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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Xadrez da conspiração óbvia por meio do ódio e da ingorância para manutenção da velha elite, por Luis Nassif

 O preço do subdesenvolvimento é a eterna ignorância. E o nível máximo de ignorância é a incapacidade de juntar fatos de hoje para projetar o amanhã. Trata-se de um exercício fundamental, que permite identificar dinâmicas que poderão levar a grandes desastres e trabalhar antecipadamente para detê-las. E não foi praticado por nenhum partido político e nenhuma instituição da República.

O PSDB e o discurso de ódio

Quando José Serra ascende ao comando do PSDB, radicaliza o discurso e é incapaz de formular projetos para o país, sua visão era colher taticamente o ódio plantado pela mídia. Ou seja, aproveita o clima criado, ganha a eleição e implementa seu projeto de financeirização da economia, valendo-se de uma democracia restrita, mas dentro dos parâmetros constitucionais.

O cenário óbvio era que criaria uma demanda por ódio que não poderia ser satisfeita por um partido tradicional. Em um sistema pluripartidário, levando a disputa para o campo do ódio, emergiriam outras forças, praticantes do radicalismo em estado puro, não meramente táticos.

Quando percebeu que o discurso de ódio não foi suficiente, Aécio Neves deflagrou o movimento de  golpe, questionando o resultado das eleições no mesmo dia em que Dilma Rousseff foi eleita, ampliando a aposta no estado de exceção. E sem enxergar um milímetro à frente.

Qualquer tentativa de apontar o suicídio político, em 2010, era incluída na relação da teoria conspiratória.

O PT e o republicanismo ingênuo

 O “mensalão” trouxe, no seu bojo, o ensaio do golpe que seria aplicado, anos depois, no processo de impeachment.

Havia um novo poder tentando se consolidar de forma independente – a estrutura anticorrupção criada pelo próprio PT, especialmente a Procuradoria Geral da República -, um Supremo Tribunal Federal endossando todas as arbitrariedades judiciais, uma mídia praticando diuturnamente o discurso de ódio. E um governo que se salvou exclusivamente devido ao sucesso econômico do período pós crise de 2008.

O modelo de golpe era idêntico ao que vitimou Getúlio Vargas em 1954. Em lugar de factoides, a mídia passou a ter o controle da narrativa de um julgamento que gerava notícias diárias, permitindo exercitar um discurso de ódio diário e, devido ao seu poder hegemônico, ser o dono da narrativa.

De uma penada, e com tiros certeiros, o “mensalão” liquidou com as três únicas cabeças do PT capazes de pensar um pouco além da esquina: José Dirceu, José Genoino e Luiz Gushiken. Foram submetidos a uma perseguição que em nada ficava a dever ao Estado Novo ou ao regime implantado em 1964.

O governo foi salvo pela crise de 2008, pela atuação de Lula e por uma alta adicional nas cotações internacionais de commodities, garantindo mais alguns anos de bonança. Havia um cenário óbvio a ser analisado: e quando a bonança econômica acabar? Simples assim.

Em vez de aprender a lição, o PT desperdiçou todos os poderes derivados da Constituição:

  • nomeou Ministros do Supremo sem a menor garantia de fidelidade à Constituição. Aceitou nomear um candidato, Luiz Fux, que prometia “matar no peito” os processos. Mal nomeado, Fux passou a concordar tão cegamente com o relator Joaquim Barbosa, que endossava automaticamente todos seus votos. E de forma tão descuidada que, certa vez, chegou a condenar um réu absolvido por Joaquim, voltando atrás assim que informado sobre o conteúdo integral do voto. Ou seja, votava sem ao menos ler mais detidamente o documento.
  • reconduziu ao cargo de Procurador Geral da República Rodrigo Janot, mesmo depois de ele ter desfilado na comissão de frente da Unidos da Lava Jato.
  • demitiu o delegado Paulo Lacerda da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) mesmo alertado – pelo ex-ministro Márcio Thomas Bastos – que a saída de Lacerda racharia a Polícia Federal e a tornaria uma corporação sem comando.
  • atrasou tanto a nomeação de um Ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que deixou a indicação do cargo nas mãos do presidente Dias Toffoli, que, de petista histórico, havia se tornado um inimigo visceral da presidente Dilma Rousseff, devido às humilhações impostas por ela. Quase custou o cargo de Dilma, antes que assumisse o segundo mandato.

Nem se fale de pacote Joaquim Levy e dos desastres pós-2015.

Mídia

O poder da mídia deriva exclusivamente de um quadro de normalidade democrática. Na ditadura, deixa de ter protagonismo. Pode ganhar favores e se fortalecer – como ocorreu com a Globo na ditadura militar -, mas sempre com um papel subalterno.

Quando passou a exercitar o discurso de ódio, dentro da guerra cultural implementada a partir de 2005, era evidente que a maior vítima seria a democracia e a própria mídia.

Bem no início, o discurso do preconceito era restrito a jornalistas como Jô Soares e Arnaldo Jabor, emulando brigas de rua. Gradativamente surgiram os verdadeiros lutadores de rua, através dos stand-ups, de outros cronistas de ódio usando Youtube e redes sociais, ganhando públicos, permitindo o nascimento de uma mídia de ultra-direita, como a Jovem Pan e a Gazeta do Paraná.

O estado de exceção começou efetivamente em 2013 e se ampliou. Mas quem ousasse alertar para a ditadura a caminho era rebatido pelos idiotas da objetividade com declarações tipo  na ditadura havia tortura e agora não. Que seria o mesmo que minimizar um carro indo em direção ao abismo, lembrando que carros que efetivamente caíram no abismo ficaram destruídos e este ainda está inteiro.

Supremo Tribunal Federal

A ideia de que a democracia é uma planta tenra, que precisa ser regada diariamente, tem sua razão de ser. Quando o Supremo resolveu atropelar as garantias, os Códigos e a Constituição e, a partir do “mensalão”, se converter em uma corte política, colocou a trajetória da democracia no rumo do precipício. Ainda não foi possível calá-lo com um cabo e um sargento mas, se nada for feito, os Bolsonaro ainda chegam lá.

Quando Luiz Edson Fachin, Luiz Fux e Luis Roberto Barroso deram início a uma política sistemática de desmoralização dos partidos políticos, onde pretendiam chegar? Segundo Barroso, o país chegaria a um novo Iluminismo. Provavelmente nascido de geração espontânea.

Era óbvio que o vácuo criado abriria espaço para toda sorte de aventureiros e, especialmente, nas áreas institucionais que manobram poderes de Estado. Obviamente, os candidatos favoritos seriam a parte armada do sistema judicial – especificamente o Ministério Público Federal – e a força armada propriamente dita – as Forças Armadas. O Ministro Luis Roberto Barroso imaginou que fosse o Judiciário e estimulou o ativismo político da Justiça de forma irresponsável.

Com Bolsonaro, não houve dificuldade em anular os aventureiros do MPF. E das FFAAs?

Agora se tem essa ópera bufa da reação de Fachin ao Twitter do general Villas Boas, três anos após a consumação do golpe e com quadros militares infiltrados em todos os poros da administração civil..

Peça 2 – os sinais de golpe

Desde a posse de Bolsonaro, era nítido que não se tratava de um governo comum, como foram os de Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma. Era um político ligado às milícias, à ultradireita, com uma estratégia explícita de golpe:

Milícias armadas –  No início do governo, Eduardo Bolsonardo defendia armar a população para defender o regime. São óbvias suas ligações com clubes de caça,  além das ligações históricas com as milícias. Sua última medida – de autorizar 6 armas por cidadão – é obviamente para armar suas milícias. Ou os idiotas da objetividade acham que é para facilitar a vida de colecionadores?

Aceno às Forças Armadas – as revelações do general Villas Boas, e o levantamento de jornalistas – mostrando participação de generais do Alto Comando no Twitter destinado a pressionar os Ministros do Supremo – não deixam mais margem a dúvidas sobre o projeto militar em torno de Bolsonaro. Os levantamentos de militares indicados para cargos civis já passam de 15 mil, fora Policiais Militares em todo tipo de função, especialmente na Saúde, meio ambiente, cultura e direitos. É uma guerra cultural em curso, na qual a militarização ocupa todos os espaços.

Policias Militares – recentemente, tentou-se uma medida visando tirar o controle dos governadores sobre as Policias Militares. Essa tentativa foi montada pelos Bolsonaro em contato com associações de policiais militares, mostrando a intenção óbvia de estabelecer um canal direto com as PMs.

Peça 3 – a lógica da ultradireita

Do fascismo ao nazismo, em graus diferentes, há uma lógica férrea nas estratégias de tomada de poder pela ultradireita. Vamos listar os pontos em comum entre todas elas e conferir a estratégia de Bolsonaro.

  1. Definição de um inimigo comum, que podem ser os judeus, os comunistas ou, no caso brasileiro, as esquerdas em geral. Ok.
  2. Desconstrução das garantias constitucionais. Na Alemanha, o nazismo foi precedido pela destruição da Constituição de Weimar. Por aqui, o Supremo ajudou a destruir os fundamentos da Constituição de 1988. Ok.
  3. Montagem de milícias agressivas, em guerra verbal permanente  contra os adversários. Ok.
  4. Na Alemanha nazista, a defesa do partido se dava, inicialmente, através das milícias civis armadas. Consumada a tomada do poder, foram substituídas por forças militares especiais, das SSs. A fase inicial foi o pacto com os militares, tornando-os sócios do poder. Ok.
  5. Pacto com o grande capital. Ocorreu na Itália de Mussolini, no Chile de Pinochet, na Alemanha de Hitler e está ocorrendo no Brasil de Guedes-Bolsonaro com os negócios da privatização. Ok
  6. Cooptação do Congresso para facilitar a implementação do passo seguinte, o estado de exceção. Ok.

Peça 4 – a intenção de armar a população

Os Ministros mais realistas do Supremo Tribunal Federal insistem que a hipótese de levantes armados da ultradireita não se sustenta. O Brasil seria um país muito complexo para permitir aventuras dessa natureza.

Os Estados Unidos são mais complexos. E, hoje em dia, a maior ameaça à democracia americana – segundo o próprio FBI – são os grupos paramilitares, formados na população armada. Levantamentos parciais indicam a existência de 165 grupos paramilitares atuando no país.

Os idiotas da objetividade argumentam que as decisões de Bolsonaro, sobre a flexibilização das armas, não têm nenhuma relação com o crime organizado, que age à margem das regulamentações e das leis.

Ignoram as informações disponíveis.

Há dois grupos principais ligados aos Bolsonaro: as milícias cariocas e os clubes de caça e tiro.

As milícias

O mais conhecido são as milícias do Rio de Janeiro, o Escritório do Crime e suas relações com o contrabando de armas. Registre-se que na casa de Ronnie Lessa – vizinho de Jair Bolsonaro -, principal acusado pela morte de Marielle, foram encontrados dezenas de fuzis contrabandeados.

As ligações dos Bolsonaro com as milícias já foram exaustivamente levantadas.

Suas ações mais conhecidas, em defesa das milícias, foram:

  • o decreto buscando impedir o rastreamento das munições, peça central para a identificação de crimes cometidos com armas legais ou clandestinas;
  • o afastamento do superintendente geral da Polícia Federal no Rio de Janeiro e de fiscais que atuavam no porto de Itaguaí – porta de entrada do contrabando de armas no país;
  • a flexibilização da compra e importação de armas, assim como o aumento da quantidade, abre espaço para um laranjal articulado pelo crime organizado, que poderá trazer armas de forma muito mais segura do que pelos esquemas de contrabando.

Os Clubes de Tiro e caça

Em junho do ano passado, pouco antes de falecer, o repórter Renan Antunes publicou no DCM a matéria “Por dentro do clube de tiro que virou templo do bolsonarismo e por onde Adélio passou

Segundo a reportagem, os clientes do clube são gente de segurança, advogados e universitários.

Os donos se dizem descendentes do Duque de Caxias, mas o guru máximo é Olavo de Carvalho. Nas paredes, bandeiras dos Estados Unidos e do xerifado de Oklahoma. O clube treina os alunos e vende armas devidamente registradas, majoritariamente armas importadas. E mantém um amplo banco de dados de todos seus clientes.

Até agora, não há nenhuma evidência maior de que os clubes estejam organizando milícias armadas. Mas eles têm leite condensado, frutas, açúcar e panela. A hora em que quiserem, fazem o bolo.

Peça 5 – a militarização

O enfraquecimento do poder civil abriu margem para a invasão de cargos civis por militares. Nos últimos anos, os militares foram premiados na reforma da Previdência, com bônus melhorando os ganhos dos oficiais, com aumento na fatia do orçamento.

Essa invasão se dá com desarticulação de áreas de excelência, cuja montagem se deu ao longo de todo o período pós-Constituinte, como Educação, Saúde, políticas sociais, Planejamento etc.

No caso do Ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello colocou militares – sem nenhum conhecimento do tema – em áreas centrais. Desarticulou uma das melhores estruturas do setor público, ampliando desmedidamente as perdas provocadas pela pandemia.

Esse mesmo desastre consumou-se no Ministério das Minas e Energia, no Meio Ambiente e em outras áreas ocupadas por militares sem conhecimento do tema.

Trata-se, obviamente, de um empecilho fortíssimo à desmilitarização do poder.

Peça 6 – os ingredientes do golpe

Tem-se à mão todos os ingredientes de um golpe a caminho:

  1. Discurso de radicalização, inclusive colocando em dúvida os resultados da próxima eleição.
  2. Flexibilização da compra e registro de armas e munição, ante uma posição passiva das Forças Armadas e da Polícia Federal.
  3. Armas para os grupos aliados, através dos sistemas de clubes de caça e tiro, e das milícias convencionais.
  4. Filhos articulando suas milícias através de sistemas menos visíveis que o Twitter e o Facebook. Espera-se, pelo menos, que a inteligência do Exército não seja subordinada ao inacreditável general Augusto Heleno, e esteja acompanhando de perto essas movimentações.
  5. Compra do Congresso com emendas orçamentárias.
  6. Compra de Igrejas com programa anunciado pela Ministra Damares, de financiamento público.
  7. Compra do mercado com as promessas de privatização selvagem.
  8. Compra das Forças Armadas com cargos e benefícios salariais.

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sábado, 28 de novembro de 2020

General Mourão e o racismo de denegação, por Isadora Brandão, defensora pública coordenadora do Núcleo especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade racial da Defensoria Pública de SP

 

  "(..)  no Brasil, a tecnologia de dominação racial opera de outra forma. A estigmatização e exclusão são baseados na aparência física dos indivíduos (fenotipia), não na sua ascendência. Assim, pessoas não brancas de pele mais clara, eventualmente, conseguem negociar a sua pertença étnico-racial, sobretudo se tiverem conquistado mobilidade econômica e poder político, como é o caso do vice-presidente."


Do site Justificando:



Imagem: Romério Cunha/VPR – Arte: Justificando

Terça-feira, 24 de novembro de 2020

General Mourão e o racismo de denegação



Por Isadora Brandão

 

Em entrevista concedida no último dia 20 de novembro, o vice-presidente da República, General Hamilton Mourão, afirmou categoricamente “e com toda a tranquilidade” que não existe racismo no Brasil. 

Para comprovar o seu argumento, o militar recorreu à corriqueira comparação com os Estados Unidos, onde morou por 2 anos, durante o final da década de 60. Segundo ele, na escola que frequentava, “o pessoal de cor” andava separado. Ele também declarou ter ficado impressionado ao constatar que as pessoas negras eram obrigadas a ocupar os assentos traseiros dos ônibus.

A declaração despertou curiosidade: como o general terá sido racialmente classificado na sociedade estadunidense? Teria sido ele destinatário da hostilidade racial que descreveu? Como tal experiência impactou na sua auto-identificação racial e na sua leitura a respeito da pertinência da luta antirracista na diáspora? 

Na sociedade estadunidense vige a regra da hipodescendência, segundo a qual uma pessoa que tenha “uma gota de sangue” negro é considerada negra. Assim, é bem provável que o general, sobretudo por ser latino, não tenha escapado às violentas práticas discriminatórias que descreveu com pretenso distanciamento…

Como sabemos, no Brasil, a tecnologia de dominação racial opera de outra forma. A estigmatização e exclusão são baseados na aparência física dos indivíduos (fenotipia), não na sua ascendência. Assim, pessoas não brancas de pele mais clara, eventualmente, conseguem negociar a sua pertença étnico-racial, sobretudo se tiverem conquistado mobilidade econômica e poder político, como é o caso do vice-presidente. 

Como bem resumiu Antônio Cândido, “branco é quem a sociedade considera branco e negro quem ela considera negro. Uma questão de rótulo convencional”¹. Mas é mais que isso. Independentemente das especificidades culturais e nacionais que permeiam a construção social da raça, o branco detém o monopólio desse processo de rotulação. 

Antônio Cândido também nos fala da “ilusão brasileira de brancura”, referindo-se ao fato de que o branco brasileiro é, muitas vezes, mestiço, mesmo que em proporções variáveis, porém, identifica como mestiços apenas os outros, nunca ele ou os seus. 

Cândido menciona uma entrevista concedida por Leopold Sendar Senghor, na época presidente de Senegal, a um jornalista francês que esteve no Brasil. Na entrevista, Senghor chama atenção para o fato de que o presidente Kubitschek e seus ministros lhe falaram com muita afeição da ama da leite ou da babá negra que tiveram, mas nunca da avó negra que com certeza tinham…

Quero destacar, com essas considerações, que a assunção, pelo General Mourão, de uma identidade racial branca, é fruto uma escolha político-ideológica, portanto, desprovida de qualquer ingenuidade. O mesmo pode ser dito acerca da afirmação de que não há racismo no Brasil. 

 

Diversos(as) intelectuais negros(as) e militantes da questão racial têm evidenciado que a tentativa de encobrimento das desigualdades raciais latentes na sociedade brasileira tem funcionado como uma estratégia extremamente eficaz de perpetuação do racismo. 

Trago aqui o conceito de “racismo de denegação”, desenvolvido por Lélia Gonzalez, para uma melhor compreensão do que estamos discutindo. 

 Lelia usa essa categoria para se referir ao fato que em nosso país, ao mesmo tempo que temos convivido historicamente com um discurso estatal que enuncia a “contribuição” civilizacional do negro e do indígena, busca-se eliminar e limitar as formas de reprodução social daqueles que são o testemunho vivo desses aportes culturais-civilizacionais (justamente os negros e indígenas). Ao mesmo tempo, essa prática é negada por meio do mito da democracia racial.

 O racismo de denegação tem, nas sociedades latino-americanas, um lugar privilegiado de expressão, na medida em que são herdeiras históricas das ideologias de estratificação social e racial e das técnicas jurídico-administrativas das metrópoles ibéricas, que desenvolveram, ao longo de séculos, mecanismos de violento controle social e político sobre mouros e judeus, dispensando, a priori, formas abertas de segregação, como se verificou no regime de apartheid na África do Sul e nos EUA, com as Leis Jim Crow.

Uma das características do nosso racismo de denegação é a busca por limitar as formas de reprodução social dos grupos raciais inferiorizados. 

Ao destacar esse ponto quero dizer que o genocídio não é um processo que se extinguiu com o término do tráfico transatlântico, da escravidão e da colonização das Américas. 

O genocídio é um processo em curso, contemporâneo, que está subentendido no projeto de Nação adotado pela nossa elite branca. Assim, não pode ser pensado enquanto produto acidental, residual ou inercial de reminiscências culturais e resquícios ideológicos da escravidão, senão como eixo estruturante de um projeto de nação deliberadamente encampado pelas nossas elites nos marcos de um passado recente.

 Na passagem do século XIX para o século XX, como aponta Kabenguele Munanga, nossa elite branca, se engaja na proposição de caminhos civilizatórios baseados na eliminação do contingente populacional não–branco, rumo à edificação de uma sociedade de acordo com o modelo hegemônico racial e cultural branco. 

 Voltando ao general Mourão. Quando ele afirma que não existe racismo no Brasil, ele não pretende apenas ocultar as gritantes desigualdades raciais que definem o nosso país. Essencialmente, ele age para invisibilizar as práticas genocidas que insistem em sequestrar a nossa humanidade e estabelecem rígidos limites para as nossas possibilidades existenciais.

 É preciso lembrar que a manifestação foi proferida pelo vice-presidente em resposta a jornalistas que perguntaram se o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, espancado até a morte por seguranças do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra, havia sido motivado por racismo. 

Não é a primeira vez que assistimos a uma manifestação extrema de violência racial nas dependências de loja da Rede Carrefour. Basta conferir o levantamento recente feito pelo Instituto Marielle Franco para concluir que o grupo empresarial segue, impunemente, insistindo em um modelo de vigilância patrimonial centrado na identificação de pessoas negras como suspeitas, sob a vista grossa das instituições do sistema de justiça. 

Temos assistido com revolta e perplexidade à interrupção precoce de inúmeras vidas marcadas pelo signo da negritude. Assassinatos como o de João Pedro, de 14 anos, baleado no interior de sua residência e o de Ágatha Felix, de 8 anos, atingida no interior de uma Kombi, quando retornava para casa na companhia da sua mãe. 

 O que todos esses casos revelam é que a violência dirigida a corpos negros em nosso país é gratuita. João Vargas nos explica que ela é gratuita porque não depende, necessariamente, da transgressão da norma para acontecer, diferentemente do que ocorre em relação aos não negros. Segundo Vargas, “nós negros vivenciamos a violência não em razão do que fazemos, mas por causa de quem somos, ou melhor, de quem não somos”. 

 Ele diz: “A violência gratuita equivale a um estado de terror que é independente de leis, direitos e cidadania. A violência gratuita é terror porque é imprevisível na sua previsibilidade, ou previsível na sua imprevisibilidade. Da perspectiva de uma pessoa negra, não se trata de perguntar se ela será brutalizada, mas quando.” ²

 Ao afirmar que não existe racismo no Brasil, enaltecendo o “despreparo” dos agentes de segurança que mataram João Alberto, o vice-presidente oculta esse projeto genocida e normaliza o estado de terror imposto à população negra. 

 Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, a cumplicidade sistêmica com o racismo e seus intrínsecos desdobramentos genocidas não integra apenas o repertório ideológico do desinibido general, mas faz parte da cultura institucional de órgãos formalmente encarregados da Defesa do Estado Democrático de Direito e da salvaguarda dos direitos fundamentais. 

 Recentemente, veio à tona manifesto público subscrito por Juízes e Juízas da Associação dos Magistrados do Estado de Pernambuco (Amepe) no qual repudiam um curso online que seria ministrado a eles sobre racismo, alegando que a iniciativa resulta de uma “infiltração ideológica” nas “causas sociais” e que seu conteúdo poderia provocar “cisões internas”. Alinham-se, assim, temendo a perda de privilégios, ao general Mourão, para quem a proposição do debate antirracista no Brasil resulta da “importação” de um discurso estrangeiro que em nada se adequa à nossa realidade social.

 Cabe a nós, juristas comprometidos com a equidade racial, identificar e denunciar de que forma o racismo externado pelos magistrados da Amepe está codificado nos resultados da atividade jurisdicional prestada, mesmo que escamoteado por uma hermenêutica jurídica aparentemente abstrata e racialmente neutra.

 

Isadora Brandão é defensora pública coordenadora do Núcleo especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade racial da Defensoria Pública de SP

Notas:

[1] “Racismo: crime ontológico: Entrevista com Antônio Cândido. Ethnos Brasil. Cultura, sociedade. Março de 2002. Ano I, nº 1. Pp. 21- 28

[2] Vargas, João. Por uma mudança de paradigma: antinegritude e antagonismo estrutural. In: Motim: horizontes do genocídio antinegro na Diáspora. Flauzina, Ana Luiza e Vargas, João (org).p.96

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

TV GGN 20h: Dias decisivos para o mundo e a conspiração ocorrida entre Temer e os militares para a derrubada de Dilma

 

TV GGN 20h: Dias decisivos para o mundo e Temer e os militares

Os comentários de Luis Nassif em 2 de novembro de 2020.


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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O avanço destrutivo do nazi-fascismo brasileiro, por Dora Incontri



Não vamos acordar? Vamos deixar assim o país mergulhar em águas sombrias e medievais, de negação da ciência, de indiferença diante da morte de nossos concidadãos, do autoritarismo crescente, com discursos e ações de ódio?
Jornal GGN:

O nazi-fascismo brasileiro, por Dora Incontri

Não me lembro se comentei aqui que morei três vezes na Alemanha, uma vez na infância, outra na adolescência e já quando jovem. E desenvolvi uma relação de amor e ódio com os alemães, porque admiro a cultura, gosto da organização, aprecio as belas paisagens e os monumentos históricos, mas sempre me foi difícil engolir o que eles fizeram no nazismo. O povo aderiu em massa àquela barbárie, um povo que era escolarizado, instruído… e como em minhas vivências lá tanto na infância, quanto na adolescência, encontrei gente racista, xenófoba… tremendo desconforto com os alemães crescia dentro de mim, como uma raiva, um ressentimento, um inconformismo… 
Durante as aulas que tinha numa escola em Berlim, campanhas antinazistas eram feitas (isso era década de 70, o auge da social democracia alemã). Nunca me esquecerei de um judeu sobrevivente ao holocausto, vindo nos contar sobre a noite dos cristais, ou dos filmes originais que víamos, de quando os aliados chegaram aos campos de concentração e filmaram estarrecidos o que encontraram nesses locais de tortura e morte. E eu me indagava: como um povo que teve um Bach, um Beethoven, um Goethe, um Schiller, um Bertold Brecht e tantos outros, sem citar filósofos e cientistas, poderia ter gerado algo tão histriônico, bizarro e macabro quanto o nazismo?
E eu então, ingenuamente pensava, que se tratava de um problema quase especificamente alemão. Conforme fui amadurecendo e estudando, aprofundando inclusive meu conhecimento sobre os movimentos fascista e nazista, fui compreendendo que não se tratou de um fenômeno pontual, isolado, de uma raça, que se considerava superior. Não cabe aqui fazer uma descrição aprofundada sobre o tema, mas hoje sabemos que a eugenia existia em vários locais no mundo (aliás, desde o século XIX), foi objeto de experimentações com negros nos Estados Unidos, era uma ideologia que permeava as primeiras décadas do século XX no Brasil (com a adesão irrestrita de alguém que me foi tão caro na infância, Monteiro Lobato – ele lamentava que no Brasil não houvesse uma Ku Klux Klan, para “colocar os negros no seu lugar”.). Hoje sabemos que as corporações e os bancos do mundo se beneficiaram com o nazismo e o apoiaram.
E também é mais familiar para todos, que houve outros momentos ou períodos históricos em que outros genocídios foram praticados, como os séculos de tráfico e escravização dos povos africanos nas Américas, como o genocídio armênio pelos turcos, como os mais diversos massacres que o colonialismo europeu praticou aos quatro ventos do mundo. O comunismo de Estado também tem seus números terríveis, com os goulags stalinistas e os mortos na Revolução maoísta. Desculpem-me os que defendem a luta armada e o comunismo de Estado, mas para mim, matança é matança, é coisificar o ser humano e eliminá-lo sem pena.
Entretanto, diante de tudo isso, não contava, não esperava que em minha maturidade, eu tivesse de assistir ao meu país – o Brasil de Castro Alves e Guimarães Rosa, de Tom Jobim e Darcy Ribeiro, de Tarsila do Amaral e Elis Regina… – caindo no abismo de um nazifascismo tupiniquim, com o apoio de um terço da população!
Está certo que o genocídio dos negros e dos indígenas e o feminicídio das mulheres já acontecem desde sempre; que temos um racismo e um machismo estruturais, que já tivemos a tortura institucionalizada na Ditadura militar e continuamos torturando as classes desfavorecidas nas delegacias e presídios… então, há substrato social e (des)humano para o que estamos vendo recrudescer hoje.
Mas não é possível ficarmos impassíveis com um “e daí”? – diante de 5 mil mortes; com uma população fanática burlando uma quarentena recomendada mundialmente e ainda agredindo profissionais heroicos da saúde; com funcionários obrigados a ficar de joelhos diante dos estabelecimentos comerciais em que trabalham, com um vírus galopante matando a população e o ministro robotizado, recém-colocado na Saúde, dizer que não sabe…
Muitos brasileiros manifestam esse mesmo desgosto perplexo diante do que estamos vivendo: a pior crise de saúde, com mortes em massa da população, com o pior e mais fascista dos governos que já tivemos em toda a nossa história… onde está o Brasil do chorinho, da solidariedade, da poesia e da boa vizinhança? Ele está subjacente, está nas margens, está debaixo das cinzas, porque somos nós. Estranho a apatia de líderes, de políticos à esquerda, de representantes de instituições importantes. Estarão com medo, perplexos, sem saber o que fazer?
Não vamos acordar? Vamos deixar assim o país mergulhar em águas sombrias e medievais, de negação da ciência, de indiferença diante da morte de nossos concidadãos, do autoritarismo crescente, com discursos e ações de ódio que já atingem os que estão trabalhando, os que estão lutando por um mundo melhor, incluindo os profissionais da saúde, que estão literalmente oferecendo suas vidas para salvar outras e estão sendo agredidos? Quando o país inteiro estiver coberto de cadáveres – que é o que vai acontecer de acordo com a previsão dos cientistas (vejam live do dia 3 de maio do Atila Iamarino – um brasileiro jovem, cientista, brilhante), vamos nos arrepender suficientemente de termos entregue nossas vidas a um psicopata, cercado de bajuladores e apoiadores fundamentalistas, que urlam por aí, carregando caixões e empunhando a pobre e vilipendiada bandeira nacional?
Como espírita, espiritualista, cristã, não me é dado o luxo de perder a esperança. Estou em luto, mas continuo a luta e conto que a nossa profunda e saudável alma brasileira desperte sem demora…

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sábado, 1 de agosto de 2020

O Caso Banestado, o maior escândalo de corrupção do Brasil onde o juiz foi Moro, que o ajudou a abafar e as ligações com a Lava Jato: A infernal máquina brasileira de lavar dinheiro, por Pepe Escobar



Como um esqueleto que chacoalha no armário, o caso Banestado volta à tona. Uma retomada das investigações pode deixar em maus lençóis os barões das finanças, próceres da Operação Lava Jato e figuras carimbadas do sistema político



Por Pepe Escobar, no Asia Times |Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel
Duas décadas depois de um terremoto político, um potente tremor secundário que deveria sacudir o Brasil está sendo recebido com um silêncio estrondoso.
O que agora é chamado de “vazamentos do Banestado” e “CC5gate” é algo parecido com o antigo caso WikiLeaks: uma lista publicada pela primeira vez na íntegra, dando nomes e detalhando um dos maiores casos de corrupção e lavagem de dinheiro do mundo nas últimas três décadas.
Esse escândalo pode nos proporcionar o saudável exercício daquilo que Michel Foucault reconhecera como uma “arqueologia do saber”: sem entender esses vazamentos, é impossível colocar no devido contexto eventos que vão dos sofisticados ataques de Washington ao Brasil ― inicialmente via NSA [National Security Agency (Agência de Segurança Nacional norte-americana)], espionando o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff (2010-2014) ― até a operação “Lava Jato”, que pôs na cadeia Luis Inácio Lula da Silva, e abriu o caminho para a eleição do presidente neofascista Jair Bolsonaro.
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O crédito pelo furo jornalístico desta trama de guerra híbrida orwelliana deve ser tributado, mais uma vez, à mídia independente. O pequeno site Duplo Expresso, liderado pelo jovem e ousado advogado internacional Romulus Maya, radicado em Berna, foi quem publicou a lista pela primeira vez.
Uma épica live de cinco horas reuniu os três principais protagonistas da denúncia do escândalo, no final dos anos 90, e que agora se dispõem a confrontá-lo novamente: o então governador do Estado do Paraná, Roberto Requião, o promotor federal Celso Tres e o agora superintendente aposentado da Polícia Federal, José Castilho Neto.
Anteriormente, em outra live, Maya e o antropólogo Piero Leirner, principal analista de guerra híbrida do Brasil, me informaram sobre as inúmeras complexidades políticas dos vazamentos, enquanto discutíamos a geopolítica no Sul Global.
As listas do CC5 estão aquiaqui e aqui. Vejamos o que as torna tão especiais.

O mecanismo

Em 1969, o Banco Central do Brasil criou o que viria a ser conhecida como a “conta CC5”, para facilitar empresas e executivos estrangeiros na transferência legal de pequenos ativos para o exterior. Por muitos anos, o fluxo de caixa nessas contas não foi significativo. Então, nos anos 90, tudo mudou, com o surgimento de uma grande e complexa movida criminosa focada na lavagem de dinheiro [N. do T. preferiu-se aqui, com o termo “movida”, em parte fazer uma evocação ao bem conhecido movimento boêmio-cultural espanhol, como uma onda, uma agitação, mas também evocar a polissemia que o termo guarda no castelhano latino-americano].
A investigação original do Banestado começou em 1997. O promotor federal Celso Tres ficou surpreso ao descobrir que, de 1991 a 1996, o equivalente a nada menos que 124 bilhões de dólares havia sido transferido para o exterior. No final das contas, durante toda a existência dessa movida (de 1991 a 2002), o total escalaria para 219 bilhões de dólares ― situando o Banestado no cerne de um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro do mundo em todos os tempos.
O relatório do promotor Celso Tres deu origem a uma investigação federal, que partiu de Foz do Iguaçu ― estrategicamente situada na tríplice fronteira Brasil, Argentina e Paraguai ―, onde os bancos locais lavavam fundos vultosos através de suas contas CC5.
Eis como funcionava: os doleiros do mercado negro, em conluio com funcionários dos bancos e do governo, faziam uso uma vasta rede de contas bancárias, em nome de laranjas e de empresas fantasmas, para lavar recursos ilegais oriundos de corrupção pública, fraude tributária e crime organizado, em especial por meio do Banco do Estado do Paraná (Banestado) em Foz do Iguaçu. Daí chamar-se “caso Banestado”.
Até 2001, a investigação federal parecia não chegar a lugar algum, quando então o superintendente da Polícia Federal José Castilho constatou que a maioria das transferências estava, na verdade, caindo em contas da agência do Banestado em Nova York. Castilho foi a Nova York em janeiro de 2002 para acelerar o necessário rastreamento internacional dos fundos.
Através de uma ordem judicial, Castilho e sua equipe revisaram 137 contas do Banestado em Nova York, acompanhando a movimentação de 14,9 bilhões de dólares. Em alguns casos, os nomes dos beneficiários eram os mesmos de políticos brasileiros que atuavam no Congresso, ministros e até ex-presidentes.
Depois de um mês em Nova York, Castilho volta ao Brasil com um relatório de 400 páginas. Apesar das evidências esmagadoras, ele foi removido da investigação, suspensa então por, pelo menos, um ano. Quando o novo presidente Lula assume o governo no início de 2003, Castilho volta à ação.
Em abril de 2003, Castilho identificou uma conta particularmente interessante no banco Chase Manhattan, chamada “Tucano” ― apelido do PSDB, liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), no poder antes de Lula e que mantivera laços muito próximos às máquinas políticas do presidente norte-americano Bill Clinton e do primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Castilho foi fundamental na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso Banestado. Mas, mais uma vez, essa Comissão não levou a lugar algum. Não houve sequer a votação de um relatório final. A maioria das empresas negociou acordos com a Receita Federal do Brasil e, assim, encerrou qualquer possibilidade de ação judicial no que respeita à sonegação de impostos.

O caso Banestado encontra a Lava Jato

Em essência, os dois maiores partidos políticos, o PSDB neoliberal, de FHC, e o Partido dos Trabalhadores, de Lula ― que jamais enfrentaram de fato as maquinações imperialistas e a classe rentista brasileira ― participaram ativamente para enterrar uma investigação aprofundada do caso.
Além disso, ao suceder FHC, Lula, de forma consciente ou talvez na intuição de preservar a governabilidade, tomou a decisão estratégica de não investigar a corrupção tucana, embalada por uma série de privatizações desonestas.
Os promotores de Nova York chegaram ao ponto de preparar uma lista especial do Banestado para Castilho, com o que realmente importava para o processo criminal: o circuito completo do esquema de lavagem de dinheiro, apresentando os fundos inicialmente remetidos de forma ilegal para fora do Brasil, por meio das contas CC5; sua passagem através das agências, em Nova York, dos bancos brasileiros envolvidos; até chegar nas contas e fundos fiduciários dos paraísos fiscais (por exemplo, Cayman, Jersey, Suíça); para só então retornar ao Brasil sob a forma ― plenamente lavada ― de “investimento estrangeiro”, quando então se prestariam ao uso real e gozo dos beneficiários finais, os verdadeiros donos da grana.
No entanto, o ministro da Justiça brasileiro, Marcio Thomaz Bastos, nomeado por Lula, bloqueou o avanço das investigações. Como nota metaforicamente o superintendente Castilho: “Isso me impediu de voltar ao Brasil com o cadáver do crime”.
Embora Castilho nunca tenha posto as mãos nesse documento crítico, pelo menos dois deputados brasileiros, dois senadores e dois promotores federais, que mais tarde ascenderiam à fama como “estrelas” da operação Lava Jato ― Vladimir Aras e Carlos Fernando dos Santos Lima, ― o teriam obtido. Por que e como o documento ― chamêmo-lo de “bolsa de defunto” ― nunca foi encontrado nos processos criminais no Brasil é ainda um mistério complementar a cobrir todo o enigma.
Enquanto isso, existiriam relatórios “não confirmados” (várias fontes se esquivam em registrar isso) de que esse documento pode ter sido usado para extorquir os envolvidos, majoritariamente bilionários, que figuram na lista.
O condimento extra, na esfera judicial, está no fato de que o juiz estadual acusado por alguns de enterrar o caso Banestado não era outro que não Sergio Moro, a figura autoassumida como o Elliot Ness dos trópicos, que na próxima década alcançaria a condição de superestrela, como o capo di tutti capi da Lava Jato e daí, por consequência, ministro da Justiça de Bolsonaro. Moro acabou renunciando e agora já está, de fato, fazendo campanha para concorrer à presidência em 2022.
E aqui chegamos à conexão tóxica Banestado-Lava Jato. Considerando especulações, sobre o suposto modus operandi de Moro na Lava Jato, de alterar nomes nos documentos com a finalidade de pôr Lula na cadeia, o desafio agora seria provar se Moro “vendia” não-condenações no caso Banestado. Ele dispunha de uma desculpa legal conveniente: sem o “corpo do crime” arrolado no processo criminal no Brasil, ninguém poderia ser considerado culpado.
À medida que mergulhamos nos detalhes excruciantes, o Banestado se parece cada vez mais com o fio de Ariadne que pode desvelar o começo da destruição da soberania do Brasil. Um conto cheio de lições a serem aprendidas por todo o Sul Global.

O rei do dólar paralelo

Naquela live épica, Castilho fez soar um alarme quando se referiu a 17 milhões de dólares que haviam transitado pela filial do Banestado em Nova York e depois, de todos os lugares do mundo possíveis, acabou sendo enviado para o Paquistão. Ele e sua equipe descobriram isso apenas alguns meses após o 11 de setembro. Enviei-lhe algumas perguntas sobre o assunto, e ele respondeu, por meio de Romulus Maya, que seus investigadores podem desenterrar tudo novamente, pois um relatório indicaria a origem desses fundos.
É a primeira vez que essas informações são divulgadas ― e suas ramificações podem ser explosivas. Estamos falando de fundos duvidosos, possivelmente de operações com drogas e armas, saindo da tríplice fronteira, que historicamente é um dos grandes nódulos de operações clandestinas da CIA e do Mossad.
O financiamento pode ter sido proporcionado pelo chamado rei do dólar paralelo, Dario Messer, via contas CC5. Não é segredo que os operadores do mercado paralelo na tríplice fronteira estão todos conectados ao tráfico de cocaína do Paraguai ― e também a evangélicos. Essa é a base do que Romulus Maya, Piero Leirner e eu já caracterizamos como o “Evangelistão da Cocaína”.
Messer é uma engrenagem indispensável na máquina de reciclagem associada ao tráfico de drogas. O dinheiro viaja para paraísos fiscais sob a proteção do imperialismo, é devidamente lavado, e ressuscita gloriosamente em Wall Street e no centro financeiro de Londres, com o bônus extra para os Estados Unidos de diminuir parte de seu déficit em conta corrente. Taí a deixa para entender a “exuberância irracional” de Wall Street.
O que realmente importa é a livre circulação de cocaína; escondida ― por que não? ― numa inusitada carga de soja ― o que, de quebra, garante a saúde do agronegócio. Essa é uma imagem duplicada da rota da heroína da CIA no Afeganistão, que eu detalhei em outro lugar.
Em termos políticos, Messer é, antes de mais nada, o elo perdido crucial da ligação com Moro. Até uma grande mídia como O Globo foi forçada a admitir, em novembro passado, que os negócios sombrios de Messer foram “monitorados” sem trégua por duas décadas, por diferentes agências de inteligência norte-emericanas, em Assunção e em Ciudad del Este, no Paraguai. Moro, por sua vez, é um trunfo para duas diferentes agências norte-americanas ― o FBI e a CIA ―, além do Departamento de Justiça.
Nessa trama complexa, Messer pode ser o coringa. Mas também existe um Falcão Maltês, e, como aquele imortalizado no filme clássico de John Huston [a partir da obra literária homônima de Dashiell Hammett], existe apenas um Falcão Maltês. Ele está atualmente em um cofre na Suíça.
Refiro-me aos documentos oficiais originais, apresentados pela gigante da construção civil Odebrecht à operação Lava Jato, que foram indiscutivelmente “manipulados”, “a princípio” pela própria empresa, mas também, “talvez”, em conluio com o então juiz Moro e a equipe de acusação liderada por Deltan Dallagnol.
E isso foi feito não apenas com o objetivo de incriminar Lula e as pessoas próximas a ele, mas também, estrategicamente, para excluir qualquer menção a indivíduos que não deviam, sob hipótese alguma, ser trazidos à luz… ou aos bancos dos tribunais. E, sim, você adivinhou se pensou no rei do dólar paralelo, ao que tudo indica, acolitado pelos Estados Unidos.
O primeiro impacto político sério que se seguiu à liberação dos vazamentos do caso Banestado é que os advogados de Lula, Cristiano e Valeska Zanin, finalmente, e de forma oficial, solicitaram às autoridades suíças a entrega dos originais.
O ex-governador Roberto Requião, aliás, foi o único político brasileiro a pedir publicamente a Lula, em fevereiro, que buscasse os documentos na Suíça. Não é surpresa que Requião seja agora a primeira figura pública no Brasil a pedir a Lula que torne ostensivo todo o seu conteúdo, tão logo o ex-presidente ponha as mãos nele.
A lista real, não adulterada, de pessoas envolvidas na corrupção da Odebrecht está repleta de grandes nomes ― incluindo a elite judiciária.
Confrontando as duas versões, os advogados de Lula podem, finalmente, ser capazes de demonstrar a fabricação de “evidências” que levaram à prisão de Lula e também, entre outros desdobramentos, ao exílio do ex-presidente do Equador Rafael Correa, à prisão de seu ex-vicepresidente Jorge Glas, a prisão do ex-presidente Ollanta Humala e sua esposa e, mais dramaticamente, ao suicídio do ex-presidente do Peru, Alan Garcia.

Patriot Act brasileiro

A grande questão política agora não é descobrir o grande mestre manipulador que enterrou o escândalo do Banestado há duas décadas. Como detalhou o antropólogo Piero Leirner, o que importa é que a apuração das informações contidas no vazamento das contas CC5 do caso se concentre no maquinário de como a corrupta grande burguesia brasileira, em associação com políticos e agentes do Judiciário (nacionais e estrangeiros), se entronizou como classe rentista e, ainda assim, eternamente submissa e controlada pelos arquivos “secretos” do imperialismo.
O vazamento inédito da lista de contas CC5 do Banestado pode permitir o reconhecimento do sentido dos lances políticos por trás do fracasso recente de Lula. Trata-se de uma guerra de espectro total (“híbrida”), onde piscar não é uma opção. E o projeto geopolítico e geoeconômico de destruir a soberania do Brasil e transformá-la em uma subcolônia imperial está vencendo, sem dúvida.
O potencial explosivo desses vazamentos do Banestado e do CC5gate pode ser medido pela reação dos diversos limited hangouts [“mediadores coarctativos” ou “entregadores limitados” ou, numa velha terminologia sindical, “pelegos”]: um silêncio estrondoso, que abrange partidos de esquerda e meios alternativos supostamente progressistas. Para a grande mídia, por seu turno, para quem o ex-juiz Moro é uma vaca sagrada, um vazamento como esse é considerado, na melhor das hipóteses, uma “história antiga”, “fake news” ou até mesmo não mais que uma “farsa”.
Lula está diante de uma decisão fatídica. Com acesso a nomes até agora mantidos nas sombras pela Lava Jato, ele pode ser capaz de detonar uma bomba de nêutrons e resetar todo o jogo político, expondo um furúnculo de ministros do Supremo ligados à Lava Jato, promotores federais, promotores estaduais, jornalistas e até mesmo generais que receberam fundos da Odebrecht no exterior. Sem falar de trazer para a berlinda o rei do dólar paralelo, Dario Messer, quem, de fato, controla o destino de Moro. Isso significa, em última instância, apontar um dedo diretamente para o estado profundo dos Estados Unidos. Não vai ser uma decisão fácil de tomar.
Agora está claro que os credores do Estado brasileiro eram, originalmente, devedores. Cruzando as contas, seria possível fechar o círculo contábil do lendário “desequilíbrio fiscal” do Brasil ― exatamente no momento em que essa praga é embandeirada, mais uma vez, com a intenção de dizimar os ativos do precarizado Estado brasileiro. O ministro das Finanças, Paulo Guedes, neopinochetista e líder de torcida de Milton Friedman, já avisou que vai continuar vendendo empresas estatais como se não houvesse amanhã.
O plano B de Lula seria fechar um tipo de acordo que enterraria todo o dossiê ― exatamente como a investigação original do Banestado foi enterrada há duas décadas ― na tentativa de preservar a liderança do Partido dos Trabalhadores como uma oposição domesticada, sem tocar naquilo que se tornou o essencial na questão: como e por que Guedes está vendendo o Brasil.
Essa parece ser a opção preferida de Fernando Haddad, que perdeu a eleição presidencial para Bolsonaro em 2018 e é uma espécie de versão brasileira de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile. Ele é um neoliberal envergonhado, que sacrificaria tudo para ter mais uma chance de ascender ao poder, possivelmente em 2026.
Se o Plano B acontecer, ele pode vir a galvanizar a ira dos sindicatos e movimentos sociais ― a classe trabalhadora brasileira de carne e osso, que está às portas de ser dizimada pelo neoliberalismo anabolizado e pelo conluio tóxico da versão brasileira, inspirada nos EUA, do Patriot Act, com esquemas militares que lucram com o Evangelistão da Cocaína.
E tudo isso depois que Washington ― com sucesso ― quase destruiu a campeã nacional Petrobras, um dos alvos iniciais da espionagem da NSA. Zanin, advogado de Lula, também acrescenta ― e talvez já seja tarde demais ― que a “cooperação informal” entre Washington e a operação Lava Jato, nos termos do Decreto 3.810/02, era, na realidade, ilegal.

O que Lula vai fazer?

No pé em que está a apuração das informações a partir do vazamento do caso Banestado, uma primeira lista VIP do Banestado foi elaborada. Ela inclui o atual presidente do Superior Tribunal Eleitoral e ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, banqueiros, magnatas da mídia e industriais. O promotor da operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, por sua vez, parece ser muito próximo da corte judiciária neoliberal instalada no STF.
A lista VIP pode ser lida como um roteiro das práticas de lavagem de dinheiro dos brasileiros do 0,01% ― estimados em aproximadamente 20.000 famílias detentoras da dívida interna brasileira de quase um trilhão de dólares. Uma grande parte desses fundos foi reciclada para voltar ao Brasil como “investimento estrangeiro” através do esquema CC5 na década de 1990. E foi exatamente assim que a dívida interna do Brasil explodiu.
Ainda assim, ninguém sabe, em detalhes, onde a torrente de dinheiro sujo, lavada pelo Banestado, realmente acabou chegando. A “bolsa do defunto” nunca foi formalmente reconhecida como tendo sido trazida de volta de Nova York, e nunca entrou em nenhum processo criminal. No entanto, o crime de lavagem de dinheiro pode ser considerado como continuado ― e, assim, sua prescrição não seria aplicável. Portanto, alguém ou alguns, poderiam ir para a cadeia. Parece que, para breve, não vai ser o caso.
Enquanto isso, patrocinado pelo Estado Profundo dos Estados Unidos, pelas finanças transnacionais e pelos operadores das elites locais ― alguns de farda, outros de toga ― o golpe de guerra híbrida em câmera lenta contra o Brasil continua se espraiando, dia após dia, aproximando-se do domínio de espectro total.
O que nos leva à questão-chave final: o que Lula vai fazer a respeito?