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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Aproximações e complementaridades sobre a visão de mundo, ciência e educação presentes no livro "Paulo Freire e Edgar Morin: sobre Saberes, Paradigmas e Educação", de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 



  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

quarta-feira, 4 de março de 2020

Considerações sobre o Papa Francisco, por Michael Löwy



"Uma análise do perfil e das ações de Jorge Bergoglio, o Papa que redirecionou as posições da Igreja Católica", escreve o diretor de pesquisas, na França, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), Michael Löwy



Por Michael Löwy
Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres

O artigo se posiciona contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres (Foto: REUTERS/Filippo Monteforte/Pool)


(artigo publicado originalmente no site A Terra é Redonda)
A hipótese de Max Weber
Max Weber argumentava, em seu célebre ensaio de sociologia das religiões, que a ética protestante era favorável ao desenvolvimento do capitalismo, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos; encontramos uma hipótese análoga, meio século antes, em certos escritos de Marx (em especial, nos Grundrisse). Todavia, neste mesmo texto, Weber sugere que a ética católica era, ao contrário, fundamentalmente hostil ao espírito do capitalismo.
Em uma nota de rodapé, no contexto de uma polêmica contra os trabalhos de Franz Keller, ele afirma que as tomadas de posição da Igreja Católica em relação ao capitalismo enquanto tal são determinadas por uma “aversão tradicionalista, sentida o mais das vezes de forma confusa, contra o crescente poder impessoal do capital – dificilmente suscetível, por isso mesmo, de eticização”[i]
No decorrer do debate que provocou a publicação de seu livro, Weber propôs um novo conceito: o de uma incompatibilidade (Unvereinbarkeit) entre os ideais aos quais se subscreve o crente católico seriamente convencido” e a “busca ‘comercial’ do ganho”. De fato, esta incompatibilidade não exclui as adaptações, mas, acrescenta o sociólogo, “eu não posso interpretar os numerosos ‘compromissos’ práticos e teóricos senão justamente como ‘compromissos’”[ii]. Em outros termos: se existem compromissos, é porque duas potências hostis se confrontam, e a Unvereinbarkeitcontinua sendo o tom dominante da relação católica com o espírito do capitalismo.
Ele retorna a esta problemática em diversos outros textos, notadamente em sua História Econômica: “A aversão profunda da ética católica, seguida pela ética luterana, a toda tendência capitalista repousa essencialmente sobre a repugnância que lhes inspira a impessoalidade das relações no interior da economia capitalista. Esta impessoalidade subtrai da igreja e de sua influência moralizadora certas relações humanas, excluindo assim toda infiltração e toda regulamentação ética de sua parte.”[iii]
A hipótese weberiana me parece essencial para compreender diversos fenômenos sociorreligiosos, desde o século XIX até hoje. De fato, esta hostilidade, esta aversão, esta “antipatia” (um outro termo utilizado por Weber) contra o capitalismo assumiu, particularmente no século XIX, um caráter conservador, retrógrado, em uma palavra, reacionário. Estas manifestações não tinham escapado à atenção de Marx e Engels, que as designou ironicamente de “socialismo feudal”.
Eis o que dizem sobre o assunto no Manifesto do Partido Comunista, que as denuncia, mesmo reconhecendo a sua dimensão crítica (antiburguesa): “O socialismo feudal, um misto de lamento, pasquim, eco do passado e vaticínio das ameaças do futuro – por vezes, atingindo a burguesia no coração com veredictos amargos e espirituosamente dilacerantes, mas sempre causando impressão engraçada, graças a sua total incapacidade de compreender o curso da história moderna”[iv].
Tratava-se, provavelmente, de autores tais como o filósofo social romântico e católico Johannes von Baader, firme partidário da Igreja e do Rei que denunciava, no entanto, a condição miserável dos proletairs (seu termo) na Inglaterra e na França, mais cruel e desumana do que a servidão. Criticando a exploração brutal e nada cristã desta classe desprovida pelos interesses do dinheiro (Argyrokratie), ele propõe que o clero católico se torne o defensor e o representante dos proletairs.[v]
Dito isso, vê-se aparecer, no seio do capitalismo, uma corrente anticapitalista de esquerda. Paradoxalmente, o crescimento de uma esquerda católica aparece em relação ao fato de que a Igreja se mostrava cada vez mais disposta a procurar um compromisso com a sociedade burguesa. Depois da mordaz condenação dos princípios liberais no Syllabus (1864), Roma parecia admitir, desde o fim do século XIX, o advento do capitalismo e o estabelecimento de um Estado moderno (“liberal”) burguês como fatos irreversíveis.
A manifestação mais aparente dessa nova estratégia foi a aproximação da Igreja francesa (até então defensora incondicional da monarquia) com a República. O catolicismo intransigente toma a forma de um “catolicismo social” que, ainda que criticando sempre os excessos do “capitalismo liberal”, não mais coloca verdadeiramente em questão a ordem social e a economia existentes. Seguem na mesma direção todos os documentos provenientes da magistratura romana (os encíclicos pontificiais) assim como a doutrina social da Igreja, do Rerum Novarum (1891) até Ratzinger (Bento XVI).
Foi precisamente no momento da “reconciliação” – real ou aparente – da Igreja com o mundo moderno que apareceu uma nova forma de socialismo católico, notadamente na França, que se tornaria uma minoria consequente na cultura católica francesa. Na virada do século, vê-se florescer simultaneamente as formas mais reacionárias do anticapitalismo católico – Charles Maurras, o movimento da Ação Francesa e a ala regressiva da Igreja, que assumiriam uma parte ativa na sinistra campanha antissemita contra Dreyfus – e uma forma de anticapitalismo não menos “intransigente”, mas agora de esquerda, cujo primeiro representante foi o escritor dreyfusiano filosemita e socialista libertário, Charles Péguy, que tornou-se católico em 1907 apesar de jamais ter sido recebido pela Igreja. Esta corrente não era isenta de ambiguidades, mas seu engajamento fundamental era à esquerda.
A partir do fim do século XIX, e mais ainda depois da Revolução Russa, era evidente que o inimigo principal do Vaticano não era mais o “liberalismo” burguês, mas definitivamente o movimento operário socialista e, em particular, o “comunismo ateu”. Pio XII vai se distinguir neste combate, excomungando os comunistas na Itália (1948) e interditando, na França, a atividade de padres operários, excessivamente próximos da CGT (anos 1950). Woytila, João Paulo II, o papa polonês, reassumirá esta iniciativa em um novo contexto histórico.
Apesar da hostilidade romana, a esquerda católica continua a se desenvolver na Europa e ainda mais na América Latina, com o crescimento, a partir de 1960, da Teologia da Libertação. Uma das características principais desta corrente, representada por movimentos estudantis, operários e rurais, por comunidades de base, teólogos, mas também de bispos, é a condenação intransigente, moral e política, do capitalismo, em termos nos quais a influência do marxismo é visível.
Veja-se, por exemplo, a conclusão do documento Marginalização de um povo: o grito das igrejas, assinado pelos bispos e superiores de ordens religiosas da região Centro Oeste do Brasil: “É preciso vencer o capitalismo: ele é o maior mal, o pecado acumulado, a raiz podre, a árvore que produz todos os frutos que conhecemos tão bem: a pobreza, a fome, a doença, a morte. Por isso, é preciso que a propriedade privada dos meios de produção (fábricas, terra, comércio, bancos) seja superada.”[vi]
Se Paulo VI manifestou certa tolerância face à teologia da libertação, o mesmo não foi o caso dos dois pontífices seguintes: João Paulo II e Bento XVI perseguiram ativamente seus representantes, chegando a impor ao teólogo Leonardo Boff um ano de “silêncio obsequioso”.
Jorge Bergoglio, o Papa Francisco
O que esperar do Cardeal Jorge Bergoglio, eleito Pontifex Maximum em março de 2013? De fato, ele era um latino americano, o que já significava uma mudança. Mas ele fora escolhido pelo mesmo conclave que havia empossado o conservador Ratzinger, e vinha da Argentina, um país onde a Igreja não prima pelo progressismo – tendo vários de seus dignatários cooperado ativamente com a sanguinária ditadura militar. Este não foi o caso de Bergoglio – segundo certas testemunhas, ele teria até mesmo ajudado perseguidos pela Junta a se esconder ou a sair do país – mas ele também não era opositor ao regime: um “pecado por omissão”, poder-se-ia dizer. Se alguns cristãos de esquerda como Adolfo Perez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz) sempre o apoiaram, outros o consideravam como um opositor de direita ao governo dos “peronistas de esquerda” Nestor e Christina Kirchner.
Seja o que for, uma vez eleito, Francisco – o nome que ele escolheu, em referência a São Francisco, o amigo dos pobres e dos pássaros – se distinguiu imediatamente pelas tomadas de posição engajadas e corajosas. Em certo sentido ele faz lembrar do papa Roncalli, João XXIII: eleito como “papa de transição” para assegurar a continuidade da tradição, que deu início à transformação mais profunda na Igreja em séculos: o Concílio Vaticano II (1962-65). Aliás, Bergoglio tinha pensado, num primeiro momento, em assumir o nome de “João XXIV”, em honra a seu predecessor dos anos 1960.
A primeira viagem do novo pontífice para fora de Roma ocorreu em julho de 2013, no porto italiano de Lampedusa, onde chegavam centenas de imigrantes clandestinos, ao passo que muitos deles tinham se afogado no Mediterrâneo. Em sua homília, ele não temeu assumir a contracorrente do governo italiano – e de boa parte da opinião pública – ao denunciar a “globalização da indiferença” que nos deixa “insensíveis aos gritos dos outros”, isto é, ao destino “dos imigrantes mortos no mar, nestes barcos que, no lugar de serem um caminho da esperança, foram uma rota para a morte”. Ele retornaria em várias ocasiões a esta crítica da desumanidade da política europeia quanto aos imigrantes.
Quanto a América Latina, uma transformação notável também aconteceu. Em setembro de 2013, Francisco encontrou-se com Gustavo Gutierrez, o fundador da teologia da libertação, e o jornal do Vaticano, Osservatore romano, publicou pela primeira vez um artigo favorável a este pensador. Outro gesto também simbólico foi a beatificação de Dom Romero, arquiduque de El Salvador, assassinado em 1980 pelos militares por ter denunciado a repressão contra a população[1]  – um herói celebrado pela esquerda católica latino-americana, mas ignorado pelos Pontífices precedentes. Na ocasião de sua visita à Bolívia, em julho de 2015, Bergoglio prestou uma imensa e vibrante homenagem à memória de seu companheiro[2]  jesuíta, Luis Espinal de Camps, um padre missionário espanhol, poeta e cineasta, morto sob a ditadura de Luis Garcia Meza, a 21 de março de 1980, em razão de seu engajamento nas lutas sociais. Em seu encontro com Evo Morales, o presidente socialista boliviano ofereceu-lhe uma escultura feita pelo mártir jesuíta: uma cruz posta sobre uma foice e um martelo em madeira.
Em sua visita à Bolívia, Francisco visitou um Encontro Mundial de Movimentos Sociais na cidade de Santa Cruz. Seu discurso, na ocasião, ilustra a “profunda aversão” ao capitalismo da qual falava Max Weber, mas em um nível jamais alcançado por qualquer um de seus predecessores. Segue uma passagem, que se tornou célebre, desta intervenção: “Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia – um dos primeiros teólogos da Igreja – chamava de “o esterco do diabo”: reina a ambição desenfreada de dinheiro. É este o esterco do diabo. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco a nossa casa comum, a irmã e mãe terra.”[vii]
A iniciativa de Francisco encontra, como era previsível, uma importante resistência por parte dos setores mais conservadores da Igreja. Um de seus opositores mais ativos é o Cardeal norte-americano Raymond Burke, um defensor entusiasta de Donald Trump, que também entrou em contato, na ocasião de uma viagem à Itália, com Matteo Salvini, o chefe da Legga del Norte… Alguns de seus adversários acusam o novo pontífice de ser um herético, ou mesmo um… marxista disfarçado.
A Rush Linebaugh, um jornalista católico (norte-americano) reacionário, tendo o qualificado de “Papa marxista”, Francisco respondeu recusando polidamente o adjetivo, complementando que ele não estava ofendido pois “conhecia vários marxistas que eram pessoas de bem”. De fato, em 2014 o Papa recebeu em audiência dois eminentes representantes da esquerda europeia: Alexis Tsipras, então dirigente da oposição ao governo de direita de Atenas, e Walter Baier, o coordenador da rede Transform, composta por fundações culturais ligadas ao Partido da Esquerda Europeia (como a Fundação Rosa Luxemburgo da Alemanha). Nesta ocasião, decidiu-se iniciar um processo de diálogo entre marxistas e cristãos, que tomou a forma de vários encontros. Que culminaram, em 2018, em uma Universidade de Verão comum na ilha de Syros, na Grécia.
É verdade que, a respeito do direito das mulheres a disporem de seu corpo e da moral sexual em geral – contracepção, aborto, divórcio, homossexualidade – Francisco mantém suas posições conservadoras da doutrina da Igreja. Mas se vê alguns sinais de abertura, da qual o violento conflito, em 2017, com a direção da Ordem de Malta, uma instituição riquíssima e aristocrática da Igreja católica, é um sintoma gritante. O arquiconservador Grande Mestre da Ordem, o Príncipe (!?) Matthew Festing havia exigido a demissão do Chanceler da Ordem, o Barão de Boeslager, pelo terrível pecado de ter distribuído contraceptivos a populações pobres ameaçadas pela epidemia de AIDS na África. O chanceler apelou ao Vaticano, que lhe deu razão contra Festing; este – apoiado pelo cardeal Burke – recusando-se a obedecer, foi deposto de sua posição pelo Vaticano. Isso não é, ainda, a adoção dos contraceptivos pela doutrina moral da Igreja, mas é uma mudança.
Evidentemente, o Papa Francisco não tem nada de marxista, e sua teologia está bem distante da teologia da libertação sob sua forma marxizante. Sua formação intelectual, espiritual e política deve muito à teologia do povo, uma variante argentina não marxista da teoria da libertação, cujos principais inspiradores são Lucio Gera e o teólogo jesuíta Juan Carlos Scannone. A teologia do povo não reivindica a luta de classes, mas reconhece o conflito entre o povo e o “antipovo”, e faz sua a opção prioritária pelos pobres. Ela manifesta menos interesse às questões socioeconômicas que as outras formas da teologia da libertação, e uma maior atenção à cultura, e especialmente à religião popular.
Em um artigo de 2014, “O Papa Francisco e a teologia do povo”, Juan Carlos Scannone insiste, com razão, em tudo o que as primeiras encíclicas do papa, como Evangelium Gaudi (2014), devem a esta teologia popular, difamada por seus críticos de esquerda como “populista” (no sentido argentino, peronista, e não europeu, desse termo). Parece-me, porém, que Bergoglio, em sua crítica ao “ídolo capital” e de todo o “sistema socioeconômico” atual vai além de seus inspiradores argentinos. É o caso, particularmente, de seu último Encíclico, Laudato si’ (2015), que merece uma reflexão marxista.
Laudato si’
A “Encíclica ecológica” do Papa Francisco é um evento de uma importância planetária, do ponto de vista religioso, ético, social e político. Considerando a enorme influência da igreja católica, ela é uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica. Recebido com entusiasmo pelos verdadeiros defensores do meio ambiente, ela suscitou inquietude e rejeição por parte dos religiosos conservadores, dos representantes do capital e dos ideólogos da “ecologia de mercado”.
Trata-se de um documento de uma grande riqueza e complexidade, que propõe uma nova interpretação da tradição judaico-cristã – em ruptura com o “sonho prometeico de dominação do mundo” – e uma reflexão profundamente radical sobre as causas da crise ecológica. Sob certos aspectos, como por exemplo na associação inseparável do “clamor da terra” e do “clamor dos pobres”, percebe-se que a teologia da libertação – em particular a do ecoteólogo Leonardo Boff – foi uma de suas fontes de inspiração.
Nas breves notas que se seguem, procuro sublinhar uma dimensão da Encíclica que explica as resistências que ela encontrou no establishment econômico e midiático: seu caráter antissistêmico.
Para o Papa Francisco, os desastres ecológicos e a mudança climática não são unicamente o resultado dos comportamentos individuais – ainda que estes também tenham sua parte – mas sim dos “modelos atuais de produção e consumo”[viii] (26). Bergoglio não é marxista, e a palavra “capitalismo” não aparece na Encíclica… Mas continua bem claro que para ele os dramáticos problemas ecológicos de nossa época são o resultado das engrenagens da atual economia globalizada – engrenagens constituídas por um sistema global, um “sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso” (Seção 52 do documento).
Quais são, para Francisco, estas características “estruturalmente perversas”? Acima de tudo, um sistema no qual predominam os “limitados interesses das empresas” (127) e uma “discutível racionalidade econômica” (127), uma racionalidade instrumental cuja única finalidade é maximizar os lucros. Por consequência, “o princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceitual da economia: desde que aumente a produção pouco interessa que isso se consiga à custa dos recursos futuros ou da saúde do meio ambiente” (195).
Essa distorção, esta perversidade ética e social, não é mais própria a um país do que a outro, mas antes a um “sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente ligadas a degradação ambiental e a degradação humana e ética” (56).
A obsessão de um crescimento sem limite, o consumismo, a tecnocracia, a dominação absoluta das finanças e a deificação do mercado são tantas das características perversas do sistema. Em uma lógica destrutiva, tudo se reduz ao mercado e ao “cálculo financeiro dos custos e benefícios” (190). Ora, é preciso compreender que “o ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente” (190). O mercado é incapaz de tomar em consideração os valores qualitativos, éticos, sociais, humanos ou naturais, isto é, “valores que excedem todo e qualquer cálculo” (36).
O poder “absoluto” do capital financeiro especulativo é um aspecto essencial do sistema, como mostrou a recente crise bancária. O comentário da carta encíclica é radical e desmistificador. “A salvação dos bancos a todo custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reação que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo” (189).
Esta dinâmica perversa do sistema global que “continua a governar o mundo” é a razão que conduziu as Reuniões das Cúpulas Mundiais sobre o meio ambiente: “há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos” (54). Desde que os imperativos dos grupos econômicos poderosos predominem “poder-se-á esperar apenas algumas proclamações superficiais, ações filantrópicas isoladas e ainda esforços por mostrar a sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das organizações sociais para alterar as coisas será vista como um distúrbio provocado por sonhadores românticos ou como um obstáculo a superar” (54).
Neste contexto, a Encíclica desenvolve uma crítica radical face à irresponsabilidade dos “responsáveis”, isto é, as elites dominantes, as oligarquias interessadas pela conservação do sistema, em relação à crise ecológica: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos atuais de produção e consumo” (26).
Face ao dramático processo de destruição dos equilíbrios ecológicos do planeta e a ameaça sem precedentes que representa a mudança climática, o que propõem os governos, ou os representantes internacionais do sistema (Banco Mundial, FMI etc.)? Sua resposta é o suposto “desenvolvimento sustentável”, um conceito cujo conteúdo tornou-se cada vez mais vazio, um verdadeiro flatus vocis como diziam os escolásticos da Idade Média. Francisco não se ilude com esta mistificação tecnocrata: “o discurso do crescimento sustentável torna-se um diversivo e um meio de justificação que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série de ações de publicidade e imagem” (194).
As medidas concretas que a oligarquia técnico-financeira dominante propõe são perfeitamente ineficazes, como por exemplo o dito “comércio de emissões de carbono”. A crítica mordaz do papa a esta falsa solução é um dos argumentos mais importantes da Encíclica.
Referindo-se a uma resolução da Conferência Episcopal Boliviana, Bergoglio escreve: “A estratégia de compra e venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores” (171). Passagens como essa explicam o pouco de entusiasmo dos círculos “oficiais” e dos adeptos da “ecologia de mercado” (ou do “capitalismo verde”) pela Laudato si’.
Se o diagnóstico da Laudato si’ sobre a crise ecológica é de uma clareza e consistência impressionantes, as ações que ele propõe são mais limitadas. Certamente, muitas de suas sugestões são úteis e necessárias, por exemplo: “facilitar as formas de cooperação ou de organização comunitária que defendam os interesses dos pequenos produtores e salvaguardem da predação os ecossistemas locais” (180). É também muito significativo que a Encíclica reconheça a necessidade das sociedades mais desenvolvidas de “abrandar um pouco a marcha, pôr alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que seja tarde”. Em outras palavras, “chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” (193).
Mas faltam precisamente as “medidas drásticas”, como as propostas por Naomi Klein em seu livro This Changes Everything: Capitalism vs. the Climate: romper, antes que seja tarde demais, com os combustíveis fósseis (carvão, petróleo), deixando-os no subsolo. Não podemos modificar as estruturas perversas do atual modo de produção e consumo sem um conjunto de iniciativas antissistêmicas, que questionem a propriedade privada, como a das grandes multinacionais dos combustíveis fósseis (BP, Shell, Total, etc.). É certo que o papa menciona a utilidade de “grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma “cultura do cuidado” que permeie toda a sociedade” (231, p. 174), mas esse aspecto estratégico é pouco desenvolvido na Encíclica.
Ao reconhecer que “o atual sistema mundial é insustentável” (61), Bergoglio busca uma alternativa global, que ele chama de “cultura ecológica”, uma mudança que “não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” (111). Mas há poucas indicações sobre a nova economia e a nova sociedade que correspondem a essa cultura ecológica. Não se trata de pedir ao papa que adote o ecossocialismo, mas a alternativa futura permanece um tanto abstrata.
O Papa Francisco endossa a “opção prioritária pelos pobres” das igrejas latino-americanas. A Encíclica deixa isso claro, como um imperativo planetário: “nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres” (158).
Porém, na Encíclica, os pobres não aparecem como os agentes de sua própria emancipação – o projeto mais importante na teologia da libertação. A luta dos pobres, camponeses, indígenas, pela defesa das florestas, da água, da terra, contra as multinacionais e o agrobusiness, bem como o papel dos movimentos sociais, que são precisamente os principais atores da luta climática – Via Campesina, Climate Justice, Fórum Social Mundial – constituem uma realidade social pouco presente na Laudato si’.
No entanto, esse será um tema central nas reuniões do papa com movimentos populares, os primeiros da história da Igreja. Durante a Reunião de Santa Cruz (Bolívia, julho de 2015), Francisco declarou: “Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos três ‘T’ – entendido? – (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança, mudanças nacionais, mudanças regionais e mudanças mundiais. Não se acanhem!”[ix]
Obviamente, como Bergoglio enfatiza na Encíclica, a tarefa da Igreja não é substituir os partidos políticos, propondo um programa de mudança social. Por seu diagnóstico antissistêmico da crise, associando inseparavelmente a questão social e a proteção do meio ambiente, “o clamor dos pobres” e “o clamor da terra”, Laudato si’ é uma preciosa e inestimável contribuição para a reflexão e a ação no sentido de salvar a natureza e a humanidade da catástrofe.
Aos marxistas, comunistas e ecossocialistas cabe completar esse diagnóstico com propostas radicais de mudança, não apenas do sistema econômico dominante, mas do modelo perverso de civilização imposto globalmente pelo capitalismo. Propostas que incluam não apenas um programa concreto de transição ecológica, mas também a visão de uma outra forma de sociedade, além do reino do dinheiro e da mercadoria, com base nos valores de liberdade, solidariedade, justiça social e respeito pela natureza.
Tradução: Daniel Souza Pavan
Notas
[i]. WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo, trad. José Marcos Mariani de Macedo. Companhia das Letras, São Paulo, 2017; n.p. Nota de fim de livro nº 50.
[ii]. WEBER, Max. L’Éthique pritestante et l’esprit du capitalisme. Trad. Jean Pierre-Grossein, Paris, Gallimard. 2003, p.56. Tradução livre para o português.
[iii], Weber,  Histoire economique (1923),  Paris,  Gallimard, 1991,  p.375 (Tradução livre cotejada com: WEBER, Max. General Economic History. Translated by: Frank H. Knight P.h.D. The Free Press, Glencoe, Illinois, 1927
[iv]. ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. O Manifesto do Partido Comunista. Trad. Sérgio Tellarori. Companhia das Letras, São Paulo, 2012; n.p.
[v]. VON BAADER, Johannes. “Über des dermalige Missverhältnis der Vemögenslosen oder Proletairs..” (1835), in G.K Kaltenbranner (ed.), Sätze zur Erotische Philosophie, Frankfurt, Ihsel Verlag, 1991, p.181-182, 186.
[vi]. Los Obispos Latinoamericanos entre Medellin y Puebla, San Salvador, UCA, 1978, p.78. Tradução livre para o português da tradução pelo autor para o francês.
[viii]. Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco Sobre o Cuidado da Casa Comum. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html> acesso em 25/01/2020.


domingo, 20 de outubro de 2019

A leitura política do sociólogo Jessé Souza do filme Coringa (Joker), de Todd Phillips, com Joaquim Phoenix e Robert De Niro



Do Canal de Jessé Souza:



"Em mais um vídeo imperdível, o professor Jessé Souza faz uma leitura política sobre um dos filmes mais comentados do momento: Joker (Coringa). Com uma profunda significação política e extremamente representativo sobre o momento que o Brasil e os Estados Unidos passam na atualidade, ao romper com os estereótipos e fugir de uma visão maniqueísta proposta pelos filmes de super-heróis, Joker vem para causar um desconforto em nós, fazendo com que nosso olhar se volte para algo além das nossas próprias realidades. "ATENÇÃO: SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU O FILME, CUIDADO: ESSA ANÁLISE CONTÉM SPOLEIRS!"

sábado, 27 de abril de 2019

A nova Teoria Econômica nos EUA e crítica ao neoliberalismo à Paulo Guedes: Teoria da Moeda Moderna, por Simone Deos



Teoria da Moeda Moderna (MMT) preconiza, entre outras coisas, a questão do pleno emprego e o investibmento publico em políticas sociais como forma de aquecimento da economia e das nações e a visão crítica ao neoberalismo estilo Paulo Guedes que os ajudou a preverem cenas que levaram à triste crise de 2007/2008



Randall Wray - Foto: Reprodução vídeo redes
Enviado por Lúcio Vieira ao GGN
O canal do Bob Fernandes publicou um vídeo com entrevista com a professora do instituto de economia da Unicamp, Simone Deos. Depois, ela faz algumas perguntas ao professor Randall Wray, um dos principais estudiosos da Teoria da Moeda Moderna (MMT), que preconiza, entre outras coisas, a questão do pleno emprego e que os ajudou a preverem cenas que levaram à crise de 2007/2008. O dinheiro como uma criação do Estado, e que não parece ser funcional para o mercado geri-lo.
Simone Deos ouve Randall Wray: A nova Teoria Econômica cresce no Partido Democrata e nos EUA

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Mercedes Sosa e Beth Carvalho cantam "Eu só Peço a Deus", um hino pelo despertar das consciências, seguido por um poema de Mahatma Gandhi





Eu Só Peço a Deus....

Eu só peço a Deus Que a dor não me seja indiferente Que a morte não me encontre um dia Solitário sem ter feito o que eu queria Eu só peço a Deus Que a injustiça não me seja indiferente Pois não posso dar a outra face Se já fui machucado brutalmente Eu só peço a Deus Que a guerra não me seja indiferente É um monstro grande, pisa forte Toda foram de inocência desta gente É um monstro grande, pisa forte Toda foram de inocência desta gente Solo le pido a Dios Que la guerra que no me sea indiferente Es un monstruo grande y pisa fuerte Toda la pobre inocencia de la gente. Es un monstruo grande y pisa fuerte Toda la pobre inocencia de la gente. Es un monstruo grande, Pisa fuerte Toda la inocencia desta gente

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Roberto Requião (e seu avô, Justiniano de Mello e Silva) demonstram: O retrocesso é de 130 anos da Ponta para o Passado de Temer


Do Blog do Esmael, um texto histórico IMPERDÍVEL:

Requião: O retrocesso é de 130 anos

  




O senador Roberto Requião (PMDB-PR) mergulhou na história para provar que as “reformas” de Michel Temer provocam retrocesso no Brasil de 130 anos. O parlamentar buscou no baú o “Manifesto do Partido Operário”, de 1890, cujo autor era seu avô Justiniano de Mello e Silva, que propunha naquela época “educação integral”, “justiça gratuita”, “sobretaxação de sonegadores”, “construção de creches”, “bancos populares” e “previdência pública”.
Na contramão do que propunha o velho ativista, avô de Requião, Temer sugere que retornemos ao “estado bruto” liberal do início da República Proclamada a 15 de Novembro de 1889.
Portanto, o Brasil já experimentou um Estado Liberal como querem os golpistas e bancos privados: sem seguridade social, sem previdência, sem educação, semiescravagista.
A seguir, leia a íntegra do manifesto do Partido Operário de 1890:
Manifesto do Partido Operário
Os artistas e operários desta cidade (Curitiba, Paraná) constituíram-se em Partido, à maneira de seus colegas da capital federal (Rio de Janeiro) e de outras importantes localidades do país (São Paulo, Porto Alegre). Já à entrada, os organizadores desse auspicioso acontecimento querem expor com sinceridade e clareza os intuitos e os compromissos do Partido, que nascido das classes até ontem segregadas da comunhão política, pela privação do voto, quer agora concorrer com sua atividade inteligente e sobretudo com a probidade pessoal e política para transformar as normas seguidas pelas minorias governantes e dar ao povo genuína representação dos seus direitos e interesses.
Não há a contestar que o primeiro dever dos homens que se propõem a intervir eficazmente na direção política do Estado é proceder à arregimentação e organização sistemática de suas forças e traçar os lineamentos de seu programa, que não deve ser puramente especulativo e abstrato, mas suscetível de realização imediata ou remota, e inspirar-se na possibilidade de ação individual e comum.
Representamos, pois, aos nossos confrades, aos membros da grande associação moral que tem até hoje exercido a cultura das artes e ofícios em toda a circunscrição da pátria paranaenses, a necessidade de unirem-se para a constituição regular do Partido, criando clubes, nomeando diretórios e aderindo as bases do programa adotado pelos seus irmãos desta cidade.
Em cada cidade, vila ou paróquia, cumpre aos mais dedicados e inteligentes dos nossos colegas convocar os membros da classe operária, e eleger uma comissão diretora segundo o plano que acharem mais conveniente e mais prático. Os grupos, assim constituídos, entrarão em imediata correspondência com o Club Central, que se obriga a subordinar as suas mais importantes resoluções, principalmente aquelas que afetarem o interesse comum de representação política, à deliberação coletiva dos grêmios locais por seus delegados e comissões.
É impossível a obtenção de resultados duráveis, sem essa organização coordenada das forças operárias. Aquelas mesmas organizações, que, na falta de um alvo patriótico, elaboravam inconscientemente o despotismo pelo predomínio incontrastável de alguns indivíduos, precisavam para o sucesso de seus planos, para o bom êxito das suas operações, concentrar-se sob uma direção única, e curvar-se às injunções inflexíveis da disciplina.
Ora, nós que empreendemos a política do povo pelo povo, até este momento impraticada, senão desconhecida no Estado, teremos que vencer as mais árduas dificuldades, porque a maioria dos nossos conterrâneos ou está viciada pelos usos estabelecidos, ou não chegou ainda à compreensão dos seus verdadeiros interesses, completamente separados daqueles que têm agora prevalecido no Governo.
Assim, é imprescindível a união, a coesão, o estreitamento dos laços de solidariedade entre os membros da classe, de modo que o partido novamente criado possa, em todas as conjunturas, manter a sua autonomia, defender-se contra a exploração das velhas facções e atrair pela seriedade e constância do seu procedimento, as simpatias e mesmo o apoio da massa popular.
Se o que queremos para nós é o que exatamente deve constituir a principal preocupação do maior número, nenhum empeço se oferece a confraternização da classe operária com outras classes igualmente pungidas pelo sentimento do bem público e refratárias à inspiração dos antigos partidos.
Os industriais e comerciantes têm conosco ligações e atividades estabelecidas por tradição e sofrimento comuns. Os orçamentos da ex-província, poupando a ociosidade abastada, carregavam duramente sobre o comércio e as indústrias produzindo, consequentemente, a crise, que se pode chamar da nudez e da fome, na porção menos afortunada do povo. Os impostos lançados sem discernimento sobre os gêneros de primeira necessidade, tornaram difícil e penosa a situação do proletariado paranaense, mas também paralisaram o comércio. Quando a honrada classe comercial soltou o brado da resistência contra as extorsõe4s do fisco, subservidas pela arbitrariedade do poder público, encontrou ao seu lado esses operários e artistas, que secundaram com seus braços e a sua coragem o movimento redentor.
É que nós sabíamos ser nossa a causa propugnada pelo comércio; e aquele operário que derramou seu sangue na surpresa noturna maquinada pelo governo, foi o primeiro mártir da ideia que deve reunir num mesmo esforço todos os filhos da democracia.
Também os militares, que vibraram golpe decisivo sobre os privilégios odiosos do antigo regime, que dissolveram um Senado oligárquico, e proclamaram a igualdade política dos brasileiros, são a vanguarda gloriosa do Exército democrático, impelido à conquista de outros e não menos nobres ideais.
Não falamos dos lavradores, dos cultores do solo, porque estão em nossas fileiras e para eles se voltam nossos cuidados fraternais. Não se pode admitir, não se deve tolerar o sistema pernicioso, que perpetua o sofrimento e a miséria de uma classe numerosa, despojada da terra em benefício de um direito nominal e estéril, incompatível com a grandeza e a prosperidade do Estado.
A propriedade é, para nós, sagrada, mas este título não merece a detenção arbitrária do solo nas mãos dos indolentes, sob a jurisdição da preguiça. Proprietário é aquele que coloca a posse de seus bens, dos seus tesouros, à diligência e ao trabalho. Ora, a distribuição caprichosa, discricionária da terra pelos conquistadores não pode constituir barreira inexpugnável para impedir a ascensão da massa trabalhadora à independência e à abastança.
Ela é uma injustiça no presente, como foi uma usurpação no passado. A fatalidade histórica deve converter-se em direito para achar guarida na consciência honesta. Estados conservadores, como a Inglaterra e a Áustria, admitem a expropriação de latifúndios em proveito da cultura e não põem sob a égide das leis a propriedade territorial que permanece desaproveitada.
Os nossos compatriotas, que exercem a atividade agrícola em condições acanhadas e precárias ou que jazem na indolência por falta de terrenos apropriados à sua cultura, devem reclamar dos poderes públicos medidas protetoras do direito natural sacrificado indevidamente ao monopólio de uma minoria ociosa.
Até hoje, tinha-se como corretivo do pauperismo, infelizmente naturalizado nas terras brasileiras pela legislação do privilégio, a caridade dos ricos, a filantropia dos bons corações. É tempo de obter das leis, dos processos da política, espaço largo e franco para a organização da solidariedade econômica, para o regime social da cooperação.
Já o filósofo alemão Eduardo von Hartmann entreviu que o fim do futuro deve ser tornar inútil a beneficência privada e as obras voluntárias da caridade e substituí-las pela organização definitiva da solidariedade social sob as suas formas mais variadas.
Também a civilização industrial, que uma certa filosofia descobre envolta na penumbra do futuro, tem como base fundamental aquela necessidade que o gênio de Goethe lobrigou na urdidura moral da nossa época. Doravante, diz ele, aquele que não se volta à prática de uma arte ou ofício achar-se-á mal. O saber não é mais um recurso no turbilhão dos negócios humanos: antes que se tenha tomado conhecimento de tudo, escapa-se a si mesmo. É obedecendo a essa orientação prática, utilitária, que nós pedimos para os nossos filhos a cultura das faculdades físicas e morais, ou aquilo que Talleyrand chamava a arte mais ou menos aperfeiçoada de pôr os homens no máximo de seu valor, tanto para eles, como para os seus semelhantes.
Assim, queremos para as novas gerações uma EDUCAÇÃO INTEGRAL E POSITIVA.       
O imortal tribuno da Revolução Francesa, Mirabeau, dizia, com o ímpeto da sua eloquência, mas também com admirável critério: “Os povos livres vivem e movem-se. É de mister que eles aprendam a servir-se das forças de que recobraram o uso. A ciência da liberdade não é tão simples como pode parecer ao primeiro golpe de vista; o seu estudo exige reflexões; a sua prática, precauções anteriores; a sua conservação máxima medidas, regras invioláveis e mais severas que os caprichos mesmos do déspota.” Esta ciência é intimamente ligada a todos os grandes trabalhos do espirito e a perfeição de todos os ramos da moral.
Ora, senhores, é de uma boa educação pública somente que devereis esperar esse complemento de regeneração que fundará a felicidade do povo sobre suas virtudes, e suas virtudes sobre suas luzes.
Da boa organização da justiça depende a efetividade dos direitos, a segurança dos bens e a conservação da liberdade. Mas podemos dizer, com Bergasse, que o poder será mal organizado se os juízes não responderem pelos seus atos. Se há homens, diz esse jurisconsulto que, no exercício de seu ministério, importa cercar o mais possível da opinião, isto é, da censura da gente sã, são os magistrados: quanto maior for o seu poder, mais deve ter ao seu lado o primeiro de todos os poderes, aquele que não se corrompe nunca, o poder terrível da opinião. Fazemos votos para que o Estado organize uma magistratura eletiva e temporária; mas, antes de tudo, trabalharemos para que a justiça seja gratuita e ministrada sob a forma de JUÍZO ARBITRAL OBRIGATÓRIO.
Esta fórmula exclui absolutamente as chicanas e delongas, as rapinas e manobras criminosas usadas no fórum. Todos os processos e causas terão solução rápida e definitiva, sem que se precise recorrer aos bons ofícios da advocacia mercenária.
O advogado exercerá função pública retribuída e terá a seu cargo o exame e a fiscalização dos atos judiciais para promover a responsabilidade dos juízes prevaricadores.
Uma boa constituição do imposto deve levar com urgência algumas considerações. Ao poder Legislativo coube, é verdade, a tarefa de votar as receitas; mas como dissimular o caráter arbitrário desses orçamentos, tornados armas de arremesso contra as classes produtoras?
Muito se tem falado e escrito sobre o sistema adotado para a decretação do imposto.  Ele refletia o estádio de desigualdade resultante do abatimento das classes industriosas, e da predominância viciosa das oligarquias locais.
Os antigos partidos políticos não se diversificaram pelo modo de encarar a perequação das taxas orçamentais: eles chegaram a juntar-se, formar um só corpo, uma mesma unidade para abolir o importo territorial, criado mediante a enérgica intervenção de um presidente da ex-província. Também, desde então, ao comércio e à parte menos abastada da população coube o encargo insuportável, que ainda infelizmente perdura.
Além da reforma profunda que se faz necessária nesse ramo da pública administração, -o qual lembra a opinião da condestável de Bourbon sobre a conveniência de sobrecarregar os vilões, para que eles não se tornem insolentes- convém não esquecer um dos processos formais hoje recomendado pelos economistas práticos, a ESPECIALIZAÇÃO DO IMPOSTO.
Não há conveniência no votar em globo as taxas do orçamento.
A cada serviço deve ser afetada a quota de imposição: de modo que os contribuintes vejam quando esta é excessiva, e possam fiscalizar a respectiva aplicação. Determinados os serviços, e a retribuição que lhes deve ser eferente, tem-se facilitado a intervenção do juízo público na distribuição e aplicação da renda.
Os atenienses, dizia Pierre Leroux, na sua Enciclopédia Nova, tributários de Creta, enviavam a cada ano um certo número de virgens ao terrível Minotauro; no meio de nós, as classes pobres pagam o mesmo tributo. Donde saem, eu vo-lo pergunto essas desgraçadas mulheres que reproduzem, nas sociedades modernas, depois de dezoito séculos de cristianismo, o que a escravidão e a licença do paganismo tiveram de mais terrível e mais impuro?
Elas saem das fileiras do povo, é um tributo que o povo paga por si só.
               A situação, que aí ficou esboçada, traz-nos à memória outras não menos tristonhas e dolorosas.
A orfandade representa o maior contingente dado às misérias sociais. As crianças, privadas da proteção dos seus genitores, e mesmo aquelas que são equiparadas aos órfãos, por provirem de um comércio ilegítimo, são recolhidas, a cada passo, por almas caridosas que as reduzem à escravidão. Nada aprendem, e crescem como alguns vegetais, no seio do lodaçal, sob os miasmas da depravação moral. Dessa classe desgraçada saem as prostitutas e os escravos, destinados substituir os que escapram ao domínio senhorial.
Orfar um menino é freasse que vemos sempre repetida pelos nossos conterrâneos, e que traduz uma sujeição indigna, um comércio imoral. Houve já, entre nós, quem vibrasse o látego da exprobração pública sobre a infâmia praticada por grande número de indivíduos que veem no órfão desemparado, ou arrancado brutalmente aos braços maternos, o sucedâneo das vítimas do cativeiro.
O mal, porém, espraia-se, o infortúnio prolonga-se, a injustiça perpetua-se, sem que nós, muito ocupados com os nossos interesses, corramos em proteção dos órfãos desvalidos, dos nossos irmãos escravizados.
No seu Jornal de Instrução Social, ponderava Sieyés: “A lei social não foi feita para enfraquecer o fraco e fortificar o forte; pelo contrário, ela trata de pôr o fraco ao abrigo das empresas do forte, e, amparando com a sua autoridade tutelar a integralidade dos cidadãos, ela assegura a todos a plenitude de sus direitos. ”
Não é, desgraçadamente, essa a linfa que mana do rochedo de nossas leis e dos nossos costumes. O Paraná nem tem instituições protetoras da infância desamparada, parecendo que somos um povo sem coração.
Não é, felizmente, assim: mas urge que proclamemos a urgência de serem criados ORFANATOS, ASILOS INDUSTRIAIS E AGRÍCOLAS, INSTITUTOS DE ARTES E OFÍCIOS, CRECHES. E todos os estabelecimentos que forneçam alimento e educação às crianças miseráveis.
Na infância sofre o proletário todos os rigores da penúria e nenhuma instituição social assegura-lhe a educação, e protege-o contra a cobiça dos desalmados. Na virilidade, não dispõe de instrumento de crédito, para enfrentar as crises do trabalho e estabelecer a sua própria atividade. Na velhice, nas enfermidades, só resta-lhe o consolo de morrer ignorado, quando não lega à esposa e aos filhos menores as torturas da miséria. Tais circunstâncias denunciam a insuficiência da nossa ferramenta econômica, e a imprevidência a que habituamos, quando podíamos ter BANCOS POPULARES, COOPERATIVAS, INSTITUIÇÕES DE PREVIDÊNCIA
O serviço dos seguros, diz um escritor contemporâneo, tornar-se-á a função por excelência do Estado, o emblema da proteção coletiva sobre o indivíduo, proteção que não se manifestará mais senão por benefícios e que escudará a liberdade. É certo que tal serviço, completando a organização do trabalho e do escambo, acabará de extirpar da sociedade a hedionda miséria, e tirará toda razão de ser às grandes fortunas, às grandes acumulações de capitais, que sempre têm por origem o desejo louvável de se porem os indivíduos, por si e por suas famílias, ao abrigo dos acidentes imprevistos e da pobreza extrema.
Não se pode pôr em dúvida a influência do trabalho, quer sobre a moral dos indivíduos, quer relativamente ao destino das nações. Não somente os trabalhos manuais tendem ao aperfeiçoamento físico e intelectual, como apresenta a grande vantagem moral, apontada por C. Marcel, de formar um laço de simpatia entre o homem rico e o proletário, lembrando a ambos que o labor é uma condição da vida humana.
Trabalha! dizia Focílides, tu deves pagar a vida pelos teus trabalhos.
O preguiçoso rouba a sociedade.
Tão severo pensamento foi expresso por Louis Blanc, quando fulminou este anátema: Aquele que não trabalha é um ladrão!
Para compreender o influxo do trabalho sobre as nações, basta comparar a Espanha do século 17 com o pequeno reino da Holanda, enriquecido de pujantes colônias.
A escravidão, que abastardou o caráter de nossa raça, manifestou os seus maléficos efeitos principalmente pelo horror da população livre ao trabalho manual.
Daí a decadência, o declínio rápido e assustador da raça nativa e a supremacia moral que vão conquistando sobre os nossos compatriotas os estrangeiros imigrantes.
Uma política, de curto fôlego e braços paralíticos, acharia remédio contra o fenômeno acusado, no fechamento dos nossos portos à entrada dos europeus. Mas nós veríamos que essa terapêutica insensata não levaria a nada. Para tentarmos a concorrência com os estrangeiros, precisamos enrijar os músculos e a fibra moral da nossa nacionalidade. De uma bem ponderada organização de trabalho, é que depende essencialmente, senão a superioridade, pelo menos o equilíbrio entre faculdades e aptidões que não se distanciam pela vigorescência. O contato social com os alemães, italianos, e polacos advertiu-nos, por certo, da insuficiência dos nossos processos industriais, da imperfeição dos nossos instrumentos de trabalho. Disputamos o idioma oficial, e nisto temos razão; mas é preciso notar que a linguagem, o traço por excelência característico da personalidade, é um dom, que se deteriora ou se perde, quando nos despojamos de outros atributos que nos permitem reagir sobre o mundo exterior. O povo que pode impor a sua língua, é precisamente o mais ricamente dotado pela natureza, o mais capaz pelos seus esforços de conquistar o primeiro plano no cenário das épocas.
Se não evitarmos os delíquios e as síncopes do cérebro e dos músculos seremos condenados à vergonha de recorrermos a línguas peregrinas para emitir as nossas ideias e sentimentos.
Conta-se que os fidalgos arruinados da Polônia punham-se ao serviço dos grandes, preenchendo sem escrúpulo os ofícios domésticos menos honoríficos; mas eles não sacrificavam, em caso algum, a distinção de apanharem bastonadas deitados sobre uma almofada. Aqueles brasileiros que na adoção oficial do seu idioma veem o melhor título de superioridade sobre os estrangeiros, bem podem ser equiparados aos gentis-homens empobrecidos da Polônia.
Que fazer contra o mal que denunciamos? Atrair pela educação, doméstica e oficial, as novas gerações aos labores da oficina. Criar o ensino técnico profissional, animando honrando, recompensando todas as atividades úteis, fomentando os progressos da agricultura e da indústria, por todos os meios, com sacrifício embora de tudo mais. Nobilitando a classe operária, pela admissão dos seus membros mais capazes, aos cargos eletivos, pela sua participação à responsabilidade do governo. Cá em baixo, nas camadas ínfimas, borbulham as fervências da civilização nova, da política salvadora da nossa raça, do futuro brasileiro.
Que aos meios substantivos, dependentes da educação, da transformação dos hábitos se juntem os acessórios entre os quais se compreendem EXPOSIÇÕES INDUSTRIAIS E ARTÍSTICAS, EXPOSIÕES AGRÍCOLAS, PERMANENTES, PRÊMIOS PARA O TRABALHO.
Não podemos prescindir do processo remuneratório, de um bom sistema de recompensas para aliciar ovos recrutas que venham consolidar as falanges das artes manuais, do comércio, da agricultura e da indústria. Também a legislação penal deve ser profundamente modificada, no sentido de aproveitar, pela escola e pela oficina, os menores delinquentes. Os estabelecimentos da Bélgica, da Holanda e da Alemanha, que se destinam à moralização das crianças maculadas pelo delito, não acharam ainda imitação e talvez sejam desconhecidos em nosso país.
Quanto à legislação civil, muito há que polir, que remodelar. O capítulo das sucessões deve ser modificado conforme o voto da escola racionalista. Há longos anos, diz Stuart Mills, Bentham e outras autoridades imponentes reuniram-se nesta opinião que se não existissem herdeiros na linha descendente ou ascendente, a propriedade, em caso de intestato, deveria pertencer ao Estado.
Relativamente aos graus mais afastados de parentesco colateral, este ponto quase que não pode ser contestado. Poucas pessoas sustentarão que haja alguma razão sólida para que as economias de um avarento sem filho, vão, pela morte deste, enriquecer um parente afastado, que nunca o viu, que talvez ignorasse a existência de um tal parentesco até o dia em que lhe adveio o proveito inesperado, ao qual tem tanto direito como qualquer estranho. Mas a razão aduzida neste caso aplica-se igualmente a todos os colaterais, mesmo no grão mais próximo. Os colaterais não têm direito algum real, exceto na hipótese em que o podem ter indivíduos, não parentes: e nos dois casos, quando há direitos a maneira conveniente de recompensar é deixar um legado. ”
Se eu devesse formular, acrescentar o exímio economista, um código de leis conforme ao que me parece melhor em si mesmo, sem tomar em consideração opiniões e sentimentos atuais, preferiria limitar, não a quantidade do que cada indivíduo poderia legar, mas aquela que seria permitido a cada um de adquirir, por legado ou por herança. A pessoa teria o poder de dispor por testamento de todos os seus bens; mas não de dissipá-los para enriquecer um ou alguns indivíduos além de certo maximum que seria fixado na proporção suficiente para oferecer os meios de viver numa independência confortável.
As desigualdades de fortuna que nascem de uma desigualdade de indústria, economia, de perseverança, de talento, e mesmo numa certa medida, de ocasiões favoráveis, são inseparáveis do princípio da propriedade privada, e se aceitamos o princípio, devemos sofrer as consequências; mas não vejo nada de censurável no fato de fixar um limite ao que um indivíduo pode adquirir graças ao simples favor dos seu semelhantes, sem ter feito emprego algum das suas faculdades; e em pedir que este indivíduo, se deseja aumentar a fortuna, trabalhe para este fim.”
Pode-se objetar contra a doutrina exposta por Stuart-Mill, a possibilidade da fraude. Mas basta considerar o que acontece com a partilha obrigatória, para crer na eficácia da limitação proposta. Seria útil semelhante providência, desde que a opinião pública desse-lhe completo assentimento, promovendo-lhe a fiel execução. Evitaríamos o espetáculo dessas fortunas colossais, escandalosas, que irritam as massas indigentes, e facilitam a corrupção dos pobres.
O Estado poderia dar boa aplicação às sobras dessa riqueza acumulada, custeando serviços de utilidade reconhecida e geral.
Relata Lyell, na sua Viagem a América, as magnificências da liberalidade particular em proveito de estabelecimentos nacionais. “Não existe, diz o sábio citado, lei obrigatória para a igual repartição dos bens, na Nova Inglaterra, nem aqui se admite o direito de substituição ou de primogenitura. As pessoas ricas sentem-se livre de dividir a sua fortuna entre os parentes e o estado.
Ali é impossível fundar uma família, e os pais têm muitas vezes a felicidade de ver todos os seus filhos bem providos e numa posição independente muito tempo antes da sua morte. Eu vi uma lista de legados e doações, feitos durante estes trinta últimos anos em proveito de instituições religiosas, beneficentes e literárias, no único estado de Massachussets: eles não se elevavam a menos de 6 milhões de dólares, isto é, mais de um milhão esterlino. ”
Parece que podemos incluir no nosso programa as seguintes reformas:
ABOLIÇÃO DO DIREITO DE SUCESSÃO NA LINHA COLATERAL
         LIMITAÇÃO DAS QUOTAS HEREDITÁRIAS PARA O CASO DAS GRANDES FORTUNAS
Deixamos de parte os conceitos que podíamos formular sobre a administração pública. Os governos sob pena de se tornarem nulos para o progresso social, devem abandonar o terreno escabroso da política, e medirem a sua ação, a sua iniciativa, pelas necessidades permanentes da sociedade.
Política e administração são ideias que se chocam e colidem, apesar da conciliação aparente que historicamente as aproxima. Mas, a mesma política partidária, embora entronizada no governo, não seria um mal irremediável, se a probidade, se o mais severo escrúpulo corrigisse as demasias da ambição pessoal, sempre pronta a esgrimir as armas do terror e da corrupção. Pensamos que já seria uma grande fortuna, achar quem poupasse os dinheiros públicos, e recuasse diante dos desperdícios como o personagem do poema grego em face dos Lostrigões.
Para aqueles que se habituaram a viver constantemente à sesta, e bebem a alegria pela taça das contribuições públicas, o melhor dos administradores é aquele que mais prodigaliza, que imita o agrônomo celeste, borrifando a natureza.
Não esqueçamos a observação de Montesquieu sobre os imperadores romanos: “Os pioresimperadores romanos foram aqueles que mais deram: por exemplo, Calígula, Claudio, Nero, Othão, Vitellio, Commodo, Heliogábalo e Caracala. Os melhores como Augusto, Vespasiano, Antônio, Marco Aurélio e Pertinax foram econômicos.”
No momento, em que nos expandíamos sobre a virtude da economia, soubemos que fora decretada pelo governo provisório a nova Constituição do Brasil. Este fato transcendente nos enche de jubilo mas leva-nos a refletir sobre a situação geral e política da nossa pátria. Dentre em breve começará o duelo, o prélio cruento das ambições, das vaidades insufladas pela esperança de sucesso.
O povo vai escolher os seus representantes ao Congresso Nacional: mas não se cogita ainda da organização política do Estado que entra em melindroso período. Os antigos partidos dispersaram-se; sinal é que não representavam senão a eternidade da tolice humana. Os homens que regiam as velhas agremiações, hoje desbaratadas, recolheram-se ao silêncio durante a fase da ditadura, não por medo mas para evitar amargos dissabores. Amanhã, porém, virão alegar os seus serviços à liberdade, ao direito dos cidadãos, eles, que vergaram ao tufão destruidor da instituição monárquica.
Qual será, diante das urnas, a atitude das classes laboriosas, sem pré despreza-las, sempre jungidas ao poste do servilismo? Aos artistas e operários, esse refugo do mercado do império resta a consolação de haver nascido no momento da morte universal…
Pela primeira vez no meio de nós ouviu-se a voz do proletário, isto é, daquele que não era nada, e aspira SER ALGUMA COISA.
Sairemos vitoriosos da luta? Galgaremos as alturas, nós que sempre vivemos na planície, longe do sol do privilegio monárquico? Não é grande infortúnio perder a batalha quando se tem a consciência do próprio valor. Mais desgraçada é a sorte daquele que não luta, porque não tem coragem, que se deixa esmagar, porque não possui a alma livre, e perdeu os foros de cidadão.
Aos artistas e operários paranaenses,
SAUDE E FRATERNIDADE
Curitiba, 22 de junho de 1890
O Relator da comissão
Justiniano de Mello e Silva
A COMISSÃO
Agostinho Leandro – Presidente
João Chrispim – Secretário
Giacomo Giordano
Carlos Gaertner
Domingos Gravine
José Jorge
Rodolpho Walvi
Bento Braga
Antonio Schneider
Miguel Berlaque
José Alexandre Marques
João Evangelista da Costa
Domingos Frizola
Pedro Falcci
Raphael Contador
João Leandro R. da Costa
João Alvim d’Oliveira
Gabriel Chorriol
Vicente F. de Araujo
Gustavo Mensing
Carlos Leinig