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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tradição golpista regada a dinheiro público: Deputados questionam uso de recursos das Forças Armadas por clubes militares que divulgam sempre notras golpistas contra a Democracia

 

Requerimento cobra da Defesa dados sobre imóveis, pessoal e recursos destinados às entidades; canais das Forças Armadas já foram usados para divulgar atividades dos clubes

Doi ICL Notícias:



Por Cleber Lourenço

Deputados querem que o Ministério da Defesa informe quais estruturas e recursos das Forças Armadas são colocados à disposição do Clube Militar, Clube Naval e Clube de Aeronáutica, associações privadas que divulgaram, na semana passada, uma nota conjunta com críticas ao governo, ao Judiciário e às instituições. O requerimento pede informações sobre imóveis, militares, servidores, veículos, serviços e outros recursos públicos utilizados pelas entidades desde janeiro de 2023.

Levantamento do ICL Notícias mostra que os clubes mantêm diferentes relações com as Forças Armadas. A Marinha, por exemplo, mantém serviços dentro de instalações do Clube Naval, já abriu uma unidade de formação para dirigentes apresentarem benefícios da entidade a futuros oficiais e hospeda a revista do clube em uma plataforma institucional. Canais oficiais do Exército e da Aeronáutica também já foram usados para divulgar atividades de seus respectivos clubes.

É justamente a dimensão dessa relação que os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) querem conhecer. No requerimento apresentado à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, eles pedem informações sobre o apoio material e humano eventualmente destinado às três entidades desde janeiro de 2023.

É essa relação entre as associações privadas e a estrutura pública que os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) querem detalhar. No requerimento apresentado à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, eles pedem documentos e informações que permitam identificar quais recursos das Forças Armadas são destinados aos clubes e quais custos recaem sobre a União.

Os parlamentares querem saber quais imóveis da União são utilizados pelas entidades, quantos militares da ativa ou da reserva e servidores atuam nos clubes e se há prestadores de tarefa por tempo certo (PTTCs) vinculados às associações. O pedido inclui ainda informações sobre veículos, combustível, segurança, tecnologia, manutenção, cerimonial e serviços administrativos.

Os deputados também questionam o sistema de desconto em folha das mensalidades dos clubes. Eles querem saber quanto é movimentado por meio dessas operações e se a União tem custos para realizar os descontos.

O requerimento ainda precisa ser aprovado pela comissão antes de ser encaminhado formalmente ao Ministério da Defesa.

Nota golpista levou relação à mira da Câmara

O requerimento foi apresentado uma semana após Clube Naval, Clube Militar e Clube de Aeronáutica divulgarem conjuntamente a nota “Os riscos à Nação”, assinada pelos presidentes das três associações.

Publicado em 3 de agosto, o documento afirma que o país vive uma “grave deterioração política, institucional e econômica”, critica governo, Judiciário, política externa e setores da imprensa. Também acusa uma tentativa de “desmoralização das Forças Armadas” e relaciona esse processo às investigações e condenações decorrentes da tentativa de golpe após as eleições de 2022.

A nota não convoca explicitamente à violência ou a uma ruptura institucional e termina defendendo diálogo e consenso, mas reproduz ataques às instituições e elementos do discurso que cercou a ofensiva contra o resultado eleitoral de 2022.

O requerimento não afirma que recursos públicos tenham financiado a manifestação. O questionamento é sobre qual estrutura estatal está à disposição das associações privadas que a assinaram.

Marinha mantém serviços e abre portas ao Clube Naval

Parte dessa relação aparece nos próprios canais oficiais das Forças. O Serviço de Veteranos e Pensionistas da Marinha mantém postos de atendimento em instalações do Clube Naval. A relação divulgada pela Força identifica determinados atendimentos nesses locais como destinados “somente [a] sócios”.

O Clube Naval também já teve acesso direto a oficiais em formação. Em maio de 2025, dirigentes da entidade foram recebidos no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW) e apresentaram a todos os 194 alunos do Curso de Formação de Oficiais os benefícios oferecidos aos associados e dependentes.

Há precedente. Em 2018, o presidente do clube esteve no mesmo centro de instrução. Segundo a própria Marinha, a apresentação incluiu informações sobre a estrutura da entidade e “orientações sobre os procedimentos para admissão de novos sócios”.

A relação alcança ainda a comunicação. A Revista do Clube Naval é hospedada no Portal de Periódicos da Marinha, plataforma institucional que oferece gerenciamento, manutenção, treinamento, indexação e suporte técnico às publicações nela instaladas.

A revista já foi usada para manifestações políticas. No fim de 2022, o então presidente do clube, Luiz Fernando Palmer Fonseca, classificou a recuperação dos direitos políticos de Lula como uma “absurda descondenação”, atacou setores da imprensa, criticou o Judiciário e alertou para a volta da esquerda ao poder. O conteúdo continua disponível na infraestrutura digital da Marinha.

A publicação ressalva que opiniões assinadas não representam necessariamente a posição da Força. A questão é a utilização de infraestrutura estatal por uma publicação produzida por associação privada.

Exército e FAB também abriram canais aos clubes

No Exército, canais institucionais como o Informex, utilizado para transmitir informações aos militares, já foram usados para divulgar agendas, eventos, avisos e comunicados relacionados ao Clube Militar.

A relação também envolve questões administrativas. Em 2020, foi publicado contrato entre o Comando do Exército e o Clube Militar para o processamento de descontos autorizados de mensalidades de militares vinculados à Força — justamente uma das modalidades agora questionadas pelos deputados.

Na Aeronáutica, o portal oficial da FAB também divulga atividades do Clube da Aeronáutica. Em abril deste ano, publicou reportagem institucional sobre o lançamento de um livro comemorativo dos 50 anos do clube em Brasília. O material foi produzido pelo próprio Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer), com texto e imagens de militares.

Há exemplos ainda mais diretos. Em 2017, o site da FAB divulgou uma regata organizada pelo Clube da Aeronáutica de Brasília e informou que as inscrições estavam abertas. No ano anterior, também havia divulgado prazo de inscrição em atividade da entidade.

Deputados querem documentos e valores

O requerimento tenta transformar esses registros dispersos em um levantamento completo. Padre João e Pedro Uczai pedem, além dos dados sobre imóveis, pessoal e serviços, cópias de convênios, termos de cessão, pareceres jurídicos e outros instrumentos que autorizem as relações entre Estado e clubes.

Também querem conhecer os valores movimentados por descontos em folha e o eventual custo administrativo dessas operações para a União.

Os clubes militares são associações privadas, mas mantêm relações históricas com as Forças que passam por instalações, serviços e comunicação institucional. Depois da manifestação política conjunta das entidades, os deputados querem saber qual é hoje a dimensão dessa estrutura, quanto ela custa e sob quais regras é mantida.