brasileira”. Ou nós não nos lembramos que o icônico dirigente desse grupo empresarial acusava o torneiro mecânico de nunca ter trabalhado na vida?

De onde veio o rodoviarismo extremado? De onde veio a febre que sangrou a floresta e iniciou o genocídio moderno? Não, os militares e seus amigos do golpe não deixaram uma infraestrutura desenvolvida, mas primitiva, brutal, destruidora.

Quem foi que criou o sistema financeiro híper-concentrado e um mercado de capitais que está situado entre o estéril e o parasitário? Quem foi que lançou as bases desse agronegócio poderoso e concentrador de propriedade, recursos e com poder cada vez mais despótico? Soja e milho dos amigos do Delfim também não são modernização, se o custo é o Cerrado destruído, populações originárias esmagadas, alternativas agrícolas inviabilizadas.

Quem foi que destruiu as bases da organização social, aniquilando os elementos, as forças e os movimentos que poderiam se opor aos retrocessos econômicos travestidos de modernização? Porque carro não é modernização, modernização é transporte decente. Casa própria pode ser uma conquista, mas a geografia das cidades que a ditadura criou tornam os transportes, o saneamento, as infraestruturas caras e a vida, inviável.

Não é que a ditadura foi “mal no político e bem no econômico”. Essa dicotomia é um equívoco e enquanto ela persistir não haverá paz, porque haverá saudosistas e gorilas dispostos a lutar por um passado pretensamente glorioso.

Está errado: não houve passado (econômico) glorioso. A ditadura foi uma carnificina política e um câncer econômico. E a crise que se iniciou em 1979-1982 é a sua metástase. O revigoramento da economia exige a revisão de resultados que a ditadura produziu.

E os grandes senhores que marcharam com “Deus, família e propriedade” em 1964, que depois se locupletaram, antes de pularem do barco que foi se tornando mais e mais sinistro, são parte do problema, mas talvez não sejam adeptos de uma solução. Afinal, persistem, reiteradamente, nas escolhas arcaicas, como demonstram o golpe e as reformas que se seguiram.

Neste dia de tenebrosa memória, precisamos aprofundar a nossa reflexão. Os avanços de 1988 já nos devolveram esperanças, mas não faremos um Brasil para todos com uma História falseada pela mitologia da ditadura e dos seus sócios coniventes.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Exército brasileiro torrou R$ 6 milhões em simulação de guerra contra Venezuela

 


Em meio à crise econômica que o Brasil enfenta, o Exército brasileiro gastou R$ 6 milhões somente em combustível, horas de voo e transporte para simular uma guerra entre dois países na Amazônia


Do Brasil 247:

A simulação ocorreu num momento de animosidade com a vizinha Venezuela, praticamente ao mesmo tempo em que o governo brasileiro decidiu retirar as credenciais dadas aos diplomatas do regime de Nicolás Maduro que atuam no Brasil, que tem no Ministério da Defesa o general Fernando Azevedo e Silva

Fernando Azevedo, Bolsonaro e Nicolás Maduro (Foto: Marcos Corrêa/PR | CMA | Reuters)

247 - Em meio à crise econômica que o Brasil enfenta, o Exército brasileiro gastou R$ 6 milhões somente em combustível, horas de voo e transporte para simular uma guerra entre dois países na Amazônia, numa operação militar inédita, que ainda não havia sido feita no país. Os militares decidiram criar um campo de guerra em que um suposto país “Vermelho” invadiu um país “Azul”, sendo necessário expulsar os invasores. A informação é do jornal o Globo. 

A simulação ocorreu num momento de animosidade com a vizinha Venezuela, praticamente ao mesmo tempo em que o governo brasileiro decidiu retirar as credenciais dadas aos diplomatas do regime de Nicolás Maduro que atuam no Brasil. A operação envolveu 3,6 mil militares e se concentrou nas cidades de Manacapuru, Moura e Novo Airão, no Amazonas, num raio de 100 a 300 quilômetros de Manaus.

Segundo a reportagem, a “guerra” na região amazônica ocorreu entre 8 e 22 de setembro. No dia 18 daquele mês, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, fez uma visita a Roraima, região de fronteira com a Venezuela. O chefe da diplomacia de Donald Trump esteve em Boa Vista — a 840 quilômetros de Manacapuru — e foi ciceroneado pelo chanceler Ernesto Araújo. A visita foi duramente criticada, por ter ocorrido durante a campanha eleitoral em que Trump busca a reeleição, por ter se passado na região de fronteira e por ter emitido um sinal belicoso da relação de EUA e Brasil com a Venezuela.

Mike Pompeo, visitou Roraima recentmente Roraima mais uma vez, numa clara ameaça aos venezuelanos. A diplomacia  brasileira foi duramente criticada pelo nível de completa submissão que o Brasil oferta ao governo Trump.