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quinta-feira, 2 de março de 2023

Esquerda gere melhor economia e Lula está certo sobre juros, diz o Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz

 

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Stiglitz afirma que os bancos centrais do mundo erram ao combater a inflação atual com elevação de juros.

Para Joseph Stiglitz, agenda econômica da direita levou a baixo crescimento e esquerda latino-americana no poder deve manter foco em crescimento inclusivo

da BBC Brasil

Esquerda gere melhor economia e Lula está certo sobre juros, diz Nobel

por Thais Carranca

Os governos de centro-esquerda se tornaram melhores gestores da economia do que a direita no século 21, defende Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de economia, professor da Universidade de Columbia (EUA) e antes economista-chefe do Banco Mundial (1997-2000).

Para Stiglitz, que completou 80 anos neste mês de fevereiro, a centro-esquerda volta ao poder na América Latina em momento “que não poderia ser pior”, com pandemia, inflação, restrições fiscais e a economia mundial em desaceleração.

Mas ele avalia que os governos da região poderão ser bem sucedidos se conseguirem manter o foco no fato de que foram eleitos para criação de uma “prosperidade compartilhada”, isto é, um crescimento inclusivo, que garanta a melhora de vida da parcela mais pobre da população.

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Stiglitz afirma que os bancos centrais do mundo erram ao combater a inflação atual com elevação de juros.

Isso porque, na avaliação do economista, a alta no custo de vida que aflige o mundo hoje é provocada principalmente por restrições na ponta da oferta causadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, além de mudanças no padrão de consumo também derivadas da crise sanitária.

Assim, no contexto atual, elevar juros – uma medida de política monetária que tem por objetivo aumentar o custo e restringir a oferta de crédito, esfriando a economia para reduzir a inflação – pode fazer mais mal do que bem, defende o Nobel.

No Brasil, na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros e da meta de inflação do país, Stiglitz avalia que o petista está correto em suas preocupações.

“Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões”, diz Stiglitz à BBC News Brasil.

“A pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde –, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste”, afirma.

Conselheiro durante o governo do democrata Bill Clinton (1995-1997) e atualmente copresidente da ICRICT (sigla em inglês para Comissão Independente de Reforma Tributária Internacional de Empresas), Stiglitz defende que o combate à desigualdade deve estar no topo das prioridades da reforma tributária brasileira – cuja proposta o governo Lula pretende apresentar ainda neste primeiro semestre.

“Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade”, afirma o economista, um dos defensores de um imposto global sobre multinacionais e do aumento da tributação sobre os mais ricos.

“Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda.”

O economista americano Joseph Stiglitz e o francês Thomas Piketty durante evento em 2019
Legenda da foto,Joseph Stiglitz e o francês Thomas Piketty são membros da ICRICT, comissão que defende uma reforma no sistema internacional de taxação de empresas

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Em um artigo recente, o senhor argumentou que elevar juros não é a melhor forma de combater a inflação quando ela é provocada principalmente por restrições de oferta e mudanças no padrão de consumo. O senhor acredita que os bancos centrais do mundo estão errados na forma como estão combatendo a atual alta global dos custos de vida?

Joseph Stiglitz – Primeiro, deixe-me dizer que as taxas de juros estavam anormalmente baixas, próximas de zero desde a grande recessão de 2008. Então fazia sentido para os bancos centrais aproveitarem a situação atual para normalizar as taxas de juros.

Mas agora estamos passando deste ponto, para além da normalização. E acredito que isso seja um erro.

BBC News Brasil – Por que o senhor acredita nisso?

Stiglitz – Quando escrevi aquele artigo, a evidência para mim era clara de que a principal fonte da inflação eram interrupções do lado da oferta causadas pela pandemia e, em alguma medida, pela invasão russa à Ucrânia. Havia ainda alguns choques do lado da demanda relacionados à pandemia que também eram inflacionários.

Desde que eu escrevi aquilo, a evidência tem reforçado minha conclusão, com a inflação [nos EUA] recuando ainda mais, à medida que os gargalos do lado da oferta foram sendo resolvidos, os preços do petróleo baixaram e outros preços se normalizaram.

Outra coisa que preocupa os bancos centrais, e com razão, são espirais de preços e salários [quando a inflação impulsiona aumentos de salários, o que alimenta ainda mais a inflação]. E não há evidências disso, os salários [nos EUA] não estão acompanhando os preços, o rendimento real está em queda e as expectativas de inflação seguem fracas, mostrando que os participantes do mercado parecem ter visões consistentes com o que eu apresentei.

Tudo isso significa que a política de elevar taxas de juros, que é a resposta normal para um excesso de demanda agregada, é inapropriada no contexto atual. E uma das coisas que eu argumento é que isso pode, na verdade, exacerbar as pressões inflacionárias.

Porque, por exemplo, uma das coisas necessárias para aliviar pressões no lado da oferta é investimento. E taxas de juros elevadas tornam esse investimento mais difícil.

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos
Legenda da foto,’A política de elevar taxas de juros, que é a resposta normal para um excesso de demanda agregada, é inapropriada no contexto atual’, diz Stiglitz. Na foto, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA

BBC News Brasil – E o senhor acredita que isso é válido somente para os EUA ou o mesmo argumento pode ser usado para outros países que enfrentam inflação neste momento?

Stiglitz – Esse argumento serve para quase todos os países que enfrentam inflação atualmente. Na maioria deles, o argumento é até mais forte, porque, na maioria, muito da inflação é importada. Ou seja, vem de produtos trazidos ou precificados no exterior.

BBC News Brasil – No Brasil, o presidente Lula está travando há semanas um embate com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros do país, que está atualmente acima dos 13%. Lula argumenta que os juros estão estrangulando a economia, enquanto Campos Neto defende o mandato do Banco Central de perseguir a meta de inflação do país, de cerca de 3%. Como o senhor vê essa disputa no Brasil?

Stiglitz – Primeiro, é preciso dizer que metas de inflação – que na Europa [e nos EUA] é de 2%, e você falou em 3% [no Brasil] – são tiradas do nada. Elas não têm base alguma na teoria econômica ou na experiência econômica.

Há preocupação com uma espiral inflacionária, mas neste momento não há evidências disso. Eu não sei todos os detalhes para o Brasil, mas posso dizer enfaticamente que não há evidência de uma espiral inflacionária nos EUA e, de maneira geral, globalmente.

Então não é um número mágico, 2% ou 3%, mas se há uma espiral inflacionária que está se tornando descontrolada.

Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões.

Voltando à questão da meta de inflação, a pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde –, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste.

Então a performance econômica em geral será melhor se a taxa de inflação for ligeiramente mais alta. Eu acredito enfaticamente nisso no caso dos EUA, que não devemos nos limitar a [uma meta de inflação de] 2%.

Por fim, mesmo que você acredite que deve haver uma meta de 2% ou 3%, não há nenhuma teoria ou evidência empírica de que voltar [de uma inflação mais elevada] para esses 2% ou 3% num período curto de tempo seja a melhor prática. Assim como o número é tirado do nada, a velocidade para voltar a esse número é tirada do nada.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil
Legenda da foto,’Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva’, diz Stiglitz, ao comentar embate entre o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto (foto), e o governo Lula

BBC News Brasil – Enquanto esse debate acontece no Brasil, muitos economistas têm lembrado de intervenções mal sucedidas na política monetária feitas por governos em anos recentes. Eles citam casos como o da Turquia e da Argentina, que acabaram resultando em mais inflação e forte desvalorização das moedas locais. Como o senhor vê essas preocupações? Acredita que esse pode ser um risco para o Brasil, caso Lula seja bem sucedido em mudar a lei que atualmente garante a independência do Banco Central?

Stiglitz – Acredito que há questões distintas. Obviamente, alguns governos têm instituições fracas e herdaram problemas institucionais que vão além de apenas um aspecto, como o Banco Central. Então seria errado dizer que porque o Zimbábue ou a Venezuela têm um problema, devemos ficar de mãos atadas.

Falando na perspectiva dos EUA, nós temos uma democracia forte – ou pelo menos tínhamos antes de Trump – e nossos líderes políticos sabem que podem ser responsabilizados e que, se houver uma espiral inflacionária, eles vão pagar o preço.

Então é do interesse deles manter a inflação controlada, reduzi-la e, ao mesmo, proteger os trabalhadores e aqueles que são negativamente afetados pela inflação. Então é preciso fazer as duas coisas [controlar a inflação e garantir a geração de empregos].

De maneira mais ampla, quando enfrentamos mudanças sociais e econômicas complexas, é necessário coordenação entre as políticas fiscal e monetária [a política fiscal diz respeito ao controle dos gastos e da arrecadação do governo, já a política monetária trata do controle da quantidade de dinheiro em circulação na economia, o que é feito através da taxa de juros].

Nos EUA, nós temos um banco central independente. Mas Paul Volcker, um destacado presidente do conselho do Federal Reserve [Fed, o banco central americano], uma vez disse: “O Congresso nos criou, e o Congresso pode nos ‘descriar’.”

Então ele tinha muita ciência de que sua independência não era absoluta e de que precisava agir de determinadas maneiras que respondessem às necessidades da sociedade. Isso significa que ele precisava em certo sentido coordenar sua ação com o que estava acontecendo.

Então a questão da independência do Banco Central é às vezes tomada como algo sagrado. Na minha visão, é bom estrutural institucionalmente, mas precisa reconhecer a necessidade de coordenação, e também de conhecimento especializado e profissionalismo.

Print de twit da gestora de recursos Wealth High Governance usando os exemplos de Turquia e Argentina para criticar possível mudança de meta de inflação no Brasil
Legenda da foto,Economistas têm lembrado de intervenções mal sucedidas na política monetária feitas por governos em anos recentes, como na Turquia e Argentina. Na imagem, exemplo de twit da gestora de recursos Wealth High Governance

BBC News Brasil – Mudando de assunto para outra área de sua especialidade, a equipe econômica de Lula espera aprovar uma reforma tributária esse ano. Essa reforma deve ter uma primeira etapa focada em simplificar impostos sobre o consumo em um imposto sobre valor adicionado, e uma segunda etapa focada no Imposto de Renda. Como alguém que vem discutindo há anos o uso da tributação como uma forma de combater a desigualdade, qual o conselho do senhor para o Brasil, às vésperas de uma reforma?

Stiglitz – Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade, tornando esse sistema mais progressivo [que arrecada mais de quem tem mais renda e patrimônio].

Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda.

BBC News Brasil – E quais seriam as formas de fazer isso? Mudar a tributação sobre a renda ou taxar os mais ricos, essas poderiam ser algumas das maneiras de conseguir isso?

Stiglitz – O imposto de renda, a taxação de fortunas, a taxação de heranças e a elevação do imposto de renda corporativo são instrumentos efetivos para enfrentar a desigualdade, mas não são os únicos. Diversos países da América Latina estão discutindo como aumentar o grau de progressividade de seus sistemas tributários, Chile e Colômbia em particular. E, diante do alto nível de desigualdade no Brasil, acredito que isso deve ser uma prioridade.

Fernando Haddad
Legenda da foto,Governo pretende apresentar proposta de reforma tributária ainda neste semestre, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (foto)

BBC News Brasil – Passando à relação entre Brasil e Estados Unidos. Os EUA indicaram que devem doar ao Fundo Amazônia brasileiro, após o encontro entre Biden e Lula no início de fevereiro. O valor da doação ainda não está definido, mas o número inicial de US$ 50 milhões teria desapontado as autoridades brasileiras. O senhor acredita que a gestão Biden está fazendo o suficiente para ajudar os países em desenvolvimento a combater as mudanças climáticas?

Stiglitz – Em resumo, não. Mas o espaço para manobra é limitado, porque os democratas não têm controle suficiente sobre o Congresso para garantir o orçamento necessário. Tivemos uma batalha dura para conseguir recursos para investimentos verdes nos EUA, que devem não somente acelerar nossa transição verde, mas também aumentar a produtividade no país.

Então acredito que deveríamos estar fazendo mais, que a mudança climática é uma questão global e, como somos o país mais rico do mundo, deveríamos fazer um esforço proporcional.

Mas tenho esperanças de que, com a escolha do novo presidente do Banco Mundial, que deverá ser anunciado em breve, o banco possa fazer um esforço maior, com o apoio dos EUA, para endereçar a questão da mudança climática em mercados emergentes.

[Nota da redação: O atual presidente do Banco Mundial, David Malpass, anunciou em 15 de fevereiro que deixará o cargo em junho, um ano antes do término de seu mandato. A renúncia inesperada do indicado por Donald Trump acontece em meio a críticas à atuação tímida do banco em temas como combate à pandemia, à pobreza e ao aquecimento global. Na semana passada, Biden indicou o empresário indiano-americano Ajay Banga, ex-CEO da Mastercard, ao cargo. A nomeação ainda terá de ser confirmada pelo conselho de administração do banco.]

Presidentes Lula e Joe Biden durante encontro na Casa Branca, em 10 de fevereiro
Legenda da foto,Presidentes Lula e Joe Biden durante encontro na Casa Branca: ‘Acredito que deveríamos estar fazendo mais, que a mudança climática é uma questão global’, diz Stiglitz, sobre apoio da gestão Biden a países em desenvolvimento

BBC News Brasil – Num momento em que o Brasil tenta reafirmar seu lugar no mundo como uma liderança em sustentabilidade e o governo busca recuperar a economia após anos de baixo crescimento, qual pode ser o papel dos investimentos verdes nesse processo? O senhor acredita que o Brasil deve buscar seu próprio “Green New Deal” [proposta da esquerda do Partido Democrata americano que associa agenda ecológica e geração de empregos]?

Stiglitz – Sim. Acredito que todos os países precisam reconhecer que estamos caminhando rapidamente dos combustíveis fósseis para a energia verde.

Os países que se moverem mais cedo e mais rapidamente terão uma vantagem competitiva. Eles vão aprender a dominar as novas tecnologias. Em economia falamos em “percorrer a curva de conhecimento”.

Diante do alto nível de competência técnica do Brasil, da qualidade de seus engenheiros e da diversidade da sua economia, acredito que o Brasil está em posição para ter um papel de liderança entre os países emergentes nessa transição para uma economia verde.

Os presidentes Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile) durante encontro em Santiago, em 9 de janeiro
Legenda da foto,Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile), dois dos presidentes latino-americanos de centro-esquerda. Somente Uruguai, Paraguai, Equador e Guatemala são comandados hoje por líderes de direita na região.

BBC News Brasil – Numa entrevista à BBC em 2020, o senhor disse que a onda de protestos na América Latina naquele momento estava acontecendo tarde, diante do nível de desigualdade na região. Como resultado daquela onda de descontentamento, muitos países elegeram governos de esquerda. Mas há um temor de que esses novos governos tenham “luas de mel” breves, diante do descontentamento ainda presente, combinado à inflação elevada e restrições fiscais. O senhor acredita que é possível esses governos serem bem sucedidos nesse contexto, e em meio a uma economia mundial em desaceleração?

Stiglitz – Sim, mas vai ser difícil. Eles chegaram ao poder num momento muito, muito complicado. Tem a pandemia, a inflação.

No caso do Brasil, Lula herdou uma absoluta bagunça do governo Bolsonaro. Em certa medida, dá para dizer que não poderia ser pior, por que ele começa em um ambiente em que é preciso consertar o caos criado pela administração anterior.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os republicanos vivem falando em responsabilidade fiscal, mas toda vez que chegam ao governo, eles criam déficits imensos. Trump fez isso, [Ronald] Reagan fez isso. Então toda vez os democratas precisam consertar a bagunça herdada. Foi necessário [Bill] Clinton para reequilibrar o Orçamento [após a gestão de George H. W. Bush].

Então há sempre uma desvantagem para os governos de centro-esquerda responsáveis, como Lula, de corrigir a desordem herdada. E o caos é ainda maior porque Bolsonaro, como Trump, dividiu a sociedade. E, obviamente, quando você tem uma sociedade polarizada é muito mais difícil conseguir a solidariedade e coerência que ajudariam a endereçar os problemas sociais.

Acredito que a resposta tem que ser, como dizemos nos EUA, que esses governos de centro-esquerda não podem tirar o olho da bola. Eles foram eleitos para criar um senso melhor de prosperidade compartilhada [uma outra forma de dizer crescimento inclusivo, que abrange a melhora de vida da parcela mais pobre da população].

É interessante que, em muitos sentidos, eles [os governos de centro-esquerda] se tornaram melhores gestores da economia. Digo isso porque a economia do século 21 é baseada em inovação, competição, alto nível de capital humano e boa infraestrutura pública.

E os governos de direita que eles substituíram eram centrados em monopólios, grandes empresas, competição limitada e investimentos insuficientes nas pessoas e em infraestrutura. A agenda econômica da direita levou a um baixo crescimento e fraca performance econômica.

Então, embora os governos de centro-esquerda tenham herdado uma bagunça, se eles mantiverem o olho na bola e o foco no objetivo de atacar esses problemas e criar uma prosperidade compartilhada, acredito que serão bem-sucedidos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

La Epoca da Bolívia e Jornal GGN: “Recuperamos a democracia na Bolivia”, diz Luiz Arce, provável vencedor das eleições (isso se a mesma direita golpista, com o exército e interferência dos EUA e Bolsonaro, não der outro golpe por lá)

 

O resultado da votação foi tão impressionante que até a presidente de fato, Jeanine Áñez, parabenizou Arce por suas redes sociais.

Bolivia

Do La Epoca

O candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luis Arce Catacora, comemorou hoje os resultados não oficiais que o dão como vencedor das eleições presidenciais bolivianas no primeiro turno.

“Todos os bolivianos deram um passo importante: recuperamos a democracia, recuperamos, acima de tudo, a esperança”, disse o ex-ministro da Economia em sua casa de campanha em La Paz, após o levantamento da empresa Ciesmori anunciar seu triunfo com 52,4% dos votos.

Ele acrescentou que tanto ele quanto seu companheiro de chapa, o candidato à vice-presidência David Choquehuanca, estão empenhados em governar para todos os bolivianos.

“Vamos construir um Governo de unidade nacional, vamos construir a unidade do nosso país; ao longo deste dia estamos recuperando a certeza, que é muito importante para o povo boliviano poder desenvolver todo tipo de atividades econômicas ”, disse.

Arce Catacora lembrou que desde a derrubada do governo de Evo Morales, em novembro do ano passado, os bolivianos passaram por 11 meses de agitação que agora está chegando ao fim.

Em tom de autocrítica, ele também prometeu redirecionar o processo de mudança que seu governo vai iniciar, mas aprendendo e superando os erros cometidos pelo Movimento ao Socialismo.

«Temos de agradecer a toda a militância, temos partilhado esta campanha com muitas organizações, desde o último militante ao nosso gestor de campanha a nível nacional. Devemos agradecer a todos aqueles que contribuíram, contribuíram e à comunidade internacional por seu acompanhamento e apoio; aos observadores que tiveram a gentileza de ouvir nossas preocupações sobre a forma como o processo eleitoral está sendo conduzido “, disse ele.

O resultado da votação foi tão impressionante que até a presidente de fato, Jeanine Áñez, parabenizou Arce por suas redes sociais.

“Ainda não temos uma contagem oficial, mas pelos dados que temos, o Sr. Arce e o Sr. Choquehuanca venceram as eleições. Parabenizo os vencedores e peço que governem pensando na Bolívia e na democracia ”, escreveu.

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Fracassamos como Nação? Para Jessé Souza, apesar do obscurantismo bolsonarista-militarista atual, há espaço para o otimismo quanto ao futuro



Sociólogo destaca o papel da elite sobre a sociedade desigual e miserável que marca o Brasil
Reprodução/TV GGN
Jornal GGN – O sociólogo Jessé de Souza explica as estranhas das fragilidades dos princípios morais da elite brasileira e suas consequências no cenário social e político atual em entrevista ao jornalista Luis Nassif, no episódio desta terça-feira, 21 de julho, da série “Fracassamos como Nação?”, exibida na TV GGN. 
Para Jessé, apesar do obscurantismo político e os retrocessos ocasionados pelo negacionismo que enfrentamos, há um otimismo sobre o futuro da nação, a partir de processos de aprendizagens que levam ao desmonte de organizações apresentadas como “salvadoras”, por exemplo, a Operação Lava Jato, que se utilizou de processos irregulares para levantar a bandeira “anticorrupção”. 
Questionado sobre a perda de valores da elite, Jessé destaca que a eficácia da “violência simbólica” própria deste nicho e a falta de controle das instituições são as marcas do desastre da sociedade brasileira.
O sociólogo também pontua a importância de compreender a distinção social como estímulo econômico e para a universalização dos direitos, os pactos sociais que dificultam o acesso as raízes dos problema políticos, o papel da esquerda, as influências da imprensa, a força irracional e as mascaras do racismo, a criminalização da política e as intenções do governo Bolsonaro. Confira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Quem tem medo de Bernie Sanders? Por Glauco Faria


Ele venceu em New Hampshire e tem chances claras de derrotar Trump. Mas establishment do Partido Democrata trama sabotá-lo, como em 2016. Em nome do grande poder econômico, deixa-se a fresta aberta para a ultradireita


Por Glauco Faria, da Rede Brasil Atual
Quando Bernie Sanders se lançou na corrida pela candidatura do Partido Democrata à presidência dos EUA, em 2016, poucos levaram a sério. No entanto, já na primeira das disputas daquele ano, em Iowa, o senador de Vermont se mostrou competitivo, ficando pouco atrás de Hillary Clinton.

Ali, a luz amarela acendeu para a cúpula da legenda. Se antes ele era visto apenas com menosprezo ou relativa antipatia pelos altos dirigentes, o quadro agora era outro. E o Comitê Nacional, que deveria ser neutro na competição, não hesitou em interferir no jogo.

Nas últimas semanas das prévias, o site WikiLeaks divulgou o que muitos já sabiam: Sanders era sabotado pela cúpula da legenda. A ex-comentarista da CNN, vice e posteriormente presidenta do Comitê, Donna Brazile, havia informado a campanha de Hillary a respeito de uma pergunta que seria feita a ela em um evento da emissora em março.

Antes, em janeiro, encaminhou um e-mail à equipe da ex-secretária de Estado revelando o planejamento de Sanders para conquistar votos junto à população negra.

Em 2017, a própria Brazile admitiu que a postura de Hillary Clinton ao transferir US$ 10 milhões ao partido, que tinha dívidas de US$ 2 milhões, antes da campanha, havia sido algo duvidoso. “O acordo de financiamento com Hillary For America [a campanha] e Hillary Victory Fund [instrumento de recolha de fundos em conjunto com o Comitê Nacional Democrata] não era ilegal, mas com certeza não foi ético. Se a luta tivesse sido justa, uma campanha não teria controle do partido antes que os eleitores decidissem qual dos candidatos queriam”, apontou.

Em 2020, no início da corrida pela indicação da legenda, o caucus de Iowa já levantou sérias dúvidas sobre a lisura do pleito. Mais uma vez a cúpula da legenda se mostra refratária à candidatura de Sanders, que tem sofrido nas últimas semanas ataques seguidos de sua ex-adversária Hillary Clinton, porta-voz de boa parte dos dirigentes e de outros interesses. É a reprise de um filme que terminou, em 2016, com a eleição de Donald Trump.

A resistência ao nome de Sanders e as táticas usadas para minar sua postulação são sintomas evidentes da crise de representatividade política vivida não somente nos Estados Unidos, mas em diversas outras partes do mundo. A cúpula do Partido Democrata demonstra pouco ou nenhum interesse por um processo minimamente democrático e tal desinteresse e menosprezo é percebido pelo cidadão comum, revelando a opção da legenda pela autofagia.

Frustração com o sistema e o Occupy Wall Street

O mal-estar em relação ao funcionamento da democracia em todo o mundo é notório e ficou mais claro em um relatório divulgado, em janeiro último, pelo Centro para o Futuro da Democracia da Universidade de Cambridge. Ao compilar dados de 154 países. O estudo concluindo que, em 2019, foi registrado o “mais alto nível de descontentamento democrático” desde 1995. Desde então, o índice dos “insatisfeitos” cresceu de 47,9% para 57,5%.

Muitos intelectuais já alertavam para o esgotamento de um modelo consagrado em diversos países e que contempla, basicamente, o direito ao voto como um dos principais pilares que fundamentaria uma sociedade dita democrática. Por motivos reais – como a brutal interferência do poder econômico e regras vigentes em países como os próprios EUA, onde eleitores mais pobres de diversos locais têm dificuldades para efetivar registros que garantam o direito ao voto, e outras justificativas menos plausíveis, exploradas pela extrema-direita – a disputa eleitoral ganhou ares de um jogo com cartas marcadas, no qual o cidadão tem pouca margem de escolha.

Alimentada pelo poder econômico-financeiro, e o alimentando uma vez conquistados os espaços de poder institucional, a máquina eleitoral se distanciou das aspirações da maior parte da sociedade, tirando progressivamente a voz de quem já quase não a tinha. Nos Estados Unidos, em 2011, a eclosão do Occupy Wall Street, movimento no qual se questionava o poder do 1% que determinava o destino da nação, foi ilustrativo dessa frustração.

Naquele momento, vinha à tona parte da pauta invisibilizada e já defendida por Sanders anteriormente, agora com mais força. “Precisamos desesperadamente que os trabalhadores venham junto para enfrentar Wall Street. Os americanos estão dizendo que ‘já deu’ (‘enough is enough’). Precisamos reconstruir a classe média neste país e vocês (o 1%) não podem ter tudo”, dizia ele ao saudar o evento.

A grande visibilidade do movimento “mudou o assunto” da cena política e a mídia corporativa teve que tocar em temas como a extrema desigualdade e a concentração econômica, com o meio acadêmico também voltando sua atenção para questões negligenciadas. Sanders ganhou relevância ao adotar como cerne a denúncia dos privilégios e interesses do chamado 1% em sua campanha à presidência em 2016, demonstrando a força da mensagem cinco anos após o Occupy.

A própria forma de fazer campanha era parte do enfrentamento. Ao recusar o dinheiro dos chamados Super-PACs, comitês formados para arrecadar recursos junto aos grandes financiadores, o senador conseguiu produzir mais engajamento de seus apoiadores e contestar o desequilíbrio evidente entre a elite bilionária e o restante da população.

A adesão à ideia foi tamanha que o pré-candidato foi líder em arrecadação de recursos em 2019, com 1,4 milhão de pessoas que contribuíram para sua campanha. São doadores que realizam contribuições periódicas, em média 18 dólares por pessoa.

Quem se importa com a democracia?

O Occupy veio em um período no qual outros países também contavam com movimentos com pautas similares. Na Espanha, os chamados “Indignados” também são responsáveis pela institucionalização de pautas presentes na mobilização por meio da formação do Podemos.

Em outros países, forças que lutam pelo aprimoramento do sistema político e da democracia não tiveram o mesmo êxito e a insatisfação resultou na ascensão de lideranças extremistas que fomentam o ódio e, no campo econômico, preservam os interesses dos bilionários.

Nos próprios Estados Unidos a contradição é evidente: Donald Trump se elegeu como um outsider em uma posição confortável do ponto de vista retórico. Não era “mais um”, como aqueles do establishment político do bipartidarismo estadunidense, condição que lhe permitiu, aliás, ir de um para outro partido sem grandes problemas.

Mas se era alguém “de fora” dessa arena desgastada, foi também o respiro para que a frustração da população não resultasse em uma alternativa contestatória em relação à forma de se fazer política e ao sistema econômico que sustentava esse modus operandi. Trump, assim como Bolsonaro no Brasil e outros, era a aparente mudança que preservaria tudo como sempre para a alta-roda.

Mas, além de Trump, outras forças se levantaram. Logo em sua posse, em 2017, os Estados Unidos assistiram às maiores manifestações populares desde aquelas realizadas contra a Guerra do Vietnã em oposição ao ideário do novo presidente. Nas midterms, eleições de meio de mandato, lideranças, como Alessandria Ocasio-Cortez e outras deputadas representando segmentos excluídos do ponto de vista institucional, chegaram ao Congresso estadunidense com o apoio de movimentos que encarnavam os ideais de renovação política.

Quando se fala em “renovação”, neste caso, não se trata somente de um recurso discursivo, mas da adoção de iniciativas que englobam desde mecanismos de financiamento que excluam grandes doações, passando pelo diálogo constante com associações e coletivos e horizontalidade de fato na construção de propostas.

Sanders faz parte desse movimento e boa parte de seus apoiadores se baseia genuinamente no slogan de sua campanha: “Não eu, nós”. São pessoas organizadas em movimentos que vão além da militância em períodos eleitorais, resgatando o sentido original da política, de participação. E talvez aí resida o problema para a cúpula do Partido Democrata.

Quando trabalham de forma explícita contra a candidatura de Sanders, os dirigentes da legenda sugerem que talvez seja melhor perder para Trump do que fomentar um movimento que tenha a capacidade de modificar as próprias estruturas do partido e do sistema político-econômico do país. O problema não são apenas as propostas da campanha do senador de Vermont, mas o que ele pode representar em termos de arejamento verdadeiramente democrático, trazendo para o termo desgastado um significado que supere o mero direito a voto.

No Brasil, é possível ver que parte da elite partidária se importa pouco com os fundamentos da democracia formal e trabalha contra qualquer tentativa de expansão dos horizontes da participação direta, do associativismo ou da igualdade de condições dentro das estruturas partidárias e de acesso a recursos de campanha nas eleições. O mesmo comportamento se reproduz entre a elite econômico-financeira, que tolera e/ou colabora com um governo de índole autoritária contanto que seus ganhos sejam preservados ou ampliados. Não à toa, são os mesmos que em diversas ocasiões colaboraram com regimes de exceção. E não hesitarão em fazê-lo de novo.

E pela mesma razão estamentos como os do Partido Democrata dos Estados Unidos temem qualquer iniciativa que busque mudar as regras do jogo. Para eles, é preciso circunscrever a participação, mantendo as aparências, e sem possibilidade de mudanças de fundo.

Neste ponto, o que está em disputa na candidatura de Bernie Sanders são alguns conceitos caros. De um lado, o cenário mostra a necessidade de se batalhar ativamente no campo político o tempo todo, não somente em períodos eleitorais, como muitos acabaram se habituando. É justamente fora desses períodos que existe a possibilidade maior de transformar a correlação de forças. De outro, é necessário ter em vista que nenhuma mudança efetiva virá sem uma resistência grande daqueles que fingem se importar com princípios democráticos, mas que os tratam como mero escudo quando lhes convém.

As eleições nos Estados Unidos já são um ponto de virada para os defensores da luta por uma democracia de fato, pois trazem exemplos de organização e engajamento que podem ser replicados, respeitados os contextos, em outros lugares. Resta saber com que velocidade as transformações virão...

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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Argentina: os mercados autoritários cercam a democracia. Artigo de Antonio Martins



Nas urnas, população goleou política quase idêntica à de Bolsonaro. Um dia depois, oligarquia financeira deflagra crise cambial e sugere: “agora, quem vota somos nós”. Vêm aí lances decisivos para o futuro da América do Sul


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O que aprender com Cristina KirchnerAo renunciar à candidatura à presidência, ela qualificou-se como estrategista da vitória sobre a direita – agora mais possível que nunca. Seu gesto diz muito, a Brasil às voltas com Bolsonaro e a uma Europa ameaçada pelo neofascismo (Por Antonio Martins)
Por que permanecem firmes os governos que, a exemplo do brasileiro, perdem apoio popular, mantêm ou agravam a crise social, devastam o parque produtivo e vomitam por todos os poros incivilidade e patifaria? Qual a relação entre as políticas ultracapitalistas, tramadas nos salões elegantes dos bancos e das empresas de consultoria globais, e as falas de latrina de um Bolsonaro, um Trump, um Duterte – ou, ainda pior, a rápida erosão das liberdades civis e o avanço das milícias e esquadrões da morte? Pode um político neoliberal disfarçar-se de populista e contar com o apoio explícito do FMI? Como vencer este casamento de conveniências – porém, de sinistras consequências – entre defensores extremados da “liberdade” dos mercados e protofascistas?
Nada como a experiência, para encontrar as respostas. No último domingo (11/8), os argentinos – que em 2001 repudiaram uma dívida externa avassaladora e produziram o maior defaultfinanceiro de todos os tempos – protagonizaram outro evento inédito. Pela primeira vez, um governo instalado na onda atual de ascenso da ultra-direita foi batido nas urnas. Os peronistas Alberto Fernández e Cristina Fernández (Kirchner) arrasaram Maurício Macri, vencendo-o por 15 pontos percentuais (47,7% x 32,2%) em primárias gerais. Embora não sejam as eleições definitivas (marcadas para 27/10), as primárias atraíram 75% dos eleitores, foram realizadas pela Justiça Eleitoral segundo as mesmas normas e procedimentos do pleito e são consideradas por todos como indício de derrota quase certa do candidato neoliberal.
Na segunda-feira, os mercados deflagraram sua resposta. Os grandes aplicadores iniciaram uma fuga cambial em massa, que fez a moeda argentina despencar 30% em poucas horas. O dólar chegou a valer 60 pesos (caindo para 57,30 depois de três intervenções do Banco Central, que torraram mais US$ 106 milhões). Na bolsa de Buenos Aires, as ações também desabaram, com o Índice Merval recuando também 30%. A onda de pessimismo repercutiu pelo mundo e derrubou as cotações de outras moedas na periferia do sistema: a lira turca, o rand sul-africano, o real brasileiro. Mas a oligarquia financeira, que apoiou Macri durante todo o seu mandato, julgou-se em condições de fazer exigências… a Alberto Fernández. O candidato peronista “precisa enviar uma mensagem para os mercados, que o enxergam com desconfiança”, disse Rodrigo Álvarez, diretor da consultora Analytica, ao diário portenho Clarín.
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Ultracapitalistas e protofascistas estiveram em campos muito distintos, durante quase todo o século XX. O arranjo entre estas duas correntes políticas repete-se, em todo o mundo, cada vez mais frequentemente desde a crise de 2008 – mas assume características distintas em cada país. Na Argentina, foi galvanizada pela eleição de Maurício Macri em 2015 e configurou-se como um neoliberalismo com fortes nuances assistencialistas. O governo do atual presidente tem três fases distintas. As transições entre elas revelam que a conexão entre as correntes que o apoiam não é fortuita, porque se mantém, em distintos cenários.
Na primeira fase, Macri é, em essência, neoliberal ao extremo e repressivo. No terreno econômico, ele libera a entrada e saída de dólares (permitindo, inclusive, contas de argentinas na moeda norte-americana). Elimina os impostos de importação, que distribuíam parte da imensa riqueza dos proprietários de terra. Entra em acordo com a oligarquia financeira global, desfazendo o default aberto e a renegociação da dívida (em termos muito mais favoráveis) realizada por Nestor e Cristina Kirchner. Elimina os subsídios à eletricidade e ao gás, fazendo disparar os preços destes itens de consumo popular. Aprova no Congresso uma contrarreforma trabalhista que limita a possibilidade de os trabalhadores recorrerem à Justiça contra seus patrṍes. Alinha-se com Donald Trump. No terreno dos direitos humanos, crescem fenômenos pouco conhecidos até então pelos argentinos, como o encarceramento em massa (a pretexto da “guerra às drogas”) e as execuções de “suspeitos” pela polícia. Mas avançou também a repressão política por parte do Estado. Uma aproximação oportunista com os militares levou o presidente a relativizar, em diversas ocasiões, os crimes da ditadura sangrenta pós-1976. E novas normas legais facilitaram a detenção maciça de participantes em manifestações de rua.
Para que os ataques a direitos sociais não pintassem um governo claramente antipopular, houvepolíticas assistencialistas. Atenção nutricional a crianças até 4 anos. Um pequeno apoio econômico a micro e pequenas empresas (muito insuficiente para compensar a quebradeira provocada pelas políticas neoliberais). Uma cópia do Benefício de Prestação Continuada que, no Brasil, atende aos idosos que não puderam contribuir com a Previdência o tempo necessário para obter aposentadoria.
Os mercados globais aplaudiram e financiaram a aventura. Um forte fluxo de aplicações irrigou a Argentina, por cerca de dois anos e meio. A queda das receitas tributárias foi financiada em dólares. O resultado foi um enorme salto da dívida externa. Entre 2015 e 2018, ela mais do que dobrou, saltando de US$ 63 bilhões para US$ 140 bi. Então, os credores apresentaram a conta, na forma de uma primeira rodada de pressões intensas sobre o peso.
Até o final do governo de Cristina Kirchner, a cotação do dólar mantinha-se relativamente estável, em torno de 20 pesos. Em 2018, em menos de seis meses, a taxa pulou para 40. Como ocorreria também no Brasil, o resultado foi uma forte alta na inflação. Em junho, a barreira dos 30% ao ano foi rompida. Para um presidente que, como candidato, prometera inflação zero, era um desastre político.
Começa então, simultaneamente uma segunda etapa do governo e da parceria entre ultracapitalistas e protofascistas. O marco emblemático é o acordo com o FMI, firmado neste mesmo mês. Suas condições são especialíssimas, como mostra um estudo detalhado do Centro de Economia Política Argentina (CEPA). Nunca o Fundo havia emprestado tanto a um país: US$ 50 bilhões, que depois subirão para US$ 57 bi. Mas o que chama mais atenção é a extrema coincidência entre os desembolsos e… o calendário eleitoral. Como mostra o CEPA, 88% das transferências bilionárias do FMI vão se dar até as eleições de outubro próximo – e deste montante, os volumes mais gordos correspondem exatamente aos meses finais da campanha. Tudo parece claro: não se trata do “resgate” de um país, mas da tentativa, por parte da aristocracia financeira global, de salvar seu aliado local e bloquear a eleição de um governo de esquerda. Em novembro, quase todo o empréstimo estará esgotado. Se Macri for reeleito, pagará a conta. Se os eleitores preferirem os peronistas, o país estará quebrado.
Como é comum nestes casos, contudo, o feitiço fracassa. O FMI impõe aos argentinos a “austeridade”, com tentativa de redução drástica do déficit fiscal – salvo, é claro, para pagar juros aos grandes credores do Estado. Emerge uma crise social descrita, em detalhes, por vasta matéria do New York Times. No segundo semestre, o percentual da população abaixo da linha de pobreza chega a 32%. O país passa a conviver com favelas, enorme aumento da população obrigada a viver nas ruas, gente obrigada a buscar nos lixões algo com que sobreviver.
E vem, em abril de 2019, a última viragem, quase uma confirmação do desespero. O Fundo Monetário Internacional não se limita a elevar em 7 bilhões de dólares um “resgate” que já era recorde. Agora permite explicitamente, e contrariando suas normas internas, que o dinheiro seja utilizado para sustentar, de modo provisório e precário, a cotação do peso frente ao dólar. Abastecido – e sem vergonha alguma de contrariar a si próprio – o governo Macri adotará alguma das medidas que mais criticava no período peronista, e que o FMI mais critica nos governos que deseja sabotar. Controle preços, mediante “acordo” com as grandes redes de varejo. Subsídio de tarifas públicas – com reversão de aumentos que já haviam sido anunciados. Volta de alguns dos impostos sobre exportação de commodities.
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“Um tsunami passou pelo quarto escuro. Às vezes, os cidadãos pronunciam-se como se tivessem conjurado”, escreveu, em Página 12, o analista político Mário Wainfeld. A autêntica revolta popular expressa nas urnas em 11/8 revela “fastio e esperança”, disse ele. Há limites para a demagogia, as fake news, a troca da política pelo emprego maciço de Big Data, a provocação ininterrupta, o xingamento dos adversários, a polarização que tolhe o debate, o desrespeito aos ritos da democracia e até aos bons modos. Também os bolsonaros encontram seu dia.
O ataque detonado na segunda-feira pela oligarquia financeira é um desafio claro a Alberto Fernández e Cristina. Como reagirá o candidato à Presidência, conhecido por uma postura mais moderada que a de sua companheira de chapa? Assinará algo como uma “Carta aos Argentinos”, 17 anos depois de Lula e numa conjuntura em que os banqueiros já não buscam acordos no âmbito da democracia — e sim rompê-la, para proteger seus próprios privilégios?
Em grande medida, a goleada imposta por Fernández parece dever-se ao fato de ter adotado outra postura, ao longo dos primeiros meses de campanha. Embora evitando cair em armadilhas e fazer declarações que pudessem ser transformadas em armas contra si pela mídia hegemônica, ele deixou claro em uma de suas peças de propaganda na TV: “não podemos pagar nossas dívidas até que voltemos a crescer”.
Significa que ele “poderia, se eleito, dar calote nos papéis do governo e renegociar o empréstimo com o FMI”, lamentou The Economist, em comentário que não esconde a torcida por Macri. Os eleitores mostraram que pensam diferente; que é possível contar com eles para uma virada que sacuda a aliança entre as duas direitas e coloque a Argentina em rumo oposto ao atual. As onze semanas que faltam para a eleição serão dramáticas. Mas se as inspirações da coragem política animarem Alberto e Cristina, o cenário político da América do Sul irá se tornar, a partir de 27 de outubro, muito mais interessante, rico em alternativas, menos sombrio e cinzento.