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terça-feira, 4 de agosto de 2020

‘Ele está de volta’. Isso é só ficção? Assista o filme


Por Fernando Brito:


Na capa do The New York Times a notícia atém pouco tempo atrás inacreditável: a Alemanha assiste à ressurreição de grupos nazistas formados por militares, ex-militares e policiais – entre outros – que planejavam a tomada do poder num certo “Dia X” em que teria chegado ao ápice o caos social.
A Nordkreuz, ou Cruz do Norte, um destes grupos, chegou até a estocar sacos para guardar cadáveres dos que seriam mortos – inimigos políticos e imigrantes -no putsch neonazista.
A história da seus avisos de forma curiosa e, neste caso, em uma obra tragicamente divertida e bem realizada.
Ontem assisti – e recomendo aos leitores e leitoras que o façam – o filme Ele está de Volta, uma sátira do escritor alemão Timur Vermes, transformada em filme por David Wnendt, que fantasia uma ressurreição de Adolf Hitler à frente de seu antigo bunker em Berlim, 70 anos depois do fim da guerra na Alemanha.
Visto como piada, de início, e tolerado em nome da “liberdade de expressão” e do pensamento racista e autoritário que existia sem vestir a imagem nazi, o ressurreto Hitler vai se tornando uma figura popular justamente por seu discurso de ódio, moralidade e intolerância.
Nenhum semelhança é mera coincidência.

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domingo, 7 de outubro de 2018

A tática suicida do “centro” político brasileiro, por Benedito Tadeu César



"Ao atacar em uníssono o PT, identificando-o como a expressão de todo o "mal" que assola a sociedade brasileira hoje, o centro político abriu o flanco para a extrema direita, decretou a derrota de seus próprios líderes, a derrota da política e, consequentemente, da democracia como fórmula para a superação das crises e dos conflitos sociais."




A tática suicida do “centro” político brasileiro
por Benedito Tadeu César
Ao atacar em uníssono o PT, identificando-o como a expressão de todo o "mal" que assola a sociedade brasileira hoje, o centro político abriu o flanco para a extrema direita, decretou a derrota de seus próprios líderes, a derrota da política e, consequentemente, da democracia como fórmula para a superação das crises e dos conflitos sociais.
O centro endossou a narrativa anti-PT construída pela mídia oligopolista, por parcelas do poder Judiciário e do Ministério Público Federal, dispostos a se transformarem em atores políticos, por setores do empresariado, receosos do custo das leis e políticas de proteção aos trabalhadores e por agências de inteligência internacionais, interessadas em conter o protagonismo do Brasil no cenário internacional.
Ao se unirem para criticar o PT e Lula da Silva, sua liderança maior, Fernando Haddad, seu candidato atual, e, ainda, ao tentarem igualar o PT, Lula e Haddad a Jair Bolsonaro, colocando-os todos num mesmo saco “extremista”, os políticos de centro não ganharam a credibilidade que pretendiam.
Como acreditar em candidatos que censuram os governos "corruptos" e "incompetentes" do PT, se eles participaram desses governos? Como acreditar em Meirelles, que foi o presidente do Banco Central de Lula, "o grande corrupto", durante oito anos? Como acreditar em Marina Silva, que foi ministra do Meio Ambiente do governo Lula e integrou o seu partido desde sua juventude? Como acreditar em Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional de Lula? Como acreditar em Alckmin, que critica os “governos corruptos” do PT e é candidato de um partido que integra o atual governo de Michel Temer, dirigido por políticos reconhecidamente envolvidos em episódios de corrupção? "São todos iguais", concluiu grande parte dos eleitores, por mais que os candidatos se batam entre si.
A política no Brasil tem sido o reino da maldade, disseram sub-repticiamente, por seus atos e declarações durante a campanha eleitoral, todos os políticos de "centro". Superar esse “mal”, entendeu grande parte dos eleitores, só será possível por alguém que esteja "fora" do reino da política e que a negue, mesmo que viva nele.  Superar as mazelas da política, centralmente a corrupção, concluiu grande parte dos eleitores, só será possível por uma ação no plano moral. Só alguém que odeie a política poderá restaurar a moralidade corrompida pelos políticos tradicionais e que integram o “sistema”.
Ao retirarem o embate político do plano político, os políticos de “centro” reduziram o discurso político à mera crítica da “moral e dos bons costumes”. Se a política, como a arena de expressão e solução dos conflitos sociais, não nos serve, teremos que nos salvar a todos pela imposição dos “valores morais”. Restauremos, pois, os “valores” da família tradicional, da autoridade paterna e masculina, da sexualidade reprimida, do reconhecimento do lugar subalterno historicamente reservado aos negros, aos índios e às minorias, hoje colocados em risco pela política e, principalmente, pelos políticos identificados, de alguma forma, com as políticas dos governos petistas.
Abrem-se as portas, assim, para a afirmação da vinda de um pseudo-messias, que nos salve a todos do “mal”. Não importa se esse “messias” é ele também um político (inexpressivo), se ele tem ou não propostas de governo no plano econômico, social e administrativo e se suas possíveis propostas são benéficas ou danosas aos próprios eleitores, se ele é tosco, misógino, racista, violento e preconceituoso, se ele quer exterminar seus adversários e se defende a ditadura e a tortura. A afirmação da violência transforma-se em traço positivo e de confirmação de sua missão salvadora, pois é sinal de sua postura de negação "de tudo o que está aí".
O tiro desferido pelo centro político no PT, buscando reduzi-lo tão somente à imagem da “corrupção” e do “extremismo” – ao invés de se apresentar como força política capaz de fazer mais e melhor do que o adversário, à exceção de Ciro – saiu pela culatra. Atingiu não apenas aqueles que o desferiram, mas toda a sociedade brasileira, levando grande parte da população a seguir lideranças políticas autoritárias e retrógradas. A cruzada contra o PT colocou em risco a democracia no Brasil, sob o olhar incrédulo da comunidade política internacional.
Qualquer que seja o resultado das eleições, suas consequências serão graves e os efeitos da negação da política difíceis de serem superados. Se não houver segundo turno, nos restará juntar os cacos e tentar sobreviver. Se houver, não obstante os desencontros, se abrirá uma chance de renascimento. Isto, se todos os democratas, da esquerda, do centro e da direita não extremista, resolverem, finalmente, se unir, superando suas divergências ideológicas e juntando forças pela manutenção da democracia e pela reconstrução nacional.
Benedito Tadeu Césa - Cientista político, professor da UFRGS (aposentado), integrante das coordenações do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito, do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil-Nação e do M3D - Movimento Democracia, Diálogo e Diversidade

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Helena Chagas: do massacre elitista-pseudo-jurídico-midiático a Lula só ganhou Bolsonaro


POR  · 22/09/2017

ovo
Correta e equilibrada análise de Helena Chagas, boa para os que não têm noção do lugar para onde nos leva a ditadura judiciária (logo escrevo sobre isso):
A última rodada de pesquisas, notadamente a CNT/MDA, fez cair da cadeira muita gente que já se considerava livre do ex-presidente Lula, sobretudo no mercado. Mostrou, acima de tudo, a resiliência do petista. Com toda a pancadaria diária da Lava Jato, a condenação por Sérgio Moro, as sete denúncias e a quase delação de Antônio Palocci, o ex-presidente continua tendo o apoio de uma fatia de cerca de 30% do eleitorado.
Independentemente do que irá acontecer, se teremos ou não Lula na cédula presidencial de 2018, esse é um dado que terá enorme influência no pleito. Da mesma forma como é preciso destacar e prestar muita atenção nos quase 20% que, neste momento, mostram sua preferência pelo outro extremo, onde está Jair Bolsonaro.
A mais de um ano da eleição, e com uma brutal incerteza no jogo – Lula fica ou não? -, essa polarização entre esquerda e direita pode ser passageira. Mas manda um recado importante para o centro: pulverizados entre diversas candidaturas e envolvidos em lutas fratricidas, os partidos do meio do espectro ideológico (se é que isso ainda existe) correm o risco de não botar ninguém no segundo turno.
Com um conjunto de nomes que vão do senador Álvaro Dias ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, passando pelos dois tucanos que mais se bicam do que qualquer coisa, Geraldo Alckmin e João Dória, e até por Marina Silva – que deixou de ser de esquerda há muito – o centro corre o risco de repetir 1989. Na primeira eleição direta pós-ditadura, uma profusão de candidatos – grandes nomes do quilate de Ulysses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, entre outros – dividiu o eleitorado e enviou ao segundo turno as duas pontas do arco: Fernando Collor e Lula.
Evidentemente, o cenário hoje guarda grandes diferenças com o daquela época. Mas a equação final pode ser parecida na matemática da divisão dos votos do primeiro para o segundo turno. Sem um nome minimamente forte, que atraia o eleitor que não está nem à direita e nem à esquerda, a tendência é que os votos centristas se espalhem para, em seguida, se dividir entre os pólos.
Alguns, mesmo não gostando do PT e do ex-presidente, vão votar em Lula para evitar a eleição de Bolsonaro, com seu viés autoritário e destemperado. E vice-versa: o efeito contrário se produzirá nos antipetistas mais ferrenhos, que podem adotar o deputado-capitão para não eleger de novo o PT. Nesse caso, os centristas, inclusive os tucanos, que vêm figurando entre os finalistas da corrida presidencial desde 1994, morrem na praia.
É esse o principal aviso aos navegantes trazido pela atual rodada, aconselhando Alckmin e Dória, por exemplo, a resolverem logo suas desavenças. Ambos tiveram desempenho medíocre na CNT/MDA (8,7% e 9,4%, respectivamente), mas o prefeito de São Paulo sai mais arranhado. Parou de crescer e estacionou, mesmo depois de um tremendo esforço midiático e marqueteiro nos últimos meses. Mas a luta continua, sobretudo entre os dois.
Muitas águas ainda vão rolar até a eleição, e poderão arrastar com elas Lula e Bolsonaro. Ainda assim, há solidez nos 30% que hoje votariam em Lula, mostrando não ter o quesito corrupção como principal referência e ter memória viva dos tempo de pleno emprego e bem estar social dos governos petistas.
É a pobreza, estúpido! – escrevemos aqui certa vez. É motivação suficiente para levar esse eleitor, ao menos em parte, a migrar para um candidato apoiado pelo ex-presidente. Lula passaria de candidato a forte eleitor se for tirado do jogo pela Justiça.
Da mesma forma, a turma que está hoje com Bolsonaro pode se decepcionar com ele por uma série de razões, sobretudo quando ele começar a abrir a boca nos debates e entrevistas da campanha. Mas se esse eleitorado antipetista não tiver um nome que o substitua, de preferência novo, tende a se dividir entre diversas candidaturas ao centro e à direita, se elas continuarem existindo.
O recado é claro, mas dificilmente será assimilado no ambiente de exacerbação que tomou conta da política, trincando projetos, fragmentando partidos e triturando seus protagonistas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Crise e paranoia estimulam o crescimento do neonazismo no Brasil, diz pesquisadora da Unicamp. Reportagem de Karol Pinheiro para o Diário do Centro do Mundo, DCM.


"Para a pesquisadora da Unicamp, o florescimento de grupos neonazistas no Brasil é favorecido pelo incessante discurso autoritário ao qual a população tem sido exposta por meio dos partidos políticos de extrema-direita, e em especial por movimentos sociais de discursos semelhantes, como o Movimento Brasil Livre."




POR KAROL PINHEIRO, publicado no Diário do Centro do Mundo

“Mais coragem para o nosso sangue vienense, estrangeiros demais não fazem bem a ninguém”. O slogan do FPÖ (Partido da Liberdade da Áustria) para a corrida eleitoral à presidência da Áustria, em 2016, flagrantemente flertava com o vocabulário nazista, que enfatiza a pureza da raça.
O discurso do partido fundado por ex-nazistas conquistou os eleitores austríacos e por muito pouco (exatos 31.026 votos), o candidato Nobert Hofer não venceu a corrida presidencial. Ainda que no segundo turno o FPÖ tenha perdido a eleição, a ascensão de um partido que desde sua criação vivia nas sombras foi um incentivo a mais para outras formações que se movem no mesmo espectro e que têm crescido no mundo inteiro.
“Todos os povos têm certo grau de paranoia. A extrema-direita historicamente se aproveita dessa paranoia para crescer, principalmente se tiver ao seu lado um líder carismático. Essas lideranças têm grande capacidade de se comunicar com a massa, principalmente se a massa estiver ressentida por viver em anos de dificuldade e restrições”, afirma a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, pesquisadora do neonazismo.
Se o nacionalismo exacerbado floresce em tempos difíceis, a Europa é um terreno fértil. Depois da maior crise econômica desde o pós-guerra, o continente enfrenta ainda baixo crescimento e uma taxa de desemprego que insiste em não baixar. A crise migratória desestabilizou ainda mais o continente, evidenciando que os governos de centro não tinham políticas eficazes para a questão. É desse vácuo que os movimentos de extrema-direita têm se aproveitado.
Nos Estados Unidos, não é diferente. “Com a industrialização dos Estados Unidos, o homem do campo, branco, aquele típico cowboy americano, teve de ir para a cidade e se ocupou no subemprego. O discurso da direita americana, na figura de Donald Trump, foi de que o latino, o muçulmano, lhe tiraram ‘o lugar de direito’. Ao prometer gerar empregos e barrar a entrada desses povos, Trump deu esperança ao cowboy. É semelhante ao que Hitler prometeu e fez”, compara Dias.
O Brasil não escapa da escalada da extrema-direita. Divulgada no último dia 15 de fevereiro, a pesquisa CNT/MDA sobre as intenções de voto para as eleições presidenciais de 2018, mostrou que o candidato mais lembrado espontaneamente depois de Lula é o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).
Em alguns cenários analisados pela pesquisa, Bolsonaro – que nunca disputou pleito presidencial -, ostentou uma porcentagem de intenções de votos que o coloca na frente ou tecnicamente empatado com nomes tradicionais da corrida presidencial, como Aécio Neves e Marina Silva.
Estimulados pela onda radical que paira sobre o atual cenário mundial, a movimentação de grupos neonazistas tem crescido no Brasil. Uma reportagem da BBC Brasil do dia 18 de janeiro revelou que policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância da Policia Civil (Decradi) de São Paulo constataram nos últimos seis meses uma movimentação acima do normal de grupos neonazistas.
Na ocasião, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca nas casas de quatro membros de um grupo extremista, suspeitos de colar cartazes de natureza antissemita na região central da Capital. Segundo a Polícia, os grupos neonazistas são formados por pessoas das classes média ou baixa.
Neonazistas na Alemanha
Neonazistas na Alemanha

Há 14 anos Adriana Dias estuda o fenômeno. Ela calcula existirem cerca de 300 células neonazistas no Brasil, que atuam predominantemente no sul do país, mas têm crescido vertiginosamente no Distrito Federal, em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, a maioria inspirada em grupos neonazistas dos Estados Unidos, da Rússia e do leste europeu. São integrantes desses grupos que aparecem com mais frequência como agressores de negros, gays e em pancadarias entre torcidas organizadas.
“Hoje, mais de 300 mil pessoas leem material neonazista no país, ou seja, baixou mais de 100 arquivos, de mais de 100 megabytes, em um ano, sobre o assunto. Ainda que a gente faça um corte de pesquisadores, jornalistas e outros grupos que, como eu, estudam o assunto, sobra gente. É evidente que não necessariamente essas pessoas são nazistas, mas, sem dúvida, ao consumirem tal material tornam-se preparadas para serem iniciadas numa célula”, completa a especialista.
Para a pesquisadora da Unicamp, o florescimento de grupos neonazistas no Brasil é favorecido pelo incessante discurso autoritário ao qual a população tem sido exposta por meio dos partidos políticos de extrema-direita, e em especial por movimentos sociais de discursos semelhantes, como o Movimento Brasil Livre.
Como em muitos países apologia ao nazismo é crime, partidos como o FPÖ, da Áustria, e seus simpatizantes não se denominam nazistas. Em geral, se intitulam “defensores das tradições”, “libertadores”, “nacionalistas”, “guerreiros da nação”, entre outros eufemismos.
As células neonazistas são bastante heterogêneas, por terem concepções diferentes sobre como chegar ao objetivo – a predominância absoluta da raça ariana. Mas, no fundo, todas preservam e seguem os ingredientes fundamentais da receita nazista – o antissemitismo, o ultranacionalismo e a eugenia, embora incluam-se de tempos em tempos novos alvos de discriminação, a depender da configuração geográfica. “No Brasil, historicamente o ódio ao imigrante, por exemplo, é transferido aos nordestinos nos estados do sul”, pontua a antropóloga.
Na opinião de Adriana Dias, o combate ao preconceito de matriz nazista passa pela criação de uma Lei de Crime de Ódio. “Hoje, não há diretrizes do que se fazer nesses casos. Alguns crimes são investigados pela polícia local, outros pela Polícia Federal. O fato de a jurisdição não ser clara, nem quem investiga o quê e como, quebra o processo investigatório e, consequentemente, de julgamento”.
Ela conta ter estruturado um Projeto de Lei, mas vê dificuldades para fazê-lo chegar ao Legislativo e, posteriormente, ser aprovado: “Na atual conjuntura, não haveria interesse em passar tal projeto. A criminalização do ódio seria a criminalização da extrema-direita. Essa que se valeu da crise política para crescer”.
Um preocupante experimento foi feito pelo diretor de cinema alemão David Wnendt durante as filmagens do longa “Ele está de volta”. Wnendt recrutou o desconhecido ator Oliver Masucci, vestiu-o de Hitler e fez com ele uma turnê pela Alemanha, registrando sua interação com a população. O filme mostra cenas reais de diálogos entre o ator caracterizado de Hitler e os alemães, que confessavam sua insatisfação com os estrangeiros e refugiados recebidos no país. Para eles, esses grupos estariam destruindo a Alemanha.
Em determinada cena, “Hitler” consegue convencer um grupo de torcedores de futebol a atacar um ator que fazia comentários antigermânicos – neste momento, particularmente, foi necessária a intervenção do diretor e dos câmeras para evitar o pior.
Em 300 horas de gravação, somente duas pessoas reagiram negativamente ao experimento. A certa altura do filme, Oliver Masucci, como Hitler, conclui que “tem bom material de trabalho pela frente” para construir seu Quarto Reich, uma sociedade pronta para odiar.
Cena do filme "Ele Está de Volta"
Cena do filme “Ele Está de Volta”


domingo, 2 de outubro de 2016

Jean Wyllys denuncia anulação do julgamento do Carandiru e avanço do fascismo via mídia e fundamentalismo religioso no Brasil

Parlamentar do Psol afirma, em fórum internacional: "Fascismo cresce no corpo social, um fascismo eivado de fundamentalismo religioso promovido por igrejas cristãs neopentecostais"
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Denúncia foi feita em fórum que discutiu e traçou estratégias em apoio à Corte Penal Internacional
da Rede Brasil Atual
por Redação RBA
São Paulo – O deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) divulgou em sua página no Facebook uma denúncia que fez, em âmbito internacional, da anulação do julgamento do massacre no Carandiru, durante reunião do Parliamentarians for Global Action, em Montevidéu.
O parlamentar disse que o julgamento em que o desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), anulou o julgamento dos policiais responsáveis pelas mortes de 111 presos na atual realidade brasileira, se insere num contexto em que o “fascismo cresce no corpo social e tem expressão nas ruas e nas redes sociais”. “Um fascismo eivado de fundamentalismo religioso promovido por igrejas cristãs neopentecostais que elegem parlamentares que, depois de eleitos conspiram contra a laicidade do Estado e direitos das minorias”, disse o deputado em vídeo.
Jean Wyllys lembrou aos participantes do evento que, embora o laudo técnico tenha apontado que os mortos foram executados sumariamente, o desembargador entendeu que foi legítima defesa. Segundo ele, Ivan Sartori é “aquele que manda prender quem rouba salame, mas trata execuções sumárias praticadas por policiais como legítima defesa”.
O parlamentar do Psol recorda que o Brasil é signatário do Estatuto de Roma e de quase todos os tratados internacionais sobre direitos humanos e que a Constituição do país é uma das mais modernas, progressistas e humanitárias, tendo sido promulgada promulgada após duas décadas de ditadura civil-militar. “Mas a comunidade de parlamentares, em sua maioria, sempre ofereceu resistência a incorporar os termos dos tratados internacionais de direitos humanos na legislação infraconstitucional e  nas políticas públicas”, explicou, no fórum.
“As instituições do Estado funcionam para garantir os privilégios. Há no Brasil uma relação promíscua entre o crime organizado e as forças repressivas do Estado. A tortura ainda é uma prática nas cadeias e prisões brasileiras. As vítimas são os negros pobres, em particular, os moradores das periferias urbanas, os povos indígenas e membros da comunidade LGBT.”
Wyllys conclui dizendo que hoje é difícil falar na incorporação do Estatuto de Roma, “quando em nosso país o terreno está  infértil à promoção dos direitos humanos”.
Após palestra proferida dia 30 de setembro, em evento em São Paulo, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, questionado sobre a anulação do julgamento pelo TJ-SP, não quis comentar o assunto. “Sou da área jurídica e temos uma máxima na área jurídica. Decisão não se discute, se cumpre. Eu não conheço o processo, então, não posso opinar sobre a decisão do TJ”, disse.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Wadih Damous sobre a Marcha da Insensatez e as tentativas de criminalizar a vida

    "Está em curso um processo de criminalização da vida. Da política a torcidas organizadas de futebol, tudo é visto pelo olhar punitivo e de presunção de culpa: são todos culpados até prova em contrário. Em alguns casos, até com prova em contrário. Agressões a pessoas que usam camisetas vermelhas ou que simpatizam com determinado partido, bomba lançada contra o escritório de um ex-presidente da República são alguns dos exemplos dessa escalada." Wadih Damous



Wadih: estão tentando criminalizar a vida.


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Marcha da insensatez
Corrupção virou pauta única de país que conseguiu retirar 40 milhões da pobreza extrema
Está em curso um processo de criminalização da vida. Da política a torcidas organizadas de futebol, tudo é visto pelo olhar punitivo e de presunção de culpa: são todos culpados até prova em contrário. Em alguns casos, até com prova em contrário. Agressões a pessoas que usam camisetas vermelhas ou que simpatizam com determinado partido, bomba lançada contra o escritório de um ex-presidente da República são alguns dos exemplos dessa escalada.
Integram esse quadro os linchamentos cometidos contra pobres e negros em várias capitais brasileiras; alterações legislativas de caráter punitivo e populista são aclamadas e representantes do Ministério Público gravam vídeos onde verbalizam proselitismo político e religioso fora dos autos e justificam a sua atuação funcional com base em desígnios divinos e sobrenaturais.
Evidente retrocesso para a ciência do Direito que, ao longo dos séculos, teve que superar a inquisição e o fanatismo religioso para buscar uma racionalidade através do Iluminismo e das revoluções burguesas para proteger o indivíduo da tirania de déspotas e do uso do poder punitivo desmedido.
A estratégia de criminalização da política, desenvolvida por setores obscurantistas do Poder Judiciário e do Ministério Público, foi estimulada pela luta política entre governo e oposição, mesmo que para tanto fosse preciso flertar com o que há de pior na política brasileira e romper a barreira da legalidade e dos direitos e garantias individuais, sempre de olho nos holofotes da mídia e atrás de dividendos políticos.
O debate sobre projetos de país ou sobre os rumos que uma das maiores economias do mundo deve tomar nos próximos anos e questões como o enfrentamento à desigualdade social, reforma agrária e educação de qualidade ficou em terceiro plano e hoje a tônica é quem alcaguetou quem. Triste realidade.
A corrupção se tornou pauta única de um país que conseguiu retirar 40 milhões da pobreza extrema e reduzir um pouco dos seus traços escravocratas e machistas de uma sociedade fundada sobre o manto sagrado do latifúndio.
Esse quadro é extremamente perigoso para a democracia porque reforça a descrença no exercício da política e permite a ascensão de forças obscurantistas que estavam adormecidas. Merecem repúdio veemente agressões e ataques a figuras públicas e a execração e banimento de lideranças políticas através de prisões ilegais e de linchamentos morais.
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É preciso, urgentemente, colocar um freio à agenda punitiva e a espetacularização da Justiça. O instituto da colaboração premiada precisa se adequar à Constituição de 1988 e perder o caráter inquisitorial. O termo “voluntário” previsto na lei é contraditório com a circunstância de a pessoa estar presa.
O Brasil é muito maior que a mediocridade, a sanha punitiva despótica e medieval de celebridades jurídicas e o complexo de vira-latas de alguns. Na democracia, a luta é travada pelas ideias e pelo convencimento. Foi-se o tempo — espera-se —em que a força bruta e a violência eram utilizadas para impor visões de mundo.
Por Wadih Damous, ex-presidente da OAB é atualemnte deputado federal (PT-RJ)