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sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

'O Horror! O Horror!' o Apocalypse Now revisitado na Palestina torturada e violentada por Israel em artigo de Pepe Escobar, jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

 "Basta ligarmos nosso smartphone para acompanhar um genocídio ao vivo, 24 horas por dia em 7 dias da semana, até mesmo em HD", diz Pepe Escobar

Faixa de Gaza. Foto: Mohammed Al-Masri / Reuters

Faixa de Gaza. Foto: Mohammed Al-Masri / Reuters

Joseph Conrad uma vez disse que, antes de ter ido ao Congo, ele era um animal simples. Foi em uma daquelas terras parcialmente mapeadas pela crueldade e hipocrisia do ethos imperial que Conrad descobriu o colonialismo europeu em sua encarnação mais terrível e não-diluída, devidamente descrita em Heart of Darkness - Coração das Trevas em português – um dos grandes épicos conscientizadores da história da literatura. 

Foi no Congo que Conrad, de etnia polonesa e nascido naquilo que hoje é conhecido como "Ucrânia", então controlada pela Polônia, que só começou a escrever em inglês ao vinte e três  anos, perdeu para sempre qualquer ilusão relativa à missão civilizadora de sua raça.  

Outros europeus eminentes de seu tempo também tiveram a experiência ininterrupta desse mesmo horror – participando no Grande Show da Atrocidade Conquistadora, ajudando a Metrópole a esmagar e saquear a  África; usando o continente como pano de fundo para suas mortíferas aventuras juvenis e seus ritos de passagem, ou apenas testando seu ardor ao "salvar" as almas dos nativos.  

Eles atravessaram o selvagem coração do mundo e fizeram fortuna, construíram reputação ou cumpriram penitência, apenas para voltar para casa para o doce conforto da inconsciência – quando não era despachados de volta em um caixão, é claro.  

Para dominar essa variedade de povos "primitivos", a Britannia substituiu o ferro e a espada pelo comércio. Como qualquer outra fé monoteísta, eles acreditavam que só havia uma maneira de ser, uma maneira de beber chá, uma maneira de jogar o jogo – fosse qual fosse o jogo. Tudo o mais era incivilizado, selvagem, brutal, no máximo oferecendo  matérias-primas e dores de cabeça agudas.

A selva interior - Para a sensibilidade europeia, o mundo subequatorial, na verdade todo o Sul Global, era para onde o Homem Branco ia para alcançar triunfo pessoal ou para a dissolução, tornando-se de certa forma "igual" aos nativos. A literatura, a partir da era vitoriana, está repleta de heróis que partem para latitudes "exóticas", onde as paixões - como as frutas tropicais – são maiores que na Europa, e as formas perversas de autoconhecimento podem ser vividas até a perdição.  

O próprio Conrad colocou seus torturados heróis nos lugares obscuros da Terra para expiar suas sombras lado a lado às sombras do mundo, longe da "civilização" e de suas punições convencionais.  

O que nos leva ao Kurtz de Coração das Trevas: ele está em uma categoria à parte porque atinge um extremo de autoconhecimento virtualmente inédito na literatura europeia, enfrentando a revelação plena da malignidade de sua missão e de sua espécie. 

No Congo, Conrad perdeu a inocência. E seu personagem principal perdeu a razão.

Quando Kurtz migrou para o cinema no Apocalypse Now de Coppola, e o Camboja substituiu o Congo como o Coração das Trevas, ele estava denegrindo a imagem do Império. Então o Pentágono mandou um intelectual-guerreiro para matá-lo, o Capitão Willard. Coppola retratou o espectador passivo Willard como ainda mais insano que Kurtz: e foi assim que ele conseguiu o desmascaramento psicodélico de toda a farsa do colonialismo civilizador.

Hoje não precisamos embarcar em um barco ou em uma caravana em busca da nascente dos rios nevoentos para viver a aventura neoimperial. 

Basta ligarmos nosso smartphone para acompanhar um genocídio ao vivo, 24/7, até mesmo em HD. Nosso encontro com o horror... o horror  – tal como imortalizado pelas palavras de Kurtz em Coração das Trevas – pode acontecer ao fazermos a barba de manhã, praticarmos Pilates ou jantarmos com amigos.

E da mesma forma que Coppola, em Apocalypse Now, temos a liberdade para expressar um estupor moral humanista ao nos defrontarmos com uma "guerra" que é, na verdade, um massacre, e que já está perdida – em sua impossibilidade de sustentação ética. 

Hoje somos todos personagens conradianos, vislumbrando fragmentos, sombras, misturados ao estupor de vivermos em um tempo cruentamente memorável. Não há a menor possibilidade de compreendermos a totalidade dos fatos – em especial quando os "fatos" são fabricados e artificialmente reproduzidos e inflados. 

Somos como fantasmas, desta vez nos confrontando não com a grandeza da natureza, nem atravessando a densa e irreversível selva, mas conectados a uma urbanidade devastada, como num videogame, coautores do sofrimento incessante.  O Coração das Trevas está sendo construído pela "única democracia" no Oeste Asiático em nome de "nosso valores".  

Há tantos horrores invisíveis perpetrados por trás do nevoeiro, no coração de uma selva agora replicada como uma jaula urbana. Assistindo, impotentes, à matança desenfreada de mulheres e crianças, o bombardeio de saturação de hospitais, escolas e mesquitas, como se fossemos todos passageiros em um navio bêbado atirando-se em um redemoinho, admirando a poderosa majestade de toda a cena. 

E já estamos morrendo mesmo antes de vislumbrarmos a morte. 

Somos os epígonos do Hollow Men, os homens ocos de T.S. Eliot. Os gritos lancinantes vindos da selva não vêm mais de um hemisfério "exótico". A selva é aqui  – rastejando para dentro de todos nós. 

Tradução de Patricia Zimbres

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

As ruínas de Gaza e o horror da humanidade, por José Luis Fiori, Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ

 


'Os 'genocídios' da modernidade só foram reconhecidos e condenados pelos donos do poder mundial, após o seu cometimento', escreve o colunista José Luís Fiori

Exército israelense na Faixa de Gaza

Exército israelense na Faixa de Gaza (Foto: Reuters/Ronen Zvulun)

Publicado originalmente no site A Terra é Redonda

A discussão jurídica e o julgamento ético da nova “Guerra da Palestina” – que começou com o ataque do Hamas a Israel no dia 7 de outubro de 2023 – são muito importantes mas não são suficientes para explicar a especificidade e a extrema violência e inumanidade desse conflito. E menos ainda, para especular sobre os desdobramentos futuros dessa catástrofe humanitária que está em pleno curso.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o Direito Internacional reconhece a legitimidade das guerras de autodefesa de todos os povos e, portanto, também do povo de Israel; mas também reconhece o direito de todos os povos à rebelião e à guerra contra seus invasores e opressores e, portanto, também do povo palestino.

Por isto, do ponto de vista jurídico, não há definitivamente como arbitrar este conflito, porque se trata de uma disputa excludente ou de “soma-zero”, em que não existem árbitros externos que tenham competência e poder, e que sejam reconhecidos e aceitos pelas duas partes diretamente envolvidas. As próprias Nações Unidas já perderam inteiramente sua capacidade de ingerência e seu poder de arbitragem internacional, sobretudo depois que foram desmoralizadas pela decisão dos Estados Unidos e da Inglaterra de invadir e destruir o Iraque, em 2003, sem ter o aval do seu Conselho de Segurança, e baseados apenas em acusações que eles mesmos inventaram e que depois reconheceram ser falsas.

Por outro lado, do ponto de vista ético e conceitual, todos os grandes “genocídios” da modernidade só foram identificados, reconhecidos e condenados pelos donos do poder mundial, depois do seu cometimento. Como aconteceu, por exemplo, com o genocídio dos próprios judeus pelo governo da Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, que só foi “visto” e condenado pelas “potências vitoriosas” depois da guerra, em 1945. Tendo sido necessários muitos anos ou décadas mais, para que fosse reconhecida a cumplicidade dos demais países europeus, que também perseguiram os judeus, e que colaboraram com os nazistas, enviando os “seus judeus” nacionais para que fossem exterminados pelas câmaras de gás alemãs.1

Essa impotência ficou transparente no caso da recente decisão da Assembleia Geral da ONU, aprovada no dia 13 de outubro de 2023, condenando a guerra entre Israel e os Palestinos e exigindo um cessar-fogo imediato. Decisão que foi aprovada por 120 votos a favor, e apenas 14 votos contra, com 45 abstenções, mas que foi inteiramente desconhecida e desconsiderada pelos Estados Unidos e por Israel. Apesar de que tenha sido esta mesma Assembleia Geral que aprovou a Resolução n. 181, de 29 de novembro de 1947, que é considerada pelos Estados Unidos e por Israel como uma verdadeira “cláusula pétrea”, quase uma revelação divina, do direito judeu à instalação do seu novo Estado de Israel dentro do território da Palestina.

Na época, as Nações Unidas contavam apenas com 56 estados membros, e a decisão de criar Israel foi tomada por apenas 33 países que votaram a favor, contra 13 que votaram contra (incluindo todos os países árabes presentes) e 10 outros que se abstiveram, sem que tenha havido qualquer tipo de consulta ao próprio povo que vivia no território que foi entregue aos judeus. Sendo esta, sem dúvida, a causa em última instância desse conflito que já se prolonga há 75 anos, e que segue sem a menor perspectiva de algum tipo de negociação e conciliação que seja aceitável para o povo palestino.

Mesmo assim, não há dúvida que este conflito foi agravado mais recentemente pelas políticas de cerco, assédio e invasão de novas terras palestinas – sobretudo na Cisjordânia – praticada pelos sucessivos governos de Benjamin Netanyahu, que se sucedem desde 2009, e de forma muito particular, pelo seu governo atual formado em coalizão com as forças religiosas mais fundamentalistas e de extrema direita de Israel.

Benjamin Netahyahu tomou posse como primeiro-ministro, pela primeira vez, quase dois meses depois do primeiro grande bombardeio aéreo e terrestre israelense da Faixa de Gaza, que durou 21 dias e matou 1.400 palestinos e 15 israelenses no início de 2009. Benjamin Netanyahu também esteve à frente do novo bombardeio e invasão territorial de Gaza, no ano de 2014, que durou 51 dias e deixou 2.205 palestinos e 71 israelenses mortos; e mais uma vez, liderou Israel durante o conflito de maio de 2021, que durou 11 dias e matou 232 palestinos e 27 israelenses.

E agora de novo, ele tem sido o principal instigador do massacre de civis palestinos, nesta nova guerra com o Hamas, que já provocou a morte de 12.300 palestinos, com 25.400 feridos, e mais de 1 milhão de pessoas expulsas de suas casas, contabilizando-se 1.300 mortos e 5.500 feridos israelenses, até o momento. Podendo-se até imaginar que Benjamin Netahyahu e o Hamas fossem uma espécie de “inimigos siameses”, que se necessitassem e se retroalimentassem mutuamente.

De qualquer forma, esse conflito não teria alcançado a violência atual se Israel não tivesse contado com o apoio militar incondicional dos Estados Unidos, desde o momento em que os norte-americanos decidiram transformar o seu pequeno território – do tamanho de Belize – numa cabeça-de-ponte de seus interesses dentro do Oriente Médio, especialmente depois da “Crise do Canal de Suez” em 1956, e da Guerra do Yom Kippur, em 1973, mas sobretudo depois da vitória da revolução islâmica do Irã, em 1979, quando os Estados Unidos perderam um dos pilares fundamentais de sua “tutela geopolítica” do Oriente Médio, obrigando-os a reagrupar suas forças apoiando-se basicamente em Israel e na Arábia Saudita.

Mas mesmo este novo arranjo teve que ser mudado radicalmente depois dos atentados às torres de New York, de setembro de 2001, e depois do início das “guerras sem fim” dos Estados Unidos contra o “terrorismo islâmico”, no Oriente Médio. E, em particular, depois das derrotas militares ou fracassos políticos e diplomáticos norte-americanos no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e no Iêmen, que erodiram a credibilidade militar dos Estados Unidos e atingiram sua liderança numa região onde crescem cada vez mais a influência próxima do Irã e a influência distante da China e da Rússia, apoiando, evidentemente, a “desobediência” cada vez mais frequente dos países árabes com relação aos desígnios dos Estados Unidos.

Quando se tem presente este pano de fundo consegue-se compreender melhor porque o ataque surpresa do Hamas contra Israel, do dia 7 de outubro de 2023, caiu como uma bomba sobre o Pentágono, onde foi percebido como mais uma humilhação, pelo establishment militar americano. E foi exatamente o tamanho deste choque que explica o apoio imediato e incondicional do presidente norte-americano à violência e à inclemência da extrema-direita fundamentalista de Israel, dentro da Faixa de Gaza. Na verdade, esta nova Guerra de Gaza não está sendo apenas vingança de Israel, está sendo também uma vingança dos Estados Unidos.

Por isto, neste momento, os prognósticos a respeito desta guerra são muito ruins. Benjamin Netanyahu declarou recentemente que seguirá bombardeando Gaza até eliminar completamente o Hamas. Mas ele sabe perfeitamente que esta eliminação é improvável ou impossível e, portanto, sua afirmação apenas encobre sua decisão – já tomada – de continuar os bombardeios, com a destruição completa da infraestrutura física indispensável para a sobrevida da população palestina. Cabe lembrar que o mesmo Benjamin Netanyahu já comparou-se com o presidente Bush e relembrou a resposta americana aos atentados de 2001, que mataram cerca de 3.500 pessoas, através de duas guerras que mataram 150.000 afegãos e 600.000 iraquianos.

Uma comparação e uma referência que adquirem ainda maior gravidade quando se sabe que esta Guerra de Gaza é uma guerra absolutamente assimétrica, entre um Estado que é uma potência atômica, que conta com uma ajuda militar anual dos Estados Unidos, de 3,8 bilhões de dólares; e do outro, um “Estado palestino” que só consegue sobreviver graças a uma ajuda internacional filantrópica, indispensável para o funcionamento da burocracia da Autoridade Palestina na Cisjordânia, e do próprio governo do Hamas, na Faixa de Gaza.

Neste momento, só quem poderia suspender este massacre seriam os Estados Unidos, derrubando o governo de Benjamin Netanahyu. Mas é muito difícil que isto ocorra, exatamente porque o governo americano de Joe Biden está envolvido até a medula nessa guerra, apostando sua própria reeleição em 2024, e tentando recuperar seu prestígio estratégico e militar depois de sua retirada humilhante do Afeganistão, da sua provável derrota na Ucrânia, e mais ainda, depois do fracasso dos seus serviços de inteligência, que não conseguiram antecipar o ataque do Hamas a Israel.

Deste ponto de vista, se poderia dizer que os Estados Unidos estão quase “condenados” a seguir em frente, ficando cada vez mais isolados, ao lado de Israel, aumentando a aposta do seu establishment militar numa “guerra infinita” e cada vez mais violenta, na Faixa de Gaza e em todo o Oriente Médio, se for o caso. Com o perigo de que estes dois povos que se consideram “escolhidos por Deus” acabem se tornando dois povos isolados e “repudiados pela humanidade”.2 Numa espécie de inversão do mito de Babel.*José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes). [https://amzn.to/3sOZ7Bn]

Publicado originalmente na revista Observatório do Século XXI, edição de novembro de 2023.

Notas

1. Vide a pesquisa e o relato recente da perseguição judaica e da colaboração com os nazistas, da França, da Itália e de vários outros países europeus, na obra de Geraldine Schwarz, Os amnésicos. História de uma família europeia (Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2022).

2. É importante observar, nesta direção, o resultado da recente votação da Assembleia Geral das Nações Unidas, do dia 2 de novembro de 2023, condenando pela trigésima vez o bloqueio econômico à Cuba, imposto pelos Estados Unidos, que foi aprovado por 197 votos a favor e apenas 2 votos contra, exatamente dos Estados Unidos e de Israel.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

"Quem irá parar a mão assassina de Israel?", questiona Breno Altmann (que é judeu)

 

Editor do Opera Mundi defende, em artigo na Folha, boicote ao estado criminoso de Israel

Breno Altman e Benjamin Netanyahu

Breno Altman e Benjamin Netanyahu (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | Reuters)


247 – O jornalista Breno Altman, editor do Opera Mundi, defende, em artigo na Folha de S. Paulo, sanções e boicotes ao estado de Israel, que está conduzindo um genocídio e o holocausto do povo palestino. "O Estado sionista, sob pretexto de responder a ações armadas do Hamas, desencadeou novo massacre contra o povo palestino. Milhares de civis, especialmente mulheres e crianças, estão sendo triturados na Faixa de Gaza, em mais um capítulo da longa operação de limpeza étnica que se confunde com a própria existência de Israel", afirma o jornalista.

"Diante das práticas genocidas do governo Binyamin Netanyahu, a comunidade internacional está dividida e paralisada. Os EUA e seus vassalos europeus apoiam incondicionalmente o sionismo, deixando-o de mãos livres para a matança. Outras nações, incluindo o Brasil, buscam alguma solução humanitária, mas esbarram no sistema de vetos do Conselho de Segurança das Nações Unidas", acrescenta.

Breno também aponta as origens da ação do Hamas, que desencadeou o massacre em Gaza. "A situação atual não começou com os trágicos ataques do dia 7 de outubro. A condenada empreitada do Hamas foi uma reação a décadas de bloqueio e isolamento dos territórios ilegalmente ocupados, ao assassinato de milhares e milhares de civis, ao encarceramento em massa de palestinos, a uma segregação violenta e humilhante", afirma o jornalista. "O que está em curso é o confronto entre um Estado racista e colonial contra um povo que luta por sua libertação. Israel é irmão siamês da África do Sul do apartheid, ao se constituir, inclusive juridicamente, como um regime de supremacia étnico-religiosa, além de assaltar terras que jamais lhe pertenceram, delas expulsando seus genuínos cidadãos", aponta.

Breno diz ainda que os crimes de Israel exigem dos governos rupturas, boicotes e sanções contra um Estado criminoso. "A conquista de uma paz justa e duradoura, com a formação do Estado palestino, depende de o sionismo ser encurralado em todas as frentes e ser forçado a negociar", finaliza.


quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Gaza e a falência moral dos EUA e de Israel. Artigo de Aldo Fornazieri

 

Se olharmos para as sentenças morais da história de todos os tempos, não resta duvida de que o tirano, o explorador, o exterminador, o genocida será condenado

Gaza bombardeada, Benjamin Netanyahu e Joe Biden

Gaza bombardeada, Benjamin Netanyahu e Joe Biden (Foto: reuters)

247. - Quando a tempestade de bombas cessar, quando o rugido de morte dos tanques e canhões se aquietar, quando os prédios deixarem de queimar e de ruir, sobrará uma coisa. Quando as valas comuns de mulheres e crianças não forem mais visíveis, quando não existir mais terror nos olhos das meninas e dos meninos, quando o choro e os lamentos não forem mais ouvidos, quando os gemidos de dor se apagarem, sobrará uma coisa. Quando os generais tiverem sua sede de sangue saciada, quando as análises do realismo político e militar se apagarem na palidez dos tempos, quando a falha justiça dos homens estiver morta, quando Biden, Netanyahu, seus ministros e estrategistas virarem pó, sobrará uma coisa.

Sobrará o implacável juízo da História. Claro, a história pode ser escrita e reescrita, pode ser contada de várias maneiras, mas o seu juízo sempre tem um sentido universal. E no sentido universal deste juízo sobressai a sentença moral, pois é a perspectiva da humanidade, de sua construção e de sua opção que estará em jogo. Esta sentença moral será profundamente condenatória às decisões e às ações dos Estados Unidos e de Israel acerca do que fizeram, estão fazendo e farão em Gaza de modo particular e com os palestinos em geral. 

Se olharmos para as sentenças morais da história de todos os tempos, não resta duvida de que o tirano, o dominador, o explorador, o exterminador, o genocida será condenado. Os oprimidos, os explorados, os humilhados, os espezinhados, os massacrados serão louvados, porque são as vítimas. A compaixão humana sempre triunfa sobre a impiedade, embora as vítimas quase nunca triunfem sobre a crueldade dos tiranos criminosos. 

A história condenará Estados Unidos e Israel e seus atuais governantes e renderá suas homenagens aos palestinos. Não ao Hamas, mas ao povo palestino. É o povo palestino que está sofrendo as piores aflições. O Deus de Moisés mandou que este voltasse para o Egito, libertasse os hebreus, pois eles estavam sofrendo terríveis aflições. Os palestinos de hoje são os hebreus antigos. Esperam um líder, um enviado de Deus, para que os liberte da tirania dos “faraós” de Tel Aviv e de Washington. 

Ao voltar de Israel, onde foi dar apoio a Netanyahu para continuar a matança em Gaza, Biden pretendeu buscar legitimidade nos discursos fundacionais de John Winthrop. Trata-se de uma farsa: Os Estados Unidos não são mais uma cidade no alto da colina a espargir a luz da razão e da liberdade no mundo como uma lamparina. Despois da Segunda Guerra, os Estados Unidos começaram a pairar sobre o mundo como uma nuvem escura, ameaçadora da liberdade e da autodeterminação dos povos. 

Agrediram o Vietnã, incendiaram inocentes, semearam fogo, mentiram para destruir o Iraque, invadiram o Afeganistão, derrubaram governos democráticos e apoiaram ditaduras. Nessas guerras todas, os Estados Unidos já foram sentenciados e condenados pela história. Além disso, foram derrotados e voltaram para casa com os ombros cobertos de vergonha. Não aprenderam essas lições da história e agora são o escudo da brutalidade praticada por Israel em Gaza.

Desde a criação do Estado de Israel, são o escudo para que Israel desobedeça as resoluções da ONU, viole as balizas originais das destinações de territórios. São o escudo para que os judeus ortodoxos roubem as terras dos palestinos, cometam massacres e deslocamentos desses deserdados da terra. 

O conceito de “dois Estados” é uma mentira que vem sendo propagada há mais de 50 anos. Os judeus têm seu Estado e isto é correto. Mas por que, até hoje, os palestinos não têm o seu? Porque Israel e os Estados Unidos não querem. 

Biden comparou o Hamas a Putin. Deveria ter comparado os Estados Unidos com a Rússia e Putin com Netanyahu. A guerra de Gaza não é uma guerra da barbárie contra a democracia. É uma guerra por terra e liberdade contra grileiros e opressores. 

O secretário geral da ONU, António Guterres tem razão: o terrorismo do Hamas é injustificável, mas ele não vem do vácuo. A opressão imposta aos palestinos por Israel e os Estados Unidos é a causa dessa violência. Os palestinos, há mais de 50 anos, têm suas casas invadidas, suas terras roubadas, suas fontes tomadas. Não podem cultivar seus campos, colher os frutos de suas oliveiras, videiras e romãzeiras. Não podem ter paz, não podem sonhar com a paz, não podem criar seus filhos em paz, não podem sonhar com um futuro esperançoso. É neste terreno de sofrimentos e humilhações que germina o terrorismo. 

É certo que as queixas do povo palestino não justificam a violência do Hamas. Mas também é certo que o terror do Hamas não justifica o terrorismo de Estado praticado por Israel contra a população civil de Gaza. Nem o discurso do extermino do Hamas pode encobrir o massacre dos palestinos. O holocausto ensejou a criação do Estado de Israel. Mas o holocausto não legitima a história de violência que o Estado de Israel desenvolve contra os palestinos. No fundo, Netanyahu e seus ministros radicais querem exterminar os palestinos. Já vocalizaram esta intenção várias vezes. 

A destruição de hospitais, mesquitas, escolas, edifícios, bairros e cidades em Gaza precisa parar. Gaza já é um campo de concentração a céu aberto. Agora, os bombardeios impiedosos, estão transformando Gaza num grande cemitério a céu aberto. São milhões de pessoas sem comida, sem água, sem remédios.

Não podemos ficar indiferentes com o que está acontecendo em Gaza. Precisamos nos indignar e agir. Milhares de pessoas estão se manifestando pelo mundo em favor dos palestinos. O senso moral dessas pessoas e sua compaixão diante do sofrimento, dor e morte, mobilizam essas pessoas nas ruas. Querem o fim da matança e querem uma solução definitiva para a causa dos palestinos. 

Só existem três medidas justas, neste momento, em relação à guerra em Gaza: a suspensão da matança, ajuda humanitária aos palestinos e a libertação dos reféns do Hamas. O resto vem depois. São medidas urgentes, desesperadas, capazes de impedir milhares de mortes. Mas Israel e os Estados Unidos não querem estas medidas. Sem escrúpulos morais, desprovidos de valores humanistas, a história os condenará.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

Fonte do Texto: Brasil 247

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Estados Unidos se opõem à paz enquanto Israel limpa etnicamente (genocida) os palestinos. Artigo do jornalista e editor da Geopolitical Economy Report, Ben Norton

 

O plano do governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu é forçar os palestinos a irem para o deserto na Península do Sinai

Faixa de Gaza

Faixa de Gaza

Texto de Ben Norton

O governo israelense está no processo de limpeza étnica de mais de 1 milhão de palestinos, expulsando-os de suas casas em Gaza.

De acordo com altos funcionários israelenses, o plano do governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu é forçar os palestinos a irem para o deserto na Península do Sinai, no Egito, onde viverão em chamadas "cidades de tendas".

Ao mesmo tempo, Israel está bombardeando brutalmente a sitiada Faixa de Gaza - uma das áreas mais densamente povoadas da Terra.

Há até relatos de que Israel atacou comboios de civis palestinos que estavam obedecendo à ordem de evacuação e fugindo do norte para o sul da faixa de 40 quilômetros.

Enquanto isso, os Estados Unidos têm se recusado veementemente a apoiar os pedidos de paz.

Em vez disso, o Departamento de Estado orientou os diplomatas dos EUA a não mencionarem as frases "desescalada/cessar-fogo", "fim da violência/derramamento de sangue" e "restauração da calma" ao discutir Gaza, de acordo com um memorando obtido pelo HuffPost.

Em 12 de outubro, Israel ordenou que os aproximadamente 1,1 milhão de palestinos que vivem na metade norte de Gaza evacuassem para o sul.

As Nações Unidas alertaram que seria "impossível que tal movimento ocorresse sem consequências humanitárias devastadoras".

A ONU "apelo de forma enfática" para que a ordem de evacuação israelense "fosse revogada", observando que "poderia transformar o que já é uma tragédia em uma situação calamitosa".

Israel ignorou a ONU e, em vez disso, reprimiu ainda mais, bombardeando civis palestinos enquanto evacuavam.

A BBC reconheceu que o exército israelense atacou um comboio palestino, escrevendo: "Esses veículos transportavam civis que fugiam do norte de Gaza depois que as Forças de Defesa de Israel (IDF) emitiram uma ordem de evacuação".

A BBC verificou um vídeo do ataque, descrevendo-o como "uma cena de carnificina total", que "é muito gráfica para ser mostrada".

"Corpos, retorcidos e mutilados, estão espalhados por toda parte", descreveu a BBC, acrescentando que muitas das vítimas do ataque israelense eram mulheres e crianças, incluindo bebês com idades entre 2 e 5 anos.

A Associated Press confirmou o mesmo, escrevendo:

Duas testemunhas relataram um ataque a carros em fuga perto da cidade de Deir el-Balah, ao sul da zona de evacuação e na área para onde Israel disse às pessoas para fugirem. Fayza Hamoudi disse que ela e sua família estavam dirigindo de sua casa no norte quando o ataque ocorreu a alguma distância na estrada e dois veículos pegaram fogo. Uma testemunha de outro carro na estrada fez um relato semelhante.

Até 14 de outubro, Israel havia matado pelo menos 2.215 palestinos, incluindo 724 crianças e 458 mulheres, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

Outros 8.714 palestinos ficaram feridos em uma semana de ataques israelenses, incluindo 2.450 crianças e 1.536 mulheres.

Enquanto isso, altos funcionários israelenses têm utilizado retórica quase genocida.

O presidente de Israel, Isaac Herzog, declarou em uma coletiva de imprensa que o país está em guerra com a "nação inteira" de Gaza.

"É uma nação inteira lá fora que é responsável", Herzog disse, referindo-se aos palestinos.

"Não é verdade essa retórica sobre civis não estarem cientes, não estarem envolvidos. Isso é absolutamente falso. Eles poderiam ter se levantado [contra o Hamas]", argumentou, segundo informações do HuffPost.

De acordo com o jornalista investigativo vencedor do Prêmio Pulitzer Seymour Hersh, o plano de Israel é realizar uma limpeza étnica dos palestinos e forçá-los ao Egito.

Citando uma fonte anônima de alto nível, Hersh escreveu: "Fui informado por uma fonte interna israelense que Israel está tentando convencer o Catar, que, a pedido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, era um apoiador financeiro de longa data do Hamas, a se juntar ao Egito no financiamento de uma cidade de tendas para um milhão ou mais refugiados esperando do outro lado da fronteira".

Esse plano foi confirmado pelo ex-vice-ministro das Relações Exteriores de Israel, Danny Ayalon, que anteriormente atuou como embaixador de Israel nos Estados Unidos e conselheiro de política externa do primeiro-ministro de extrema-direita Benjamin Netanyahu.

Em uma entrevista com o repórter da Al Jazeera, Marc Lamont Hill, em 12 de outubro, Ayalon afirmou:

DANNY AYALON: Isso foi pensado. Não é algo que dizemos a eles, vão para as praias, se afoguem, Deus nos livre, de jeito nenhum. Há um grande gasto, um espaço quase infinito no deserto do Sinai, logo do outro lado de Gaza.

A ideia é - e isso não é a primeira vez que será feito - a ideia é que eles saiam para áreas abertas onde nós e a comunidade internacional iremos preparar a infraestrutura, sabe, cidades de tendas, com comida e água - sabe, assim como para os refugiados da Síria que fugiram do massacre de Assad há alguns anos para a Turquia; a Turquia recebeu 2 milhões deles.

Esta é a ideia. Agora, o Egito terá que colaborar aqui, porque, uma vez que a população estiver fora de vista, poderemos ir...

...

Vou lhe dizer de forma prática o que devemos fazer e o que podemos fazer: criar, como no passado, na história, um corredor humanitário.

Quando há um corredor humanitário - e temos discutido isso com os Estados Unidos - então podemos garantir que ninguém se machuque neste corredor.

Agora, novamente, digo, há uma maneira de recebê-los temporariamente do outro lado, no Sinai, porque o que o Hamas fez -

MARC LAMONT HILL: Do outro lado? Estamos falando de Rafah? Você está dizendo que do outro lado eles vão para o Egito?

DANNY AYALON: Sim, absolutamente, absolutamente. E o Egito terá que colaborar.

Enquanto Israel está realizando a limpeza étnica dos palestinos e matando um grande número de civis, os governos ocidentais têm mostrado apoio inabalável.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajaram para Tel Aviv para apoiar simbolicamente o governo de extrema-direita de Netanyahu.

O Financial Times informou que alguns funcionários da UE estão preocupados "que a presidente da Comissão Europeia possa parecer estar endossando ações militares que causarão baixas civis em massa - e que serão rapidamente rotuladas como crimes de guerra".

Um diplomata da UE não identificado disse ao Times: "Talvez estejamos prestes a ver uma limpeza étnica em grande escala" - uma clara indicação de que as capitais ocidentais sabem exatamente o que Israel está fazendo.

"Nosso medo é que pagaremos um preço alto no sul global por causa desse conflito", confessou um funcionário anônimo da UE ao jornal.

A grande maioria dos países do Sul Global apoia o povo palestino em sua luta contra o colonialismo israelense. Uma rara exceção é o governo de extrema-direita na Índia, cujo primeiro-ministro, Narendra Modi, representa um partido hindu-nacionalista vehementemente anti-muçulmano, o BJP, que vê o estado religioso etno-israelense como uma inspiração e modelo potencial para seus próprios planos de um chamado "Hindu rashtra".

Entretanto, Netanyahu sugeriu que Israel planeja escalar ainda mais sua violência extrema. Ele disse a soldados perto da fronteira de Gaza que a "próxima fase está chegando".

O exército israelense também tem atacado os vizinhos Líbano e Síria.

A Human Rights Watch confirmou que Israel usou fósforo branco em ataques tanto em Gaza quanto no Líbano. A organização de direitos humanos deixou claro que isso "coloca os civis em risco de lesões graves e de longo prazo" e "viola a proibição do direito humanitário internacional de colocar civis em risco desnecessário".

Israel também bombardeou a Síria várias vezes, incluindo o ataque ao aeroporto internacional de Aleppo.

Para os cerca de 2,3 milhões de palestinos encurralados na sitiada Faixa de Gaza, as condições são praticamente insuportáveis.

Israel cortou o acesso de Gaza à eletricidade, água, comida e combustível. A Associated Press informou que "quando a água escorre dos canos, o fluxo mínimo dura no máximo 30 minutos por dia e está tão contaminado com esgoto e água do mar que é impróprio para consumo, segundo os moradores".

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) advertiu que "as vítimas em massa são diferentes de tudo visto nos anos anteriores".

"O sistema de saúde está à beira do colapso. À medida que Gaza perde energia, os hospitais perdem energia. A água não pode ser bombeada. Os sistemas de esgoto provavelmente inundarão. As pessoas não têm para onde ir", afirmou a organização humanitária.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Violência não se justifica, mas assentamentos e histórico de violações levaram ao conflito atual, diz Celso Amorim

 

Amorim afirma que o aumento dos assentamentos israelenses, considerados ilegais e inválidos pela ONU, dificulta o avanço de um processo de paz

Celso Amorim

Celso Amorim (Foto: Agência Brasil )

247 (baseado na Folha) - O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, discutiu os recentes acontecimentos envolvendo ataques entre Israel e Faixa de Gaza em entrevista à Folha de S. Paulo. Amorim destaca a necessidade de condenação a ataques violentos, mas enfatiza a importância de não visualizar esses eventos como "fatos isolados".

Refletindo sobre os constantes conflitos na região, Amorim lembrou que eles ocorreram depois de violências contra os palestinos. "Vem depois de anos e anos de tratamento discriminatório, de violências, não só na própria Faixa de Gaza, mas também na Cisjordânia."

Ele relembra a ofensiva de Israel ocorrida em julho no campo de refugiados de Jenin. O ataque resultou na morte de ao menos oito palestinos e deixou 50 feridos, representando a maior incursão do país na Cisjordânia ocupada em quase duas décadas.

Reiterando que a violência dos ataques disparados por movimentos islâmicos não é justificável, Amorim afirma que o aumento dos assentamentos israelenses, considerados ilegais e inválidos pela ONU, dificulta o avanço de um processo de paz.

Os processos de paz foram deixados de lado pelos últimos governos israelenses, segundo Amorim, e com o aumento dos assentamentos e ataques a Gaza, isso levou a uma situação intensificada de violência.

E conclui: "O que acabou de acontecer é apenas uma demonstração, grave, com consequências, do que acontece pela perda da esperança na paz".

Israel foi atingido por um ataque de foguetes sem precedentes vindo da Faixa de Gaza no sábado pela manhã. O exército israelense disse que o Hamas disparou mais de 3.000 foguetes, acrescentando que dezenas de tropas do Hamas infiltraram áreas de fronteira no sul de Israel. Desde então, o exército israelense enviou tropas para os territórios do sul para reconquistá-los das forças palestinas e começou a realizar ataques contra as posições do Hamas em Gaza. Até o momento, os ataques do Hamas causaram a morte de 700 pessoas, enquanto a retaliação de Israel matou mais de 400 pessoas.


Jamil Chade: Abandonada por doadores, Gaza vive colapso social, fome e corte de energia

 

Sob o bloqueio de Israel há 16 anos, Gaza já vivia uma situação humanitária considerada como crítica e a pobreza e a fome dominavam seus 2 milhões de habitantes. Neste período, quatro conflitos atingiram a região. De um lado, grupos palestinos acusavam Israel de transformar Gaza em uma prisão a céu aberto. De outro, acusavam o Hamas de usar o sofrimento dos civis para justificar seus objetivos políticos.

    Segue vídeo e reportagem de Jamil Chade no UOL:


Os ataques iniciados pelo Hamas contra a Israel abrem um período de incertezas e crise humanitária para a própria população no território palestino. Nas últimas horas, as autoridades israelenses cortaram o abastecimento de energia elétrica para a região, deixando milhares de pessoas sem luz.

Desde ontem, as agências da ONU responsáveis por atender a região foram obrigadas a suspender a distribuição de alimentos, de água e mesmo a coleta de lixo. De acordo com dados oficiais divulgados pela entidade, mais de 40 escolas foram fechadas, enquanto pelo menos 20 mil pessoas buscaram abrigo em instalações da agência da ONU.

Faltam ainda recursos. Para o ano de 2023, a entidade havia solicitado ajuda de US$ 344 milhões da comunidade internacional para socorrer os palestinos. Mas recebeu menos de 20% do que foi solicitado, num sinal de que muitos dos doadores abandonaram a população de Gaza.

Sob o bloqueio de Israel há 16 anos, Gaza já vivia uma situação humanitária considerada como crítica e a pobreza e a fome dominavam seus 2 milhões de habitantes. Neste período, quatro conflitos atingiram a região. De um lado, grupos palestinos acusavam Israel de transformar Gaza em uma prisão a céu aberto. De outro, acusavam o Hamas de usar o sofrimento dos civis para justificar seus objetivos políticos.

Agora, o temor na diplomacia internacional é de que a a população local seja a principal vítima da guerra entre o Hamas e Israel.

Condenando os atos do Hamas, o coordenador da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Tor Wennesland, deixou claro que a ameaça paira sobre a população civil. "Esse é um precipício perigoso e apelo para que todos deem um passo para longe do abismo", disse.

Segundo a ONU, as taxas de pobreza na comunidade de refugiados palestinos, que constituem a maioria da população de Gaza, estão em torno de 81,5%.

O PIB per capita de Gaza - de cerca de US$ 1 mil por ano - é atualmente quatro vezes menor do que o dos países vizinhos ou mesmo o da Cisjordânia. "Essa terrível situação foi agravada por repetidos ciclos de hostilidades, tensões e violência exacerbadas, instabilidade política e a pandemia da COVID-19", afirmam as agências humanitárias da ONU.

"Juntos, esses fatores desestabilizaram a vida de indivíduos e comunidades e aumentaram ainda mais as dificuldades que eles estão enfrentando. Tendo testemunhado mortes, ferimentos e danos ou perda de propriedade causados por quatro grandes rodadas de violência nos últimos 16 anos, muitos habitantes de Gaza - especialmente crianças - apresentam sinais de trauma", destaca.

Antes mesmo dos ataques deste sábado, a ONU alertava que Gaza estava em "suporte de vida", com 80% da população dependente de assistência humanitária.

Três em cada quatro habitantes de Gaza dependem de assistência alimentar emergencial e, apesar desse apoio, a taxa de insegurança alimentar grave aumentava.

A taxa de desemprego em 2021 foi de 47%, sendo que a taxa geral de desemprego entre os jovens foi de 64%.

1,1 milhão de refugiados palestino recebem assistência alimentar da UNRWA - a agência da ONU para os refugiados palestinos, em comparação com apenas 80.000 em 2000. Esse é um aumento de 1.324%.

Entre 2007 e 2022, 292 dos poços de água em Gaza, usados para consumo doméstico e para plantações, foram danificados ou destruídos pelas forças de segurança israelenses. Oitenta e um por cento da água extraída dos aquíferos de Gaza não atende à qualidade da água da OMS.

"A população de Gaza esgotou todos os seus mecanismos financeiros de enfrentamento e a ajuda humanitária é sua principal salvação, mas não é uma solução de longo prazo", avaliava a entidade.

Antes da mais recente crise, foi determinado que uma solução viável e sustentável só seria possível com o fim do bloqueio e a abertura de oportunidades que estabelecerão as bases para o desenvolvimento econômico futuro.