quinta-feira, 29 de julho de 2021

Vídeo do Canal Galãs Feios: Bolsonaro e Kicis recebem amigos do Adolfinho

 

Do Canal Galãs Feios:

Precisou o presidente e a Bia Kicis tirarem foto com uma política alemã de partido do adolfinho para a ficha cair de alguns: “Poxa, não é que esse governo tem admiração pelos neonazis espalhados pelo mundo mesmo. Surpreendente”. Helder Maldonado comenta.





The Intercept: Pesquisadora encontra carte de Bolsonaro publicada em sites neonazistas em 2004. Reportagem de Leandro Demori

 


A antropóloga Adriana Dias é uma das maiores
autoridades em neonazismo no Brasil. Carta e banner
que levava a site de Bolsonaro reforçam ideia de que a
base bolsonarista é neonazista

                    Ilustração: Amanda Jungles/The Intercept Brasil; Getty Images


Reportagem de Leandro Demori publicada no The Intercept Brasil:


FOI POR ACASO que a antropóloga Adriana Dias encontrou provas de que neonazistas brasileiros apoiam Jair Bolsonaro há pelo menos 17 anos.

Dias estava em casa se preparando para uma palestra e precisou consultar uma parte do vasto material que armazena em Campinas, onde vive e trabalha. Há 20 anos pesquisando a movimentação de grupos neonazistas no Brasil, a professora da Unicamp pediu para que o marido buscasse um site que ela havia fisicamente impresso no longínquo ano de 2006.

Doutora em antropologia social, Dias já imprimiu milhares de páginas de dezenas de sites neonazistas em língua portuguesa – isso antes de derrubá-los para sempre. Adriana Dias é uma caçadora digital de nazistas.

Sempre que encontra um desses sites, ela pede aos provedores para que o conteúdo seja tirado do ar. Antes, no entanto, imprime todas as páginas para arquivar em sua pesquisa e tê-los como prova. “Eu abri em uma página aleatória e ali estava o nome de Jair Bolsonaro”.

O material é uma prova irrefutável do apoio de neonazistas brasileiros a Bolsonaro quando o hoje presidente da República era apenas um barulhento e improdutivo deputado. A base bolsonarista é, há quase duas décadas, composta por neonazistas.

Três sites diferentes de neonazistas trazem um banner com a foto de Bolsonaro – com link que leva diretamente ao site que o político tinha na época – e uma carta em que o parlamentar afirmava: “Ao término de mais um ano de trabalho, dirijo-me aos prezados internautas com o propósito de desejar-lhes felicidades por ocasião das datas festivas que se aproximam, votos ostensivos aos familiares”.

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Imagem de Bolsonaro fardado no site Econac em 2004, além de um banner para seu site. É a única menção a um político no site neonazista

 

Imagem: Reprodução/Web Archive

O melhor vinha depois: “Todo retorno que tenho dos comunicados se transforma em estímulo ao meu trabalho. Vocês são a razão da existência do meu mandato.”

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Carta assinada por Jair Bolsonaro, em 2004, publicada pelo site neonazista Econac.

 

Imagem: Reprodução/Web Archive

Nós não conseguimos descobrir se Bolsonaro enviou a carta, via gabinete em Brasília, apenas para as pessoas que administravam os sites neonazistas. Mas uma coisa chamou atenção da pesquisadora Adriana Dias: a mensagem não foi publicada em canto nenhum da internet além dessas páginas.

Eu pedi para que nosso repórter em Brasília, Guilherme Mazieiro, fosse atrás da história. Ele conversou com um servidor de carreira que ocupou um cargo de comando na administração da Câmara para saber como a casa arquiva e-mails enviados e recebidos por parlamentares e como, eventualmente, poderíamos legalmente acessá-los.

A fonte explicou que o conteúdo dos e-mails é tratado como informação pessoal e, portanto, não passível de ser obtido via Lei de Acesso à Informação, mas apenas em casos de decisão judicial, como busca e apreensão. A resposta foi confirmada em pedido de informação oficial que Mazieiro fez à Câmara. Mas o backup existe, segundo a fonte, desde 1995.

Tentamos também outro caminho. Há um processo na Justiça Federal em Minas Gerais sobre um neonazista preso por ter registrado, em foto, o momento em que ele simula o enforcamento um morador de rua. Durante a busca e apreensão em sua casa, policiais encontraram uma carta enviada a ele por Jair Bolsonaro. Tentamos acesso à carta, para compará-la àquela estampada nos sites neonazistas.

Mazieiro enviou e-mails em 29 de abril e 7 de junho ao procurador Carlos Alexandre Ribeiro de Souza Menezes para conversar. Não tivemos resposta. O processo corre no Tribunal Regional Federal da 1a Região, em Brasília. Em sigilo.

Jair Bolsonaro já elogiou as qualidades de Hitler, já tirou foto com sósia de Hitler, já disse que o holocausto poderia ser perdoado. Seu ex-secretário especial da Cultura reproduziu, no início de 2020, em discurso, falas, ambientação e postura, um vídeo copiando o político nazista Joseph Goebbels. Seu assessor especial, Filipe Martins, é réu por fazer um gesto de white power em uma sessão do Senado.

Na semana passada, Bolsonaro e vários membros de seu governo receberam sorridentes a deputada alemã Beatrix von Storch, do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), neta do ministro das Finanças de Hitler, o homem que liderou o confiscos dos bens dos judeus enviados para os campos de concentração e extermínio durante a ditadura do Partido Nazista.

Agora, tornamos público o fato de que neonazistas brasileiros apoiam Jair desde, pelo menos, 2004. Que não se trate isso mais como especulação, coincidência ou provocação. A base do bolsonarismo é nazista. E sabemos onde pode haver provas que confirmem a ligação do presidente com a ideologia de Hitler: basta que a Câmara dos Deputados abra seus arquivos – se não à população brasileira, a alguma autoridade interessado em rastrear o neonazismo por aqui – e que o procurador Carlos Alexandre Ribeiro de Souza Menezes preste contas de um processo fundamental para a história do país.

A bola está com Artur Lira e o com Ministério Público Federal. E com o Supremo Tribunal Federal, que já mandou investigar, no passado, ameaças à democracia brasileira.

The Intercept: Bia Kicis flerta com nazismo e lidera maior ataque aos indígenas brasileiros desde 1500. Reportagem de João Filho

 

Reforçando seu alinhamento político, a deputada federal pró-Bolsonaro posa com sua aliada nazista, Beatrix Von Storch.

Artigo de João Filho no The Intercept Brasil:

A deputada Bia Kicis em um encontro com Beatrix Von Storch, uma das líderes do partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland).

A deputada Bia Kicis em um encontro com Beatrix Von Storch, uma das líderes do partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland).  Foto: reprodução/twitter




NO MESMO DIA em que foi divulgado o áudio de um tenente-coronel da Funai dizendo que atiraria contra indígenas isolados, a deputada federal Bia Kicis foi às redes sociais para saudar uma nazista alemã que defendeu que os refugiados fossem assassinados com tiros. A nazista — me refiro à alemã —  disse textualmente durante a crise dos refugiados em 2015: “É nosso dever nos defendermos com armas. Atiraremos inclusive em mulheres e crianças”. Para Bia Kicis, a foto com a nova parceira nazista representa a consolidação de uma aliança: “conservadores do mundo se unindo para defender valores cristãos e a família.”

Beatrix Von Storch é vice-presidente do partido nazista alemão Alternative für Deustschland (Alternativa para a Alemanha) e neta de um ministro de finanças de Hitler. Em 2018, ela criticou a “islamização do país” e afirmou que “O reinado desse islã na Alemanha não é nada mais que o reinado do mal”. Estima-se que há 4 milhões de muçulmanos vivendo na Alemanha. Se antes os nazistas alemães combatiam os judeus, hoje os inimigos a serem destruídos são os muçulmanos.

Eduardo Bolsonaro também postou foto com a alemã e ressaltou as semelhanças do bolsonarismo com o nazismo: “Somos unidos pelos ideais de defesa da família, proteção das fronteiras e cultura nacional” —  basicamente, o tripé ideológico que sustenta o nazismo no mundo.

As semelhanças entre nazismo e bolsonarismo não são poucas nem recentes. O alinhamento ideológico sempre foi claro. Lembremos que até mesmo um líder dos supremacistas brancos da Ku Klux Klan, David Duke, elogiou Bolsonaro e atestou as afinidades: “ele [Bolsonaro] soa como nós. Ele é totalmente um descendente europeu. Ele se parece com qualquer homem branco nos EUA, em Portugal, Espanha ou Alemanha e França. E ele está falando sobre o desastre demográfico que existe no Brasil e a enorme criminalidade que existe ali, como, por exemplo, nos bairros negros do Rio de Janeiro”.

Uma série de episódios protagonizados por integrantes o governo Bolsonaro confirma esse alinhamento: o discurso que o ex-secretário de Cultura Roberto Alvim fez copiando frases do ministro nazista Joseph Goebbels; o gesto supremacista de Filipe Martins; o copo de leite que Bolsonaro tomou em um de suas lives em referência aos neonazistas americanos.

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Bolsonaro toma leite em live, referência explícita a um gesto supremacista branco.

 

Foto: Reprodução/Youtube

Bolsonaro já atraía a admiração dos nazistas quando era deputado. Como esquecer da manifestação convocada por nazistas paulistas em 2011 em defesa das declarações racistas e homofóbicas do então deputado Jair Bolsonaro?  Ou da carta enviada por ele que foi apreendida pela polícia na casa de um neonazista mineiro? A confraternização entre parlamentares bolsonaristas e os nazistas alemães apenas formalizou essa aliança no campo institucional.

Mas voltemos a falar de Bia Kicis. Ela e sua amiga nazista compartilham da mesma opinião sobre os gays. A alemã também é uma ferrenha opositora do casamento gay, diz que “homofobia é um termo indefinido” e se refere à população LGBTQIA+ como uma “minoria barulhenta”. Para a AfD, o partido nazista comandado por Beatrix, as escolas alemãs “enfatizam unilateralmente homossexuais, transexuais e bissexuais”. Qualquer semelhança com a obsessão sobre o famoso delírio da “ideologia de gênero” no Brasil não é mera coincidência.

O trabalho de Bia Kicis à frente da presidência da comissão mais importante da Câmara, a de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, deve estar fazendo Adolf Hitler sorrir no inferno. Kicis atuou intensamente pela aprovação do PL 490, o projeto de lei que reduz os direitos dos povos indígenas sobre as terras demarcadas. Entre as alterações, a mais absurda é aquela que estabelece um marco temporal para a validade da demarcação das terras: só poderão ser consideradas terras indígenas aquelas que já estavam em posse dos povos indígenas até a promulgação da Constituição de 1988.

O projeto também facilita o contato com povos isolados, proíbe que se amplie terras que já foram demarcadas e permite que garimpeiros explorem livremente os territórios indígenas. Na prática, o projeto pode impulsionar ainda mais o já existente massacre dos povos indígenas por garimpeiros, que serão empoderados pela nova lei. Caso seja aprovada no plenário da Câmara, a lei permitirá que o governo construa rodovias e hidrelétricas nos territórios indígenas, sem precisar consultar as etnias dessas regiões. O bolsonarismo encara os povos indígenas como seus parceiros nazistas na Alemanha encaram os refugiados.

Bia Kicis fez de tudo para cercear as vozes indígenas durante o debate em torno do PL. A presidente, que se recusa a usar máscara durante os debates, interrompeu a palavra da deputada Joênia Wapichana, da  Rede de Roraima, em vários momentos. A deputada é a primeira mulher indígena eleita no país e pleiteava a realização de uma audiência pública para que as comunidades tradicionais fossem ouvidas sobre o projeto de lei. Bia Kicis não só interrompeu Joênia como cortou sua palavra durante o debate. A Bia alemã deve ter ficado orgulhosa.

Nem mesmo uma carta enviada por nove empresas de varejo e produção de alimentos da Europa ameaçando boicotar comercialmente o Brasil fez Bia Kicis mudar de ideia. A carta dizia que se as novas medidas que prejudicam as proteções existentes ao meio ambiente forem aprovadas, as empresas “não terão escolha a não ser reconsiderar o uso da cadeia de suprimentos de commodities agrícolas brasileiras.” O desrespeito ao meio ambiente no Brasil é um tema sensível, que tem intensificado o processo de transformação do país em pária internacional. O bolsonarismo não quer nem saber. Como já disse o ex-chanceler Ernesto Araújo, “que sejamos pária!”.

Comparar o bolsonarismo com o nazismo não é uma forçação de barra. É a constatação de um fato. As duas correntes têm tendências sexistas, racistas, islamofóbicas e xenófobas. Há muito mais semelhanças do que diferenças. Pode-se dizer que o bolsonarismo é um subproduto do nazismo no Brasil ou uma versão adaptada dele. Hoje, os bolsonaristas perderam completamente a vergonha e agora festejam abertamente as semelhanças com o nazismo.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Reinaldo Azevedo: Braga Netto tem de ser investigado por ameaças. Fala, Aras!

 

As notícias crimes no Supremo contra as ameaças golpistas Walter Braga Netto, constituindo crimes de responsabilidade, na análise de Reinaldo Azevedo

Vídeo do Canal BandNews FM:




Quem é a deputada nazista que Bolsonaro abraçou

 

Beatrix von Storch é uma das principais liderança da AfD, partido ultranacionalista alemão que congrega várias alas nazistas. Xenófoba e “boa cristã”, ela mostrou-se favorável a atirar em refugiados que cruzassem as fronteiras do país

Por Jean-Philip Struck, na DW Brasil

Na quinta-feira (22/07), a deputada de extrema direita Bia Kicis (PSL-DF) exibiu em suas redes sociais uma foto com a parlamentar alemã Beatrix von Storch, do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD). O registro foi feito durante um encontro em Brasília. Poucas horas depois, foi a vez de o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho “03” do presidente Jair Bolsonaro, fazer o mesmo.

“Hoje recebi a deputada Beatrix von Storch, do partido Alternativa para Alemanha, o maior partido conservador daquele país. Conservadores do mundo se unindo para defender valores cristãos e a família”, escreveu Kicis. “Somos unidos por ideais de defesa da família, proteção das fronteiras e cultura nacional”, escreveu, por sua vez, Eduardo Bolsonaro.

“A Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha) é um partido político alemão de extrema direita, fundado em 2013, com tendências racistas, sexistas, islamofóbicas, antissemitas, xenófobas e forte discurso anti-imigração”, afirmou o Museu do Holocausto sediado em Curitiba, em reposta à publicação da deputada Bia Kicis.

Uma família com passado sombrio

Membro de uma família antiga de origem nobre, Beatrix von Storch é, pelo lado materno, neta de Johann Ludwig Schwerin von Krosigk, que serviu como ministro das Finanças da ditadura de Adolf Hitler por mais de 12 anos. Inicialmente um conservador tradicional, Schwerin von Krosigk foi nomeado para o posto nos derradeiros meses da República de Weimar, mas acabou abraçando o nazismo com a ascensão de Hitler em 1933.

Schwerin von Krosigk (terceiro de pé da esq. para dir.) e outros ministros no início do governo nazista
Schwerin von Krosigk (terceiro de pé da esq. para dir.) e outros ministros no início do governo nazista

Na posição de ministro das Finanças, Schwerin von Krosigk foi responsável por confiscar propriedades de judeus e explorar financeiramente áreas conquistadas pela Alemanha nazista. Após o suicídio de Hitler, em abril de 1945, Schwerin von Krosigk foi ainda alçado ao posto de “ministro-chefe” (equivalente a chanceler) no efêmero governo do almirante Karl Dönitz, que havia assumido o cargo de presidente do que restava da Alemanha. Concentrado numa área do norte do país que ainda não havia sido conquistada pelos Aliados, o gabinete durou apenas alguns dias, e logo seus membros foram capturados por tropas birtânicas.

Schwerin von Krosigk seria mais tarde julgado e condenado pelo Tribunal de Nurembergue, na etapa conhecida como o “julgamento dos ministros”, entre 1948 e 1949. Ele foi sentenciado a dez anos de prisão por crimes de guerra, mas foi beneficiado por uma anistia em 1951. Morreu em 1977.

Pelo lado paterno, o outro avô de Beatrix von Storch também não foi menos controverso. Filho de um duque, Nikolaus von Oldenburg era membro tanto do Partido Nazista quanto da SA, a força paramilitar da legenda. Em 1941, Von Oldenburg escreveu uma carta para Heinrich Himmler, o comandante da SS e um dos arquitetos do Holocausto, perguntando se ele poderia ajudá-lo a comprar propriedades confiscadas no Leste Europeu.

Ativa em círculos ultraconservadores

Ativa em círculos de direita desde seus tempos de faculdade, Beatrix von Storch, de 50 anos, chegou a trabalhar como advogada, mas no fim dos anos 2000 deixou a profissão para se dedicar à política em tempo integral.

Na sua viagem ao Brasil nesta semana, ela foi acompanhada de seu marido, Sven von Storch, de quem adotou o sobrenome em 2010. Ele aparece na foto do encontro divulgada por Eduardo Bolsonaro.

Sven, membro de uma família alemã que se fixou no Chile após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, dirige junto com sua mulher vários coletivos e lobbies ultraconservadores na Alemanha, que promovem ideias antimigratórias e “valores cristãos” e se opõem ao casamento gay.

Em 2013, veículos da imprensa alemã levantaram a suspeita de que o casal havia embolsado 98 mil euros que haviam sido doados para um desses coletivos dirigidos por Sven. Beatrix von Storch negou irregularidades e disse que sacou o dinheiro para colocá-lo em um cofre como medida de prevenção.

Sven também costuma publicar textos no site Freie Welt – ligado aos coletivos do casal – advertindo contra o que chama de “grande reset” mundial e a “ideologia de gênero”, entre outros temas que costumam ser explorados pela direita mundial, inclusive a bolsonarista.

Um partido de ultradireita

Em 2013, Beatrix Von Storch se filiou ao partido Alternativa para a Alemanha (AfD), à época ainda uma sigla majoritariamente eurocética moderada que contava com vários liberais. Inicialmente, os fundadores tinham como objetivo combater o uso do euro como moeda e promover a volta do marco alemão.

Mas a AfD rapidamente se converteu de maneira veloz em um agrupamento ultranacionalista e anti-imigração entre 2014 e 2015. A deputada foi uma das responsáveis por essa guinada. Como resultado, vários fundadores deixaram a sigla, afirmando que o partido havia se tornado um veículo “iliberal”, que se distanciou do seu propósito original.

De fato, a AfD é hoje um guarda-chuva para diferentes grupos de ultradireita, como arquiconservadores, fundamentalistas cristãos e ultranacionalistas. Muitos membros também são acusados regularmente de nutrir simpatias pelo nazismo.

Em 2020, por exemplo, um ex-porta-voz da sigla causou indignação ao ser gravado afirmando que se “orgulhava de sua ascendência ariana” e se descrevendo como “um fascista”. Meses depois, ele foi novamente gravado sugerindo que imigrantes deveriam “ser mortos com gás”.

Outros membros de destaque da sigla também foram alvo de críticas por posições abertamente racistas ou que minimizavam o nazismo.

Em 2017, o atual colíder da bancada da AfD no Parlamento, Alexander Gauland, disse que os alemães deveriam ter orgulho dos soldados que lutaram nas duas guerras mundiais. Em 2016, ele já havia provocado indignação ao ofender o zagueiro da seleção alemã Jérôme Boateng, que tem origem africana, afirmando que nenhum alemão gostaria de ter “como vizinho” alguém como o jogador.

Em janeiro de 2017, Björn Höcke, deputado da AfD no parlamento estadual da Turíngia, chamou o Memorial do Holocausto em Berlim de “monumento da vergonha”. Höcke também é autor de um livro que encampa teorias conspiratórias populares na extrema direita, como a chamada “grande troca populacional”, que sustenta que governos europeus, com a cooperação das “elites”, conspiram para trocar a população branca por imigrantes muçulmanos ou africanos.

Alex Gauland, Alice Weidel e Von Storch, membros do grupo responsável por guinada da AfD
Alex Gauland, Alice Weidel e Von Storch, membros do grupo responsável por guinada da AfD

Em 2020, uma ala radical da AfD ligada a Höcke, conhecida como “Der Flügel”, tornou-se objeto especial de vigilância pelo Departamento Federal para a Proteção da Constituição (BfV, o serviço secreto interno da Alemanha). À época, a ala ganhou destaque após o atentado racista de Hanau, que deixou dez mortos. O autor do ataque, embora não oficialmente ligado à AfD, deixou um manifesto que encampava ideias como a teoria conspiratória da “grande troca”. O partido acabou sendo acusado de insuflar o ódio e estimular atentados.

No início de 2021, foi revelado pela imprensa alemã que o BfV havia passado a monitorar toda a AfD por suspeita de extremismo. No entanto, em março, tribunais ordenaram a suspensão da vigilância, apontando que ela feria o princípio de igualdade de oportunidades para os partidos que vão disputar as eleições federais em setembro.

Recentemente, a AfD abraçou em seu programa eleitoral o negacionismo da pandemia. Vários membros também abraçaram manifestações contra medidas de isolamento para frear a crise.

Paralelamente, Beatrix von Storch também liderou com outros membros da AfD um movimento similar dentro da Associação Friedrich A. von Hayek, um think tank alemão fundado em 1998 para promover o liberalismo clássico. Após a entrada de figuras como Von Storch e outros membros da AfD nos anos 2010, o grupo se voltou para posições ultraconservadoras. Um membro da ala liberal descreveu a guinada como um processo de “infiltração por reacionários”.

Declarações incendiárias

O passado nazista da família de Beatrix von Storch foi destacado pela imprensa alemã a partir de 2014, quando ela foi eleita deputada europeia pela AfD.

Em 2016, Von Storch manifestou aprovação à mensagem de um usuário do Facebook que havia perguntado se guardas de fronteira deveriam atirar em refugiados que chegassem ao país, inclusive mulheres com crianças.

À época, o comentário de Von Storch e uma declaração similar de Frauke Petry, então líder da AfD, causaram uma onda de indignação na Alemanha. Vários políticos lembraram na ocasião que os últimos episódios de refugiados baleados na Alemanha haviam envolvido fugitivos da Alemanha Oriental que tentaram escalar o Muro de Berlim.

Paradoxalmente, esses comentários de Von Storch elevaram sua popularidade na cena nacionalista e de ultradireita. Em 2017, ela foi eleita para o Bundestag (Parlamento alemão), representando Berlim. Atualmente, ela também é uma das vice-presidentes da sigla.

Em janeiro de 2018, ela voltou a causar controvérsia ao reclamar publicamente de tuítes da Polícia de Colônia que desejavam feliz ano novo em várias línguas, inclusive o árabe. “O que diabos está acontecendo neste país? Por que um site oficial da polícia da Renânia do Norte-Vestfália [estado em que fica Colônia] tuíta em árabe. Eles pretendem apaziguar as hordas de homens bárbaros, muçulmanos e estupradores em massa dessa maneira?”, escreveu na ocasião. A rede social apagou a mensagem por violação das regras.

Recentemente, Von Storch também passou a abordar outro tema que tem mobilizado redes de ultradireita pelo mundo: o cerco das redes sociais como o Facebook e o Twitter contra publicações incendiárias ou extremistas. Reclamações contra as redes têm unido trumpistas, bolsonaristas e outros membros da cena de ultradireita pelo mundo. Numa publicação recente, ela disse que critérios “esquerdistas” das redes “cancelam” especialmente conservadores.

Dentro da AfD, a deputada costuma ser apontada como membro da ala “cristã ultraconservadora”. Em 2014, quando os ultradireitistas tomaram o partido, ela afirmou que via a sigla como um veículo para “uma visão cristã da humanidade”. Na imprensa alemã, Von Storch costuma ser classificada como “reacionária”, “arquiconservadora” e “cristã radical”.

Em suas publicações na internet, ela assume posições pró-Israel, como ocorre com outros cristãos ultraconservadores, inclusive no Brasil. Oficialmente, ela também ocupa o cargo de vice-comissária de combate ao antissemitismo do grupo parlamentar da AfD.

No entanto, boa parte da comunidade judaica alemã vê seu partido com desconfiança e temor. Em 2019, mais de uma dezena de deputados estaduais da AfD deixaram o plenário do Parlamento da Baviera em protesto ao discurso de  Charlotte Knobloch, uma das mais conhecidas líderes da comunidade judaica alemã. Na ocasião, Knobloch, ex-chefe do Conselho Central dos Judeus da Alemanha (ZdJ, na sigla em alemão), acusou os direitistas da AfD de minimizarem os crimes nazistas e terem relações estreitas com a extrema direita alemã. 

“Um partido representado aqui menospreza esses valores [democráticos] e minimiza os crimes dos nacional-socialistas”, disse na ocasião Knobloch, que nasceu em 1932 e sobreviveu ao Holocausto ao ser salva por uma família de fazendeiros católicos. “Essa chamada Alternativa para a Alemanha baseia a sua política no ódio e na discriminação e, não apenas na minha opinião, não se assenta sobre a nossa Constituição democrática.”

Outras conexões da AfD com o bolsonarismo

A visita de Beatrix von Storch aos deputados Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis não é a única conexão recente entre membros da AfD e a cena bolsonarista/ultraconservadora brasileira. Em 2018, na ocasião da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência, a conta no Twitter da bancada da AfD no Bundestag reproduziu uma mensagem do deputado Petr Bystron felicitando Bolsonaro pela vitória.

Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo
O clã Bolsonaro compartilha várias ideias com a AfD

“Jair Bolsonaro é um conservador franco que vem trabalhando para combater a corrupção de esquerda e restaurar a segurança e prosperidade para o seu povo”, disse em nota o deputado. “Como ocorre com a AfD, ele foi inimizado por todos os lados por ser um outsider que desafiou o sistema”, completou Bystron.

Em março de 2021, o deputado da AfD Waldemar Herdt viajou a São Paulo para visitar o Templo de Salomão e se encontrar com pastores da Igreja Universal do Reino de Deus. Nascido no Cazaquistão, Herdt faz parte da minoria alemã-russa que foi deportada pelo regime soviético para a Ásia Central durante a ditadura de Josef Stalin. Quase todos os membros desse grupo migraram para a Alemanha nos anos 1990, após o fim do comunismo. Dentro da AfD, Herdt é um dos representantes da ala cristã ultraconservadora, a mesma de Von Storch.

Após as críticas pela sua recepção a Von Storch, a deputada bolsonarista Bia Kicis afirmou: “A deputada Beatrix von Storch é uma parlamentar conservadora, que denuncia política de imigração na Alemanha e ataques às liberdades individuais, como a liberdade de expressão. Nada desabona sua conduta, por tudo que pesquisei. É a mesma narrativa contra conservadores aqui e no mundo.”

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Da Alemã Deutsche Welle: Abraçando a neta ultradireitista de um nazista, Bolsonaro fez o Brasil bater no fundo do poço

 

    "No momento, praticamente não existe um chefe de governo democrático que queira se encontrar com Jair Bolsonaro. Na União Europeia, evita-se prudentemente o presidente brasileiro, pois isso não pegaria bem junto ao eleitorado. Nem mesmo os fãs do britânico Boris Johnson devem ter uma opinião muito boa de Bolsonaro, conhecido no exterior sobretudo por duas coisas: a devastação da Floresta Amazônica e sua catastrófica gestão da pandemia, com mais de 550 mil brasileiros mortos."

 Da Deutsche Welle:

COLUNA CARTAS DO RIO

Brasil bate no fundo do poço do isolamento internacional

Na falta total de interlocutores de primeiro escalão, Bolsonaro se encontrou com uma obscura deputada ultradireitista alemã. O encontro sublinha o desastre que o bolsonarismo perpetrou na política externa do país.

    
Vice-porta-voz da Alternativa para a Alemanha Beatrix von Storch sobe uma escada

Vice-porta-voz da Alternativa para a Alemanha Beatrix von Storch se dignou a encontrar o presidente brasileiro

No momento, praticamente não existe um chefe de governo democrático que queira se encontrar com Jair Bolsonaro. Na União Europeia, evita-se prudentemente o presidente brasileiro, pois isso não pegaria bem junto ao eleitorado. Nem mesmo os fãs do britânico Boris Johnson devem ter uma opinião muito boa de Bolsonaro, conhecido no exterior sobretudo por duas coisas: a devastação da Floresta Amazônica e sua catastrófica gestão da pandemia, com mais de 550 mil brasileiros mortos.

Como ninguém quer se encontrar com Bolsonaro, ele aceita o que vem. Nesse caso foi, justamente, Beatrix von Storch, deputada federal e vice-porta-voz da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Não se trata de um partido normal: o Departamento Federal de Proteção da Constituição – uma espécie de Abin alemã – levantou suspeitas de que a sigla abrigaria extremistas e impunha ameaças à ordem democrática, chegando a colocá-la sob observação do serviço secreto.

Além disso, o presidente do Brasil se encontrou com uma mulher que tachou a chefe de governo alemã, Angela Merkel, de "a maior criminosa da história da Alemanha do pós-guerra". O fato de ele se deixar ser visto ao lado dessa pária sublinha mais uma vez o desastre que o bolsonarismo perpetrou na política externa brasileira.

A perda de importância do país é dramática: Bolsonaro reduziu o Brasil de peso-pesado internacional a mero peso-mosca. É mais ou menos como se Merkel marcasse uma reunião com o deputado (e palhaço) brasileiro Tiririca, para discutir com ele o futuro da Europa e da América Latina.

O problema não são os avós

Como mostram as fotos do encontro, Bolsonaro e Von Storch se divertiram à beça. Poucas vezes se viu o presidente com um sorriso tão largo, e a ultradireitista alemã tão relaxada. O problema do encontro não é a ascendência de Beatrix von Storch – como enfatizaram diversos veículos de imprensa brasileiros. De fato, ambos seus avôs estiveram profundamente envolvidos nos crimes nazistas: um como ministro de Adolf Hitler (e criminoso de guerra condenado), e o outro como membro convicto do Partido Nacional-Socialista (NSDAP) e oficial da milícia SA.

Só que milhões de alemães têm antepassados que veneravam Hitler, injuriavam os judeus e se apoderaram de suas fortunas quando foram deportados e assassinados. Os avôs e bisavôs da maior parte dos alemães eram soldados da Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas, ou até membros do NSDAP ou da força paramilitar SS.

Um de meus avôs viveu por um breve período num apartamento em Gleiwitz (hoje Gliwice, na Polônia) que pertencia a judeus deportados. A cidade fica próximo ao campo de extermínio de Auschwitz, e minha mãe se lembra até hoje que em certos dias "chovia cinza". Ninguém lhe explicava por quê.

Meu outro avô voltou para casa de um campo de prisioneiros soviético cinco anos após o fim da Segunda Guerra, mudo e sem reconhecer os filhos. Ele jamais falou sobre a guerra. Nós supomos que ele vivenciou coisas terríveis e talvez também tenha participado de atrocidades.

"Pérolas" da ultradireita alemã

Não se pode condenar os alemães de hoje à punição coletiva. E tampouco se pode acusar Beatrix von Storch de ter a família que tem. O que pode lhe ser imputado é ela dar continuidade à ideologia criminosa de seu avô. Ela disse que é lícito atirar em refugiadas e seus filhos que tentem atravessar a fronteira para a Alemanha, e pertence a uma sigla, a AfD, cujos deputados e funcionários disseram coisas como estas:

  • "Afinal, agora nós temos tantos estrangeiros no país que valeria a pena mais um Holocausto."
  • "Eu desejo tanto uma guerra civil e milhões de mortos, mulheres, crianças. Para mim, tanto faz. Seria tão bonito. Quero mijar nos cadáveres e dançar em cima dos túmulos. Sieg Heil!"
  • "Esse tipo de gente [estrangeiros e esquerdistas], é claro que temos que eliminar."
  • "Quando a gente chegar, vai ter arrumação, vai ter purgação!"
  • "Homossexuais na prisão? A gente também devia fazer isso na Alemanha!"
  • "Precisamos atacar e acabar com os meios de comunicação impressos."
  • "Lares para refugiados em chamas não são um ato de agressão."
  • "Fuzilar a corja ou mandar de volta para a África abaixo de pancadas."

Solidão patética

É possível que tais declarações nem soem tão estranhas para os leitores brasileiros. Seu presidente já soltou coisas do gênero, por exemplo: "Fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando com o FHC. Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."

Portanto, é inegável o parentesco de espírito entre Bolsonaro e Von Storch. Ambos são representantes da nova ultradireita global, que prega racismo, homofobia e autoritarismo, e para tal se serve de táticas, formulações e teorias de conspiração análogas. O mais absurdo que compartilham é a afirmação de que defenderiam "valores conservadores e cristãos". Eles não defendem valor nenhum!

Jair Bolsonaro e Beatrix von Storch são irmão e irmã no espírito. O fato de o presidente brasileiro – assim como seu filho Eduardo, ou o ministro da Ciência Marcos Pontes – se encontrar com essa pária da política alemã mostra, acima de tudo, quão solitário e absolutamente incompetente esse governo se tornou. Está isolado por ser incapaz de travar um diálogo com quem pense diferente. Diplomacia lhe é uma palavra desconhecida. Para o Brasil, que há poucos anos ainda tinha um peso no mundo como país de referência, é uma tragédia.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

Extrema-direita: religião fundamentalista, militarismo, autoritarismo e neoliberalismo

 

"Na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana", escreve o professor Robson Sávio

Apoiadores fazem gesto em direção a Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada

Apoiadores fazem gesto em direção a Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada (Foto: Reprodução)

Por Robson Sávio,  Doutor em Ciências Sociais e pós-doutor em Direitos Humanos

A extrema-direita global desfruta de símbolos do cristianismo para formar uma "milícia religiosa", a reeditar a guerra do bem contra o mal. 

O bem seria tudo aquilo associado ao pensamento conservador (religião, família tradicional, propriedade privada, meritocracia, precedência do individual sobre o público). O mal, por sua vez, está associado à modernidade, ciência, feminismo, esquerdismo, luta de classe,  estado social, etc...).

Montada, como numa CRUZADA RELIGIOSA, em tradições da "família/moral conservadora", a extrema-direita une líderes como Bolsonaro; extremistas norte-americanos, incluindo grupos supremacistas (e lideranças religiosas evangélicas e católicas, até mesmo junto ao episcopado); Viktor Orban (Hungria); Vladimir Putin (que se aliou à Igreja Católica Ortodoxa Russa); Le Pen (França); extremistas da Espanha, Inglaterra e até neonazistas alemães. 

No Brasil, além de lideranças evangélicas neopentecostais (principalmente das grandes igrejas midiáticas - muitas delas verdadeiras empresas religiosas), a extrema-direita goza de prestígio junto a  membros do clero e do  episcopado católicos, vários padres midiáticos, instituições religiosas (algumas midiáticas), youtubers famosos e uma bancada de ultraconservadores no Parlamento (de câmaras de vereadores ao Congresso Nacional.

Essa aliança une o conservadorismo RELIGIOSO, o poder político ancorado no MILITARISMO (no caso esse governo militarizado -- que se vangloria na defesa de moralismos à la Olavo de Carvalho) e  no poder econômico alicerçado no ULTRALIBERALISMO, essa nova versão do neoliberalismo (à la Paulo Guedes e figuras esdrúxulas, do tipo o Véio das megalojas de produtos variados, Wizzard e outros negociantes que, segundo dizem, para alcançarem o sucesso INDIVIDUAL E PRIVADO vendem até a mãe).

Portanto, a base social que agrega essa massa difusa precisa de um discurso MORALISTA, CRISTÃO,  CONSERVADOR para manter mobilizada uma legião religiosa que tem em líderes carismáticos radicais, como Bolsonaro, Putin e outros, e para defender radicalmente uma visão salvacionista e redentora do mundo. Uma recristianização global, que é  a base da Teologia do Domínio presente nos discursos desses grupos religiosos (a crença segundo o qual a religião deve dominar o poder político, a cultura, a educação, as artes,  os comportamentos...).

A RELIGIÃO é o principal elemento de constituição dessa base social da extrema-direita global. Mas, são o MILITARISMO e o ULTRALIBERISMO que caracterizam o domínio do poder estatal (da extrema-direita) em níveis nacionais, com intentos globais. Não por coincidência, governos teocráticos, militares e ultraliberais são formas distintas de autoritarismos.

Por isso, na ausência momentânea de Trump, Bolsonaro é um dos candidatos à liderança da extrema-direita global conforme ficou claro na visita de uma liderança neonazista alemã ao presidente brasileiro nesta semana.

Uma observação final: o Papa Francisco é a principal liderança global no enfrentamento à extrema-direita. Por isso, é tão perseguido, inclusive dentro da Igreja Católica.  Estima-se,  por exemplo, que dos 240 bispos norte-americanos, somente uns 40 apoiam explicitamente Francisco. Não ouso afirmar sobre a situação no Brasil. Mas, certamente o apoio do episcopado brasileiro ao papa Francisco é bem maior e mais explícito. Vide manifestações da CNBB nos últimos tempos.