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quarta-feira, 26 de maio de 2021

A ultra-direitista bolsonarista Mayra Pinheiro defendeu a perigosa cloroquina abertamente na CPI e diz que a indústria farmacêutica não tem interesse em alterar a bula

 

O uso tem que ser no início da doença", diz a secretária do Ministério da Saúde conhecida como "capitã cloroquina"

Jornal GGN – Bolsonarista de carteirinha, a médica Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, se tornou a primeira testemunha da CPI da Covid a defender abertamento o uso da hidroxycloroquina para tratamento contra coronavírus logo no início dos sintomas. Ela defendeu a “autonomia médica” e uso off-label do medicamento que ainda não dispõe de eficácia contra Covid-19 compravada por estudos científicos. Mayra ainda acrescentou que a alteração na bula da cloroquina não ocorreu no Brasil pelas vias formais porque a indústria farmacêutica não tem interesse em bancar os custos necessários.

A cloroquina foi o último tema aprofundado pelo senador Renan Calheiros, relator da CPI, na sessão que começou por volta das 10h deste terça (25). Ele confrontou Mayra com a informação de que o Tribunal de Contas da União tem parecer contrário à distribuição de cloroquina pelo SUS, para uso off-label, sem autorização da Anvisa e sem o consentimento da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS).

Mayra admitiu que o governo Bolsonaro não apresentou solicitação ao Conitec, no primeiro ano de pandemia, a respeito da cloroquina para tratamento de Covid-19 porque “levam meses” para sair uma resposta. Apesar disso, o Ministério da Saúde emitiu notas técnicas orientando médicos a respeito do uso da cloroquina e dosagens consideradas seguras.

A secretária afirmou que há consenso no governo Bolsonaro, desde a gestão de Luiz Henrique Mandetta, sobre o medicamento não dever ser usado na fase mais aguda da doença e sim nos primeiros sintomas. “Nós já temos certezas desde as notas 5 e 6 de Mandetta que não há indicação de medicações na fase hospitalar, os doentes já estão muito graves e têm processos inflamatórios estabelecidos. O uso tem que ser no início da doença.”

INDÚSTRIA NÃO TEM INTERESSE EM ALTERAR BULA DA CLOROQUINA

Sobre o fato de o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, ter dito à CPI que foi categoricamente contra a ideia de alterar a bula da cloroquina por meio de decreto, para fazer constar a indicação para tratamento de Covid-19, Mayra avaliou que a postura da Anvisa é compreensível e acrescentou informações de bastidores sobre os interesses da indústria farmacêutica, em sua tentativa de defender o uso off-label.

“Quando o presidente da Anvisa fala de não recomendar [a cloroquina contra Covid-19], ele fala do papel da Anvisa. A Anvisa recomenda medicamentos que estão na bula, esse é o papel dela como agência certificadora. Para conseguir que medicamentos off-label sejam incorporados em bula, quem solicita essa incorporação é a indústria farmacêutica. Isso é importante a população brasileira saber. Para fazer um estudo que chamamos de estudo pivotal para incorporação de qualquer medicamento em bula, esses estudos levam em média 4 anos e custam, o mais simples, 19 milhões de dólares. São necessários, para as agência reguladoras do mundo inteiro, dois estudos deste, com cerca de 4 mil pacientes, ao longo de 10 anos, e custando juntos 38 milhões de dólares. Essas medicações não têm patentes, elas são baratas. Então não existe hoje interesse da indústria farmacêutica de que essas medicações sejam objeto de um estudo, da formação de um dossiê para serem entregues à Anvisa para serem incorporados em bula para tratar essa doença. É por isso que a Anvisa não tem essa orientação. Para uso off-label não precisamos da bula desses remédios. Para salvar vidas, nós precisamos oferecer à população todos os recursos.”

Acompanhe a CPI pela TVGGN:

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quinta-feira, 13 de maio de 2021

RBA: Recusar vacinas faz de Bolsonaro um genocida, diz associação de juristas pela Democracia


Da Rede Brasil  Atual:

 Para Juristas pela Democracia, milhares de pessoas morrem todos os dias por uma doença para a qual existe vacina. Mas o presidente dificulta a compra


"Presidente da República boicota a compra de vacinas, minimiza efeitos do lockdown e incentiva o uso de cloroquina, que não tem eficácia contra a covid-19", destaca a associação


São Paulo – As dificuldades impostas e mesmo a recusa à compra de vacinas por orientação do presidente Jair Bolsonaro configuram ato genocida, constata a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD). A entidade lembra que, por definição, genocida é o responsável pelo extermínio de muitas pessoas em pouco tempo. Ou seja, é legítima a nominação que irrita Bolsonaro a ponto de recorrer à Lei de Segurança Nacional (LSN) para perseguir os que assim o qualificam.

Por isso, a ABJD vem realizando iniciativas para esclarecer à população as razões pela qual Bolsonaro pode sim ser chamado de genocida. Entre elas, a projeção de imagens em um prédio no centro de Curitiba na noite da última segunda (10). Na atividade, o núcleo da associação no Paraná mostrou fatos relacionados à grave situação da pandemia de covid-19 no Brasil, como a falta de vacinas e de insumos como oxigênio hospitalar e até máscaras.

A projeção continha frases como “já são mais de 400 mil óbitos. Está faltando vacina, oxigênio, máscara, está faltando governo”. Outra: “Presidente da República boicota a compra de vacinas, minimiza efeitos do lockdown e incentiva o uso de cloroquina, que não tem eficácia contra a covid-19”. E “vários países compraram vacinas em 2020. Bolsonaro não quis comprar vacinas. CPI da Covid: Bolsonaro recusou pelo menos  11 propostas de compras de vacinas”.

Bolsonaro e as mais de 400 mil mortes

“Jair Bolsonaro tem usado a Lei de Segurança Nacional (LSN) para tentar perseguir desafetos políticos, especialmente pelo uso do termo “genocida”. As projeções explicam à população a correção da expressão e apontam que, se o Brasil possui hoje mais de 400 mil mortes por Covid-19, o responsável é o presidente, especialmente no ano de 2021,” explica o jurista Nuredin Allan, da Executiva Nacional da ABJD.

De acordo com ele, a recusa na compra de imunizantes fez com que apenas uma pequena fração da população fosse vacinada até agora. “Milhares de pessoas morrem por dia, vítimas das consequências da covid-19. Milhares de pessoas morrem todos os dias por uma doença para a qual existe vacina e que o presidente Jair Bolsonaro se recusou a comprar em número suficiente para imunizar a população e salvar vidas”, conclui.

Redação: Cida de Oliveira

domingo, 4 de abril de 2021

Liberação de cultos e missas presenciais por Lásio Marques afronta a Justiça, a saúde e a vida para tentar salvar Bolsonaro

 

Da Rede Brasil Atual:

Fé, Política e Dízimo


Decisão isolada de Nunes Marques de liberação de cultos e missas confronta decisão do STF e viola apelos das autoridades em saúde no momento mais grave da pandemia

Simpo/Salvador e Marcos Corrêa/PR

Nunes Marques foi o primeiro integrante do STF indicado por Bolsonaro, e sua decisão ocorre no pior momento da pandemia

São Paulo – A decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), favorável à liberação de cultos e missas presenciais vem na contramão das exigências de ampliação do distanciamento social, no momento mais grave da pandemia do novo coronavírus. Ocorre que a decisão monocrática (isolada) de Nunes Marques afronta princípios de Estado laico, pois decisões de poderes não podem ser justificadas por motivação religiosa. Viola também decisão do pleno do STF (unânime), que assegura competência de estados e municípios para adotar medidas restritivas conforme a gravidade das realidades locais. E desafia, ainda, recomendações de autoridades científicas de que o Brasil precisa adotar medidas restritivas mais rigorosas para combater o aumento das contaminações e mortes decorrentes da covid-19.


Perto dos 13 milhões de casos de covid-19, Brasil supera 330 mil óbitos


Nunes Marques foi o primeiro integrante do STF indicado pelo presidente Jair Bolsonaro, e sua decisão ocorre no pior cenário desde o início da pandemia. Além disso, vem também num momento em que a popularidade de Bolsonaro despenca. Levando-se em conta que algumas das principais bases de apoiadores de Bolsonaro estão nos setores conservadores das igrejas, tantos católicas quanto evangélicas, a medida favorece a presença de público ante líderes religiosos com discurso bolsonarista. E ao mesmo tempo deve socorrer o caixa das igrejas, abalado pela ausência dos fiéis habituados a contribuir financeiramente quando comparecem aos cultos e missas. Mas, por outro lado, pode agravar a situação próxima do colapso em grande parte das regiões do país. Isso porque amplia o risco tanto de uma pessoa se contaminar quanto de causar transmissão comunitária.


ONU emite alerta para que brasileiros não se aglomerem na Páscoa


Quase 900 bebês morreram de covid-19 no Brasil. Número é mundialmente ‘assustador’


Para se ter ideia, o procurador-geral da República, Augusto Aras – também indicado por Bolsonaro – manteve encontros com líderes evangélicos no início de março. Ao pastor Silas Malafaia e ao bispo Abner Ferreira, Aras teria apoiado a abertura de igrejas, contra as restrições impostas por governadores e prefeitos. O que Nunes Marques. com a liberação liminar de cultos e missas, fez foi pôr em prática, por decisão liminar (provisória), a opinião dos pastores. E também a de Aras e do advogado-geral da União, André Mendonça.

A liminar concedida por Nunes Marques causou reação imediata do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. “Em Belo Horizonte, acompanhamos o plenário do STF (sobre o poder de estados e municípios regularem as restrições locais). O que vale é o decreto do prefeito. Estão proibidos os cultos e missas presenciais”, afirmou Kalil.

A Frente Nacional de Prefeitos também reagiu, e cobrou do STF manifestação pública. O presidente da frente, Jonas Donizette, pediu que o presidente do Supremo, Luiz Fux, esclareça o imblóglio criado por seu colega de Corte e defina qual norma deve ser seguida. “A decisão do plenário (unânime) que determinou que os municípios têm prerrogativa de estabelecer critérios de abertura e fechamento das atividades em seus territórios, ou essa liminar?”

domingo, 20 de dezembro de 2020

O Coronavírus encontrou casa, comida e roupa lavada para participar da cruzada política de um presidente negacionista, genocida e inepto

 

A quarentena no Brasil de Bolsonaro até aqui: Peregrinação, desinformação e caos, por Ricardo Mezavila

Jornal GGN:

Jair Bolsonaro em posse de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde - Foto: Agência Brasil
A quarentena até aqui: Peregrinação, desinformação e caos!
Por Ricardo Mezavila

Em cruzada contra a vacina, Bolsonaro incentiva o brasileiro a não se vacinar e delira sobre efeitos colaterais: “Lá no contrato da Pfizer está claro que ela não se responsabiliza por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu. Se nascer barba em mulher ou algum homem começar a falar fino, eles não tem nada a ver com isso”.

Desde que foi reconhecida em março no Brasil, dando início à quarentena, a pandemia causada pelo coronavírus encontrou casa, comida e roupa lavada para se estabelecer e participar da cruzada política de um presidente negacionista, genocida e inepto, que debocha da tristeza dos familiares de quase duzentos mil mortos em decorrência da Covid, e de mais de sete milhões de infectados.

Dias antes do início da quarentena, o coronavírus era visto mais como ameaça à economia do que à vida.  Naquela ocasião, fortes chuvas caíram sobre a cidade do Rio de Janeiro desabrigando dezenas de famílias. O prefeito Marcelo Crivella disse que “as pessoas gostam de morar em áreas de risco porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo”, criando a frase que virou a marca do pensamento das elites governantes em 2020.

Na cabeça da classe dominante, a população pobre mora em área de risco sem saneamento porque gosta. Essa teoria serviu de embasamento para que o conceito da necropolítica fosse adotado pelo atual presidente do Brasil, que usa do poder político para ditar como as pessoas pobres podem viver e como devem morrer.

Durante todo o ano a sociedade conviveu com as dejeções cognitivas e intelectuais de Jair Bolsonaro e sua equipe, como a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que em fevereiro lançou a campanha “Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois”, que propagandeava de maneira simplista a abstinência sexual como método anticonceptivo.

Com gestão polêmica do início ao fim, o pior ministro da educação de todos os tempos, Abraham Weintraub, foi demitido em junho. Weintraub bloqueou verbas de custeio de universidades federais, na polêmica reunião ministerial de abril disse: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”. O ministro tinha um canal direto com bolsonaristas radicais, principalmente nas redes sociais. Cometeu diversas gafes e erros de gramática, como falar ‘Kafta’ no lugar de Kafka, e escrever impressionante com ‘c’. Nomeado para substituir Weintraub, Carlos Alberto Decotelli foi demitido sem ter tomado posse. Decotelli incluiu em seu currículo cursos que não concluiu.

O ministro do meio ambiente Ricardo Salles, foi irresponsável e criminoso, durante as queimadas no Pantanal e desmatamento na Amazônia. Na nefasta reunião ministerial, Salles afirmou que o governo deveria aproveitar a “oportunidade” da crise, uma vez que a imprensa estaria focada na cobertura da pandemia, para passar reformas ilegais de regulamentação e simplificação, as quais se referiu como “boiada”. “Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, afirmou.

Em meio à turbulência do desgoverno, a pandemia obrigou que os governos estaduais e prefeituras decretassem o lockdown, paralisando o comércio, indústrias, bancos e serviços. Com as atividades econômicas paralisadas, a previsão do mercado financeiro é de queda no PIB e alta no desemprego, que atingiu a histórica marca de 14,6% em novembro, e o Brasil ainda perdeu cinco posições no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH.

O evento mais polêmico do ano, com certeza, foi o descompromisso do governo com o ministério da saúde. Luiz Henrique Mandetta assumiu o ministério no início do governo, foi demitido em maio deste ano por discordar da maneira como a presidência da república enfrentava a pandemia. Em seu lugar foi nomeado Nelson Teich que, assustado, durou menos de um mês no cargo. A saída de Teich seguiu-se de incríveis 50 dias de vacância, até que Eduardo Pazuello foi empossado para cumprir o humilhante papel de general capacho do capitão.

Jair Bolsonaro fomentou a negação do vírus, zombou o uso da máscara, disse que a Covid não passava de uma gripezinha, que tudo era histeria e que o Brasil era um país de ‘maricas’. Questionado sobre as mortes respondeu, “e daí? Eu não sou coveiro” e o impagável, “morrer todo mundo vai morrer mesmo”. O presidente, aquele que devia encabeçar um plano de enfrentamento contra a pandemia, tratou-a publicamente com desdém diante do seu avanço, contribuindo para que o Brasil alcançasse o segundo lugar mundial em mortes por Covid.

A consequência da politização e ineficiência do governo deram voz às conspirações de que as vacinas importadas contra a Covid-19 virão contaminadas com ‘HIV dentro” e causam câncer. Parte da população desinformada que assiste o representante máximo da república tripudiando sobre a imunização, está incrédula sobre a eficácia da vacina. Em São Paulo e Brasília, manifestantes pró Bolsonaro, participaram de comícios contra os governadores que se colocaram um passo à frente do governo federal e estão negociando as vacinas diretamente com outros países.

O Butantan começou a fabricar a CoronaVac, vacina contra o novo coronavírus desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o instituto, que será a primeira vacina contra a Covid-19 produzida no Brasil. O objetivo é produzir 40 das 46 milhões de doses encomendadas pelo governo de São Paulo para que possa dar início ao plano de imunização. As outras 6 milhões de doses serão importadas da China. Pesquisas comprovaram que a vacina é segura.

Depois de intimado pelo STF, o ministério da saúde apresentou um plano de vacinação com muitos prazos, mas sem data para começar. Na exposição foi informado que o governo está negociando com 5 laboratórios, entre eles a AstraZenica, Pfizer e Oxford. Bolsonaro passou seis meses ignorando o processo de importação de seringas da China e o desabastecimento pode adiar uma possível vacinação.

Acirrando o caos pandêmico, os crimes de responsabilidade do presidenteBolsonaro se acumularam durante o ano e os pedidos de impeachment estão engavetados pelo presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia. Os três filhos do presidente com mandato parlamentar estiveram envolvidos em micos diplomáticos, investigações e denúncias.

Eduardo Bolsonaro, o ‘diplomamata’, exagera nas críticas à China, maior parceiro econômico do Brasil e é investigado na CPI por participação na divulgação de fake news; Sobre Carlos Bolsonaro a justiça investiga possíveis casos de desvio de verba de gabinete e seu envolvimento no escritório do ódio, propagador de fake news; Flávio Bolsonaro foi denunciado no esquema de movimentação de dinheiro de funcionários fantasmas de seu gabinete, gerenciado pelo amigo da família, Fabrício Queiroz, e pelo patrimônio incompatível com a sua ocupação. Até mesmo a Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, foi aparelhada criminosamente na defesa de Flávio Bolsonaro. Há ainda o caso Marielle Franco assombrando os corredores do Palácio.

Na via-crúcis do trabalhador, depois de o governo se opor, o Congresso aprovou o auxílio emergencial, basicamente para a compra de produtos da cesta básica e compor no pagamento de contas e taxas. Foram pagas 9 parcelas, 5 de R$600 e 4 de R$300. A Caixa Econômica criou o Aplicativo Caixa Tem para facilitar o acesso do trabalhador. A última parcela está sendo paga em dezembro. Em janeiro de 2021, o Caixa Tem passará a se chamar Caixa Tinha, pois o governo não manterá o auxílio.

O Brasil, desde a eleição de Bolsonaro, se transformou em um manicômio surreal onde tudo vira meme. O governo, seus seguidores radicais, apoiadores inocentes úteis, oposição, mídia e instituições, batem cabeça pelo pátio diante do olhar do mundo. As decisões técnicas se transformam em palanque em detrimento das ações e das agendas positivas. A inesgotável estratégia de responsabilizar a esquerda minimiza, diante da opinião pública, o fato de que não há investimentos nos hospitais e insumos que garantam atendimento adequado e emergencial.

A jornada tem sido pesada, os bezerros são muitos, a tábua foi quebrada, a parcialidade da justiça mantém o apartheid, a segregação de pobres e pretos periféricos, de pessoas com deficiência, não tolerando a diversidade LGBTQIA+, quilombolas, indígenas e todos que sofrem violência pelo simples fato de não se adequarem ao que foi normatizado como sendo o normal da sociedade.

Em meio à fumaça, homens e mulheres de ‘bem’ balançam a cabeça no presépio ‘fechados’ com Bolsonaro, dizem não à ciência e só vão entender a merda que fizeram, quando precisarem de uma UTI com leito e respirador.

 

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Milton Santos, pandemia e o real fragmentado, por Fran Alavina

 

A globalização, ensinava ele, subverte escalas e nos aparta ainda mais da Natureza. A ciência, hiperespecializada, tornou-se cega a fenômenos complexos. A pandemia, sem contexto, reduz-se a espetáculo. Como voltar, agora, à totalidade?

Por Fran Alavina

Talvez a Geografia – mais do que outros saberes das humanidades, como a História e Filosofia – possa nos ajudar a entender certos aspectos que se dão quase sem se notar em tempo pandêmico e globalizado: que, por vezes, parece mais fabuloso que trágico. De fato, diferentemente de outros estudos humanísticos, a Geografia em sua constituição e desenvolvimento sempre teve que lidar com a questão do que seja a Natureza e de como tal saber concebe seu objeto, uma vez que se inicia como descrição da paisagem e do meio. Disto dependeria até sua classificação como uma ciência humana ou ciência natural. Para nós, tal debate é desprovido de sentido, uma vez que todo saber, justamente por ser humano, não pode ser natural, ainda que seu objeto seja a Natureza: física ou biológica. A Natureza não produz saberes, nem constitui ciências. Somos nós que os construímos a partir de nossas necessidades.

Ora, uma das nossas maiores necessidades no momento está em tentar tecer redes de relações conceituais para compreendermos este acontecimento – a Pandemia – que nos parecia inaudito, impossível, moldado pelo espanto e o medo. Um espanto que não seria apenas dos indivíduos, mas também das ciências. Donde a surpresa e as incapacidades enfrentadas até aqui. Ademais, ainda que a pandemia seja um acontecimento grandemente complexo para os saberes e as ciências, estes parecem não terem entendido que tal complexidade não pode ser abarcada apenas dentro de seus feudos disciplinares, isto é, na compartimentação fragmentária dos diversos objetos de cada ciência. Não se trata apenas de interdisciplinaridade, porém do real que nunca se realiza por simples ajuntamento de particularismos.

A cultura da especialização acelerou os conhecimentos e apressou os resultados técnicos, porém fez de cada ciência uma fronteira inalcançável, incapaz de enxergar além de seus próprios limites. Quantos de nós, com formações especializadas conseguimos pensar e entrar em diálogo com outros saberes e ciências? A cultura da especialização meramente técnica é um teatro de monólogos paralelos sem espectadores.

Desse modo, é preciso se voltar uma vez mais para a totalidade: dizia Milton Santos em um de seus últimos e mais acalorados debates! Mas será, talvez, no artigo “Globalização e Redescoberta da Natureza”, fruto de uma aula inaugural proferida pelo geógrafo em 1992 que encontraremos, em síntese, elementos que jogam luz sobre o nosso atual estado de coisas – o texto pode ser encontrado no site sobre o autor.

Desde o início do ano, ouvimos que estamos em “guerra contra o vírus”. Recuperando, assim, o paradigma bélico herdado da Modernidade (abordamos tal questão no texto “Um vírus que revela nosso dissídio com a Natureza”). Neste paradigma, a Natureza é sempre afastada de nós, subordinando-se ao nosso poderio técnico. Ela é, portanto, uma realidade que vai se tornando cada vez mais passiva. Com a Globalização, conforme nos esclarece Milton, além desse aspecto, que foi se dando como próprio da ação técnica humana, a Natureza passa a nos ser apresentada como simples imagem, uma vez que teria sido plenamente domesticada.

Certamente, um bom exemplo de tal aspecto é a invenção e a ida aos zoológicos: domina um sentimento de nostalgia e relaxamento, podemos observar plenamente o “exótico” e o “selvagem” da Natureza, sem nos preocuparmos com a nossa segurança. É a Natureza sendo-nos dada como fragmentação e pura representação, na qual sua única finalidade seria ser-nos disponível: algo puramente ilusório. Porque aquilo que nos aparece como natural, nada mais é que pura artificialidade, um puro arranjo humano que busca imitar uma pretensa realidade originária.

É como imagem, assevera Milton, que a Natureza começava a aparecer como crise ambiental. As imagens, por exemplo, de pequenos cataclismas, furações e outros abalos decorrentes da crise ambiental foram se moldando ao processo midiático. Reforçando, portanto, a ideia de uma falsa proximidade, que tanto experimentamos hoje com os slogans de que “o mundo está na palma das nossas mãos”; “nas telas dos nossos computadores”. O geógrafo alertava que: “Ontem, o homem se comunicava com o seu pedaço de Natureza praticamente sem mediação; hoje, a própria definição do que é esse entorno, próximo ou distante, o local ou o mundo, é cheia de Mistérios”. Foi nessas condições que se deu e está se dando o atual processo pandêmico: na confusão generalizada entre o local e o mundial, o próximo e o distante.

Nesse sentido, não poderíamos nos espantar com as atitudes daqueles que negam a pandemia. Os negacionistas não são um isolado fenômeno político, são também efeito deste mundo de confusão entre as grandes e as pequenas escalas; entre falso concreto e verdadeiro abstrato. De fato, a atitude do homem comum que não enxerga problemas em furar as medidas de isolamento e proteção sanitária locais, ainda que esteja diuturnamente exposto à informação do agravamento de certas condições da pandemia, não é um fenômeno anedótico, atípico.

Assistir ao agravamento da situação em outros lugares, seja em esfera local, seja em esfera nacional/mundial não o comove sobre suas responsabilidades, ao contrário da obviedade que isso poderia parecer. Este homem apenas assistiu o que é contado a ele sob a forma da pura linguagem funcional que tem força de entreter, mas que dificilmente poderá mudar seus hábitos cotidianos, ainda mais quando estes se apresentam para ele como normalidade. Ele está separado da notícia que, enquanto não lhe seja realmente próxima, se perde na confusão das escalas, se desfaz na pretensa concretude que possuiria.

Não se pode esquecer que a escala local aqui não é apenas a cidade, mas o bairro, a parte do bairro que mais se frequenta, a rua onde se mora, sua casa. Ou seja, a escala mais determinante neste caso é aquela da suas relações concretas. Enquanto o perigo não lhe for realmente próximo, não estive literalmente em sua escala corporal, dificilmente mudará de opinião apenas em virtude da exposição informacional. Por mais que a pandemia seja para ele algo real e de grandes escalas, enquanto ela está apenas na tela do celular ou do computador, não passará de imagem: lhe será a proximidade mais distante. Por isso, é possível se solidarizar com o mortos de outros países e continuar a agir em casa e na parte da cidade em que habito como se a minha escala local não fizesse parte da escala mundial.

Dessa maneira, ao contrário, do que poderia parecer, as incessantes imagens midiáticas da Natureza são na verdade o seu apagamento, pois aumentam em nós a sensação do dissídio e da separação. Experimentamos certa sensação de que estamos a viver aquilo, posto que estamos vendo, interagindo, compartilhando e dando “likes”; mas em verdade, não estamos, pois estas realidades se dão longe de onde estamos, nós apenas assistimos. Os eventos locais, ainda que virilizem na babel da virtualidade, não perdem sua escala originária: as únicas coisas que os fazem parecer maiores são o manuseamento das imagens e a funcionalidade do discurso que ele pode gerar. Desligando a televisão e ficando o pé nas bolhas virtuais que preferimos, estas pretensas realidades tornam-se para nós o que realmente são: mera imagem e fabulação.

Desse modo, estamos acostumados a recordar que apesar da nossa esmagadora realidade urbana, há uma natureza – a imagem da floresta amazônica, das baleias, a aurora boreal etc. Existente, mas sempre distante de nós. Os objetos técnicos nos afastariam dela e nos protegeriam de sua excessiva desproporcionalidade de forças. Ora, Milton Santos nos ensina que esta Natureza separada, originária e intacta é uma ilusão. Por isso, ela pode ser rapidamente capturada pelo discurso midiático dos tempos globalizados, pois facilmente pode se prestar ao papel de imagem fabulada. A Natureza sempre se dá no contato e na relação que o homem estabelece com ela; fora disso, não sabemos como ela é de fato. Por isso, a história da Natureza para o homem nada mais é que parte de sua própria história.

Nesse sentido, este capítulo pandêmico da nossa história não é um ponto fora da curva. Ele reforça a confusão que a Globalização tornou possível entre as escalas e submete ainda mais a Natureza à fragmentação das imagens, aos discursos superficiais da funcionalidade comunicativa. Há rotas de fuga? Nos perguntaríamos com o professor Milton Santos, que pela potência de seu pensamento se torna nosso contemporâneo. Talvez o passo decisivo seja não esquecer que a primeira escala é aquela das verdadeiras relações concretas: quer entre homens, quer entre homens e natureza. O local e as particularidades não podem ser escamoteados, suas determinações nunca podem ser completamente apagadas.