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segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Democracia ante à demagogia autoritária de cínicos ‘Salvadores da Pátria’, por Rômulo Moreira


"(...) sem essa “dimensão republicana da democracia”, impossível estabelecer “uma cuidadosa distinção entre as esferas dos interesses públicos e privados dos ocupantes de cargos públicos.” Veja-se, no caso brasileiro, a suposta influência dos filhos do presidente da República na tomada de algumas decisões políticas, e mesmo nas relações internacionais."

Do Jornal GGN:

A Democracia Delegativa e os nossos velhos ‘Salvadores da Pátria’, por Rômulo Moreira

As promessas de campanha, por serem em grande parte irrealizáveis e demagógicas, não se confirmam e, “uma vez que as esperanças iniciais se dissipam e os primeiros pacotes fracassam, o cinismo e o desespero se tornam atitudes dominantes”

A Democracia Delegativa e os nossos velhos ‘Salvadores da Pátria’

por Rômulo Moreira

O politólogo argentino Guillermo O’Donnell, em uma de suas últimas reflexões[1], teorizou acerca do que ele denominou de “democracia delegativa”, analisando mais particularmente as democracias contemporâneas da América Latina, “onde mecanismos de voto e representação política existem, mas as instituições de accountability (responsabilização) permanecem débeis, em um contexto de pouca participação popular e crescentes desigualdades econômicas.”[2]
O texto de referência escrito pelo Professor O´Donnel foi publicado no Brasil na Revista Novos Estudos CEBRAP (“Democracia Delegativa?”), no qual ele procura estabelecer uma caracterização das democracias delegativas, partindo, desde logo, de uma premissa básica: nas democracias delegativas quem ganha a eleição está “autorizado a governar o país como lhe parecer conveniente, sendo (o eleito) a encarnação da nação, o principal fiador e definidor do interesse nacional; afinal, ele foi autorizado a governar como achar conveniente.”
Ademais, “normalmente, a democracia delegativa sucede uma crise social e econômica profunda, pois gera um forte senso de urgência, sendo um drama de países sem uma tradição democrática, que têm de lidar com múltiplos legados negativos de seu passado autoritário, mas que, além disso, são defrontados com uma crise econômica e social extraordinariamente profunda, algo de que as democracias mais antigas, em sua maioria, estiveram livres.”
Em relação à América Latina, O´Donner entende como importante “mencionar as enormes desigualdades existentes na região, que colocam não só problemas de equidade social elementar, mas também de organização e representação política de amplos, e em alguns casos majoritários, segmentos de uma população que ganhou o direito de votar. Em países particularmente desiguais, como o Brasil e o Peru, isso levou a enormes flutuações de uma eleição a outra, que dificultaram ainda mais o surgimento de um sistema partidário representativo e razoavelmente estável”, concluindo, com toda razão, que “na América Latina há desigualdades persistentes e profundas.”
Ora, sendo o eleito quase como um pai da nação, evidentemente, que ele não precisa, nem sequer “da sustentação de um partido político, estando acima de todas as partes, inclusive dos partidos políticos e dos interesses organizados.” (grifei).
Não há, ademais, qualquer obrigação de prestar contas a quem quer que seja, nem mesmo ao Congresso Nacional. Dessa maneira, ao contrário do que ocorre nas democracias tipicamente representativas, o eleito pelo povo não pode ser responsabilizado por suas decisões, pois “age em nome daqueles por quem ele afirma ter o direito de falar.”[3]
Assim, sem essa “dimensão republicana da democracia”, impossível estabelecer “uma cuidadosa distinção entre as esferas dos interesses públicos e privados dos ocupantes de cargos públicos.” Veja-se, no caso brasileiro, a suposta influência dos filhos do presidente da República na tomada de algumas decisões políticas[4], e mesmo nas relações internacionais.[5]
Pois bem.
Estabelecida a premissa da democracia delegativa, O´Donnel passa a indicar algumas de suas principais características, iniciando pelo fato de ser uma democracia fortemente majoritária, constituída (a partir de eleições formalmente limpas) “de uma maioria que autoriza alguém a se tornar, por um determinado número de anos, a encarnação e o intérprete dos altos interesses da nação.” Se, eventualmente, as eleições (realizadas normalmente em dois turnos) “não geram diretamente uma maioria, essa maioria tem de ser criada para sustentar o mito da delegação legítima.” (também grifei).
Além de majoritária, a democracia delegativa é “fortemente individualista[6], pressupondo-se que os eleitores escolhem, independentemente de suas identidades e filiações, a pessoa que é mais adequada para cuidar dos destinos do país”, resultando em eleições marcadas por um caráter “muito emocional, envolvendo várias apostas.” Possivelmente, este fenômeno ocorreu em nossas últimas eleições majoritárias, quando uma terrível polarização foi determinante na eleição do atual presidente, dentre outros fatores, evidentemente.
Desse modo, tratando-se de verdadeiros salvadores da pátria – “fortes, corajosos, machos[7] e acima dos partidos e interesses[8] -, eles têm a obrigação “de aplicar à nação os remédios amargos que, embora muitos de seus membros não possam reconhecê-lo agora, a curarão.”
Assim, constitui-se um “governo de salvadores”, com um “estilo mágico de elaboração de políticas”, tornando-se comuns os pacotes, os decretos (“decretismo”), as medidas provisórias, etc.[9]
Mas, pode haver um revés: as promessas de campanha, por serem em grande parte irrealizáveis e demagógicas, não se confirmam e, “uma vez que as esperanças iniciais se dissipam e os primeiros pacotes fracassam, o cinismo e o desespero se tornam atitudes dominantes”; a tal ponto que, por exemplo, o presidente da República (nos sistemas presidencialistas, óbvio) pode se achar no direito de minimizar as consequências desastrosas e fatais de uma pandemia, tratando-a como uma “simples gripezinha ou um simples resfriadinho.”[10]
Por sua vez, o partido político que elegeu o presidente desespera-se “com sua perda de apoio popular, e começa a recusar apoio parlamentar às políticas dele, aumentando ainda mais o seu isolamento político e suas dificuldades de formar uma coalizão estável no Congresso.”[11]
Esta marginalização dos partidos políticos e do Congresso, evidentemente, traz consequências trágicas do ponto de vista institucional, especialmente:
“(1) aprofundando os próprios defeitos que são imputados a essas instituições;
(2) quando, finalmente e fatalmente, o Executivo precisa de apoio legislativo, está fadado a encontrar um Congresso não apenas ressentido, mas também que não se sente politicamente responsável por políticas públicas que começaram por ignorá-lo; e
(3) essa situação, juntamente com as críticas do Executivo à lentidão e ´irresponsabilidade` de um Congresso que recusa o apoio requerido, são um fator importante do acentuado declínio do prestígio de todos os partidos e políticos.”
A consequência inevitável é o isolamento do presidente em relação à “maioria das instituições políticas e interesses organizados existentes, tornando-se o único responsável pelos sucessos e fracassos de ´suas` políticas.”
Portanto, este modelo de democracia delegativa concebido por O´Donnel, “representa para o presidente a vantagem de não ter praticamente nenhuma obrigatoriedade de prestar contas (accountability)”, além de permitir “uma elaboração rápida de políticas, mas à custa de uma alta probabilidade de erros grosseiros, de implementação incerta, e de uma altíssima concentração da responsabilidade pelos resultados no presidente.”
Exatamente por isso, é comum nas democracias delegativas (“facilmente detectáveis na maioria dos países da América Latina”) que os eleitos “sofram vertiginosas variações em sua popularidade: hoje são aclamados como salvadores providenciais, amanhã são amaldiçoados como só acontece aos deuses caídos.”
Por fim, ressalto que o texto do argentino O´Donnel foi publicado no início dos anos 90, nada obstante parecer que foi hoje e, mais especificamente, que o foi a partir do contexto político vivido por sus hermanos.[12]
[1] O Professor O´Donnel faleceu em 29 de novembro de 2001, em Buenos Aires.
[2] NASCIMENTO, Paulo César, disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-33522012000100001&lng=pt&tlng=pt, acessado em 14 de abril de 2020. Sobre O´Donnel, disse Paulo César Nascimento: “Seus livros e ensaios sobre autoritarismo, democratização e teoria da democracia tornaram-se clássicos das ciências sociais e leitura obrigatória nas instituições acadêmicas. O’Donnell também pesquisou e ensinou em diversas universidades dos Estados Unidos e da América Latina, tais como a Universidade de Notre Dame, Berkeley, Stanford e Michigan. No Brasil, foi pesquisador do IUPERJ e do CEBRAP, e nos últimos anos de sua vida esteve vinculado à Universidade de Buenos Aires. Sua destacada carreira acadêmica pode ainda ser medida pelo prêmio de contribuição aos estudos latino-americanos que lhe foi outorgado pela Latin American Studies Association, em 2006, e por sua eleição para presidente da Associação Internacional de Ciência Política na gestão 1989-1991.”
Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS
[3] Nada obstante, é preciso entender também que “a representação não garante, pelo método da tomada de decisão por maioria, que identidades minoritárias irão ter a expressão adequada no parlamento; a representação, ao diluir a prestação de contas em um processo de re-apresentação do representante no interior de um bloco de questões, também dificulta a desagregação do processo de prestação de contas.” (SANTOS, Boaventura de Souza. Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 49-50).
[6] “Individualista” aqui no sentido mais hobbesiano do que lockiano, como acentua o próprio O´Donnel.
[7] Há alguns, inclusive, que se acham imunes até ao contágio de determinados vírus, em vista de um suposto “histórico de atleta.”
[8] Transformando-se, muitas vezes, em mito!.
[9] Veja-se, em nosso caso, o chamado Pacote Anticrime (https://jornalistaslivres.org/um-lixo-chamado-pacote/, acessado em 14 de abril de 2020) e as “10 medidas contra a corrupção” (https://www.migalhas.com.br/quentes/305234/senado-aprova-projeto-das-10-medidas-contra-corrupcao, acessado em 14 de abril de 2020).
[11] Partido político no sentido weberiano, isto é, como “uma organização que exerce influência e busca ganhar o controle do poder político.” (WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2ª. edição, p. 5).
[12] O Professor O´Donnel faleceu em 29 de novembro de 2001, em Buenos Aires. O seu texto sobre a democracia delegativa é de 1991, tendo sido publicado no Brasil pela Revista Novos Estudos CEBRAP, nº. 31, outubro/1991, pp. 25-40.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Brumadinho, Bolsonaro e a Demagogia (Muito além dos seis minutos em Davos), por Armando Coelho Neto, advogado, delegado aposentado da PF e ex-representante da Interpol



  "O consórcio midiático-jurídico-financeiro que, violentando a Democracia, conseguiu abrir espaço para a vitória eleitoral da ultradireita no pleito de 2018, abusou das redes sociais para difundir falácias em caráter sistemático. Dentre os maiores engodos aplicados aos eleitores se incluem as pretensas prioridades à segurança e ao desenvolvimento. Valendo-se de uma argumentação neoliberal rasteira, buscou-se convencer as pessoas que, no Brasil, o Governo intervém demais na atividade econômica, enquanto o “cidadão de bem” fica desassistido na sua luta pessoal contra a “bandidagem”. Libere-se o comércio de armas e munições, aprovem-se “leis mais duras”, incentive-se as forças policiais a recorrer à letalidade e demita-se o Estado das tarefas fiscalizatórias. Promessas ou ameaças de campanha, aliás, que começam a se concretizar já nos primeiros dias de gestão."


Do Jornal GGN:

Brumadinho e demagogia (Muito além dos seis minutos em Davos), por Armando Coelho Neto

Brumadinho e demagogia (Muito além dos seis minutos em Davos)
por Armando Rodrigues Coelho Neto
Atribui-se a Tim Maia a autoria da frase “a demagogia é uma mentira mentirosa”. Sábio vaticínio.
O consórcio midiático-jurídico-financeiro que, violentando a Democracia, conseguiu abrir espaço para a vitória eleitoral da ultradireita no pleito de 2018, abusou das redes sociais para difundir falácias em caráter sistemático. Dentre os maiores engodos aplicados aos eleitores se incluem as pretensas prioridades à segurança e ao desenvolvimento. Valendo-se de uma argumentação neoliberal rasteira, buscou-se convencer as pessoas que, no Brasil, o Governo intervém demais na atividade econômica, enquanto o “cidadão de bem” fica desassistido na sua luta pessoal contra a “bandidagem”. Libere-se o comércio de armas e munições, aprovem-se “leis mais duras”, incentive-se as forças policiais a recorrer à letalidade e demita-se o Estado das tarefas fiscalizatórias. Promessas ou ameaças de campanha, aliás, que começam a se concretizar já nos primeiros dias de gestão.
No que concerne à questão do meio ambiente, por exemplo, entre outros insultos declarados pelo “mito” do conservadorismo tropical, ele ameaçou, e foi filmado, que não se pode conviver com o ambientalismo xiita do IBAMA e do ICMbio. E ameaçou dizendo que, no que estivesse ao seu alcance, iria reduzir o quadro de servidores desses organismos. Pausa para o gesto de arminhas com as mãos, criando o même “lacrador” da semana nos grupos de Whats App. Que beleza, não? Ignorância orgulhosa acima de tudo e grana acima de todos. Vamos ganhar dinheiro poluindo e desmatando à vontade. E liquidar quem estiver contrário. Só que não...
Eis que a realidade, essa inconveniente que teima em não se vergar às convicções voláteis do Facebook, faz ruir a barragem de detritos de mineração da Companhia Vale, soterrando parte do Município de Brumadinho/MG. Desastre ambiental de proporções bíblicas, somente comparável a outro de semelhante natureza, motivado pela mesma empresa no Município de Mariana/MG, em 2015. Para além das centenas de mortos, do sofrimento atroz das famílias, da aniquilação do ecossistema, da perda mesmo dos referenciais de vida das comunidades e da mudança definitiva da morfogeologia local, surge o questionamento: será mesmo tão clara a correlação entre menos fiscalização e mais economia?
Para quem defende que um País mais rico e seguro se faz com mais armas e mais policiais e com menos atuação administrativa, o equívoco já começa na incapacidade de compreender o fenômeno. Prover estabilidade social é talvez a mais complexa e difícil responsabilidade estatal, desde que se tenha em conta que é um somatório de êxitos em diversas outras áreas, em caráter transversal (perpassando desde políticas públicas de assistência e saúde da família, passam pela educação, urbanização, cidadania, participação popular e probidade administrativa).
Na trilha civilizatória, o sistema jurídico de um País elege determinados bens (vida, saúde, infância, família, patrimônio, meio ambiente, moralidade pública, dignidade humana) como valiosos para aquela Sociedade Política. E determina a sua observância e proteção em vários níveis. O Direito Penal, como se ensina em qualquer faculdade, é a “ultima ratio legis”, isto é: entra em cena quando nada mais foi suficiente para evitar a causação de um risco ou de um dano para a coletividade – ou seja, apenas quando falharam a cultura, a religião, a escola, as regras de civilidade, a auto-composição dos conflitos, as esferas estatais administrativas e a seara judicial cível. Essa ordem não pode jamais ser invertida pois, ao menos no edifício civilizatório liberal, a sanção penal se apresenta como a mais drástica. É corolário lógico, assim, não ser a primeira alternativa de mediação da conflituosidade social.
Capacitar forças de segurança, investir em equipamentos e nos salários dos policiais, dar um tratamento previdenciário condigno a quem devota sua vida à proteção dos concidadãos são medidas indubitavelmente relevantes para que se aprimore as condições de vida em Sociedade. Não se pode ter a menor ilusão, contudo, de que segurança se atinge apenas com esforços de manutenção da Ordem Pública. O exemplo desceu o morro. De que adianta, neste momento, uma investigação primorosa, excelência pericial no dimensionamento dos danos ambientais e quantificação dos mortos e feridos? Ninguém poderá restituir a normalidade das vidas dilaceradas pelo desastre em Brumadinho.
Capitão Bozo, contudo, não pensa assim. Nos inacreditáveis seis minutos (esse é o tamanho da intimidade entre o “mito” do conservadorismo tropical e sua “pátria amada”, bem como a presumível profundidade) em que “dissertou” sobre o Brasil em Davos, o mundo assistiu a um governante inseguro e despreparado vender facilidades ambientais e financeiras para que o capital estrangeiro viesse explorar nossas riquezas naturais (algo que os brasileiros, obviamente, não são capazes).
Tenha a certeza de que, se algum investimento vier, não será do tipo que nos ajudará a desenvolver economicamente o País. Por que os investidores de países desenvolvidos não pensam com a lógica superficial das mentiras contadas ao povo brasileiro para enganá-lo eleitoralmente. Mesmo sem ter ouvido Tim Maia. 
Armando Rodrigues Coelho Neto - advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Notas sobre o modelo fascista de propaganda segundo Theodor Adorno, por Priscila Aurora Landim de Castro



“A formação imaginária de uma figura paterna onipotente e violenta, altamente capaz de transcender o pai real e, com isso, crescer até se tornar um ego coletivo” (Theodor Adorno, 1951).


Do Justificando:

Notas sobre o modelo fascista de propaganda segundo Theodor Adorno

Quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Notas sobre o modelo fascista de propaganda segundo Theodor Adorno


Arte: Caroline Oliveira
“A formação imaginária de uma figura paterna onipotente e violenta, altamente capaz de transcender o pai real e, com isso, crescer até se tornar um ego coletivo” (Adorno, 1951).
Alguns estratagemas falaciosos são velhos conhecidos da retórica, também conhecida como a arte da argumentação, entre os quais se destacam os argumentos denominados ad hominem. A expressão latina refere-se ao argumento construído de modo a desviar a atenção da proposição, do objeto e do contexto da discussão. Encerrado em si mesmo e incapaz de estabelecer ponte com o oposto, o argumento assume como foco um elemento externo ao debate, fundando-se especialmente às considerações pessoais sobre o autor da proposição.
Utilizando o ridículo como estratégia expositiva, poderíamos exemplificar um argumento ad hominem por meio da afirmativa: “Não vou te escutar porque você está vestindo vermelho e o horóscopo de hoje previu que evitasse contato com essa cor”.
O exemplo seria risível se não fosse o cenário atual da política brasileira. Cômico se não fosse trágico. O pior é reconhecer que se trata de um fenômeno antigo e aparentemente latente no imaginário social.
A aparição e a ascensão de personagens como Bolsonaro propiciam um contexto singular para análise dos inconscientes coletivos, especialmente quanto à compreensão da teia que modela as nossas subjetividades individuais em face das estruturas sociais e a complexa relação que envolve o micro e o macro, o indivíduo e a sociedade.
Theodor Adorno promoveu uma análise da propaganda fascista no texto “A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda”. Datado de 1951, o escrito estava situado no fenômeno emergente dos estados autoritários, cuja ebulição implicava riscos à democracia. O debate proposto adotou como principal aporte teórico a obra “Psicologia de massa e análise do ego”, publicado por Freud em 1922. A despeito de a obra psicanalítica estar afastada temporalmente do ápice do fascismo, é possível inferir que Freud já constatava a relevância das categorias psicológicas nesses movimentos políticos.
Adorno identificou, entre as lideranças fascistas, a presença de um “conjunto-padrão, rigidamente delimitado” denominado por ele como “expedientes”, nos quais a similaridade dos discursos seria muito frequente, a ponto de gerar uma unicidade. A respeito disso expõe que “as próprias falas são tão monótonas que a sua repetição sem fim é facilmente constatável, tão logo passamos a nos familiarizar com seu pequeno repertório de expedientes. Realmente, a reiteração constante e a escassez de ideias são os ingredientes indispensáveis de toda a técnica”.
A pauta da intolerância está fundada na mobilização de apoio popular em vista dos riscos da democracia e da pluralidade e, a despeito de acusado de arcaico, “enquanto rebelião contra a civilização, o fascismo não é simples recorrência do arcaico, mas sua reprodução dentro e através da civilização” (Adorno, 1951).
O cabimento de uma análise psicológica da propaganda fascista justifica-se nos elementos subjetivos que a compõe, a exemplo da figura paterna, do conceito de Ego e da base narcisista que a integra. Os objetivos autoritários irracionais que a estabelecem derivam do despertar de uma herança arcaica do sujeito que é mediada pelo protótipo do líder cuja imagem combina a ideia do pai primitivo, ameaçador e todo-poderoso.
Freud, valendo-se da teoria narcisista, explica que, embora apareça como super-homem, o líder precisa conciliar essa imagem com a ideia de que também é uma pessoa comum. Isso possibilitaria a reelaboração do ego individual dos seguidores, que abandonariam seu próprio ideal de ego, substituindo-o pelo ego corporificado no líder. Assim, o líder existiria como “formação imaginária de uma figura paterna onipotente e violenta, altamente capaz de transcender o pai real e, com isso, crescer até se tornar um ego coletivo” (Adorno, 1951).
Esse é o contexto de surgimento do que Freud denomina pequeno-grande homem, caracterizado pela ambivalência do líder que comporta tanto a materialização da onipotência, quanto a ideia de que ele é apenas mais um na multidão. Assume, portanto, a imagem de milagre social ao personificar o pai todo poderoso e simultaneamente se apresentar como homem comum. A combinação desses dois elementos seria responsável por gratificar “o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade e ser ele mesmo essa autoridade” (Adorno, 1951).
Esse expediente presente no padrão fascista está sintonizado com a estrutura básica da demagogia, e a intolerância aos grupos que experimentam uma identidade diversa seria resultado de um projeto narcisista. Sobre isso Adorno cita Freud: “Nas antipatias e aversões indisfarçadas que as pessoas sentem por estranhos com quem têm de tratar, podemos identificar a expressão do amor a si mesmo, do narcisismo. Esse amor a si mesmo trabalha para a preservação do indivíduo e comporta-se como se a ocorrência de qualquer divergência de suas próprias linhas específicas de desenvolvimento envolvesse sua crítica e a exigência de sua alteração” (Adorno, 1951).
A polarização no conceito de “nós” versus “os outros” resultaria no “truque da unidade”, cujo foco em enfatizar as diferenças dos “outros” – aqueles com os quais não nos identificamos e que, por isso, constituem um risco social –  minimiza as próprias diferenças internas, criando uma ficção de unidade baseada na ideia de que “estamos todos no mesmo barco”.
Contraditoriamente esse não é o barco de todos, no caso do presidenciável Bolsonaro, homossexuais, mulheres, negros, grupos que não se identifiquem com o projeto político estão à margem da sociedade e não precisam constituir uma pauta pública própria porque não são a regra. A regra pertence àqueles que estão dentro do barco.
Esse é o risco que projetos políticos como o defendido por Bolsonaro impõe à democracia: o preço de serem pagos com a invisibilidade de muitas vidas cuja cidadania é subalternizada segundo uma escala que hierarquiza narcisisticamente as vontades daqueles que estão dentro do barco e subalterniza tudo e todos que se encontrem fora dele. Não bastasse invocar a marginalização de tantas existências historicamente invisibilizadas, ainda se sobressalta o imaginário de que eles – “os outros” – são inimigos e, por isso, precisam ser combatidos, pois são responsáveis pelo descrédito moral e declínio social.
Moralidades plurais? Jamais! Diante da existência de um único vocativo moral, a pluralidade deve ser evitada e assimilada pelo grande ego.  

Priscila Aurora Landim de Castro é doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, professora da Faculdade de Direito – UniCEUB e pesquisadora Associada ao Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Demagogo e mimado, Aécio Neves justifica o golpe evocando a instabilidade que ele mesmo, derrotado inconformado, criou com seus aliados

"Sua própria trajetória é a negação da meritocracia: Aécio ganhou tudo de bandeja — de empregos a votos — por ser integrante de uma oligarquia mineira.
"Bem, fiel a sua tradição de falar coisas absurdas, ele agora declarou, em tom acusatório e olhando para Dilma, que há muita instabilidade no Brasil.
"Ora, ora, ora.
"O nome da instabilidade é Aécio. Ele vem promovendo acintosamente instabilidade no país desde que saíram os resultados da eleição em que ele foi derrotado." - Paulo Nogueira



Demagogo e golpista

O texto a seguir é de Paulo Nogueira, extraído do Diário do Centro do Mundo



Aécio é uma pândega.


Ele fala coisas que nada têm a ver com o que ele próprio faz.


Na campanha, como um papagaio passou a usar a palavra “meritocracia”. Ora, Aécio jamais praticou a meritocracia. Encheu o governo de Minas de parentes, amigos e assemelhados. A eminência parda de suas gestões foi, meritocraticamente, sua Andrea, aquela que dava dinheiro público de publicidade oficial para a mídia amiga e sufocava à míngua a mídia independente. 

Sua própria trajetória é a negação da meritocracia: Aécio ganhou tudo de bandeja — de empregos a votos — por ser integrante de uma oligarquia mineira.


Bem, fiel a sua tradição de falar coisas absurdas, ele agora declarou, em tom acusatório e olhando para Dilma, que há muita instabilidade no Brasil.


Ora, ora, ora.


O nome da instabilidade é Aécio. Ele vem promovendo acintosamente instabilidade no país desde que saíram os resultados da eleição em que ele foi derrotado.


Aécio esteve à frente de todas as manobras sujas para contestar o desejo do povo expresso nas urnas. Ele já começou renegando os números e exigindo recontagem.


Quer dizer: os votos que elegeram Alckmin eram limpos, mas os que deram um segundo mandato a Dilma eram sujos.


Daí para a frente, Aécio não parou mais de estimular instabilidade pelo país. O terceiro turno se tornou uma obsessão sua, uma coisa mesquinha, patológica, alimentada pelos coronéis da mídia e abençoada por FHC.


Se Aécio fizer um exercício reflexivo sobre quais foram suas atividades no ano que se encerra, uma linha será suficiente. Ele fez um terceiro turno.


Nem a direita venezuelana, um exemplo mundial de predação e exclusão, chegou aos extremos de Aécio, FHC e cúmplices.


Aécio e FHC, somados e misturados, viraram um Frankstein que você pode batizar de Carlos Lacerda.


Lacerda passou a vida destruindo democracias e votos dos brasileiros. Recebeu a merecida resposta do destino depois do golpe militar pelo qual ele tanto se bateu. Ele queria que os militares derrubassem Jango e lhe dessem de bandeja a presidência.


Terminou cassado, e morreu do amargor de ver o colapso de seus planos sórdidos. Passou para a história como um corvo, como um conspirador impenitente, como um inimigo do povo e de suas escolhas.


Getúlio Vargas, para cujo suicídio ele tanto contribuiu, é uma figura de extraordinário relevo na história nacional. É merecidamente reconhecido como o presidente que construiu um Brasil novo, no qual greves, sindicatos e questões sociais já não eram mais “caso de polícia”, para usar a infame expressão de um antecessor de GV.


Aécio receberá da história a justa resposta. Será lembrado como um golpista, um demagogo que fala em democracia ao mesmo tempo que a sabota de todas as maneiras possíveis.


Aécio usar a palavra instabilidade para promover sua causa suja é o mesmo que Nero apontar para as chamas de Roma e bradar contra o incêndio.


Como Lacerda, e como Nero, o lugar de Aécio — e de seus comparsas como FHC — já está garantido no panteão dos inimigos da democracia.


Estivéssemos em 1964, ele estaria rastejando de quartel em quartel — as vivandeiras dos bivaques como celebrememente se referiu o general Castelo Branco aos civis que pediam aos generais que depusessem Jango.


Aécio não é mais nem menos que isso: uma vivandeira modelo 2015.

Paulo Nogueira