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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Da Agência Pública: Atas revelam como o Ministério da Defesa comandado por militares se empenhou na produção de cloroquina na pandemia no período Bolsonaro

 

Defesa apoiava indústria que pretendia tornar a Bahia um “case” no uso da cloroquina


Da Agência Pública:

8 de fevereiro de 2023

15:30

Reportagem de Rubens Valente, Alice Maciel, Caio de Freitas Paes, Laura Scofield, Matheus Santino, Bianca Muniz, Thiago Domenici

 ESPECIAL: A CAIXA-PRETA DO BOLSONARO


As reuniões do CCOP (Centro de Coordenação das Operações do Comitê de Crise da Covid-19) realizadas de março de 2020 a setembro de 2021 foram coordenadas de início pelo ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Walter Braga Netto, que logo atribuiu a tarefa ao seu braço direito na pasta, o tenente-coronel reformado do Exército Heitor Freire de Abreu, formado pela Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), então subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil. Depois que Braga Netto deixou a Casa Civil e se tornou ministro da Defesa, em março de 2021, o tenente-coronel foi nomeado assessor especial do ministro. De lá seguiu, em 2022, para uma assessoria na Presidência da República.

Justamente um dos pontos que permaneceram em aberto ao longo de toda a CPI da Covid foi saber de quem partiu a ordem para que o Exército aumentasse a produção de cloroquina por meio do seu Laboratório Químico Farmacêutico (LQFEx). Mais de 3,2 milhões de comprimidos foram produzidos em 2020 – contra zero, no ano anterior. Por ofício, a Defesa limitou-se a dizer à CPI que a solicitação que fez ao Exército atendeu a uma “orientação e demanda” do Ministério da Saúde. As atas do CCOP, contudo, demonstram que a Defesa foi bastante proativa no tema da cloroquina revelando-se, no mínimo, coautora da decisão da produção do medicamento.


Ministério da Defesa

Exército produziu por meio do seu laboratório mais de 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina em 2020

Nas atas, o empenho da Defesa pela cloroquina começa a ser registrado no segundo mês da pandemia. Em 4 de maio de 2020, quando o Brasil já contava 7,3 mil mortos pela doença, o representante do Ministério da Defesa, cujo nome não constou da ata, informou solenemente ao conjunto dos outros ministérios: “Acordaram, juntamente com o MS [Ministério da Saúde], a produção de Cloroquina em laboratório”.

O ministro da Defesa naquele dia era o general Fernando Azevedo, que deixaria o cargo em março de 2021 em meio a uma crise militar. Naquele segundo trimestre de 2020, contudo, a pasta de Azevedo informou a todos os outros órgãos que estava empenhada na fabricação do medicamento ineficaz. O ministro da Saúde era Nelson Teich. Onze dias depois, ele seria substituído pelo general do Exército Eduardo Pazuello.

Poucos dias antes do “acordo” anunciado pela Defesa com a Saúde, em 20 e 28 de abril, Bolsonaro havia desqualificado publicamente as críticas da população e da imprensa sobre o papel do governo na pandemia. “Eu não sou coveiro”, disse no dia 20. Praticamente desde o início da pandemia, o então presidente falava da cloroquina como uma solução para a pandemia. Uma suposta medicação para o tratamento da Covid-19, inexistente segundo todos os cientistas sérios do país e do mundo, poderia acelerar o retorno dos brasileiros ao trabalho.

Em 26 de março, por exemplo, ele disse que a cloroquina, “medicada corretamente, não tem efeito colateral”. Em 21 de março, em sua conta na rede social Twitter, Bolsonaro divulgou que ele próprio e a Defesa decidiram ampliar a produção da cloroquina.

Tornar a Bahia um “case” no uso da cloroquina

Segundo as atas do CCOP da Casa Civil, os militares da Defesa – e os civis do Itamaraty e da Saúde – encamparam a decisão de Bolsonaro.


Em 17 de junho de 2020, um mês depois do anúncio do “acordo” com a Saúde, o representante da Defesa informou na reunião do CCOP que “oxímeros [sic, oxímetros] e eletrocardiogramas são importantes para receitar a cloroquina, estão monitorando essa questão juntamente com o MS [Ministério da Saúde]”. A menção a eletrocardiograma se explica porque, entre os efeitos adversos da cloroquina citados por médicos, estavam os problemas cardíacos. No mês seguinte, a imprensa informou que o próprio Bolsonaro fazia dois exames cardíacos por dia para monitorar possíveis efeitos adversos da hidroxicloroquina.

Dois dias depois, em 19 de junho de 2020, o Ministério da Saúde anunciou ao CCOP que publicara uma “orientação também sobre o uso da cloroquina”.

Àquela altura, inúmeras organizações e especialistas já haviam advertido várias vezes sobre os riscos e a ineficácia do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Em meados de junho, a OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou a suspensão dos testes com cloroquina. 

As atas do CCOP demonstram que a palavra dos cientistas nada importava para os militares da Defesa. Em 3 de julho de 2020, o representante da Defesa informou que no dia anterior havia se reunido com “representante do MS [Saúde], Sindfarma e fabricantes de medicamentos para tratar de fármacos para atendimento precoce envolvendo entre outros fármacos, os antibióticos, a cloroquina e a azitromicina”. Há no país alguns sindicatos de empresários da indústria farmacêutica chamados de “Sindifarma” ou “Sindfarma” – a ata não deixa claro a qual organização se referia.

O engajamento da Defesa com o remédio ineficaz era total. Em 1º de julho, o representante do ministério informou às outras pastas que “a Apsen Farmacêutica S.A. fará a doação de cloroquina para que a Bahia seja um case [exemplo] que possa ser reconhecido em todo o Brasil no tratamento da Covid-19”. A empresa apoiada pela Defesa era uma das principais fabricantes da hidroxicloroquina no Brasil. No ano seguinte, ela informou à CPI da Covid que vendera 58,8 milhões de comprimidos do remédio em 2020. Na época, ela recorreu ao governo Bolsonaro para conseguir importar os insumos necessários, chamados de IFA, para a produção do medicamento.

Depois dessas várias manifestações em favor da cloroquina, a partir de julho de 2020 o representante da Defesa não volta mais ao assunto, ou pelo menos suas palavras sobre cloroquina não aparecem mais nas atas do CCOP.

Até a entrada do MD na defesa da cloroquina, em 4 de maio de 2020, o medicamento era defendido arduamente por diplomatas do MRE (Ministério das Relações Exteriores) e pela própria Casa Civil. Em 13 de abril, por exemplo, o braço direito de Braga Netto e coordenador das reuniões do CCOP, o militar Freire de Abreu, indagou ao representante da Saúde “se tem previsão da liberação de insumos da cloroquina da Índia”. Os insumos eram necessários para fabricação dos comprimidos no Brasil.

O representante da Saúde “relatou que não tem essa informação, mas vai levantar e repassar ao Heitor”. O representante do MRE apressou-se em explicar que “pela Farmabrasil [associação de farmacêuticas] chegaram ontem 500 quilos de IFA [insumos]” e que “a Índia está ofertando comprimidos acabados (prontos), porém essa decisão cabe ao MS, o qual já foi informado sobre essa oferta”.

O MRE estava empenhado desde o começo da pandemia na obtenção de produtos da Índia no tema da cloroquina. Em 1º de abril, o representante do MRE informou ao CCOP que “estão em tratativas com a Índia, para a aquisição de insumos (hidroxicloroquina) para empresas brasileiras pontuais, para que possam fabricar aqui”. Uma das que reclamava da “retenção” de produtos da Índia era a Farmabrasil, associação que reúne as principais empresas da indústria farmacêutica brasileira.

Em 2 de abril, o representante do MRE informou que o ministério “está atuando na liberação de carga de 530 quilos de cloroquina na cidade de Nova Délhi/Índia”. No dia seguinte, o MRE reiterou ao CCOP: “Sobre a importação de cloroquina, o governo da Índia diz que quer colaborar, mas fato é, que ainda não tem data certa para essa importação”.  


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quinta-feira, 6 de maio de 2021

O atual bolsonarista no Ministério da Saúde, Marcelo Queiroga, tenta fugir de responder se apoia ou não cloroquina (que não cura a covid, mas pode ajudar a matar o paciente)

 

"Não faço juízo de valor", afirmou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga que, apesa de médico, se esquiva de responder se compartilha da mesma posição de Jair Bolsonaro sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19. "Isso não é minha competência", disse

(Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

247 - Em depoimento na CPI da Covid, nesta quinta-feira (6), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, não respondeu se compartilha ou não da posição de Jair Bolsonaro, favorável ao uso da cloroquina para o tratamento contra a Covid-19.

"Não faço juízo de valor. É questão de natureza técnica. Isso não é minha competência", afirmou.

"Não autorizei distribuição de cloroquina. Não tenho conhecimento de que esteja havendo distribuição", acrescentou.

"O senhor compartilha ou não da posição presidente. A resposta é sim ou não", disse o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL).

"Até minha filha de 12 anos falaria sim ou não", emendou o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM).

O ministro afirmou que a cloroquina foi usada em testes e que em casos graves não se tem efeito nos pacientes. 

Assista ao vivo a transmissão na TV 247:

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Com sua renúncia do Ministério da Saúde menos de um mês após Mandetta, Nelson Teich dá atestado de insanidade a Bolsonaro. Por Helena Chagas


Dr Teich dá atestado de insanidade a Bolsonaro

"Desautorizado e humilhado, como boa parte de seus colegas, deu um didático 'chega para lá' no presidente da República, mostrando que nem todo mundo está disposto a se submeter à sua insanidade", escreve Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia, após Nelson Teich pedir demissão do governo Jair Bolsonaro
(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

Por Helena Chagas, para Os Divergentes e para o Jornalistas pela Democracia
O quase ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, sai do governo, menos de um mês depois de ter assumido o cargo, muito maior do que entrou. Com seu pedido de demissão vapt-vupt, o médico fez o que muita gente na Esplanada dos Ministérios deveria ter feito há tempos mas não teve coragem. Desautorizado e humilhado, como boa parte de seus colegas, deu um didático “chega para lá” no presidente da República, mostrando que nem todo mundo está disposto a se submeter à sua insanidade.
Teich parece ter mais tutano do que se imaginava, e expõe o presidente a um desgaste maior ainda do que o sofrido na demissão de Luiz Henrique Mandetta, seu antecessor. Com a segunda troca em meio à pandemia, fica claro que a divergência na Saúde não tem origem em razões políticas, futricas e nem nos alegados ciúmes que Bolsonaro tinha do sucesso midiático de Mandetta. No momento em que um médico com viés técnico deixa a pasta, e o comando da política de combate à pandemia, por falta de condições para trabalhar, fica claro, nacional e internacionalmente, que a guerra de Bolsonaro é com a ciência.
Apesar do claro desconhecimento em relação ao funcionamento da máquina pública e do jeito de cachorro correndo atrás de caminhão de mudanças que o acompanhou em sua curta gestão, Teich ainda mantinha, para efeito externo, um verniz de profissionalismo.
Seu sucessor, que deverá ser incumbido de desmontar as políticas de isolamento social e adotar tratamentos com remédios receitados pelo presidente da República, como a cloroquina, dificilmente o terá. Seja ele o general Eduardo Pazzuello – já instalado no Ministério para fazer uma espécie de vigilância a Teich -, o amigo do chefe Osmar Terra ou algum político indicado pelo Centrão ou mais um tecnico como a Dra Nise Yamagushi. A única certeza que se tem nesse momento é que não tem jeito de dar certo…

Helena Chagas


Helena Chagas é jornalista, foi ministra da Secom e integra o Jornalistas pela Democracia

“Não vou manchar a minha história por causa da cloroquina” imposta por Bolsonaro, diz Teich após demissão



Ex-ministro desabafou após reunião com o presidente Jair Bolsonaro. "Hoje é o dia mais triste da minha vida", disse

Da Revista Fórum:



Nelson Teich (Foto: José Dias/PR)
Após pedir demissão do Ministério da Saúde nesta sexta-feira (15), pasta que ocupou por menos de um mês, Nelson Teich afirmou que hoje é o dia “mais triste de sua vida” e mais uma vez se colocou contra propostas do presidente Jair Bolsonaro para enfrentar a pandemia do coronavírus.
“Não vou manchar a minha história por causa da cloroquina”, afirmou, de acordo com a CNN Brasil. O encontro com o presidente aconteceu fora da agenda oficial e durou apenas 15 minutos.
Contando com a demissão de Teich a qualquer momento pela discordância em relação ao uso da cloroquina para tratamento da Covid-19, Jair Bolsonaro já teria convidado o general Eduardo Pazuello para assumir o Ministério da Saúde.
Pazuello, que foi colocado como número 2 da pasta para tutelar o ministro, já teria dito que aceita assumir o cargo.
Teich se colocou na linha de tiro após se divulgar tuítes que prega cautela no uso de cloroquina para tratamento do coronavírus. Contrariado, Bolsonaro desautorizou publicamente o ministro e marcou uma reunião fora da agenda nesta quinta-feira (14) para falar sobre o assunto.
00:00/00:40revistaforum

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Cientistas que pesquisam cloroquina sofrem ameaças de morte dos bolsonaristas fascistas no Amazonas



Pesquisadores que investigam os efeitos da cloroquina no tratamento da Covid-19 estão sofrendo ameaças de morte em Manaus. "Filho da puta maldito. Deve ser espancado quando pisar na rua!!" - escreveu um bolsonarista na rede social de um dos cientistas. Motivo: a pesquisa não confirma o que diz Bolsonaro.

Jair Bolsonaro


Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado | Reprodução)

247 - "Filho da puta maldito. Deve ser espancado quando pisar na rua!!" e "Assassino comunista fdp" -essas são algumas das ameaças que cientistas do Amazonas estão recebendo nas redes sociais, de perfis bolsonaristas fakes. Eles estão conduzindo uma pesquisa sobre o efeito da cloroquina no tratamento do coronavírus e os resultados iniciais não confirmam a propaganda de Jair Bolsonaro, que garante ser a droga um remédio milagroso contra a infecção.


A pesquisa CloroCovid-19, é feita com 81 pacientes em estado grave internados em Manaus. Participam dela 70 pesquisadores de instituições como Fundação de Medicina Tropical (FMT), de Manaus, a Fiocruz, a USP e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Os pacientes foram divididos em dois grupos. Um grupo foi tratado com dosagem baixa, adotada em um hospital dos EUA, e outro recebeu dose mais alta, adotada na China, relata a Folha de S.Paulo.
O objetivo, segundo os pesquisadores, é "verificar se há ação benéfica da cloroquina, em comparação com dados de outros estudos internacionais, nos quais pacientes em condições clínicas semelhantes não usaram cloroquina".  Os primeiros resultados foram divulgados no dia 6 de abril em entrevista coletiva online de um pesquisador ao lado do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). O cientista afirmou que os pacientes "se beneficiaram discretamente" da cloroquina e que os resultados encorajavam a continuidade, mas que, em dose mais alta, o medicamento "pode, sim, dar arritmias graves e levar à morte".
No mesmo dia da entrevista coletiva, a pesquisa suspendeu a dose mais alta porque "havia tendência de mais efeitos colaterais nos pacientes em uso da maior dose". Onze pacientes do grupo de alta morreram até agora, na maioria idosos
Depois da coletiva, diversos pesquisadores passaram a receber ameaças, que estão sendo investigadas pela polícia. "O debate não apenas está tendo forte viés ideológico, mas também prejudicando a reputação de pesquisadores com forte tradição de pesquisa no Brasil e no mundo, o que pode ser um efeito deletério grave em momentos como o que estamos vivendo", afirmam os autores da pesquisa, em nota conjunta.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A mídia minimamente objetiva tem que escapar da armadilha da polarização criada pelo bolsonarismo, por Luis Nassif



Há que se ter compromisso com a qualidade das informações, mas não o de tomar partido sem analisar todos os argumentos
Nas grandes discussões públicas, uma das maiores dificuldades é escapar da armadilha da primeira versão, do consenso do grupo. Abandona-se a riqueza do contraditório, da análise e sopesamento das diversas opiniões por uma espécie de MMA intelectual.
Minha caçula, a Dora, descobriu esse viés quando tinha pouco mais de 16 anos. Entrou em um grupo de feministas no Facebook. Quando descobriram sua capacidade de argumentação, passaram a encaminhar para ela textos para serem desconstruídos.
Dora se tornou popular no grupo, recebia likes. Ate que largou tudo, saiu do grupo e fechou seu Face apenas para convidados.
Explicou-me claramente:
– Papai, discussão é para os dois lados aprenderem um com o outro. Aqui, só querem saber de lacrar, lacrar.
Continuou uma ardorosa feminista, mas não mais da turma das “feministas de Facebook”, como se referia ao grupo.
Invisto contra esse efeito manada há muito tempo. Insurgi-me contra a cobertura totalmente enviesada no impeachment de Fernando Collor, apesar de ter sido vítima de suas investidas. Reagi, sozinho em um primeiro momento, contra os massacres na Escola Base e no Bar Bodega. Passei os anos 90 dividido entre a análise econômica e a reação contra as unanimidades da mídia – especialmente nos linchamentos públicos.
Hoje em dia a mídia está disposta a recuperar sua imagem, depois de mais de uma década de discurso de ódio que pavimentou o sucesso do bolsonarismo. Mas continua presa ao mesmo movimento de efeito-manada de outros tempos.
O efeito-manada atual é legitimador. Com respaldo da ciência, enfrenta a besta-fera do bolsonarismo e seus micos amestrados. Mas continua manada. Se a manada caminha para blindar o Ministro da Saúde Luiz Fernando Mandetta, todos blindam. Se o boi condutor muda de direção, todos mudam.
Digo isso a respeito de duas teses centrais: o isolamento social e o uso da cloroquina. Aqui no GGN somos a favor do isolamento, por não enxergar outra alternativa; e – até informar sobre as pesquisas da Prevent Senior – céticos em relação à cloroquina.
Mas como formamos nossa opinião, não sendo especialistas? Lendo os estudos e as declarações dos especialistas e, a partir daí, nos guiando pela lógica dos argumentos e pelo bom senso.
Mas para tanto, tem que se apresentar todos os argumentos consistentes, contra e a favor. Não pode haver uma seleção apriorística da informação, de acordo com os critérios de manada.
Se há argumentos consistentes contra o isolamento, o público tem que ser informado, ao lado dos argumentos a favor do isolamento. Se há pesquisas comprovando a eficácia da cloroquina, não podem ser ignoradas, e têm que ser confrontadas com as pesquisas questionando sua eficácia – desde que ambas estejam respaldadas por estudos sérios.
Se a modelagem estatística do Imperial College estima os mortos na casa dos milhões, em países maiores, há que se abrir espaço para os estudos que questionem a modelagem, para não correr o risco das previsões serem atropeladas pelos fatos desmoralizando a ciência.
Sei que é difícil, ainda mais com a polarização e os fake News do bolsonarismo. Mas se a imprensa endossar o caminho da polarização, não estará cumprindo com sua obrigação de levar todas as informações ao público. Há que se ter compromisso com a qualidade das informações, mas não o de tomar partido sem analisar todos os argumentos.
Se não, corre-se o risco de tornar o bolsonarismo vitorioso, se uma só de suas apostas se revelar correta.

terça-feira, 14 de abril de 2020

A necessidade de mudar o modelo dos planos de saúde, por Luis Nassif


Em geral, os planos de saúde são de prestadores de serviços, que permitem aos associados a escolha de médicos e hospitais. Na ponta, não há o menor controle sobre a quantidade de pedidos de exame solicitados. Muitas vezes, a consulta não é resolutiva, obrigando o paciente a voltar aos médicos. E não há condições para políticas de prevenção de doenças.
Jornal GGN:
Há tempos, o caso Prevent Senior chamou a atenção de setores de saúde. A empresa foi montada para atender especificamente o público de mais de 60 anos, submetido a mensalidades exorbitantes nos planos convencionais. A empresa conseguiu montar planos com mensalidades substancialmente inferiores e com um serviço diferenciado.
Seu presidente, Fernando Parrillo, considera altas mensalidades de R$ 1.500,00 para essa faixa; e exorbitantes mensalidades de mais de R$ 5 mil em muitos planos.
O modelo de negócio da Prevent Senior foi outro. Em geral, os planos de saúde são de prestadores de serviços, que permitem aos associados a escolha de médicos e hospitais. Na ponta, não há o menor controle sobre a quantidade de pedidos de exame solicitados. Muitas vezes, a consulta não é resolutiva, obrigando o paciente a voltar aos médicos. E não há condições para políticas de prevenção de doenças.
Além disso, na ponta há uma espécie de rentabilização do cliente pelos prestadores de serviços – médicos e hospitais -, com pedidos recorrentes de exames. Se o paciente consultar dois médicos, para questões distintas, será obrigado a repetir os mesmos exames, justamente pela ausência de um banco de dados consolidando sua ficha.
Anos atrás, alguns planos mais bem organizados tentaram montar uma espécie de rating dos médicos, de acordo com a sua eficácia. Passaram a analisar o médico de acordo com um indicador de resolutibilidade – isto é, de resolver o problema do paciente na primeira consulta – e de gasto com exames. Mas a contrapartida consistia apenas na indicação preferencial do médico, caso o cliente consultasse a operadora sobre um especialista.
O modelo Prevent se desenvolveu em torno de hospitais próprios que atendem o seu público. Há um acompanhamento do estado de saúde dos fregueses e trabalhos permanentes de prevenção.
Como explica Parrillo, as pessoas mais velhas (eles tratam como idosos apenas as pessoas com mais de 80 anos) recorrem mais às consultas. O segredo, portanto, consiste em um acompanhamento próximo e em trabalhos de prevenção, reduzindo a necessidade de cirurgias e outros procedimentos onerosos.
Na verdade, repete-se, em ambiente privado, o modelo bem-sucedido da medicina inglesa – transplantado para o Brasil com os programas de médicos de família. No caso inglês, o modelo é de capitação – uma corruptela da expressão per capita. Cada grupos de ingleses responde a um especialista, que recebe uma quantia per capita para administrar. Cabe ao especialista negociar com planos privados, com fabricantes de remédios, e prover o grupo de políticas preventivas.

O caso cloroquina

Aqui, a íntegra da entrevista com Fernando Parrillo, na qual ele narra experiências da Prevent com a cloroquina, valendo-se do enorme público de pacientes de risco que atende. A pesquisa foi feita com 360 pacientes e consistiu em analisar os efeitos de cloroquina aplicada nos dois primeiros dias da coronavirus. Em muitos casos, a cloroquina foi aplicada ainda na casa do paciente, já que os que chegam ao hospital já tem o vírus há cinco ou seis dias.
Segundo ele, todos os pacientes em que foi ministrada a cloroquina nos dois primeiros dias tiveram recuperação mais rápida. A pesquisa se estendeu também a pacientes que já tomavam a cloroquina para outras doenças.
Os resultados foram encaminhados ao Ministério da Saúde e a organismos científicos internacionais que deverão responder, proximamente, sobre sua validade.
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sábado, 11 de abril de 2020

Do UOL: França relata problemas cardíacos e mortes em quem usou cloroquina.


Fiocruz: Taxa de mortes com cloroquina equivale à de quem não usa ...

Do UOL, em Brasília 10/04/2020 21h18 

Na França, pacientes com coronavírus tratados com hidroxicloroquina apresentaram problemas cardíacos e quatro deles morreram, informou a Agência Nacional de Vigilância de Medicamentos francesa, a ANSM.

A agência francesa iniciou em 27 de março uma pesquisa sobre efeitos colaterais de drogas utilizadas experimentalmente no tratamento do coronavírus, para investigar possíveis efeitos colaterais das drogas.

A agência francesa informou ter identificado ao menos 43 pacientes com complicações cardíacas após o uso de hidroxiloroquina no tratamento, isoladamente ou em associação com a azitromicina, um antibiótico que também tem sido utilizado de forma experimental, de acordo com a agência de notícias Bloomberg.

Sete dos pacientes sofreram paradas cardíacas e, entre esses, quatro morreram, segundo o jornal francês L'Express.

O estudo levou a ANSM francesa a lançar um alerta de que a hidroxicloroquina só deve ser usada em ambiente hospitalar sob supervisão médica.

Cloroquina no Brasil 


No Brasil, o Ministério da Saúde já havia autorizado que médicos utilizassem a substância para pacientes graves, que estão internados, e pacientes críticos, que estão em leitos de UTI..

Mas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que está em estudo a autorização do uso da hidroxicloroquina e da cloroquina para pacientes com quadros leves da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus..

A autorização, se concedida, não equivale à orientação de que o medicamento deva ser utilizado obrigatoriamente, mas apenas à permissão de que médicos prescrevam a substância no tratamento de seus pacientes.

Ainda não há estudos que comprovem a eficácia da hidroxicloroquina e da cloroquina no tratamento da covid-19, mas o uso da substância vem sendo feito experimentalmente e está sendo analisado por pesquisadores.

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) os estudos disponíveis sobre esses medicamentos ainda não são conclusivos.... 

- Veja mais em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/04/10/franca-relata-problemas-cardiacos-em-pacientes-que-usaram-hidroxicloroquina.htm?fbclid=IwAR1vwZXr1iuH6nCnWZbupnxijMZ41k7tbtHA4PAJvr2Z-uhQajjQkFYQVfU&cmpid=copiaecola