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domingo, 12 de abril de 2020

A fábula da família Bolsonaro e o feixe de gravetos, por Sebastião Nunes


Uma fábula velha-nova, que chega, pela aspiração cada vez maior do povo, ao ponto de marcar a data de desencarnação do bizarro antipresidente e do início dede algo de nossa alegria terrena.


A família Bolsonaro e o feixe de gravetos

por Sebastião Nunes

Jair Messias Bolsonaro sentiu, certo dia, que a sua saúde estava abalada e que o tempo na antipresidência parecia contado.
Pontadas no peito, constante falta de ar, tonturas cada vez mais frequentes – tudo isso só podia significar uma coisa: doença braba. Dor de cabeça não tinha, pois, como propagandeavam amigos e inimigos, dentro de sua cabeça nada havia. Era um oco só. Um vazio de dar dó, murmuravam eles, e Jair Messias fazia de conta que não ouvia.
– Ouvia, ovia ou uvia? – perguntou para Regininha Duarte, secretária especial para assuntos de cultura, que andava bestando ali perto.
– Não sei, chefe – ripostou a sabichona risonha. – Nunca consegui aprender essa tal de gramática latina. Pergunta pro Weintraub, aquele gostosão da educação.
– Deixa pra lá, Regininha – contentou-se Jair Messias. – Melhor tocar o barco do jeito que for possível. Fica sendo uvia mesmo.
(Continuando, depois de tão erudita manifestação de ignorância:)
Além do mal-estar generalizado, que não o deixava descansar, tinha de enfrentar uma rebelião crescente, tanto de ministros quanto do congresso e de figuras importantes dentre os apoiadores, infiltrados na indústria, no comércio, nos bancos, no judiciário, nas igrejas velhopentecostais, no exército, na polícia militar, nas milícias…
Tudo isso nada prenunciava de bom. Portanto, chamou os filhos, que o ajudavam na árdua tarefa de destruir o país.
– Garotos – disse ele aos três rapagões –, acho que desta vez eu não escapo.
– Que é isso, pai! – disse o 01.
– Não fala assim que dá azar – disse o 02.
O terceiro, que atendia por 03 e era muito burro, não disse nada.
– Vão lá no mato e cada um me traga um graveto.
Os três se olharam em silêncio, como que pensando “o velho tá mal mesmo”.
Saíram e daí a pouco voltaram, cada qual segurando um galho seco de árvore.
– Muito bem – disse o pai. – Agora, 01, quebra o seu graveto.
Plec, fez o 01 sem nenhum esforço.
– Você agora, 02.
Plec.
– 03?
Plec. Pelo menos para quebrar galho o 03 servia.
– Beleza. Agora, me tragam três galhos bem grossos.
Os rapazes se entreolharam, mas, acostumados a obedecer aos comandos do pai, saíram de novo e trouxeram três galhos bem grossos.
Antes de entrar no quarto de Jair Messias, 01, que era o mais rebelde dos três, sussurrou para os outros:
– Se ele pedir outros galhos mais grossos do que estes, eu não vou buscar.
– Shshhhh – fez o 02, que não era rebelde como 01 nem tão burro quanto 03.
– 01, 02 e 03 – disse o velho, que perdia as forças. – Vejam se vocês conseguem quebrar os três galhos juntos.
– Juntos como? – perguntou 03, de dentro de sua burrice. – Nós três juntos?
– Não, sua besta! – gritou o velho irritado. – Cada um pega…
– Já sei, já sei! – compreendeu 01. – Então juntou os galhos e tentou quebrá-los. Não conseguiu.
Chegou a vez de 02, que fez o maior esforço, mas também não conseguiu.
Por último, percebendo que era bobagem fazer força, 03 só fingiu que tentava e logo desistiu, pois, além de ser o mais burrinho, era também o mais fraquinho dos três.
– Filhos – disse o velho pai, já quase sem forças. – Que esta seja minha última lição para vocês. É fácil quebrar um galho só. Mas três juntos, é fogo.
Ninguém entendeu nada, embora o velho pai, já um pouco perdido nas brumas da incoerência, tentasse fazê-los compreender que ou se uniam ou estariam fodidos.
Naquela mesma noite, rolando de dor na cama, Jair Messias esticou as canelas. A única pessoa a chorar sua morte foi a serelepe e velhusca Regininha Duarte, chorosa como nos tempos em que foi a “namoradinha do Brasil”, cruzes!
O desenlace se deu no dia 14 de julho de 2020, data da queda da Bastilha.
Panelaços pipocaram espontaneamente em quase todas as capitais brasileiras e, para espanto da imprensa internacional, em vários outros países do mundo.
No dia seguinte, como ninguém suportasse a horrível fedentina, fincaram um espeto de pau-preto no coração do defunto, enfiaram o corpo num saco de farinha, prenderam bolas de ferro em suas pernas e o lançaram no meio do Lago Paranoá.
No céu, centenas de urubus procuraram e procuraram em vão.
No mesmo dia 15, o povo brasileiro começou, em pleno mês de julho e por conta própria, um verdadeiro carnaval que, a partir de Recife, São Luís, Olinda e Salvador, se espalhou por todo o país, durando quatro dias e passando a ser comemorado todos os anos, daí em diante, como o “Carnaval da Democracia contra a Estupidez”.
Quanto a 01, 02 e 03, fugiram para o Exterior, e nunca mais se ouviu falar deles.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Cunhistão: Uma fábula moderna




Era uma vez uma raposa muito esperta que havia sido eleita líder de um grupo de raposas, quase por unanimidade.

Para suas apoiadoras, a raposa-líder era como uma deusa: conseguia planejar sucessivas invasões bem-sucedidas de galinheiros, proporcionando um banquete às suas comandadas.

Para suas opositoras, nem tanto: elas eram obrigadas a ficar no final da fila nas invasões e tinham de se contentar com os restos do banquete.

Essas raposas perceberam algo errado com a raposa-líder: ela parecia estar engordando muito, nos últimos tempos. Uma das opositoras resolveu seguir a raposa-líder, um dia, sem ser vista. E descobriu que ela possuía um galinheiro particular, administrado pelas raposas da própria família.

Guardou a informação comprometedora e, na primeira reunião, denunciou a raposa-líder ante todo o grupo de raposas.

A raposa-líder jurou inocência. Então, a líder das opositoras sugeriu que todas as presentes a acompanhassem imediatamente até o local do crime, para se certificar da validade da denúncia, não dando tempo para que a raposa-líder escondesse as evidências.

Quando lá chegaram, comprovou-se a verdade.

A maioria das raposas, escandalizada com a falta de solidariedade da raposa-líder, exigiu a sua renúncia imediata. Mas ela alegou ter sido eleita legitimamente e que só poderia perder a função ao final do devido processo.

E assim foi feito. No dia em que as raposas votariam pela cassação ou não da raposa-líder, ela pediu a palavra.

— Caras amigas raposas, tenho uma importante notícia a dar. Fiz um acordo com os leões e… combinamos uma ação que, tenho certeza, será do agrado de todas.

Fez-se o suspense entre as raposas.

— Quando eu assim lhes ordenar, eles comerão todos os donos dos galinheiros desta região. Feito isso, nós cuidaremos dos galinheiros para todo o sempre.

Um murmúrio crescente de surpresa, admiração e júbilo seguiu-se a essa fala.

— Mas há uma condição.

O murmúrio cessou. A atenção era total.

— Vocês terão de esquecer o meu galinheiro particular e me tomarão como líder para o resto da minha vida.

De início, houve um silêncio constrangedor. Então, uma das raposas gritou:

— Apoiado!

E logo os gritos de apoio se tornaram mais numerosos e fortes, dominando todo o lugar da reunião.

– Então vamos à vitória!, gritou a raposa-líder.

Poucos segundos depois, suas apoiadoras a carregavam em triunfo, fazendo uma espécie de volta olímpica.

Ao final da reunião, a líder das opositoras se encontrou com a raposa-líder. E confessou, desolada:

— Eu não entendo. Não esperava esse comportamento delas. Tinham jurado que votariam pela cassação.

E a raposa-líder, com olhar matreiro, sentenciou:

— Miga, só você ainda não sabe que, para quem não tem caráter, os fins justificam os meios.

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Está fábula é dedicada:

À jornalista da GloboNews que virou cheerleader de bandido.

Ao âncora-vampiro que, afinal, sorriu, ao festejar a ação de um achacador, corrupto, sonegador e chantagista.

E a todos aqueles que foram às ruas exigir a queda da Presidenta porque eram “contra a corrupção”, e hoje apoiam o corrupto-mor da República.