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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Fascistas, por Wilson Ramos Filho

 

Nos três grandes genocídios do século passado os assassinos eram pessoas de bem, pessoas normais, que apenas defendiam suas tradições


Fascistas

por Wilson Ramos Filho – Xixo, publicado no Jornal GGN

Há uma natural repulsa em admitir que o Brasil é o país com maior número de fascistas no mundo. Todavia, bem contadinho, provavelmente haja mais fascistas no Brasil atual do que havia na Alemanha no final da década de trinta do século passado.

Vocês viram o vídeo do fascista Paulo César Bezerra da Silva agredindo a músico negro? É de dar muita raiva (clique aqui para ver). O sujeito anda armado pela rua curitibana que leva o nome do socialista utópico Dr. Faivre enquanto o Neno convalesce e se recupera das covardes violências físicas e morais de que foi vítima. E a polícia civil, aparentemente, não tem pressa em investigar o caso. Marcaram a ouvida das partes apenas para março do próximo ano. Não, não é apenas mais uma evidência da vadiagem dos servidores públicos de que nos falam os neoliberais. Há uma vontade expressa de não punir o agressor fascista.

O primeiro genocídio do século passado não começou do nada, com centenas de pessoas saindo às ruas para promover a “solução final” para a “questão armênia” assassinando cristãos a marteladas e a machadadas. Primeiro houve uma morte e a Justiça turca foi leniente com o assassino. Depois vieram outros assassinatos de integrantes da minoria armênia e as autoridades turcas não puniram os agressores. A partir daí todos os que odiavam os cristãos armênios se sentiram autorizados a promover seu extermínio. A palavra genocídio foi utilizada pela primeira vez exatamente para descrever esses assassinatos em massa praticados por pessoas normais contra inimigos inventados.

O segundo genocídio, dos ciganos, dos homossexuais, dos comunistas e dos judeus, aconteceu à vista de todos, sob a égide da constituição de Weimar, com a leniência do judiciário alemão, porque as pessoas não se importaram com a escalada do ódio que compunha o ideário nazista da solução final e da supremacia da raça.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

O terceiro grande genocídio do século passado, em Ruanda, quando quase um milhão de Hutus foram assassinados a golpes de facão, pelos Tutsis, no prazo de 40 dias, só aconteceu porque os primeiros assassinatos não foram punidos. Como a polícia, o judiciário e até as forças de paz da ONU se omitiram, os assassinos, gente normal, temente a deus, se viram autorizados a promover a solução final para a questão Tutsi.

Os fanáticos patriotas que bloqueiam estradas fantasiados de véio-da-havan não são inofensivos. Aquelas velhas e aqueles velhos, hoje em surto, frequentaram o primário e o ginásio durante a ditadura militar e eram obrigados a marchar, a cantar o hino nacional, a adorar a bandeira positivista, a fazerem ordem unida nos colégios públicos e privados semanalmente. Aquelas práticas aparentemente inofensivas, fomentadoras do civismo e do patriotismo, deixaram sequelas nesta gente. É como se não tivessem amadurecido apesar da velhice, como se tivessem sido condenados a viver eternamente em um ambiente de quinta série, infantilizados, birrentos, mas são todos, em maior ou menor grau, potencialmente violentos.

Os sequelados mentais que tomam chuvas acampados em frente aos quartéis rezando para extraterrestres, ou para um deus visivelmente impotente, rogando aos céus e às galáxias onde orbita nosso plano planeta por um golpe militar que lhes restitua a ditadura de suas infâncias, não são menos violentos que os seus predecessores nas defesas de soluções finais contra seus inimigos inventados.

Nos três grandes genocídios do século passado os assassinos eram pessoas de bem, pessoas normais, que estavam apenas defendendo suas tradições ou uma determinada maneira de existir em sociedade. Eram pessoas ordinárias como estas que fazem bloqueios nas estradas, que cantam hino para pneus, que sinalizam com a lanterna do telefone celular para discos voadores, que oram aos berros para surdos deuses provavelmente inexistentes, que marcham soldado-cabeça-de-papel, que são motivos de escárnio internacional. Pessoas normais, mas em delírio coletivo, praticando conscientemente ilegalidades.

Os que assassinaram ou os que não se importaram muito com o extermínio de cristãos armênios, de judeus, de homossexuais, de ciganos, de comunistas ou de pessoas da etnia tutsi, não eram muito diferentes da Polícia Rodoviária Federal que decidiu prevaricar, do PM nazista ou do seu filho de 16 anos branquelo que assassinou 4 pessoas e feriu outras nove na escola com a arma do pai, ou dos jornalistas do Jornal Estado de São Paulo que intencionalmente alteram os fatos estampando a foto de uma mão negra empunhando um revólver para ilustrar assassinatos praticados pelo mencionado jovem branco. Não eram também muito diferentes do empresário sonegador de Volta Redonda que agrediu Gilberto Gil no Catar, do fascista curitibano que bateu com um cassetete no músico negro curitibano porque ele é negro, ou dos terroristas vagabundos do agronegócio que promovem bloqueios das estradas por não se conformarem com o resultado das eleições e que inventam inimigos imaginários para aglutinar outros fascistas para seus atos de vandalismo.

Caso os ministérios públicos estaduais e as magistraturas estaduais não estejam integralmente dominados pela Direita Concursada (uma gente ruim que usa seus cargos para preservar suas sinecuras e seus privilégios de classe), talvez alguns desses fascistas, inclusive seus financiadores, sejam exemplarmente punidos. Esperamos que sim. A democracia brasileira depende disto. Caso contrário, como na Turquia, na Alemanha e em Ruanda, os fascistas brasileiros se sentirão autorizados a avançar sobre os vencedores nas eleições deste ano, sobre seus inimigos imaginários e sobre o que ainda resta de institucionalidade em nosso país.

Xixo, 28 de novembro de 2022

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Militarismo e religião sem espiritualidade, mas sedenta de poder, são duas bolas de ferro amarradas nos pés da humanidade. Texto de Laurez Cerqueira


Religião e militarismo sempre conviveram de mãos dadas, na manutenção da ordem que interessa aos poderosos. Uma controla o corpo e a outra a mente


Fundamentalistas  contra a menina de dez anos estuprada e engravidada pelo tio (Foto: Reprodução)


O desarmamento do mundo e o fim do militarismo poderiam ser uma utopia para o período pós-pandemia. O mundo gastou US$ 1,73 trilhão com Forças Armadas, em 2019. Somente os Estados Unidos gastaram US$ 684,6 bilhões, 39% do valor global, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Se esse imenso volume de recursos gasto na indústria da morte fosse sendo reduzido ano a ano e investido na indústria da vida, em Educação e saúde, combate à fome e à pobreza extrema, certamente a humanidade começaria a se livrar das misérias medievais.
Esse assunto não é novidade. Já foi revirado pelo avesso ao longo da história do pensamento, porém, parece que se transformou em tabu. Não se fala mais nisso, é muito pouco comentado mesmo em círculos restritos de intelectuais e acadêmicos.
A Idade Média durou mil anos e deixou para os séculos futuros heranças que impedem a humanidade de evoluir para sociedades capazes de conviver em paz, em harmonia, construídas com concórdia, verdade e fraternidade, sentimentos unificadores do ser humano. Evoluímos em muitos aspectos, mas o ódio, pai da violência, persiste, com seu dedo em riste. Nada justifica as cercas físicas, territoriais, as guerras, as cercas morais, a opressão em nome de crenças vazias.
Religiosos obscurantistas ainda hoje tentam invadir hospital para impedir que uma criança de 10 anos, engravidada por um tio, faça aborto autorizado pela justiça. Negam a ciência no combate à pandemia do Covid-19, assim como negam os avanços, por exemplo, da astronomia, da física e da genética, em pleno século XXI.
Na Câmara do Distrito Federal, o religioso deputado Rafael Prudente conseguiu aprovar um projeto de lei proibindo a nudez nas manifestações artísticas. Não se sabe até agora como ficarão, por exemplo, as obras do escultor Ceschiatti, distribuídas pelos palácios de Brasília, com exuberante erotismo, como “Contorcionista”, no hall do Teatro Nacional, a estátua da Justiça, com suas avantajadas mamas, na frente do Supremo Tribunal Federal, “As Irmãs”, no Itamaraty, e outras obras, agora sob censura.  Esse senhor não poderia ir a uma tribo de índios recém contatados, nem, por exemplo, visitar o museu do Louvre, em Paris, ver telas de Rafael Sanzio, esculturas de Michelangelo, enfim, por ser uma pessoa de mentalidade medieval.
Impérios religiosos transnacionais foram criados, apoiados em crenças tenebrosas, moral opressiva, bárbara, com suas histórias manchadas de sangue, por práticas de torturas, mortes e perseguições a quem ousasse ou ouse, ainda hoje, discordar das imposições de igrejas.
Religião e militarismo sempre conviveram de mãos dadas, na manutenção da ordem que interessa aos poderosos. Uma controla o corpo e a outra a mente. Aqui foi assim, quando os portugueses atracaram as naus nas praias do sul da Bahia, os índios estavam nus, nas areias brancas, em perfeita harmonia com a natureza.
As primeiras providências dos navegantes foram celebrar uma missa, catequizar, instalar o deus único e a culpa no coração dos índios, para que, com medo do pecado, aceitassem a dominação. Taparam as genitais dos índios com roupas. Para dominar, as religiões vão direto ao sexo, proíbem. Escravizados, açoitados, torturados, os índios viram nações inteiras serem exterminadas e até hoje são mortos para tomarem-lhes as terras onde sempre viveram.
O mundo gasta centenas de bilhões de dólares dos contribuintes com academias militares e armas, para atacar o "inimigo externo e interno", ensinar a matar, lançar bombas incendiárias sobre escolas, famílias indefesas, como os Estados Unidos fizeram no Vietnam, e também para varrer do mapa cidades com bombas atômicas, como em Hiroshima e Nagasaki, como os mesmos Estados Unidos fizeram na Segunda Guerra Mundial e tantas outras atrocidades praticadas pelo militarismo.
Impedem a democracia de prosperar com mentiras e golpes, implantam a ferro e fogo regimes ditatoriais, torturam, matam, perseguem, privam de liberdade quem pensa diferente, todas essas barbaridades em nome da ordem.
Guardadas as devidas exceções, as academias militares têm formado monstros assassinos com dinheiro público e têm os Estados Unidos como referência de militarismo. Um país que nasceu com a mão no coldre, pronto para matar.
O governo Bolsonaro anunciou que vai tirar R$ 242 bilhões da educação e da saúde e anunciou que vai dar às Forças Armadas (indústria da morte) R$ 9,2 bilhões para comprar armas, em plena devastadora pandemia. Num momento em que, segundo o IBGE, o Brasil aumentou a pobreza, chegando a 52,5 milhões de pessoas passando o dia com R$ 7,70.
Deu aos militares R$ 26,5 bilhões de bonificação, um reajuste de 73%, com acréscimo anual. A União bancou R$ 121,2 mil, em 2019, para cada aposentado das Forças Armadas, 17 vezes o de aposentados do INSS, quase o dobro da despesa por servidor público (R$ 71.600 mil) e (R$ 6.900 mil) para os aposentados do setor privado.
No governo Bolsonaro, o aumento de gastos com o Ministério da Defesa é maior que os dos ministérios da Educação, Saúde, Agricultura e Relações Exteriores. A maior parte dos gastos é com a folha de pagamento dos militares.
Leon Tolstoi, na sua magnífica obra Guerra e Paz, dizia que todas as formas de violência são igualmente más. Não só a guerra, mas todas as formas de compulsão inerentes ao Estado são criminosas. Dizia ele que o verdadeiro cristão deve abster-se de participar das funções do Estado e que a ordem social só poderá melhorar quando todos os homens e mulheres tiverem aprendido a amar-se uns aos outros.
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