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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Dataprev: trabalhadores estão parados por tempo indeterminado contra a privatização da empresa que contém dados críticos da Previdência Social



Greve contra a privatização da empresa estatal que detém dados da Previdência chega a mais de 20 unidades da federação
Venda da Dataprev para a iniciativa privada coloca dados de milhões de brasileiros em risco, segundo especialistas / Foto: Charles Deluvio/Unsplash
Servidores da Dataprev estão em greve por tempo indeterminado em mais de 20 estados e no Distrito Federal. A paralisação ocorre em resposta ao processo de privatização da empresa pública de tecnologia, que hoje é responsável por todo o banco de dados da Previdência no Brasil. Os trabalhadores protestam contra o programa de desligamento voluntário em curso, que, segundo eles, esconde um processo de demissão em massa e visa fechar 20 unidades da empresa em diversos estados.
Mensalmente a Dataprev processa cerca de 35 milhões de benefícios previdenciários. São R$ 50 bilhões em benefícios do INSS, o que representa R$ 555 bilhões por ano. Além disso, a empresa cuida do seguro desemprego, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Cadastro Nacional de Informações Sociais, do Sistema de Benefícios do INSS e da Intermediação de Mão de Obra e do Cadastro Brasileiro de Ocupação.
De acordo com a categoria, o governo não concluiu os estudos de viabilidade da privatização e não respeita a obrigatoriedade de autorização do Congresso Nacional para o processo.
Moacir Lopes, secretário de administração da Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps), afirma que o governo não dialoga com os trabalhadores e ressalta os riscos existentes em passar para a iniciativa privada dados sigilosos de milhões de brasileiros.
“Quem vai ser responsável e como vai ser feita a segurança dos dados do INSS com a privatização da Dataprev? São dados de alta relevância, envolvem a vida de muitos cidadãos. São dados de pagamentos de benefícios, lá estão os valores que cada um recebe, os dados pessoais aposentados. Portanto, é algo que precisa de muita segurança para evitar exposição dos segurados. Vai desde a possibilidade de vazamento de dados para venda de produtos e serviços, até golpes. Há quadrilhas especializadas em aplicar golpes nos aposentados, quem vai garantir a segurança?”, questiona.
Sem apresentar nenhuma prova, na semana passada, o secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia, Salim Mattar, afirmou que os servidores da Dataprev vendem dados dos brasileiros. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Processamento de Dados, Serviços de Informática e Similares informou que vai acionar a Justiça e abrir uma representação na Procuradoria Geral da República por crime de responsabilidade, desvio de finalidade e calúnia contra Salim.
Apagão na Previdência
Os trabalhadores afirmam ainda que a privatização da Dataprev vai intensificar os problemas que vêm sendo registrados na Previdência. Na semana passada, o governo oficializou a contratação temporária de 7 mil militares para prestar atendimento no INSS. A intenção do governo é tentar resolver a demanda de quase 2 milhões de processos parados, que tendem a aumentar. Nesta terça-feira (28), o assunto será discutido em uma audiência da Fenasps com a presidência do Instituto. A federação protocolou uma Ação Popular que visa obrigar o governo federal a realizar concurso público e iniciar uma campanha de estímulo para que aposentados voltem ao trabalho.
“Não faz sentido o governo apresentar uma solução transitória como essa dos militares e não pensar a Previdência daqui três, quatro ou cinco anos. Vai estar um caos pior do que hoje”, argumenta Moacir Lopes.
No ano passado, o governo automatizou 90 serviços prestados nas agências do INSS e informou a intenção de fechar 50% das Unidades Administrativas de Serviços Gerais do INSS, privilegiando o atendimento digital. O secretário da Fenasps ressalta que a digitalização vem causando problemas. Ele lembra que mais de 30% da população não tem acesso à internet e vai além: informa que em alguns postos e escritórios do INSS pelo Brasil nem mesmo a velocidade da internet é suficiente para a prestação dos serviços digitais.
De acordo com as entidades que representam os trabalhadores, o quadro de servidores foi reduzido em 40% nos últimos anos. Somada à falta de novos concursos públicos, a situação causa defasagem no atendimento. Os trabalhadores afirmam que existe a percepção de uma ação proposital por parte do governo para a queda na qualidade do serviço prestado. A intenção seria usar a situação como argumento para conseguir apoio da população ao processo de venda da empresa.
O tema da privatização, segundo informou a Dataprev ao Brasil de Fato, está sendo tratado pelo Ministério da Economia e Casa Civil da Presidência da República.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Acabando com a segurança de todos no Brasil em tática ainda pior que o da Privacidade Hackeada: o xadrez da privatização do Serpro e Dataprev, por Luis Nassif



Se a falta de controle sobre os dados pessoais, nas redes sociais, colocou sob risco a democracia americana, quais os riscos de se ter o controle das principais bases de dados públicas em mãos de grupos privados?



Por Luis Nassif

Em dois artigos, procurei mostrar o comércio de bancos de dados que se criou no país.
Vamos, primeiro, entender o modelo de negócios das bigdatas.

Peça 1 – o modelo de negócio

Uma base de dados trabalhada, tem as seguintes aplicações comerciais:
Marketing – juntando várias bases de dados, é possível identificar hábitos de consumo. De interesse do varejo.
Proteção ao crédito – montagem de cadastro positivo ou negativo, de amplo interesse de empresas em geral.
Estratégias políticas – identificar tendências de grupos homogêneos e testar hipóteses de teses políticas.
Segurança nacional – se a falta de controle sobre os dados pessoais, nas redes sociais, colocou sob risco a democracia americana, quais os riscos de se ter o controle das principais bases de dados públicas em mãos de grupos privados?

Peça 2 – os negócios nebulosos

Há pouca informação e transparência sobre o valor das bases de dados, em um cenário de bigdatas. Essa falta de transparência tem permitido dois tipos de jogadas.
Uma delas, a doação de bancos de dados públicos para empresas privadas, como ocorreu com o Cadin (Cadastro de Inadimplentes) do estado de São Paulo, doado pelo então governador José Serra à Serasa-Experian. Pouco tempo depois a Experian adquiriu de Verônica Serra um site de email marketing por R$ 120 milhões, contra preço de mercado de, no máximo, R$ 30 milhões.
Outra forma, é a inversão da doação. A empresa – no caso a Neoway – recebe a base de dados de todos os funcionários da Prefeitura de São Paulo. Irá trabalhar a base, que será monetizada para outros clientes. Mas, no contrato, esse trabalho na base de dados é caracterizado como doação da empresa à Prefeitura.

Peça 3 – as implicações jurídicas e políticas

O fator Cambridge Analytics já revelou o caráter corrosivo do uso maciço de bases de dados. E mencionava especificamente bases de dados privadas, como Facebook e Twitter.
Politicamente, o uso privado de bases de dados públicas traz riscos ainda maiores. De um lado, pode ajudar nos trabalhos de identificar fraudes contra o setor público. Mas também poderá ser utilizado como filtro político-ideológico para monitorar funcionários públicos. Ou o uso de dados fiscais em guerras comerciais.
O caso Dolly-Coca Cola é ilustrativo. A Dolly não é flor que se cheire. E o cerco a que foi submetido pela Secretaria da Fazenda de São Paulo, com sistemas da Neoway, pode ser considerado um feito fiscal. Mas a empresa acusou expressamente a Neoway de estar a serviço da arqui-inimiga Coca-Cola atuando como a Kroll – a superempresa americana de espionagem empresarial.
Pode ter sido denúncia vazia, mas em uma empresa com acesso a todos os dados fiscais de um governo, e trabalhando para clientes privados, há um claro conflito de interesses. E se essa empresa passasse a trabalhar para governos estrangeiros? Por aí se entende como o fator segurança nacional fica exposto, especialmente quando se fala em privatizar os dois maiores bancos de dados públicos: do Serpro e da Dataprev.

Peça 4 – as bases de dados privatizáveis

A Dataprev tem como principal cliente o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). São mais de 34,5 milhões de aposentados e pensionistas. Hoje em dia, já existe um amplo mercado informal, com o uso de dados pessoais por instituições que trabalham com crédito consignado. Além disso, é responsável pelos programas da rede de atendimento do INSS e do Sistema Nacional do Emprego, por todos os registros de nascimento e óbito.
Já o Serpro, além do sistema de interoperabilidade das diferentes redes públicas, processa dados do Imposto de Renda de Pessoas Físicas e Jurídicas, sobre CPF, Carteira de Motorista, importação e exportação, controle portuário, passaportes e repasses federais, registro de veículos roubados em todo o país, dados da Agência Brasileira de Inteligência, entre outros.
Ainda não existe legislação capaz de proteger a população contra vazamentos.

Peça 5 – os negócios obscuros

A Neoway se tornou uma empresa de mais de um bilhão de dólares explorando as zonas cinzentas do mercado de bancos de dados públicos. Montou um modelo de negócios com altas taxas de intermediação. E deixa por conta dos intermediários os negócios obscuros. Foi assim com o pagamento de propina na Petrobras, que a colocou no meio da Lava Jato.
A Neoway é ligada à LIDE, a empresa de eventos do governador João Dória Jr. Entrou na Prefeitura de São Paulo pelas mãos de Dória. Hoje em dia, é de copa e cozinha do prefeito Bruno Covas.
Não é a única empresa a atuar nesse mercado. Recentemente, a Estadão denunciou o controle do banco de dados do lixo de São Paulo pela empresa Green . Toda empresa que produz mais de 200 litros de lixo por dia e não tem direito à coleta domiciliar gratuita, é obrigada a se cadastrar e deve pagar pela retirada do material e sua designação. A Green, por sua vez, é dona da Greening Inovação e Sustentabilidade. O controle do banco de dados lhe deu uma vantagem central sobre os concorrentes, para oferecer serviços ambientais para as empresas.
Não apenas isso.
Hoje em dia, há duas pessoas chave no processo de privatização dos bancos de dados públicos.
O primeiro é Paulo Antonio Spencer Uebel, Secretário Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital . O outro é Caio Mário Paes de Andrade, presidente do Serpro.
O que ambos têm em comum?
Na condição de Secretário Municipal de Gestão da Prefeitura de São Paulo, Uebel foi quem assinou o contrato com a Neoway. É integrante da LIDE, do então prefeito João Dória Jr. E sócio da Webforce, fundo de investimento que investe em startups e empresas de tecnologia.
Caio Mário é um dos pioneiros da Internet. Participou das grandes jogadas da Telemar, no início da privatização, com compras e vendas milionárias de sites, incluindo o hpG, site de hospedagem, em um momento em que não havia clareza sobre a precipitação dos ativos. Também é sócio da Webforce.
Não é por outro motivo que a Neoway se tornou uma frequentadora assídua dos gabinetes do Ministério da Economia.

Peça 6 – o papel do MPF

Todo esse cenário deve chamar a atenção do Ministério Público e dos Tribunais de Conta. Mas não apenas isso. É função da Procuradoria Geral da República uma provocação ao Supremo Tribunal Federal para definir um mínimo de ordem e coordenação a esse mercado de bigdatas. Não apenas pelos negócios nebulosos que pode gerar, mas, também, pelos riscos que traz não apenas à privacidade dos cidadãos, mas à própria segurança nacional.
O controle das bases de dados públicas tornará  essas empresas muitas vezes mais letais do que Cambridge Analytics e similares, com implicações diretas na política.

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