terça-feira, 27 de julho de 2021

Reinaldo Azevedo: O programa de espionagem israelense Pégasus, a evidência do estado policial ilegal arquitetado pela Lava Jato de Curitiba

 

Do Canal BandNews FM:

A defesa do ex-presidente Lula revela que procuradores da operação Lava Jato tentaram adquirir o programa de espionagem israelense Pegasus. Reinaldo Azevedo comenta a tentativa de compra e a intenção dos procuradores de construir um bunker de investigação no gabinete de Deltan Dallagnol.





segunda-feira, 26 de julho de 2021

Judeus condenam encontro entre Bolsonaro e neta extremista de ministro de Hitler

 

Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou a reunião realizada por Jair Bolsonaro com a deputada alemã Beatrix von Storch, do Alternativa para a Alemanha (AfD). "Trata-se de partido extremista, xenófobo, cujos líderes minimizam as atrocidades nazistas e o Holocausto", disse a Conib

(Foto: Beatrix von Storch/Instagram)

247A Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou, em nota divulgada nesta segunda-feira (26), a reunião realizada por Jair Bolsonaro com a deputada alemã Beatrix von Storch, vice-líder do partido neonazista “Alternative für Deutschland” (AfD - Alternativa para a Alemanha, na sigla em português).

"A Conib lamenta a recepção dada a representante do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) em Brasília. Trata-se de partido extremista, xenófobo, cujos líderes minimizam as atrocidades nazistas e o Holocausto. O Brasil é um país diverso, pluralista, que tem tradição de acolhimento a imigrantes. A Conib defende e busca representar a tolerância, a diversidade e a pluralidade que definem a nossa comunidade, valores estranhos a esse partido xenófobo e extremista”, diz um trecho da nota segundo o blog do jornalista Chico Alves, no UOL.

Beatrix von Storch é neta do ex-ministro das Finanças de Adolf Hitler, Schwerin von Krosigk. Ele foi responsável pelo confisco de propriedades de judeus durante o regime nzeista na Alemanha. A parlamentar também manteve encontros com os deputados Bia Kicis (PSL-DF) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).



Henry Bugalho comenta, em vídeo, o encontro de Bolsonaro, Bia Kicis e Eduardo Bolsonaro com política alemã de extrema-direita, neta de um nazista histórico, e vice-presidente da AfD, partido neofascista alemão, monitorado pela Polícia alemã

 

Do Canal do escritor e filósofo Henry Bugalho:

Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Bia Kicis se encontram com parlamentar alemã neta de um nazista e vice-presidente de um partido extremista. Entenda!




Celso Rocha de Barros, na Folha: Forças Armadas têm que abrir fogo contra golpistas

 

Colunista da Folha opina que não basta escrever notas desmentindo o golpe, mas combatê-lo na prática. "Se o próprio presidente da República der a ordem do golpe, deve ser preso", escreve

Forças Armadas e o ministério da Defesa

Forças Armadas e o ministério da Defesa (Foto: Abr)

247 - "Em geral, as ameaças [de golpe] são seguidas por um desmentido no dia seguinte, depois que os golpistas nos quartéis e delegacias já foram informados que tem gente no topo que os apoiaria. Ninguém nunca é preso".

"Na semana passada, reportagem do jornal O Estado de S. Paulo denunciou que o ministro da Defesa, Braga Netto, disse ao presidente da Câmara que não haverá eleições em 2022 sem voto impresso. O ministério da Defesa respondeu com uma nota em que não negou ter dito nada. Só negou que tivesse usado intermediários para falar com o presidente da Câmara".

"Não basta que as Forças Armadas não participem do golpe de Bolsonaro. Elas têm que se declarar, desde já, dispostas a abrir fogo contra ele. É dessa nota que precisamos. Devem abrir fogo mesmo se os golpistas forem militares ou policiais que, por terem alma de desertor, escolham Bolsonaro contra a pátria. Se o próprio presidente da República der a ordem do golpe, deve ser preso. Se resistir, deve ser morto", escreve Celso Rocha de Barros na Folha de S.Paulo.

A Lava Jato dos destrutivos falsos heróis de Curitiba tentou comprar o sistema israelense Pegasus para espionar de maneira clandestina vítimas da operação

 

Operação Lava Jato tentou comprar o sistema de espionagem israelense Pegasus visando criar um sistema clandestino de investigação. Em maio deste ano, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também tentou comprar o software para espionar opositores


Procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba

Procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba (Foto: REUTERS/Rodolfo Buhrer)


247A Operação Lava Jato tentou comprar o sofisticado sistema de espionagem israelense Pegasus visando criar um sistema clandestino de investigação. De acordo com reportagem do jornalista Jamil Chade, no UOL, a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá protocolar nesta segunda-feira (26) uma petição junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) revelando como os procuradores da força-tarefa teriam tentado adquirir o software. Em maio deste ano, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) tentou comprar o software vendido pela empresa NSO Group para espionar opositores. O negócio, porém, foi cancelado após a imprensa denunciar o caso. 

 "A Operação Lava Jato teve contato com diversas armas de espionagem cibernética, incluindo o aludido dispositivo Pegasus", destaca a ação assinada pelos advogados Valeska Teixeira Martins e Cristiano Martins. A perícia foi feita em mensagens de chats trocados pelos integrantes da Lava Jato que foram apreendidas no âmbito da operação Spoofing. Segundo a petição, os diálogos revelam que "a Operação Lava Jato teve contato com diversas armas de espionagem cibernética, incluindo o aludido dispositivo Pegasus".

Em 31 de janeiro de 2018, uma mensagem faz alusão a “uma reunião entre os membros da ‘Lava Jato’ do Rio de Janeiro, de Curitiba e representantes de uma empresa israelense que vendia uma ‘solução tecnológica’ que invade celulares em tempo real”, ressalta a reportagem. Posteriormente o sistema foi identificado como sendo o Pegasus. 

Numa conversa no chat do grupo de procuradores em 31 de janeiro de 2018, é citada uma reunião entre os membros da "Lava Jato" do Rio de Janeiro, de Curitiba e representantes de uma empresa israelense que vendia uma "solução tecnológica" que "invade celulares em tempo real (permite ver a localização etc)". Essa tecnologia, segundo os advogados, mais tarde seria identificada como sendo o Pegasus.

"Pessoal, a FT-RJ (Força Tarefa do Rio de Janeiro) se reuniu hj com uma outra empresa de Israel, com solução tecnológica super avançada para investigações. A solução 'invade' celulares em tempo real (permite ver a localização,etc.). Eles disseram q ficaram impressionados com a solução, coisa de outro mundo”, escreveu o procurador Júlio Carlos Motta Noronha no chat. Na conversa, os integrantes da força-tarefa também teriam citado um outro programa de espionagem: o Cellebrite. 

A ideia, segundo a petição, era montar uma espécie de bunker no gabinete do procurador da República e coordenador da operação Deltan Dallagnol. A criação do bunker já era discutida desde 2017 e envolvia a compra de softwares de espionagem cibernética, além de outros sistemas que permitiriam viabilizar a criação de um "big data" no gabinete de Dallagnol. 

Em 27 de novembro daquele ano, o procurador Roberson Pozzobon disse que tinha tido “uma nova ideia: porque não criarmos um BUNKER de investigação no gabinete do Deltan no 14o Andar. Esse BUNKER seria um espaço estruturado com 8 computadores, sendo 4 computadores para servidores que ficarão dedicados exclusivamente às demandas do BUNKER e 4 computadores a serem ocupados, alternadamente (de dois em dois dias) por duplas de procuradores e seus respectivos assessores". 

 "No futuro poderíamos estruturar esse BUNKER com equipamentos melhores compra de storages, celebrite, etc.). e eventualmente mais servidores (RFB, PRF, etc.). Os servidores que ficarão dedicados exclusivamente ao BUNKER, ao trabalharem com diferentes grupos e diferentes casos, ganharão gradativamente knowhow das diferentes técnicas de investigação e também conhecimento dos diferentes casos e de suas eventuais zonas de interseção", escreveu ele em outro post. 

Ainda conforme a defesa do ex-presidente, as conversas entre os integrantes da operação revelam que o bunker seria criado com recursos obtidos por meio de valores oriundos de acordos de delação premiada, simulando "perda de equipamentos”. 

"Na homologação foi pedido a autorização para q o colaborador adquirisse o big data como parte do pagamento da multa, com base em preço definido em "ata de registro de preços" em vigor", postou o procurador Athayde Ribeiro Costa em uma conversa com o procurador da República Januário Paludo.

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Bolsonaro agride a democracia todos os dias e pode matá-la, diz Miriam Leitão

 

Jornalista aponta possibilidade de morte da democracia brasileira, que começou a ser assassinada no golpe de 2016, contra a ex-presidente Dilma Rousseff, apoiado por ela própria

(Foto: ABr | Reprodução)

247 A jornalista Miriam Leitão, que apoiou o golpe de estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff, alimentando a farsa das "pedaladas fiscais", afirma que a democracia brasileira está perto de ser assassinada por Jair Bolsonaro, um governante claramente neofacista. "O agressor da democracia não vai parar. É como o agressor da mulher que, após perdoado, volta a atacar e muitas vezes o fim é a morte da vítima. Quem me fez esse raciocínio foi uma autoridade da República. Todos os dias a democracia apanha do presidente Jair Bolsonaro. Os generais e os civis que o cercam reforçam suas atitudes ou tentam justificá-lo. Essa violência só vai parar no fim deste governo, mas deixará cicatrizes. Quando as instituições estão funcionando, ninguém precisa dizer em notas e declarações", escreve ela, em sua coluna no Globo.

"O agressor da democracia brasileira instalou cúmplices em postos estratégicos. Braga Netto é da reserva, mas a carreira militar é usada para ele sempre falar escudado nas Forças Armadas. Os atuais comandantes assumiram com o mandato de mostrar que os militares defendem o projeto político de Bolsonaro. Foram escolhidos para apoiar o agressor. O general Luiz Eduardo Ramos quando foi para o governo era da ativa e estava no comando do II Exército. Ele fez parte do canal dessa bolsonarização dos militares. O Almirante Flavio Rocha, da SAE, está ainda na ativa. O projeto é deixar sempre a impressão de que as Forças Armadas vão agir para proteger Bolsonaro", escreve ainda Miriam.

"A democracia está sendo agredida. O agressor é o presidente da República. Ele tem ajudantes militares e civis. O maior risco é não ver o perigo, porque, como nos casos de violência contra a mulher, o fim pode ser a morte", finaliza.

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Mídia internacional alerta para ameaça de "tomada militar do poder" no Brasil

 

Cobertura internacional das manifestações pelo impeachment de Bolsonaro foram amplas na mídia internacional

Brasil chega aos 500 mil mortos pela Covid-19 com um governo negacionista e vacinação atrasada

Brasil chega aos 550 mil mortos pela Covid-19 com um governo negacionista e vacinação atrasada com apoio de militares

247As manifestações de 24 de Julho com a bandeira Fora Bolsonaro tiveram ampla repercussão na mídia internacional. Essas manifestações "ecoaram do telejornal da rede pública alemã, Tagesschau, ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, do inglês The Guardian ao argentino La Nación e ao canal qatari Al Jazeera", informa o jornalista Nelson de Sá.

Também dos diários franceses Le Figaro e Le Monde ao semanal Le Journal du Dimanche, este com os protestos e um texto mais extenso, perguntando no título: "Jair Bolsonaro pode torpedear a eleição presidencial brasileira?".

O Washington Post chegou a publicar que "Bolsonaro disse que montaria uma tomada militar do poder. Agora, os brasileiros temem que ele possa estar lançando as bases", escreve o jornalista da Folha de S.Paulo.

A CNN, por sua vez, entrevistou uma "ex-fã" de Bolsonaro, Isa Soares, que agora diz: "Foi um erro. Foi o maior erro da minha vida".

Lula voltou a dar entrevista à televisão europeia, agora ao canal de notícias France24, que destacou sua declaração de que "Jair Bolsonaro é um presidente genocida". 

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Com o centrão, Bolsonaro bloqueou o impeachment? Artigo de Aldo Fornazieri

 

    O que o centrão ganha ao sustentar um presidente que vem perdendo viabilidade eleitoral? Ganha poder e verbas. A aposta principal dos partidos do centrão consiste em eleger grandes bancadas de deputados federais. Eles não têm um candidato próprio a presidente da República.



Bolsonaro bloqueou o impeachment?

por Aldo Fornazieri

A ação política de Bolsonaro e uma incapacidade das oposições, aparentemente, inviabilizam o impeachment. A ação de Bolsonaro consistiu em entregar o comando político de seu governo ao centrão. Bolsonaro, até agora, não governou. E nem deverá governar. Ele apenas se esmerou em promover o proselitismo e a arruaça políticas de forma livre, incontrolável e irresponsável. Com a ida de Ciro Nogueira para a Casa Civil, o comando efetivo do governo deverá se deslocar, em boa medida, das mãos dos militares para as mãos do centrão. Isto não significa que os militares tenham perdido todo poder. Mas deixam de ser o núcleo principal do comando político-administrativo do governo.

Ao ver-se isolado e com riscos crescentes, Bolsonaro correu para quem poderia salvar seu mandato e salvá-lo de um possível impeachment: o centrão. Ficou claro que os generais do governo não tinham esse poderio, pois não têm votos no Congresso e também não comandam tropas. Estão mais para generais sem exército. Os generais  que comandam tropas até podem dar uma resvalada aqui e outra acolá. Mas não emprestarão apoio militar a nenhuma aventura bolsonarista.

Desta forma, Bolsonaro conseguiu construir duas linhas de barragem contra o impeachment. A primeira consistiu em eleger Arthur Lira para a presidência da Câmara, por conta da conduta desastrosa de Rodrigo Maia e da maioria dos partidos de oposição. A segunda consiste agora em ter, no mínimo, os 172 deputados na base governista para barrar a abertura do processo de impeachment caso Lira se visse ser obrigado a dar início ao processo.

O que o centrão ganha ao sustentar um presidente que vem perdendo viabilidade eleitoral? Ganha poder e verbas. A aposta principal dos partidos do centrão consiste em eleger grandes bancadas de deputados federais. Eles não têm um candidato próprio a presidente da República. Com poder e verbas terão condições de atingir seus objetivos. Se Bolsonaro recuperar viabilidade eleitoral, farão sua campanha. Caso contrário, o deixarão de lado. Com bancadas significativas na próxima legislatura, negociarão com qualquer governo.

A oposição, por seu lado, também não é capaz de impulsionar o impeachment. É certo que o impeachment vem ganhando apoio crescente na sociedade. Mas o  número de pessoas que vêm participando das mobilizações de protesto é insuficiente para deslocar o centro da gravidade política em favor do impeachment.

Os protestos das oposições de esquerda não conseguem romper a barreira dos militantes, simpatizantes e ativistas dos partidos e dos movimentos sociais. Não conseguem atrair setores sociais não engajados, mas indignados com o governo. Com isso, dificilmente Bolsonaro baixará de forma significativa para aquém dos 20% de avalição positiva do governo. Dificilmente também se chegará a um patamar próximo dos 70% em apoio ao impeachment.

As duas principais consignas da oposição – impeachment e vacina para todos – tendem a se enfraquecer: o primeiro porque se mostra inviável e, a segunda, porque a vacinação avança, mesmo que lentamente. No segundo semestre, a CPI da covid, que hoje é o principal fator de oposição, tende a caminhar para uma fase conclusiva. Assim, a oposição terá que redefinir ou ajustar sua tática se quiser mantar Bolsonaro sob pressão política e/ou das ruas. Terá que ser buscado um novo caminho de pressão e de mobilização, pois Bolsonaro precisa ser derrotado pela mobilização popular. Se chegar às eleições, precisa chegar derrotado.

A questão das ameaças de militares é uma questão secundária na conjuntura. Sempre o foi desde o início do governo Bolsonaro, em que pese a esquerda amedrontada tê-la tratado como uma questão principal. Na medida em que vai ficando claro que as Forças Armadas não darão apoio a um golpe bolsonarista, cada vez mais parlamentares se mostram mais corajosos no rebatimento de ameaças feitas por alguns militares.

O general Braga Neto vem se revelando o principal articulador das ameaças. Aparentemente, ele se movo por duas motivações: 1) por ser um general da boquinha, obtendo ganhos pecuniários extraordinários, o que é uma forma de corrupção e, 2) quer intimidar a CPI porque tem explicações a dar. Os principais desmandos do Ministério da Saúde ocorreram com o seu beneplácito, quando comandava a Casa Civil.

O poder civil não pode aceitar nenhuma pressão e nenhuma ameaça de militares. Os militares não são o poder moderador, não são os guardiões e os intérpretes da Constituição, não são os garantidores da liberdade do povo, não são tuteladores da República e menos do povo. Para serem honrados, respeitados e prestigiados, precisam se submeter à Constituição – coisa que a grande maioria dos integrantes das Forças Armadas o faz. Assim, esses militares que por interesses escusos interferem na vida política precisam ser contestados e enquadrados na lei.

Os democratas, de uma vez por todas, precisam dotar o país de uma legislação que impeça o pronunciamento político dos militares, que bloqueie o desvio de suas funções impedindo que participem de cargos civis e que estabeleça uma quarentena para os militares que almejem ingressar na vida política. Os democratas não podem deixar a democracia desguarnecida dessas proteções, principalmente considerando o histórico de intervenções militares já ocorridas. Não é aceitável ser pusilânime nessas questões.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (Fespsp).

domingo, 25 de julho de 2021

Greg News, HBO: Golpe Militar

 

Gregório Duvivier discute as ameaças dos militares contra a Democraica e os brasileiros (mais uma vez) em seu programa Greg News, da HBO:




Artigo de Jamil Chade no El País: Extrema direita mundial estreita laços com Governo Bolsonaro, que segue passos de Orbán e Trump

 A deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) exibiu orgulhosa uma foto com a deputada alemã Beatriz von Storch, do partido de extrema direita AfD, e neta do ministro de finanças de Adolf Hitler, Lutz Graf von Krosigk, que se manteve fiel ao nazismo mesmo após a morte do ditador. Bia Kicis visitou Storch e membros da AfD em companhia de Eduardo Bolsonaro. Ambos justificando a visita pela união dos conservadores do mundo pela família e o cristianismo.

Do El País:

Após troca de comando nos EUA, Brasil ganha centralidade entre nações que pregam contra o que chamam de comunismo e defendem pautas ultraconservadoras. País emula modelo húngaro de controle


Genebra - 22 JUL 2021 

A deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) em encontro com a parlamentar alemã Beatrix von Storch, do partido de extrema direita Alternativa para Alemanha.REPRODUÇÃO TWITTER

A deputada bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) exibiu orgulhosa uma foto com a deputada alemã Beatriz von Storch, do partido de extrema direita AfD. “Hj recebi a deputada Beatrix von Storch, do Partido Alternativa para Alemanha [AfS], o maior partido conservador daquele país. Conservadores do mundo se unindo p/ defender valores cristãos e a família”, escreveu a deputada em sua rede social. A foto causou choque, especialmente pelo fato de Storch ser neta de Lutz Graf von Krosigk, ministro de Finanças do Governo nazista de Adolph Hitler. Nascido em 2013, o partido AfD é alvo de investigação do serviço secreto alemão por conexões com atos extremistas no país.

Não foi a primeira demonstração de proximidade da base de Bolsonaro com grupos extremistas. No final do ano passado, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) promoveu uma live com o líder do Vox, Santiago Abascal. Um ano antes, o deputado esteve na Hungria com o premiê Viktor Orbán, do partido Fidesz. Em comum entre a AfD, o Vox e o Fidesz, a busca por pautas conservadoras radicais, a xenofobia, a hostilização à esquerda e à imprensa.

O Brasil virou terreno fértil para expandir suas ideias sob o governo Bolsonaro, que ainda traz um elemento extra: após o fim do Governo de Donald Trump nos Estados Unidos, a ofensiva ultraconservadora colocou no Brasil de Jair Bolsonaro todas as suas fichas, considerado o país com maior influência de consolidar a agenda ultraconservadora. O papel do Governo brasileiro ficou claro em janeiro de 2021, quando funcionários de alto escalão de Trump enviaram mensagens a outros países informando que projetos que tinham sido conduzidos pela Casa Branca seriam assumido a partir daquele momento por Bolsonaro. Seria do presidente brasileiro a função de liderar a aliança internacional ultraconservadora criada para influenciar as decisões da ONU, OMS e outros organismos. A informação faz parte de um e-mail enviado a colaboradores por Valerie Huber, a pessoa escolhida pela Casa Branca no governo Trump para tratar de temas de saúde da mulher. Numa mensagem de 20 de janeiro de 2021 obtida pelo EL PAÍS, Huber anuncia que o Brasil, gentilmente, ofereceu-se para coordenar essa “coalizão histórica”.

A coalizão de cerca de 30 países ganhou o nome de Declaração de Genebra e se transformou numa referência das alas mais radicais em movimentos religiosos. “Países que desejam se unir à Declaração podem fazer isso contatando a embaixada do Brasil nos EUA, por mais detalhes”, explicou. Huber foi a pessoa que arquitetou a coalizão e, ao longo dos últimos meses, costurou uma aproximação importante com a pasta de Damares Alves.

O Governo Bolsonaro não é o único neste movimento de manter viva a agenda de extrema direita no mundo. Mas, tornou-se chave para o fortalecimento desse grupo. De fato, a ausência de Trump não desfez a coordenação internacional. Nos últimos meses e em plena pandemia, membros do Governo brasileiro foram convidados de destaque em encontros fechados com representantes de ONGs cristãs americanas, com grupos de lobby anti-LGBTe antiaborto, além de reuniões com partidos como o Vox e outros grupos de extrema-direita.

Para diplomatas estrangeiros, o que se vê na atuação do Brasil não é nada mais que um roteiro já desenhado e implementado em países menores, mas que tiveram já anos de governos ultraconservadores. Agora, a meta é sua internacionalização. “Há um script e ele é assustador”, afirmou um negociador da UE, na condição de anonimato. O script é a transformação dos governos da Hungria e da Polônia que, ao longo de uma década, conseguiram desmontar uma democracia liberal e instaurar uma nova base ultraconservadora.

A costura dessa aliança começou a ganhar forma já nos primeiros dias do governo Bolsonaro. De forma inédita, o Brasil enviou ao menos seis missões em menos de um ano em 2019, com agendas que incluíam a promessa de uma coordenação na luta contra a perseguição sofrida por cristãos, a defesa da família e a necessidade de proteger a “soberania”. Não faltou ainda um encontro entre o então secretário da Cultura de Bolsonaro, Roberto Alvim, com equipes do ministério da Cultura da Hungria. Alvim acabou caindo diante de um polêmico vídeo no qual ele usou referências nazistas.

Longe dos encontros ministeriais, reuniões informais, conferências fechadas e um intercâmbio intenso também foram estabelecidos entre membros do segundo escalão do governo brasileiro e húngaro. Não faltou nem mesmo uma visita de Eduardo Bolsonaro ao primeiro-ministro em Budapeste. A frequência dos encontros se contrasta ainda mais diante da constatação de que, em toda a era republicana, o Brasil jamais havia enviado uma missão com um chanceler para Budapeste.

O primeiro-ministro Húngaro Viktor Orbán, em abril de 2018.
O primeiro-ministro Húngaro Viktor Orbán, em abril de 2018. DARKO VOJINOVIC / AP

Modelo Orbán

As coincidências entre a agenda internacional de Bolsonaro e suas ações no Brasil chamam a atenção por sua semelhança em relação aos projetos que, ao longo de anos, foram implementados por Viktor Orbán. O húngaro assumiu o poder em 2010. Mas, durante uma década, o que ocorreu foi o esvaziamento da democracia e um abalo nos pilares da liberdade. Hoje, Orbán controla a Corte Constitucional, o Ministério Público e dois terços do Parlamento, além da imprensa, clubes de futebol, as artes, os espaços públicos e universidades.

Com eleições se aproximando em 2022 e com a oposição tentando criar pela primeira vez uma frente única para derrotá-lo, o primeiro-ministro ampliou sua radicalização e o uso da guerra cultural como forma de reagir à pressão. No Parlamento, leis foram aprovadas nas últimas semanas tornando a adoção de crianças por casais homossexuais um ato praticamente impossível. Ele ainda modificou normas que acabaram impedindo que menores de 18 anos tenham acesso a qualquer tipo de material que possa fazer alusão ao movimento LGBT. Livros com tais conteúdos são obrigados a trazer um alerta em suas capas e a publicidade de qualquer empresa terá de seguir regras sobre a divulgação de conteúdo.

Em seu projeto de destruição da democracia num caminho similar ao que adota Bolsonaro hoje, Orbán foi em busca da construção de uma Justiça que fosse leal a ele e sua ideologia. Se uma primeira tentativa de reforma do Judiciário esbarrou em protestos da UE, ele agora modifica de forma mais sutil, transformando o sistema de pontos pelos quais os candidatos são julgados para ganhar vagas de juizes. Quem passou por funções no governo, segundo a nova lei, ganha pontos extras. Resultado: o fim de qualquer investigação sobre corrupção no governo e entre seus aliados e o respaldo legal às mudanças de leis sobre o conceito de família, religião, imigração e do próprio sistema democrático.

Outro foco dos ataques de Orbán tem sido as ONGs, ativistas ou qualquer movimento que questione de forma dura o governo, outra bandeira também adotada pelo governo Bolsonaro. Uma das formas de intimidação em Budapeste sobre os movimentos sociais foi a proliferação de controles de auditoria e de impostos, principalmente entre 2014 e 2016. Além disso, todas as entidades que recebem algum tipo de recursos do exterior passaram a ser registadas por “agentes externos”. Apesar de o país ter cerca de 60.000 ONGs, elas passaram a ser excluídas do processo de elaboração de políticas públicas.

Assim como Bolsonaro argumenta que o único termômetro da representatividade da democracia é a eleição, o governo Orbán usa exatamente esse argumento para justificar que organizações da sociedade civil não têm mandato para atuar na formulação de políticas públicas. As coincidências na forma de agir entre os dois governos também ocorrem no tratamento da imprensa. Tanto em Brasília como em Budapeste, os meios de comunicação são considerados como uma força a ser neutralizada.

Por anos, aliados do governo passaram a comprar jornais locais, rádios e outros canais. Quando praticamente toda a imprensa estava nas mãos desses empresários, eles decidiram doar seus impérios para uma obscura fundação, em 2018. No total, 400 meios de comunicação estariam sob uma só direção. Uma semana depois, Orbán assinou um decreto isentando essa fusão de qualquer controle externo, numa centralização sem precedentes. A coordenação entre jornais regionais, revistas, rádios e TVs passou a ser completa, com títulos parecidos para suas manchetes, mesmas imagens e argumentos.

Enquanto financia quem o apoia, o governo “leva à fome” os meios independentes. Empresas que fazem publicidade em jornais contrários ao governo temem perder contratos públicos e o governo passou a não mais responder aos emails e pedidos de informação por parte desses jornais. Enquanto isso, jornalistas são assediados e a oposição passou a ser praticamente vetada de todos os debates nas televisões.

O mesmo movimento de controle também passou pela academia de ciência, dirigidas por leais seguidores do partido de Orbán. Tais estruturas passaram a concentrar grande parte do dinheiro do Estado, com professores com salários mais elevados, esvaziamento dos cursos de Ciências Humanas, o controle das universidades e, na prática, o fim de suas autonomias.

A guerra cultural ainda teve como objetivo reescrever a história do país e estabelecer o comando de teatros e museus para que a ideologia de extrema direita prevalecesse nas peças escolhidas, nas mostras e até mesmo na programação da Opera Nacional. Com uma diferença de dez anos em relação ao governo Bolsonaro, a Hungria serve de modelo de uma guinada iliberal. E que agora é assumida em parte pelo Brasil para influenciar na agenda internacional.

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sábado, 24 de julho de 2021

“O Brasil precisa de uma coalizão antifascista”, afirma Federico Finchelstein, Professor de História na New School for Social Research e no Eugene Long College, em Nova York

 O historiador e professor Federico Finchelstein, um dos maiores estudiosos do fascismo, caracterizou Jair Bolsonaro como uma ameaça real à democracia e defendeu que somente uma coalizão ampla, abrangendo o espectro político, seria capaz de derrotar essa ameaça. Assista o vídeo abaixo do texto, da TV 247

Federico Finchelstein

Federico Finchelstein (Foto: Casa de América)

247O historiador e professor Federico Finchelstein, um dos maiores estudiosos do fascismo, afirmou à TV 247 a necessidade de se criar uma frente ampla contra a ameaça posta por Jair Bolsonaro. Professor de História na New School for Social Research e no Eugene Long College, ambos em Nova York, ele disse que o presidente brasileiro segue a cartilha fascista, que busca destruir a democracia “de dentro”.

“Existiam problemas reais em países como Argentina, Brasil e Índia, e essas pessoas se apresentaram como solucionadoras desses problemas, mas é claro que, quando chegam ao poder, vemos que eles não resolvem nada. Existem problemas de criminalidade em todos os países e eles apresentam essa situação de lei e ordem, mas vemos que, quando estão no poder, a violência aumenta, ela não diminui. A democracia é sempre algo que precisa melhorar, e, quando isso não acontece, essas pessoas autoritárias usam isso como uma desculpa para destruir a democracia, não para melhorá-la. Acredito que isso é parte do problema”, avaliou o autor de ‘Do Fascismo ao Populismo na História’.

Finchelstein reforçou a importância de enfatizar questões de justiça e de constituição, mas que isso constitui apenas uma dimensão da mobilização contra o governo Bolsonaro. “A outra é que, é claro, estes não são tempos normais. Os Estados Unidos são um exemplo disso. Você precisa lutar contra aqueles que querem ser fascistas, que estão aspirando ao fascismo. A história do fascismo nos mostra que eles foram parados quando se teve uma coalizão de pessoas que não tinham as mesmas ideias. Em outras palavras, uma coalizão antifascista, uma coalizão em que se têm pessoas de esquerda, de centro ou até de direita, mas que estejam com a Constituição”. 

Ele defendeu que uma coalizão semelhante à americana seja criada no Brasil: “Talvez esteja sendo ingênuo, talvez esteja pedindo por muito, mas foi isso que aconteceu nos Estados Unidos, quando se teve uma coalizão de democratas de esquerda, de centro e até de republicanos contra o perigo do fascismo representado pelo Trump. É disso que o Brasil precisa, uma coalizão antifascista, na minha humilde visão”.

Em outro trecho da entrevista, ele também disse que “o fascismo está ligado à masculinidade tóxica”. “[O fascismo] é uma forma particular de masculinidade, não é a masculinidade, mas uma masculinidade chauvinista e machista”, afirmou.

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Walter Braga Netto, que ameaça com novo golpe, recebeu R$ 100,7 mil de salário em junho. E a mamata continua para os que se julgam acima da Democracia, dos cidadãos e se acham os detentores da ética....

 Além dos habituais R$ 30,9 mil de salário, o general obteve R$ 91 mil de “outras remunerações eventuais".

Walter Braga Netto

Walter Braga Netto (Foto: José Dias/PR)

247 - O general Walter Braga Netto, ministro da Defesa, recebeu R$ 100,7 mil de salário líquido no mês passado. O general, que ameaça com novo golpe, é beneficiário de uma verdadeira mamata.

Além dos habituais R$ 30,9 mil de salário, o general obteve R$ 91 mil de “outras remunerações eventuais". 

"Golpismo e mamata explicam arroubo de general. Quero ver explicar isto na Câmara", escreve no Twitter o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), que convocará Braga Netto para dar  explicações. 

O que há por trás das “ameaças” militares? Por Leila Salim e Maíra Mathias

 

Script se repete: para tirar governo das cordas, cria-se o enredo de que Forças Armadas “não aceitarão” voto eletrônico. Risco real ou tentativa do Planalto de fugir das pautas que importam? E mais: Brasília atrasa chegada de Sputnik V ao Nordeste

Por Leila Salim Maíra Mathias | Imagem: Fernand LégerSoldados jogando Cartas

CRONOLOGIA DO GOLPISMO

Brasília, 7 de julho. O ministro da Defesa, Walter Braga Netto assina junto com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica uma nota em tom de ameaça dirigida a um senador da República: “As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano”. 

Brasília, 8 de julho. O que sabíamos: diante da repercussão negativa da nota, Braga Netto e Paulo Sérgio (Exército) telefonam para Rodrigo Pacheco (DEM-MG) que, depois, divulga que ambos defenderam “ponderação” e “apreço ao Senado”. É o suficiente para que o presidente da Casa considere o assunto encerrado. No mesmo dia, o comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, concede uma entrevista ao Globo que vai estampar a manchete do jornal no dia seguinte. Sustenta que “a nota foi dura como nós achamos que devia ser”, pois seria um “alerta às instituições”. Perguntado sobre o caráter golpista do caso, diz a célebre frase: “Homem armado não ameaça“.

O que não sabíamos daquele mesmo 8 de julho, mas foi revelado pelo Estadão ontem, piora em vários graus o que já era visivelmente ruim. Em uma reunião com alguém descrito como um “importante interlocutor político” e “dirigente partidário”, Braga Netto teria passado o seguinte recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PL-AL): “O general pediu para comunicar, a quem interessasse, que não haveria eleições em 2022, se não houvesse voto impresso e auditável. Ao dar o aviso, o ministro estava acompanhado de chefes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica”, descreve o jornal, que ouviu fontes da política e do Judiciário nas últimas duas semanas. 

Ainda de acordo com essa apuração, depois de receber o recado, Lira dividiu com um “seleto grupo” que a situação era “gravíssima” e o momento preocupante. E, diante do que considerou uma ameaça de golpe, procurou Jair Bolsonaro. Em uma “longa conversa”, disse ao presidente – que naquele mesmo dia, no começo da tarde, tinha declarado “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições” – que não embarcaria na aventura golpista.  

O pano de fundo do recado de Braga Netto e da ameaça de Bolsonaro era a discussão do voto impresso, que acontece em uma comissão especial da Câmara. A princípio, o governo tinha maioria para passar a proposta de emenda à Constituição que prevê a mudança – e se tornou central na estratégia bolsonarista de descrédito das instituições democráticas. Mas três ministros do Supremo – Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso – haviam conseguido virar o jogo no fim de junho, depois de se reunirem com 11 dirigentes partidários.  

Depois da conversa com Bolsonaro, Lira fez postagens nas redes sociais em defesa da democracia. E, segundo a reportagem, foi a partir daí que ele ressuscitou a pauta do semipresidencialismo. 

Em reação à reportagem, choveram notas de repúdio de congressistas, políticos locais, entidades de juristas… Foram muitas, mas a essa altura do campeonato, são uma resposta mais tímida do que o problema exige. Lira não negou o conteúdo da matéria, se limitando a afirmar que haverá eleições em 2022.  

Já Braga Netto chegou a classificar as informações como “invenção”, disse que “não se comunica com os presidentes dos Poderes, por meio de interlocutores”. Em nota oficial, afirmou que a reportagem, vejam só, é que “gera instabilidade entre os Poderes da República” por veicular “desinformação”. Tudo no script já que ninguém imaginava que ele confirmasse a revelação.

Mas a nota acabou escalando a crise porque Braga Netto colocou mais lenha na fogueira do golpismo: “Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias”, afirmou. “A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo governo federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema.”

De acordo com a Folha, o apoio do voto impresso feito publicamente pelo ministro da Defesa fez crescer em alas do Judiciário e do Congresso a avaliação de que é necessário afastar militares de decisões políticas. Na visão de ministros do Supremo “e mesmo de alguns de seus subordinados na cúpula militar”, Braga Netto teria abraçado o papel de “provocador-chefe da República”.

Na análise de juristas do grupo Prerrogativas, a conduta do ministro é “absolutamente deformada” e “golpista” e merece uma apuração rigorosa. O Congresso articula a convocação de Braga Netto para prestar explicações.

PACHECOU

A reação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, à revelação do Estadão lembrou muito a postura de Rodrigo Pacheco diante da nota de Braga Netto e dos comandantes das Forças Armadas e da entrevista do comandante da Aeronáutica – com a diferença de que o caso, agora, é muitíssimo mais grave. 

“Conversei com o ministro da Defesa e com o presidente da Câmara e ambos desmentiram, enfaticamente, qualquer episódio de ameaça às eleições. Temos uma Constituição em vigor, instituições funcionando, imprensa livre e sociedade consciente e mobilizada em favor da democracia”, escreveu Barroso no Twitter.

Repetir que as instituições estão funcionando não vai fazê-las funcionar. Ao contrário. Já o presidente do Supremo, Luiz Fux, optou pelo silêncio – o que também é altamente problemático.

O vice-presidente do TSE, Edson Fachin, foi o único a colocar pingos nos is, constatando que o sistema eleitoral do país “encontra-se desafiado pela retórica falaciosa, perversa, do populismo autoritário” e que não é de se espantar que um “líder populista” deseje “criar suas próprias regras para disputar as eleições”.

Pelo que se pesca de veículos como ValorFolha e Estadão, há no Supremo a avaliação de que as ameaças dos militares não são factíveis porque, ao contrário de 1964, “não têm apoio das instituições para promover intervenção no Estado democrático” e, portanto, o golpe não passaria de um blefe. Aparece até a tese de que, no limite, tudo visa evitar a investigação de militares pela CPI da Covid. 

NÃO VAI PARAR

Só que já foi repetido milhares de vezes que, mesmo que não resulte em levante dos quarteis e tanques nas ruas, o golpismo de Jair Bolsonaro e dos militares mina a democracia brasileira e tem consequências graves. Normaliza o inaceitável. Além disso, não vai parar.

Basta analisar o que disse Jair Bolsonaro ontem. Questionado sobre o caso, ele se negou a comentar e indicou: “Na nota dele [Braga Netto] está feita a resposta, ok?” Como se a nota não fosse escandalosa e, por si só, merecesse explicação.

Além disso, o presidente da República fez mais um ataque ao processo eleitoral, voltando a repetir que a apuração dos votos não pode ser feita por “meia dúzia de pessoas, de forma secreta” em uma “sala lá do TSE”.

Aí o TSE responde, rebate as mentiras de Bolsonaro, explica pela milésima vez como funciona a apuração. E terá de fazê-lo de novo e de novo – mas fica claro que, sozinho, não pode com a campanha de destruição conduzida pelo presidente e seus aliados.

AUTOENGANO

E, de acordo com o Valor, uma ala de ministros do STF acredita que um inquérito para investigar formalmente as declarações de Bolsonaro pode “colocar um ponto final na retórica antidemocrática do governo”. 

TIRANDO O CORPO FORA

Se é verdade que a peça oferecida pela reportagem do Estadão torna o quebra-cabeças da crise muito mais claro, também aparece em alguns lugares a interpretação de que a ida do senador Ciro Nogueira (PL-PI) para a Casa Civil deveria ser lida à luz das tentativas do Centrão de moderar o governo Bolsonaro, escanteando militares, etc. O que, lembremos, se dizia sobre os próprios militares no começo do governo.

Também pipocam, aqui e ali, fontes militares anônimas que se dizem incomodadas com a postura de Braga Netto, alinhado completamento ao presidente Jair Bolsonaro. 

Mas tanto o Centrão, quanto os militares estão consorciados com o bolsonarismo, gozam das vantagens do poder – e, no caso do Centrão, se aproveitam da fragilidade do governo usando os 130 pedidos de impeachment como moeda de troca para abocanhar mais nacos do Executivo. 

A transubstanciação das três forças é totalmente funcional aos propósitos que perseguem e, ontem, Bolsonaro resumiu assim o momento político: “Eu sou do Centrão”. 

E nunca é demais reforçar: amanhã tem nova rodada de manifestações contra o governo.

ORIGENS DA DISCÓRDIA

Novo capítulo nas investigações sobre a origem do novo coronavírus. A China rejeitou, ontem, o plano da Organização Mundial da Saúde (OMS) para realização de uma segunda rodada de investigações no país, que incluiriam novas inspeções em laboratórios e instituições de pesquisa na cidade de Wuhan. Na semana passada, Tedros Adhanom, diretor geral da OMS, sugeriu que seria cedo demais para descartar a hipótese de que o vírus houvesse originalmente escapado de laboratório e pediu que Pequim compartilhasse com os cientistas da entidade os dados brutos sobre os primeiros casos da doença. 

O vice-ministro da Comissão Nacional de Saúde, Zeng Yixin, disse em coletiva de imprensa que a proposta da OMS era uma surpresa, já que a equipe internacional de investigação liderada pela entidade apontou, em fevereiro, que o vazamento seria algo “extremamente improvável”. Na época, como contamos aqui, Peter Ben Embarek, líder da missão, disse que, apesar de acidentes desse tipo ocorrerem, não havia no laboratório de Wuhan pesquisas sobre vírus com as características do SARS-CoV-2 quando as infecções começaram, e que por isso a hipótese não deveria continuar sendo estudada.

A primeira missão à China terminou com mais perguntas do que respostas. Após a visita, outras três linhas de investigação sobre o início da contaminação em humanos foram mantidas: transmissão direta a partir de um animal (provavelmente um morcego); a contaminação indireta através de um animal intermediário; e a infecção de humanos a partir do contato com o vírus em superfícies congeladas. 

Mas as coisas mudaram quando Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, conduziu a volta do país à OMS, depois de Donald Trump ter retirado o país da entidade. O novo presidente retomou a hipótese de acidente biológico como origem da pandemia. Como destacou O Globono cenário de acirramento da disputa Washington/Pequim, cientistas estadunidenses e o governo Biden passaram a questionar o fato de a China não ter entregue os dados brutos dos primeiros pacientes de covid-19 em Wuhan. 

Após Biden afirmar que a inteligência dos EUA trabalhava em um relatório sobre o tema, Austrália e Reino Unido, entre outros países, se somaram às pressões e a OMS propôs a segunda etapa da investigação – incluindo as novas visitas a laboratórios e centros de pesquisa. No início de julho, Tedros Adhanom disse esperar mais cooperação de Pequim, principalmente no acesso a dados brutos. Ele lembrou que esse foi um dos principais problemas enfrentados pela missão internacional do início deste ano. 

A negativa chinesa foi enfática. Além de reafirmar que a entrega integral dos dados dos primeiros pacientes feriria a privacidade dessas pessoas, Pequim anunciou que não participará das buscas pela origem do vírus caso a hipótese de vazamento continue a ser considerada. Os cientistas chineses defendem que os esforços globais precisam priorizar os estudos sobre morcegos.

Horas depois, a Casa Branca disse que a decisão é “irresponsável” e “perigosa”. Jean Psaki, secretária de imprensa dos EUA, condenou o anúncio da China e disse que o país “não está cumprindo com suas obrigações”. 

SPUTNIK DESCARTADA

O Ministério da Saúde decidiu rescindir o contrato para a compra de vacina russa Sputnik-V. Segundo o Valoro governo irá argumentar que a Anvisa não aprovou o uso do imunizante para desistir do contrato intermediado pela União Química, que previa a importação de 10 milhões de doses. A autorização da Anvisa é uma das condições previstas no acerto com a empresa.

A deliberação da agência, no entanto, é mais mediada e pode gerar outras interpretações. Em junho, a Anvisa decidiu pela autorização condicional e com restrições da importação do imunizante, considerando  a falta de dados consistentes sobre a segurança da Sputnik-V. A autorização é para um volume reduzido, correspondente a 1% da população brasileira. Além disso, a aplicação da vacina estaria condicionada a avaliação de cada lote pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS). 

Na última quarta, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já havia sinalizado a possível desistência. Ponderando a “conveniência e oportunidade” de importação da Sputnik e da Covaxin, ele considerou que a importação dos imunizantes traria “pouco benefício” à campanha de imunização

Os governadores do Nordeste reagiram. O consórcio formado pelos estados da região tem um contrato para a compra de 37 milhões de doses da Sputnik. Na terça, eles haviam anunciado o desembarque de 1,1 milhão de doses da Sputnik no Brasil no próximo dia 28. No dia seguinte, após a fala de Queiroga, o governador do Piauí, Wellington Dias, disse que o esforço dos estados estava encontrando um conjunto de obstáculos. “Ora é a Anvisa, ora é uma posição do Ministério da Saúde como aconteceu agora”, disse. Rui Costa, governador da Bahia, declarou em sua conta no Twitter que as dificuldades para importação do imunizante russo são “um negócio incompreensível, de causar indignação”.

CERCO SOBRE DIAS

Novas revelações complicam ainda mais a situação de Roberto Dias, o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde investigado pela CPI da Covid. Reportagem d’O Globo mostrou ontem que, com seu aval, a pasta pagou R$ 39 milhões na compra de reagentes para testes de covid-19, mesmo depois de a Controladoria-Geral da União (CGU) apontar irregularidades no contrato.

A empresa americana Thermo Fisher, vencedora da licitação, apresentou uma proposta em que faltavam alguns dos materiais pedidos – e por isso apresentou um preço mais baixo para o contrato. A empresa foi habilitada mesmo com a oferta incompleta.

Levantando ainda mais suspeitas, aparece o fato de que outras empresas concorrentes foram descartadas exatamente por não atenderem em suas ofertas a convocação de todos os itens pedidos pelo ministério. 

O contrato foi firmado no fim de agosto do ano passado, mesmo após as sinalizações contrárias da CGU, prevendo a compra de 10 milhões de kits para exames de detecção do novo coronavírus por R$ 133 milhões. Em dezembro, foi formalmente anulado diante das suspeitas de irregularidades, mas uma primeira parte das entregas já havia ocorrido em setembro. Em abril deste ano, a Secretaria de Vigilância em Saúde reconheceu a dívida com a empresa. Dias determinou o desembolso de R$ 39,8 milhões. 

Tem mais: em entrevista exclusiva ao Globo, a CEO da VTC Log, Andreia Lima, admitiu ter cobrado de Dias um aditivo de R$ 18 milhões em favor da empresa. A VTC Log entrou na mira da CPI sob suspeita de irregularidades nos contratos com a pasta. Como comentamos por aqui, a quebra de sigilo telefônico do ex-diretor de logística mostrou repetidos contatos com a VTC. 

A CEO negou, no entanto, que tenha pago propina para manter seus contratos com o governo. Segundo ela, as cobranças eram parte de um acordo entre o ministério e a VTC referente ao pagamento de serviços anteriores. A VTC alegava que deveria receber R$ 57 milhões, quanto a pasta dizia dever cerca de R$ 1 milhão. A solução para a curiosa discrepância teria sido o número mágico de R$ 18 milhões, proposto pela empresa e aceito por Dias. 

FALANDO NISSO…

Bolsonaro, até agora, não largou a mão de Ricardo Barros (PP-PR), líder de seu governo na Câmara dos Deputados. Em entrevista à Rádio banda B, do Paraná, disse ontem que as acusações do deputado Luís Miranda na CPI carecem de “materialidade” e que, por isso, manterá Barros na função. Como se sabe, Miranda disse à CPI que, ao alertar Bolsonaro sobre irregularidades nas negociações para compra da Covaxin, teria escutado do presidente que elas seriam “rolo do Barros”. 

Já o deputado Luís Miranda segue na mira da Polícia Federal. Ontem, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, pediu que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre o pedido da corporação para abertura de inquérito sobre denunciação caluniosa do parlamentar a Bolsonaro.