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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Convocado para depor, Bolsonaro se interna e é tratado por pai do seu marqueteiro. Artigo de Denise Assis

 

Em caso de arrocho Bolsonaro costuma ter duas saídas: ou a dos corredores de um hospital, ou a do aeroporto. Apertem o passo. Bolsonaro não pode fugir

Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Artigo de Denise Assis

Argh! Mais uma foto de Bolsonaro de camisolão, em hospital, a gente não aguenta. Aliás, há muitas coisas nele que a gente não aguenta mais. Uma delas, certamente é esse jeito de escorregar, deslizar, escapar, quando a coisa aperta para o seu lado. Um dia após receber nova convocação para prestar depoimento à Polícia Federal (PF) sobre as investigações de empresários golpistas, Jair se internou no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira (23). E, adivinhem quem faz parte da equipe que o está tratando?  

 Ele está sob os cuidados da equipe médica comandada pelo seu médico pessoal, Luiz Antônio de Macedo - que passou a atender o ex-presidente após o episódio da facada durante a campanha em 2018 – e é assistido também pelo médico Maurício Wajngarten, pai de Fabio Wajngarten, ex-secretário de comunicação da Presidência, um dos seus advogados e (esse é um ado importante) seu marqueteiro.  Wajngarten afirmou que a internação ocorreu para fazer exames de rotina. O ex-presidente deve ter alta nesta quinta-feira (24). Hahã...

 Nessa terça-feira (22), Bolsonaro foi intimado pela PF a prestar novo depoimento na próxima quinta-feira, dia 31 de agosto, relativo ao inquérito que investiga o grupo de empresários bolsonaristas que teria planejado um golpe armado para mantê-lo no poder. Uma boa data para realizar aquela série de exames que desembocará, talvez, em previsão de cirurgias ou procedimentos que o tirem dessa rotina político/criminal infernal. (A rima foi involuntária).

 A nova convocação foi motivada por troca de mensagens com Meyer Nigri, fundador da Tecnisa, a quem teria enviado fake news e ataques a urnas para serem repassadas em grupos de WhatsApp em que mencionava “teremos sangue” e “guerra civil”. Para a PF ele é um dos difusores “de mensagens com conteúdo de notícias não lastreadas ou conhecidamente falsas". Para agravar a sua situação, ainda enviou ao grupo um vídeo onde ataca Alexandre de Moraes e as urnas eletrônicas.

Ao ser questionado sobre essas atividades Bolsonaro ressuscitou o seu velho estilo, bastante usado na época da pandemia, quando ligou o “dane-se” e dava de ombros. “Fiz mesmo, e daí”?, teria respondido a um jornalista que o abordou sobre o assunto.  

terça-feira, 20 de junho de 2023

Gabriela Cid: "o presidente (Bolsonaro) pediu". Artigo de Denise Assis

 

Uma das mensagens vazadas da esposa de Mauro Cid revela que Bolsonaro pedia mais público em Brasília para engrossar o golpe e impedir que Lula subisse a rampa

Bolsonaro e militares

Bolsonaro e militares (Foto: REUTERS/Adriano Machado | José Cruz/Agência Brasil)

Segue o artigo de Denise de Assis:

No documento de 66 páginas disponibilizados pela Polícia Federal à sociedade, depois da publicação de parte dele na Revista Veja, em que se pode ler em detalhes todo o passo a passo do golpe, é necessário que nos atinemos a alguns detalhes.  

O primeiro deles e fundamental é saber que – conforme está registrado em várias fotos pelos arquivos da mídia, o celular do tenente-coronel Mauro Cid era praticamente uma extensão do celular de Bolsonaro. Há flagrantes do ajudante de ordens mostrando a tela do seu celular para o presidente em várias situações.  

Importante também seria que a PF divulgasse a listagem completa dos 101 nomes dos integrantes do grupo que engendrava as manobras e avanços das estratégias golpistas.  

É visto que as senhoras Gabriela Cid (mulher do tenente-coronel) e Tyciana Villas Boas (filha do general Villas Boas, organizador, juntamente com o Alto Comando do Exército, do tuíte que mandou Lula para a prisão), tinham a ajuda de uma outra integrante, de nome Myrian Stein.  

As três trocam mensagens freneticamente nos dias que antecederam à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentando impedi-la. Pedem mais público, mais empenho e, Gabriela, em uma certa mensagem, não deixa dúvida. Certamente, será destaque na peça do processo a sua mensagem, onde aponta: “o presidente pediu”. O presidente em questão é Bolsonaro, que embora derrotado na eleição, ainda detinha o cargo (seu por direito até o dia 1 de janeiro). Na mensagem de Gabriela (que posou de desentendida no depoimento sobre os cartões de vacina), o que o presidente pedia, era mais público em Brasília para engrossar o golpe e impedir que Lula subisse a rampa. E esse “não subir a rampa”, era a palavra de ordem do general Heleno, conforme ficou claro numa entrevista/relâmpago que ele deu ao ser perguntado, quando estava dentro do seu carro, se isso aconteceria: a posse. Heleno foi categórico: “não”.

O plano e os documentos nele anexados – um deles um questionário devidamente respondido pelo jurista Ives Gandra, norteando a elaboração das medidas a serem tomadas após a execução vitoriosa do golpe, desenham e não deixam nenhuma ponderação sobre os desdobramentos e providências. Nesse ponto o que se vê é inarredável, inquestionável e conclusivo. Apesar de ter a assinatura do documento bloqueada por algum dispositivo na hora da reprodução, não é possível desmentir que tenha sido assinado pela única autoridade possível. Apenas ele, e somente ele, o presidente, usaria a expressão – deixou ali o seu DNA – “dentro das quatro linhas da Constituição”, para decretar o “estado de exceção” ou o “estado de sítio”. Medidas habitualmente só usadas em guerras e conflitos.

Tudo prontinho e devidamente elaborado, faltando apenas a ação, para jogar o país sob o jugo do autoritarismo militar novamente, incluindo a prática de torturas. “Vai ter careca sendo arrastado por blindado em Brasília”, descreveu um dos oficiais.  Houve, porém, a hesitação de Bolsonaro, o que exasperava os demais 100 integrantes do grupo de zap. Um deles, o mais exaltado, o coronel Jean Lawnd Junior, chegou a pedir “pelo amor de Deus”. Bolsonaro, porém, não partia para a ação, de acordo com Mauro Cid, por não confiar na adesão do Alto Comando. (Vejam que em nenhum momento Cid rechaça a ideia de golpe).

Tinha razão. O Alto Comando – dividido entre os seus 16 integrantes, não escondiam a antipatia por Lula no poder -, mas sabiam o quanto o país ficaria enfraquecido sem o apoio estadunidense (foi o primeiro país a reconhecer a vitória de Lula), e não engoliam um ex-integrante do Exército Brasileiro que escapou de ser expulso de suas fileiras por um acordo. Eles, sim, não confiavam no estilo tosco, despreparado e intempestivo de Bolsonaro.  

Ele, por sua vez, sabia que os militares sonharam desde que deixaram o poder, numa transição negociada em 1985, numa volta para – devaneio deles – “limpar” a imagem deixada pelos “gorilas” truculentos de então. Não seria com Bolsonaro. Não seria entregue a ele, a cadeira presidencial.  

Basta lembrar o que fez Costa e Silva em 1964, que se aboletou no “Comando Supremo da Revolução”, (no contexto do Ato Institucional nº 1) com colegas da Marinha e da Aeronáutica, dias depois da derrubada de Jango, escanteando o “comandante das tropas vitoriosas”, o general Mourão Filho.  

Deu-se o impasse. Nem os militares avançavam porque avaliavam a falta de apoio estadunidense, da mídia e de parcela significativa da sociedade – parte do empresariado -, nem Bolsonaro ousava agir, pois sabia que não podia contar com o Alto Comando. Tinha as tropas (?), como descrito por Lawand Junior, mas não tinha a bênção do CE. Não arriscaria a própria pele liderando uma convulsão social para forçar o decreto de uma GLO – naquele momento uma de suas prerrogativas -, para colocar no poder o general Marcos Freire Gomes, ou o general Júlio Arruda, ficando ele “no ar, antes de mergulhar”.

A esta altura, havia apreensão no grupo de 101 militares da ativa, no zap. Um deles, pertencente aos que se autointitulavam Dosssss, de nome Gian – servindo no Rio, basta observar o telefone, de prefixo 21 e pelo que diz, professor -, lamentava que a estratégia com feições modernas, à luz do “lawfare”, seria usada, na sua interpretação, pelo grupo que chegava ao poder.  

“Guerra 2,0, aproximações sucessivas e indiretas. Su Tzu puríssimo do Séc. XXI. Estão tomando o Poder sem disparar um tiro, com lawfare, expressão militar do PN em segundo plano, esforço principal em manobras jurídicas e políticas, com Op Info moldando o psicossocial... perderam as guerrilhas rurais e urbanas do Séc. Passado, para se reinventarem no globalismo/progressivo socialista. Puta que o pariu, TUDO O QUE ADOTAMOS E SABEMOS, mas ficamos amarrados no POLITICAMENTE CORRETO... Daremos muita ênfase por aqui nesta disciplina do CFEsp, se Deus nos permitir, Deus é Grande, e será!”

Um dos seus interlocutores, identificado como Ferreira Lima, conformou-se: “não vai rolar mesmo”.

“Gian” já pensa em providências para se colocarem “à salvo”, antecipando tudo o que aconteceu na noite do 8 de janeiro. Observem o que ele recomenda:

“Já pensem como protejerão (sic) as nossas famílias... talvez deveremos (sic) isolá-los dentro dos nossos quartéis, MAO, GYN e Imbuy, Pcp dos Of e Sgt FEsp e Cmdos.”  

Exatamente como fez o general Arruda, ao posicionar blindados contra o interventor Ricardo Capelli e a turma da PM que o acompanhou para prender o que se encontravam no acampamento na frente do Comando do Exército na noite do golpe, e que evitaram a prisão possivelmente de Gabrielas, Aparecidas, Myrians, Ticyanas e outras “aguerridas” de verde e amarelo.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Denise Assis: O golpe torpe da extrema-direita, com militares, ainda está em marcha!

 

Do Val sabe que fará apenas marola, mas Lula e seu entorno terão que parar para novamente arrumar a casa e conter mais uma crise com os militares. Esse é o jogo

Marcos do Val e Jean Lawand Junior

Marcos do Val e Jean Lawand Junior (Foto: Agência Senado | Reprodução)

Segue o artigo de Denise Assis:

Não houve um golpe! Está havendo. E isto não é terrorismo. É teoria amplamente divulgada no mundo moderno. Estamos na penúltima fase da “revolução colorida”, quando se tenta que as instituições “ajudem o movimento a ganhar tração e atenção”. Se entendemos que há um outro tipo de guerra sendo travado, nos preparamos para a contraofensiva, é o que nos ensina o “manual” de Andrew Koribko. Por isto é imprescindível que não se divorcie a ofensiva do senador Marcos Do Val (Podemos-ES), publicando o informe da Abin Alterado – aliando verdades e mentiras – no seu Twitter e desencadeando nova crise política, dos diálogos e revelações sobre 8 de janeiro.

 É, como eu já disse, um “Bolero de Ravel”. Uma marcha rumo à desestabilização do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Aí reside o ponto. Os fascistas e bolsonaristas renhidos sabem que não irão conseguir derrubar o governo, mas a tática se concentra em não o deixar trabalhar. Há boas notícias na economia? O ministro Fernando Haddad está dando certo? Ganhou nota boa? Vamos atrapalhar. Mirando no ministro Alexandre de Moraes e no ministro Dino, Marcos Duval parte para o enfrentamento e a afronta, e o tumulto está feito. Essa era a meta.

 Não por acaso, o presidente agora exige “uma limpa” no governo. Do Val sabe que fará apenas marola, mas Lula e o seu entorno terão que parar para novamente arrumar a casa e conter mais uma crise com os militares. Esse é o jogo.

Quando o tenente-coronel Mauro Cid (ex-ajudante de ordem de Bolsonaro) foi depor e ficou em silêncio, limitando-se a entregar o celular e liberar a senha, eu escrevi aqui, no 247, que a conversa seria eloquente. E tem sido. Os diálogos revelados entre ele e o coronel Jean Lawand, são a concretude de que Bolsonaro estava tramando um golpe, mas deixou para o seu “faz-tudo” operar. Com toda a teoria pronta, e reescrita do legado dos militares do golpe de 1964 – a minuta encontrada com Anderson Torres foi baseada na redigida para a formação do “Comando Supremo da Revolução”, do Ato Institucional nº 1, imediatamente após o 1º de abril de 1964. E, todo o desdobramento descrito – o documento encontrado no celular do Mauro Cid, o passo -a-passo do golpe -, é o mesmo roteiro que se seguiu, com alguma modernização. As providências estão todas lá, apenas repaginadas. O documento é de origem militar.

Assim como é de origem militar o senador Do Val, que tem entre as suas condecorações, a “Medalha do Pacificador” (leia-se: treinado para movimentos contraguerrilha e repressão) e cursos nos EUA. Embora sem concluí-los e obter diplomas, mas treinado, sim.

Jean Lawland Junior, gerente de programações estratégicas da subchefia do Alto Comando, e não ex-subchefe do Estado maior – cargo ocupado apenas pelos que têm a quarta estrela de general – queria botar o bloco na rua antes da posse de Lula. Afinal, estava tudo pronto.  

Porém, não encontrou respaldo no Alto Comando – com exceção do general Edson Skora Rostsy (subcomandante de Operações Terrestres) - por algumas razões: os EUA já tinham se posicionado contra e eles seguem à risca as orientações estadunidenses; b) não havia apoio da mídia e da parcela significativa do empresariado, que empenhou apoio à democracia; c) porque aos olhos do Alto Comando Bolsonaro não é confiável. E, como bem pontuou, nesta semana o general Santos Cruz, é covarde e não encarou. (General Santos Cruz rompe silêncio e chama Bolsonaro de 'fujão' e 'covarde' - Denise Assis - Brasil 247). Preferiu fugir. E deixou que a festa da “Selma” acontecesse sem ele, no 8 de janeiro.

Agora que o “passo-a-passo” de Mauro Cid veio a público, ficou mais fácil entender os atos daquele domingo e as funções de cada um. Por que tudo funcionou por música? Ao general Arruda, comandante do 1º Exército, tocou manter os acampamentos, onde ficaram alojados os Kids Pretos, diluído entre os “inocentes úteis”. O esquema traçado pelo ministro Flávio Dino, mantendo o bloqueio da Praça dos Três Poderes, foi quebrado. E por ninguém menos que o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF). Coube a ele abrir a praça para a turba escoltada por sua PM, passar.  

Junto com ela, vinham os Kids Pretos – Forças Especiais do Exército Brasileiro -, que precisavam chegar ao gramado, onde estavam escondidos as “granadas bailarinas”, de uso exclusivo dessa força, e assim ganhar as portas do Planalto e demais prédios dos poderes.  

No Planalto, o coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora garantiu a ação deles, espantando quem os combatessem com as tais granadas, e a fuga: “Esse não! Esses são nossos”, vimos ele gritar, dando fuga ao “Especiais”. E, por fim, festa acabada, o general Arruda protegeu o alojamento onde se encontravam os Kids Pretos, não permitindo que o interventor Ricardo Capelli entrasse para prender ninguém enquanto os “Especiais” não juntavam os equipamentos e davam no pé, antes de serem pegos. Para isto, até deslocou blindados até a porta do Comando, e os apontou para Capelli e a PM, em guarda. 

Qualquer discurso diferente disto só vai ter palco na CPMI, chamada pela oposição, cujos trabalhos agora ficam totalmente prejudicados, pois têm no colegiado dois investigados, como bem vem apontando o deputado Rogério Corrêa (PT-MG). O senador Marco Do Val, que é elemento e chave no golpe e o deputado André Fernandes, do PL, um incentivador das ações do dia 8. Essa participação ainda resta provar, mas a cada dia a tarefa fica mais fácil, diante da quantidade de evidências e gritos vindos dos celulares apreendidos, é questão de tempo.  

Por fim, do lado do governo, Lula – que assistiu ontem na reunião ministerial a apresentação de menos de 10 minutos, do ministro da Defesa José Múcio, que sequer mencionou os últimos acontecimentos -, não poderá demiti-lo. Está sem canais confiáveis no meio militar (ainda mais depois da saída do general G. Dias). Há quem jure que viu o ministro Mucio sair da reunião assobiando: “meu amigo/ se ajeite comigo/ e dê graças a Deus...”

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Denise Assis: Estudo acadêmico mostra que "grande" mídia tradicional (Globo, Estadão, Folha, etc.) não alivia na cobertura negativa de Lula

 

Para a colunista Denise Assis, Lula recebe cobertura negativa da mídia tradicional e, pelas pancadas, nota-se que ela toparia entrar novamente numa aventura

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante café com jornalistas

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante café com jornalistas (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247. - Essa foi daquelas semanas de que não se vai esquecer por um bom tempo. Depois de se esmerar para apresentar e aprovar o arcabouço fiscal – substituto do famigerado teto de gastos - que concede credibilidade ao governo, conforme exigência da mídia e do mercado, necessariamente nesta ordem, o governo dormiu de quarta para quinta-feira (31/05), em busca de alternativas para o caso da emenda provisória que lhe dava feição, caducar. 

Por mero capricho do presidente da Câmara, Arthur Lira, que apegado a cada porção de poder, não permitiu que a casa voltasse a fazer o que manda a Constituição: funcionar por comissões mistas, para analisar tais medidas.

A atitude já seria por demais despótica e inédita, mas em meio ao emaranhado de entrevistas curtas que deu, das reuniões em petit comité que fez, não satisfeito com o estardalhaço, Lira trazia a cada hora uma exigência a mais. Ora o pedido de cabeças de ministros – em off, acompanhada de negativa -, ora puxões de orelhas nos emissários e articuladores do governo. 

Vai daí que nas redes nacionais surgiram os memes inevitáveis e de ocasião: “Lira inimigo do povo” foi o que mais bombou. 

Ficou evidente que o presidente da Câmara havia exagerado no “jogo”, se era blefe, ou na mão, se era um “piti” para abocanhar mais um naco do poder de Lula, conquistado nas urnas. 

Não se contraria impunemente a vontade popular. Seja ela por grande ou pequena margem de vitória. Lira com o seu excesso de volúpia, causou revolta até mesmo em aliados. A medida provisória passou. Assim como passou também, por Alagoas, a Polícia Federal, na manhã seguinte, recolhendo cartelas de Viagra e muito, mas muito dinheiro desviado da Educação, em poder dos seus assessores. 

Lira resfolegou, bufou, atraiu comentários maldosos de sua ex – elas são sempre um perigo -, e atribuiu ao ministro Flávio Dino, a sua desdita, sem nem conseguir calcular que Dino teria que mover mundos e fundos, para realizar uma operação imediata contra ele, em seu estado. Amuado e, agora ele, acossado, reagiu atacando, mandando recados malcriados. 

O governo, arrumadinho, ainda que com certas trincas depois do abalo sísmico, foi trabalhar. De segunda para frente, Lula toca a sua agenda. Quanto a Lira bufa e arquiteta a próxima crise. Enquanto isto, o PIB fez bonito, atingindo um crescimento de 1,9% no último trimestre. 

Segundo o Caged, 42,7 milhões de pessoas trabalham com carteira assinada no país. O número representa um acréscimo de 0,57% em relação a janeiro deste ano. Todas as cinco regiões registraram aumento na criação de empregos formais, com liderança do Sudeste, que criou cerca de 110 mil postos de trabalho no mês.

Arthur Lira ganhou, mas perdeu. “Ganhou” ao dar a entender para a mídia tradicional que faz gato e sapato da pauta, mas perdeu ao escancarar o seu jogo e se queimar junto à opinião pública – se estivermos falando de redes sociais, onde tudo acontece (de mentirinha).

Nos jornalões a vida de Lula não ficou fácil. Estudo semanal do grupo “De Olho Na Imprensa! (DONI)” - feito pela equipe do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ -, mostra que o efeito Lira somado à visita do venezuelano, Nicolás Maduro, por aqui, foram usados de forma contundente para lhe dar uma verdadeira surra. 

De 27 de maio a 2 de junho de 2023, o DONI semanal computou as manchetes, chamadas, artigos de opinião, colunas e editoriais que citaram o Governo Federal, o presidente, ou algum personagem ou Instituição do Governo Federal, nas capas e páginas 2 e 3 dos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo. Esta semana foram analisados 168 textos. Foi observado que o Globo e a Folha aumentaram a cobertura sobre o Governo Federal, principalmente a negativa. O Estadão reduziu os textos sobre o governo.

Os seis enquadramentos associados ao presidente Lula trazem críticas a ele, afere o estudo. A principal delas ataca a indicação de Cristiano Zanin para o STF, afirmando que o advogado não é qualificado para o cargo e seria apenas uma escolha pessoal de Lula. 

A recepção a Nicolás Maduro também rendeu muitas críticas ao presidente. A principal delas que fazem ao governo se mantém: a pecha de governabilidade confusa, que já havia sido apontado no relatório da semana passada. 

Lula é acusado pelos jornais tradicionais de não se preocupar com seu governo, de não ter um plano para o país e principalmente de não conseguir alinhar a relação do Executivo com o Legislativo. 

Ao longo dessa semana a cobertura do Governo Federal teve três temas principais. O primeiro deles é recorrente: a difícil relação entre o Governo Federal e o Congresso. A versão dessa semana continuou a pontuar os contínuos problemas na relação entre os dois poderes. A despeito da cobertura associar a crise a Lula e a Lira, a culpa foi jogada desproporcionalmente no colo do petista, que, de quebra, foi acusado de preocupar-se mais com a política externa do que com a interna. 

O segundo tema foi a visita de Nicolás Maduro ao Brasil. A recepção a Maduro e principalmente a fala de Lula sobre a Venezuela não foram bem recebidas pela mídia, que o criticou duramente, aproveitando para isso das falas dos presidentes do Chile e do Uruguai, como contraponto. 

A cúpula sul-americana foi pouquíssimo coberta e o foco dos jornais esteve em atacar Lula e sua aproximação com a Venezuela. Finalmente, o terceiro tema foi a indicação de Cristiano Zanin para o STF. Os jornais apresentaram duas narrativas: a primeira atacava a escolha por ser o advogado pessoal de Lula, a segunda afirmava que Zanin não possuía as características necessárias para ser ministro do STF. 

Os três temas reforçam a maneira com que a mídia tem apresentado Lula nos últimos meses. Na visão dos jornais, a crise com o Congresso confirma os argumentos contrários às escolhas políticas de Lula, que não seriam adequadas para o presente; as falas sobre Maduro reforçaram a imagem de populista e de que é pouco afeito a democracia. 

Por fim, a escolha de Zanin denota um Lula personalista e que prioriza aliados e não aqueles que seriam os melhores para o cargo. Novamente notamos que Lula recebe cobertura mais negativa que seu governo e que pelo ritmo das pancadas, que a mídia não se faria de rogada de entrar novamente numa aventura, como a nauseabunda “Lava-Jato”, devassada com muito brilho, pelo 247, em entrevista com o empresário Tony Garcia, refém de Sergio Moro por 20 anos. 

sexta-feira, 31 de março de 2023

Denise Assis: Sobra arrogância e falta competência no presidente do BC pró-banqueiros e contra o Brasil, Roberto Campos Neto

 

A jornalista fez um alerta contra a "postura autoritária, absolutista e ameaçadora" do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto

www.brasil247.com - Roberto Campos Neto e Banco Central

Roberto Campos Neto e Banco Central (Foto: ABr)

"O mercado continuará indiferente aos nossos discursos e rebelde às nossas leis." A frase, embora soe atual e progressista, foi dita por Roberto Campos, economista ultra neoliberal, privatista e ex-ministro do Planejamento de Castelo Branco (1964/1967), o primeiro ditador do regime implantado pelos militares (1964/1985), e consta do segundo volume do seu livro de memórias, “Lanterna na Popa”.

Com todas essas credenciais de direitista conservador, é possível que se vivo fosse não estivesse de acordo com o comportamento do netinho (53 anos), que herdou o seu nome, mas não a sua fidalguia.

Diplomata concursado, Campos (avô) foi testemunha, ao lado do também economista Eugênio Gudin, do encontro de Bretton Woods, que criou dois monstros do capitalismo: o Banco Mundial e o FMI. Ele certamente não aprovaria a postura autoritária, absolutista e ameaçadora de Bob Neto, que fez constar da última ata divulgada pelo COPOM, uma verdadeira ameaça (ou o nome é chantagem?), provocando revolta e indignação no assessor especial do BNDES, André Lara Resende.

Em entrevista nesta quarta (29/03) à jornalista Míriam Leitão, ele traduziu os seus sentimentos com relação à postura do presidente do Banco Central e sua equipe, além de classificar de “arrogante” o texto da ata emitida pelo Banco. Disse com conhecimento de causa e autoridade, aquilo que eu diria apenas como cidadã perplexa e revoltada com tamanha ousadia.

“O BC está se arvorando, com uma equipe de jovens tecnocratas que acreditam piamente nos modelinhos equivocados que eles estão olhando, e se acham no direito de passar pito no Congresso, no presidente eleito e no Judiciário. O BC, com a autonomia que lhe foi concedida, passou a se considerar um quarto poder. É um quarto poder que dá lições de moral e se considera acima dos demais poderes. É muito preocupante”, diagnosticou.

É mais que isso. É a tal da arrogância de que nos falou André Lara Resende, calcada apenas na soberba. Há dois dias ele chegou a falar que “um arcabouço ‘crível’ pode ajudar a baixar os juros”, Ora faça-me o favor! Agora os comentaristas papagaios, estão a apelidar o arcabouço fiscal anunciado nesta quinta-feira (30/03) pelo ministro Fernando Haddad, como “crível”, para admitir que, sim, o governo cumpriu a sua parte e entregou um bom plano.

Desde que foi entronizado no cargo, o presidente do BC não deve ter lido as regras que remetem às obrigações que lhe competem. Caso o tivesse feito, saberia, por exemplo, que uma delas – fundamental –, é “manter a inflação sob controle”. Isso porque, como explica o estatuto do próprio órgão, “a estabilidade dos preços mantém o poder de compra da moeda”. Na prática, significa que o Banco Central atua para preservar o valor do dinheiro em poder dos cidadãos, coisa que ele vem descumprindo desde o início de sua gestão, iniciada sob a presidência daquele que o indicou para estar onde está. E não foi Lula.

Como no caso da lenda do macaco, que se senta em cima do próprio rabo e fala dos demais, Bob Neto acumula razões de sobra para ser ejetado do posto. Além de torturar os setores produtivos, os pequenos empresários e os consumidores, com juros escorchantes (13,75%, por enquanto), classificados pelo prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz como verdadeira “sentença de morte” para a vida financeira do país, não consegue se entender com a inflação, um dos seus “deveres para casa”.

O órgão enfatiza que “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado". Chegou a falar que “se fosse cumprir a meta de inflação de 2023, teria que ter juros de 23,5%”. Uma elevação até os píncaros, que fez ferver o sangue da deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), levando-a a sugerir a exoneração de toda a diretoria do BC, sacando a Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, que dispõe sobre a autonomia do Banco e a nomeação do presidente e seus diretores.

Motivos Bob Neto já deu de sobra. Ele, sim, errou nas contas nos dados sobre balança comercial, tendo de vir a público se retificar. Comercializou de forma nebulosa de R$ 39 bilhões em ouro, no ano passado, escondendo, sob o argumento de “sigilo bancário”, o que foi a maior quantidade de compra do metal dos últimos 20 anos, em um curto período de três meses. E, por fim, não consegue entregar o controle da inflação, sua razão de existir. Fora Bob! O país precisa caminhar.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Denise Assis: Bolsonaro fala em guerra, o Brasil quer paz e eleições democráticas

 

'As mães odeiam armas. O apelo de Bolsonaro a uma guerra particular é um chamado à violência', diz a colunista Denise Assis. 'As mulheres derrotarão o fascismo'

www.brasil247.com -

(Foto: MST | Fernando Frazão/Agência Brasil)
Por Denise Assis

Quando até o conservador e “direitão” Estadão, acena para a possibilidade de uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno, não há por que duvidar. E Jair Bolsonaro sabe disto. 

Sabe que o crescimento de 1% do PIB é gota no oceano de desigualdades e carências dos brasileiros, que deram as costas ao seu projeto eleitoreiro “Auxílio Brasil”, entendendo finalmente a diferença entre um programa social sólido, de um governo preocupado com o cidadão e sua família, e uma ajuda “tampão”, sem perspectiva de melhorar as suas vidas.

Do alto dos palanques, Bolsonaro esbraveja, apelando para evangélicos - com passagens bíblicas -, tentando mobilizar policiais aposentados, com farta distribuição de armas (sob sigilo dos reais objetivos da medida) e manter o “moral” da tropa de ativistas, provocando na claque o grito de “mito”, com convocações para uma “guerra particular”. 

Essa guerra é apenas dele. Dele e dos filhos, para fugirem a um destino pós governo que não se desenha promissor. Pelo contrário. Os processos aqui e nos tribunais internacionais se avolumam. 

Aos poucos o país vai percebendo que não basta a Bolsonaro lançar mão de manobras no orçamento “secreto”, para conquistar recônditos, não basta um coro gritando o seu nome em praças por onde inaugura obras pouco significativas, ou de vulto, mas que não foram iniciadas em seu governo.

Para manter a mídia ocupada e os seus adeptos mobilizados, criou um confronto de pouco alcance para o brasileiro médio. O povão não come urnas eletrônicas, não sabe para que serve um ministro do Supremo, mas sabe o preço do arroz, do feijão e do pão. Um eleitorado que há tempos está distante de um quilo de carne e muito perto da porta da rua, pois já não dá para pagar o aluguel. 

Agora, com o novo projeto de sua base congressista, Bolsonaro atingiu até mesmo a proeza de ameaçar o imóvel único dos que conseguiram pagar por um teto. Ele não engana mais à parcela pobre, com a qual não dialoga. E quando o faz é para falar em armas, ou para apontá-las para as suas cabeças. Se não pessoalmente, mas através dos governadores que rezam pela sua cartilha miliciana.  Matar pretos, “favelados e feios”, como se ouve, na definição dos policiais mal preparados, repetidores dos seus preconceitos e maldades, é a sua principal orientação. 

Não se iludam. Sua “guerra” será feita pelos militares de Baixa patente, “comprados” com benesses puramente eleitorais. Em suas “fileiras” estarão, por exemplo, os PMs que adquiriram imóveis sem entrada e com burocracia zero, dos seus programas “para poucos”. Estarão também os policiais rodoviários, arregimentados com suas vãs promessas de aumento e liberdade para matar.

Bolsonaro tenta nos acossar, nos manter “miúdos”, procura todos os dias nos infelicitar com o seu discurso de ódio, com seus dedos em posição de “arminhas” apontados para as nossas cabeças. 

Devemos, sim, nos preparar para a tentativa explicitada em suas falas cotidianas de uma baderna orquestrada. Devemos, sim, estarmos cientes de que a sua ideia é a tentativa de impedir que cheguemos à boca das urnas. Bolsonaro quer tudo sob o seu controle. Ali, diante dos botões e do “trimmm” ao final do voto, ele sabe que não tem domínio. Vale a vontade soberana de quem pilota a parafernália, e isto o enlouquece. Vale o que o eleitor quiser digitar. Um sistema bem-sucedido há anos, de funcionamento pleno, de Norte a Sul. As mesmas urnas que o permitiram e a seus filhos, chegarem lá. 

Para quem adora a expressão, não há solução possível fora das “quatro linhas da Constituição”. Estar consciente de ter de ultrapassá-las para se manter no poder lubrifica as suas entranhas. Bolsonaro quer brincar de guerra. O Brasil está cansado e quer paz. 

Somos um país feminino. Não há num lar sequer uma mulher que queira ver um filho ou o marido com arma na mão. Da elite ou da periferia, as mulheres temem armas. As mães odeiam armas. O apelo de Bolsonaro a uma guerra particular é mais um chamado à violência. É mais um esforço desesperado de desviar a atenção do que importa. Paulo Guedes falhou. Seu governo naufragou. 

Enquanto os índices econômicos falam de conflitos, as pesquisas preconizam tempos de paz. E serão as mulheres, que ele tanto ataca, odeia e despreza, as que dirão não aos seus arroubos bélicos. As mulheres querem servir um café às suas famílias, darem beijos em seus filhos para irem à escola ou ao trabalho, num Brasil que já não oferece nem café, nem trabalho. As mulheres sabem da sua força. Silenciosas, derrotarão pelo voto o fascismo e o ódio. A nossa guerra se dará nas urnas. Urge desmontar os seus planos de baderna para chegarmos até elas. Precisamos acreditar. Não passarão. 

domingo, 11 de julho de 2021

Denise Assis: Estamos sob chantagem dos militares

 

Estamos sob chantagem. É esse o nome do que fizeram os comandantes

"Aos militares, cabe a segurança e a defesa do país. Aos políticos, a política. Os três senhores passaram por cima desta regra básica, para vir a público nos ameaçar com o que chamaram de “a última nota”, a nos empurrar contra a parede, dando a entender que depois viriam - ao melhor estilo “pinochetiano” -, as baionetas e os coturnos", escreve Denise Assis, dos Jornalistas pela Democracia

Ministro Braga Netto e a CPI da Covid

Ministro Braga Netto e a CPI da Covid (Foto: Alan Santos/PR | Waldemir Barreto/Agência Senado)

Por Denise Assis, do Jornalistas pela 

Democracia

Há entre nós uma dificuldade de se tratar as coisas pelo nome que elas têm. O que o ministro da Defesa e seus três comandantes – ou seriam mosqueteiros? – fizeram nesta semana foi nos colocar sob chantagem. No mesmo tom de Bolsonaro, que entre um soluço e outro eleva a voz para nos ameaçar com uma abstinência de voto e a prorrogação de sua permanência na casa de vidro, caso um dos poderes a que deveria respeitar – o Judiciário -, não se curve aos seus caprichos e passe a emitir recibo das urnas, em 2022. 

Esta não é uma discussão que de nosso interesse, agora. Esta não é uma pauta de uma sociedade combalida pelo agravamento da fome, (com o arroz dando um salto de 48%), do aumento do fosso da desigualdade e a perda  de 530 mil brasileiros. Esta pauta diz respeito apenas aos redutos milicianos, onde reina o voto de cabresto, e que o general Walter Braga Neto passou a conhecer bem, quando fez a intervenção no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2018.

Esperam os comandantes das três Forças que nos aquietemos como fizemos em primeiro de abril de 1964, quando nos contaram a grande mentira de que estavam assumindo o poder para “arrumar a casa”, ameaçada pelo tal “comunismo”, desculpa para todos os golpes. Ou, novamente em abril de 2016, quando afastaram a presidente eleita, Dilma Rousseff, para despejá-la definitivamente em agosto do mesmo ano. Sem motivo concreto, a não ser - por recente declaração de Luiz Roberto Barroso -, “por falta de sustentação política”.

Os três comandantes das Forças nacionais se esquecem que em  1969, até Orlando Geisel, o terror dos subterrâneos, já discursava para a tropa o que a Constituição de 1988, mais adiante, tornou lei. Aos militares, cabe a segurança e a defesa do país. Aos políticos, a política. Os três senhores passaram por cima desta regra básica, para vir a público nos ameaçar com o que chamaram de “a última nota”, a nos empurrar contra a parede, dando a entender que depois viriam - ao melhor estilo “pinochetiano” -, as baionetas e os coturnos.

“Queiramos ou não , estamos metidos na política”, vociferou Orlando, o irmão do ditador (Geisel). “Capitão, major, coronel e o próprio general de brigada devem deixar de fazer política; política é só nos altos escalões. (...) É preciso dar a impressão de que nós não estamos cogitando da política”.

Não foi o que se deu nesta semana. Pálido de pavor do que poderia brotar de um dossiê que roda por Brasília - este foi o “boato” da quinta – Braga Neto decidiu não pagar para ver. Reuniu a tropa e saltou este item da Carta Magna. Melhor salvar a própria pele. Às favas com os escrúpulos. Mandou ver na chantagem, este é o nome correto para o que fizeram, numa tentativa de acossar os demais poderes. Titubeou, a princípio, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, para depois reorganizar o discurso. Entrou firme em campo, o ministro do TSE, Luiz Roberto Barroso, delimitando a linha divisória entre o que vamos ou não vamos tolerar. A sociedade, sim, não os que se escondem atrás de galardões.

Em suas confissões ao historiador Celso Castro, da FGV, o ex-comandante do Exército, Villas Boas, acabou confessando recentemente que tramou contra a presidente Dilma por ter instituído a Comissão Nacional da Verdade. Perdeu a oportunidade de passar a limpo o papel do Exército do século XXI, se distanciando da truculência daquele do século XX, que esganou seus filhos e os descartou. 

Do mesmo modo, os comandos atuais agiram como o marido traído, que ao descobrir o amante, em vez de sair de casa e pedir o divórcio, troca de casa e leva junto a mulher que o traiu. Puseram sob as asas da cumplicidade os coronéis apontados no “vacinogate”, mimando os marmanjos em nome da reputação das fileiras. Desta vez, esticando o dedo na direção de outra Comissão, a da Covid-19. 

Seria mais coerente, diante de tamanho rigor que querem aparentar, se tivessem deixado andar os trabalhos da CPI – ao que parece o novo pretexto. Melhor expurgar dos seus quadros ou de sua história os que trilham o caminho da falcatrua e da corrupção. Mas não. Preferem, a exemplo de Villas Boas, a lamentação, adicionada ao capítulo 12 de seu livro:   “Ao final dos governos militares, e mesmo antes, o Exército empreendeu a “volta aos quartéis”, assumindo a postura de “o grande mudo.” Consequentemente, a sociedade se desacostumou de ouvi-lo no que se relaciona à segurança da sociedade e do Estado”. 

Errado, general. Esperamos de vocês a segurança da sociedade e do Estado. Repudiamos, com todas as nossas forças, a ingerência nas coisas da política, nas nossas escolhas, e àqueles que acobertam generais que falham no gerenciamento de uma epidemia, generais que arquitetam orçamentos mirabolantes, ou que se sobreponha sobre as demais Forças, para “usá-las”, sim, usá-las em proveito dos governos aos quais abanam, entre um e outro soluço autoritário.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Denise Assis: Daniel Silveira traduziu para o as milícias e puxa-sacos de Bolsonaro o discurso do general golpista

 


Daniel Silveira traduziu para o povão discurso do general


"O discurso de Daniel Silveira é a tradução do que disse o general para o pesquisador da FGV, mas acessível para os que gritam 'mito', para os que andam de ônibus e para os que convivem de perto com o poder das milícias", escreve a jornalista Denise Assis


Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Tive a pachorra de ouvir não uma, mas algumas vezes o vídeo com a fala do ainda deputado federal Daniel (o quê?) Silveira, que obteve na Câmara 364 votos a favor da manutenção da sua prisão, e apenas 130 pela sua liberdade. Isto, depois da unanimidade de 11 X 0 no Supremo Tribunal Federal, onde seu “discurso” caiu como um alerta vermelho de que algo não ia bem no reino da nossa pátria mãe gentil.

E não vai mesmo. Há na sua fala muito mais do que as baixarias do “bilau pequeno” do ministro Edson Fachin e a linguagem miliciana da surra do gato morto. Há um recado. E muito bem dado, para as classes que não frequentam as páginas do livro de memórias do general Villas Boas.

Voltem à cena política da semana passada e só assim podemos entender o contexto em que surge para os seus 15 minutos de fama o tal Daniel do quê. A rejeição a Jair Bolsonaro como presidente da República atingiu seu maior percentual desde junho de 2020, como mostrou pesquisa realizada pelo PoderData entre terça-feira (15) e esta quinta (17). De acordo com o levantamento, 48% dos entrevistados consideraram que a atuação do chefe do Executivo é ruim ou péssima. É importante destacar que quando essas pesquisas vão para a rua o Planalto já tem em mãos os números, detectados pelo GSI. Ou deveria ser assim. Portanto, já havia entre a turma do poder, notícias da queda, sem a receita da “volta por cima”.

Tínhamos em pauta o depoimento vexaminoso do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, concedido intramuros do Exército Brasileiro, à Polícia Federal (uma desonra). Pazuello estava contra a parede por sua inépcia na compra e distribuição das vacinas – sem falar na falta de oxigênio em Manaus. Havia a perspectiva do tombo de 4% do PIB e, ainda, o escândalo das compras milionárias no alto escalão das Forças Armadas. Juntem tudo isto, agora dispam-se do preconceito verbal, abram os ouvidos e coloquem para rodar novamente o vídeo.

Não. Não está ali apenas um “feixe de músculo”. A função é clara. Sofremos um ataque violento de desmonte das instituições e do ambiente democrático de que dispomos com muita luta. Foi ação orquestrada. Na iminência da derrota política, de um descer de ladeira sem fim, a turma do “fim da guerra fria” arquitetou uma jogada decisiva.

De um lado, vinha o general Villas Boas, (de novo ele) disseminando suas ideias e repercutindo o seu discurso para o distinto público letrado. De outro, Daniel, direcionado para os 31% que se aglomeram e passam a quilômetros das páginas de um livro, repetindo o mesmo discurso. Os dois falam as mesmas coisas, mas um tem a sofisticação na medida para os que estudaram, enquanto Daniel, com sua linguagem chula, cantochão – mas cristalina -, dá o recado para o povão.

O discurso de Daniel é a tradução do que disse o general para o pesquisador da FGV, mas acessível para os que gritam “mito”, para os que andam de ônibus e para os que convivem de perto com o poder das milícias.

Não tenham dúvida. Daniel teve uma função naquele momento, bem como Villas Boas e os “empijjamados” do Clube Militar, cuja única função é fustigar a democracia, desde o retorno aos quartéis, em 1985. Na queda, na fragilidade, foram para o “tudo ou nada”, da mesma forma que Bolsonaro, ao se dirigir ontem, aos formandos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, disse que se dependesse dele, “não seria esse o regime que estamos vivendo”. Disso sabemos nós. O que não podemos ignorar, é que eles fizeram uma ação orquestrada para todos os públicos.

Estão dispostos a destruir o pacto da transição, montado (sem a nossa anuência) entre Tancredo Neves, o general Leônidas Pires Gonçalves, a Arena arrependida e o MDB conservador. Aqueles senhores desconheceram, naquele momento histórico da “conquista” do colégio eleitoral, a força da sociedade, que depois de 21 anos subjugada ergueu a sua voz nas ruas e participou ativamente da construção da Constituição de 1988, inserindo na Carta direitos que eles odeiam e desde 2016 tentam apagar item por item, artigo por artigo.

A Constituição mandou para casa os agraciados com a “Medalha do Pacificador”, os alunos da “Escola das Américas” e dos generais Golbery e João Figueiredo, professores da grade de formação dos quadros do SNI. Deixou em cena os filhotes da guerra fria, que tremem só em ver uma camiseta vermelha e são formados pelo “Manual de Campanha – Operações Psicológicas”, do Estado Maior do Exército, de que tratei em artigo de 17 de junho de 2020, aqui, no 247.  Caso estejam bem-dispostos, ouçam novamente neste final de semana o vídeo do Daniel. Está lá, o discurso do manual.  E o do general, “traduzido”.

O conhecimento liberta. Saiba mais.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Denise Assis: Um general “pianíssimo” para um governo nem tanto

 

“Cerca de dez dias depois, só agora o ministro da Defesa, Fernando Azevedo – no auge da crise do deputado bombado – encontrou o rumo da sala do presidente do STF para falar das confissões do general Villas Bôas”, observa Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia


Jair Bolsonaro e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo

Jair Bolsonaro e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Depois de agudos e estridências, o momento político é para ser tocado em modo “pianíssimo” – música com muito fraca intensidade de som. Não é preciso ser nenhuma “pitonisa” para saber que a Câmara dos Deputados, na tarde desta sexta-feira (19), irá optar pela manutenção da prisão de Daniel (o quê???) Silveira. De onde vem tal informação?

Da atitude do ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo. Ao procurar o presidente do Supremo Tribunal Federal – que estancou os “arroubos bolsonaristas” rumo à transgressão progressiva e ao fascismo desenfreado numa votação coesa de 11 X 0 – Luiz Fux.

Para os que não se lembram (tudo tem passado tão veloz), o livro do general Villas Boas, revelando que contou com o apoio de todo o alto comando no golpe continuado de 2018, chegou à mídia no dia 10 deste mês. Há nove dias, portanto. Impossível que não tenha sido inserida no clipping do Planalto uma resenha da obra de Villas Boas. Ainda assim, Azevedo só agora – no auge da crise do deputado bombado – encontrou o rumo da sala do presidente do STF para falar das confissões do general.

Para comparar em termos de lentidão, só mesmo com o ministro Edson Fachin, que levou três anos para considerar a pressão do general sobre o Supremo como “intolerável”. Perdeu, ministro. Depois disto já houve uma eleição, que levou ao palácio, com o seu voto favorável ao que pediu o tuíte de Villas boas – a prisão de Lula – e Bolsonaro chegou ao governo trazendo consigo um exército de “300” bombados, descerebrados e monotemáticos: violência acima de tudo.

O que Azevedo fez, na verdade, foi atravessar a rua para fazer um voto de redução de danos, a chamada “água na fervura”. Foi prometer o que nem mesmo ele sabe se consegue cumprir. Fazer refrear os ímpetos de Bolsonaro para cima dos poderes que têm a obrigação de contê-lo, todas as vezes que ele, tal como ensinou a Daniel Silveira, ultrapassar os limites do tolerável, da constitucionalidade. O general Fernando agiu como “moleque de recado” da turma que parece mais preocupada em continuar comprando os seus litros de uísque 12 anos, o bacalhau de finíssima qualidade e recebendo o “a mais” nos soldos no final do mês.

A continuar na escalada que vinha até então – de costas para as 230 mil mortes pela pandemia, a assombrosa e incontrolável subida dos combustíveis e o preço do gás de cozinha e no interregno do auxílio emergencial – a curva de desaprovação de Bolsonaro daria um mergulho, colocando em risco o futuro imediato e os planos para 2022.

Não convenceu, ministro Azevedo, o seu “desmentido”, ao ministro Fux, sobre um tema que já estava fazendo a curva para sair da pauta. Todos nós agora sabemos como o golpe foi urdido e não há álcool 70% que mate o vírus da conspiração que contaminou as mãos dos seus participantes.

O que, de fato, o senhor foi fazer no gabinete do presidente do STF foi erguer a bandeira branca, para evitar o que estava gritando na sociedade. Vocês estavam tentando atropelar as instituições, engolir o STF e passar o trator com tudo. O recuo foi estratégico. A derrota, deliciosa. Resta saber se os senhores vão continuar sustentando e comportando de forma coerente, de modo a demonstrar que: 1 – não participaram da redação do general Villas Boas; 2 – que vão se comportar dentro dos limites da Constituição de 88, que vocês odeiam, porque nasceu com ampla participação da sociedade, mas que juraram respeitar. Agora, nos resta ouvir os nobres deputados.

O conhecimento liberta. Saiba mais.