segunda-feira, 20 de maio de 2024

Crise revela identidade ideológica de Eduardo Leite com ideário da extrema-direita bolsonarista e empressarial em artigo de Jeferson Miola

 


"A crise tem aprofundado as características conservadoras e primitivistas dele sobre o papel do Estado e a visão de sociedade", analisa Jeferson Miola

Eduardo Leite
Eduardo Leite (Foto: Gustavo Mansur/Secom)

O governador tucano Eduardo Leite confessou em entrevista [FSP, 20/5] que recebeu com antecedência os alertas da meteorologia sobre a ocorrência de enchentes, mas mesmo assim não tomou as providências devidas.

Num reconhecimento tardio do seu negacionismo climático, e já depois de muito leite derramado, com a licença para o trocadilho, ele admitiu que “muitos alertas se revelam agora especialmente relevantes”.

Ora, pelo menos desde 2022 o governo gaúcho tem conhecimento de que o território do Rio Grande do Sul é um dos epicentros mundiais de fenômenos climáticos graves.

E, durante as enchentes de setembro e novembro de 2023, o governo recebeu a previsão de que novo evento climático severo ocorreria em abril e maio de 2024, porém nada fez. Ou melhor, destinou ridículos 50 mil reais do orçamento deste ano para a defesa civil.

Leite justificou a inação governamental na prevenção e preparação da defesa civil porque “o governo também vive outras pautas e agendas”.

Mas, afinal, quais seriam essas “outras pautas e agendas” hierarquicamente mais relevantes e de prioridade absoluta, que canalizaram todos os esforços e recursos do Estado do RS e que impediram que o governo protegesse a população e a economia gaúcha com um plano de contingência frente à previsão do evento climático severo, conhecido com antecedência de pelo menos nove meses?

O governador responde que “a agenda que se impunha ao estado era aquela especialmente vinculada ao restabelecimento da capacidade fiscal do estado […]”, não a agenda de salvar vidas e prevenir para que essa situação de terra arrasada não acontecesse.

Tanto Leite como o prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo não podem ser responsabilizados pelo evento climático severo. No entanto, a omissão, a incompetência e a negligência deles causou graves prejuízos humanos, ambientais e econômicos que ou poderiam ter sido evitados em grande medida, ou poderiam ter sido consideravelmente menores, senão mínimos, se os governantes tivessem agido de outra maneira.

Não se pode aceitar a narrativa mentirosa de que houve uma catástrofe; uma fatalidade causada pela malvada natureza ou por um castigo divino. Porque o que aconteceu foi um crime.

E, como fica claro na confissão do governador, um crime praticado de modo doloso, com a consciência sobre os efeitos trágicos que sua omissão causaria.

Esta confissão do Leite foi precedida de outros tropeços dele na crise. O primeiro, quando criou a arrecadação de doações via PIX em contra gerenciada por entidade privada.

Depois, no exercício autêntico do seu servilismo ao mercado, Leite cogitou prescindir de doações humanitárias para favorecer o comércio em detrimento das pessoas e das famílias que perderam absolutamente todos seus bens e recursos.

Apesar de Leite ser enquadrado na classificação de direitista que “come com garfo e faca”, como Fernando Haddad caracteriza direitistas “civilizados”, a crise tem aprofundado as características conservadoras, iliberais, negacionistas e primitivistas dele sobre o papel do Estado e a visão de sociedade, que têm fortes semelhanças com o ideário das extremas-direitas lavajatista e bolsonarista.

Promotor do Tribunal Penal Internacional pede mandado de prisão contra o ultradireitista Benjamin Netanyahu por crimes de guerra

 

Karim Khan, promotor-chefe do TPI, também pede que o tribunal emita mandados de prisão para o ministro da Defesa de Israel e líderes do Hamas


Benjamin Netanyahu e Faixa de Gaza após ataque de Israel
Benjamin Netanyahu e Faixa de Gaza após ataque de Israel (Foto: ABR | Reprodução/AlJazeera)

247Promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan pediu que o tribunal emita mandados de prisão contra o líder do Hamas, Yahya Sinwar, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade relacionados aos ataques de 7 de outubro a Israel e à guerra subsequente em Gaza.

Em entrevista a Christiane Amanpour, da CNN, nesta segunda-feira (20), Khan disse que também está buscando mandados para o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, bem como para dois outros líderes de alto escalão do Hamas: Mohammed Diab Ibrahim al-Masri, líder das Brigadas Al Qassem, mais conhecido como Mohammed Deif, e Ismail Haniyeh, líder político do Hamas.

Os mandados contra os políticos israelenses marcam a primeira vez que o TPI visa o líder máximo de um aliado próximo dos Estados Unidos. Um painel de juízes do TPI agora considerará a solicitação de Khan para os mandados de prisão.

Khan disse que as acusações contra Sinwar, Haniyeh e al-Masri incluem “extermínio, assassinato, tomada de reféns, estupro e agressão sexual em detenção". “O mundo ficou chocado no dia 7 de outubro quando pessoas foram arrancadas de seus quartos, de suas casas, dos diferentes kibutzim em Israel", disse Khan a Amanpour, acrescentando que “as pessoas sofreram enormemente.”

As acusações contra Netanyahu e Gallant incluem “causar extermínio, causar fome como método de guerra, incluindo a negação de suprimentos de ajuda humanitária, e deliberadamente alvejar civis em conflito,” disse Khan a Amanpour.

Quando surgiram relatos no mês passado de que o promotor-chefe do TPI estava considerando essa ação, Netanyahu disse que quaisquer mandados de prisão do TPI contra altos funcionários do governo e militares israelenses “seriam um ultraje de proporções históricas,” e que Israel “tem um sistema jurídico independente que investiga rigorosamente todas as violações da lei".

Questionado por Amanpour sobre os comentários de Netanyahu, Khan disse: “ninguém está acima da lei". Ele disse que se Israel discordar do TPI, “eles são livres, não obstante suas objeções à jurisdição, para levantar um desafio perante os juízes do tribunal e é isso que eu os aconselho a fazer".

Israel e os Estados Unidos não são membros do TPI. No entanto, o TPI afirma ter jurisdição sobre Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia depois que líderes palestinos concordaram formalmente em estar vinculados pelos princípios fundadores do tribunal em 2015.



Filme ‘Lula’, de Oliver Stone, é aplaudido por 4 minutos após estreia no Festival de Cannes, na França

 

Obra integra a mostra "Sessões Especiais" do festival e foi recebida de forma calorosa pelos espectadores



Do ICL Notícias, com Folhapress

“Lula”, documentário que os cineastas Oliver Stone e Rob Wilson preparam há anos sobre o presidente, finalmente teve sua primeira sessão para o público.

Exibido no Festival de Cannes na noite deste domingo, o filme integra a mostra “Sessões Especiais” do evento e foi recebido de forma calorosa pelos espectadores que lotaram a sala Agnès Varda. A obra foi ovacionada pela plateia formada principalmente por estrangeiros, que aplaudiram a estreia por quatro minutos após a exibição.

“Este filme é sobre uma pessoa muito especial no mundo hoje. Acho que ele é um dos únicos líderes que é da classe trabalhadora, que veio da base, que aprendeu a ler tarde. Ele realmente lutou para ser quem ele é. E ele luta mais ainda no filme. Por favor, eu admiro este homem profundamente. E eu sei que muita gente o odeia. Eu não acho que vocês o odeiam. Por favor, não o odeiam muito porque ele tem uma alma maravilhosa”, declarou o cineasta ao apresentar o filme.

Diretor de obras contundentes como “Platoon” (1986), JFK (1991), “Nascido em quatro de julho”, Stone sempre fez um cinema politizado e crítico sobre os grandes temas da sociedade norte-americana.

Em paralelo, também tem paixão por documentários e investiga as grandes questões do mundo e da América Latina em filmes como “Ao sul da fronteira”, uma tentativa de entender os movimentos que elegeram líderes de esquerda na América Latina no início do século 21.

Diretor de "Platoon", Stone lançou filme sobre presidente Lula em Cannes e foi muito aplaudido (Yara Nardi/Reuters)

Diretor de “Platoon”, Stone lançou filme sobre presidente Lula em Cannes e foi muito aplaudido. Foto: Yara Nardi/ Reuters

Em “Lula”, Stone investiga o fenômeno de Luiz Inácio Lula da Silva como um político fora do comum, cuja trajetória, como o cineasta afirmou, nasceu na pobreza e tem uma trajetória de superação incomparável.

“Lula” parte da infância de Lula em Pernambuco, conta sua chegada em São Paulo, o curso profissionalizante na adolescência, o acidente de trabalho que lhe custou um dedo e a entrada no movimento sindicalista até a criação do PT.

Definido como um “feel good movie” pelos produtores, o que parece improvável e quase impossível para um documentário sobre o cenário político do Brasil, “Lula” de fato apresenta uma narrativa que “faz sentir bem” ao final, com a conclusão de que, depois de anos conturbados com a Lava Jato, o golpe sofrido por Dilma Roussef, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro, o país retomou o curso da democracia.

A plateia embarcou na proposta e, mesmo que sóbria, aplaudiu muito no final. Houve gritos de “obrigado” para Stone e equipe, e gritos de “Olê, olê, olá, Lula, Lula” quando Stone deixava a sala.

“Vocês fizeram um ótimo trabalho”, respondeu o cineasta agradecendo os brasileiros presentes.

“Lula” contextualiza história recente do Brasil

Ainda que, obviamente, pró-Lula, o documentário toma o cuidado de contextualizar a história do Brasil recente, explicando o processo para uma plateia mais ampla que a do Brasil.

“Sei que há bons filmes sobre o Lula. Eu vi ‘Democracia em vertigem’, de Petra Costa. É um filme muito bom, gostei muito. Mas é um filme brasileiro e tem detalhes sobre os quais o público norte-americano ou europeu talvez não estejam interessados. Então, meu documentário é um pouco mais amplo e menos detalhado. E ela (Petra) fez um ótimo trabalho”, declarou o cineasta em entrevista ao Splash UOL em dezembro de 2022, durante o Red Sea International Film Festival, em que foi presidente do júri.

À época, sua equipe acabara de filmar o dia da eleição de Lula e ainda trabalhava no último corte. E, de fato, “Lula” é um documentário que dialoga com o público internacional, não tão versado na política latino-americana e nem brasileira, mas pode servir muito bem ao público do Brasil, que poderá ver não só a história contemporânea repassada e resumida, mas também explicada.

As conversas de Stone com Lula em diversas ocasiões funcionam como fio condutor da narrativa, que também não poupa os Estados Unidos e sua interferência nas tomadas de decisões da política brasileira.

O cineasta afirma claramente que houve envolvimento norte-americano na derrubada de Dilma e conta com depoimentos do jornalista Glenn Greenwald, que também analisa a Vaza Jato.

“É muito interessante. A gente vai até aí, mas não nos aprofundamos muito sobre onde o Departamento de Estado (norte-americano) se intersecciona com Sérgio Moro e a Direita brasileira. Mas essa foi uma história suja. Mais uma das centenas de crimes que os Estados Unidos cometeram na América do Sul”, comentou Stone em 2022.

Esta tese está presente no documentário, assim como também o brasileiro Walter Delgatti Neto, o Vermelho, ou o “hacker da Vaza Jato”, que forneceu a Greenwald as conversas vazadas da Lava Jato, caso que mudou o rumo da história e desembocou na soltura de Lula, em 2019.

O filme também atribui a grande parte da mídia brasileira a responsabilidade de contribuir para o cenário de desinformação que tomou conta do país e que desembocou no golpe de Dilma Rousseff, e também na eleição de Bolsonaro.

“Oligárquica, conservadora e propagandista, controlada por poucas famílias ricas”, define Stone.


Coletivo aciona MP e MPC por acordo de prefeitura de Porto Alegre com consultoria Alvares & Marsal (a mesma que contratou Moro após as quebras das construtoras nacionais pela Lava Jato), cuja função é proteger o prefeito de demandas judiciais na tragédia das cheias)

 

ATUAPOA questiona falta de transparência na contratação da Alvarez & Marsal e pede investigação



Por Luís Gomes — Sul21

O coletivo ATUAPOA, que reúne entidades que atuam na pauta do direito à cidade em Porto Alegre, apresentou uma representação junto ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) e ao Ministério Público de Contas do Estado (MPC) pedindo que os órgãos instaurem um inquérito civil público para apurar possíveis infrações da lei e de irregularidades em acordo firmado entre a Prefeitura de Porto Alegre e a consultoria privada Alvarez & Marsal.

No dia 13 de maio, o prefeito Sebastião Melo (MDB) anunciou que a empresa de consultoria Alvarez & Marsal irá prestar serviços para a Prefeitura de Porto Alegre para ajudar na recuperação da capital. Melo informou que a consultoria irá atuar por 60 dias e que depois desse período serão discutidos valores.

“Um dos sócios dessa empresa é gaúcho, porto-alegrense. Ele se sensibilizou com o processo e nos procurou para ajudar”, explicou o prefeito Sebastião Melo ao fazer o anúncio. “No meio do caminho nós vamos estabelecer, se ela tiver que permanecer, vai ter custo”, acrescentou.

Empresa foi criticada após atuação em Brumadinho (MG)

Na representação, o coletivo aponta que o prefeito não estimou os valores que podem ser envolvidos na prorrogação do acordo. Pontua também, entre outras questões, que a especialidade da consultoria é a atuação em recuperações financeiras e judiciais.

A empresa já foi acusada de corrupção por inflacionar suas taxas de contratação no Reino Unido e que, quando atuou em casos de desastres — em Brumadinho–MG e Nova Orleans (EUA) —, sofreu diversas críticas, como o fato de ter contribuído para a alta no preço dos aluguéis, o que impediu moradores de retornarem para suas casas.

A representação pontua ainda que, a Lei n.º 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, determina que atos administrativos devem indicar fatos e fundamentos jurídicos quando: “neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais.” Para o coletivo, esta questão não foi resolvida no processo de contratação da consultoria.

Diante deste cenário, o ATUAPOA pede que o MP-RS e o MPC instaurem um inquérito civil que traga a público os valores envolvidos no contrato e os critérios de avaliação de desempenho da consultoria, entre outras medidas. Confira as solicitações do coletivo:

a) Uma análise detalhada do contrato firmado entre a Prefeitura de Porto Alegre e a empresa Alvarez & Marsal, que seja levado a público os valores envolvidos no contrato; o escopo de trabalho definido no contrato; os Critérios de avaliação de desempenho estabelecidos e prazos envolvidos;

b) O acompanhamento e recomendação ao município quanto a criação de um comitê de monitoramento e fiscalização, com ampla participação da sociedade civil e das universidades, para acompanhar de forma contínua e independente todas as etapas do processo de reconstrução pós-tragédia e garantir a observância dos princípios democráticos, da legalidade e da ética.

c) Adicionalmente, requeremos que seja encaminhada uma cópia desta representação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), para fim de que seja feita auditoria especial sobre as ações e decisões do Prefeito Municipal relacionadas à contratação de consultorias;

d) Ainda, sugerimos a abertura de acesso público a todas às informações relacionadas às contratações, termos, doações e demais aspectos pertinentes ao processo de reconstrução, visando garantir a transparência e o controle social sobre os recursos envolvidos.

e) Por fim, solicitamos, por meio deste, informações atualizadas sobre quais processos ou notícias fatos em aberto relacionadas à tragédia ocorrida no município de Porto alegre, fornecer números e forma de acesso para consulta pública.

Reportagem publicada em GZH neste sábado (18) informou que o governo do Estado também está firmando contrato com a Alvarez & Marsal, por meio da Secretaria Extraordinária de Apoio à Reconstrução, bem como com outras consultorias privadas.

 

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Falhas de manutenção no saneamento em Porto Alegre são apontadas desde 2015

A farsa do Brasil Paralelo nas lacunas da verdade, por Saulo Barbosa

 

Filipe Valeriam, Henrique Viana e Lucas Ferrugem, criaram, em 2016, a empresa Brasil Paralelo após perceber que havia público que consumia ideias anti-científicas influenciadas pelo astrólogo Olavo de Carvalho.



Brasil Paralelo nas lacunas da verdade

por Saulo Barbosa Santiago dos Santos

Do Jornal GGN:

Após as manifestações ocorridas no Brasil em 2013, os estudantes universitários Filipe Valeriam, Henrique Viana e Lucas Ferrugem, criaram, em 2016, a empresa Brasil Paralelo após perceber que havia público que consumia ideias anti-científicas influenciadas pelo astrólogo Olavo de Carvalho. Para Olavo e seus seguidores, a educação brasileira está corrompida pelo “marxismo cultural” e se não houver mudança, o país será invadido pelo comunismo. O objetivo deste texto é criticar a empresa Brasil Paralelo por distorcer fatos, deslegitimar a ciência e promover uma agenda ideológica de direita, visando engajamento e lucro em detrimento da veracidade dos dados.

 A Brasil Paralelo (BP) se apresenta como uma produtora de conteúdo imparcial que visa contar a história livre de ideologia, disposta a apresentar uma versão alternativa daquilo que é estudado nas academias, contando fatos que não são ensinados e eventos omitidos. Claro que na academia eles não seriam levados a sério porque na primeira tentativa de defender suas teses, seriam facilmente refutados com vasta fonte documental, então preferiram oferecer seus “estudos” no antro das “fake news”, na casa da manipulação da verdade: redes sociais.

Em terreno fértil para manipular a verdade, a BP desenvolve narrativas que deslegitimam os trabalhos científicos apenas afirmando que os estudos estão corrompidos pelo “marxismo cultural”. É mais ou menos assim, digamos que 99,9% dos historiadores concordam que o Brasil sofreu uma ditadura empresarial-militar, entretanto, 0,1% de outros profissionais, negam sem provas, a ditadura. O que o Brasil Paralelo faz é justamente dar voz a esta exceção acadêmica e transparecer que eles são vítimas do silenciamento esquerdista.

Numa entrevista ao canal “inteligência ilimitada”[1], dada em 2022, os fundadores da BP exemplificam a metodologia usada por eles na construção de documentários. Segundo eles, num trabalho de campo na República Tcheca sobre a interferência da União Soviética na política brasileira na década de 60, a equipe da empresa contratou um brasileiro que falava polonês, mas o entrevistado não entendia a língua polonesa, então, contrataram um tcheco, que sabia polonês, com isso, eles faziam a pergunta para o brasileiro, o brasileiro traduzia para o polonês, e o polonês traduzia para o tcheco e as resposta seguiam a mesma linha.

Há dois fatos importantes que o historiador Gaiofato, do “história cabeluda”, percebeu e pôs em check os métodos da Brasil Paralelo na entrevista citada no parágrafo anterior: Primeiro, por que entrevistaram um tcheco se a república tcheca nem fazia parte da União Soviética? Eles tinham todo o leste europeu para fazer o trabalho de campo, foram justamente atrás de quem não tinha nada a ver, que não estava, sequer, no lugar de fala? Segundo, foram usadas três línguas diferentes na entrevista, o que se perdeu no uso das palavras, interpretações, contextos e tudo mais, levam a  consequências incontáveis e diminui drasticamente a qualidade do trabalho.

Os estudos que a BP fez a partir desta dinâmica não seria aceito nem na faculdade mais miserável, mas por que mesmo assim fazem e publicam? Porque o objetivo e a preocupação não está na veracidade dos fatos, mas sim na manipulação da verdade para levantar engajamento e gerar lucro.

Chegamos à conclusão de que a Brasil Paralelo conseguiu crescimento a partir de três atos estratégicos: busca de terreno fértil para manipular a verdade, deslegitimação da ciência e, por fim, substituí-la por argumentos pautadas por ideologias de direita. O importante não é passar conhecimentos, mas moldar fatos que contribuam à desinformação, causando assim um impacto negativo e desnecessário no desenvolvimento de uma sociedade justa e igualitária.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=9BX-j5QrKIE

Saulo Barbosa Santiago dos Santos – Guarda Civil, Professor de filosofia e Autista

Bomba de desdolarização: a chegada do ecossistema monetário descentralizado BRICS+, por Pepe Escobar

 

A remoção do capital especulativo ocidental libertará o comércio local e permitirá o capital investível para o desenvolvimento sustentável



Bomba de desdolarização: a chegada do ecossistema monetário descentralizado BRICS+


por Pepe Escobar

Exclusivo – Prepare-se para o que poderá muito bem ser a bomba geoeconômica de 2024: a chegada de um ecossistema monetário descentralizado.

Bem-vindo à Unidade – um conceito que já foi discutido pelo grupo de trabalho de serviços financeiros e investimentos criado pelo Conselho Empresarial do BRICS+ e que tem grandes chances de se tornar a política oficial do BRICS+ já em 2025.

De acordo com Alexey Subbotin, fundador da Arkhangelsk Capital Management e um dos idealizadores da Unidade, este é um novo sistema de resolução de problemas que aborda a principal questão geoeconômica destes tempos difíceis: uma crise global de confiança.

Ele sabe tudo em primeira mão: um profissional financeiro experiente com experiência em bancos de investimento, gestão de ativos e assuntos corporativos, Subbotin lidera o projeto da Unidade sob os auspícios do IRIAS, uma organização intergovernamental internacional criada em 1976 de acordo com o estatuto da ONU.

A maioria global está farta do quadro monetário controlado centralmente implementado há 80 anos em Bretton Woods e das suas falhas endêmicas: déficits crônicos que alimentam despesas militares irresponsáveis; bolhas especulativas ; sanções com motivação política e sanções secundárias; abuso da infraestrutura de liquidação e pagamento; protecionismo; e a falta de arbitragem justa.

Em contrapartida, a Unidade propõe uma solução fiável, rápida e economicamente eficiente para pagamentos transfronteiriços. A Unidade – transacional – é um divisor de águas como uma nova forma de moeda internacional que pode ser emitida de forma descentralizada e depois reconhecida e regulamentada a nível nacional.

A Unidade oferece uma solução única para gargalos na infraestrutura financeira global: é elegível para operações bancárias tradicionais, bem como para as mais novas formas de banco digital.

A Unidade também pode ajudar a acabar com os preços injustos no comércio de mercadorias, através da criação de uma nova Bolsa Mercantil Eurasiática – justa e eficiente – onde a negociação e a liquidação podem ser feitas numa nova moeda que faça a ponte entre os fluxos comerciais e o capital, abrindo assim o caminho para o desenvolvimento de novos produtos financeiros para investimento direto estrangeiro (IDE).

A força da Unidade, conceitualmente, é eliminar a dependência direta da moeda de outras nações e oferecer especialmente à Maioria Global uma nova forma de dinheiro apolítico – com enorme potencial para ancorar o comércio justo e os investimentos.

Na verdade, é um novo conceito em termos de moeda internacional – ancorada no ouro (40%) e nas moedas dos BRICS+ (60%). Não é criptomoeda nem stablecoin – como é mostrado aqui .

A beleza de se tornar fractal

A Maioria Global compreenderá instantaneamente o objetivo principal da Unidade: harmonizar os fluxos comerciais e financeiros, mantendo-os fora da pressão política ou de “regras” que podem ser distorcidas à vontade. A consequência inevitável traduz-se em soberania financeira. O que importa em todo o processo são políticas monetárias independentes centradas no crescimento econômico.

Esse é o principal apelo da Maioria Global: um ecossistema completo que ofereça infraestrutura monetária independente e complementar. E isso certamente pode ser estendido aos parceiros de Unidade dispostos no Ocidente coletivo.

Agora, ao nível prático: como explica Subbotin, o ecossistema Unit pode ser facilmente escalável porque vem de uma arquitetura fractal apoiada por regras simples. Os novos nós de Unidade podem ser criados por agentes soberanos ou privados, seguindo um livro de regras detalhado sob custódia do IRIAS licenciado pela ONU.

Os organizadores da Unidade empregam um livro-razão distribuído: uma tecnologia que garante transparência, evitando controles de capital ou qualquer manipulação cambial.

Isso significa que a conexão está disponível para todas as DEX abertas e plataformas digitais operadas por bancos comerciais e centrais em todo o mundo.

O resultado final é que todos, essencialmente, possam usar a Unidade para contabilidade, escrituração contábil, precificação, liquidação, pagamento, poupança e investimento.

Não é de admirar que as possibilidades institucionais sejam bastante atrativas – uma vez que a Unidade pode ser utilizada para contabilização e liquidação para BRICS+; pagamento e preços para a União Econômica Eurasiática (EAEU); ou como moeda de reserva para a África Subsaariana.

E agora vem o argumento decisivo: a Unidade já recebeu apoio do Conselho Empresarial dos BRICS e está na agenda da crucial reunião ministerial na Rússia, no próximo mês, que irá elaborar o roteiro para a cúpula de Outubro próximo, em Kazan.

Isso significa que a Unidade tem tudo para estar na mesa como um assunto sério discutido pelo BRICS+ e eventualmente ser adotada já em 2025.

Musk e o NDB estarão a bordo?

Tal como está, a prioridade para os conceitualizadores da Unidade – que acompanhei durante mais de um ano durante várias reuniões detalhadas em Moscou – é informar o público em geral sobre o novo sistema.

A equipe da Unidade não está minimamente interessada em entrar diretamente em águas quentes políticas ou em ser encurralada por argumentos carregados de ideologia. Referências diretas a conceitos ou autores inspiradores, mas por vezes controversos, como Zoltan Pozsar, podem enterrar o conceito de Unidade em buracos de escaninho, limitando assim o seu impacto potencial.

O que pode vir pela frente poderá ser extraordinariamente entusiasmante, uma vez que o apelo da Unidade poderá estender-se desde Elon Musk até ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) dos BRICS, envolvendo esperançosamente uma série de intervenientes cruciais. Depois de uma avaliação positiva do ministro das Finanças, Anton Siluanov – que permanece no cargo no novo governo russo – não é exagero imaginar Putin e Xi a discutirem o assunto cara a cara esta semana em Pequim.

Tal como está, a principal conclusão é que a Unidade deve ser vista como uma solução técnica viável para o que é teoricamente insolúvel: um sistema de pagamento/comércio reconhecido globalmente, imune à pressão política. É o único jogo da cidade – não há outros.

Enquanto isso, os conceitualizadores da Unidade estão abertos a críticas construtivas e a todas as formas de colaboração. No entanto, mais cedo ou mais tarde, as fileiras de batalha serão alinhadas – e então será uma questão de melhorar seriamente o jogo.

“Academicamente sólido, tecnologicamente inovador”

Vasily Zhabykin, coautor do white paper da Unidade e fundador do CFA Center, parceiro tecnológico da Unidade no Skolkovo Innovation Hub em Moscou, sublinha de forma crucial: a Unidade “representa dinheiro apolítico e pode ser o conector entre o Sul Global e o Ocidente”. Ele faz questão de salientar que “a Unidade pode manter todas as rodas girando, ao contrário da maioria dos outros conceitos que apresentam ‘assassinos de dólares’, etc. Não queremos prejudicar ninguém. Nosso objetivo é melhorar a eficiência dos fluxos de capital e dinheiro atualmente quebrados. A Unidade é antes a ‘cura para o câncer centralizado”.

Subbotin e a equipe da Unidade “estão ansiosos para conhecer novos parceiros que compartilhem nossa abordagem e estejam prontos para agregar valor adicional ao nosso projeto”. Se for esse o caso, eles deveriam “enviar-nos três tópicos sobre como podem ajudar e melhorar a Unidade”.

Um passo de seguimento ousado deveria ser, por exemplo, uma conferência virtual sobre a Unidade, com a participação dos importantes economistas russos Sergey Glazyev, Yannis Varoufakis, Jeffrey Sachs e Michael Hudson, entre outros.

Por email, Glazyev, membro da Academia Russa de Ciências e Ministro da Integração e Macroeconomia da União Económica da Eurásia (EAEU) , resumiu o potencial da Unidade:

“Acompanho o desenvolvimento da Unit há mais de um ano e posso confirmar que a Unit oferece uma solução muito oportuna e viável. É academicamente sólido, tecnologicamente inovador e, ao mesmo tempo, complementar à infraestrutura bancária existente.

Lançá-lo sob os auspícios de uma instituição da ONU confere legitimidade à Unidade, que falta claramente ao atual quadro de Bretton Woods. As recentes ações da administração dos EUA e o silêncio ruidoso do FMI indicam claramente a necessidade de mudança.

Uma abordagem descentralizada à emissão de potencial moeda comercial global, cujo valor intrínseco está ancorado no ouro físico e nas moedas BRICS+, torna a Unit a mais promissora de várias abordagens que estão a ser consideradas. Equilibra as prioridades políticas de todos os participantes, ao mesmo tempo que ajuda cada economia soberana a desenvolver-se ao longo do seu caminho ideal.

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o BRICS+ devem abraçar o conceito de Unidade e ajudá-la a tornar-se o auge da nova infraestrutura financeira global emergente, livre de interferências políticas malignas, ao mesmo tempo que se concentra no comércio justo e no crescimento econômico sustentável.”

Um exemplo claro e prático de uma possível resolução de problemas da Unidade diz respeito às relações comerciais entre a Rússia e o Irã. Estes são dois dos principais membros do BRICS. O comércio russo com o Irã não é lucrativo devido às sanções – e ambos não podem fazer pagamentos em dólares americanos ou euros.

As empresas russas sofrem perdas significativas após mudarem para pagamentos em moedas nacionais. Com cada transferência, as empresas russas perdem, em média, até 25% devido à discrepância entre a taxa de mercado no Irã e a taxa estatal.

E aqui está a principal conclusão: os BRICS+, bem como a Maioria Global, só podem ser fortalecidos através do desenvolvimento de laços geoeconômicos mais estreitos. A remoção do capital especulativo ocidental libertará o comércio local de mercadorias e permitirá a reunião de capital investível para o desenvolvimento sustentável. Para desbloquear um potencial tão vasto, a Unidade pode muito bem ser a chave.

Pepe Escobar – Analista geopolítico independente, escritor e jornalista

O bolsonarismo e a arte de fazer aquilo mesmo que ele diz combater, por Jair de Souza

 

Se há algo em que os bolsonaristas se especializaram é a arte de usar os argumentos de quem combate alguma coisa para, na verdade, dedicar-se a praticá-la


Ex-presidente Jair Bolsonaro
Ex-presidente Jair Bolsonaro (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247. - Se há algo em que os bolsonaristas se especializaram é a arte de usar os argumentos de quem combate alguma coisa para, na verdade, dedicar-se com tudo a praticá-la.

Esta habilidade bolsonarista não é nada tão recente e nem foi inventada pelo medíocre ex-capitão que dá nome a esta corrente política. Em realidade, esta técnica vem sendo desenvolvida e aperfeiçoada há umas quantas décadas pelos fundadores teóricos do bolsonarismo, os quais já a estavam desenvolvendo muito antes de que o tosco ex-militar fosse sequer conhecido por eles mesmos. Portanto, neste caso, o nome dessa corrente política não se deriva de quem a fundou ou foi seu principal formulador teórico, e sim de um sujeito que simboliza a podridão mais completa dos efeitos combinados da aplicação prática dessa “filosofia”.

A essência do bolsonarismo pode ser detectada já nas argumentações de seu mais conceituado idealizador, ou seja, Olavo de Carvalho. É fato que, muito antes de que o nome do ex-capitão tivesse ultrapassado as fronteiras dos territórios milicianos do Rio de Janeiro, o ex-astrólogo e jornalista já se dedicava a uma martelação constante contra as forças de esquerda, com acusações de que estas aparelhavam todos os espaços significativos das instituições culturais da sociedade.

Em consonância com essa interpretação, órgãos da mídia corporativa privada, como a rede Globo, a Folha de São Paulo, o Estadão, a rede Record, o SBT, entre outros, estariam todos a serviço do comunismo e de sua visão de mundo. Quando não abertamente, pelo menos de modo camuflado. Embora todos os dados disponíveis deixassem evidente que a fundação da rede Globo se originou de um conluio entre os Marinhos e a alta cúpula dos militares com vistas a dar sustentação à defesa dos interesses do grande capital e do imperialismo estadunidense, Olavo insistia em sua afirmação de que, de fato, o propósito dessa emissora era atuar sorrateiramente em sintonia com os valores comunistas. E, da mesma maneira que se apoderaram dos meios de comunicação, os esquerdistas também teriam tomado de assalto todos os demais entes formadores de opinião do país, como as universidades, a Igreja Católica, etc.

Portanto, em um trabalho incansável e repetitivo, nossas mentes íam sendo bombardeadas sobre as maneiras como a esquerda usava os grandes meios de comunicação para inculcar nos desavisados sua ideologia, através da repetição constante de mensagens enganadoras que visavam fazer a lavagem cerebral das maiorias incautas. Ou seja, temos aqui a primeira grande lição que o bolsonarismo bolsonariano soube assimilar e pôr em prática como ninguém antes havia feito. Em outras palavras, para ter mais possibilidade de êxito em empreitadas mal vistas pela sociedade, a primeira medida a tomar é lançar uma furibunda campanha contra seus oponentes políticos acusando-os de estarem fazendo aquilo que você pretende fazer.

Imbuídos plenamente desse espírito bolsonarista-olaviano, os integrantes da quadrilha Lava-Jato puderam desfechar o mais monstruoso processo de corrupção já efetivado em nosso país. Para ter êxito em seus objetivos, os quadrilheiros lavajatistas se articularam com a mesma mídia que antes era acusada de favorecer o comunismo de modo a aparecer em público como se fossem os mais honoráveis combatentes contra a corrupção. Então, com o propósito de entregar o pré-sal a empresas gringas, acabar com a engenharia civil brasileira, destruir nossa indústria naval e desviar bilhões de recursos públicos para fundações particulares controladas pelos próprios quadrilheiros, estes precisavam ser publicamente pintados como figuras moralmente intocáveis, paladinos da luta anticorrupção. E assim se deu!

Quem não se recorda dos grandes dutos jorrando dinheiro da corrupção a cada vez que a rede Globo abordava a atuação da operação Lava-Jato? Tudo isto, ao mesmo tempo em que as riquezas do pré-sal iam sendo entregues aos gringos, as empresas brasileiras iam sendo desmanteladas para facilitar a prevalência de suas congêneres estrangeiras e os líderes da quadrilha iam se tornando milionários.

Porém, para ficar de alma lavada, o bolsonarismo também precisava apelar para a religião. Então, para que pudessem angariar apoio para seus planos diabólicos de beneficiar os mais ricos em detrimento das maiorias populares, de disseminação de ódio para o favorecimento de suas empreitadas, ou seja, para eliminar todos os vestígios dos ensinamentos de Jesus e levar adiante a obra do diabo, as empresas-igrejas bolsonaristas vêm deslanchando toda sua fúria contra os que desejam defender os interesses das classes trabalhadoras. Por isso, estamos constatando a manipulação do nome de Jesus para sustentar causas contra as quais ele sempre lutou.

Assim, de defensor da justiça, do amor, da solidariedade e de sua declarada opção preferencial pelos mais humildes, as empresas-igrejas bolsonaristas vêm tratando de transformar Jesus em um propagador de intolerância, de ódio, de maldade e da opção exclusiva pelos ricos. Em lugar de acolher sua visão de que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus, as empresas-igrejas bolsonaristas difundem a mensagem de que os ricos é que são os abençoados. E, devido a isto, ser pobre seria um indício de não contar com a graça de Deus.

Em 2022, no intuito de se aferrar ao governo a toda custa, o bolsonarismo não escatimou recursos públicos para tentar comprar o voto da população mais necessitada, assim como a recorrer a PRF para bloquear estradas e impedir ou dificultar o acesso às urnas dos potenciais eleitores anti-bolsonaristas. No entanto, para levar adiante este plano descarado de fraudar a eleição, o bolsonarismo precisava bradar, gritar e berrar, que o TSE e o STF estavam trabalhando para beneficiar seu opositor. Ou seja, para fraudar e golpear, era preciso acusar seus adversários de estarem golpeando e fraudando.

Mas, no caso das eleições passadas, ficou evidente que a máquina do bolsonarismo pode ser derrotada. Tanto assim que, apesar dos bilhões desviados para manipular a compra de votos, apesar dos bloqueios nas estradas para impedir a chegada dos eleitores, ainda assim, a máquina bolsonarista foi derrotada. E o golpe foi tão forte que o líder nominal da corrente não teve coragem de dar as caras por muitos dias.

No caso da tragédia que está assolando o Rio Grande do Sul neste momento, o bolsonarismo está dando mostras de como assimilou à perfeição os ensinamentos de seus mentores intelectuais. Como ardorosos neoliberais que são, os bolsonaristas vivem pregando o banimento do Estado das questões sociais e o fortalecimento máximo de seu aparelho repressivo. Mas, como a catástrofe gaúcha escancarou a importância crucial da presença do Estado para garantir a vida da população, os bolsonaristas puseram em marcha uma gigantesca campanha de mentiras e desinformações (as tais “fake news”) visando impedir que o governo federal do Presidente Lula tenha êxito em sua tarefa de salvar o povo gaúcho do drama que o neoliberalismo ajudou a agravar.

Deste modo, como não podem dizer abertamente que são contra a atuação do Estado nesta hora de tanto sofrimento, o bolsonarismo conta com a disseminação de mentiras pelas redes sociais para criar dificuldades e gerar pânico para, com isso, fazer vingar sua posição de que o Estado é inútil. Ou seja, nesta oportunidade, o bolsonarismo está tendo condições de revelar sua essência em toda sua plenitude.  Os bolsonaristas não querem que o governo federal atue eficientemente para salvar aqueles que estão sofrendo as consequências da tragédia. Por isso, estão propalando suas mentiras como se estivessem reclamando por a máquina estatal não estar funcionando como deveria. 

Ocorre que, com as novas tecnologias das redes digitais e a proximidade ideológica e política do bolsonarismo com os donos dos megaconglomerados que controlam essas plataformas, essas atividades típicas do bolsonarismo se viram facilitadas. Agora, as redes bolsonaristas podem dispor da assessoria dos algoritmos para alcançar muito maior eficiência. Portanto, com os recursos tecnológicos da atualidade o bolsonarismo pode chegar a cada qual com a mentira conveniente a cada qual. Assim, o esquema de desinformação e manipulação cognitiva que Olavo de Carvalho acusava falsamente a esquerda de realizar está sendo efetivamente posto em prática por seus discípulos do bolsonarismo atual.

De tudo o que vimos mais acima, poderíamos resumir a filosofia do bolsonarismo, em todas as suas facetas, com uma única palavra: HIPOCRISIA.

A história da bizarra audiência no Congresso dos EUA sobre as fake news bolsonaristas. Reportagem de Fábio de Sá e Silva para o The Intercept

 


Ideia de que Brasil vive uma ditadura judiciária não colou nem entre republicanos e soou fútil diante da tragédia no Rio Grande do Sul.

Congressista republicana Maria Salazar segura foto de Alexandre de Moraes, alegando que Brasil vive ditadura. Foto: Divulgação Partido Republicano no YouTube

Do The Intercept Brasil:

Fabio de Sá e Silva

NO DIA 7 DE MAIO de 2024, terça-feira, uma comitiva da extrema direita brasileira foi ao congresso norte-americano para denunciar o que afirmam ser um regime de censura no Brasil, comandado por uma aliança entre o ministro do Supremo Tribunal Federal, o STF, Alexandre de Moraes, e o presidente Lula.

Para apresentar o necessário contraponto, convidado pelos democratas, estava este humilde colunista.

Houve certa repercussão no momento em que ergui a foto de Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura civil-militar brasileira, que depois tentou alegar que ele havia se suicidado na prisão. A isso, chamei de “ter sido suicidado”, embora não saiba se os congressistas entenderam.



No geral, busquei enfatizar:

1) O contexto em que os tribunais brasileiros tomaram decisões de suspender postagens e perfis – ataques bolsonaristas ao STF desde 2020 e tentativa de golpe de estado em 2022;

2) os motivos pelo quais a suspensão de postagens e perfis é plenamente possível no direito brasileiro; e

3) meu ponto favorito, a audácia de certos congressistas americanos que, com o dedo em riste, acusam nossos tribunais de violarem a “liberdade de expressão” sem terem o mais básico conhecimento do direito brasileiro e do funcionamento de nossas instituições.

Play: Video
Fábio Sá e Silva depondo no Congresso dos EUA sobre supostas violações da liberdade de expressão hoje, mostra foto de Vladimir Herzog durante a ditadura e o que autoritarismo verdadeiramente significa.

Quero comentar, no entanto, o mau desempenho das testemunhas dos republicanos. Os depoimentos destes consistiram em:

1) Manifestar preconceito contra homossexuais e judeus – fato que não passou despercebido pela deputada democrata Susan Wild;

2) apelar para teorias da conspiração, como as de que há um complô mundial financiado por George Soros e que a CIA ajudou a colocar Lula na presidência – narrativa na qual nem a deputada republicana Maria Salazar embarcou; e

3) mostrar a falta de credenciais democráticas, pois sequer são capazes de reconhecer que o golpe de 1964 foi uma ruptura com a democracia.

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Ao final da audiência, estava claro, para quem assistiu in loco, que esse mau desempenho deixou o presidente do subcomitê que abrigou a audiência, o deputado Chris Smith, visivelmente desconcertado.

“Smith não conseguiu obter o que queria,” disse-me um assessor dos deputados democratas, “e as testemunhas mostraram suas verdadeiras cores” (their true colors, expressão da língua inglesa para “mostrar sua verdadeira face”).

Considerando a quantidade de trolls na plateia, achei que a metáfora fazia sentido (na trilha sonora da animação Trolls da DreamWorks, há música com esse mesmo título, true colors, gravada por Justin Timberlake e Anna Kendrick).

Esse mau desempenho justifica, em parte, porque os bolsonaristas deram pouca divulgação à audiência, pela qual lutaram durante meses.

Outra parte da explicação vem de que parlamentares desse campo estavam, em bloco, tirando fotos e gravando vídeos nos EUA no momento em que brasileiros do Rio Grande do Sul enfrentavam a maior enchente de uma geração, que, entre mortos, feridos e desalojados, gerou estatísticas dignas de guerra.

Nisso, também me distanciei deles. Comecei meu discurso enviando meus “pensamentos e orações” às vítimas das enchentes, às quais manifestei minha irrestrita solidariedade.

Mas 24 horas depois, a maior parte daqueles congressistas estava de volta à carga nas redes sociais, espalhando desinformação sobre a enchente.

Essas fake news têm consequências reais e perniciosas

O pesquisador David Nemer, da Universidade da Virgínia, que há anos observa a movimentação da extrema direita nas redes, disse que desde a eleição de 2018 nunca viu um volume tão grande de fake news, veiculadas por meio de texto e vídeos falsos ou descontextualizados.

Um estudo da USP, divulgado originalmente pela jornalista Daniela Lima, da Globo News, identificou três linhas principais em torno das quais essas práticas de desinformação se estruturaram:

1) o Estado não ajuda – não chega a tempo; é preguiçoso;

2) o Estado atrapalha – cria obstáculos a quem efetivamente se mobiliza, os cidadãos e os milionários; e 

3) pânico econômico, com previsão de desabastecimento e estímulo a que as pessoas estocassem alimentos.

Segundo igualmente noticiou Lima, entre os principais disseminadores dessas fake news, estão justamente alguns dos réus nos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos.

Ironia do destino, as forças armadas agora estavam entre os principais alvos desses perfis. “É como se esses disseminadores estivessem indo à desforra agora,” disse à jornalista, “por conta do que o Exército não fez no 8 de Janeiro; alguns deles escrevem isso mesmo.”

Essas fake news têm consequências reais e perniciosas. Elas prejudicam a atuação das autoridades e podem ter aumentado o número de vítimas, pois diminuem a coesão social e a possibilidade de cooperação entre Estado e cidadãos em um momento crucial.

Não à toa, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul ordenou que fossem removidas sob pena de multa.

Às vésperas da audiência dos bolsonaristas no congresso americano, havia quem dissesse que a chave do país em relação aos inquéritos do STF estava virando, o Judiciário vinha se desgastando e caminhávamos para uma anistia.

Que a extrema direita está trabalhando para que seja assim mesmo, não há dúvida. Mas a audiência nos EUA e a desinformação em torno das enchentes do RS mostraram que o uso da mentira como arma política pela extrema direita não é uma “ameaça que passou” .

Cabe às instituições não se deixarem levar pela enxurrada.