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sexta-feira, 1 de março de 2019
Patrtícia Lélis e Marcelo D2 sobre a crueldade dos "pretensos cidadãos de bem cristãos" da direita na morte do pequeno Arthuzinho....
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sábado, 30 de junho de 2018
Ex-funcionário da Imigração americana se demitiu após ver a cruel separação de irmãos brasileiros em "abrigos" dos EUA.
"Essa cadeia de abrigos para imigrantes, uma ONG, tem um modelo muito lucrativo, segue padrões rígidos e é resistente a qualquer mudança que possa resultar em mais gastos. Como argumento para não me promover, diziam que tinham funcionários que sabiam espanhol, como se espanhol fosse português, e o serviço de tradução por telefone. Os funcionários falavam espanhol com os brasileiros, e eles não entendiam nada. Era uma situação absurda. Os meninos só repetiam “não entendo”, “não entendo” e alguns funcionários achavam que eles já estavam entendendo porque a frase é parecida no espanhol, no entiendo."
Do The Intercept:

Foto: U.S. Customs and Border Protection via Getty Images
21 de Junho de 2018, 12h44
EU SOU AMERICANO, filho de um brasileiro, e, desde fevereiro, trabalhava no abrigo para crianças desacompanhadas Southwest Key, em Tucson, Arizona. Dava aulas de capoeira para jovens entre 13 e 17 anos. A maioria era de guatemaltecos que cruzaram a fronteira do México com os Estados Unidos sabendo que iam ser detidos pelos oficiais. Eles adoravam as aulas, nas quais eu dava a eles nomes de capoeira.
No dia 28 de maio, um dia antes do meu aniversário, recebi a informação de que jovens brasileiros iam chegar ao abrigo. Naquele dia, eu já estava com uma ideia pronta: ia pedir minha namorada em casamento no dia seguinte. No judaísmo, há uma crença de que as almas gêmeas são separadas no nascimento. Então, se eu a pedisse em noivado no dia do meu aniversário, seria como se as nossas almas tivessem se encontrado de novo. Mas, quando os três primeiros chegaram, tudo mudou. Era um trio de irmãos de 8, 14 e 17 anos que saíram de Minas Gerais e que contaram que viviam em regiões conflagradas no Brasil e que e suas famílias estavam sendo ameaçadas.
Eu estava preocupado porque, em 7 de maio, o procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, anunciara que iria prender e processar qualquer pessoa que cruzasse a fronteira do país ilegalmente. Se a família cruzasse com filhos, as crianças seriam separadas dos pais.
No dia seguinte, quando completei 32 anos, eu estava com o anel de noivado no bolso, mas não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o rosto de desespero dos dois meninos e da menina que haviam sido separados da mãe na véspera. Eles estavam sem dormir desde as 2h. Quando os encontrei à tarde, eles haviam tomado banho, feito o exame de admissão e estavam confusos porque ninguém os entendia e eles não entendiam ninguém. Pensavam que iam sair em dois, três dias, e eu não sabia o que responder.
O mais velho, de 17 anos, estava petrificado de medo porque o abrigo contratou um sistema de tradução por telefone tosco que o informou que a mãe estava desaparecida. Não sei bem dizer se era isso, mas foi assim que ele entendeu. Ele pensava que a mãe estava morta. Eu disse que não, que ela estava em outro centro, mas não tinha qualquer informação. Ele chorava muito e me perguntava o que ia acontecer com eles, em quanto tempo eles poderiam ver a mãe. Eu perguntei para o gerente do caso deles essas informações, mas ele também não sabia responder.
O gerente morou um ano no Brasil, mas falava mal português e pedia para eu traduzir algumas frases. Eu era apenas o professor de capoeira do local e fiquei o tempo todo me oferecendo como tradutor. Cheguei a participar de uma sessão com uma terapeuta, uma menina jovem que queria ajudá-los de verdade. Eu queria me tornar tradutor do abrigo porque falo quatro línguas (inglês, português, espanhol e hebraico) para ajudar mais as crianças. No entanto, o pessoal do abrigo era muito resistente a mudanças e começou a vetar todos os meus pedidos para mudar de cargo.
Essa cadeia de abrigos para imigrantes, uma ONG, tem um modelo muito lucrativo, segue padrões rígidos e é resistente a qualquer mudança que possa resultar em mais gastos. Como argumento para não me promover, diziam que tinham funcionários que sabiam espanhol, como se espanhol fosse português, e o serviço de tradução por telefone. Os funcionários falavam espanhol com os brasileiros, e eles não entendiam nada. Era uma situação absurda. Os meninos só repetiam “não entendo”, “não entendo” e alguns funcionários achavam que eles já estavam entendendo porque a frase é parecida no espanhol, no entiendo.
“Quando eu via os irmãos, lembrava dos meus amigos do Conjunto Manguariba, nº 21, no Rio.”
Depois disso, comprei uma outra batalha com a diretora educacional. As crianças seriam encaminhadas a uma escola durante o período em que estivessem no abrigo e passaram por um teste para definir qual série deveriam ser encaminhados. Depois do resultado, fizeram algo ainda mais cruel com os jovens: separaram os irmãos. E colocaram eles numa aula de espanhol para aprender inglês. Não fazia qualquer sentido. No dia 24, o mais velho completa 18 anos e ganha maioridade – e ninguém sabe o que vai acontecer com ele.
Eu achava que conseguiria ajudá-los e mudar as coisas por dentro. Quando eu via os irmãos, lembrava dos meus amigos do Conjunto Manguariba, nº 21, no Rio de Janeiro. Quando era adolescente, meu pai decidiu nos trazer para viver onde ele havia nascido. Passei oito meses no Rio, de chinelo na rua, jogando capoeira.
Nós somos de Palo Alto, Califórnia. Meu pai, Mestre Beiçola, dava aulas de capoeira na Universidade Stanford e não queria que a gente, meu irmão e eu, conhecêssemos só aquela realidade americana, de viver entre milionários. Ele achava que teríamos uma ideia errada do que é o mundo na verdade. Essa experiência abriu a minha cabeça. Foi lá que eu aprendi a ser humilde. Depois, morei dois anos em Israel e, durante cinco anos, estudei para ser rabino.
Teve um dia dessa primeira semana que o menino de 14 veio correndo atrás de mim. Ele me lembrava o meu irmão – tive uma empatia muito grande por ele. Estava indo ao seu encontro quando um funcionário da ONG me deteve porque o abrigo tem uma política de evitar envolvimento emocional com as crianças. Eu disse que não ia obedecer e segui adiante.
Começaram então a me chamar por rádio: “Antar Davidson, Antar Davidson”. Eu segui em frente e fui falar com o menino. A ONG está instalada em uma região pobre e costuma contratar pessoas sem qualquer preparo para lidar crianças e jovens. Eles divulgam por aí que tem um quadro de funcionários talentoso e preparado, mas isso não é verdade. O garoto queria me dizer que estava muito triste e que não entendia nada das aulas. Eu ficava com muita pena.
Foi então que me disseram para reforçar com os irmãos a ordem de não se abraçar. A ordem veio de uma das líderes da ONG, que se diz humanitária. Eles são muitos frios, falam de maneira padronizada como se fossem robôs e só repetiam “no touch policy” (política do não tocar). Não davam qualquer justificativa porque não estavam preocupados com o estado emocional das crianças.
Enquanto isso, seguíamos sem notícias dos pais dos irmãos.
Na quarta, dia 30, chegaram mais quatro brasileiros. Eu fui trabalhar com uma camiseta da seleção brasileira para demonstrar que estava preparado para recebê-los. Quinta era meu último dia de trabalho na semana (folgava nas sextas e sábados).
Na semana seguinte, porém, comecei a perceber que não conseguiria ajudá-los. Uma garotinha de 8 anos veio me pedir: “tio, me dá um batom, estou com a boca doendo”. Ela tinha rachaduras nos lábios – o tempo é muito seco no Arizona nesta época do ano. Eu prometi que traria, mas eles me proibiram. Disseram apenas que iriam passar vaselina de manhã e à noite. No outro dia, ela veio: “tio, cadê meu batonzinho?” Eu me senti muito mal de não ter como dar a ela.
Fiquei emocionalmente perturbado. Pedi folga no domingo (10) e disse que queria tirar uma semana para pensar em tudo. Depois de separarem as crianças dos pais, separaram os irmãos e proibiram que se abraçassem. Pedi demissão na terça (12), quando eles me chamaram de volta. Se eu não conseguia ajudá-los estando lá dentro, eu ia tentar do lado de fora. Eu ganho um salário mínimo, mas não ia aceitar aquilo. Eu não conseguia dormir pensando nas crianças.
Na quinta (14), dei uma entrevista à imprensa para o Los Angeles Times – minha mãe é Karen de Sá, repórter investigativa do San Francisco Chronicle. Desde então, eu não paro de falar com repórteres nas quatro línguas que eu falo.
Em oito dias, revelamos ao mundo os equívocos da política de tolerância zero de Trump até ele assinar nesta quarta uma ordem executiva para proibir a separação das famílias na fronteira com o México. A ordem executiva, no entanto, não altera o destino dos irmãos brasileiros que já estão no abrigo. Ainda não sei o que vai acontecer com eles.
Mas a política de imigração não vai mudar porque as prisões privadas fazem parte de uma indústria bilionária que financia o presidente. Essa ONG, a Southwest Key, que administra abrigos para imigrantes como o de Tucson, ganhou US$ 1,5 bilhão de repasses federais. Elas não têm interesse que essa política de “tolerância zero” acabe. O mundo precisa saber disso. E eu vou continuar a dizer a verdade de novo, de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias para isso acabar. Por que não tem nada a ver com segurança. Tem a ver com dinheiro.
Foto em destaque: Centro de detenção de imigrantes ilegais em McAllen, Texas.
Texto redigido por Sílvia Lisboa conforme narrado por Antar Davidson de Sá.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
Copiando Trump, "evangélico" Marco Feliciano defende que crianças imigrantes sejam separadas dos pais
Do Yahoo Notícias.
O deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP) defendeu a separação de crianças imigrantes dos pais na fronteira, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos. A informação é do jornal O Globo.
Pastor de igreja ligada à Assembleia de Deus, Feliciano teria dado a declaração em sessão da Câmara dos Deputados em meio à polêmica da política migratória do governo de Donald Trump.
O presidente norte-americano vem sendo cobrado desde que veio à público política que separa crianças pequenas, algumas ainda bebês, de seus familiares ao entrarem no país. Elas são enviadas para abrigos de condiçōes precárias, com salas comparadas a jaulas.
Autoridades estimam que ao menos 2 mil crianças sofreram com a determinação, que teve anuência e consentimento de Trump — 49 delas seriam brasileiras.

sábado, 14 de janeiro de 2017
The Intercept: Se depender da "grande imprensa" brasileira e seu discurso único, o trabalhador brasileiro terá de rebolar para ter um fim de vida digno.
Artigo de João Filho, para o The Intercept de Glenn Greenwald

EM 1998, o ex-professor da USP e então presidente Fernando Henrique Cardoso, aposentado compulsoriamente pelo AI-5 com 37 anos, chamou de “vagabundo” o trabalhador que decide se aposentar com menos de 50 anos.
Quase 20 anos depois, o relator da Reforma da Previdência, Alceu Moreira (PMDB-RS), aproveitou o revival dos anos 90 promovido por Michel Temer e revisitou o Príncipe da Sociologia ao chamar aposentado de “vagabundo remunerado”. Logo ele, que já foi condenado por improbidade administrativa e é alvo de inquérito que apura crimes da Lei de Licitações e corrupção passiva. Mesmo tendo um patrimônio robusto, que aumentou 67% entre 2010 e 2014, Moreira foi agraciado com um mimo do presidente não-eleito: uma doação de R$ 50 mil para sua última campanha eleitoral...
Ele, Alceu Moreira, também é um dos líderes da bancada ruralista e considera demarcação de terras indígenas e quilombolas uma “vigarice”.
É com todo esse carinho pelo povo e respeito pela coisa pública que o grupo político que tomou o poder pretende instalar uma reforma previdenciária que exigirá do trabalhador a idade mínima de 65 anos para receber o benefício.
Não se discute a necessidade de mudanças que corrijam distorções no sistema previdenciário. Este é um ponto pacífico. Mas, Michel Temer, que se aposentou com 55 anos, quer empurrar goela abaixo uma reforma que limita os direitos dos trabalhadores com a justificativa de que há um rombo na Previdência.
A Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip) e alguns economistas discordam e consideram que há superávit no caixa da Seguridade Social de aproximadamente R$ 54 bilhões. O problema é que a criação da DRU (Desvinculação de Receitas da União) em 95 permitiu que o governo desvie o dinheiro da aposentadoria para outras áreas, como por exemplo os juros da dívida pública – prática que vem sendo seguida por todos os governos até aqui.
Enquanto os trabalhadores têm seus direitos restringidos, bancos se beneficiam duplamente: pelo enriquecimento com os juros e pelo aumento da procura da população por um plano privado de previdência. No fim das contas, a Reforma da Previdência tem a mesma função da PEC 55: empurrar a conta da crise para a massa trabalhadora.
A grande imprensa, como já era de se esperar, abraçou a proposta do governo com muito entusiasmo. Há pouquíssimo espaço para debate, e os colunistas mais prestigiados apontam como a única solução para salvar o país de uma tragédia previdenciária que se avizinha. Praticamente todos os especialistas entrevistados estão alinhados ao governo. Há uma narrativa única nos meios de comunicação, com raríssimas exceções.
Depois do Roda Viva fazer uma entrevista em forma de chá das 5 com Temer e depois da Isto É tê-lo eleito o grande brasileiro de 2016, imaginei que os principais veículos iriam dar uma maneirada no chapabranquismo para não dar tanto na cara. Mas eis que a revista Exame, da Editora Abril, nos brinda com uma capa que mostra que o puxassaquismo continua forte nas paradas, sem pudor e com muita ostentação:
No Facebook, a revista apresentou a nova edição assim:
Não parece jornalismo. Parece uma mensagem motivacional de um livro de auto-ajuda do Lair Ribeiro. Ou uma peça publicitária da assessoria de comunicação informal do Planalto, o MBL, que foi convocado por Temer “para pensar como tornar reformas mais palatáveis”. É o velho cacoete dos tarados pela meritocracia em transformar a exceção em regra. Quer ficar rico e não depender de aposentadoria? Acorde cedo, arregace as mangas e trabalhe duro como Roberto Justus. É como se os olhos azuis do publicitário filho de imigrantes húngaros não lhe oferecessem nenhum privilégio na corrida da ascensão social do capitalismo.
Quer trabalhar até o fim da vida e ser feliz sem aposentadoria? Seja como Mick Jagger! Você pode não ter o rebolado dele, mas poderá também “trabalhar velhice adentro”. Basta se preparar, “vai ser ótimo”. É como se garis, carvoeiros e cortadores de cana desfrutassem das mesmas condições sociais do rockstar londrino para se prepararem para o futuro. Não importa que esses trabalhadores não tenham aquele rebolado sexy nem acumulado uma fortuna em torno de R$ 1 bilhão. Se organizar direitinho, todo trabalhador vai trabalhar feliz até a véspera do seu velório.
O cachê dos Rolling Stones não sai por menos de US$ 2 milhões por show, enquanto o salário médio do brasileiro é de R$ 1.853,00. A comparação da Exame ganha tons ainda mais humorísticos quando descobre-se que Jagger tem direito a receber não só aposentadoria do governo britânico, mas também à instalação de um isolamento térmico gratuito no telhado de sua casa – um benefício dado a todo britânico com mais de 70 anos. São essas realidades que a revista quis comparar.
Mas nem sempre foi assim. No Twitter, o pesquisador George Macedo lembrou dessa capa da EXAME de 2012:
Em apenas 4 anos, a revista trocou o pessimismo da pergunta “Precisamos trabalhar tanto?” para o otimismo da afirmação: “você terá de trabalhar velhice adentro. A boa notícia: preparando-se, vai ser ótimo”.
Portanto, trabalhadores brasileiros, virem Mick Jagger antes da Reforma da Previdência. Vai ser ótimo.
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