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segunda-feira, 2 de março de 2020

Bolsonaro é um amotinado contra o Brasil, por Aldo Fornazieri



Todos os tiranos são fracos, são covardes, assim como os femenicidas. Não aceitam a pluralidade e a diferença. Não aceitam a condição plural do poder. Por isso são perigosos e precisam ser contidos.

Bolsonaro é um amotinado contra o Brasil

por Aldo Fornazieri, no GGN

Bolsonaro foi mau soldado e é um péssimo presidente. No Exército se amotinou contra a espinha dorsal das instituições militares: a hierarquia e a disciplina. Indisciplinado, articulou atos terroristas contra instalações do Exército e em outros locais do Rio de Janeiro, que não chegaram a ocorrer. Relatório do Centro de Inteligência do Exército o considerou indisciplinado, como alguém que prejudicou a imagem da organização militar e que agrediu a ética. Por unanimidade, o Conselho de Justificação do Exército o considerou culpado em 1988 e declarou a sua “incompatibilidade para o oficialato e a consequente perda do posto e patente…”. Por isso, foi expulso do Exército. Infelizmente, em 1990, o Superior Tribunal Militar o inocentou, ato que abriu caminho para que uma desgraça ainda maior do que a usual se abatesse sobre o Brasil com sua eleição para presidente. É  relevante notar que os documentos do Exército consideravam Bolsonaro um mentiroso.
A vida política de Bolsonaro sempre foi uma mentira. Em 28 anos de mandato parlamentar nada fez, a não ser mentir, ofender, semear preconceitos, estimular a violência, defender ditadores e torturadores. Eleito presidente pela mentira, não abandonou esses vícios antigos, renovou-os, numa continuada prática de atentar contra o bom senso, os bons modos e os sentimentos de humanidade e de civilidade.
Presidente, Bolsonaro alargou ainda mais sua degradação moral: exerce uma homofobia doentia, agride as mulheres, degrada leis e instituições para que se matem índios, pobres, negros, mulheres. Degrada leis e instituições para que se derrube a Floresta Amazônica, para que cresça a violência no trânsito, para que se solucionem os conflitos à bala.
Se no Exército violou a hierarquia e a disciplina, como presidente Bolsonaro viola a Constituição e a lei. Amotinado no Exército, agora comanda um motim contra o Brasil. Como oficial conspurcou a imagem da organização militar; como presidente, conspurca e degrada a imagem do Brasil, envergonhando todos os brasileiros que sentem um mínimo de pudor. Lá não respeitou o Exército; agora não respeita o Brasil. Lá desacatou seus superiores; como presidente, desacata o povo, as instituições e a Constituição. Mentiu no Exército, mentiu como político e continua mentindo como presidente. Ignorante, ele não faz de sua ignorância uma sabedoria humilde para buscar na prudência o aconselhamento dos que sabem. Mas transforma a sua ignorância numa catapulta para apedrejar a educação, a ciência e a cultura.
Amotinado, Bolsonaro é a encarnação do mau exemplo. Ele é o líder de policiais amotinados que tendem ao milicianismo. Ele é o arauto da indisciplina militar. Que exemplo pode dar aos soldados e oficiais? O do motim? O das intenções terroristas? Que exemplo pode dar ao povo brasileiro? O do mentiroso? O de amigo de milicianos? O do presidente que despreza os interesses do Brasil e preza os interesses de Donald Trump? O do estimulador da violência? O de comandante da barbárie social? O do chefe que destrói o futuro do Brasil e que agride as condições de vida do Planeta? Nenhum bom exemplo pode vir de sua pessoa, movido que é por alucinações doentias, atormentado por desejos de violência, impulsionado por tormentos sanguinários.
Bolsonaro parece não ser capaz de amar-se a sim mesmo e por isso odeia a humanidade. E por odiar a humanidade, não é capaz de se amar a si mesmo. Por isso não tem empatia, não sente piedade, não sente compaixão, não tem sensibilidade. Nada o comove. Move-se pelo ódio e pelo desprezo aos outros.
Recebeu da Fortuna um presente absolutamente imerecido: a presidência da República. Como presidente, continua com sorte, pois não tem oposição. Incapaz de governar, incapaz de agregar, incapaz de unir, busca culpados em todos os cantos para justificar a sua impotência, a sua incompetência. Ao invés de retribuir com trabalho os benefícios da sorte que teve, preferiu transformar o Planalto numa fábrica de crises, num púlpito de ofensas e de impropérios. Os seus discursos e as suas entrevistas são um catálogo de agressões, de estimulações da maldade.
Por não sentir empatia e piedade, Boslonaro agride cotidianamente a democracia, pois se trata do único regime que pode proporcionar a solução pacífica e justa dos conflitos humanos. Prefere a tirania no lugar do diálogo. Sonha ver montanhas de corpos massacrados no lugar de um povo unido pela paz, pela justiça, pelo progresso e pela igualdade.
Bosonaro serve os ricos, não porque quer comandá-los rumo a um projeto qualquer de construção do Brasil. Os serve porque sua mente é a de um servil, de um soldado que odeia a sua condição, de um serviçal que sabe que precisa ser servil para ser percebido. Se se sente não percebido, quer se fazer percebido pela violência.
Bolsonaro não tem nenhuma aptidão para o comando. A primeira condição para alguém comandar consiste em saber obedecer, como ensinaram os filósofos gregos. Como permanente amotinado, Bolsonaro nunca soube obedecer e por isso não sabe comandar. Existe uma diferença enorme entre saber obedecer as regras, as normas, as leis e a hierarquia e ser serviçal.
Bolsonaro é um péssimo presidente e um homem sombrio. Precisa ser parado, contido. Ele atenta contra a democracia, contra a Constituição e contra os direitos. Em que pese apelar a Deus a todo instante, é um homem sem fé. Não pode ter fé um homem que ama a violência e odeia a humanidade. Não pode ter fé um homem que libera as legiões de demônios para destruir as condições de vida no Planeta. Não pode ter fé quem despreza a floresta, os índios, os semelhantes. Não pode ter fé  aquele que espezinha os que não têm poder.
Mas aqueles que não têm poder precisam saber que os poderosos que subjugam o poder à sua vontade tirânica o fazem porque são fracos. Todos os tiranos são fracos, são covardes, assim como os femenicidas. Não aceitam a pluralidade e a diferença. Não aceitam a condição plural do poder. Por isso são perigosos e precisam ser contidos.
Insuflar o poder dos sem poder hoje (essa é a história da democracia) é insuflar vida à democracia adoentada, à igualdade distante, à justiça extraviada, à liberdade ainda não conquistada. Insuflar o poder dos sem poder é sacudir a árvore sem frutos das aristocracias burocrático-parlamentares que hoje comandam os partidos de oposição, os partidos de esquerda. Insuflar o poder dos sem poder significa lançar o fogo da reprovação aos falsos profetas que enganam os pobres da periferia para construir impérios privados de comunicação, para ter uma vida de príncipes, para viver no luxo e na luxúria. Bolsonaro, um homem sem fé, se serve desses falsos profetas. Os falsos profetas, que mantêm o povo prisioneiro do ludibrio e da manipulação, servem Bolsonaro justamente porque são falsos profetas.
Os sem poder, as mulheres, os jovens, os negros, os povos das periferias, os trabalhadores precisam insuflar seu próprio poder e se unir porque o poder estabelecido é maneiro, é cheio de mesuras, de conchavos, de enganações e por isso não contém as agressões de Bolsonaro. Os deputados desdizem hoje o que disseram ontem e dizem amanhã o que negaram hoje. As direções dos partidos e os parlamentares têm uma condição de vida bem distante daqueles que ganham um salário mínimo ou menos. Eles não serão capazes de parar Bolsonaro e de defender os direitos do povo. Somente os sem poder, insuflados em sua revolta, revoltados em suas condições de vida, cansados das falsas promessas, descrentes das instituições, desesperançados acerca do futuro, poderão parar Bolsonaro e garantir vida à democracia por mais enferma que esteja.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

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domingo, 26 de janeiro de 2020

Sobre a Lava Jato: Como uma operação que começa no Brasil leva a Petrobras a ser processada nos EUA dando início ao fim da mesma e a destruição da Enegenharia Nacional e ao Golpe antidemocrático de 2016?




Nos últimos 5 anos, a Petrobras recebeu da Lava Jato um ressarcimento de R$ 4 bilhões. Mas perdeu 4 vezes mais do que isso só em multas para evitar julgamentos em solo norte-americano
Este é o primeiro de um total de cinco vídeos que compõem a série “Lava Jato Lado B – A influência dos EUA e a indústria do compliance”
Por Luis Nassif e Cintia Alves, do GGN
A Lava Jato já foi definida na mídia internacional como uma benção e, ao mesmo tempo, uma maldição para os brasileiros.
Uma benção porque revelou o esquema de corrupção que existiu nas entranhas da Petrobras. Mas, por outro lado, a operação devastou a economia e comprometeu a democracia brasileira.
Uma presidente caiu, outro foi preso e impedido de disputar a eleição em 2018, e um terceiro chegou ao poder com a ajuda da principal estrela da operação, que depois ganhou o cargo de ministro da Justiça. Tudo porque a Lava Jato criou a tempestade perfeita que levou a política nacional ao colapso.
Nos últimos 5 anos, a Petrobras recebeu por meio da Lava Jato um ressarcimento de 4 bilhões de reais. Mas perdeu cerca de 4 vezes mais do que isso só em multas para evitar julgamentos nos Estados Unidos.
O que mais existe por trás dessa operação que rompeu fronteiras, desmontou a política do pré-sal e ameaça a estabilidade e a democracia na América Latina?
Como uma operação que começa no Brasil conseguiu colocar a Petrobras no banco dos réus nos Estados Unidos?
É o que vamos mostrar na série especial “Lava Jato Lado B – A influência dos EUA e a indústria do compliance.”

CAPÍTULO 1 – COMO A ANTICORRUPÇÃO SE TORNOU BANDEIRA POLÍTICA DOS EUA

As perdas da Petrobras nos Estados Unidos se devem à montagem de uma estrutura global dedicada ao combate à corrupção, que cresceu exponencialmente após o atentado às Torres Gêmeas, levando o País a se tornar uma espécie de polícia do mundo.
Essa estrutura foi construída a partir de três leis e duas instituições que vamos abordar neste capítulo.
As leis permitem investigações contra estrangeiros mesmo quando os crimes não têm origem nos Estados Unidos.
Já as duas instituições fundaram uma notável rede de cooperação internacional, um arranjo que alguns críticos consideram inconstitucional porque desrespeita a soberania dos estados nacionais.
LEI #1: FOREIGN CORRUPT PRACTICES ACT (FCPA), A LEI DE PRÁTICAS CORRUPTAS NO EXTERIOR
FCPA é a sigla em inglês para Lei de Práticas Corruptas no Exterior, usada pelas autoridades norte-americanas para processar empresas e pessoas de praticamente qualquer parte do mundo. Para isso, basta que o crime investigado tenha algum vínculo com o País.
Por exemplo: se o dinheiro passou por um banco norte-americano ou se a empresa investigada vende ações na Bolsa de Nova York, os Estados Unidos se julgam habilitados para agir.
Foi assim que eles entraram no escândalo da Fifa. E, além da Petrobras, também processaram a Odebrecht, a Braskem, a Embraer, a alemã Siemens, a francesa Alstom, a holandesa SBM Offshore, entre outras empresas.
“Isso é porque se passar por um banco americano vira assunto interno americano. Esse exemplo que você deu mostra a força dos EUA. Houve a denúncia da Fifa e uma das consequências disso, compra de imóveis ou transações financeiras via bancos americanos, fez com que o Departamento de Justiça ficasse autorizado a atuar dessa maneira. E eles têm uma força tal que prenderam na Suíça nacionais de outros países, inclusive do Brasil”, explica o ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa.
A FCPA foi criada no final dos anos 1970, em resposta a um esquema de corrupção envolvendo a Lockheed Martin, empresa responsável por grandes sucessos da aviação, incluindo caças da segunda guerra mundial.
Apesar de ter sido acusada de distribuir mais de 3 bilhões de dólares em propina na Itália, Holanda e Japão muitas décadas atrás, a Lockheed sobreviveu e faz parte do império militar norte-americano. O combate à corrupção não quebrou a empresa.
Hoje a FCPA é aplicada pelo Departamento de Justiça, no campo criminal, e pela Comissão de Valores Mobiliários, no âmbito civil e administrativo.
Foi por conta da atuação dessas instituições que a Petrobras assinou, em 2018, um acordo de 853 milhões de dólares com o Departamento de Justiça, para não ser julgada nos Estados Unidos, depois das revelações da Lava Jato.
LEI #2: A CONVENÇÃO DA OCDE
No final dos anos 1990, os Estados Unidos pressionaram e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, haprovou a Convenção Antissuborno.
Na prática, foi uma forma diplomática encontrada pelos Estados Unidos para levar os princípios da lei anticorrupção norte-americana a outros países.
Entre eles, o Brasil, que ratificou o acordo em 2000, se comprometendo a combater o pagamento de propina a agentes públicos em transações internacionais.
A Convenção inspirou o Brasil a criar, em 2013, a Lei 12.846, a nossa própria Lei Anticorrupção, que abriu caminho para o uso da delação premiada nos termos que transformaram a Lava Jato no que ela é hoje.
LEI #3:  SARBANES-OXLEY ACT (SOX)
No início dos anos 2000 o mundo assistiu à explosão de uma das muitas bolhas especulativas que sacudiram a economia global. Foi neste ambiente que começaram a pipocar escândalos contábeis, e um dos maiores foi o caso Enron.
O grupo gigantesco, líder em distribuição de energia, foi denunciado em 2001 por manipular o balanço com o propósito de esconder as dívidas e inflar os lucros.
As investigações respingaram em bancos e na auditoria Arthur Andersen, uma das mais prejudicadas no processo.
A condenação contra a auditoria foi revertida quando o processo chegou em tribunal superior, mas o estrago já estava feito. Os mais de 100 mil trabalhadores da empresa foram reduzidos a apenas 200 depois do escândalo.
Em 2002, foi a vez da WorldCom se envolver num julgamento que custou 30 mil empregos e mais de 100 bilhões de dólares em perda de valor de mercado.
O Congresso reagiu a esses casos que envolveram setores importantes da economia criando a Lei Sarbanes-Oxley, conhecida como SOX.
Seu objetivo é evitar a fuga de investidores por causa de crimes financeiros e contra o mercado de capitais, tudo entendido como falta de governança nas empresas.
Por isso, a lei obriga a contratação de auditorias independentes e a criação de controles internos para reduzir a ocorrência de fraudes.
Estamos falando do que pode ser considerado o embrião do compliance, uma palavra que a Lava Jato ajudou a popularizar no Brasil.
Compliance pode ser entendido como a adoção de um conjunto de regras que previnem desvios nas empresas.
Para cumprir com as determinações da SOX, a Petrobras mantém uma espécie de ouvidoria que recebe denúncias de qualquer tipo de irregularidade que possa vir a causar danos ao patrimônio da estatal ou prejuízo aos acionistas.
Foi por este canal que chegaram alertas sobre problemas em refinarias, incluindo a polêmica em Pasadena.
Como consequência da falha no controle interno, investidores estrangeiros moveram contra a Petrobras uma ação coletiva nos Estados Unidos, e conseguiram um acordo de quase 3 bilhões de dólares.
A SOX entrou em vigor pouco tempo depois do atentado das Torres Gêmeas, um acontecimento que não só mudou o conceito de segurança do Departamento de Estado norte-americano, como também fez da luta anticorrupção uma maneira de intervir na economia global.
“Acho que há uma série de fatos históricos que vai mudando. O fim da Guerra fria faz mudar, a questão do comunismo deixa de ser central, é mais uma questão de geopolítica mais ampla. O que o 11 de setembro acrescenta fortemente é a guerra contra terror, que tem uma dimensão ligada à corrupção, de certa maneira, por causa da lavagem de dinheiro”, afirmou o ex-chanceler Celso Amorim.
“Eu achava que aquele ataque às torres iriam ter profundas consequências não só na sociedade americana, mas na política externa americana. Foi isso o que ocorreu. Você teve uma psique americana que ficou alterada”, acrescentou Rubens Barbosa.
O atentado também produziu um apagão nos direitos civis depois que o governo Bush assinou um decreto batizado de Lei Patriota, em outubro de 2001.
“Eu dizia na época que era o Ato-5 dos Estados Unidos. O Ato-5 aqui foi esse Patriot Act americano, que deixava todos os direitos garantidos pelas Constituições suspensos. O governo americano poderia interferir na correspondência, endereços, e-mails, telefone, correspondências. Foi uma reação violenta”, pontuou Barbosa.
O decreto vinha com a promessa de aprimorar o combate ao terrorismo, mas na prática também acabou com freios e contrapesos que dificultam abusos nos tribunais e nas agências de segurança.
E nenhum outro setor contribuiu mais para a selvageria que se instalou no País do que a Seção de Integridade Pública do Departamento de Justiça.
INSTITUIÇÃO #1 – Setor de Integridade Pública do Departamento de Justiça
Esse departamento é uma espécie de unidade anticorrupção de elite, com dezenas de promotores encarregados de investigar autoridades públicas.
Uma das figuras mais polêmicas é Andrew Weissmann, um ex-promotor que liderou inquéritos de grande repercussão na imprensa nas últimas décadas, passando pelo caso Enron até chegar à Petrobras.
Enquanto Weismann esteve no Departamento de Justiça, técnicas nada ortodoxas foram desenvolvidas e depois incorporadas pela Lava Jato.
Como, por exemplo, o uso da mídia para escandalizar conduções coercitivas; a ocultação de provas e ameaça a testemunhas de defesa, além do uso intenso de prisões que acabam em delação premiada.
O emblemático caso Ted Stevens
Uma das mais graves violações que já ocorreram na história da seção de Integridade Pública do Departamento de Justiça atingiu o ex-senador republicano Ted Stevens.
O caso lembra um pouco o que aconteceu com o ex-presidente Lula na Lava Jato.
Stevens era o senador mais antigo dos Estados Unidos, tinha mais de 40 anos de vida pública quando foi acusado de receber milhares de dólares em presentes de um amigo pessoal, que também era sócio de uma das maiores empresas de petróleo do Alasca.
O empresário foi associado à reforma de uma cabana que pertencia a Stevens, que foi transformada num modesto chalé de dois andares no meio de uma zona florestal.
No decorrer do julgamento, descobriram que a empresa que fez as melhorias teria se aproveitado da situação para superfaturar o valor da obra.
Mas os promotores criaram outra narrativa, uma que sustentava crime de corrupção.
Stevens acabou condenado em primeira instância em 2008, e não conseguiu se reeleger. Foi o fim da sua carreira política.
O jogo só começou a virar quando um agente do FBI denunciou erros e abusos cometidos por investigadores durante o processo.
A força-tarefa escondeu provas e até testemunhas da defesa, e levou ao júri indícios de culpa que depois foram considerados uma fraude pela Justiça.
O juiz Emmet Sullivan derrubou a sentença em 2009 e mandou investigar a atuação dos promotores. Em crise, o próprio Departamento de Justiça pediu desculpas a Stevens e reconheceu que a ação da força-tarefa foi irresponsável e deveria ser apurada.
Stevens morreu num acidente de avião em 2010.
Logo depois, um dos promotores, afastado do cargo por causa dos abusos, cometeu suicídio.
Essa má conduta que marcou o caso Stevens não é exatamente uma novidade.
A operação Enron já havia inaugurado esse perfil de promotor que acredita que os fins justificam os meios.
E o fato é que investigar e punir esses desvios não é regra, é exceção.
Andrew Weissmann, por exemplo, seguiu normalmente com sua vida de estrela no Departamento de Justiça, até decidir abandonar o cargo público e retornar à advocacia privada, em outubro de 2019.
Durante anos, ele acumulou críticas de setores da mídia pelo histórico de violações.
Algumas são retratadas no livro “Autorizado a mentir”, escrito pela ex-promotora Sidney Powell.
No caso Enron, por exemplo, houve situações desumanas, como o relato de um ex-executivo que ficou trancado numa “gaiola infestada de insetos, com apenas uma fenda de luz”.
Muitos investigados enfrentaram meses de prisão e alguns, até de solitária, e receberam ameaças contra seus familiares, até decidirem cooperar com o Departamento de Justiça.
INSTITUIÇÃO #2 – DHS, o Departamento de Segurança Interna
Em 2002, depois do atentado às Torres Gêmeas, da criação da Lei Patriota e da SOX, os Estados Unidos fizeram uma outra grande mudança na estrutura anticorrupção.
Eles criaram o DHS, o Departamento de Segurança Interna, que tem um objetivo muito claro: manter a América segura.
Com orçamento estimado em 40 bilhões de dólares, as 22 agências desse departamento juntam todos os serviços de inteligência e compartilham informações obtidas através de espionagem.
Seus 240 mil funcionários são capacitados para responder à ameaça terrorista, em chamados internos, nas fronteiras ou no campo cibernético.
“Uma das razões pelas quais não foi detectado esse ataque [às torres gêmeas] é porque não havia comunicação entre os órgãos de segurança e informação. Se eles tivessem um sistema ágil de comunicação. Se tivessem melhor aparelhados… Isso é uma grande potência que tinha essas vulnerabilidades. A curto prazo foi criado o Departamento de Defesa Interna, que centralizou essas informações todas as agência americanas estão subordinadas ao Homeland Department”, comentou Barbosa.
Juntos, o DHS e a Agência Nacional de Segurança, a NSA, formam o núcleo de proteção dos Estados Unidos.
Uma das primeiras parcerias entre o DHS e as autoridades brasileiras aconteceu durante a operação Banestado, que contou com a participação do ex-juiz Sérgio Moro e de outros agentes da Lava Jato.
No capítulo 2 dessa série (assista aqui), veremos como a relação com os Estados Unidos se intensificou nos últimos anos, a ponto de respingar em interesses nacionais.
LAVA JATO LADO B (2019)
Argumento: Luis Nassif
Roteiro, pesquisa e entrevistas: Luis Nassif e Cintia Alves
Imagens e edição: Nacho Lemus
Locução: Marco Aurélio Carvalho Coordenação geral: Cintia Alves e Lourdes Nassif
Colaboradores: André Sampaio (entrevista Mark Weisbrot) e Zé Bernardes (imagens Pedro Serrano)
Agradecimento especial: Estúdio do Criar Brasil.

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domingo, 29 de dezembro de 2019

O fotógrafo mundialmente reconhecido Sebastião Salgado sobre a Direita no Poder: "Estão destruindo o Brasil"



Na entrevista de Sebastião Salgado ao Le Monde Diplomatique, o fotógrafo se manifesta em relação ao governo de Jair Bolsonaro: “O governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai e o Ibama”.



Sebastião Salgado. Foto: Reprodução

POR GUILHERME HENRIQUE
Quando estava fotografando os cantos mais inóspitos da Terra para a concepção do livro Gênesis, publicado em 2013, Sebastião Salgado ficou impressionado ao visitar a Amazônia, sobretudo no contato com algumas tribos indígenas. Naquele momento, a obra, que serviu como uma homenagem ao planeta, com imagens de lugares não modificados pelo homem, foi o ensejo para o trabalho que segue em andamento, sobre a Amazônia.
Nos últimos sete anos, o fotógrafo visitou comunidades isoladas para compreender, entre outras coisas, que não somos diferentes dos indígenas que estão na mata. “Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio”, conta.
Além do Brasil, Salgado esteve em países como Colômbia e Peru para registrar a vida de índios isolados. Sem premeditar o futuro reservado ao Brasil, o fotógrafo é dono de um arquivo com imagens que mostram uma floresta hoje aniquilada pelo fogo que consome a região nos últimos meses. A entrevista, feita antes dos incêndios, não diminui o ceticismo que o fotógrafo manifesta em relação ao governo de Jair Bolsonaro (PSL): “O governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai e o Ibama”.
Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Sebastião Salgado faz um balanço histórico da própria obra, revela influências artísticas que permearam sua trajetória e afirma que os anos dedicados à fotografia profissional estão perto do fim. “As minhas células estão morrendo.”
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Alguns trabalhos seus, como em Êxodos e Trabalhadores, mostram uma contradição entre o progresso e a extração de bens naturais. Você concorda?
SEBASTIÃO SALGADO – É a contradição da nossa espécie. Nós temos carros, casas, precisamos de bens de consumo dos mais sofisticados, e isso precisa sair de algum lugar. Nós criticamos as minas, mas também precisamos do minério de ferro, do carvão, para transformar em aço, que vão nas placas que constroem os navios, nas máquinas fotográficas. Precisamos do petróleo para o gás de cozinha. E, ao mesmo tempo, estamos criando poluição, depredando o planeta, e nossa espécie, profundamente predadora e que cresce cada vez mais, precisa sobreviver. A gente tem uma longevidade imensa. Como resolver essa contradição? Não sei.
Como você acha que a sua fotografia se insere nessa contradição?
Sou uma pessoa que teve uma formação universitária em Ciências Sociais e Economia Política, com diálogo na Macroeconomia, Finanças Públicas e Sociologia. Quase fiz parte da primeira geração que abandonou o campo e foi para a cidade. Quando eu era jovem, 90% da população vivia no campo. A minha fotografia só podia ter uma coerência com o momento histórico que eu vivi e aprendi nascido em um país subdesenvolvido. Hoje, quando vejo o conjunto das minhas fotografias, percebo que tive o privilégio de poder ter me colocado dentro do movimento da onda da história do planeta no período que vivi.
Minha primeira grande história foi na América Latina, rodando com os indígenas (Outras Américas, 1977). Fiz outro trabalho sobre o fim da mão de obra na produção industrial (Trabalhadores, 1986). Antes da grande chegada da eletrônica à linha de produção, a utilização do trabalho humano era muito densa. Fiz um trabalho sobre a reorganização da família humana, o abandono do campo para a cidade, os refugiados, imigrantes (Êxodos, 2000). A minha fotografia foi mais ou menos isso. O último grande projeto que eu fiz foi ligado à grande preocupação planetária, que é o meio ambiente (Gênesis, 2013). Hoje, estou em um trabalho grande, maior. Fiquei sete anos fotografando a Amazônia brasileira. Se você olha isso, há uma coerência de onde eu vim e no que eu fiz na vida.
Após Gênesis, que faz um retrato do planeta, o tema ambiental se mantém, em especial o índio. Por quê?
Quase todos os meus trabalhos nasceram dentro um do outro. Quando fiz Êxodos, ele nasceu do que eu havia feito em Trabalhadores. Trabalhadores era o que hoje chamamos de globalização, termo que não existia. Quando comecei a replantar um pedaço da floresta amazônica em Minas Gerais, no Instituto Terra, com a Lélia [Wanick Salgado], nasceu o projeto Gênesis e, dele, o Amazônia. Eu conheci a Amazônia durante o Gênesis e quis voltar mais profundamente.
É muito importante falar das comunidades indígenas, do respeito que devemos a elas, principalmente no Brasil. O maior componente da raça brasileira, se é que podemos falar nesses termos, é indígena. Quando os portugueses chegaram aqui, em 1500, só vieram homens. As primeiras mulheres chegaram 55 anos depois. Os indígenas tinham outra relação com o sexo, diferente do pensamento cristão. Houve uma miscigenação profunda entre portugueses e indígenas. Quando os escravos chegaram, eles foram suplantados nessa mescla entre portugueses e indígenas. O engraçado é que, ao perguntar para o brasileiro qual é a origem dele, a resposta é sempre “alemã”, “italiana”, “portuguesa”, mas quase nunca indígena.
Ao trabalhar com os indígenas você reencontra a própria espécie, e feliz do país que pode conviver com a sua pré-história. O Brasil tem pelo menos oitenta grupos de indígenas que não foram contactados, que somos nós de 20 mil anos atrás. É uma coisa fabulosa e que precisamos defender, respeitar. É fonte de cultura, ciência e sabedoria.
Você costuma dizer que as necessidades humanas são as mesmas. Isso aconteceu com os índios?
Absolutamente. Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio. Nem fisicamente nós mudamos. A nossa pequena deformação está no pé: o fato de utilizarmos sapatos deixou nossos pés finos e longos, ao passo que eles têm o pé triangular e achatado na frente.
Na coleção Photo Poche, dedicada à sua obra, o texto de abertura diz que seu trabalho “faz uma reconciliação da estética-informação, estética-engajamento e estética-política”. Você concorda? Quando você começou, o plano era englobar tudo isso?
Fotografamos com o que herdamos. A minha herança são os meus pais, a terra onde nasci, a influência das primeiras luzes que entraram no meu sistema sensitivo, a sociedade de onde venho, toda a filosofia e ideologia que carrego. Ao fotografar, naquela fração de segundos, toda essa herança se manifesta. É difícil premeditar. Na fotografia você sabe onde vai, mas nunca se sabe o que vai encontrar. É algo instantâneo, instintivo. Se você posicionar cem fotógrafos em um lugar, vão aparecer cem fotos diferentes, porque os profissionais têm origens distintas. Essa revista falou isso de mim, e está certo. Mas eu não premeditei nada, é só a minha forma de viver.
Você citou essa coisa do instantâneo. Há uma frase sua que diz que nós nunca produzimos tanta imagem, mas que nunca fotografamos tão pouco.
Tem uma diferença grande entre o que você faz nessa nova linguagem, com o celular. Isso é linguagem de comunicação: mostra o evento, a relação das pessoas no espaço. Mas isso não é fotografia, é imagem. A fotografia é a memória, o espelho de uma sociedade. É um corte representativo.
Olha as fotografias dessa exposição em Serra Pelada e você vai entender como as pessoas trabalhavam e viviam nos anos de 1980. Essa linguagem eletrônica rápida acaba se perdendo. Você muda de telefone, não guarda, apaga…Sabe quando você era pequeno e seus pais tiraram um retrato e depois você vê essa foto com a ponta quebrada? Isso é uma fotografia.
No Roda Viva de 1996, você disse que tinha muito lirismo em suas fotografias. Você recebeu um prêmio literário na Alemanha recentemente. Se suas fotos fossem versos, quais seriam?
Minha obra é profundamente barroca. Nasci no interior de Minas Gerais, no meio das montanhas, das luzes. Sou ateu e não acredito em religião nenhuma, mas aquilo que vi quando criança, toda a religiosidade, fez que minhas fotos tivessem influência do barroco.
Você já disse que o preto e branco significam a abstração da realidade e confirmam ainda mais a realidade fotografada. O que isso significa?
É uma contradição, não é? O preto e branco significa uma abstração. Toda gama de cor está dissimulada na gama de cinza. Quando comecei a fotografar, usava cores, mas aquilo me desconcentrava profundamente. Os vermelhos, verdes, os tons vivos, eles tinham uma importância enorme no momento de reconstruir a imagem. Em vez de ver a sua dignidade, a personalidade da pessoa, via a cor da cadeira.
Quando fotografo em preto e branco, tudo se transforma em cinza, e aí posso me concentrar no que realmente quero. Foi uma forma de entrar na abstração para mostrar profundamente uma realidade. As pessoas que olham branco e preto veem uma abstração, mas instintivamente há uma reposição de cor, e cada um interpreta à sua forma. As fotografias passam a ser suas também, porque cabe a interpretação de cada um a partir dessa abstração.
Você tem vontade de voltar à fotografia social ou isso é um capítulo encerrado na sua trajetória?
Voltaria, mas já estou com 75 anos. É difícil voltar para qualquer lugar neste estágio. Deixo a porta aberta para a nova geração. Não fotografo mais refugiados, mas há quem esteja fazendo isso, com um jeito diferente, acompanhando o abandono de pessoas na Síria, no Iraque, no norte da África, rumo à Europa. Mas eu já estou muito mais próximo da morte. As minhas células já estão morrendo. Se estiver tudo certo comigo, sem nenhum acidente, vivo mais uns quinze anos e daí acabou.
Mais quinze anos fotografando?
Não, vivendo. Os fotógrafos não param de fotografar. Lembro-me de ir ao México certa vez no aniversário de 100 anos do Manuel Álvarez Bravo (fotógrafo, 1902-2002). Ele me chamou para mostrar as fotografias dele. Sabe o que era? Os pés inchados dentro de uma bacia com água quente. Quando se é realmente fotógrafo, vive-se densamente o ato. Posso ter sido um fotógrafo ligado ao social e ter feito cortes representativos, mas não sou ligado a nenhum partido político, não sou militante de nada. Sou puramente fotógrafo e utilizo minha profissão para contar as histórias que enchem a minha alma, que me revoltam e me motivam.
Como tem visto o Brasil atual?
Acredito em uma forma filosófica de evolução, na dialética. Nós evoluímos por partes. Em alguns momentos negamos a evolução, para solidificar tudo aquilo que acumulamos, para saltar outra vez e evoluir de novo. Hoje, no Brasil, vivemos a negação da negação. Temos um novo governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai, o Ibama, o sistema de educação pública. Estão destruindo e sem proposta nenhuma, sem apresentar nada. É simplesmente a destruição pela destruição.
Ao mesmo tempo, está se criando uma grande reação a tudo isso. Uma resistência, um amadurecimento do povo brasileiro. É um momento difícil, mas acredito que podemos solidificar o que virá para o Brasil. Somos uma democracia jovem, que se urbanizou recentemente. A França levou quinhentos anos para se urbanizar, ao passo que aqui foram cinquenta anos, com todas as deformações que isso gera. Temos um PIB colossal, o quinto maior espaço geográfico do planeta. E mesmo assim não temos um Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo.
Estamos em um nível de desenvolvimento muito precário. Isso não significa que o país seja ruim, mas é tudo muito recente. Veja Serra Pelada, algo que aconteceu na década de 1980, contemporâneo, mas parece ser o Egito antigo. Até os anos 1990 tínhamos uma inflação absurda, interrompida no governo do professor Fernando Henrique Cardoso. O trabalhador ia ficando pobre a cada dia do mês, e toda força de trabalho dele ia para o sistema financeiro. É um roubo! Por isso temos o sistema de bancos mais sólidos do mundo, o que é uma injustiça e configura uma característica profunda do subdesenvolvimento.
Eu espero que apareçam políticos que realmente tenham consciência nacional, que entendam a sociedade, que pensem comunitariamente em direção à grande maioria e que se comportem de outra forma, não um comportamento puramente individual. Ser político no Brasil serve para garantir a sobrevivência da sua família. Aqui não se valoriza o cargo público enquanto poder institucional. Isso ainda não chegou ao Brasil, porque somos uma democracia jovem, recente, mas estou seguro de que vai acontecer.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Armando Coelho, advogado, delegado aposentado da PF e ex-representante da Interpol em São Paulo, escreve sobre " A Globo e o juizeco. Dois torpes silêncios e um só significado"


Antes falante, sorrindo até para relâmpago e luz de geladeira, o ex-juizeco tem fugido de perguntas e debates.


A Globo e o juizeco. Dois torpes silêncios e um só significado

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Melhor assim. O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu dar entrevista e a TV Globo calou. Consumado o “Ele Sim”, milicianos, golpistas, fascistas e as mulas sem partido estão em festa até hoje. Talvez para testar a temperatura política, o golpe sustou a censura. A PF até tentou melar abrindo a fala para seus cúmplices midiáticos, mas não colou. Lula falou, e quem imaginava um ser acuado e deprimido, se deparou com a jararaca viva sem perder a ternura. Indignado, revelou sua obsessão por justiça aos quatros cantos do mundo.
Houve quem se queixasse do silêncio da TV Globo e suas falanges. Mas, repercutir para dizer o quê ou encher a bola de quem? Não era matéria dela. Sem contar que Lula, nas preliminares, desceu a ripa na criminosa Orcrim Contra a Humanidade, destacando seu papel no golpe, o caráter entreguista no aliciamento explícito e implícito para levar gente às ruas com o fito de derrubar Dilma Rousseff. Aliás, ela deve estar rindo de soslaio com a prisão de Michel Temer, e pensando: o judeu que ajudou os nazistas a incinerar seus irmãos estava entre os últimos a serem queimados. Mas teve o mesmo destino dos que ajudou a queimar.
A Globo calou. Ótimo. Fiquei imaginando a emissora repercutindo, editando criminosamente as falas de Lula e colocando seus sibaritas e sacripantas para comentarem, tentando reeditar o ódio propulsor do golpe de 2014 e da fraude eleitoral de 2018. A Globo com banco de horas-ódio farto contra Lula. Há, de qualquer modo, um memorável e bem calculado silêncio, ainda que sobre isso paire mistério. Os porões do Sistema Globo guardam ossadas de golpes, falcatruas e traição à Pátria em proporções inimagináveis.
Tão bom quanto o silêncio dos Marinhos, só mesmo o silêncio do ex-juizeco de Curitiba. Vive silente sobre a bandalha na qual se meteu ao entrar no picadeiro do Palhaço Bozo. Está caladinho, vendo o Bozo dar comida aos leões.
Dar comida aos leões é expressão do próprio Bozo. Segundo ele, sem lubrificar bancadas – seja com dinheiro, cargos, verbas para emendas e ou troca-troca, as coisas não andam no Congresso Nacional. Mas, o juizeco está em silêncio e deve ganhar mais um prêmio pela condenação do Lula. Bozo acabou de anunciar que vai indicar mesmo o Marreco de Maringá para a Corte Suprema. Não obstante, o capitão do mato do golpe disse para a BBC de Londres que não houve troca-troca, pois quando começou a investigar Lula, o Bozo não era candidato.
Como assim? Em que momento a corja do poder assumiu que houve golpe no Brasil? Em que momento a súcia golpista assumiu jogo sujo em investigações, delações sob coação, votos combinados, pautas maliciosamente antecipadas, julgamentos criminosamente adiados para manter a prisão política de Lula? Por que alguém assumiria troca-troca, antes, durante ou depois do golpe?
Antes falante, sorrindo até para relâmpago e luz de geladeira, o ex-juizeco tem fugido de perguntas e debates. Entre pisca-pisca de olhos, ginges, trejeitos e risadinhas sem graça ele se cala. Recentemente, foi questionado pelo deputado Paulo Teixeira, sobre legalidade e imparcialidade. Disse que não iria responder, pois o assunto do momento era segurança pública. É. Ele não viu e nem vê relação de “conge e conja” entre esses dois assuntos e segurança pública. Já silenciou sobre encontros secretos com fabricantes de armas, sobre a valorização das ações dessas empresas, sobre Queiroz…
Confesso certo regozijo ao ver o marreco não poder cassar a palavra de quem o inquire. Ele não perde a bazófia, mas já não pode constranger testemunhas, réus, interlocutores. Não pode, por exemplo, cassar a palavra do deputado Paulo Teixeira (PT), que jogou na cara dele como o mundo civilizado combate a corrupção preservando empresas e empregos. O senhor desempregou 330 mil pessoas na indústria de construção civil, disse. Quase mudo, o marreco tem ouvido perguntas sobre as ilegalidades nas gravações de conversas da ex-presidenta Dilma Rousseff, prisão de Lula, das quase 300 conduções…
Com visível desconforto, teve que ouvir de outro Paulo (Pimenta) – o que aconteceria se o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos não soubesse que mafiosos residem no condomínio fechado do Trump? Foi uma alusão aos vizinhos do Bozo, ao mesmo tempo mostrando vínculos entre o crime organizado e o poder a qual o marreco serve.
Pimenta fez o ex-juizeco engolir seco que envolvidos no assassinato de Marielle Franco eram vizinhos do Bozo. Falou do cheque depositado na contra da esposa do Coiso, da onda de suspeita que ronda sua família, empregos fantasmas, armas ilegais apreendidas nas barbas do Comandante da Nação – hoje padrinho do ex-carrasco de Curitiba. Teve de ouvir o que milhões de almas inquietas gostariam de escancarar e desmascarar sobre a maior farsa jurídico-político e lesa-pátria de nossa história.
É pouco, mas há um lavar de almas nas recentes falas do Lula, no silêncio da Globo e nas perguntas que o marreco não responde. São silêncios com o mesmo significado, resumíveis na palavra concupiscência, que significa ganância (por poder, prestígio, dinheiro ou cobiça), exagerado apreço por bens materiais.
Falo de dois silêncios com um quê de culpa, de ímpio, de cumplicidade, de farsa, de preconceito, de retrógrado, de moralismo sem moral, de traição à Pátria (deixo ao leitor ampliar a lista). Há um quê de torpe, que quanto mais se destrincha um lado, mais o outro revela a grandeza e sabedoria do preso político Luiz Inácio Lula da Silva. Para vergonha de seus algozes, claro!
Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.