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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Jesus de Nazaré não foi à "Marcha para Jesus". Artigo de Juan Arias, do jornal El Pais




Jesus não foi à Marcha para Jesus

Onde estaria Jesus na quinta-feira, a quem quiseram coroar como rei dos puros e dos satisfeitos?




Segue artigo de Juan Arias - Fonte: El Pais

Bastaria dar uma olhada em alguns dos feitos e ditos de Jesus da forma como aparecem na Bíblia para imaginar que, se estivesse aqui, teria fugido da apoteótica marcha da quinta-feira realizada em sua homenagem.
Teria fugido para se encontrar, na periferia da cidade, com a caravana de excluídos pelos evangélicos fundamentalistas, todos os diferentes e perseguidos pelos poderes conservadores, aqueles com os quais Jesus se entendia melhor do que com os sacerdotes e doutores do Templo.
A Marcha para Jesus tinha como título “Exaltando o Rei dos Reis”, e nela ouviram-se gritos, entre outros, contra a prostituição, as drogas e a novas famílias formadas por gays e lésbicas.

Brasil merece ser visto dentro e fora de suas fronteiras como um país tolerante e moderno sem essas obsessões contra os que praticam diferentes sexualidades
Na grande marcha para Jesus foram ouvidos os ecos da intolerância e indignação contra a liberadora publicidade da empresa O Boticário, na qual casais de homens e casais de mulheres trocam presentes com naturalidade e afeto e que alguns evangélicos tentaram obstruir legalmente.
A Bíblia está, entretanto, coalhada de histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo, como os casos das mulheres Rute e Noemi, ou Davi e Jônatas. E até de Jesus com o discípulo João, que os evangelhos apresentam como um caso especial de amor. João era para Jesus o “amado” e “preferido”. E os apóstolos beijavam-se entre eles.
O pastor Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, anunciou que as imagens da Marcha para Jesus serão levadas a 170 países. Seu desejo é que Brasil não seja visto no exterior, entre outras coisas, como “o país das prostitutas”.
Na verdade, como o Brasil merece ser visto dentro e fora de suas fronteiras é como um país tolerante e moderno sem essas obsessões contra os que praticam diferentes sexualidades, que continuam sendo mortos, ou contra as prostitutas, as quais Jesus amava e defendia contra a hipocrisia dos fariseus, chegando a dizer que Deus as preferia a eles.
Não como um país que ainda pune como crime a liberdade da mulher de decidir sobre o fruto de seu ventre se assim exigir sua consciência.
Nem um país hipócrita sobre o consumo de drogas ou que ainda não foi capaz de legalizar a legitimidade de novas formas de famílias, querendo, como querem fazer algumas lideranças evangélicas, impor a toda a sociedade um só tipo de família tradicional com ações ditatoriais que lembram a trágica e assustadora posição política das chamadas repúblicas islâmicas.
Como oportunamente escreveu neste jornal minha colega Carla Jiménez, o que a democracia brasileira conquistada com tantas lutas e mortes não merece é que “a hipocrisia possa dominar o dia a dia cotidiano do país”.
O Brasil sempre foi visto por nós estrangeiros como um país acolhedor e tolerante em matéria de fé e costumes. Hoje é triste e preocupante que venham justamente dos templos os gritos de guerra contra os diferentes, contradizendo Isaías que profetizava a chegada de um Messias, não discriminador e intolerante, mas que abraçaria todas as raças e povos com suas próprias identidades: “Minha casa será chamada de casa de oração para todos os povos” (Is. 56).
Jesus teria fugido da marcha de quinta que pretendia apresenta-lo e consagrá-lo como “Rei dos Reis”, já que durante sua vida havia feito o mesmo quando a multidão, em busca de milagres, quis fazê-lo rei. O evangelista João conta o ocorrido: “As pessoas, ao verem o milagre feito por Jesus (o da multiplicação dos pães) dizia: 'Esse é o profeta que deve vir ao mundo'. E Jesus, percebendo que queriam levá-lo para consagrá-lo rei, retirou-se sozinho ao monte”.
Jesus nunca buscou o poder. Não o temia, mas também não o amava.
Como em vida, se os evangélicos desejassem coroá-lo novamente como rei dos reis, Jesus somente aceitaria sê-lo daqueles que alguns dos pastores de suas igrejas discriminam e humilham.
Se existe algo que é revelado com clareza pelos textos sagrados é que Jesus não suportava a hipocrisia dos homens da Igreja que se acreditavam na época, como muitos pastores e bispos, donos da verdade e até da vida e dos sentimentos das pessoas.
Em uma Marcha em homenagem a Jesus, melhor do que gritar contra as prostitutas, o aborto e contra a homossexualidade, ele seguramente teria preferido ler nos cartazes e palavras de ordem algumas frases de seu famoso discurso contra a hipocrisia, reunido pelo evangelista Mateus (23, 1 – 39), como essas:
- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus hipócritas que limpais por fora o copo e o prato, mas por dentro estais cheios de ganância e cobiça!”.
- “Ai de vós que por fora pareceis justos diante dos homens, mas por dentro estais cheios de crimes!”.
- “Ai de vós, mestres da lei e fariseus, que descuidais do mais importante da lei como a justiça e a misericórdia”.
Uma das grandes afirmações de Jesus, na qual se inspiraram todas as igrejas cristãs, era a que dizia: “Quero misericórdia e não sacrifícios”.
Os teólogos da libertação, primeiro condenados pelo Vaticano e em fase de reabilitação pelo papa Francisco, sempre afirmaram que a grande revolução do Crucificado foi ter desviado o eixo da fé dos ritos à defesa da vida e da liberdade, do altar às ruas. E nas ruas, os preferidos daquele rei sem coroa e sem casa sempre foram os que ainda hoje continuam sendo os excluídos da sociedade.
Onde deveria estar Jesus na quinta-feira durante a marcha que quis colocá-lo de novo a coroa do rei dos bem-pensantes, os puros e os satisfeitos?

O caso fundamentalismo hipócrita X O Boticário saiu no El Pais



ANÁLISE

Vamos tirar a hipocrisia do armário

Uma pena que seja uma empresa, e não lideranças políticas, a tomar a dianteira numa briga contra o preconceito homofóbico


texto de Carla Jiménes - El País
   A ousadia do Boticário parece ser naturalizar num comercial algo que é natural de fato. Gays votam, trabalham e são consumidores - e se perfumam, até com produtos da Boticário! - , por isso podem e devem se ver reconhecidos como seres completos numa propaganda. Algo, inclusive, que ajuda a combater a intolerância que hoje custa vidas de homossexuais inocentes, atacados por quem discorda do que é diferente.

Até pouco tempo, a sociedade brasileira era vista como referência no que diz respeito aos costumes por seus vizinhos na América Latina. O divórcio, por exemplo, promulgado no Brasil em 1976, só veio a ser aceito juridicamente no Chile, em 2006. Nos últimos anos, esse mérito brasileiro de encampar tendências tem dado um passo atrás. O mesmo Chile tem avançado mais rapidamente na questão gay. A presidenta Bachelet acaba de sancionar a lei da união civil de homossexuais, admitindo que pessoas do mesmo sexo constituem uma família.
O Brasil, por outro lado, embora aceite a união civil por causa de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, não tem uma legislação sobre o tema. A fragilidade legal da situação permite a existência de um projeto de lei sobre o Estatuto da Família, que reconheceria apenas casais formados por um homem e uma mulher e ameace o que já foi conquistado. O debate não é só chato, mas começa a ficar perigoso. Qual seria a próxima investida dessa onda ultraconservadora? A hipocrisia não pode pautar o cotidiano do país.
Por isso, tomar posição em momentos como este é importante para não retroceder. A revista Exame, uma das mais respeitadas no Brasil, soltou um edição, um mês atrás, com uma capa intitulada “Chefe, sou gay”. A reportagem de várias páginas trazia o relato de executivos em cargos de destaque falando abertamente sobre sua escolha afetiva por parceiros do mesmo sexo, em seus respectivos empregos. O assunto, na verdade, já é normalizado no mundo corporativo, que há anos estende o benefício dos planos de saúde, por exemplo, para cônjuges de casais homossexuais. Mas é importante que um meio de comunicação provoque o debate, para aumentar a sua exposição.
É uma pena que uma empresa, como O Boticário, esteja peitando a conversa, em vez de lideranças políticas. No meio jornalístico, todos sabem quem são os políticos homossexuais, que preferem ficar no armário por temer perder votos. Isso num mundo onde já se elegem a cargos públicos políticos que tomam essa bandeira. É o caso da pequena Slupk, na Polônia, que elegeu seu primeiro prefeito gay, Robert Biedron, no ano passado, ou do premiê de Luxemburgo, Xavier Bettel, que se casou com seu companheiro fazendo uso da lei que ele mesmo assinou.
Pergunto-me se o país é tão conservador de fato, ou se o marketing do conservadorismo é mais eficiente – por isso o medo de enfrentá-lo. Quando leio reações de religiosos ao assunto, me vem à mente o Papa Francisco, que está voltando às origens da Igreja para falar mais de perto a língua do povo. “Quem sou eu para julgá-los?”, disse ele quando perguntado sobre os homossexuais. Vira e mexe volta ao assunto, provocando a reflexão. “Deus não tem medo de novidades e nos leva a caminhos imprevistos”, disse Francisco durante o Sínodo de Bispos em outubro do ano passado. É a sensatez que está em falta, e não regras para dizer quem deve ou não deve ser retratado num comercial de TV.