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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Trump e o 1º dia do fim da civilização ocidental, por Luís Nassif

 A grande estratégia trumpiana é submeter o mundo a uma frente de oligarcas norte-americanos, usando as big techs e o mercado financeiro.



GGN.- A máxima é “tudo para os Estados Unidos”. E o objetivo final é o “delenda, China”, apresentada como o maior risco para a hegemonia norte-americana, maior até que a União Soviética no seu auge.

Com base nesses princípios, adotará políticas comerciais protecionistas. Como elas impactarão o custo de vida – já que tornará mais caros os produtos importados – a compensação virá de uma Declaração de Emergência Energética Nacional, um plano de emergência para combustíveis, permitindo a exploração de petróleo em regiões com restrições ambientais.

Ao mesmo tempo, anunciou a revogação de Políticas Ambientais Anteriores. Anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e o fim de iniciativas como o Green New Deal, visando remover regulamentações que, segundo ele, limitavam a produção de energia fóssil.

Finalmente, cancelou os incentivos às energias renováveis, para veículos elétricos e rescindiu contratos de arrendamento para parques eólicos, com o objetivo de direcionar investimentos para a indústria de petróleo e gás.

A ideia é baratear o combustível, para contrabalançar o impacto do protecionismo comercial sobre os preços.

Esses movimentos conjunturais servem apenas para preparar a grande estratégia trumpiana, que é submeter o mundo a uma frente de oligarcas norte-americanos, usando as big techs e o mercado financeiro.

A lógica de dominação é clara:

  1. Isolamento dos Estados Unidos, com políticas protecionistas, boicote aos organismos multilaterais, expulsão de imigrantes, fim das políticas inclusivas, inclusive nas grandes corporações, fim do financiamento da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), deixando a Europa dependendo de suas próprias forças armadas.
  2. Tomada total de controle do Estado americano, colocando bilionários e aliados em todos os cargos relevantes, do procurador geral ao presidente do FED.
  3. Pressão sobre os países através de três grupos: as big techs controlando o mercado de opinião; o estímulo às criptomoedas, enfraquecendo as políticas monetária e cambial dos países; e a parceria com a ultradireita religiosa.

A Europa se torna a grande incógnita desta equação. Fica à mercê das ameaças de Trump ao mesmo tempo em que os governos nacionais são acossados por uma ultradireita cada vez mais agressiva e influente. 

Aí se chega ao impasse final. De um lado, a China, como maior parceira comercial de mais de uma centena de países; de outro, os Estados Unidos, como a maior máquina bélica do planeta.

Obviamente, haverá um movimento da parte dos países em direção aos BRICS. Mas Trump fez ameaças diretas de retaliação a qualquer país que ousar essa aproximação.

Aparentemente, o mundo entrou em uma dinâmica que só será contida com uma grande tragédia, como foi nos anos 30 e 40. 

[clique aqui para o vídeo do discurso e gesto de Elon Musk]

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sábado, 4 de janeiro de 2025

Salvar o clima para construir outro Brasil

 

Cidades brasileiras viverão neste fim de semana manifestações contra as queimadas. Por que construir um movimento climático é vital para o futuro do país e do planeta. Como ele pode enfrentar o agronegócio e sua aliança com o governo

Foto: Zdf.de

As queimadas, cuja fumaça só poupou uma capital brasileira, Teresina, e as enchentes, que destruíram boa parte da região de Porto Alegre, estão mostrando, nesse ano de 2024, que as mudanças climáticas já se tornaram um grande problema para o povo brasileiro e caminham para se tornar o maior desafio já enfrentado pelo Brasil. Elas conectam diretamente as grandes cidades do país, onde vive a imensa maioria da população, 85% dela urbana, à necessidade de preservação do Cerrado, do Pantanal e da Amazônia.

97% dos brasileiros aceitam que as mudanças climáticas existem e 78% avaliam que elas têm causas humanas, um dos maiores índices do mundo. Talvez isso seja resultado de um aprendizado prático nas condições de existência: 5.233 municípios brasileiros (94% do total de 5.565) tiveram emergência ou calamidade decretadas entre 2013 e 2023, principalmente por chuvas e cheias torrenciais, deslizamentos ou secas prolongadas. Mas quando perguntadas sobre quem são responsáveis, a maioria das pessoas responde com termos genéricos como “os homens” ou “os seres humanos”. Porém, diferente de muitos outros países, onde as consequências do aquecimento global parecem resultado de processos sistêmicos mais distantes (principalmente pelo uso dos combustíveis fósseis), no Brasil temos uma interação entre os biomas e o clima (e um monitoramento por satélite dos incêndios) que nos permite obter o CPF e o RG dos grandes interessados e responsáveis pelos incêndios.

Temos o CPF e o RG dos responsáveis

São os ruralistas, o segmento da classe capitalista vinculado ao controle de terras, um grupo numericamente insignificante da população, mas que vertebra o poder no país. Eles lidam com os territórios que conquistam como enxames de gafanhotos em guerra contra a terra, explorando-a até esgotar sua capacidade produtiva e depois se deslocando para outras regiões onde reproduzem o mesmo processo. Eles vertebram o bloco social de raízes agrárias que dominou com mão de ferro o Brasil até 1930, quando foram então parcialmente deslocado do centro do Estado, mas voltaram a controlar o poder depois de 1990, desindustrializando o país e voltando a colocá-lo no mundo, em grande medida, como uma grande fazenda.

Os ruralistas estão articulados com o setor financeiro e são coadjuvados, na predação dos territórios e do clima, pelos envolvidos em setores como a produção e uso de combustíveis fósseis, a mineração e por seus representantes políticos, agentes ideológicos e gestores estatais. Como proprietários ausentes, alimentam, nas grandes cidades, booms imobiliários especulativos, que desfiguram o tecido urbano. Aliados com pastores neopentecostais, vertebram a vaga neofascista que vive o país.

A classe dominante agrária se estabeleceu no Brasil com base no escravismo e no controle do acesso à terra (formalizado pela Lei de Terras de 1850), depois em formas diversas de trabalho compulsório, para finalmente adotar o assalariamento, mantendo sempre a violência para o controle social. Ainda hoje são comuns as denúncias de uso de trabalho similar ao escravo. Seu outro alicerce foi e é a predação ambiental. Observamos isso quando olhamos para a Mata Atlântica, que ocupava 1,3 milhões de quilômetros quadrados (15% do território) e da qual restam hoje fragmentos, boa parte destruída pelo já no século XX. A agropecuária hoje repete o processo no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal.

O ruralismo produtor de commodities (soja, cana, carne, café) repõe, a cada momento histórico, o que Caio Prado chamou de “o sentido da colonização”, produzindo riquezas para o mercado mundial às custas do saque interno da natureza e do trabalho humano. Isso se distingue da agricultura produtora de comida, voltada para o mercado interno, quase toda produzida pelo campesinato e pela agricultura familiar, ambientalmente muito mais responsável. As commodities são parte da alimentação apenas indiretamente, fornecendo insumos para a “junkie food” ultraprocessada. A pecuária tem, nessa cadeia, a particularidade de ser também o principal mecanismo de grilagem de terras e vetor de desmatamento no Bioma Amazônico, para onde se desloca a fronteira agrícola.

A agropecuária produtora de commodities destroi imensas parcelas do território tão somente em benefício próprio, tendo sempre se oposto à construção nacional. É por responsabilidade dela que, ao contrário do discurso vigente, o Brasil não é uma vítima detentora de uma dívida climática para com o Norte. Esse discurso só leva em conta as emissões industriais; somos, ao contrário, o quarto maior emissor acumulado de carbono depois de 1850 devido ao desmatamento – atrás apenas dos EUA, da China e da Rússia, segundo o levantamento da Carbon Brief. Ou alguém acha que a destruição da enorme Mata Atlântica, do Cerrado e de parte da Amazônia pelo ruralismo brasileiro não jogou e continua jogando bilhões de toneladas de carbono na atmosfera; ou que o rebanho bovino brasileiro, maior que a população do país, não constitui um passivo ambiental gigantesco? Se tomarmos a sério a dinâmica do colapso ambiental em curso, o ruralismo brasileiro é, junto com os produtores de petróleo e carvão, um dos vilões maiores do clima do planeta, um dos grandes inimigos da humanidade.

A dinâmica global-local da emergência climática

O aquecimento global evidenciou, desde junho de 2023, um salto de qualidade, produzindo consequências por todas as partes do planeta. Uma boa síntese das conclusões dos cientistas tem sido apresentada por Johan Rockstrom em suas conferências recentes, como em “Os pontos de virada da mudança climática – e onde estamos” (disponível com legendas em português). O aquecimento global está se acelerando: de 0,18° por década passou, depois de 2010, para 0,26° por década. Vamos, certamente, ultrapassar o aquecimento de 2° acima da temperatura pré-industrial antes de 2050, talvez atingindo 2.5°. Entre nós, Carlos Nobre tem reproduzido o mesmo diagnóstico. A grande aceleração capitalista extrapolou as fronteiras naturais do planeta e aponta para a ruptura, nos próximos anos, de vários “tipping points” decisivos do Sistema Terra. A crise da civilização capitalista ganha contornos dramáticos: guerras, crise social, deslocamentos de população e fascismo acompanham o colapso climático, inclusive a possibilidade de colapso da Amazônia O destino da Floresta Amazônica, que as pesquisas de Luciana Gatti mostra que está se tornando uma emissora de carbono, é uma questão candente para toda a humanidade.

O clima perdeu a estabilidade relativa que teve nos últimos dez mil anos (o período Holoceno). Tornou-se, no Antropoceno, o resultado da disputa entre a destrutividade do capitalismo extrativista e fossilista, que ameaça a biosfera do planeta, e as forças sociais que buscam uma alternativa que hoje não pode deixar de ser qualificada como ecossocialista. É, cada vez mais, o vetor resultante da luta civilizatória da vida contra a morte, travada pelos povos sempre no terreno local, mas que se projeta no espaço nacional e global. Não há hierarquias rígidas e, embora alguns territórios sejam decisivos para toda a humanidade (como, no nosso caso, a Floresta Amazônica) ou para um país (como o Cerrado, a caixa d’água do Brasil, e o Pantanal, fonte de biodiversidade única), as escalas são muito variáveis, dependendo das condições ecológico-territoriais, sócio-econômicas e políticas. Um programa ecossocial tem que envolver múltiplos atores e situações, alianças e encadeamentos de transição.

O problema não está apenas no campo, mas também nas cidades, que estão se transformando em ilhas de calor infernais. O expansionismo do setor imobiliário nas cidades intensifica o calor, destroi as áreas verdes e recusa toda ideia de esponjas urbanas. Uma cidade como São Paulo é de 5 a 10 graus mais quente que as regiões de vegetação da Mata Atlântica remanescente ao redor. Os grandes empreendimentos imobiliários são a contrapartida urbana da irresponsabilidade do agronegócio no campo.

O engajamento na disputa política se dá, assim, em múltiplas dimensões, inclusive a global. As cláusulas ambientais no comércio internacional são um instrumento de pressão imprescindível contra o comportamento criminoso de inúmeros setores econômicos. A pecuária brasileiro é exemplar de um setor que precisa ser enquadrado por estruturas políticas muito mais fortes que as do governo brasileiro. Ela não aceita rastrear a origem do gado cuja carne é exportada porque grande parte dele é criado ilegalmente na Amazônia desmatada e depois levado para estados de outras regiões para abate. A União Europeia está implementando, a partir de 2025, uma lei contra o desmatamento que afetará as importações de commodities como carne e soja – as mais destrutivas para o meio ambiente brasileiro. Segundo o Itamaraty e o Ministério da Agricultura, que protestam contra a legislação junto às autoridades europeias, ela deve afetar 30% das exportações do setor para a Europa. Por outro lado, o Observatório do Clima defendeu, corretamente, que a Europa inicie a fiscalização já no início do próximo ano. É só o início de uma pressão que todos nós devemos procurar fazer crescer de forma exponencial.

Construir as alianças, focalizar o inimigo, aproveitar as oportunidades

As queimadas atuais têm um forte componente de incêndios criminosos por parte do agronegócio. Como afirma Luciana Gatti, a Floresta Amazônica está sendo assassinada e sabemos por quem. Os focos de incêndio no Pantanal e nos canaviais paulistas também têm CPF e RG. Desde a promulgação do Novo Código Florestal sob o governo Dilma, em 2012, assistimos uma ofensiva crescente do setor contra todos os mecanismos de limitação de suas atividades e proteção da natureza. Do uso de todo tipo de agrotóxico banido na Europa à atual ofensiva de flexibilização da legislação que conseguimos manter, passando pela porteira para a boiada de Salles e Bolsonaro, a maioria venal do Congresso é uma máquina para referendar a destruição dos biomas brasileiros.

Como afirma Luiz Marques em uma recente entrevista ao site O joio e o trigo, “O agronegócio é o grande problema do Brasil. Se ele não for extirpado, o Brasil não tem a mais remota chance de viabilidade como sociedade e como natureza. É uma atividade social basicamente criminosa e predadora. E eles controlam o Congresso Nacional por meio da frente parlamentar da agropecuária e têm como aliados, inclusive, as bancadas da Bíblia e da bala. Então, o Brasil está numa situação muito clara: ou nós reagimos a isso, com uma ruptura muito vigorosa em relação a esse processo ou nós não temos nenhuma chance de sobrevivência como sociedade”.

Isso pode parecer uma missão impossível. Mas quem, vendo o Brasil no ano de 1928, imaginaria que, cinco anos depois, a oligarquia cafeeira teria sido derrubada do poder no estado central? Como lembra Chico de Oliveira no seu Ornitorrinco, a possibilidade de mudanças estruturais nas sociedades da periferia está diretamente ligada a cenários de crise geral do sistema internacional, que possam ser aproveitadas por atores políticos internos bem posicionados. Deixamos para trás a globalização vigorosa e entramos em uma fase de disputas interimperialistas que estão fragmentando o mercado mundial e produzindo uma certa desglobalização, que só tende a se aprofundar. O mundo vai ficar um ambiente cada vez mais hostil em todos os sentidos possíveis nos próximos anos.

O projeto do agronegócio brasileiro é vulnerável, de uma parte, por ser ambientalmente suicida em um mundo onde as condições de sustentabilidade se tornarão condições de sobrevivência de uma sociedade. Mas também é vulnerável porque reitera a velha dependência livrecambista dos ciclos de commodities da economia mundial, que retiram todas as condições do Brasil resistir às flutuações da economia mundial em um mundo cada vez mais instável. O que faz Lula senão aprofundar estas vulnerabilidades? Como afirma Liszt Vieira, “de pouco adianta um Ministério do Meio Ambiente que não pode impedir a degradação ambiental provocada, por exemplo, pelo Ministério da Agricultura bancando o agronegócio que desmata florestas, pelo Ministério do Transporte bancando a pavimentação da BR-319 que vai devastar a Amazônia e pelo Ministério da Energia, bancando a exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas”.

Na medida em que se torna cada vez mais parasitário e destroi suas próprias condições de existência, o agro também se revela cada vez mais destrutivo para a vida da maioria da população brasileira. Podemos resumir a dinâmica dizendo que ou o Brasil acaba com o ruralismo ou o ruralismo acaba com o Brasil. Quem poderá fazer frente a essa tarefa? Uma esquerda distinta da que existe hoje, paralisada frente ao agro. Como lembra E.P.Thompson, as classes se formam na luta de classes.

Um forte movimento pelo clima no Brasil será um movimento por uma transição ecossocial no país, organizada desde os atores populares, capaz de enfrentar os responsáveis nacionais pela predação da natureza e lutar pela restauração dos biomas florestais. A alternativa para o Brasil será criada na luta política por outra economia, por outra sociedade, por outro metabolismo com a natureza.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

TVGGN: Climatologista explica o fenômeno que gerou a tragédia no Rio Grande do Sul. A questão da mudança climática negada pelo agro e pela indústria...

 Carlos Nobre alerta que, ante a degradação ambiental, se a emissão de gases de efeito estufa não for zerada, temperatura global pode aumentar até 2° nos próximos anos


Crédito: Thiago Guimarães/ PMC


GGN. - Hora a hora, a situação no Rio Grande do Sul, onde várias cidades foram atingidas por fortes temporais desde a última segunda-feira (29 de abril), fica mais dramática. Neste sábado (4), chegou a 66  o número de pessoas mortas devido às enchentes, de acordo com o último boletim da Defesa Civil. Outros seis óbitos estão em investigação, 155 pessoas ficaram feridas e 101 pessoas estão desaparecidas.  

Para explicar o porquê da tragédia, que já tinha afetado o estado em 2023, o programa TVGGN 20H da última sexta-feira (3) contou com a participação do professor e climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Climáticos da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia. 

Nobre adianta que as consequências das mudanças climáticas não são sentidas apenas no Rio Grande do Sul, mas em todo o mundo, que passou a vivenciar eventos climáticos extremos principalmente em 2023 e 2024. 

“Essa situação do Rio Grande do Sul é o sistema de baixa pressão que vem do Oceano Pacífico. Ele gera um sistema de alta pressão no centro oeste e sudeste e o sistema de alta pressão bloqueia o sistema de baixa pressão. As frentes frias chegam ali, não conseguem passar e chove demais, alimentados por um fluxo muito grande de vapor d’água que está vindo da Amazônia e passa paralelo aos Andes”, detalha Nobre. 

Nobre explica que, nos últimos dois anos, tivemos o registro do maior aquecimento do planeta registrado na história, tendo em vista que a média da temperatura global já atingiu o aumento de 1,56°. Assim, este ano deve ser ainda mais quente em comparação a 2023. 

“[O bloqueio do sistema de baixa pressão] É um fenômeno que sempre existiu, só que agora, por causa do aquecimento global, globalmente falando, os oceanos nunca estiveram tão quentes e quando eles estão muito quentes, evapora muita água. Então, lógico, um grande elemento dos eventos extremos é o vapor d’água, porque quando o vapor d’água vai para um lugar e chove muito, em outro lugar se faz seca”, emenda o professor.

El Niño


O climatologista comenta ainda que o El Niño, fenômeno natural que potencializou a elevação da temperatura desde o ano passado, existe há, pelo menos, dois milhões de anos, talvez até mais. A questão é o aumento da frequência e da intensidade com que o fenômeno ocorre. “Os três El Niños mais fortes foram 2015/2016, depois 1992/1993 e agora terceiro El Niño mais forte é 2023/2024. Mesmo sendo o terceiro mais forte, ocasionou a maior seca da história da Amazônia e do Pantanal e o maior registro de chuvas no Rio Grande do Sul.”

Carlos Nobre ensina que, quando o El Niño está mais intenso, ele faz com que a corrente atmosférica, chamada de jato subtropical, barre as frentes frias originadas no oceano pacífico, gerando um sistema de baixa de pressão conhecido como ciclone extratropical nas regiões do Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai. 

O ciclone extratropical, então, joga a água mais quente dos oceanos dentro do continente, originando fortes chuvas. Foi este fenômeno que causou as enchentes que atingiram os gaúchos em setembro.  

“Esse agora é um pouco diferente. O fenômeno meteorológico é o bloqueio com a baixa pressão e, no centro-oeste e sudeste, a alta pressão com muito calor, que não forma nuvem nenhuma. Lógico também que o El Niño está ficando cada vez mais forte”, continua o climatologista. 

Clima exige atenção


O convidado apontou ainda que, de acordo com o relatório IPCC, a temperatura média global não deveria ultrapassar a alta de 1,5°. No entanto, enquanto as previsões indicavam que só atingiríamos este aumento em 2030, a ciência não conseguiu prever que este patamar fosse atingido ainda em 2023 e pode se tornar permanente a partir deste ano. 

Assim, os oceanos estão no nível mais quente do registro histórico desde o último período 125 mil anos interglacial, tornando a situação cada vez mais crítica. 

“O enorme branqueamento de praticamente todos os recifes de corais, que estão muito perto da extinção e da extinção de milhares de espécies, pois os corais mantêm 25% da biodiversidade oceânica”, continua. 

Guerra na Ucrânia


Nobre revelou ainda que a Guerra na Ucrânia teve um grande impacto negativo também no clima, uma vez que a União Europeia evoluía rapidamente no processo de substituição do uso de energia fóssil, por meio da queima de carvão, por fontes de energia mais limpas e renováveis. 

“Por exemplo, Alemanha tinha um plano de parar a exploração de carvão até 2035, o Reino Unido fez uma lei proibindo a produção de motores a combustão a partir de 2030, a Noruega, que ficou super rica com a exploração de petróleo e gás natural no Atlântico Norte, não vai mais explorar a partir de 2035”, comenta. 

O conflito entre Rússia e Ucrânia, no entanto, fez com que o ritmo da redução das emissões diminuísse. E, em diversos outros países as emissões de poluentes na atmosfera continuam altas e, se não houver redução, a temperatura global pode ter aumento de 2,5° nos próximos anos.

“A emergência climática do ano passado e deste ano mostram que talvez a gente não possa nem zerar as emissões em 2050. Muitos cientistas como eu acham que nós devemos zerar as emissões até 2040. Mesmo em 2040, a gente vai passar de 1,5° [na média da temperatura global], pode chegar até 2°. Esse é o risco que nós estamos correndo”, conclui Nobre.  

Assista a entrevista completa:


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Leonardo Boff vê o homem mesquinho, neoliberal e neofascista, espalhando morte pelo planeta, mas é otimista na transição para um futuro melhor

 

Do UOL:

ENTRE O CAOS E A ORDEM

Leonardo Boff vê o homem espalhando morte pelo planeta, mas é otimista na transição para um futuro melhor

RODRIGO BERTOLOTTODE ECOA, EM SÃO PAULO

Leonardo Boff já foi frade, padre, teólogo, filósofo, ecólogo. Hoje, com 81 anos de idade e mais de 100 livros publicados, ele se define como pensador. Expulso da hierarquia católica por sua defesa da teologia da libertação, ele continuou sua profissão de fé, aproximando-se cada vez mais dos pobres e das minorias, além de abraçar o ecumenismo e o ambientalismo.

Sua análise da atualidade, que ele chama de necroceno (uma idade geológica em que homem está espalhando a morte pelo planeta), aponta para um período de transição. "Houve a globalização da economia, mas não se globalizou a solidariedade e a cooperação. Isto ficou patente com a pandemia. Cada país se defende por si e como pode", sentenciou o teólogo que vive em Petrópolis (RJ).

Para ele, enquanto a humanidade não completar esse ciclo, vão surgir líderes nacionalistas reacionários que vão vender uma segurança enganosa de volta ao passado. Na turbulência dessas crises, "parece que tudo vacila, as coisas já não valem como valiam, não há limites e respeito, inclusive aos direitos humanos".

Boff também critica as igrejas neopentecostais, suas teologias da prosperidade e seu fundamentalismo religioso. "Enchem grandes salões, mas não criam comunidades nem consciência crítica face à própria realidade em que vivem de pobreza e marginalidade", critica.

De qualquer forma, Boff acredita em um final feliz depois de tanta tensão. "Sou otimista. A lógica do universo se constrói sempre entre o caos e a ordem. E a ordem prevalece. Deus criou todas as coisas com amor. Não creio que Ele nos deixará perecer de forma tão miserável. A vida chama a vida. E viver é realizar a alegre celebração da vida."


Foto: Lalo de Almeida/Folhapress


Como a fé pode ajudar a humanidade a recuperar o senso comunitário e ecológico em momentos de emergência social e climática como a que vivemos? Como encontrar esperanças em um período de devastação da natureza, com queimadas e desmatamentos por um lado, e uma crise biológica e social como a pandemia?

A natureza da fé e de sua expressão social como igrejas e caminhos espirituais se funda sobre valores altamente éticos de amor incondicional. No caso do cristianismo, de solidariedade entre as pessoas, de atenção especial aos pobres e desvalidos, e de cuidado da criação e veneração ao mistério de Deus. Como tudo o que é sadio pode ficar doente, também as religiões podem incorporar doenças como o fundamentalismo, a discriminação e a rejeição de certas condições sexuais.

Elas podem entrar na lógica do mercado, conquistando mais gente e cobrando-lhes o dízimo, como é o caso das igrejas que pregam o evangelho da prosperidade. Mas estas são distorções da verdadeira natureza da religião e da fé. Assim como toda doença remete à saúde, elas não destroem, apenas deturpam a verdadeira natureza da fé e da religião. Estas existem como expressão da dimensão profunda no ser humano, onde se colocam as questões essenciais como: vale mais a vida ou o lucro? Vale mais a solidariedade, que se abre aos outros, ou a competição, que se fecha no individualismo? Quem nos deu o direito, no afã de buscar o bem-estar e a riqueza, de desmatar vastas regiões, de poluir as águas e o ar e de contaminar quimicamente nossos alimentos?

Onde há religião há também esperança de que tudo pode ser melhor e de que podemos enfrentar solidariamente graves crises como a do Covid-19. A fé confere à vida um sentido último e bom. Hoje, o que nos está salvando é a solidariedade, o senso de interdependência entre todos e o cuidado de uns para com os outros e com a natureza. Vivendo tais valores, as religiões ajudam a enfrentar a pandemia.

Acredita que a luta pela natureza e pelo planeta é também uma busca espiritual? Muita gente ligada ao ambientalismo aponta que quanto mais se interessam por temas ecológicos mais desenvolvem um lado religioso por conta da aproximação da natureza e seus ciclos. Como vê isso?

Há o testemunho de grandes cientistas como Albert Einstein, Stephen Hawking, Francis Collins e tantos outros que afirmam que o contato profundo com a natureza os levaram a um sentimento de reverência e de respeito face ao mistério da existência, da vida, da complexidade e da riqueza da natureza. Esta não é apenas uma realidade muda. Ela fala da beleza, da grandeza, da sutil relação de todos os seres entre si e nos faz perceber que por detrás há uma energia poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas.

Os modernos cosmólogos e astrofísicos a chamam de "fonte originária", de onde vem todos os seres, ou o "abismo gerador" de todas as coisas. Francisco de Assis no mundo medieval e Pierre Teilhard de Chardin no mundo moderno viam em todas as coisas a presença viva e transformadora dessa energia criativa, chamando-a de Deus. Viam todos os seres como sacramentos, como sinais de sua presença. Hoje é no campo da ecologia que se realizam as mais genuínas experiências espirituais. Todos se sentem ligados a um todo que tudo envolve, sustenta e transcende.

Como analisa a espiritualidade nos dias atuais e entre os jovens? O que mudou em relação à sua juventude e sua própria busca espiritual?

Apesar da cultura do capital, que reforça em todos o consumo, muitos são os jovens que são abertos a valor intangíveis como ao amor sincero, a contemplação da natureza e até a busca de um sentido mais profundo do que aquele que é superficialmente oferecido pela cultura da tecnociência com seus infindáveis aparatos. Isso mostra que o ser humano tem duas fomes essenciais: a de pão e de bens materiais, que é saciável, mas também a outra fome de bens espirituais por beleza, pelo encontro profundo com o outro e consigo mesmo e por uma realidade maior que dá sentido à nossa vida e à história.


"Essa fome é insaciável, porque nunca matamos a fome de amor, de cooperação, de compaixão, valores que não conhecem limites. Podem sempre crescer mais e mais. Aqui reside o segredo de uma felicidade e de uma paz duradoura."

Leonardo Boff


Foto: divulgação/UOL

Se considera uma pessoa feliz? Qual é, na sua visão, o caminho para a felicidade?

Não gosto muito desta terminologia, afinal, a felicidade pode ser algo muito fugaz como aquele que se sente feliz depois de uma dose de cocaína. Creio que a pergunta seria esta: você se sente realizado com sua vida, com quem convive e com o que faz? O que empenha na sua autorrealização? Esse caminho é mais longo, lentamente vai se construindo. E, se tiver realizado uma identidade bem-sucedida, tem como resultado uma felicidade serena e segura. Numa figura do poeta gaúcho Mário Quintana: "se quiseres pegar borboletas, não corras atrás delas, mas plante um jardim". No jardim plantado com carinho está a felicidade e não nas borboletas.

Como tem encarado a velhice e que conselho daria para as pessoas idosas? É mais fácil lidar com ela tendo uma religião ou não?

Não entendo a velhice como uma fatalidade, mas como parte da condição humana, um momento da vida em que podemos fazer uma síntese de nossa história, reconhecer os desvios e acertos e madurarmos como pessoas que aceitam esta idade com seus limites de corpo e de mente, sem amargura e com jovialidade. A velhice nos coloca as derradeiras questões: que posso esperar para além desta cansada existência? Como será o outro lado? Pessoas de fé se preparam para o grande encontro com a suprema realidade, feita de amor e de misericórdia.

A vida não foi feita para terminar na morte, mas para se transfigurar e ressuscitar no momento mesmo da morte. Isso quer dizer: o mundo para ela chegou ao seu fim. Logo segue a ressurreição como a plena realização das virtualidades quase infinitas em nosso ser. Diria como o poeta cubano José Martí: "morrer é fechar os olhos para ver melhor" a nossa própria realidade, o nosso lugar no conjunto dos seres do universo e a realidade suprema que nos colocou no mundo e nos chama de volta para o seu seio.

Se tivesse que apontar um legado de sua vida e obra, qual seria? Quando jovem teria imaginado esse caminho da teologia da libertação, ecumenismo e ecologismo?

Para ser sincero, nunca alimentei um projeto pessoal. Fiz o que me pediam. Tentei fazê-lo da forma melhor que podia. A vida e não a vontade me levaram às várias etapas que vivi: o ser frade franciscano, padre, professor de teologia, depois leigo, filósofo, teólogo peregrino (sem cátedra), ecólogo, escritor e velho. Ao chegar diante de Deus, não direi nada: apenas mostrarei as mãos afetadas pelo ofício de escrever e abrirei o coração cheio de nomes que me acompanharam para ser o que sou. O que sou? Não sei. Deus o revelará.

Haveria espaço atualmente para o surgimento de uma renovação como foi a teologia da libertação em seu tempo, afinal, vivemos uma época com governantes conservadores como nos anos 1970? Consegue imaginar como seria a teologia da libertação se surgisse na atualidade?

A teologia da libertação nunca deixou de existir, apenas possui menos visibilidade. Seu eixo estruturador é a opção pelos pobres, contra a pobreza, pela justiça social e pela libertação. Como os pobres não param de crescer entre nós e no mundo, esta teologia se torna ainda mais atual na medida em que se faz em contato e junto com todos estes oprimidos. Ela é mundialmente tão forte que sempre dois dias antes de cada Fórum Social Mundial fazemos o encontro internacional de teologia da libertação em suas várias expressões e sempre estão presentes por volta de três mil pessoas vindas da Coreia do Sul, das Filipinas, da África, de todos os países da América Latina e de grupos que cultivam esta teologia dentro do mundo abastado dos Estados Unidos e da Europa.

Aí notamos a sua vitalidade, especialmente da nova geração, em geral de leigos e leigas engajados no mundo da pobreza ou em movimentos populares. Hoje no Brasil, é viva nos movimentos sociais como dos sem-terra, dos sem-teto, dos negros, das mulheres, dos indígenas e de grupos de direitos humanos e na vasta articulação que vem sob o nome de "Fé e Política". Aí está a verdadeira teologia da libertação, feita por seus próprios protagonistas, numa construção coletiva da reflexão sobre uma fé libertadora.

Para todos, é claro que o contrário da pobreza não é a riqueza, mas a justiça social, o bem de maior carência entre nós. A graça que nos foi concedida foi um papa, Francisco, que vem do caldo desta cultura de libertação de vertente argentina, mas sempre de libertação dando centralidade ao mundo dos pobres.


Foto: Theo Marques/Folhapress


Como vê o papado de Francisco em comparação ao antecessor, Bento 16? O quanto a disputa entre conservadores e progressistas é a dinâmica dentro da hierarquia católica?

Vejo com os dois papas, Bento 16 e Francisco, dois modelos de igreja, difíceis de se conciliar. Tanto o papa João Paulo 2º quanto Bento 16 entendiam a Igreja como um castelo cercado de inimigos internos e externos contra os quais havia que se defender e até condenar. Era uma Igreja que autofinalizava e tentou introduzir a grande disciplina, clássica da Igreja tradicional. O papa Francisco, vindo do fim do mundo, com outra experiência pessoal, vê a Igreja como um hospital de campanha que acolhe a quem estiver ferido e necessitado sem nenhuma pré-condição. Com ele mesmo diz: "é uma Igreja em saída" ao encontro dos problemas existenciais e mundiais. Respeita as doutrinas, mas diz que o importante é entender que Jesus veio para nos ensinar a viver, a viver os bens do Reino que são o amor incondicional, a generosidade, a solidariedade e a preocupação incansável com os condenados e ofendidos da Terra.

Francisco foi o primeiro papa que se conscientizou da emergência ecológica da Terra e escreveu uma respeitável encíclica de ecologia integral (não só verde) "sobre como cuidar da Casa Comum", em 2015, cujo destinatário é a humanidade inteira e não apenas os cristãos. Ele insiste em algo fundamental que rompe com a rigidez da Igreja anterior, a "relação de ternura" para com todas as pessoas, dando preferência aos mais vulneráveis e invisíveis.

Qual é a sua análise do crescimento das religiões evangélicas nas camadas populares justamente nos anos em que as comunidades eclesiais de base e a teologia da libertação foram desestimuladas pela Igreja Católica? O próprio Vaticano abriu espaço para as denominações neopentecostais no Brasil entres os pobres do país ao se afastar dessa população?

A Igreja Católica no Brasil possui uma grave deficiência institucional: deveria ter pelo menos 100 mil padres para atender as demandas religiosas dos fiéis tradicionalmente católicos. Sequer possui 20 mil padres e muitos deles estrangeiros. A criação de milhares de comunidades eclesiais de base foi um modo encontrado para suprir esse vazio. Mas o vazio continuou.

Como o povo brasileiro é no seu geral muito religioso e não tendo uma visão doutrinária da fé, adere com facilidade a quem lhe vem falar de Deus. Assim as igrejas neopentecostias ocuparam esse vazio. Atendem em sua maioria as populações destituídas socialmente, cheias de carências materiais e também espirituais. Pregam-lhe o evangelho da prosperidade, que pouco ou nada tem a ver com a tradição de Jesus. Em nenhum sermão destes pastores, muitos deles lobos em pele de ovelha por explorarem a ingenuidade dos fiéis, se ouve "bem-aventurado os pobres porque de vocês é o Reino de Deus" ou "Ai de vocês ricos, pois tende já a sua consolação", afinal, tais mensagens são contraditórias para o que prometem em riqueza material a seus ouvintes.

Enchem grandes salões, mas não criam comunidades nem consciência crítica face à própria realidade em que vivem de pobreza e marginalidade. É um desafio para as igrejas cristãs históricas como mostrar a estes fiéis que os valores pregados por Jesus, de amor, de solidariedade para com os pobres é melhor e os torna mais felizes. Como diz o papa Francisco, "Deus não conhece uma condenação eterna", e esta é só temporal, pois a misericórdia de Deus é que não tem limites, e Ele não pode condenar nenhum de seus filhos e filhas que criou e amou. Só esta afirmação invalida tantas ameaças de inferno e de condenação eterna com as quais estas igrejas manipulam os fiéis e, por medo, os conquistam.

Qual é a sua opinião sobre um fundamentalismo cristão que ocupou espaço na política e no próprio governo federal nos últimos anos? Como diminuir o impacto desse fundamentalismo no Brasil e lidar com ele?

Esta é até uma questão jurídico-constitucional, pois o Estado é laico, quer dizer, ele não assume nenhuma religião ou igreja como sua, mas respeita a todas dentro dos quadros da lei. Estas igrejas neopentecostais praticam um abuso da religião, fazendo-a um instrumento político conservador e até reacionário, não raro se torna um foco de fake news e perseguição das religiões de vertente africana.

É um desafio, pois se constitui a base de um governo de extrema direita como o atual, que usa estas igrejas para garantir-se no poder, sem qualquer preocupação com aquilo que diz a Constituição e mesmo o que diz a Bíblia.


"O Estado deveria fazer valer a Constituição. Mas ninguém se atreve a levantar esta questão com medo de sofrer uma campanha de perseguição e até difamação, que comprometeria seu eleitorado, e até de diretamente perder a eleição."

Leonardo Boff


Acredita que o negacionismo científico e climático esteja por trás da guinada conservadora que o mundo e, especialmente o Brasil, vive na atualidade? Como vê a questão de o próprio conhecimento estar sob ataque, com movimentos contrários a ciência e a acadêmica?

Vejo como um retrocesso civilizatório e por outro lado um distanciamento pela inflação do próprio projeto técnico-científico. O ser humano moderno cultivou uma espécie de "complexo de Deus" que, pelos meios da ciência e da técnica, tudo poderia. O vírus Covid-19 destruiu esta pretensão, mostrou nossa radical vulnerabilidade, expostos à imprevisibilidade e pôs de joelhos as potências militaristas com suas milhares de ogivas nucleares, armas químicas e biológicas. São absolutamente ineficazes face a esse vírus.

Isso criou uma espécie de desconfiança face à ciência e à técnica. Ela é falsa, pois não daremos conta da complexidade de nossas sociedades modernas sem ciência e tecnologia. Se não houver confiança nesse saber, como poderemos enfrentar a pandemia? Entregaremos a humanidade a um destino trágico? Seria uma suprema irresponsabilidade. O que precisamos é uma relação mais benigna para com a natureza. O avanço do industrialismo moderno destruiu os habitats dos vírus, e estes passaram a nós, face aos quais não temos imunidade. Poucos falam da natureza, tudo se concentra na ciência, nos insumos e na busca desenfreada de uma vacina. Mas o vírus vem da natureza devastada. Se não cuidarmos dela, ela pode nos enviar outros vírus letais e até, como aventam alguns biólogos, o "Próximo Grande" (The Next Big One) contra o qual não haveria nenhuma vacina e poria fim à espécie humana.

O que aconteceu no mundo para os próprios direitos humanos serem alvo de ataques? Por que hoje volta-se a lutar por questões básicas, tidas como conquistas da humanidade? Nesse aspecto, como vê o caso do padre Júlio Lancelotti, que foi recentemente alvo de ofensas em público por ajudar as pessoas mais vulneráveis da sociedade?

Vivemos uma transição de um tipo de mundo, construído sobre as soberanias nacionais, para um outro, já em curso, que é a nova fase da Terra e da humanidade: a planetização ou globalização. Demo-nos conta, especialmente com o testemunho dos astronautas que viram a Terra de fora, que formamos uma única entidade. Estamos todos juntos à natureza, à cultura e aos povos numa única casa comum.

Houve a globalização da economia e das finanças. Mas não houve um pacto social mundial, nem se globalizou a solidariedade e a cooperação. Isto ficou patente com a pandemia. Cada país se defendia por si e como podia. Deram-se conta de que isso era insuficiente e que deveriam ajudar-se mutuamente, como a União Europeia tardiamente percebeu.

Sempre que há transição de um paradigma cultural a outro se instaura uma crise. Parece que tudo vacila. Que as coisas já não valem como valiam. Por isso, não há limites. E não havendo limites, não há respeito, inclusive aos direitos humanos. Isso se nota nas ameaças de morte ao padre Júlio Lancellotti, que defende os direitos da população de rua, dando-lhes o mínimo necessário para viver e ter o sentido de dignidade. Como isso é escandaloso para uma sociedade, refém da cultura do capital, consumista e inimiga dos pobres, o perseguem, como se perseguissem esses pobres e desprezados. Mas ele dá o testemunho que não há nada mais valoroso que a vida, mesmo dos mais humildes, que nos cabe cuidar. É uma linguagem estranha a uma visão de mundo de eficiência e de ganho. Mesmo a democracia se transforma em farsa, num estado de exceção e sem lei.

O ser humano dificilmente vive sem uma certa ordem, como antropólogos e sociólogos o demonstraram. Quando esta começa a se erodir, as pessoas se agarram ao que consideram mais seguro, a valores do passado, a líderes carismáticos, que podem apontar para o novo, ou aos autoritários, que podem reforçar a volta ao antigo. É o que está ocorrendo quase em todo o mundo. É semelhante à crise da passagem do mundo feudal ao mundo moderno, onde tudo teve que ser redefinido. Somente que agora a realidade é muito mais grave: construímos o princípio de autodestruição, inauguramos o antropoceno e o necroceno (extinção em massa de vidas na natureza e na humanidade).

Não podemos errar, pois podemos nos autodestruir. Essa passagem causa angústias e é mais ou menos como um avião voando sem piloto. Daí surgem os fundamentalismos, prometendo seguranças enganosas, movimentos regressivos e violentos. Vivemos mais que uma crise mundial: é um chamado a inaugurarmos um novo começo com um outro paradigma de civilização. Se os fatores forem cuidados, podemos criar as bases de uma civilização biocentrada. A vida, e não o crescimento ilimitado, ganhará a centralidade. A política e a economia estarão a serviço dos seres vivos, e não ao mercado.

Em todo caso, está ficando claro que não haverá economia sem uma ecologia. Sem esta articulação, nas palavras de Zygmunt Baumann, "engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura". Sou otimista: a lógica do universo se constrói sempre entre o caos e ordem, prevalecendo esta de forma superior, e a fé cristã que afirma que Deus, segundo o Livro da Sabedoria, na Bíblia, "criou todas as coisas com amor e é o apaixonado amante da vida". Não creio que nos deixará perecer de forma tão miserável. A vida chama à vida. E viver é realizar a alegre celebração da vida.