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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Paulo Guedes arma o gatilho para explodir a economia, por Luis Nassif

 

Forma-se uma onda especulativa de alta dos preços, na qual o gatilho para a venda rápida - e fuga para o dólar - será uma frustração com o Congresso, um problema para fechar o orçamento, a dívida chegando a 100% do PIB e outros eventos negativos, mas que não seriam dramáticos, não tivessem sido colocado como gatilho para o mercado pelo próprio Ministro da Economia..


Nos anos 90, Paulo Guedes foi apelidado de Beato Salú por usar, com exagero, um dos principais instrumentos retóricos dos economistas: a ameaça do fim do mundo. Essa retórica terrorista é historicamente utilizada pelos economistas desde tempos imemoriais. Mas quando brandidas por um Ministro da Economia irresponsável, trazem uma boa dose de risco para a economia.

O mercado se movimenta em torno de ondas especulativas recorrentes. Cria-se uma expectativa qualquer em torno de um episódio em geral irrelevante. Por exemplo, aprovação de determinada lei; discussão em torno de um pacto político. Esse movimento é armado por profissionais do mercado, valendo-se de repórteres financeiros de baixo discernimento.

Arma-se a contagem regressiva. Na véspera do evento, independentemente de seu resultado, os profissionais passam a desovar os papéis que compraram, furando a bolha.

O que Guedes está armando é um terrorismo, com ameaças de hiperinflação, se seus desejos não forem atendidos – privatização selvagem, manutenção da Lei do Teto e outras tarefas impossíveis.  E, quando se analisa o mercado, há uma boa dose de gasolina sendo despejada no chão.

Entenda o jogo.

Peça 1 – O nível de atividade

Houve uma certa fantasia no mercado devido ao que se imaginou perda de ritmo do comércio, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE.

De fato, na saída do primeiro isolamento, houve ganhos expressivos do comércio por uma razão óbvia: a economia parou nos três primeiros meses de pandemia. Portanto, qualquer acréscimo de vendas teria um bom impacto percentual.

No gráfico abaixo, entenda essa perda aparente de dinamismo do crescimento.

Repare que de junho em diante, o desempenho de Hipermercados e Supermercados foi medíocre. Mas apenas porque, no período anterior, registraram crescimento expressivo.

O gráfico abaixo analisou o desempenho acumulado dos indicadores em cada data até setembro em cima da média acumulada de 12 meses.

Repare que o acumulado de março a setembro mostra avanços expressivos em Tecidos, Vestuários e Calçados, Móveis e Eletrodomésticos, Outros, Veículos e Material de Construção.

No entanto, quando se analisa o acumulado de novembro de 2019 a setembro de 2020, há quedas em 4 setores: Combustíveis e Lubrificantes, Tecidos, Vestuário, Equipamentos de Escritório e Veículos.

Peça 2 – Os problemas à frente

No entanto, há um conjunto de problemas pela frente.

O primeiro, uma pressão persistente de custos, tanto no setor de alimentos quanto de equipamentos.

De fevereiro a outubro, o item Óleos e Gorduras registrou 33,5% de alta; leite e derivados, outros 17,1% e carnes 11,5%.

Em comum, o fato de serem produtos comercializáveis, pressionados em duas frentes: a alta das cotações internacionais e a desvalorização do real frente o dólar, o que aumenta em reais a receita proveniente das exportações. Grosso modo, se as cotações internacionais aumentarem 10% e o câmbio 30%, o impacto final sobre os preços, em reais, será superior a 40%.

Algumas fontes do governo sustentam que haveria estoques reguladores para segurar a alta. Mas não há estoques de soja, como não havia de arroz e carne – dois outros produtos afetados pelas exportações.

Desde o governo Temer, o fiscalismo irresponsável levou a um desmonte da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e da política de estoques reguladores.

No caso da soja, por exemplo, os estoques acumulados de soja em grão, até setembro, eram 0,7% a menos do que no ano passado. Mas houve uma queda de 20% nos estoques de farelo de soja e de 35% em óleos de soja. Sem nenhuma restrição às exportações, nenhum imposto de exportação para refrear o impacto nos preços internos, não haverá como conter os preços dos comercializáveis.

Os desarranjos nas cadeias produtivas, além disso, têm produzido pressões de custos em muitos setores industriais. No gráfico abaixo, o levantamento do Índice de Preços ao Produtor, mostrando pressão de custos relevantes em todos os setores.

Peça 3 – O xadrez do Banco Central

Aí se entram nas sinucas do Banco Central.

Há uma pressão de custos, puxada especialmente pela desvalorização do real. O único instrumento do qual se vale a política econômica é a política monetária. Se puxar os juros, o Banco Central impactará a dívida pública e abortará qualquer respiro de recuperação.

Com a inflação subindo, o BC enfrentando a pressão pela alta da Selic, o Tesouro tendo que rolar a dívida no dia a dia, com o Ministro jogando contra – isto é, a favor das expectativas negativas – o desfecho é previsível.

Forma-se uma onda especulativa de alta dos preços, na qual o gatilho para a venda rápida – e fuga para o dólar – será uma frustração com o Congresso, um problema para fechar o orçamento, a dívida chegando a 100% do PIB e outros eventos negativos, mas que não seriam dramáticos, não tivessem sido colocado como gatilho para o mercado pelo próprio Ministro da Economia.

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quarta-feira, 18 de março de 2020

Uma explicação didática sobre por que o crash (e estouro da bolha) dos mercados vai prosseguir, por Luis Nassif


A bolha já estava prestes a estourar, quando aparece o problema coronavirus, trazendo uma expectativa de queda mais aguda ainda no faturamento das empresas. Uma queda na previsão de faturamento provoca uma queda mais que proporcional no valor da companhia.

Há pontos em comum entre a crise de 2008 e a crise atual.
Houve um intenso processo de acumulação de riqueza financeira. Em parte, devido à mudança de paradigmas e à disseminação de empresas tecnológicas. Em parte, devido ao próprio processo de cartelização da economia mundial, dominado pelo capital financeiro. Mas muito, devido ao excesso de liquidez, de dinheiro sobrando no mercado, que beneficiou muito mais as empresas líderes de setor do que seus concorrentes, favorecendo a concentração.
Até  2008, a liquidez era garantida pela simbiose entre aumento do endividamento nos Estados Unidos, financiado pela compra de títulos americanos pela China. Esse movimento dava fôlego para o Tesouro garantir o crédito abundante nos EUA que, por sua vez, ajudava a aumentar a compra de produtos chineses e a produzir bolhas no mercado financeiro.
Foi um movimento que transcendeu o comportamento da economia real, produzindo um valor financeiro das empresas muito vezes superior ao valor real do negócio.
O que é o valor real do negócio? É o valor equivalente ao faturamento esperado da empresa durante um determinado período, trazido a valor presente por uma determinada taxa de juros que o comprador aceita pagar.
Se o comprador quiser uma rentabilidade maior, exigirá um preço menor. Se aceitar uma rentabilidade menor, aceitará pagar um preço maior. É esse mecanismo que provoca uma valorização dos ativos reais sempre que as taxas de juros caem.
Depois da crise de 2008, houve outro movimento enorme de liquidez. Os recursos serviram especificamente para resolver inadimplência do setor financeiro e do mercado em geral. Mais uma vez, a economia real caminhava lentamente. Grandes volumes de recursos se acumularam na tesouraria das grandes corporações, sem que resultassem em aumento dos investimentos. Se a riqueza financeira não cria riqueza real, na forma de novos ativos, o resultado óbvio é aumentar o preço dos ativos existentes.
Além disso, o modelo de remuneração dos executivos criou uma enorme armadilha.
  1. Sua remuneração passou a ser participação em resultados e compra preferencial de ações da companhia.
  2. As metas a serem alcançadas incluíam faturamento da companhia mas, principalmente, seu valor de mercado.
    Nesse modelo, as sobras de caixa passaram a ser utilizadas para recompra de ações da própria companhia, com um duplo propósito: de um lado, proporcionavam valorização nos preços das ações, ajudando a cumprir as metas; de outro, permitia aos executivos negociar suas ações no mercado, a preços valorizados.
Mais do que isso, com a liquidez abundante e taxas de juros historicamente baixas, houve um enorme processo de alavancagem (endividamento das empresas) para adquirir ações da própria empresa ou concorrentes.
O resultado objetivo foi a ampliação da concentração e do deslocamento da riqueza financeira em relação à riqueza real. Ou seja, uma bolha disseminada por todos os mercados.
A bolha já estava prestes a estourar, quando aparece o problema coronavirus, trazendo uma expectativa de queda mais aguda ainda no faturamento das empresas. Uma queda na previsão de faturamento provoca uma queda mais que proporcional no valor da companhia.
Explico: pela lógica se a receita de uma empresa cai 30%, seu valor deveria cair 30%. Não é isso que ocorre. O que vou mostrar é que nos modelos de negócios, se o faturamento cai 30%, o lucro cai muito mais e o valor da empresa mais ainda.
Acompanhe o raciocínio (os números foram chutados apenas para descrever o fenômeno da desalavancagem.
Imagine uma empresa com
  • 100 de faturamento,
  • 35 de custo fixo,
  • 35 de custo variável,
  • e lucro de 30.
  • E imagine um preço de mercado correspondendo a 15 vezes seu lucro líquido, ou 450.
Ai, supus uma queda de vendas de 30%.
  • O faturamento cai para 70.
  • Os custos fixos permanecem em 35.
  • Os custos variáveis caem 30% e vão para 24,5.
  • O que sobra – 10,5 – é o novo lucro.
  • Ou seja, o faturamento cai 30% (de 100 para 70), mas o lucro despenca 65% – de 30 para 10,5.
Mais que isso. Houve a quebra da corrente, o furo da bolha e os multiplicadores acabam caindo também, acompanhando a onda de pessimismo do mercado.
Supondo que os multiplicadores de preços caiam de 15 para 8 vezes, o valor da companhia cairá de 450 para 84, uma queda de 81,3%,
Por aí, dá para entender o crash que está derrubando todos os mercados. Desde o começo do ano, a AB Inbev perdeu 50% do seu valor. Outras acompanharam.
Por aí se entende que a queda dos mercados não irá parar. Há muita gordura para queimar, o que levou operadores de todo mundo a pedir o fechamento das bolsas por tempo indeterminado.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A Era do Capital Improdutivo – e como superá-la, por Antonio Martins

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Em seu novo livro, Ladislau Dowbor oferece chaves preciosas para decifrar a metamorfose do sistema e suas novas formas de dominar e concentrar riquezas. Também sugere: é possível vencê-lo – mas com outros métodos…

Por Antônio Martins, no Outras Palavras

Cinco famílias lideradas por homens brancos agora concentram mais riqueza que metade – 3,5 bilhões – dos habitantes do planeta. Em todo o Ocidente, a democracia declina e perde apoio porque é vista, cada vez mais, como um regime dos ricos e corruptos. O aquecimento global já se materializa na forma de mega-icebergs desprendendo-se da Antártida (sem falar nas primeiras levas de refugiados climáticos), mas os governantes permanecem desinteressados ou impotentes. No Brasil, os bancos privados multiplicam seus lucros em meio à maior recessão da História – e são o setor mais bem representado em todos os governos, antes e depois do golpe. Apesar da imensa concentração de riquezas, o sistema vai mal, deparando-se com taxas de crescimento medíocres e o risco crescente de uma nova crise financeira, que seria ainda mais devastadora e possivelmente incontrolável.
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O que estes fatos, aparentemente díspares, têm a ver uns com os outros? Mais importante: como decifrar os mecanismos que impulsionam em conjunto todos eles? Será possível revertê-los e escapar de uma armadilha que parece aprisionar tanto a humanidade quanto a própria ideia de emancipação social? Encontrar as respostas tem sido, desde a virada do século, o desafio difuso que persegue ativistas em todo o mundo – e que mobiliza um punhado de pensadores ligados às lutas sociais. Em A Era do Capital Improdutivo, Ladislau Dowbor revela que o crescimento abissal das desigualdades, a ausência de limites para a depredação da natureza e o esvaziamento da política podem ser faces de um só fenômeno. Uma nova metamorfose do capitalismo (para usar expressão de Celso Furtado) criou um sistema que já não pode ser compreendido – muito menos superado – manejando apenas as chaves analíticas do passado. O autor não se contenta em constatar o déficit teórico: ele adianta pistas para ultrapassá-lo, ou seja: para tramar um novo projeto pós-capitalista.
* * *
A natureza mutante do capitalismo já havia sido destacada por Karl Marx. Mais recentemente, François Chesnais formulou, em A mundialização do capital (1988) e em obras posteriores, a hipótese do declínio do industrialismo e o surgimento de um “regime de acumulação sob dominância financeira”. Ladislau está de acordo, e oferece farta documentação e dados a respeito. Para dar ao leitor noção das dimensões do cassino financeiro global, mostra, por exemplo, que só as transações financeiras com “derivativos” – aquelas em que não se negociam mercadorias, mas apenas índices (a taxa de inflação, o preço de uma moeda, a cotação de uma commodity) atingiram 710 trilhões de dólares em 2013 – ou 9,6 vezes o PIB mundial naquele ano.
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Mas A Era do Capital Improdutivo situa esta transição num conjunto de outras transformações civilizatórias marcantes, que se acentuam a partir dos anos 1950. A primeira delas é uma drástica mudança na arquitetura do poder mundial. Pela vez desde a Paz de Westphalia (1648), os Estados-Nações estão deixando de ser os atores centrais. Em seu lugar, emergem as megacorporações globais – grupos financeiros gigantescos; conglomerados industriais ligados e eles; um punhado de dealers que controlam o grosso do comércio de alimentos, minérios e combustíveis no planeta.
A passagem de bastão se dá por dois motivos. Primeiro, a concentração empresarial, mais intensa que nunca. Apoiado num vasto estudo do Instituto Federal Suíço para Pesquisa Tecnológica – o renomado ETH –, Ladislau demonstra que 147 grandes corporações (75% delas financeiras) controlam hoje, sozinhas, 40% do PIB do mundo. Numa espécie de “núcleo do núcleo” estão 28 “instituições financeiras sistematicamente importantes” (SIFIs, em inglês), cada uma das quais tem capital médio de US$ 1,8 trilhão (superior ao PIB do Brasil, a sétima economia do planeta).
O problema não é só o gigantismo. As megacorporações atuam em todo o mundo, enquanto os Estados-Nações são limitados por fronteiras. Todas mantêm sedes e filiais em “paraísos fiscais” (um capítulo do livro é reservado a examiná-los), onde podem articular oligopólios, evadir impostos ou praticar fraudes “livres” do constrangimento de governos ou Judiciários. Mais recentemente, diversos acordos comerciais permitem-lhes formar tribunais paralelos (Investor-State Dispute Settlement, ou ISDS, em inglês), nos quais podem exigir indenizações de Estados que adotem normas consideradas hostis a seus interesses (por exemplo, a redução da jornada de trabalho ou uma nova lei de proteção da natureza…).
O resultado é o esvaziamento rápido da democracia. Porque surgiu – acima dos Estados e com força superior à deles – uma nova esfera global de poder. Está inteiramente colonizada: em seu interior, o capital reina absoluto; não há eleições, parlamentos, governos escolhidos pela sociedade, transparência. Quem conhece a agenda do FMI, ou sabe como votam os representantes brasileiros na Organização Mundial do Comércio? Como frisa o autor, “o poder mundial realmente existente está nas mãos de gigantes que ninguém elegeu e sobre os quais há cada vez menos controle”.
A terceira grande transformação está ligada às novas relações entre a natureza, ser humano e conhecimento; ao advento do que passamos a chamar de Antropoceno. Ladislau insere-se claramente entre os autores que o veem como resultado do predomínio das lógicas mercantis. O livro resgata, à página 24 um gráfico desconcertante e pouco conhecido, em que está representada a evolução de fenômenos normalmente não relacionados: aumento da população humana, PIB, concentração de CO² na atmosfera, número de automóveis, consumo de papel, extinção de espécies, destruição das florestas e outros.
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As curvas são coincidentes: tudo dispara a partir de 1950, num claro sinal de que entramos em outra fase. O autor analisa: “todos querem consumir mais, cada corporação busca extrair e vender mais, e tecnologias cada vez mais potentes permitem ampliar o processo (…) Para a maioria dos economistas, o crescimento é tão necessário quanto o ar que respiramos”. Duas consequências dramáticas, já visíveis, são o declínio abrupto da vida marinha e os sinais de uma sexta extinção em massa das espécies: “em apenas quarenta anos, de 1970 a 2010, destruímos 52% da fauna do planeta”.
A devastação da natureza é facilitada pelo “avanço” tecnológico, mas em mais de um trecho o livro demonstra: esta mesma técnica ameaça, perigosamente, criar uma sociedade cada vez mais desigual e alienada. A concentração de riquezas é possível, em escala nunca vista, porque um pequeno número de corporações controla e processa informações sobre os mercados e inclusive sobre nossas vidas. O sinal mais evidente de que as questões social e ambiental se entrelaçam está expresso numa formulação ao mesmo tempo feliz e terrível: “estamos destruindo o planeta (…) de forma muito particular para o proveito do 1%”.
Em muitos de seus textos recentes, Immanuel Wallerstein tem sustentado que o capitalismo, tal como o conhecíamos, vive em crise terminal; mas que não é possível saber, o que o substituirá – e não se deve afastar a hipótese de que seja um sistema ainda mais desigual, mais hierárquico, mais alienante e menos democrático. Em seu novo livro, Ladislau Dowbor parece sugerir que este cenário de pesadelo está sendo montado agora, diante de nossos olhos.
* * *
O próprio livro fornece, porém, elementos para enxergar como tal construção é instável; como resta, portanto, espaço para a resistência e a busca de alternativas. O livro trata, em especial, de duas vulnerabilidades. A primeira é o declínio do próprio crescimento econômico – objetivo essencial da lógica mercantil –, acompanhado de riscos novos de terremotos financeiros avassaladores.
A concentração de riquezas, explica o autor, acaba convertendo-se num obstáculo à reprodução do ciclo do capital. Sob o regime de dominância financeira, cresce o rentismo – a capacidade de apropriar-se da riqueza social sem nada produzir. O Brasil (a que Ladislau dedica dois capítulos) é um exemplo extremado. O sistema financeiro estende seus tentáculos tanto sobre o orçamento público (de onde são desviados R$ 400 bilhões, ou cerca de treze programas Bolsa-Família ao ano) quanto sobre as famílias e empresas (reduzindo a capacidade de consumo e as margens de lucro). Em meio ao terceiro ano seguido de recessão, os lucros dos bancos não cessam de crescer.
Mas o resultado desta punção é, em todo o mundo, a economia estagnada. Desde os abalos de 2008, não houve recuperação efetiva. O autor explica, dando tintas atuais às ideias de Marx sobre as crises de superprodução: os mais ricos entesouram seu dinheiro; são as maiorias que gastam quase tudo o que recebem – mas se elas são atingidas pela desocupação e pela queda dos salários, quem manterá a economia girando? Que empresários ousarão investir, se os consumidores finais estão quebrados?
A segunda debilidade crucial é a ineficiência das empresas. Para desenvolver o tema, Ladislau recorre a seus estudos e experiência como gestor e planejador – algo raro entre a esquerda. A intensa concentração empresarial, explica, criou conglomerados enormes e disformes, movidos cada vez mais pela lógica única da rentabilidade financeira, incapazes de atender às demandas sociais e mesmo de evitar fraudes e tragédias. O exemplo emblemático é o do desastre de Mariana: “entre o engenheiro da Samarco que sugere o reforço na barragem e a exigência da rentabilidade da Vale, Billiton e Bradesco, a relação de forças é radicalmente desigual”. O resultado é o soterramento do distrito de Bento Rodrigues.
Os exemplos de ações fraudulentas entre as grandes corporações, aliás, multiplicam-se. O sistema financeiro é líder, mas a Justiça garante blindagem: “Praticamente todos os grandes grupos [internacionais] estão com dezenas de condenações, mas em praticamente nenhum caso houve sequelas judiciais como condenação pessoal dos responsáveis (…) Basta a empresa fazer, enquanto pratica a ilegalidade, uma provisão financeira para enfrentar os prováveis custos do acordo judicial”. A velha mídia cumprirá seu papel, ocultando sempre que possível os crimes e construindo, contra todas as evidências, a imagem de corporações responsáveis e de famílias saltitantes, felizes com seu banco. Mas as enxurradas de publicidade não apagam os fatos: tem futuro um sistema que não é capaz sequer de cumprir sua promessa de crescimento e eficiência?
* * *
Por outro lado, é possível enfrentar este capitalismo metamorfoseado com as ideias e personagens dos séculos passados? Ladislau Dowbor tem pistas também para esta questão. Em certo trechoele recomenda “aos sindicatos e movimentos sociais” examinar melhor as novas formas de extração de mais-valia. Explica: “A forma tradicional – o patrão que produz mas paga mal, ensejando lutas por melhores salários – foi brutalmente agravada por um sistema mais amplo de extração do excedente produzido pela sociedade”. Nos novos tempos, “todos somos explorados, em cada compra ou transação, seja através dos crediários, dos cartões, tarifas e juros abusivos, seja na estrutura injusta da tributação”. Há aqui uma fraqueza por excesso: “O rentismo é hoje, sistematicamente mais explorador, e pior, um entrave aos processos produtivos e às políticas públicas. (…) Sua grande vulnerabilidade está no fato de ser improdutivo, de constituir dominantemente uma dinâmica de extração sem contrapartida à sociedade”.
“Quem serão os atores sociais” aptos a enfrentar este poder? Pergunta Ladislau em outro ponto, que talvez merecesse ser mais destacado no livro. Ele mesmo responde: “Os partidos, os governos – mesmo democraticamente eleitos – e até os sindicatos estão fragilizados e sem credibilidade. O que era uma classe trabalhadora relativamente homogênea e com capacidade de articulação (…) é hoje extremamente diversificada pela multiplicidade e complexidade de inserção nos processos produtivos”. A esperança estaria numa espécie de novo proletariado, já entrevisto por autores como David Harvey e Toni Negri: “Os prejudicados do sistema são a imensa maioria, e não faz sentido o 1% pesar mais que o 99%”.
Como inverter a balança – ou seja, como abordar a luta pela emancipação social na Era do Capital Improdutivo? Aqui, Ladislau destoa tanto do pensamento econômico tradicional quanto de grande parte dos economistas de esquerda, tão autolimitados pelo mito segundo o qual “não há orçamento” para atender às demandas sociais. É preciso, mostra o livro, opor, às lógicas contábeis da “austeridade” e dos “ajustes fiscais”, outras realidades.
“Se há uma coisa que não falta no mundo são recursos”, lembra Ladislau – e aqui ele parece atualizar a ideia de Marx sobre a contradição entre a técnica (as “forças produtivas”) que avança, e o sistema social (as “relações de produção”) que se vê obrigado a limitá-la – porque podem ser uma ameaça aos privilégios. O livro ressalta: “O imenso avanço da produtividade planetária resulta essencialmente da revolução tecnológica que vivemos. Mas não são os produtores destas transformações que aproveitam. Pelo contrário, ambas as esferas, pública e empresarial, encontram-se endividadas nas mãos de gigantes do sistema financeiro, que rende fortunas a quem nunca produziu e consegue nos desviar radicalmente do desenvolvimento sustentável, hoje vital para o mundo”.
O autor resgata dados desconcertantes – mas sempre ocultados, porque incômodos. “Se arredondarmos o PIB mundial para 80 trilhões de dólares, chegamos a um produto per capita médio de 11 mil dólares. Isto representa 3.600 dólares por família de quatro pessoas, cerca de 11 mil reais por mês. É o caso também no Brasil, que está exatamente na média mundial em termos de renda. Não há razão objetiva para a gigantesca miséria em que vivem bilhões de pessoas, a não ser justamente o fato de que o sistema está desgovernado, ou melhor, mal governado e não há perspectivas no horizonte”.
Mas como ir além do sistema? Ladislau frisa, desde o início, que sua experiência o ensinou a passar ao largo das ideologias – os “ismos”, como ele as chama. Quer saídas práticas. Porém, a radicalidade do que propõe, sempre com base em um imenso volume de dados articulados, convida a especular: tais respostas não cabem no sistema a que estamos submetidos. Por isso, talvez não haja heresia em dizer que o autor pratica um “pós-capitalismo discreto”. É como se dissesse, à moda de Leminsky: não se afobem: “distraídos, venceremos”.
O livro termina com o “Esboço de uma Agenda”, um brevíssimo ensaio construído em coautoria com Ignacy Sachs – um dos propositores do conceito de “ecossociodesenvolvimento – e Carlos Lopes – pesquisador africano, ex-subsecretário-geral da ONU.
Proposto em 2010, o rascunho chama a atenção por sua atualidade. Nele, propostas estruturais – como a instituição Renda Básica da Cidadania, a redução da jornada de trabalho, a reorganização do sistema financeiro, a reorientação dos sistemas tributários e a livre circulação do conhecimento (em oposição à “propriedade intelectual” e aos sistemas de “copyright”) – figuram lado a lado com mudanças de atitude decisivas (como a “moderação do consumo” e a “generalização da reciclagem).
É pouco, certamente – e é ótimo que seja assim. Reconstruir um projeto de emancipação social será obra de multidões e exigirá décadas de imaginação, sondagens, tentativas, erros, novas reflexões e criações. O que o livro de Ladislau Dowbor reitera é que o esforço começou; que já somos capazes de nos perceber submetidos à Era do Capital Improdutivo – mas também de buscar as saídas; que, em oposição ao futuro distópico que hoje nos ameaça, podemos tatear o pós-capitalismo

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ideias para uma mudança de nossa vida política, econômica e social, rumo a uma civilização mundial realmente humanista

Significado e perspectivas da crise atual

  Para o Pai da Medicina, Hipócrates, krisis designava o momento preciso em que o olhar justamente dito crítico do esculápio conseguia discernir o tipo de doença que acometia o paciente, permitindo-lhe fazer com precisão o diagnóstico e o prognóstico.

Texto de Fábio Conder Comparato, Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP e  Doutor Honris Causa pela Universidade de Coimbra. Texto extraído da Carta Capital.

Tania Rego/ Agência Brasil
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"O desinvestimento é resultado da entrega total da economia brasileira às instituições financeiras"



Empregamos a todo tempo a palavra crise para caracterizar o lamentável estado atual de nossa política e de nossa economia, sem entender a semântica original do vocábulo. Ele foi criado por Hipócrates, a partir do verbo grego krito, kritein, cujos sentidos principais no grego clássico eram de separar ou discernir, de um lado, e de julgar ou decidir, de outro. Para o Pai da Medicina, krisis designava o momento preciso em que o olhar justamente dito crítico do esculápio conseguia discernir o tipo de doença que acometia o paciente, permitindo-lhe fazer com precisão o diagnóstico e o prognóstico.
Infelizmente, temos sido incapazes de entender que sofremos de uma moléstia que não é passageira nem local. Muito pelo contrário, ela não surgiu nem tende a desaparecer de uma hora para outra no Brasil. Tampouco foi provocada por determinado partido, ou por este ou aquele político que ocupou ou ocupa atualmente o cargo de Chefe de Estado.
Analisemos, pois, em primeiro lugar, a moléstia no âmbito mundial, para, em seguida, procurarmos diagnosticá-la na sociedade brasileira, sugerindo afinal um tratamento adequado.
A Consolidação Mundial do Capitalismo Financeiro
A doença – séria e duradoura – cujos sintomas vieram agora à luz do dia, afeta na verdade o mundo inteiro e não pode ser tratada superficialmente; como se, diante de uma infecção generalizada, o tratamento do paciente se limitasse a ministrar analgésicos para reduzir as cefaleias.
Vivemos hoje – nós e todos os demais povos na face da Terra – as graves consequências da passagem histórica do capitalismo, como primeira civilização mundial da História, da sua fase industrial para a fase financeira.[1] Se até o último quartel do século passado os empresários industriais comandavam a vida econômica, hoje são os bancos que ditam as regras, não só nessa área, mas também no campo político.
Em 2011, três matemáticos do Instituto Politécnico de Zurique, listaram os 50 maiores conglomerados empresariais do mundo. Desse total, 48 eram grupos financeiros.[2]
Já foram identificados 28 bancos, que controlam atualmente os mercados mundiais de câmbio, juros e valores mobiliários.[3] Até a generalização das políticas neoliberais nas últimas décadas do século XX, os bancos dependiam dos Estados, que fixavam as taxas de juros e de câmbio. Hoje, tais valores são fixados pelos próprios bancos operadores, que impõem suas decisões de mercado aos bancos centrais, doravante autônomos em relação aos governos.
Recentemente, uma ONG muito respeitada no mundo inteiro, a Global Policy Forum, afirmou em relatório que a ONU é manipulada por empresas transnacionais, algumas das quais violam abertamente direitos trabalhistas e normas ambientais.
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Operador da Bolsa de Nova Iorque (Spencer Platt / Getty Images / AFP)
Mas o neoliberalismo global foi ainda mais além no campo da desregulamentação da atividade financeira empresarial. A fim de conter os efeitos da depressão econômica que tomou conta do mundo inteiro com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, os Estados Unidos haviam editado em 1932/1933 o Glass-Steagal Act, que separou as atividades dos bancos de depósito das dos bancos de investimento. Pois bem, em 1998 essa lei foi revogada nos Estados Unidos, sendo concomitantemente abolida, nos demais países do globo, a referida separação entre aquelas atividades bancárias. Com isto, voltou-se a permitir aos bancos a utilização dos depósitos monetários de seus clientes para negócios deles próprios, bancos, inclusive a especulação nos mercados de valores mobiliários, de câmbio ou de mercadorias.
Como sabido, a partir da Revolução Industrial em meados do século XVIII, a riqueza mundial cresceu em ritmo e intensidade jamais vistos na História. Esse crescimento, porém, vem recuando nitidamente no mundo todo, desde a segunda metade do século XX. Na China, o país de mais acelerado crescimento econômico das últimas décadas, a atividade industrial atingiu em 2015 o menor nível em 78 meses.
Os efeitos dessa desindustrialização geral já se sentem nitidamente no mercado de trabalho. Segundo relatório recente da OCDE – Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, foram recenseados 47 milhões de desempregados nos 34 países que dela fazem parte.
É bem provável que se instaure desde logo, no mundo todo, uma fase de estagnação econômica generalizada, justamente devido à implantação mundial do capitalismo financeiro, em substituição ao capitalismo industrial. E a razão é óbvia: enquanto a essência da atividade industrial é a produção de bens, a atividade financeira por si mesma não produz nenhuma riqueza concreta de base.
Como se vê, a celebrada eficiência do sistema capitalista na produção de riqueza vê-se hoje totalmente desmentida. Com isso, a fantástica desigualdade social, por ele criada no mundo inteiro, já não tem a menor condição de ser reduzida, menos ainda eliminada. No início da Revolução Industrial, estimou-se que entre o povo mais rico e o mais pobre do planeta a diferença em termos econômicos era de 2 para 1; atualmente, ela é estimada em 80 para 1! Levando-se em conta o crescimento inexorável da população mundial e a estagnação geral da produção de bens, notadamente de alimentos, não é difícil visualizar o prognóstico sombrio de Malthus, feito no final do século XVIII. E as vítimas serão, como sempre, as camadas mais pobres do mundo todo.
Ora, o que se constatou recentemente é que o capitalismo financeiro tem contribuído para acelerar o ritmo dessa desigualdade. Assim é que o banco Crédit Suisse, ao publicar em 2010 o seu primeiro relatório sobre a riqueza global (Global Wealth Report), estimava que os 50% mais pobres da humanidade possuíam menos de 2% dos ativos mundiais. Pois bem, no relatório do corrente ano de 2015, o Crédit Suisse constatou que a metade mais pobre da humanidade possui menos de 1% da riqueza planetária.
Por incrível que pareça, se a grande depressão de 1929 provocou uma redução da desigualdade econômica mundial, tendo afetado todas as classes sociais, a crise de 2007/2008, da qual ainda não logramos sair, provocou um efeito contrário. Exemplo: nos EUA, o 1% mais rico da população absorveu 95% da riqueza produzida após a crise.
As instituições financeiras, como se disse, por si sós não produzem riqueza alguma. Na melhor das hipóteses, elas servem de alavanca auxiliar da produção, mediante o serviço de crédito.
Acontece que, no presente, os bancos passaram a concentrar cada vez mais suas atividades nos negócios puramente especulativos, reduzindo drasticamente o serviço de crédito. A lucratividade de tais negócios especulativos é muito maior. Mas, em compensação, eles suscitam um enorme risco de súbito e generalizado colapso, como se viu em 2008 com a brusca depreciação dos chamados derivativos, neologismo criado nos Estados Unidos para designar operações de crédito bancário, que servem de lastro à emissão de valores mobiliários em cascata, cujo valor não é contabilizado no balanço dos bancos. Estimou-se que em 2013 o valor total dos derivativos negociados no mercado mundial era de 710 trilhões de dólares; isto é, cerca de dez vezes o valor da produção anual de bens e serviços no mundo todo!
Outro fator que veio reforçar a generalizada submissão dos Estados, no mundo inteiro, à dominação dos bancos foi a progressiva substituição dos tributos pela dívida pública, no financiamento das despesas estatais. Os papeis dessa dívida, como não poderia deixar de ser, são tomados pelos bancos e repassados aos investidores privados. Para estes, tal operação financeira provocou de imediato um duplo e substancial benefício: de um lado, o não-aumento (ou mesmo a redução) da carga tributária; de outro, a oportunidade de ganhos suplementares pelo recebimento de juros da dívida pública. Em pouco tempo, os empresários industriais, que já haviam se deixado seduzir pela especulação com valores mobiliários, foram se transformando, total ou parcialmente, em rentistas.
A depressão global desencadeada em 2007-2008 com o colapso do mercado de derivativos levou os bancos centrais dos Estados Unidos e da União Europeia, a fim de evitar as insolvências em cascata, a socorrer os bancos privados, tomadores daqueles papeis ditos “tóxicos”. Esse financiamento excepcional, como era de se esperar, não foi feito com recursos orçamentários, mas sim com a emissão de novos papeis da dívida pública. Além disso, nos dias imediatamente seguintes ao desencadear da crise, nove grandes grupos financeiros pagaram, nos Estados Unidos, 5 bilhões de dólares em bônus aos seus executivos e administradores, usando para tanto os recursos dos fundos públicos que haviam salvo tais instituições da insolvência.[4]
Para se ter uma ideia do que isso representa como risco de colapso do sistema econômico mundial, basta considerar os seguintes dados, recentemente divulgados pelo Fundo Monetário Internacional: o somatório da dívida pública dos Estados desenvolvidos do planeta, o qual em 2001 representava 75,8% da média do PIB total desses países, passou a corresponder em 2014 a 118,4% dele.
Inútil dizer que os tomadores de tais papeis de dívida fazem parte do sistema bancário privado, e que este exerce enorme pressão sobre os Estados emitentes, a fim de que os juros não sejam reduzidos e, sobretudo, para que os devedores públicos não deixem de honrar os valores do principal no vencimento.
Em suma, os Estados, que até o final do século XX eram reguladores das atividades dos bancos privados, tornaram-se atualmente seus reféns. O caso muito comentado da Grécia é o melhor exemplo. Feitas as contas, estima-se que os bancos alemães, tomadores dos papeis da dívida estatal grega desde 2010, obtiveram até 2015 um lucro de 100 bilhões de euros. Será ainda preciso explicar por que razão a Alemanha foi o Estado mais intransigente na negociação da dívida grega no Conselho da Europa?
Vale a pena salientar tais fatos, pois eles explicam a natureza e as perspectivas de solução da atual crise política e econômica brasileira, como reflexo da crise global. Encontramo-nos, hoje, inteiramente mergulhados no capitalismo financeiro, cuja dominação é mundial.
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Senhora grega passa diante de protesto em Atenas (foto: AFP Phito / Sakis Mitrolidis)
A Submissão do Brasil ao Capitalismo Financeiro Mundial
Em toda organização política, os principais fatores estruturantes sempre foram a relação de poder e a mentalidade coletiva, isto é, o conjunto de valores e costumes vigentes no seio do povo. Durante milênios, ambos esses fatores foram estritamente moldados pela religião. A partir do início da era moderna, porém, a adesão a uma fé religiosa foi perdendo importância na vida dos diferentes povos. Com o advento da sociedade massas, no final do século XIX, iniciou-se uma fase jamais vista na História, fase essa na qual a mentalidade coletiva passou a ser formada pelo sistema de poder político, de caráter não religioso na maior parte do mundo.
Com efeito, ao se consolidar mundialmente a civilização capitalista em fins do século passado, a relação íntima entre esses dois fatores estruturantes da organização política foi radicalmente alterada. Desde então, o poder político passou a plasmar a mentalidade coletiva, utilizando-se, para tanto, do controle dos meios de comunicação de massa, o qual é exercido hoje, na quase totalidade dos países do globo, por oligopólios empresariais.
Pois bem, entre nós, desde os primórdios da colonização portuguesa, o poder político efetivo – diferentemente do poder oficial, isto é, do poder legitimado pelo ordenamento jurídico – nunca pertenceu de fato, nem mesmo parcialmente, ao povo. Ele foi exercido, sem descontinuar, por dois grupos intimamente associados: os potentados econômicos privados e os grandes agentes estatais. Nossa oligarquia sempre apresentou, assim, um caráter binário: quem exerce o efetivo poder soberano não é apenas a burguesia empresarial, como sustentou a análise marxista, nem tampouco unicamente a burocracia estatal, como pretenderam os seguidores de Max Weber, a exemplo de Raymundo Faoro[5]; mas ambos esses grupos, conjuntamente.
Esta, na verdade, a principal causa da corrupção endêmica que vigora no Brasil no plano estatal. Os grandes empresários e os principais agentes do Estado – incluídos agora nessa categoria os administradores de empresas estatais – sempre estiveram convencidos de que podem dispor, em proveito próprio, dos recursos financeiros públicos. “Nem um homem nesta terra é republico, nem zela e trata do bem comum, senão cada um do bem particular”, já afiançava o primeiro historiador do Brasil, Frei Vicente do Salvador, em livro editado originalmente em 1627.[6]
Essa oligarquia binária não é, na verdade, uma originalidade brasileira, mas sim um traço essencial do sistema capitalista. Como salientou Fernand Braudel, que lecionou na Universidade de São Paulo logo após a sua fundação, o capitalismo só triunfa quando se une ao Estado, quando é o Estado.[7]
No curso de nossa História, tivemos uma sucessão de potentados econômicos privados, aliados aos principais agentes do Estado (inclusive magistrados): senhores de engenho; traficantes de escravos; grandes fazendeiros, sobretudo na região sudeste até a Revolução de 1930; empresários industriais; e, finalmente, controladores das grandes instituições financeiras.
Na verdade, o fato mais relevante da economia brasileira nas últimas décadas tem sido o ritmo acelerado do processo de desindustrialização. Para se ter uma ideia disto, é importante considerar que em 1995 a produção industrial representava 36% do PIB brasileiro, quando vinte anos após, segundo dados apurados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, ela não ultrapassa 9%; ou seja, um quarto daquela cifra.
Com isso, como não poderia deixar de acontecer, iniciou-se em 2015 um período de recessão econômica cuja conclusão é difícil de prever-se, repetindo-se assim, certamente de maneira agravada, o episódio ocorrido em 1930 e 1931, como consequência da depressão mundial provocada pelo crash da Bolsa de Nova York em 1929.
Ainda como efeito da desindustrialização do país, o desemprego explodiu. Em julho de 2015, o total de desempregados no país somava 8,6 milhões, o número mais alto já assinalado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). E isto, considerando-se apenas os trabalhadores regulares, com carteira assinada.
Intimamente ligado a esse dado é o fato de que, atualmente, meio milhão de brasileiros vive sem cobertura de plano de saúde, como informou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Na verdade, o Brasil encontra-se hoje nas mãos dos banqueiros. Os cinco maiores bancos (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander) controlam 86% do total dos ativos financeiros; quando em 1995 o montante desses ativos por eles controlados era de 56%. No primeiro semestre de 2015, enquanto o Produto Nacional Bruto entrava em recessão, o lucro líquido contábil dos quatro maiores bancos do país crescia 46% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O desinvestimento, tanto público quanto privado, é um dos piores resultados da entrega total da economia brasileira ao controle das instituições financeiras, nacionais e estrangeiras. Em 2014, o investimento de empresas estatais no Brasil foi o menor em três anos. Ora, o ajuste fiscal proposto pela Presidente Dilma Roussef em seu segundo mandato veio estender esse encolhimento ao vasto setor das políticas sociais. Assim é que o orçamento fiscal da União Federal para 2016, já em si mesmo profundamente austero nessa área, acabou sofrendo no curso de 2015 um corte de verbas em nada menos do que 7 programas sociais, notadamente educação e saúde: um bilhão de reais no primeiro setor e mais de um bilhão no segundo.
Em compensação, como é óbvio, o governo federal não mexe no volume da dívida pública, nem reduz a taxa da Selic (sistema especial de liquidação e custódia), ou seja, o índice pelo qual são balizados os juros cobradas pelos bancos. Ora, do total do déficit orçamentário da União Federal em 2015, 96,9% são representados pelos juros acumulados da dívida e apenas 3,1% pelo excesso de despesas primárias em relação aos créditos!
Sugestões para o Enfrentamento da Morbidez Generalizada
Diante de tudo o que se acaba de expor, surge inevitavelmente a indagação feita no livro publicado 1902 por um certo Vladimir Illich Ulianov, mais conhecido sob o pseudônimo de Lenin: – Que Fazer?
Comecemos por reconhecer o fato de que a solução revolucionária, por ele apresentada como a mudança súbita e radical do poder na sociedade, modelo ao mesmo tempo tão louvado e temido no mundo todo até há pouco, já não convence ninguém. É que esse tipo de ruptura brusca da ordem social não só absolutiza o poder estatal, como deforma gravemente a mentalidade coletiva, suprimindo a consciência individual e social dos direitos fundamentais da pessoa humana.
Foi o que se viu, de maneira dramática, com as revoluções bolchevique e maoísta, as quais deram origem aos regimes comunistas na Rússia e na China no século XX. Aliás, com a derrocada de ambos no último quartel do século, voltaram à tona, nos dois países, as velhas tradições de autocracia burocrática, doravante ligadas à integral adoção do sistema capitalista, contra o qual foram feitas as revoluções.
Se quisermos, pois, iniciar o tratamento da moléstia que tomou conta da humanidade toda na época contemporânea – o capitalismo financeiro –, precisamos mudar de modo substancial e permanente as instituições de poder, bem como reformar a mentalidade coletiva, com base em novos valores que a elas se adequem. E tais valores, escusa dizer, são o oposto do individualismo privatista, próprio do capitalismo.
Ora, isto não se faz e nunca se fez da noite para o dia. Em geral, tem-se em matéria de revoluções o modelo clássico, que é o da França no século XVIII. Mas o que se deixa na sombra, ao assim considerar, é o fato de que a preparação da Revolução Francesa principiou pelo menos dois séculos antes, com a mudança na visão de mundo, provocada pela Reforma Calvinista e a chamada Revolução Científica de Copérnico, Tycho Brahe e Kepler, seguidos por Galileu e Isaac Newton.
Ensaiemos, pois, uma breve resposta, primeiro no plano mundial; depois, no quadro político e econômico brasileiro.
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Funcionária de banco estatal chinês mostra a nova nota de 100 yuans (foto: AFP)
O tratamento da doença no plano mundial
A organização, ou melhor, desorganização do poder capitalista no mundo todo – não só o poder propriamente político, quanto o econômico, ambos complementados pelo poder ideológico – manifesta hoje sinais evidentes de impotência para enfrentar os problemas que se avolumam perigosamente, e que põem risco a sobrevivência da humanidade: o terrorismo, notadamente de índole religiosa; a destruição sistemática da biosfera; a probabilidade crescente de um colapso econômico mundial; entre outros.
Ao mesmo tempo, a ética própria do capitalismo, a qual logrou moldar a mentalidade coletiva contemporânea em todos os povos da Terra – a saber, a realização do interesse material como finalidade última da vida – não somente denota uma incapacidade crescente para fazer face a tais problemas, como revela-se ainda um perigoso estimulante deles.
Mas como proceder?
No tocante à organização do poder mundial, começamos a sentir crescentemente o mesmo estado de espírito, que tomou conta da maioria dos governantes logo após o término da Segunda Guerra Mundial, e que propiciou a fundação da Organização das Nações Unidas em 1945, conforme enunciado na introdução da Carta de São Francisco. Ou seja, a necessidade de “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra [...], reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e mulheres, assim como das nações grandes e pequenas [...], promover o progresso social e melhores condições de vida, dentro de uma liberdade mais ampla”.
Para alcançar tais objetivos, o caminho a ser seguido só pode ser a construção de uma organização política mundial, fundada nos princípios fundamentais da República, da Democracia e do Estado de Direito. A saber: 1) a supremacia do bem comum da humanidade, em relação ao interesse próprio de qualquer povo em particular; 2) a atribuição da titularidade do poder supremo ao conjunto dos povos, reunidos em federação no plano mundial; 3) o estabelecimento de controles efetivos ao abuso de poder em todos os níveis, à luz do princípio supremo do respeito à dignidade humana.
No concernente à superação da ética do egoísmo dito esclarecido, própria da civilização capitalista, é alvissareiro constatar que, atualmente, os líderes de algumas das maiores religiões do mundo vêm sublinhando a necessidade de se evitar que o princípio fundamental do altruísmo, comum a todas elas, venha a ser ensombrecido pela repetição mecânica de asserções dogmáticas.[8]
Em suma, importa agora mais do que nunca, no início deste novo milênio, revitalizar em todos os povos as duas Regras de Ouro, enunciadas pela primeira vez no chamado Período Axial da História,[9] quais sejam: 1) não fazer aos outros o que não se quer que eles nos façam; 2) fazer o bem a todos, sem distinção de pessoas, sejam elas desconhecidas, amigas ou inimigas.
Como iniciar no Brasil o tratamento da doença
Para voltar ao conceito original de crise, excogitado por Hipócrates, o que importa não é fixar a atenção sobre o bom ou mau desempenho de nossos governantes para enfrentar os problemas socioeconômicos que se acumulam. Tal equivaleria a cuidar de um sintoma superficial da doença, sem diagnosticar sua verdadeira causa, que é a submissão do nosso país à soberania do capital financeiro, nacional e internacional.
Não é mister grande acuidade de espírito para perceber que esse enfrentamento equivale a percorrer um caminho longo e repleto de dificuldades de toda sorte. Ele não se faz da noite para o dia, nem com base em improvisações.
É indispensável e urgente atuar em duas frentes, intimamente relacionadas: a vida política e a vida econômica.
No campo político, as mudanças devem ocorrer em relação aos dois fatores fundamentalmente estruturantes: a relação de poder e a mentalidade coletiva.
O poder político, no Brasil, como acima salientado, sempre foi oligárquico, sendo exercido conjuntamente, em proveito próprio, pelos potentados econômicos privados e os grandes agentes estatais. Ora, atualmente, os titulares desse poder soberano acham-se na incapacidade absoluta de enfrentar a crise, pois são eles que as engendraram e são eles os únicos que dela se beneficiam. Seria ridículo esperar que as instituições financeiras aceitassem voluntariamente submeter-se ao poder regulatório do Estado, deixando que este voltasse a fixar as taxas de juros e câmbio a serem observadas no mercado, e a separar bancos de depósito e bancos de negócio, como dispôs o Glass-Steagall Act de 1933 nos Estados Unidos, editado em plena crise provocada pelo crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Urge encontrar um caminho para impor tais medidas aos atuais “donos do poder”.
No terreno propriamente político, é da mesma forma urgente começar a introduzir em nosso ordenamento jurídico os mecanismos institucionais da democracia direta. O plebiscito, o referendo e a iniciativa popular legislativa, declarados no art. 14 da Constituição como instrumentos da soberania popular, acham-se até o presente – mais de um quarto de século após a promulgação da Lei Maior – totalmente bloqueados pelo controle oligárquico.
Igualmente no campo político, permanece inquebrantável o oligopólio empresarial dos meios de comunicação social – grande imprensa, rádio e televisão –, utilizados como instrumentos do poder ideológico capitalista. A Constituição Federal, em seu art. 220, § 5º, declara que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. Mas até hoje o Congresso Nacional não editou lei para regular essa proibição constitucional.[10]
A mesma falta de regulação legislativa ocorre com a norma do art. 221, inciso I da Constituição, segundo a qual “a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão ao princípio de preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”. Escusa frisar que, numa sociedade de massas como a existente atualmente no mundo inteiro, a intercomunicação do povo por intermédio dessas instituições, livre de censuras e propagandas ideológicas dissimuladas, é indispensável para que o regime democrático possa funcionar a contento; sobretudo em sociedades profundamente desiguais sob o aspecto socioeconômico, como a brasileira.
Em matéria propriamente econômica, assinalo algumas medidas que me parecem indispensáveis para enfrentar a crise atual.
Importa assim, antes de tudo, dar início ao processo de reindustrialização nacional, por meio de estímulos fiscais e econômicos.
Urge também regular o endividamento público. Assinalo, a esse respeito, que o art. 52, inciso VI da Constituição dispõe ser da competência privativa do Senado Federal a fixação dos limites globais do montante da dívida consolidada da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; mas sempre por proposta do Presidente da República. Inútil dizer que, submetidos à dominação bancária, nossos Chefes de Estado têm se revelado incapazes de atuar nessa área de acordo com os verdadeiros interesses nacionais.
Assinalo, ainda, que o art. 163, inciso III da Constituição determina competir à lei complementar dispor sobre a dívida pública externa e interna, nela incluída a das autarquias, fundações e demais entidades controladas pelo Poder Público. Até hoje, tal lei não foi editada.
Eis, em resumo, o que me parece essencial para darmos início ao processo de mudança em profundidade de nossa vida política, econômica e social, no rumo de uma sucessão da vigente civilização capitalista, por uma civilização mundial realmente humanista.
* Fábio Konder Comparato é professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra.


[1] Procurei estudar o capitalismo sob o aspecto global de uma civilização, e não apenas como sistema econômico, em A Civilização Capitalista – Para compreender o mundo em que vivemos, 2ª edição, 2013, São Paulo, Companhia das Letras.
[2] Stefania VITALI, James GLATTFELDER, Stefano BATTISTON, The network of global corporate control, PLOS ONE, [S.I.], Oct. 2011.
[3] Sobre o assunto, o economista francês François Morin vem fazendo análises percucientes, com a previsão de um novo cataclismo financeiro, agora de proporções catastróficas. Cf. Un monde sans Wall Street? (Éditions du Seuil, 2011); La grande Saignée – Contre le cataclysme financier à venir (Lux Editeur, 2013); L’Hydre mondiale – L’oligopole bancaire (Lux Editeur, 2015).
[4] Cf. E. Dash, Bankers reaped lavish bonuses during bail-outs, New York Times, 30 de julho de 2009.
[5] Cf. sua obra já clássica, Os Donos do Poder – Formação do patronato político brasileiro, 3ª edição revista, Editora Globo, 2001.
[6] História do Brasil 1500 – 1627, Livro Primeiro, Capítulo Segundo.
[7] La dynamique du capitalisme, Éditions Flammarion, Paris, 2008, p. 68.
[8] Vejam-se, a esse respeito, as considerações expostas pelo atual Dalai Lama em seu livro Ethics for the New Millenium, Riverhead Books, Nova York. Atente-se, igualmente, para os escritos e declarações públicas do Papa Francisco.
[9] Foi o período assim chamado por Karl Jaspers (Vom Ursprunt und Ziel der Geschichte, 1ª ed. Em 1949), compreendido entre os séculos VIII e II a.C., em que viveram alguns dos maiores sábios de todos os tempos: Buda na Índia, Lao-Tsé e Confúcio na China, os grandes profetas de Israel, os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles na Grécia.
[10] Tive a honra, em 2011, de patrocinar no Supremo Tribunal Federal, duas ações diretas de inconstitucionalidade por omissão. Tais ações receberam parecer em grande parte favorável da Procuradoria-Geral da República em 2013, mas continuam aguardando ingresso em pauta de julgamento.