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quarta-feira, 5 de março de 2025

Neoliberalismo como construção do idiota, por Rodrigo Medeiros

 

De olho em vantagens pessoais, os idiotas abrem mão de projetos coletivos por deterem uma subjetividade que compromete o pensamento reflexivo

                                Foto de Milad Fakurian na Unsplash


Neoliberalismo como construção do idiota

Por Rodrigo Medeiros*

Após ler o livro ‘A construção do idiota’ (2024), editado pela Da Vinci Livros, decidi cumprir a promessa feita ao seu autor, Rubens Casara, escritor e juiz de direito. Conheci Casara na Livraria Da Vinci, no Rio de Janeiro, em setembro do ano passado. Naquele momento, pude conversar com ele sobre alguns aspectos da respectiva obra e sobre o momento político brasileiro. Irei abordar alguns pontos relevantes que selecionei no livro e fazer alguns breves comentários. Recomendo aos interessados a leitura do livro.

Seria, afinal, possível desenvolver o programa neoliberal sem a construção de um imaginário coletivo aderente? Logo no primeiro capítulo do livro, Casara abordou o processo de idiossubjetivação. De acordo com o autor, “a idiotice é a postura, por excelência, do sujeito neoliberal que atua egoisticamente a partir de cálculos de interesse que visam exclusivamente o lucro ou a obtenção de alguma vantagem pessoal”. O idiota, palavra de raiz etimológica grega que significa “privado”, é uma pessoa sem compromisso com a vida pública. Reduzir a participação e o interesse coletivo na vida pública faz parte do processo que constrói idiotas úteis nas cidades para o desenvolvimento do programa neoliberal.

Para Casara, “idiotas, portanto, são as pessoas que abdicam de projetos coletivos ou de ações políticas voltadas para o bem comum, porque são detentoras de uma subjetividade empobrecida que interdita o pensamento reflexivo visando a obtenção de vantagens pessoais”.

A construção do idiota é um processo de dominação ideológica presente no capitalismo neoliberal, cujo programa começou a ser elaborado a partir da segunda metade dos anos 1930 e que se difundiu globalmente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e principalmente após a dissolução da União Soviética, em 1991, com o fim das experiências do socialismo real. “Fim da história” para alguns, pois a “ameaça comunista” havia terminado. O Estado de bem-estar social capitalista do pós-Segunda Guerra havia perdido a sua utilidade de contenção.

Não há mesmo alternativas ao neoliberalismo e sua distopia civilizatória baseada no darwinismo social e na banalização das desigualdades sociais extremas? Temos que aceitar ainda hoje que não há alternativas, como dizia Margaret Thatcher? Conforme ponderou Casara, “idiotas, inocentes ou não, sempre foram úteis àqueles que pretendem dominar e explorar outros seres humanos”. Empobrecer a linguagem, a discussão pública e simplificar os problemas causados pelo programa neoliberal, responsabilizando individualmente os mais frágeis, as vítimas do sistema, são táticas bem conhecidas dos ideólogos do neoliberalismo.

De acordo com o autor, “para compensar o caos social produzido pela adoção de medidas neoliberais, os detentores do poder econômico estimulam promessas e discursos que satisfazem um imaginário que projeta o retorno a um passado idealizado de segurança”. Passado este que nunca existiu de fato. O sociólogo Zygmunt Bauman chamou esse tipo de retorno ao passado de “retropia”. Alguns chamam de reacionarismo, ou de populismo reacionário.

Rubens Casara compreende que vivemos em um tempo no qual “a pessoa trabalhadora tornou-se cada vez mais manipulável e dispensável”. Poderíamos considerar este tempo como a modernidade líquida sob a hegemonia do programa neoliberal: privatização; desregulamentação de mercados; um Estado mínimo para os trabalhadores e os mais vulneráveis; finanças públicas ortodoxas na busca do equilíbrio fiscal, independente da fase do ciclo econômico e das consequências sociais; bancos centrais sob o controle dos financistas de mercado, apartados das necessidades sociais e dos ciclos eleitorais.

A perspectiva “reformista” que restou seria a aplicação de um choque neoliberal de desresponsabilização, desvinculação e desestatização? Tal abordagem antissocial se aproxima da conhecida “banalidade do mal” identificada por Hannah Arendt no nazismo.

Nesse sentido, o autor afirmou que “a idiossubjetivação, esta produção de subjetividade ao neoliberalismo, cresce junto aos fenômenos de extensão da democracia liberal (democracia meramente formal) e do aumento do poder das empresas”. Para manter o sistema capitalista vigente, em crise permanente, a democracia liberal conseguirá resistir aos avanços das novas formas de fascismo?

Privatizações e desregulamentações são pilares fundamentais das políticas neoliberais, promovidas ideologicamente sob a premissa de que a gestão privada é inerentemente mais eficiente do que a pública. Este enfoque não raro aumenta a desigualdade, pois beneficia desproporcionalmente os agentes econômicos mais fortes e penaliza aqueles menos capazes de competir em igualdade de condições.

Além disso, a política de austeridade fiscal costuma levar à redução de investimentos públicos em áreas essenciais, como saúde e educação, impactando negativamente a qualidade de vida de vastos segmentos populacionais. O programa neoliberal tende a favorecer as grandes corporações e indivíduos de alto poder aquisitivo, exacerbando as desigualdades preexistentes e criando barreiras adicionais para a mobilidade social.

Apesar do relativo bom desempenho recente da economia brasileira, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calculou que “em dezembro de 2024, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 7.067,68 ou 5,01 vezes o mínimo de R$ 1.412,00”. A informalidade laboral se manteve elevada no patamar de 39% para um mercado de trabalho estruturalmente precário.

Em diversos contextos, grandes concentrações de riquezas, faltas de oportunidades e de acesso a recursos básicos por parte da maioria da população se mostraram historicamente capazes de gerar um sentimento de injustiça e revolta popular. Manifestações contemporâneas do fascismo têm sido observadas em vários países, inclusive no Brasil. Essas manifestações têm impactos profundos na sociedade, levando a divisões e polarizações cada vez maiores.

Em síntese, Rubens Casara afirmou que “os processos de produção da subjetividade neoliberal precisam demonizar o comum para assegurar a negociabilidade ilimitada inerente às relações sociais neoliberais”.

A ideia de um crescimento econômico ilimitado em um planeta finito também integra o quadro ideológico hegemônico. A Organização Meteorológica Mundial, por sua vez, informou que 2024 foi o ano mais quente da história. Há registros de uma escalada dos efeitos do clima na saúde humana e nos preços dos produtos agrícolas.

A atual crise climática representa um dos maiores desafios globais contemporâneos, caracterizada pelo aumento acelerado das temperaturas médias do planeta, eventos climáticos extremos crescentes e a alteração dos padrões climáticos em diversas regiões, com consequências sociais negativas.  

Na propaganda cotidiana do neoliberalismo, a mídia ocupa um papel central como vetor de disseminação de ideais políticos e econômicos que incentivam a desregulamentação e a privatização. As empresas de comunicação muitas vezes se alinham aos interesses corporativos, promovendo uma narrativa que promove o darwinismo social e a minimização dos gastos públicos.

Esta aliança impacta a forma como as políticas públicas são debatidas e percebidas pela população, fortalecendo a hegemonia de um pensamento antissocial em detrimento de uma diversidade de vozes e perspectivas críticas, essenciais para uma democracia mais robusta, participativa e inclusiva.

*Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap).

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Democracias morrem... por Valdemar Figueiredo


 Trump volta ao poder tendo no currículo a promoção do caos.


Do iclnoticiais.com.br

Acordamos nesta quarta-feira (06) com a notícia que temíamos na noite anterior: o republicano Donald Trump venceu as eleições e se tornará novamente presidente dos Estados Unidos.

Como na campanha eleitoral de 2016, também em 2024 Trump conseguiu manipular a raiva do eleitorado e transformar sentimentos em votos.

Compartilho aqui na coluna algumas notas que escrevi ao folhear o livro “Como as democracias morrem”.[1]

Outsiders chegaram ao poder não só por conta dos seus talentos, mas também pela negligência do establishment político, que, diante dos sinais, não fecharam as portas. Isto é, o institucionalismo vigente não deu conta de novas realidades políticas.

Durante a campanha eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, e de Jair Balsonaro no Brasil, em 2018, a percepção de recessão democrática se intensificou.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desnaturalizam a concepção de “América Democrática”. O estudo da cultura política norte-americana leva à conclusão de que os norte-americanos têm uma veia autoritária.

Os partidos políticos são a proteção contra líderes autoritários, demagogos e aventureiros. Daí a forte ênfase do livro no institucionalismo.

Se os sinais eram tão evidentes que o candidato Donald Trump não tinha apreço pelas garantias dos direitos constitucionais nem pelas normas democráticas, como pôde a liderança do Partido Republicano deixá-lo ir tão longe?

Mesmo com todos os alarmes, o establishment político não foi capaz de construir contenções para proteger as instituições democráticas. Colocaram o eleitoral à frente da ordem democrática.

Como autocratas minam sutilmente a democracia?

Cooptação do sistema judiciário e forças policiais. Blindagem dos questionadores e “arma legal” contra os oponentes. Comprar oponentes oferecendo posições públicas ou vantagens. Marginalizar a mídia de oposição. O silenciamento de vozes influentes (empresários, artistas, intelectuais e políticos) por cooptação ou intimidação.

Esquematicamente, governos eleitos no processo democrático e que depois assumem feições autoritárias, utilizam as seguintes estratégias: (1) capturar os árbitros; (2) tirar do jogo importantes adversários; (3) reescrever as regras do jogo para desequilibrar a disputa.

Hoje, imagino, ninguém duvida que o retorno do Trump a Casa Branca representa a delegação a um autocrata para reescrever as regras do jogo. O Trump, na versão 2024, soa como uma ameaça ainda maior.

Convencionalmente, a ideia-força das democracias estabelece que os rivais discordam, mas se toleram e concordam no sentido de respeitar as regras institucionais. Tolerância mútua a partir do reconhecimento da legitimidade do rival.

Na presidência nos Estados Unidos, mesmo na ausência de barreiras constitucionais, em regra, os presidentes foram comedidos não ultrapassando suas prerrogativas para governar. Esse fenômeno é representativo do uso e reconhecimento das “regras não escritas”.

O processo de erosão das regras democráticas (escritas e não-escritas) encontra em Trump a sua expressão mais nítida, mas o processo antecede a esse fenômeno.

Os precedentes históricos em que a disputa pelo poder no bipartidarismo estadunidense se dava no ambiente respeitoso aos adversários, mas sobretudo, respeito pelas regras (escritas e não-escritas), foram descontinuados.

Extremismos, polarizações radicais estimulando rupturas e interdição do diálogo. Exercício da política na lógica da ruptura em que o adversário é tratado como inimigo.

Ainda sobre a crescente animosidade na disputa partidária nos Estados Unidos, importante contextualizar a imersão dos cristãos evangélicos a partir do final dos anos 1970. Os dois partidos radicalizaram nas disputas de natureza racial e religiosa. “A intolerância se mostrava politicamente útil” (Ibid, p. 155).

“A democracia norte-americana não é tão excepcional quanto às vezes acreditamos que seja. Não há nada em nossa Constituição nem em nossa cultura que nos imunize contra colapsos democráticos (Ibid, p. 194).”

Embora reivindique a identidade de nação democrática, os Estados Unidos não se diferenciam de outras nações. A democracia não está consolidada, é algo que está sempre adiante e precisa ser buscada. É por isso que podemos falar de avanços e retrocessos democráticos nos Estados Unidos e nos outros países que se dizem democráticos.

O processo de aperfeiçoamento institucional exige vigilância constante e a capacidade de construir acordos em torno de interesses comuns.

Essas ideias são utilizadas para pensar os desafios impostos pela figura política do Trump. Para os autores, o governo Trump representava um retrocesso de severa inflexão das instituições democráticas norte-americanas.

Cogitar um pós-Trump em que a tarefa comum seja a recomposição democrática em duas normas fundamentais: tolerância mútua e reserva institucional.

Infelizmente, a esperança de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt foi adiada.

Trump é uma real ameaça à democracia e os seus eleitores sabem disso.

 

[1] LEVITSKY, Steven & ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Xadrez do Brasil na grande batalha insana da globalização, por Luis Nassif

 

Paradoxalmente, toda essa dificuldade será o fator de aglutinação da renovação. O que estará em jogo não será um provável terceiro governo Lula, mas o próprio desafio de manter o Brasil como nação.

É importante entender a dimensão do jogo político envolvido nas próximas eleições.

O Brasil está no epicentro de uma disputa política mundial, conduzida, de um lado, por uma coalizão de oligarcas, que denominaremos aqui, genericamente, de globalismo; do outro, pelos instrumentos civilizatórios do período anterior, órgãos multilaterais, instituições de Estado e movimentos de direitos humanos que a ultradireita internacional batizou de globalismo de esquerda..

Vamos por partes. .

Etapa 1 da financeirização


Iniciada nos anos 70, o longo período da financeirização mundial repetiu, com impressionante semelhança, o ocorrido um século antes.

Primeiro, houve o advento de novas teorias econômicas, propondo a desregulamentação de mercados e o livre fluxo de capitais. Em ambos os casos, a teoria vendia falsas promessas: a de que, tratando bem o capital, ele transbordaria dos grandes centros para a periferia, trazendo prosperidade geral.

Desde o início da financeirização – nos anos 70 -, desregulamentação de mercados, controle das autoridades monetárias pelo mercado, novas tecnologias, bolhas especulativas permitiram enorme concentração da riqueza e perspectivas de grandes negócios com serviços públicos.

No século 19, esses negócios se concentravam nas ferrovias, navegação, iluminação pública. No século 21, nas grandes privatizações e na exploração dos mercados de energia, saúde e seguridade. E, em ambos os casos, uma ampla corrupção dos atores públicos, partidos políticos, Executivo e Judiciário, como sucedeu com o próprio Rui Barbosa, primeiro Ministro da Fazenda da República.

Na primeira fase, o discurso neoliberal tornou-se hegemônico, facilitando o trabalho de desmonte dos Estados de bem estar social, e provocando a explosão de grandes bolhas especulativas.

O passo seguinte foi a aliança global das oligarquias de vários países, alavancadas pelo sistema financeiro internacional. E, internamente, os capitais nacionais associados às grandes bancas globais. 

As pontas de lança do discurso neoliberal

Recomendo a leitura do livro “Democracia na Periferia Capitalista”, do cientista político Luiz Felipe Miguel. Ele traça um bom roteiro das diversas interpretações sobre a crise das democracias depois de 2008.

As ideologias se constroem assim:

  1. De início, teorias destinadas a dar substância teórica aos interesses do capital. Esse movimento se dá cooptando acadêmicos e usando a mídia para invisibilizar a crítica.
  2. A partir daí, um conjunto de bordões que entram no dia-a-dia da mídia e passam a ser utilizados corriqueiramente por jornalistas ou acadêmicos propagandistas, infiltrando-se por todos os poros da opinião pública.

Alguns deles:

  • A retirada de direitos tornará a economia mais eficiente e, com isso, todos ganham, inclusive os que perderam os direitos.
  • Em qualquer hipótese, uma empresa privada é superior à empresa pública. Nem se cuida de analisar características e objetivos de cada uma.
  • Toda medida que beneficia o mercado é virtuosa. Jamais analisam externalidades negativas ou positivas.
  • Qualquer medida em benefício da população é populismo ou é “medida eleitoreira”.
  • Há um desprezo por qualquer gestor que não pertença aos círculos do mercado, como se a política exigisse personagens iluminados e como se as medidas em favor do mercado obedecessem a princípios científicos.
  • A análise de desempenho de empresas públicas fica restrita à sua capacidade de distribuir dividendos aos acionistas, ignorando por completo seus compromissos sociais, de atendimento a metas, interesses nacionais e de reinvestimento.
  • Uma empresa que não reinveste lucro tem resultados melhores no balanço imediato, e compromete o futuro. Por aqui, quanto maior a distribuição de dividendos, menor a parcela de investimentos e maior o saque contra o futuro da própria empresa Mesmo assim, recebe os maiores elogios da mídia.
  • Se a “lição de casa” não produziu resultados, é porque foi insuficiente. Tem que radicalizar, inclusive para não jogar fora os sacrifícios já incorridos.

Etapa 2 da financeirização

A crise de 2008 representou o fim do modelo das democracias liberais com sua receita de bolo: um discurso ideológico consolidado, o desmonte dos Estados nacionais contra qualquer forma de direitos sociais. Com a crise, o jogo muda, cai o mote do eficientismo, deixando um legado de concentração de renda, de grandes tragédias migratórias. 

E também oligarcas, os bilionários que passam a se articular para a preservação do seu poder mundial. No caso russo e ucraniano, bilionários mais rústicos; nos países ocidentais, bilionários mais refinados misturados com Véios da Havan da vida. Mas todos, igualmente, oligarcas.

Análise-se o caso brasileiro.

Jorge Paulo Lemann, dono de fundações de estímulo à educação e de renovação política. No governo FHC conseguiu o controle do mercado de cervejas, graças a um voto indecente de Gesner de Oliveira, presidente do CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico). No primeiro governo Lula, assumiu a Cemar (Centrais Elétricas do Maranhão), em uma manobra que nada ficava a dever a um oligarca russo. Agora, atua para privatizar a Eletrobras por valor ínfimo. Não despendeu um tostão na capitalização da empresa. Mas a mera privatização multiplicará por várias vezes o valor da sua participação.

Em uma das eleições, colocou um economista de confiança como assessor econômico do candidato Ciro Gomes, como condição para dar seu apoio. Tempos depois, colocou o assessor trabalhando diretamente com Antonio Pallocci, no governo Lula.

Daniel Dantas – graças ao apoio do governo Fernando Henrique Cardoso e cooptação de dirigentes de fundos de pensão, logrou o controle de várias estatais de telefonia privatizadas, sem precisar aportar capital. Depois disso, investiu em serviços públicos no Rio de Janeiro, em clubes de futebol e em fazendas na Amazônia.

André Esteves – no período Lula, participou de inúmeros empreendimentos gigantescos, como o Sete Brasil. Recentemente, venceu uma licitação viciada para a Zona Azul de São Paulo, levando de graça uma base de dados de 3,5 milhões de cartões de crédito.

Colocou um homem seu no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e outro no Ministério da Economia. Paulo Guedes foi flagrado em uma live com um terminal da Bloomberg em sua sala, próprio para operações no mercado.

Sem contar os fora de linha, como Luciano Hang, o dono do Madero e outros, associados ao submundo empresarial da China.

Desde a crise de 2008, essa articulação de bilionários passou a buscar novas formas de garantir politicamente seus ganhos.

Etapa 3 – os pactos antidemocráticos

A ofensiva antidemocrática juntou globalmente dois grupos distintos: os oligarcas e a ultradireita.

Do lado dos oligarcas, montou-se a aliança tradicional que inclui a OCDE e o Departamento de Estado americano e, internamente, grupos de mídia nacionais.

Uma comparação da história recente da Ucrânia e do Brasil fornece  paralelos interessantes. Confira no artigo “Xadrez de Zelensky, o heróico comediante inventado pela mídia”.

Em ambos os casos, houve uma orquestração de impeachment atendendo a interesses globalistas.

Os EUA já tinham utilizado o poder do dólar como ferramenta geoeconômica, quando conseguiu impor à OCDE o primado da jurisdição americana sobre qualquer ato de corrupção que, de alguma maneira, fosse em dólares.

Em seguida, a OCDE lançou a campanha “no corruption”, que influenciou imediatamente o Ministério Público Federal brasileiro e passou a montar parcerias com países emergentes, visando impor a lógica americana nos judiciários locais. Os episódios mais ostensivos foram a Lava Jato, no Brasil, e a intervenção na Ucrânia em 2014. No caso da Ucrânia, a OCDE e o Departamento de Justiça dos EUA garantiram até prerrogativa de nomear juízes e ministros.

Na Ucrânia, o golpe foi precipitado por decisões pró-Rússia de um governo eleito; no Brasil, pela resistência da presidente em aderir ao “Ponte para o Futuro”, uma pauta globalista.

Em ambos os países, a mobilização popular contra o governo ocorreu com a participação direta das maiores redes de televisão. No caso do Brasil, a parceria com os oligarcas da Globo. Em troca, a Globo garantiu blindagem nas investigações que aconteciam nos EUA sobre a corrupção na FIFA, que tinha sua participação direta na compra de campeonatos. Uma das delações-chave foi a de J.Hawilla, principal parceiro da emissora na corrupção da FIFA e da CBF. Mesmo assim, o grupo saiu ileso.

Na Ucrânia, o principal promotor das manifestações foi uma rede de emissoras do oligarca Ihor Kolomoisky.

Em ambos os países, na fase inicial a transição política foi conduzida por políticos impopulares e mal-afamados, Michel Temer no Brasil, Petro Poroshenko na Ucrânia.

No momento seguinte, houve um processo de construção de “mitos” – Zelensky na Ucrânia, através da rede de emissoras de Kolomoisky – que simultaneamente financiou o grupo neonazista Batalhão Azov. Bolsonaro no Brasil – valendo-se das redes formais e das redes sociais.

Do lado da ultra direita houve a utilização intensiva das redes sociais e a constituição de milícias armadas de apoio direto aos presidentes.

Nos dois casos – Ucrânia e Brasil – o legado ultraliberal resultou no desmonte dos estados nacionais, queda significativa do PIB, manutenção de níveis elevados de corrupção.

Etapa 4 – a volta dos pactos regionais

Nos últimos anos, dois grandes eventos expuseram definitivamente o legado deletério do globalismo neoliberal: a pandemia do Covid-19 e o conflito Rússia-OTAN, seguido das sanções econômicas adotadas pelos Estados Unidos contra a Rússia.

A pandemia acelerou a desestruturação das cadeias globais de produção, trouxe de volta o conceito de segurança econômica nacional e jogaram em primeiro plano a questão da fome e da miséria. Já as sanções econômicas trouxeram um risco adicional para a manutenção do dólar como moeda global. 

A consequência imediata será o fortalecimento dos pactos regionais. Com Lula, provavelmente haverá uma radicalização dos acordos econômicos e monetários com vizinhos da América do Sul; um fortalecimento dos BRICs; da IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana), a Cooperação Andina de Fomento. E, agora, a partir da sugestão de Fernando Haddad, a criação de uma moeda sul-americana, passo mais importante para a integração do continente.

Etapa 5 – Brasil no epicentro da maior batalha global

A partir de agora, desenrola-se a, provavelmente, mais importante batalha mundial do ultraliberalismo. De um lado o liberalismo destruidor de estados e de direito. Do outro, a social-democracia redesenhada  – formada pela social-democracia europeia e países da América Latina – empenhada na reconstrução dos estados nacionais e das instituições multilaterais.

Logo após a derrota de Donald Trump, Valeria Huber, uma espécie de Damares de Trump, enviou e-mail para todos os colaboradores despedindo-se e informando que “o Brasil, gentilmente, ofereceu de servir agora como coordenador dessa coalizão histórica”, a agenda ultra-conservadora de Trump.  Antes dela, Steve Bannon – o guru da ultra-direita, já havia apontado Lula como o “o maior ídolo da esquerda globalista mundial”. 

Eleito Lula, haverá a necessidade de um pacto nacional onde não mais haverá o ganha-ganha dos dois primeiros governos. Será uma batalha titânica, sem espaços de mediação. 

Não há uma instituição em condições de ancorar a transição.

A cobertura da guerra mostrou uma mídia brasileira que não absorveu em nada as lições da cobertura da Lava Jato. O período do jornalismo de esgoto afetou radicalmente uma geração inteira de chefes de redação. A renovação será lenta – se houver.

No plano político-partidário, nem a criação do instituto da federação de partidos logrou homogeneizar os projetos de país.

Lava Jato e impeachment contaminaram todos os poderes nacionais. No Judiciário há até questionamento de decisões do STF por tribunais relevantes, como o Tribunal de Justiça de São Paulo. O modelo de indicação de desembargadores impede completamente a renovação nos principais tribunais, submetidos a cartas marcadas que eternizam estruturas herdadas do período ditatorial.

Nas Forças Armadas, currículos dos tempos da ditadura, e jamais renovados, eternizaram gerações de militares sem nenhuma informação sobre as mudanças globais, ainda presos à guerra fria e à noção de defesa do “mundo livre”. E, agora, parte deles contaminada pela possibilidade de negócios abertos pela invasão da área pública por militares negociantes.

Ao mesmo tempo, o vírus do ultraliberalismo continua arraigado na opinião pública.

Paradoxalmente, toda essa dificuldade será o fator de aglutinação da renovação. O que estará em jogo não será um provável terceiro governo Lula, mas o próprio desafio de manter o Brasil como nação.