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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O Educador José Pacheco fala sobre ocupações de escolas por secundaristas no Brasil


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Um dos grandes formuladores de novos paradigmas educacionais saúda secundaristas brasileiros e sugere: “O poder público insiste em velhas fórmulas. Por que os professores não ocupam suas escolas”?
Por José Pacheco*, no Outras Palavras Net
 Pré-ocupações
Há mais de cem anos, Almada Negreiros escreveu:

“Quando eu nasci, todos os tratados que visavam salvar o mundo já estavam escritos. Só faltava uma coisa: salvar o mundo.
Quando decidi ser professor, todos os tratados que visavam salvar a educação já estavam escritos. Só faltava refundar a escola, salvar a educação, sair da zona de conforto.
Já na distante década de 1970, nos pré-ocupávamos e questionávamos o instituído. Os enunciados dos projetos requeriam que se educasse para e na autonomia.
Porém, professores cativos de uma platônica caverna, para onde uma “formação” deformadora os havia atirado, semeavam heteronímia.
Uma tradição centralizadora e autoritária recusava às escolas o direito à autonomia, contrariando a lei.
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Pacheco: “Há jovens brasileiros que não se mostram condescendentes com ministeriais disparates e ocupam escolas. (…) Deveriam ser os professores”
Provisórias medidas ministeriais adiavam a refundação da escola e negavam o direito à educação.
A crença nas virtudes da velha escola mantinha os professores na ilusão de uma possível melhoria de um modelo em decomposição. Se a família terceirizava a educação dos seus filhos e a escola não ensinava, uma sociedade doente considerava normal que assim fosse.
O contraste entre a sofisticação do discurso e a miséria das práticas tornava-se insustentável. Se as medidas de política educativa negavam a muitos alunos o direito à educação (direito consagrado na Constituição e na Lei da Bases), o poder público teria direito de manter tais políticas?
Se o modo como as escolas funcionavam provocava a exclusão de muitos jovens, as escolas poderiam organizar-se desse modo?
Se, do modo como ensinávamos, muitos alunos não aprendiam, teríamos o direito de continuar a trabalhar desse modo? Cadê a ética?
Estas foram algumas das nossas pré-ocupações. Até ao momento em que, fundamentando as nossas reivindicações na lei e numa ciência prudente, assumimos o estatuto de autonomia, dignidade profissional.
Reivindicamos condições de desenvolvimento dos projetos político-pedagógicos, exigimos respeito pelas decisões (políticas e pedagógicas) das nossas escolas e comunidades.
Da pré-ocupação passamos à ocupação.
No Brasil, ao cabo de vinte anos, o artigo 15º da Lei de Diretrizes e Bases do Florestan [Fernandes] e do Darcy [Ribeiro] é letra morta. A lei não foi cumprida e o poder público insiste no fomento de velhas fórmulas.
Bem nos avisava o Anísio [Teixeira]: Habituamo-nos a viver no país proclamado. Não no país real. Não existe uma política de Estado. Existe uma prática de desgovernos.
Mas há jovens brasileiros que não se mostram condescendentes com ministeriais disparates e ocupam escolas. Surpreende-me que sejam os jovens a ocupar escolas.
Deveriam ser os professores a ocupá-las. Porque os jovens sabem aquilo que não querem, mas ignoram a escola a que têm direito. Suponho que os professores saibam…
Se o sabem, por que se mantêm apáticos, quando, na formulação de política educativa, critérios de natureza administrativa se sobrepõem a critérios de natureza pedagógica?
Por que não cumprem os seus projetos?
Por que consentem que burocratas lhes imponham a mordaça do “dever de obediência hierárquica”?
Onde estão os professores?
Por que não agem no chão da escola e da comunidade, fazendo o que é preciso e inadiável, assumindo um estatuto de autonomia?
Por que não ocupam as suas escolas?
* Educador português e mundialmente conhecido pela criação da experiência inovadora representada pela Escola da Ponte, é autor de diversas obras sobre aprendizagem e gestão democrática na educação

sábado, 29 de outubro de 2016

‘A juventude brasileira encontrou seu futuro em Ana Julia Ribeiro’, diz texto da Revista Forbes



Texto de Shannon Sims comenta o discurso da estudante na Alep e sinaliza que “a crise educacional” do Paraná “é particularmente aguda” desde que professores foram reprimidos pelo Governo de Beto Richa (PSDB) em uma manifestação.
Informação – Por Rafael Bruza no Independente
A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto – Reprodução (Alep)

A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto – Reprodução (Alep)


“As notícias do Brasil tendem a ser duras. Turbulência política, escândalos de corrupção, roubos, estupros, mortes e ultraje. Pode ser desgastante cobrir o Brasil como um jornalista; imagine quão exaustivo deve ser viver no Brasil como brasileiro. Mas hoje, boas notícias vieram de um lugar improvável. Nas últimas 24 horas, o Brasil se familiarizou com o que muitos brasileiros acreditam que é a voz mais promissora que ouviram nos últimos anos. E, notavelmente, é a voz de uma menina de 16 anos chamada Ana Júlia Ribeiro”.
Assim a jornalista Shannon Sims introduziu o texto em que apresenta o discurso da estudante secundarista do Colégio Estadual Manuel Alencar Guimarães. Ana Julia falou na tribuna na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) nesta quarta-feira (26), sobre as visões dos estudantes que participam das mais de 800 ocupações feitas em escolas do estado e se opõem à PEC 241 de teto de gastos, à MP de Reforma do Ensino Médio e ao Escola sem Partido.
“É um insulto a nós (estudantes), que estamos lá nos dedicando e procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes. É um insulto aos professores”, disse a estudante, que também apontou culpa dos representantes do Estado na morte do estudante Lucas Mota dentr de uma ocupação.
“Ontem eu estive no velório e não recordo de nenhum desses rostos aqui. Nós sabemos que nós estávamos preocupados. Vocês estão aqui representando o Estado. A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas. Não só do Lucas, como de todos os adolescentes e estudantes que são vítimas disso. O sangue do Lucas está nas mãos de vocês! – exclamou a estudante na tribuna da Alep.
“Então, o que está acontecendo aqui”? – questiona a jornalista no texto da revista Forbes. “Ana Júlia está se dirigindo aos líderes do governo do estado do Paraná sobre a escalada da crise que assola muitos – mais de 1.000 – de escolas do país. Com um forte sotaque paranaense, ela começa seu discurso com uma pergunta que já apareceu várias vezes em mídia social brasileira: ‘De quem é a escola’? Ela continua a responder a sua pergunta retórica explicando por que ela acredita que o movimento de ocupar escolas – que é ideologicamente associado ao de esquerda – é legal e legítimo”, afirma a jornalista no texto.
“Com honestidade surpreendente, ela (Ana Julia) admite que é um desafio para os jovens estudantes para ser capaz de digerir todas as políticas e políticas apresentados nos meios de comunicação e, em seguida, determinar se eles vão favorecer ou combatê-los”, escreve a jornalista, que cita a estudante.
“A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês. Nós temos que ver tudo que a mídia nos passa. Fazer um processo de compreensão, de seleção, para daí conseguir ver o que vamos ser a favor e o que vamos ser contra. E é um processo difícil. Não é fácil para os estudantes, mas mesmo assim decidimos fazer isso. Não estamos lá para fazer baderna, não estamos lá de brincadeira. Estamos lá por um ideal. Estamos lá porque acreditamos no futuro do nosso país. Nós sabemos pelo que estamos lutando. A nossa bandeira é a educação. A nossa única bandeira é a educação”, afirmou Ana Lucia no discurso.
Contexto
Após apresentar o discurso de Ana Julia, a jornalista da revista Forbes explica o contexto em que as ocupações de estudantes estão ocorrendo.
“No estado brasileiro do Paraná, a crise educacional é particularmente aguda. Atualmente, 850 escolas estão ocupadas neste pequeno estado. E a questão da educação e protestos no Paraná tem uma história difícil. Foi em Curitiba, capital do Paraná, que cerca de um ano atrás escola pública professores encheram as ruas em protesto contra mudanças em seus planos de pensão. Seu protesto foi recebido com violência do estado (controlado pelo governo de Beto Richa, do PSDB), e mais de 100 professores ficaram feridos. Cenas de policiais batendo em professores enviaram ondas de choque ao redor do país e lançaram as bases para o discurso de Ana Júlia”, escreve a jornalista.
Sims também ressalta que a postura de Ana Julia é políticamente contrária ao Governo de Michel Temer e que a eleição municipal de outubro de 2016 “foi uma derrota para os esquerdistas do Brasil”.
“Cidades que antes eram lideradas por progressistas andando de bicicleta, como São Paulo, votaram em líderes centristas usando o botão direito no mês passado”.
O texto também comenta a morte de Lucas Mota, “encontrado com ferimentos de faca em seu peito, supostamente causada por outro estudante após uma discussão sobre as drogas”, e diz que o assassinato teve efeito duplo.
“Por um lado, a sua morte reafirmou a posição de quem acusa o movimento de ser um criador de problemas que tira vantagens do Estado. Ao mesmo tempo, a morte de Mota adicionou combustível para o movimento da ocupação, que anteriormente era um protesto que caiu mais sob a égide de um protesto contra as políticas do governo, mas que cada vez mais se tornou, para os seus apoiantes, um protesto sobre os direitos humanos. Ou, mais especificamente, sobre os direitos dos alunos”, afirma o texto.
Momento dramático
A jornalista Shannon Sims também disse que o “momento mais dramático” do discurso ocorreu quando a estudante falou sobre a morte do estudante Lucas Mota e acusou os representantes de estarem com as “mãos sujas de sangue”.
A jornalista da revista Forbes disse que o presidente da casa, Ademar Traiano (PSDB), que representa “um partido de centro-direita”, segundo a jornalista, interrompeu a sessão após a declaração contra os deputados e ameaçou fechar a sessão.
“Você não pode atacar os parlamentares aqui”, diz Ademar Traiano “com raiva de Ana Julia”, segundo a jornalista da Forbes. “Aqui ninguém tem as mãos manchadas de sangue”, conclui o deputado.
Sims também relata o que houve após a interrupção feita pelo presidente da casa.
“A adolescente não tenta gritar com o presidente da sessão, ela não tenta desrespeitá-lo ou se envolver em uma discussão. Em vez disso, ela fica fria em si mesma e emite calmamente a crítica mais contundentede todas. ‘Peço desculpas, mas o Estatuto da Criança e do Adolescente nos diz que a responsabilidade para os nossos adolescentes – os nossos alunos – encontra-se com a sociedade, a família, e o estado’.
“A palavra ‘estado’ cai como uma gota no microfone da sessão”, relata a jornalista, que depois explica por que o discurso da jovem foi bem recebido.
“Enquanto ela representa uma opinião política que muitos não concordam, a forma como ela se apresenta é tão segura de si que tem atraído a respeito até mesmo brasileiros que pode não concordar com a sua posição”, diz o texto.
É por isso que há um coro gritando “Ana Julia me representa!”, segundo a jornalista.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Formou uma parceria com um programador e lançou o Indepedente. Acredita que a mudança no mundo está dentro de cada um e trabalha para que seus leitores tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Bresser Pereira, fundador do PSDB: “terei prazer em defender Dilma”

Jornal GGN – “Terei não só o prazer, como o dever cívico de defendê-la”, disse Bresser Pereira, um dos fundadores do PSDB, sobre sua nomeação para defender a presidente Dilma Rousseff no julgamento do impeachment no Senado Federal. “No meu entendimento, esse impeachment, sob o ponto de vista jurídico é uma farsa, é na realidade um golpe de Estado”, afirmou.

Para ele, o PSDB, com Aécio Neves, tentou “ganhar o que não tinha ganho”. “O que eu vi, depois que saí do governo, é que a guinada do PSDB para a direita era muito forte. Acontecera não só na política econômica, de privatizações e liberalização, como na política externa, dependente dos Estados Unidos e de políticas ortodoxas. Eu demorei 10 anos para sair do PSDB. Pensei muito, meus amigos estavam todos lá, mas eu vi que, realmente, a virada para a direita tinha sido muito grande”.
Bresser Pereira diz que as chances de Dilma reverter o impeachment são pequenas, mas reais. “Nós todos sabemos – inclusive os relatores, os impetrantes em geral do processo – que o motivo real do impeachment não foram as famosas pedaladas. Essas foram irregularidades que todo o presidente, em qualquer o país, faz. Não é só no Brasil, e nunca foi origem de impeachment antes. Foram outras as razões – e outras razões são inaceitáveis. Ponto”.
“As outras razões foram essencialmente que a direita, a classe capitalista rentista e financista brasileira, resolveu que não queria mais ser governada pelo PT. Eles nunca quiseram – o Brasil entrou em uma crise em 2002, por causa da eleição do Lula. Mas, depois, o Lula tentou de todas as maneiras fazer compromissos e acordos, que eram necessários, e a coisa foi indo. Mas depois a economia começou a derrapar fortemente, em 2012, e a taxa de lucro dos empresários industriais caiu de maneira dramática, para 5% e depois para 4% ao ano, muito abaixo da taxa de juros, nesse momento essa direita se uniu. Os economistas passaram a fazer uma gritaria a respeito do ‘pibinho’ e a respeito dos erros de política econômica que ela de fato cometeu, vários. Mas, para a surpresa dessa direita, a presidente foi reeleita, e num quadro muito curioso: nunca vi um presidente ser reeleito no Brasil sem nenhum apoio das classes dirigentes. Até no caso do Lula, havia algum apoio. Dessa vez, não havia nada, de forma que, em seguida, os derrotados imediatamente começaram a pedir o impeachment”.
Abaixo, a íntegra da entrevista:
Da Rádio France Internacional
Por Lúcia Müzell
Entre os intelectuais brasileiros, ele é uma das vozes mais críticas ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A RFI convidou o economista e cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira, que esteve em Paris para uma palestra sobre um tema intrigante: “Chegamos ao fim de uma era de democracia e justiça social no Brasil?”
Na entrevista, ele comenta o fato de ter sido um dos escolhidos pela presidente para defendê-la no Senado, no julgamento do impeachment. Ao seu lado, nomes como Ciro Gomes tentarão reverter a destituição da presidente.
“Terei não só o prazer, como o dever cívico de defendê-la”, afirma o ex-ministro de José Sarney e de Fernando Henrique Cardoso, para quem o impeachment de Dilma gera “um forte arranhão na democracia brasileira”. “Temer não terá apoio para nada”, aposta. Confira abaixo os principais trechos da conversa.
RFI: É o fim de um ciclo de democracia e justiça social no Brasil?
Bresser Pereira: Sim, é o fim. É uma análise que faço no meu último livro, A Construção Política do Brasil, em que eu divido a história do Brasil independente em três grandes ciclos. O primeiro, do Império, eu chamo de Estado e integração Territorial. Depois, tem um período intermediário, a Velha República, até chegarmos a um novo ciclo, de 1930 e 1980, que chamo de nação e desenvolvimento. É o momento da revolução capitalista brasileira, com a figura marcante de Getúlio Vargas. Depois, de 1980 até 2014, temos o ciclo democracia e justiça social. Tivemos a transição democrática, que foi alcançada, e a justiça social, que foi modestamente melhorada. Ainda estamos longe dela, mas caminhamos na sua direção. A origem do problema é que, a partir de 1930, a economia do Brasil para, cresce a uma taxa muito menor do que nos 50 anos anteriores. A ideia de se ter redistribuição da renda e diminuição das desigualdades sem crescimento econômico é praticamente impossível, de forma que agora se chega ao fim deste ciclo. E ainda surge uma direita algo violenta neste final.
O ano de 2014 foi o da reeleição de Dilma Rousseff. Para o senhor, o início do segundo mandato dela foi marcado pelo fim deste ciclo?
Sim. Para mim, antes mesmo da grande recessão e da grande crise econômica, política e moral que teremos se desencadeando em 2015, já estava claro que esse ciclo de democracia e justiça social estava se esgotando. A grande tentativa política dos governos Lula-Dilma tinha sido de fazer um pacto político e de classes desenvolvimentista. Um pacto que juntasse os trabalhadores e a burocracia pública aos empresários industriais, aos empresários produtivos. Foi o que ocorreu na era de Getúlio Vargas.
O capitalismo em qualquer país do mundo é ou desenvolvimentista, ou liberal. Se for liberal, é um capitalismo dos rentistas e dos financistas, como vimos nos Estados Unidos e na França, a partir de 1980. Nós, com a chega do Collor à presidência, teremos um ciclo que chamo de liberal-dependente. O governo Fernando Henrique foi neoliberal no plano econômico, mas não no plano social. E agora, neste novo governo que surgiu após este impeachment absolutamente inaceitável, vemos uma tentativa de desmontar o nosso Estado de bem estar social no Brasil.
Como um dos fundadores do PSDB, como o senhor vê a postura de líderes da sigla nesta crise, especialmente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
Durante o primeiro ano do governo de Fernando Henrique, eu vi que a política econômica do governo era muito equivocada, porque era uma política de câmbio muito apreciado e juros muito altos. Eu insistentemente falei com o Fernando Henrique, insistia nisso uma vez por mês. Ele era muito simpático e ainda é simpaticíssimo, uma pessoa da melhor qualidade. Mas ele estava assessorado por economistas que haviam se tornado totalmente conservadores, de forma que eu não consegui nada.
O que eu vi, depois que saí do governo, é que a guinada do PSDB para a direita era muito forte. Acontecera não só na política econômica, de privatizações e liberalização, como na política externa, dependente dos Estados Unidos e de políticas ortodoxas. Eu demorei 10 anos para sair do PSDB. Pensei muito, meus amigos estavam todos lá, mas eu vi que, realmente, a virada para a direita tinha sido muito grande.
O senhor está entre os indicados como testemunhas pela presidente Dilma Rousseff, na sua defesa contra o impeachment. O que o senhor pretende argumentar em favor da presidente?
Terei todo o prazer, e não só o prazer, como o dever cívico de defendê-la. No meu entendimento, esse impeachment, sob o ponto de vista jurídico é uma farsa, é na realidade um golpe de Estado. Nós todos sabemos – inclusive os relatores, os impetrantes em geral do processo – que o motivo real do impeachment não foram as famosas pedaladas. Essas foram irregularidades que todo o presidente, em qualquer o país, faz. Não é só no Brasil, e nunca foi origem de impeachment antes. Foram outras as razões – e outras razões são inaceitáveis. Ponto.
As outras razões foram essencialmente que a direita, a classe capitalista rentista e financista brasileira, resolveu que não queria mais ser governada pelo PT. Eles nunca quiseram – o Brasil entrou em uma crise em 2002, por causa da eleição do Lula. Mas, depois, o Lula tentou de todas as maneiras fazer compromissos e acordos, que eram necessários, e a coisa foi indo. Mas depois a economia começou a derrapar fortemente, em 2012, e a taxa de lucro dos empresários industriais caiu de maneira dramática, para 5% e depois para 4% ao ano, muito abaixo da taxa de juros, nesse momento essa direita se uniu. Os economistas passaram a fazer uma gritaria a respeito do “pibinho” e a respeito dos erros de política econômica que ela de fato cometeu, vários. Mas, para a surpresa dessa direita, a presidente foi reeleita, e num quadro muito curioso: nunca vi um presidente ser reeleito no Brasil sem nenhum apoio das classes dirigentes. Até no caso do Lula, havia algum apoio. Dessa vez, não havia nada, de forma que, em seguida, os derrotados imediatamente começaram a pedir o impeachment.
Mas Dilma também desfrutou de cada vez menos apoio da sociedade, não?
A popularidade de Dilma despencou, em parte por uma grande inabilidade política dela. O resultado foi que deu certo a demanda da oposição e de uma direita nova que surgia, cheia de ódio. Fiquei muito impressionado com isso. O ódio apareceu em 2013, mas ficou claro para mim em 2014. Foi a primeira vez que eu vi ódio na política brasileira – e ódio é incompatível com política. Na política, há adversários, não inimigos. Inimigos se confrontam em guerras, e o Brasil entrou nessa guerra. Juntou-se essa direita violenta, com o Aécio Neves e o PSDB, que queriam ganhar o que não tinham ganho. E, no final, veio esta maravilha chamado PMDB, com os senhores Eduardo Cunha e Temer, “paladinos da moralidade pública”.
Na sua avaliação, quais as chances de a presidente conseguir reverter essa situação?
É difícil prever como vai ser. As suas chances são pequenas, mas é possível. Esse impeachment é uma farsa jurídica, que causa um forte arranhão na democracia brasileira. Esse governo entendeu a baixa popularidade da presidente como o apoio para políticas econômicas violentamente contra os trabalhadores, contras as minorias raciais.
O governo Temer teria apoio para fazer cortes drásticos nas políticas sociais?
Eu não creio que ele terá apoio para nada. Esse governo começou mal e está caminhando mal. Existe o conceito sociológico de legitimidade, de apoio na sociedade civil, apoio em quem tem poder. A Dilma sofreu esse impeachment porque perdeu o apoio da sociedade civil, principalmente dos ricos, mas também dos iletrados. Esse novo governo que está começando não pode ter ilegitimidade maior. É só olhar. As pessoas que lutaram pelo impeachment devem estar olhando para si mesmas e pensando: será que era isso mesmo que eu queria?